Dossiê Stan Lee - três visões sobre "O Cara"

Dossiê Stan Lee - três visões sobre "O Cara"

Stan "The Man" Lee se foi. Todo leitor de quadrinhos que se preze sabia que esse dia se avizinhava. Quando penso na extraordinária influência que sua sombra exerce sobra a cultura contemporânea, lembro de uma frase de Jack White, da findada banda de rock americana The White Stripes, comentando o fato de que seu sucesso Seven Nation Army tenha se tornado hino de torcidas em estádios de futebol do mundo inteiro. Não sei bem se isso é apócrifo, mas White, fã de blues rural e música folk americana, teria dito, sobre o fato de as pessoas não saberem mais a autoria da canção: "isso é o máximo que um artista pode almejar. Quando não se sabe mais quem criou as coisas, é porque elas efetivamente se transformaram em folclore." 

Ora, quanto aos heróis Marvel, sabe-se bem, hoje em dia, ao menos quem foi um de seus criadores. Falo de Stan Lee. Porém, isto é assunto para infindáveis debates: o fato de Kirby, Ditko e outros não receberem o devido credenciamento (e, em vida, não terem recebido o mesmo retorno financeiro) pelas criações Marvel é motivo suficiente para, no mínimo, se questionar o status de semideus assumido pelo velho "The Man" nas últimas décadas, impulsionadas pelo astronômico sucesso dos filmes de super-heróis, capazes de revolucionar a indústria do cinema em si (para o bem ou para o mal).
Porém, enfatizo a frase de Jack White no sentido de que, mesmo em relação a Lee, seus super-heróis ultrapassam qualquer engajamento em mídia, editora, história dos quadrinhos ou quaisquer autores que sejam. De uma criança de quatro anos até um quarentão militarista cafona, gerações "cantam" os heróis Marvel na vida cotidiana (como se canta Seven Nation Army nos estádios) sem saberem lhufas de quadrinhos, sobre a quase falência da Marvel no período imediatamente anterior a estas criações, à trajetória de Stan Lee como roteirista, manager e editor, sobre o marvel way, sobre Jack Kirby, John Romita, John Buscema, Marie Severin, Steve Ditko e tantos outros. Cantam estes heróis porque um inconsciente óptico lhes diz que os cante, simples assim. De fato, é a Valhalla da criação popular.

Este "dossiê" da Raio Laser apresenta três textos dos nossos escribas mais engajados (não de maneira acrítica) no universos dos quadrinhos de super-heróis. Pessoas que gastaram quase tantas horas lendo estes gibis quanto dormindo ou penteando os cabelos, escovando os dentes. Márcio Júnior põe o dedo na ferida e procura sublimar a eterna questão a respeito de Lee ser um herói ou um vilão dos quadrinhos. Marcos Maciel de Almeida realiza uma muito bem-vinda comparação com os Beatles. E Lima Neto analisa, com a categoria de sempre, a primeira edição do Quarteto Fantástico. Quanto a mim, além desta introdução, você pode ler o porquê de eu considerar o Hulk a obra-prima de Lee/Kirby na ZIP, minha coluna no Metrópoles. Excels... hmm... deixa pra lá. Acho que isso já foi dito muitas vezes.

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FIQ parte 2 – Entrevistas – Mulheres que arrebentam: Claudia Ahlering e Janaina de Luna

Mais alguns dos bate-papos que tivemos no FIQ 2018, desta vez só com mulheres que fazem a diferença no mundo dos quadrinhos. 

por Marcos Maciel de Almeida

Claudia Ahlering

Claudia Ahlering é desenhista de Ghetto Brother, escrita por seu compatriota alemão Julian Voloj. O quadrinho narra a trajetória de Benjy Melendez, líder de uma das maiores gangues do Bronx nos meados dos anos 70. A história de Benjy tem fortes conexões com aquela contada no melhor filme já feito pela humanidade, Warriors – Os Selvagens da Noite (1979), de Walter Hill. (MMA)

Raio Laser: Você mencionou em entrevistas anteriores que não teve muita participação na elaboração do roteiro de Ghetto Brother. Eu gostaria de saber um pouco de sua experiência como leitora dessa graphic novel. Em minha experiência particular, achei a história da revista surpreendente, ao misturar violência, religião e hip-hop. Gostaria de saber se você também se surpreendeu com o desenvolvimento da HQ. 

Claudia Ahlering: Não foi algo tão surpreendente o elemento religioso, porque minha visão sobre a história compreende uma multiplicidade de temas, ou seja, as gangues, o hip-hop e a identidade cultural judaica. Para o autor da revista, Julian Voloj, todos estes temas são muito importantes, especialmente porque ele é judeu. Inclusive, ele escreveu um novo quadrinho que também enfocará o aspecto religioso.

A questão religiosa é bastante preciosa para o povo alemão, e isso inclui temas como a ocupação do Bronx por imigrantes judeus.

Essa abordagem religiosa interessa muito mais para os alemães que a cultura das gangues. E esse também é meu caso. A questão da identidade cultural judaica é bastante cara para mim, em razão de sua proximidade com a minha cultura e isso não ocorre com a cultura de gangues, que já é algo mais distante. Apesar disso, achei toda a experiência bastante enriquecedora: contar uma história de gangues e poder puxar um fio inesperado ligado à questão religiosa. 

Raio Laser: Você foi criada na Alemanha. Qual a sua percepção sobre o fato de que jovens americanos tendam a ser mais violentos – e aí eu incluiria também a questão dos massacres em escolas –, que os jovens europeus, sobre os quais há menos relatos referentes a condutas agressivas? Baseada em sua criação como jovem europeia, como você vê essa questão?

Claudia Ahlering: Na Alemanha, as leis para aquisição de armas são muito mais rigorosas que nos Estados Unidos. Lá, as pessoas simplesmente não pensam em se armar. Elas ainda têm o trauma da Segunda Guerra. Há um sentimento do tipo: “Aquilo foi muito horrível. É melhor que não tenhamos armas”. A mentalidade geral é essa. As pessoas não acham que seja importante ter uma arma em casa para se proteger. Entretanto, isso está mudando um pouco, com a questão do terrorismo. Ainda assim, persiste a mentalidade de que vivemos num lugar no qual não precisamos andar armados. 

Raio Laser: Para mim, o grande poder de Ghetto Brother está relacionado à sua faceta multitemática. Na sua opinião, qual o aspecto mais impactante dessa HQ? 

Claudia Ahlering: O que mais me impressionou foi a questão da rivalidade entre as gangues de jovens. Nos lugares em que morei, tanto em Berlim, como em Hamburgo, que é minha cidade natal, essa questão da rivalidade juvenil é algo que ficou no passado, não é tão forte como foi em Nova York. Então, para mim, foi muito impactante, ao fazer essa história, tentar entender porque surgiam essas rivalidades. Eu tenho a impressão que o Julian escreveu de uma forma que fosse divertida e legal de ler, mas queria chamar a atenção para a questão dessa rivalidade e violência entre jovens. Ele queria fazer as pessoas pensarem, enquanto estivessem se divertindo. Era como se dissesse: “Olha, isso pode acontecer, mas não é legal”. 

Raio Laser: Sempre fui grande fã de filmes de gangues, como The Warriors (EUA, 1979) e The Wanderers (EUA, 1979). Acredito que, no Brasil e na América Latina, muitas pessoas também tenham fascínio por essa temática. De modo similar, na Itália há grande admiração pelo Velho Oeste. Nesse sentido, quais seriam as principais influências culturais midiáticas para a juventude alemã?

Claudia Ahlering: The Warriors foi influente na Alemanha. Em geral, os jovens alemães sofrem bastante influência da cultura norte-americana, já que no pós II Guerra Mundial nosso país recebeu muita ajuda financeira dos EUA. Ainda assim, persistem muitas subculturas que são tipicamente alemãs, tais como a ocupação cultural de moradias, os movimentos culturais de resistência e as lutas sociais dos anos 80. Para nós, o fenômeno da cultura de gangues é algo muito distante, percebido como de procedência norte-americana, não chegando a influenciar tanto nossa cultura. Os jovens alemães veem a questão do Bronx nos anos 70 com um misto de nostalgia e curiosidade, para saber mais sobre o passado, mas não é algo que chega a nos influenciar. 

Warriors, Os Selvagens da Noite (1979)

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Janaina de Luna

Janaina de Luna é editora-chefe e proprietária da Mino Editora. Criada em 2014, a empresa ganhou destaque em razão da alta qualidade gráfica e artística de seus lançamentos. Indo na contramão do mercado na época de seu surgimento, a Mino apostou em publicações de autores nacionais em formato luxuoso, obtendo grande sucesso. Com um catálogo bastante variado, que passa por queridinhos dos comics mundiais como Jeff Lemire e autores de forte pegada autoral/independente como Seth, a editora conseguiu espaço cativo no coração dos fãs da nona arte no Brasil. (MMA)

Raio Laser: Acredita que as editoras de quadrinhos no Brasil compitam entre si por um público que é fixo ou cada uma teria o próprio espaço delimitado? O lançamento de uma editora influencia o da outra, tendo em consideração que os leitores têm orçamento limitado?

Janaina de Luna: Eu acho que sim. Não necessariamente existe uma competição direta, mas achar que não existe uma competição é meio ingenuidade, porque o dinheiro das pessoas é finito. Então as pessoas são obrigadas a fazer opções sim. Mas eu acho que, mais do que competir, as editoras no Brasil têm o papel de trazer mais gente para o quadrinho nacional. Então, na verdade, quando há mais editoras, eu acredito que isso ajude a Mino a vender mais, que é o oposto do que ocorreria num cenário com menos editoras. 

Raio Laser:  Como fazer para ampliar esse público restrito, que às vezes deixa de comprar Mino para comprar um título de outra editora? Como tentar angariar novos fãs para as HQs?

Janaina de Luna: Eu não fico pensando muito assim. Todos falam em estratégias para fazer com que as pessoas leiam mais quadrinhos e etc... Eu sempre fico pensando que o que eu realmente posso fazer – de verdade – é lançar alguns títulos. Nada é mais efetivo que... Claro. Tudo seria mais efetivo se houvesse uma política educacional melhor, uma renda melhor... Mas isso não está na minha mão. Mas das coisas que eu posso fazer, eu sempre penso que fazer quadrinhos melhores, fazer meu trabalho melhor é a única forma efetiva de conseguir trazer mais público para a editora. Não fico pensando muito no que eu vou fazer para que o leitor compre da minha editora. A gente pensa na Mino e a gente pensa em como fazer a Mino crescer cada vez mais. 

A Vida É Boa Se Você Não Fraquejar, de Seth

Raio Laser:  Pegando esse gancho: é muito comum ouvir dizer que quadrinho não dá dinheiro no Brasil. Quanto do retorno da Mino é financeiro e quanto é de satisfação pessoal?

Janaina de Luna: Quadrinho dá muito pouco dinheiro. Principalmente se você quiser fazer as coisas da maneira certa. Eu já tive outros empregos, em outros ramos, e, se eu contasse como é feito, as porcentagens com as quais nós trabalhamos, o jeito que o mercado se organiza, qualquer ex-parceiro ou colega meu antigo iria achar que eu estou maluca. Fazer livro é muito difícil, fazer quadrinho é mais difícil ainda.

No cenário político em que vivemos não parece que vá ficar mais fácil, pelo contrário. Toda a esperança que a gente teve nesse curto período de um governo mais voltado para o social – não vou nem dizer “de esquerda”, mas de “centro-esquerda”-, a gente está vendo se desmantelar de modo muito fácil e eu não consigo ver perspectivas de melhora. Mas isso não quer dizer que eu não vá continuar lutando.

Agora é muito pouco dinheiro que se ganha com quadrinhos. Mas isso não nos impede de remunerar de forma decente. Quando eu falo isso, eu quero dizer: dentro do apurado para os autores e todas as pessoas envolvidas. E eu acho que o autor de quadrinhos ganha muito muito pouco, porque as tiragens são muito pequenas e eu acho que o trabalho é muito grande. É que às vezes eu vejo esse discurso de que não há dinheiro como uma desculpa para não se remunerar autor e colaborador e etc. Existe algum dinheiro no quadrinho, mas com certeza quem está nessa por dinheiro está no lugar errado. É engraçado. A gente passa a vida falando de quadrinho, a gente fica o fim de semana em eventos de quadrinhos, a gente dorme falando em quadrinhos, eu sou casada com um quadrinista e nas férias a gente vai para eventos de quadrinhos a passeio. É aquilo. Você faz isso, porque não consegue fazer outra coisa. 

Raio Laser:  Mas você teria algum deadline do tipo: “se daqui a 5 anos a coisa não virar, aí vou partir para outra coisa” ou a paixão fala mais alto e você continuará independente de qualquer outro fator?

Janaina de Luna: Eu não tenho esse deadline, porque acho que isso é uma ilusão. Não acho que daqui a 4 anos a coisa vai virar. Eu não acho que o problema é que a Mino não virou. Eu acho que – realmente – do jeito que o mercado está organizado, não é uma estrutura que nasceu para dar lucro do jeito que a gente imagina, do jeito que a gente quer trabalhar. Não é um lucro condizente com o nível de trabalho e de especialização que a gente tem. Mas a gente faz a Mino por amor. A Mino é autossustentável. Ninguém mais precisa colocar dinheiro na Mino. Todos os autores da Mino são pagos e todas as contas são pagas, às vezes há alguns atrasos claro, mas enfim... No final está tudo certo. E a gente também tem outras fontes de renda que mantêm nosso padrão de vida. Mas não é um projeto ganhar dinheiro daqui a 3 anos. Não é nosso objetivo. A gente quer crescer e ganhar dinheiro à medida que a operação fique maior, mas não é uma coisa que a gente pense que “ainda não está dando dinheiro”. O mercado é assim. O mercado livreiro é difícil. Mas eu – que sou a dona da Mino – trabalho em outras frentes também, tenho outros projetos.

Então não é que eu espere que a Mino daqui a 3 anos esteja dando dinheiro. Eu não tenho esse tipo de esperança e nem de ilusão. E não é um objetivo também.

Gideon Falls, de Jeff Lemire e Andrea Sorrentino. Lançamento da Mino previsto para outubro/2018

Raio Laser:  Como você enxerga a Mino no futuro? Daqui a uns 10 anos por exemplo? Com mais publicações ou talvez publicando um autor com o qual você sempre sonhou, mas que não conseguiu em razão do custo do copyright? Como você enxerga o futuro ideal para a editora?

Janaina de Luna: Eu não consigo fazer um plano de 10 anos. Eu não consigo enxergar, porque eu já tive vários outros negócios e já trabalhei com várias outras coisas e acredito que tudo tenha começo, meio e fim. Não sei muito como a Mino vai ser. Eu queria que as coisas fossem mais fáceis no sentido de que houvesse mais incentivo e um modo de produção mais favorável. Isso é o que eu gostaria. Mas isso não depende muito do meu trabalho. A Mino está onde eu gostaria que ela estivesse agora. Não tem nenhum autor que eu gostaria muito de lançar, que eu não tenha lançado ainda. Quer dizer, com exceção do Gipi (Gian Alfonso Pacinotti, autor de A Terra dos Filhos (Veneta, 2018)) que, quando eu ia negociar, descobri no mesmo dia que já havia fechado com a Editora Veneta. Mas isso é uma felicidade, porque a Veneta está lançando e tudo bem. 

Eu tenho uma sorte incrível de estar com todo mundo com quem eu queria trabalhar eu estou – de alguma forma – trabalhando. E é uma felicidade quando vai surgindo gente nova.

Então daqui a 10 anos eu queria que a Mino não tivesse ficado para trás. É minha única preocupação. Quando eu falo “para trás” não é em termos de poder ou dinheiro. Não. Eu queria que nós fôssemos atuais como a Mino é hoje.

Hoje é uma editora que está antenada com o que está acontecendo no universo dos quadrinhos. Quando eu falo isso, não é só publicar coisa nova e moderna. É também fazer resgate. A Mino olha para o que está acontecendo com o quadrinho. E o meu desejo – se a Mino ainda existir daqui a 10 anos –  é que a gente tenha essa mesma vontade e esse mesmo olhar para o quadrinho nacional e mundial que a gente tem agora. 

Raio Laser:  A Mino é reconhecida como uma editora de elevada qualidade gráfica (impressão, capa, papel e etc). Você está plenamente satisfeita com os livros da Mino enquanto produto físico ou ainda sente falta de algo que poderia fazer e não faz em razão de medidas como redução de custos?

Os Morcegos-Cérebros de Vênus e Outras Histórias (Mino, 2017)

Janaina de Luna: Bem, quem me conhece sabe – em quinze minutos – que eu nunca vou estar satisfeita com nada... rs. Porque eu sou totalmente workaholic, louca e desesperada.. rs. Eu tenho orgulho do que eu faço, do trabalho que eu fiz, mas eu não estou nem perto de estar satisfeita. Eu comecei sem saber fazer quase nada e agora eu sei quase nada menos um pouquinho... rs. Então eu acho que ainda tem muito chão pela frente. Eu acho que estou só começando, então eu acho que todo livro que sai eu queria ter mudado alguma coisa... rs. Estou longe de estar satisfeita, mas estou orgulhosa. Você consegue entender que são duas coisas diferentes? Eu tenho orgulho. Acho que o trabalho é bom, mas estou longe de estar satisfeita. O dia em que estiver satisfeita, eu morro... rs. Aí eu desisto. Aí eu fecho a Mino e vou aprender a fazer outras coisas. 

Raio Laser: Qual o(a) principal dificuldade/obstáculo/desafio no mercado editorial brasileiro atualmente para editoras do porte da Mino?

Janaina de Luna: Tem dois grandes desafios particularmente difíceis. O primeiro é encontrar autores no Brasil com obras consistentes em quadrinhos mais extensos. Às vezes eu sinto falta disso sim. Mas eu entendo completamente que nosso mercado autoral é algo muito viciante. Mas eu acho que estou me surpreendendo bem nesses últimos tempos, quer dizer, nos últimos meses mesmo, sabe? Eu acho que tem um pessoal que está aí fazendo um material há poucos anos mais direcionado para o quadrinho curto. E editorialmente para a gente é muito difícil colocar coisas muito curtas. E por isso fica todo mundo brigando pelos mesmos autores.

Não porque não haja gente fazendo coisas incríveis, mas é difícil encontrar um Thiago Souto que faça um quadrinho de 200 páginas, sabe? É que demora um tempo para você construir um autor.

Não é do dia para a noite. Não é só o cara falar: “Eu vou começar a fazer quadrinhos hoje!”. O Thiago que neguinho aponta que é um cara novo, tá fazendo quadrinhos há sete anos. Então, demora. Mas eu sinto que nós estamos melhorando muito nesse aspecto. Tem um pessoal com um trabalho muito bom, mas eu quero que eles estejam prontos para fazer obras mais extensas.

O outro desafio que eu acho é a falta de crédito. A gente trabalha – e isso ninguém fala – num sistema muito maluco que é o seguinte: eu vou comprar os direitos e eles são pagos em dólar, o que é já um problema. E aí demora três meses para a gente fazer o livro e eu já tenho de pagar a gráfica. E aí o livro demora mais um mês para chegar na loja. E a loja depois que vende leva uns três meses para me pagar. Então entre o tempo que eu comecei a gastar para o tempo em que eu comecei a receber, lá se vão uns 7/8 meses. E você precisa ter dinheiro para financiar essa operação de 8 meses. E a gente não tem linha de crédito para publicação no governo. E aí e difícil, porque nossa margem de lucro é muito pequena. 

E eu falo isso, porque as pessoas às vezes se esquecem que esse esquema de editora é um negócio e que nós temos que nos sustentar. As pessoas pensam na paixão, no livro... Mas eu tenho que ter dinheiro para me sustentar. E a gente não tem uma linha de crédito que permita isso de uma forma mais saudável. A gente acaba tendo que pagar juros que às vezes estão embutidos nos prazos de gráfica e etc, que acabam corroendo a pequena margem de lucro que temos. Então, depois que as lojas me compram – e hoje é praticamente só a Amazon – demora 90 dias para pagar um livro que eu já paguei os direitos uns 4/5 meses antes. Já paguei o tradutor, já paguei tudo. Essa falta de fôlego financeiro não existe. No próprio BNDES, que poderia ajudar com isso, as linhas de crédito estão praticamente canceladas. E aí é difícil, porque nós somos pequenos. Esse tipo de problema – que ninguém fala – é um dos principais tipos de problema no mercado editorial. 

O Formigueiro (Mino, 2017)

Raio Laser:  É muito comum que os donos de editora digam que não existam muitos critérios para a montagem do catálogo. Fala-se muito que “o quadrinho deve ser bom”. A Mino também segue essa linha ou prefere privilegiar uma estratégia específica como, por exemplo, de divulgar autores independentes? Qual o critério utilizado na hora de escolher o catálogo da editora?

Janaina de Luna: Cara, eu entendo quando a pessoa fala “quadrinho bom”. Às vezes pode ser chato e bobo falar “quadrinho bom”. Eu acho lógico, porque... eu ia falar uma besteira. Eu ia falar que todo mundo quer lançar quadrinho bom, mas as pessoas querem lançar quadrinho que vende. Não tem muito mistério. A gente sabe que tem um pessoal aí que lança umas coisas que a gente fala: “Jesus!”, mas que vendem. Há casos de editoras que são pagas para lançar determinado material. A Mino não é paga para vender e isso já é um diferencial. 

Eu lanço o que eu gosto. E mais do que isso: eu já não estou ficando rica e se eu não lançar o que eu gosto, aí lascou! Rs. A Mino tem interesse em trabalhar o autor, então eu gosto de quadrinhos de alguém que esteja pensando a linguagem. E quando eu falo a linguagem, não é necessariamente a linguagem formal, dos cânones. Eu me refiro a ter alguma coisa a mais, alguma coisa importante, alguma coisa que precisa ser discutida. Eu quero lançar coisas que representem o melhor de um nicho, de um momento. Coisas que sejam como a Coleção Incendiária (Coletâneas da Mino dedicadas a temas e épocas específicos dos quadrinhos. Até o momento já saíram dois álbuns:

Os Morcegos-Cérebros de Vênus e Outras Histórias; e O que havia na caixa da Sam Dora?, ambos lançados em 2017), que registram o melhor que estava sendo feito naquela hora. Eu acho que O Formigueiro de Michael Deforge (lançado pela Mino em 2017) é uma das melhores coisas que foram feitas no quadrinho underground americano. Eu acho que o Seth (autor de A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino, 2018) e Wimbledon Green (A Bolha, 2014)) é um dos expoentes das HQs. Então, a gente tenta fazer um panorama do melhor que existe em várias... Quando eu quero lançar algo do Diego Gerlach, eu faço isso porque acho que ele é o melhor talvez nesse tipo de quadrinho que ele faz. O que a gente quer é ter um catálogo que seja o melhor. Shiko (autor de Lavagem (Mino, 2015) e Azul Indiferente do Céu (Mino, 2014)), para mim, é um dos melhores autores no que é feito nacionalmente no quadrinho de gênero. Porque a gente tem um Marcelo D’Salete (autor de Cumbe (Veneta, 2014) e Angola Janga (Veneta, 2017) e muita gente boa. Mas quem está fazendo quadrinho de gênero? Porque o Shiko faz quadrinho de gênero. A gente fez Lavagem, que é um terror. Estamos lançando dele Três Buracos, que é um bangue bangue no sertão. Enfim, são quadrinhos de gênero. E quem está fazendo quadrinho de gênero que seja tão melhor que o Shiko? Não tem. 

Então temos essa preocupação de fazer um retrato do melhor de cada coisa. Isso, porque ainda existe muito preconceito no quadrinho, contra super-herói, por exemplo. Tem gente que acha que super-herói é ruim e bom mesmo é – sei lá – só o quadrinho alternativo. E isso não se restringe apenas ao quadrinhos. Tipo: quem lê Pedro Franz (autor de Suburbia (Hunter Books, 2012)) acha que Jeff Lemire é uma porcaria, porque saiu na Image ou porque fez o Arqueiro Verde. E é aquela coisa: quem leu Pedro Franz nunca nem leu o Arqueiro Verde, e vice-versa. 

Eu sou - de verdade - apaixonada por quadrinhos. Então, para mim, eu me empolgo lendo a Coleção Incendiária e Jack Kirby. E também me empolgo lendo Jason (autor de Sshhhh! (Mino, 2017)). Eu acho que precisa ter essa mistura. É lógico. Isso sou eu como editora. Cada um escolhe o que quer ler. Então, estou trabalhando num projeto agora que envolve autores nacionais, como o Mike Deodato, e está ficando divertidíssimo. E tem gente que tem preconceito, porque o cara faz super-heróis.  Eu acho isso uma bobeira. Quando a gente resolveu trazer o Gideon Falls, da Image, perguntaram: “Mas, pô, você vai lançar Image?”. Eu falei: “Cara, mas a Image...? A Image é foda!”

A Image mudou muita coisa no mercado, tá ligado? Do mesmo jeito que a Fantagraphics é foda. Eu quero lançar o melhor da Fantagraphics, o melhor da Image... Se eu pudesse, eu pegava o melhor da DC, o melhor da Marvel, mas infelizmente... rs. É aquela coisa: eu vou ter a chance de lançar o Mignola e não vou lançar o Mignola? Mignola é o melhor no que ele faz. E o Richard Corben (autor de Ragemoor (Mino, 2018) e Espírito dos Mortos (2017))? Já temos dois e ainda vamos lançar mais um. Cara, eu quero lançar quadrinho de gênero. Para mim, o Corben faz parte do que se faz de melhor no quadrinho de gênero no mundo. Então é isso. Queremos fazer um panorama do que é bom no quadrinho mundial. 

Raio Laser:  Última pergunta: Em que momento você sente mais prazer em ser editora da Mino? É na hora que você vê o livro pronto? Ou é na hora que você está escolhendo qual será o próximo lançamento? O que te dá mais satisfação?

Janaina de Luna: Cara, o livro pronto para mim não dá prazer. Quer dizer, não é que não dá prazer, mas é que eu nem dou muita importância. Para mim, o livro pronto dá um desespero, pela obrigação de verificar se não há nenhum erro ali. Depois que o livro já está pronto, o meu trabalho já acabou. O que me dá mais prazer é trabalhar com os autores. É sentar com o Shiko para ficar a noite inteira discutindo sobre um personagem que pegou um rumo diferente. Por exemplo, no Três Buracos, a história ia ter um casal (hetero) e o Shiko mudou para que o casal fosse homoafetivo, com duas meninas. E a gente fica o dia inteiro discutindo por que isso, por que aquilo. Isso me dá prazer. Pensar: “Pô, vou lançar o Jason. Qual vai ser o formato?”. Isso me dá prazer. A parte criativa me dá prazer. O resto é só parte do trabalho. Depois que o livro foi para a gráfica, já não tem mais nenhuma importância.

Raio Laser:  Isso me lembra determinados integrantes da Raio Laser, que depois de receberem as compras de gibis, nem chegam abri-los e já estão pensando na próxima aquisição...

Janaina de Luna: A gente é doido né?...rs. 

Lavagem (Mino, 2015)

MELHORES QUADRINHOS LIDOS EM 2017 - PARTE 4

Fazendo o levantamento das melhores leituras de 2017, algumas constatações me saltaram aos olhos. A primeira, é que não li pouco – mas li menos do que gostaria. A bem da verdade, se pudesse, passaria o tempo todo lendo. Ou quase.

Ainda que tenha lido em boa quantidade, fiquei longe de equilibrar a razão entre o que adquiri e o que efetivamente consumi. De modo que a pilha segue aumentando de forma doentia. Mantenho a fantasia de que irei ler absolutamente todos os gibis que tenho. Mas a matemática e o tempo são implacáveis e essas questões têm me atormentado mais e mais (vou até comprar uns gibizinhos agora pra aliviar um pouco a ansiedade).

A escolha das leituras também não obedeceu a nenhum critério claramente definido. Tirei o atraso de algumas obras importantes. E perdi tempo com algumas besteiras. A ideia que vai se plasmando em mim é que não sou eu quem escolhe os gibis a serem lidos, são eles que me escolhem – numa equação que envolve acessibilidade (muitas vezes não encontro o que quero ler em determinado momento) e intuição.

Sempre advoguei que a Raio Laser deva ter uma perspectiva atemporal. É consenso entre nós. As listas de melhores não têm a mínima pretensão de cobrir o ano editorial. Isso é papo de assessoria de imprensa jabazeira. Bons quadrinhos nunca terão prazo de validade. Minha surpresa foi perceber que a maioria das HQs que compõem minha lista de melhores foi, coincidentemente, publicada em 2017. O que isso significa? Sei lá.  Por fim, não gosto de estabelecer hierarquia entre as obras. Então, chega de papo furado e vamos à lista. (MJR)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

por Márcio Junior

01 - O MUNDO DE EDENA, Volumes 1 a 6 – Moebius (Nemo, 2013 a 2014): Tenho uma dívida pessoal com a Editora Nemo pelo esforço e qualidade com que preencheram inadmissíveis lacunas do mercado editorial brasileiro. Em edições primorosas, publicaram (ou republicaram) autores de primeira grandeza como Hugo Pratt, Enki Bilal e Jean Giraud, o insuperável Moebius. Após oito álbuns cobrindo diferentes trabalhos do mítico autor francês, foi a vez da espantosa série O Mundo de Edena. Moebius é um artista sem igual. Dentro e fora do mundo das HQs. Entre 1983 e 2001, ao longo de 18 anos – o hiato de uma maioridade –, concebeu os seis livros que narram a epifânica trajetória de Atan e Stel. Por mais improvável que pareça, a série nasceu de uma encomenda feita pela gigante automobilística Citroën. Foi a fagulha necessária para que o autor se lançasse num oceano de profunda criação, sem destino certo ou porto seguro. Guiado unicamente pela liberdade, deu à luz uma obra de infinitas leituras, lidando com temas tão diversos quanto a relação homem/máquina, sexualidade, natureza, mitos criacionais, opressão, sonho, psicanálise, inconsciente, alimentação, magia e, acima de tudo, transformação.  Para Moebius, a vida se dá em constante mutação. E mais que pontos de partida e chegada, o mais importante é o caminho – ele mesmo dinâmico e mutável.

Posto que forma e conteúdo não se dissociam, graficamente O Mundo de Edena nos conduz a infindáveis viagens imagéticas. Nasce de uma busca do artista pela essência do traço, pela negação dos excessos. E mesmo esta busca se transubstancia em tantas outras abordagens visuais ao longo dos álbuns, num constante processo de experimentação que jamais se esgota em si mesmo. Ali, a beleza se materializa e se atualiza de modo sempre novo. Uma obra de arte definitiva.

Realizei uma imersão no Mundo de Edena. Foi, sem sombra de dúvidas, minha mais importante leitura em 2017. Planejei longos textos sobre a obra aqui na Raio Laser. A vida – em constante mutação, como já dito – não permitiu. Fica para outro momento. Mas aquele mundo onírico permanece aberto, à espera de quem se aventure por suas paragens. Faço então um único pedido à Nemo: deixem minha dívida aumentar. Continuem publicando Moebius.

02 - BILLIE HOLIDAY – Muñoz & Sampayo (Mino, 2017) e EL COLMILLO DE LA SERPIENTE – Muñoz & Charyn (Norma, 1999): O argentino José Muñoz é um deus do claro-escuro, um poeta das sombras, um gênio dos quadrinhos. Sua pena cava profundos sulcos no papel, deixando um leito aberto para que o nanquim/sangue/treva possa preenchê-lo, dando forma a obscuras facetas da experiência humana. Não deixa de ser absurdo um artista desta magnitude permanecer praticamente inédito no Brasil. Movida a coragem, a Mino deu sua contribuição para reverter este quadro com a preciosa edição de Billie Holiday – na minha opinião o grande lançamento de 2017 no mercado brasileiro. Outra obra-prima de Muñoz lida ano passado foi El Colmillo de la Serpiente – esta, ainda inédita por estas plagas. Falei sobre os dois livraços aqui.

03 - SILÊNCIO – Didier Comès (Bertrand, 1983): Silêncio, obra icônica do belga Didier Comès, foi um desses acasos fortuitos: numa jogada de pura sorte, o livro veio parar em minhas mãos. Daí para se tornar um dos favoritos (não de 2017, mas de toda a minha vida), foi o prazo de uma leitura. Escrevi sobre ele aqui.

04 - CIDADES ILUSTRADAS - SALVADOR – Marcello Quintanilha (Casa 21, 2005): A tradução gráfica de uma cidade a partir das impressões de um olhar estrangeiro era o mote da coleção Cidade Ilustradas. Quadrinistas nacionais e internacionais eram convidados a viver por cerca de duas semanas em uma cidade brasileira. A partir desta imersão, com grande nível de liberdade oferecido aos artistas, nasciam os livros – invariavelmente ricos e interessantes. David Loyd (São Paulo), Jano (Rio de Janeiro), Fabio Moon & Gabriel Bá (Manaus) e Guazzelli (Florianópolis) foram alguns dos nomes que participaram da coleção. O ponto mais alto, entretanto, viria com a Salvador de Marcello Quintanilha.

A tão decantada capacidade de Quintanilha em captar o tipo comum brasileiro brilha aqui mais que figurino de Ivete em cima de trio elétrico. Seu pendor natural pela originalidade faz com que Cidades Ilustradas: Salvador não seja uma mera compilação de desenhos (espetaculares, como de praxe, em se tratando de Quintanilha). Mais que isso, o livro situa-se num lugar indefinido entre livro ilustrado e história em quadrinhos, expandindo os limites de ambos.  Existe uma narrativa em prosa a percorrer a obra, com saltos e interstícios. Personagens surgem, desaparecem, retornam. As imagens possuem um diálogo com esta narrativa, são atravessadas por ela. E as atravessam. Imagem e texto, um prenhe do outro.

Cidades Ilustradas: Salvador opera então com uma meta-HQ. Por outro lado, a qualidade do texto de Quintanilha é, por si só, notável. O livro é a prova cabal que o autor poderia se dedicar exclusivamente à literatura. Mas não faça isso não, Marcello. Já nos basta a ausência de um Mutarelli. 

05 - NÓIA, UMA HISTÓRIA DE VINGANÇA! – Diego Gerlach (Escória Comix e Vibe Tronxa Comix, 2017): No atual (e riquíssimo) panorama dos quadrinhos brasileiros, o gaúcho Diego Gerlach é – como ele mesmo afirma, em profusa auto-ironia – avis rara. Desenhista de mão cheia e idiossincrático até a medula, tem criado uma obra originalíssima em dezenas de zines espalhados por aí. Ponto para a Escória Comix ao intimar o sujeito a criar Nóia, uma história de vingança! Com sua inconfundível personalidade, Gerlach sintetiza uma vibe moral setentista/oitentista, respaldada em um repertório que abarca o Justiceiro do Ross Andru, Dirty Harry e... Mauricio de Sousa! Nóia, o personagem principal, é um Cebolinha ultra-reaça, com cabelo de maconha e camisa da CBF. A hiper-violência que escorre pelas páginas carregadas de tensão frenética de Gerlach é gratuita apenas a um olhar desatento. Muito do Brasil 2018 está ali. Para mim, isso é que é Graphic MSP.

06 - ÚLCERA VORTEX, Volumes I e II – Victor Bello (Escória Comix, 2017): Outra pedrada da Escória Comix. Em um país sério e honesto, gente como o editor Lobo Ramirez e o quadrinista Victor Bello estariam atrás das grades. Sorte a nossa que estamos no Brasil.

Úlcera Vortex é um delírio da podreira. A imaginação de Victor Bello é irrefreável. Vejo o sujeito como uma espécie de Jack Kirby – só que débil mental e comedor de bosta cagada por pessoas movidas a uma dieta de ácido e Pitú. Obrigado Escória Comix e Úlcera Vortex. Vocês são a única resposta cabível à fofurização que acomete o quadrinho brasileiro.  

07 - CAMALEOA – Watson Portela (HC Comix, sem data, anos 1990): Se a memória da outrora popular tradição do terror no quadrinho brasileiro está se apagando, o que dizer então de nossas HQ eróticas? Quando falamos em sacanagem desenhada, um único nome vem à mente: Carlos Zéfiro. Nada mais injusto. Ao longo de décadas, nossas bancas foram o lar de milhares de gibis dedicados ao auxílio da prática onanista. Muito desse material era de qualidade questionável. Todavia, em períodos de vacas magras, a pornografia era o ganha-pão de legendas como Flavio Colin, Julio Shimamoto e Mozart Couto.

Camaleoa é um registro dos estertores deste mercado. Trata-se de uma pornografic novel (sic) do gigante Watson Portela. Ou melhor, de Helga (roteiro) e Barroso (arte) – afinal, o uso de pseudônimos era frequente no meio, uma vez que os quadrinistas buscavam resguardar sua imagem de “artistas sérios”. Manara, Crepax, Serpieri e quetais são tidos como mestres do erotismo. O Brasil produziu HQs do mesmo nível. Está passando da hora deste material ser resgatado com o devido cuidado. Eu ajudo. Com o maior prazer.

08 - MENSUR – Rafael Coutinho (Quadrinhos na Cia., 2017): Mensur está em tudo que é lista de melhores de 2017. Eu é que não serei blasé a ponto de retirá-lo da minha só por causa disso. Mas também não vou ficar aqui dizendo o quanto essa HQ é das coisas mais incríveis já vistas no quadrinho brasileiro. Periga o Rafa Coutinho ficar blasé...

09 - BLACK HOLE, Volumes 1 e 2 – Charles Burns (Conrad, 2007 e 2008): É sempre difícil encarar a pilha de quadrinhos que aguarda leitura anos a fio – enquanto cresce exponencialmente. Em 2017, um dos títulos com os quais finalmente acertei as contas foi Black Hole, de Charles Burns, ainda em sua primeira edição nacional, pela Conrad. As pilhas que se acumulam por anos dizem muito da nossa patologia. E patologia é um dos temas centrais da mais ambiciosa obra de Charles Burns, já alçada à categoria de clássico. Medo, isolamento, inadequação, sexo... Os dilemas enfrentados por todo ser humano na passagem para a fase a adulta são tratados com bizarra densidade através da perspectiva única de Burns. E como desenha esse desgraçado! Se você ainda não conhece Black Hole, não seja doente como eu. Pare o que está fazendo e corra atrás do livro, agora em edição única pela DarkSide.

10 - OS MORCEGOS-CÉREBRO DE VÊNUS E OUTRAS HISTÓRIAS – Coleção Incendiária, Volume 1 (Mino, 2017): A Mino segue resoluta no objetivo de construir um dos mais brilhantes e diversificados catálogos de quadrinhos no Brasil. Este primeiro volume da Coleção Incendiária – que marca o retorno do editor Lauro Larsen à casa que ajudou a fundar – é prova inconteste do profundo cuidado dedicado às suas publicações. Se é que alguém ainda não sabe, trata-se de uma portentosa compilação de quadrinhos norte-americanos de ficção científica, com um recorte que vai de 1939 a 1954 – ano em que se instaurou o famigerado Comics Code Authority. (Um parêntesis: alguma vez no mundo alguém já citou o Comics Code sem antes precedê-lo do adjetivo “famigerado”?). Ao todo, são 31 HQs que compõem um mais que representativo panorama do período. O material, em domínio público, passou por um monástico processo de restauração pelo designer Carlos Junqueira, idealizador do projeto. A qualidade do preto e branco alcançada na publicação não tem paralelos no mundo. Todavia, há controvérsias em se abrir mão das cores originais – planas e com paleta reduzida. Não foi à toa que Roy Lichtenstein ficou de quatro por elas.  O livro (de design impecável), foi traduzido com categoria pelo demônio Diego Gerlach. Intimidade com quadrinhos bizarros o sujeito tem de sobra - e é uma pena que a revisão não tenha sido mais criteriosa. 

Um certo Dr. Ciro Inácio Marcondes abre os trabalhos com o não menos que excepcional artigo Os intrusos numa era antes da censura. Daí pra frente é deliciar-se com as mirabolantes narrativas de um período cada vez mais distante de nós e assistir diversos nomes (alguns hoje consagrados; outros, injustamente esquecidos) dando seus primeiros passos na arte sequencial – ao mesmo tempo em que faziam com que a própria linguagem se desenvolvesse.

É emocionante ver a insanidade de Basil Wolverton e Fletcher Hanks, a classe de Alex Toth, Joe Kubert e Wally Wood, a originalidade à toda prova de Jack Kirby. Eram autores se estabelecendo num meio absolutamente avesso à autoralidade: o comic book. Pois se nas prestigiosas tiras de jornal o público procurava Alex Raymond, Hal Foster e Milton Caniff (entre tantos outros de elevada reputação à época), no descartável e industrial comic book tudo que a garotada buscava eram histórias completas, de seus personagens ou gêneros favoritos. Para além de nostalgia vintage, Os Morcegos-Cérebro de Vênus são um precioso documento do próprio amadurecimento em curso nos quadrinhos norte-americanos da época. Pena que o famigerado Código de Ética provocou um indesejável desvio de percurso, do qual as HQs se ressentem ainda hoje. 

11 - JACK KIRBY PENCIL AND INKS – Jack Kirby (IDW, 2016): Se estivesse vivo, em 2017 Jack Kirby completaria um século de existência. A data foi comemorada com uma miríade de lançamentos mundo afora. Nada mais justo. Após um final de carreira onde amargou certo ostracismo, desde sua morte, em 1994, a coisa gradativamente mudou de figura. Não tenho estatísticas nas mãos, mas as colocaria no fogo pela afirmação de que nenhum quadrinista norte-americano foi mais estudado, discutido e reverenciado nas últimas duas décadas. Com a mesma segurança, sou capaz de afirmar que Kirby é, em diversos aspectos, o mais influente autor de comics desde sempre. No Brasil, a celebração foi pateticamente tímida. Com milhares e milhares de páginas implorando publicação – muitas delas ainda inéditas no país do golpe – a Panini, a título de exemplo, resumiu-se às duas edições de Super Powers (um trabalho tardio, infantil e sem o vigor pleno do Rei). Jack Kirby Pencil and Inks é uma belíssima edição da IDW. Os primeiros números de Demon, Kamandi e OMAC estão reunidos sob uma excelente proposta editorial. Cada página das HQs é apresentada lado a lado: à esquerda, apenas o lápis de Kirby (que àquela época fotocopiava tudo que produzia antes de enviar os originais à editora); e à direita, arte-finalizada (e escaneada diretamente do original, o que significa termos acesso às nuances do nanquim, aos retoques com guache branco, às anotações feitas nos rodapés). Além da imaginação infinita – tão típica de Kirby –, é possível perceber a inacreditável precisão de seu lápis. Desenhos detalhadíssimos, que parecem nascer sem qualquer esboço ou estudo prévio. Por outro lado, constata-se também que o brilhante Mike Royer é, de fato, seu arte-finalista definitivo. Um livro para se degustar com o babador rente ao pescoço.

12 - HELLBOY NO INFERNO Volume 1: DESCENSO – Mike Mignola (Mythos, 2015): Já disseram tudo sobre Hellboy: que é terror de influências lovecraftianas, conto de fadas misturado a lendas folclóricas de diferentes matrizes culturais, aventura pulp. Nada disse deixa de ser verdade. Mas há algo que paira acima de todas estas referências: Hellboy é um gibi de super-herói. Dos melhores. Temos ali toda a imaginação tresloucada típica do gênero, o herói carismático em uma jornada de percalços infinitos, vilões casca-grossa, ação em doses cavalares e o melhor: despretensão. Assim como Mike Mignola é um dos mais dignos herdeiros de Jack Kirby – o rei eterno e absoluto desta seara –, Hellboy carrega o legado do melhor da Marvel dos anos 60/70. Compare o capetão com o Coisa da dupla Lee & Kirby e verá que as semelhanças extrapolam a mera coincidência – a começar pelo gosto por charutos.

Após tempos dedicando-se exclusivamente aos roteiros e ao espólio do personagem (que inclui filmes, animações e tudo que a indústria do entretenimento pode oferecer), Mignola retorna ao timão na série Hellboy no Inferno. Para isso, teve antes que matar o personagem – por motivos que não os usualmente adotados pelos comics norte-americanos. A morte de Hellboy não foi uma ação de marketing para inflacionar as vendas do personagem, mas um estratagema para jogá-lo no inferno, lugar imaginário onde Mignola não teria que desenhar nada que lhe incomodasse – como carros, aparatos tecnológicos reais e cidades contemporâneas. Livre de amarras gráficas, dali pra frente seria só alegria. Não foi bem o que aconteceu. Após dez edições, Mignola – que curiosamente parece ser um artista em constante crise criativa, a despeito de seu descomunal talento – jogou a toalha. As cinco primeiras edições foram compiladas neste encadernado. As restantes estão anunciadas para o início de 2018. Já estou salivando. 

13 - INUYASHIKI Números 1 a 4 – Hiroya Oku (Panini, 2017): Ichiro Inuyashiki é um perdedor. Tem 58 anos, mas aparenta mais. É frágil, medíocre e constantemente humilhado – até pela própria família. E então descobre que está com câncer. Em estado terminal. O absurdo entra em cena: Inuyashiki é pego por uma explosão de origem alienígena e acorda sem se lembrar de nada. Com o passar do tempo, descobre que se tornou um androide com incríveis poderes. O que fazer com eles? Como toda ficção científica de primeira, Inuyashiki não é sobre ciência, capacidades especiais, máquinas invocadas ou destruição em escala nuclear, mas uma profunda reflexão sobre a vida contemporânea. O mangaká Hiroya Oku é um craque. Desenhista brilhante e dono de um storytelling afiadíssimo, conduz a HQ com classe e sofisticação, criando um tratado sobre as penúrias do homem comum, invisível. Coisa fina. Das poucas que me deixam ansioso pela próxima edição.

14 - TEX GIGANTE nº 31: CAPITÃO JACK – Tito Faraci e Enrique Breccia (Mythos, 2016): A coleção Tex Gigante traz o suprassumo do mítico personagem italiano – que em 2018 comemora 70 anos de vida editorial. Quadrinistas internacionais do mais alto gabarito são convidados a oferecer sua visão do ranger em álbuns que ultrapassam 200 páginas. Joe Kubert, Magnus e Ivo Milazzo são apenas alguns dos nomes que já desfilaram pelas páginas da coleção. Capitão Jack traz Enrique Breccia (filho do imortal Alberto Breccia, legenda maior do quadrinho argentino) abusando de seu espetacular preto e branco, destilando diversas técnicas na arte-final e compondo as páginas de forma bela e sóbria. Tudo isso para nos levar à aridez do velho oeste, onde se desenrola a trama habilmente escrita por Tito Faraci, num tom mais maduro que o usual bonelliano. Em algum momento, Capitão Jack deve ser republicado pela coleção da Salvat ou mesmo em Tex Gigante em Cores, da Mythos, onde a colorização arruinará (ao menos em parte) o brilhante trabalho de Breccia.

15 - TEX nº 573 a 575: O Sinal de Yama – Mauro Boselli e Fabio Civitelli (Mythos, 2017): Ainda falando em Tex, difícil imaginar uma melhor porta de entrada para o universo do personagem que a trilogia O Sinal de Yama. Está tudo ali: tiroteios, ciladas, pancadaria, magia, vilões terríveis, heróis destemidos e infalíveis. Mauro Boselli entrega uma aventura de tirar o fôlego, explorando um elenco de personagens que esbanja carisma – ainda que claramente estereotipado. Mas o destaque vai mesmo para a inacreditável arte de Fabio Civitelli, de longe meu texiano favorito. Seu rigor acadêmico e a obsessão com os detalhes beira a insanidade. Civitelli desenha com precisão absoluta cada grão de areia do deserto, cada folha de arbusto, cada espinho de cacto. As 34 primeiras páginas da HQ – mostrando o retorno do icônico arqui-inimigo Yama – são um espetáculo de atmosfera horrorífica. A boa notícia é que em abril a Mythos republicará O Sinal de Yama, em formato maior e edição caprichada – os formatinhos usuais são um atentado contra os desenhistas da Bonelli. A má notícia é que novamente irei gastar dinheiro com esta HQ. 

16 - MASTERS OF SPANISH COMIC BOOK ART – David Roach (Dynamite Entertainment, 2017): Minha dieta de leituras invariavelmente inclui art books. E em 2017 foi este Masters of spanish comic book art que fez a alegria da casa. Na década de 1970, os espetaculares desenhistas espanhóis tomaram de assalto os quadrinhos norte-americanos, principalmente através dos magazines em preto e branco da editora Warren (que não se submetiam ao famigerado Código de Ética e, portanto, lidavam com conteúdo mais adulto). Gênios do traço como Esteban Maroto, Auraleón, Luis Bermejo, Pepe Gonzáles, Fernando Fernández, José Ortiz e Sanjulián levaram a arte das HQs a patamares inauditos. O belíssimo livro organizado por David Roach destaca este período, mas cobre um espectro bem mais amplo dos quadrinhos de autoria espanhola, chegando a nomes contemporâneos como Daniel Acuña e David Aja, conhecidos dos nerds mais espertos. Com 272 páginas e 500 ilustrações – das quais mais da metade escaneadas diretamente dos originais – Masters of spanish comic book art é de encher os olhos (podendo até fazê-los verter lágrimas, a depender da sensibilidade do cliente).

Considerações sobre a mídia "História em Quadrinhos"

A já clássica definição de McCloud Nos últimos tempos tenho me dedicado a leituras especializadas e à participação em cursos teóricos sobre a mídia "Histórias em Quadrinhos" (Comic Books) e, a partir dessa bagagem cultural, quero efetuar algumas breves considerações sobre o tema.

As obras teóricas Narrativas Gráficas, do genial quadrinista Will Eisner, e Desvendando os Quadrinhos, do estudioso Scott McCloud, são fundamentais para uma definição segura do que seja essa forma de arte e de comunicação. Eisner trata as HQs como verdadeiras "artes sequenciais", ou seja, enquanto "imagens dispostas em sequência, de modo a transmitir ideias e comunicar uma história".

McCloud tece uma definição mais específica, tratando as HQs como "imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada, destinadas a transmitir informações ou produzir uma reposta no espectador/leitor". Em outras palavras, as HQs seriam como que "recipientes midiáticos" que podem conter diversas idéias, imagens, temas, conteúdos, estilos e técnicas narrativas e artísticas, o que desde já desconstrói a opinião corrente de que possuem relação direta com temas específicos de caráter infanto-juvenil do porte de super-heróis ou de "animaizinhos" falantes engraçados. 

Apesar de muitas HQs possuírem tais conteúdos temáticos, elas não se resumem a isso e mesmo quando narram aventuras de super-heróis ou de animaizinhos falantes, tais como Watchmen, de Alan Moore, ou o Pato Donald, de Carl Barks, bem, tais HQs são impressionantes por vários motivos, sejam psicológicos, filosóficos, existenciais, históricos, sociológicos, dentre outros.

Na verdade, me parece que as opiniões depreciativas do público em geral sobre a mídia Histórias em Quadrinhos possuem diferentes motivos, a começar pela ignorância da maioria das pessoas sobre o que realmente seria tal veículo de comunicação e de manifestação artística (e emprego a palavra ignorância aqui em sua etimologia, como sendo o ato de opinar sobre algo sem o devido conhecimento de causa).

Juntando-se a isso temos a tradição de certos posicionamentos preconceituosos de educadores e "especialistas em juventude e adolescência" que, no decorrer das seis primeiras décadas do século XX, consideraram as HQs como sendo "vulgares, estúpidas, moralmente condenáveis e/ou como a expressão do baixo senso intelectual daqueles que não gostavam de livros". Muitos desses ditos intelectuais afirmavam em alto e bom tom que os leitores de HQs seriam jovens incapazes cognitivamente, sendo todos eles facilmente "manipuláveis diante de imagens de cores berrantes, rostos disformes e esgares contorcidos de ódio e terror, uma forma de manifestação que careceria de senso estilístico e gramatical".

Tais opiniões pejorativas e preconceituosas direcionadas às HQs aparecem no estudo de Thierry Groensteen sobre especialistas em juventude e delinquência nas décadas de 1950 e 1960. Muitas dessas opiniões sendo sintetizadas na impactante e absurda obra Seduction of the Innocent, do psiquiatra Fredric Wertham, de 1954. 

O autor desta obra, inserido no contexto do macarthismo (movimento político de perseguição a atividades consideradas subversivas que se baseava nos trabalhos de investigação do senado americano) estaria preocupado com a delinquência juvenil e com as influências nefastas de certos bens culturais midiáticos na moral tradicional estadunidense da época, o que levou a indústria das HQs à defensiva, condicionando a criação do tão difamado e contraditório Comics Code Autority.

Mesmo assim, a visão simplista sobre a mídia História em Quadrinhos não se resume a um contexto de paranoia coletiva ou mesmo de falta de senso “intelectual” sobre qualquer juventude transviada. É possível colocar na conta também de muitos especialistas das ditas humanidades que até a década de 1960 tinham posições bem demarcadas em torno da existência de uma cultura de elite em completa oposição a uma cultura popular, essa última sendo normalmente vinculada ao que se costumava denominar como "cultura de massas".

Escola de Frankfurt, Estudos Culturais

Para resumir essa dicotomia, é como se os artefatos culturais voltados para o homem comum, do povo, fossem naturalmente de baixa qualidade, quando não constituídos para a total alienação dos receptores de bens culturais, com fins ideológicos ou mesmo econômicos, dentro do processo de mercantilização e massificação da cultura do século XX. 

Alguns expoentes da famosa Escola de Frankfurt e também alguns pensadores marxistas expressaram posições que dicotomizaram a cultura como um todo, preocupando-se com os processos de alienação e dominação ideológica das massas via produção e difusão de bens culturais voltados para tais setores subalternos da sociedade (um viés importante, mas que acabou gerando tal visão hermética e unilateral das mídias em geral e dos quadrinhos em particular). 

Indiretamente ou não, as HQs, consumidas por milhares de jovens a partir da década de 1930, acabaram sendo depreciadas, sendo vistas como expressão da alienação das massas, como produtos massificados da ideologia dominante ou como bens culturais produzidos para fins exclusivos de lucro e acúmulo de riqueza de uma pujante e inovadora indústria cultural (é comum a utilização do termo mainstream, que designa certos artefatos culturais produzidos a partir de uma linha de produção de tipo industrial).

Ora, posso traçar aqui dois tipos de leituras teóricas distintas sobre os produtos massificados da dita indústria cultural mainstream, incluindo os quadrinhos, e isso, a partir das explanações do filósofo Douglas Kellner sobre o que ele tão bem denomina de “Cultura da Mídia”. 

Por um lado temos as leituras teórico-conceituais de alguns expoentes da Escola de Frankfurt (principalmente Theodor Adorno), que consideraram os produtos da indústria cultural (termo cunhado pelos pensadores dessa supracitada escola filosófico-teórica) como expressões da dominação de classe e/ou da alienação das massas. Por outro lado, temos os chamados Estudos Culturais Britânicos, que procuraram compreender a dialética intrínseca existente nesses produtos massificados, suas formas de alienação e ao mesmo tempo os posicionamentos críticos intrínsecos nos mesmos, ou seja, a expressão dos conflitos culturais e políticos existentes em nossa sociedade. 

Depreendo a partir disso que a visão preconceituosa da Escola de Frankfurt sobre os bens culturais da dita indústria cultural condicionou muitas das visões depreciativas no que tange aos quadrinhos, ainda que existam posições distintas que observam os produtos culturais voltados para as massas como sendo expressões igualmente críticas, subversivas e até inovadoras.

Canclini

Para ajudar no entendimento dessa dicotomia, seria possível traçar outras opiniões sobre bens culturais, agora a partir de dois importantes estudiosos da cultura: o primeiro, Edgar Morin, que relaciona a cultura de massas à indústria cultural para fins exclusivos de lucros rápidos em detrimento da cultura popular genuína e o segundo, Nestor Garcia Canclini, que considera existir uma hibridização entre a cultura de massas e a cultura popular, sendo a primeira consumida em razão de ecoar visões de mundo em amplos setores da sociedade contemporânea, porque mesclada ao popular, “ela se faz entender pelos receptores de bens culturais, podendo auxiliar, inclusive na formação crítica e da cidadania dos mesmos”, uma visão que se distancia da opinião corrente de que tudo o que é voltado para o povo significa alienação.

O caso da Marvel Comics

Para explicar como se daria a leitura de Canclini, seria imperativo trazer aqui um caso bastante peculiar relacionado à  famosa Marvel Comics, uma das grandes empresas de quadrinhos de super-heróis dos séculos XX e XXI. Exemplifico esse caso a partir das considerações extraídas da obra Marvel Comics, a História Secreta, de Sean Howe. Quando foi rearticulada em 1961 pelo escritor, roteirista e editor Stan Lee e pelo desenhista e criador Jacky Kirby, a Marvel se tornou uma espécie de "Casa das Idéias" de novos artistas, inovando o gênero dos super-heróis nos EUA e no mundo. Isso ocorreu porque os artistas da empresa colocaram em cena narrativas bastante antenadas com o contexto de seus leitores, gerando identidade nos mesmos em relação a super-heróis adolescentes ou mesmo homens e mulheres cheios de defeitos e contradições psicológicas, como se fossem meras pessoas comuns.

Quarteto Fantástico de Kirby: defeitos e contradições psicológicas

Com o tempo, porém, o espírito criativo foi entrando em conflito com o espírito corporativo da empresa, ocorrendo uma expansão gradual da linha de super-heróis Marvel e dos lucros das empresas que gerenciavam a linha editorial do gênero (só para constar, ao longo das três primeiras décadas de reformulação, a Marvel passou por três corporações diferentes). 

Starlin: comics não-alienados

Nos anos 1970 e 1980, certa independência dos artistas e editores-artistas geraram narrativas bastante engajadas, críticas e inovadoras (as narrativas cósmicas de Jim Starlin, por exemplo, fugiam a qualquer espírito corporativo que tivesse preocupações exclusivas com os lucros imediatos ou com qualquer alienação) ao mesmo tempo em que foram sendo controladas pelo corpo editorial, mais tarde centralizado nas mãos do virtuoso roteirista Jim Shooter.

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, as coisas mudaram radicalmente, visto que os próprios artistas, agora verdadeiras celebridades do meio, começaram a não se preocupar mais tanto com a qualidade das narrativas de super-heróis, mas sim com desenhos multicromáticos e detalhistas, além de ações impactantes que gerassem nos leitores o fascínio pelas HQs, incrementando assim a mercantilização por parte de colecionadores e/ou especuladores do gênero, em meio ao crescimento do público mais adulto e consolidação das lojas de revistas especializadas (o chamado mercado direto de vendas). 

Artistas como Todd McFarlane e Rob Liefeld não precisavam de ordens de cima para se desvencilhar daquele espírito crítico e dinâmico da Casa das Ideias dos anos 1960, 1970 e início dos 1980. Eles simplesmente foram se inserindo no esquema dos especuladores de HQs cromáticas, com capas e artes detalhadas ao extremo e histórias cheias de ação gratuita e vazias, quase que pasteurizadas. Ainda assim, bons arcos podiam aparecer na Marvel e nada era maquiavelicamente pensado para alienar ou mesmo para gerar convulsões sociais entre os jovens leitores.

Os lucros sempre fizeram parte da equação empresarial, desde os anos 1960 (até antes disso, nos tempos da Timely Comics) e não afetaram diretamente as boas idéias dos artistas da empresa nas primeiras décadas de reformulação Marvel, ainda que por causa dos descontentamentos por direitos autorais, muitos desses artistas tenham se desentendido com a Marvel ao longo dos anos (incluindo o maior dos criadores do universo Marvel, Jack Kirby).

Spawn, de McFarlane: em tudo, excessos

Estudos sobre quadrinhos no Brasil

Agora, seria importante mencionar também que existem no Brasil diversos especialistas em HQs, todos eles referências para qualquer estudioso que pretenda seguir por essa seara, muitos dos quais respeitados em suas respectivas áreas de conhecimento, o que demonstra uma mudança gradual acerca do olhar voltado para essa mídia. 

Alvarão de Moya, na Primeira Exposição

Internacional de Histórias em Quadrinhos

Nomes como de Álvaro de Moya, Antônio Luiz Cagnin, Zilda Augusto Anselmo, Waldomiro Vergueiro, Sérgio Augusto e Moacy Cirne devem ser listados nas bibliografias de qualquer trabalho acadêmico sobre a mídia, sendo que todos esses autores possuem trabalhos complexos e interessantes que são facilmente encontrados na internet. 

Em um artigo recente, Vergueiro específica os tipos de estudos acadêmicos existentes sobre quadrinhos na USP e sua classificação pode auxiliar quaisquer novos pesquisadores sobre o assunto. Em primeiro lugar existem aqueles estudos que tratam da linguagem das HQs, a forma como são constituídos, com seu tempo espacializado, sua elipse narrativa, as formas de enquadramento e de perspectivas, as representações de sons, chamadas de onomatopeias, as linhas cinéticas que dão movimento às imagens e até mesmo o estudo da "sarjeta", que seria aquele espaço vazio entre os quadros e que serve à elipse narrativa, onde os leitores interagem com o escritor para dar continuidade e significados às sequências dispostas.

Em segundo lugar podemos elencar a análise de conteúdos, ou seja, os significados presentes nas HQs, bem como os processos de codificação das mensagens das mesmas. Em terceiro lugar, temos as análises históricas das HQs, quando foram produzidas, publicadas e distribuídas e as relações com os seus respectivos contextos históricos, o que seria a análise das conjunturas, do levantamento das publicações e da recuperação da memória das narrativas, seja dos artistas ou de seus editores. Em quarto lugar são elencadas as análises das sociedades e culturas subjacentes às produções de HQs, que seria uma abordagem relacionada a temas comuns presentes nas mesmas e em nossa sociedade e cultura, tais como violência urbana, guerra, racismo, sexismo, feminismo, xenofobia, etc. 

Seguindo aqui as premissas do historiador Paul Veyne, “todo estudo histórico é igualmente sociológico, significando que as perspectivas histórica e sociológica se interpenetram”. Outras formas de leituras seriam a análise técnica e estética das HQs, as formas de aplicações práticas em marketing, bem como as análises de recepção, ou seja, como as histórias foram lidas e quais as reações do público leitor ante as narrativas das mesmas (essa tarefa é facilitada hoje em dia devido à internet e blogs especializados, aonde os leitores efetuam comentários sobre o que foi publicado em termos de narrativas gráficas). Isso sem falar nos estudos sobre a economia das HQs, as tendências de mercado, os tipos de público para cada gênero, suas segmentações.

Coloco aqui mais um tipo de estudos que me interesso sobremaneira, os estudos sobre os "usos do passado", ou seja, estudos sobre o contexto histórico de produção e difusão de algum arco ou história que tenha um passado histórico qualquer como tema (por exemplo, a famosa obra Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo, que trata da conquista das Gálias por Júlio César no século I A.C.), o que sugere uma análise sobre a forma como é representado esse passado no mundo contemporâneo.

O caso de Alan Moore

Para finalizar, gostaria de tecer alguns comentários sobre Alan Moore, que criou narrativas de extrema qualidade do porte de Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária, Do Inferno, Promethea, e tantas outras.  Após observar atentamente seus comentários no documentário The Mindscape of Alan Moore percebo que sua obra Promethea é a expressão mais genuína daquilo que ele define como arte e magia. O que me impressiona em Moore, além de sua enorme erudição, é o fato de vincular arte com magia, como se uma manifestação artística fosse a elevação do homem para outro nível de consciência, como se o artista, inspirado por forças mágicas, pudesse, com seus artefatos culturais, moldar e transformar o nível de consciência dos indivíduos de modo que esses transformem a realidade à sua volta, adquirindo uma consciência igualmente mística ao tocar o mundo sobrenatural com tal consciência.

Promethea: ocultismo, kabhala, esoterismo - some crazy shit!

Para muitos críticos das opiniões de Moore (e devo dizer aqui, críticos que não entendem o conteúdo das palavras do roteirista inglês), isso parece a expressão da mais pura insanidade embebida em drogas, mas Moore reinterpreta, por meio de seus conhecimentos e releituras sobre Ocultismo, Kabhala e Esoterismo, o que pensavam os antigos poetas aedos gregos, que concebiam sua poesia como a inspiração das musas e das forças primordiais, como se fossem tocados pela luz da verdade. 

Como bem reitera o estudioso antiquista Marcel Detienne ao tratar do pensamento mítico entre os gregos antigos, a aletheia significaria para eles a verdade, a luz que ilumina o homem com a inspiração das musas, que tira os entraves da ignorância e da escuridão, representadas pela lethe. Para os aedos, ou seja, para os poetas gregos dos tempos homéricos, a arte servia para a inspiração e a elevação do pensamento humano, das consciências. 

Se Moore tem alguma leitura teórica sobre tudo isso, é difícil afirmar (eu realmente acredito que sim), mas com certeza seu conhecimento empírico, embebido pela literatura, pela filosofia e pela mitologia (a partir das premissas de Joseph Campbel, presumo) fez com que ele se veja como um poeta aedo dos quadrinhos, o que estaria próximo das artes da magia. 

O fato de ele se ver como um mago leva muitas pessoas a taxarem-no de insano ou excêntrico, mas a magia para ele seria a arte que inspira e toca a consciência do seu público leitor e isso, para os grandes filósofos gregos (como Aristóteles, por exemplo) seria o dever da poesia, de inspirar e colocar as grandes questões existenciais em pauta. Só para finalizar essas breves considerações: Moore chega a afirmar que mitologia é uma forma de linguagem complexa (e quanto mais deuses existentes em um corpus mitológico, mais complexa), uma ideia encontrada em pensadores como Roland Barthes e Juanito de Souza Brandão. 

Se ele leu os dois pensadores, realmente não sei afirmar, mas ele expressa ideias bastante ricas e complexas e isso mostra que sua obra não é apenas um punhado de tinta e letrinhas psicodélicas sobre o papel. Se pararmos para pensar em tudo isso, podemos afirmar então que os quadrinhos possuem um alto grau de abstração e sabedoria de vida, tal como seriam os mitos para Moore e Campbell, claro, desde que bem escritos, elaborados e articulados.

O que depreendo de todas essas considerações estabelecidas no presente texto é que, antes de julgarmos as Histórias em Quadrinhos como uma forma de arte ou de comunicação eminentemente popular de massas (em seu sentido depreciativo) e alienante, que conheçamos antes seus autores, produtores, desenhistas e leitores e que percebamos a complexidade dessa mídia, ou seja, que vejamos as suas especificidades e riquezas. 

A mídia, histórias em quadrinhos pode conter diversos tipos de narrativas, podendo ser narrativas infantis, adultas, adolescentes ou até mesmo mescladas, contraditórias e misturadas, com toques variados. Podem ser até mesmo ensinamentos filosóficos para a elevação da consciência humana. Vejamos os quadrinhos como devem ser vistos, ou seja, como uma forma de comunicação e de manifestação artística, logicamente que apropriada pela industrial cultural mainstream para a geração imediata de vultosos lucros, ainda que possuindo diversos elementos interessantes, críticos e até subversivos. 

BONS QUADRINHOS QUE LEMOS EM 2015 - PARTE 4

A gente tinha falado que a lista do Pedro era a última, mas aí o nosso novo (e brilhante) colaborador Márcio Jr. nos enviou, como chave de ouro, mais estas 20 indicações de quadrinhos lidos em 2015. Totalizamos então 52 indicações devidamente resenhadas para você ler em 2016. Mãos à obra! (CIM)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

por Márcio Jr.

Amo quadrinhos. Comecei a guardá-los desde que comprei Superaventuras Marvel nº 1, da Abril, em 1982. Da lá pra cá, a coisa meio que saiu de controle. Compro mais do que sou capaz de ler (ainda que toda compra tenha o claro - e fantasioso - propósito de ser lida em algum ponto do futuro). Não acho que isso seja muito saudável. Já pensei em terapia. Fiz as contas e percebi que ficaria mais caro que comprar os gibis. Sigo acumulando papel.

Numa tentativa de estabelecer um filtro nas aquisições, comecei a anotar na agenda todas as leituras e compras feitas ao longo do ano. Não deu muito certo. Em 2015, li em torno de 150 HQs. Devo ter adquirido o quádruplo disso. Ao menos serviu para mapear as leituras do período, o que nos traz a esta lista de melhores. Os meus melhores quadrinhos de 2015. (O que não quer dizer que tenham sido obrigatoriamente publicados em 2015. Alguns dos títulos estavam ali, esperando leitura há um bom par de anos.)

Listas são sempre subjetivas, incompletas, blábláblá. Dane-se. Esta é a lista que me agarrou pelas vísceras. Tem uma certa hierarquia nela, mas nada para se levar muito a sério. Eu mesmo não levo. Olhando para a lista, gosto de acreditar que seja uma bela porta de entrada para qualquer pessoa minimamente inteligente  que nunca leu uma HQ. Maurício de Sousa não vale. Faça o teste. Se não gostar, desista dos quadrinhos. A campanha do Bolsonaro precisa de você.  

1- TALCO DE VIDRO - Marcello Quintanilha (Veneta, 2015)

Mal baixamos a guarda após o nocaute provocado em 2014 pelo já clássico Tungstênio, e Marcello Quintanilha nos faz beijar novamente a lona com Talco de vidro. Niteroiense radicado em Barcelona, Quintanilha tem construído uma obra originalíssima, sem paralelos, transbordante de uma brasilidade impossível de ser capturada em clichês. Não por acaso, tem amealhado tudo quanto é prêmio (de  quadrinhos e literatura) ao redor do mundo. Em Talco de vidro - um tratado acerca da ordem indizível da inveja -,  mais uma vez expande seus próprios limites, gráficos e narrativos. De quebra, leva a linguagem das HQs a novos horizontes. Em lugar algum existe alguém fazendo quadrinhos como Marcello Quintanilha. Imperdível.

2- OS OLHOS DO GATO - Alejandro Jodorowsky e Moebius (Nemo, 2015)

Publicada originalmente no Brasil em 1987 pela Martins Fontes (em edição hoje raríssima  e disputada no fio da navalha por colecionadores), esta obra-prima finalmente retorna às livrarias, após inexplicáveis 28 anos. Cortesia da Editora Nemo - que diga-se de passagem, tem feito um belíssimo trabalho suprindo a inexplicável semi-ausência de Moebius em terras brasileiras. Simbolismo polissêmico, quadros que ocupam a totalidade da página, experiências envolvendo campo e contra-campo, a tensão dialógica estabelecida por uma arte alternadamente minimalista e detalhada, tudo isso está presente neste álbum, um clássico nascido do acaso, como nos explica o mago Jodorowsky em seu prefácio.  

3- A CHEGADA - Shaun Tan (SM, 2011)

A chegada, do australiano Shaun Tan, é daquelas HQs que dão vontade de sair mostrando para todo mundo, como prova irrefutável do quão rica, sofisticada e artística pode ser a linguagem dos quadrinhos. Uma epopeia tocante sobre migração, banhada em realismo fantástico. Tudo isso sem uma palavra sequer. Espetacular é pouco.

4. KAPUTT - Eloar Guazzelli (WMF Martins Fontes, 2014)

O multi-artista Eloar Guazzelli tem se tornado o maior nome de um gênero muito em voga nos quadrinhos brasileiros: a adaptação literária. Os dois Jabutis que ele papou em 2015 (um deles com este Kaputt, adaptação da obra do italiano Curzio Malaparte) não me deixam mentir. Guazza é também o quadrinista mais rápido de que se tem notícia: 700 páginas em seis meses é uma marca de deixar de orelha em pé velocistas lendários como Jack Kirby e Julio Shimamoto. A explicação me foi dada pelo próprio autor: "Quadrinho paga mal, então eu tenho que produzir muito para que seja viável economicamente." O xis da questão é que Guazzelli consegue produzir muito e com qualidade inquestionável. Para isso, desenvolveu uma estética muito peculiar, que converte brilhantemente urgência em estilo. Em Kaputt, profundo tratado acerca dos horrores do nazismo, baila entre diferentes abordagens gráficas, que vão do nanquim anoitecendo toda a página ao lápis de cor que beira o sublime. Um livraço, cujo lugar na estante é ao lado de Maus, de Art Spiegelman.

5 - COLEÇÃO HISTÓRICA MARVEL QUARTETO FANTÁSTICO Vol. 1 - Stan Lee e Jack Kirby (Panini, 2015)

O patético filme do Quarteto Fantástico teve ao menos um efeito colateral positivo: o lançamento no Brasil dos quatro volumes da Coleção Histórica Marvel, dedicados ao grupo que é a pedra fundamental da editora. Na primeira edição, Stan Lee e Jack Kirby estabelecem todos os parâmetros dos quadrinhos de super-heróis e nos entregam o que de melhor o gênero pode oferecer: personagens carismáticos, ação ininterrupta, imaginação tresloucada e arte embasbacante. O Dr. Destino, tema deste primeiro volume, é o único capaz de disputar com o Coringa o posto de vilão mais cool dos comics. É um pecado mortal as 102 edições originais do Quarteto, sob a batuta de Lee e Kirby, permanecerem sem publicação digna e completa no Brasil. São insuperáveis.

6- CASTELO DE AREIA - Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters (Tordesilhas, 2011);

AÂMA Vol. 1 - Frederik Peeters (Nemo, 2014);

PÍLULAS AZUIS - Frederik Peeters (Nemo, 2015)

2015 foi o ano em que finalmente entrei de cabeça na obra do suíço Frederik Peeters. Meu maxilar ainda está deslocado. O primeiro contato se deu no magnífico Castelo de areia, poderosa alegoria sobre o envelhecimento, onde a serena narrativa gráfica de Peeters dá o tom exato ao roteiro do documentarista oscarizado Pierre Oscar Lévy. Pílulas azuis, tocante HQ autobiográfica em que o quadrinista narra sua vida ao lado de uma portadora do vírus HIV está em todas as listas de melhores do ano. Nada mais justo. E o menos badalado (mas não menos espetacular) Aâma pode ser descrito como uma ficção científica existencialista. Três excelentes trabalhos que apontam em direções diferentes, unidas pelo senso de humanidade presente na arte de Frederik Peeters. Craque.

7- SERES URBANOS - vários (Independente, 2015)

No início dos anos 90, era pré-internet, Weaver Lima, Lupin e mais um bando de moleques cearenses criaram o coletivo Seres Urbanos e entupiram as caixas de correio do Brasil com uma tonelada de fanzines ultra envenenados, talento e transgressão escorrendo do papel. Fizeram história. Parte dela está registrada nesse livro (bancado com uma lei de incentivo local), indispensável em tempos de gourmetização fanzinística. Weaver garante que um segundo volume está a caminho, só com conteúdo impublicável. Mal posso esperar.

8. DAYTRIPPER - Fábio Moon e Gabriel Bá (Panini, 2011);

DOIS IRMÃOS - Fábio Moon e Gabriel Bá (Quadrinhos na Cia., 2015)

Falar sobre Daytripper é chover no molhado. Solidificou o nome dos gêmeos Moon e Bá dentro e fora do Brasil, ganhou prêmios, vendeu pra caramba. Merecidíssimo. (Mesmo com aquele papo estranho sobre plágio.) Depois de tanto sucesso, deve pesar bastante a expectativa sobre um próximo trabalho.

Dois irmãos, adaptação do romance homônimo de Milton Hatoun, veio para ratificar todas as conquistas pregressas. Não conheço o livro original. Ponto para a adaptação, que funciona espetacularmente como HQ. Salta aos olhos a verossimilhança dos personagens e seu entorno. Eu conheço aquela Manaus impressa no papel. E se é evidente a influência de Mike Mignola sobre Gabriel Bá, foi delicioso ver em seus desenhos ecos do saudoso Flávio Colin. Parafraseando a dupla, Daytripper e Dois irmãos são foda!

9- EISNER/MILLER - Charles Brownstein (Criativo, 2014)

Em 2002, durante um final de semana, o lendário Will Eisner (1917 - 2005) recebeu o não menos lendário Frank Miller em sua casa, na Flórida. Ali, os dois gigantes conversaram (e usualmente discordaram) sobre suas carreiras, quadrinhos, mercado, arte e cinema. Poucas vezes se viu um debate tão profundo e cheio de propriedade acerca das HQs quanto o que está registrado neste antológico livro. A edição da Criativo, graficamente superior à original norte-americana, desliza na tradução e no prefácio um tanto impreciso do Professor Nobu Chinen. Ainda assim, é um presente inestimável ao mercado brasileiro e a todos aqueles que se interessam seriamente por quadrinhos. 

10- MÁGICO VENTO Nos 32-40 - Gianfranco Manfredi (Mythos, 2005)

Tentaram rotular a saga de 131 edições de Mágico Vento como faroeste horror. É pouco. A epopeia do soldado Ned Ellis, que perde a memória após um terrível acidente e é adotado pelos índios Sioux, tornando-se um poderoso xamã que desconhece o homem que fora no passado, traz os limites característicos da Bonelli Editora (a mesma de Tex), tais como a obrigatória presença de um parceiro de aventuras (no caso, o jornalista Poe, sósia do escritor norte-americano) e  a disposição nada inovadora dos quadros na página. Todavia, a perícia do escritor Gianfranco Manfredi (que também é roteirista de cinema e TV, além de músico) leva a série em uma direção adulta e sofisticada, principalmente no que tange à representação nada maniqueísta da cultura indígena. Escudado por desenhistas do calibre de Pasquale Frisenda, José Ortiz, Goran Parlov e Ivo Milazzo, Mágico Vento é um fumetto comparável ao idolatrado Ken Parker. E como tal, não tem aquela babaquice caça-níquel dos super-heróis americanos, onde é impossível compreender uma história isoladamente. Qualquer edição que você pegar de Mágico Vento tem começo, meio e fim. Porém, lida em sua totalidade, a série adquire ares de grande romance americano. Made in Italy. Espero viver o suficiente para ler tudo.

11- NEXT MEN - John Byrne (Mythos, 2013)

John Byrne já foi o mais popular desenhista dos quadrinhos norte-americanos. Brilhou como ninguém nos títulos X-Men, Quarteto Fantástico, Tropa Alfa e Super-Homem. Mas as HQs estão longe de ser a mais generosa das profissões. Ondas se sucedem, turbinadas por impiedoso marketing corporativo - e o que era ouro para um geração, passa a ser lixo para a outra. Some-se a isso o desgaste natural de anos desenhando sem parar. Há mais de duas décadas Byrne não produz com a qualidade de seus tempos de glória. Tampouco faz o mesmo sucesso de outrora. Mas no início dos anos 90 ele ainda era quente e lançou Next Men pelo selo Legend (que também abrigava Sin City e Hellboy), da editora Dark Horse. Foi seu último grande trabalho. Vinte anos mais tarde, a Mythos publica pela primeira vez no Brasil um livrão coletando as 10 primeiras edições da série.

Next Men tem tudo aquilo que Byrne faz de melhor: a fusão entre ficção científica e super-heróis, desenhos vigorosos, cenários hipertecnológicos e roteiro capaz de segurar o leitor. O preço, como é de praxe na Mythos, é proibitivo: 100 mangos. Dá pra comprar quadrinho bem melhor com essa grana. Faça como eu: espere uma promoção. Vale a pena.

12- DEMOLIDOR Nos 7 e 8 - Mark Waid, Chris Samnee e outros (Panini, 2015)

Ao lado do Gavião Arqueiro, a série do Demolidor escrita pelo veterano Mark Waid é o comic book mais incensado e  premiado dos últimos anos. Não é pra menos: a concorrência é uma grandessíssima porcaria. Waid não reinventa a roda e nem tenta enganar o leitor com um suposto "conteúdo adulto". Ao contrário, ele conduz a série com apelo, suspense e simplicidade. As cores são corretas e condizentes com a arte (trocando em miúdos, você não ficará cego pelos efeitos de photoshop). E os desenhos de Chris Samnee são um espetáculo a parte. Sua clareza, equilíbrio e dinâmica narrativa remetem a mestres como John Romita e Gil Kane. Enfim, tudo que um gibi de super-herói tem a obrigação de ser. E pensar que ali pelos anos 70 e 80 quase todos os gibis da Marvel eram assim...

13 - HOMEM-MÁQUINA - Tom DeFalco, Herb Trimpe e Barry Windsor-Smith (Panini, 2015)

Taí outro gibi supimpa de super-herói, publicado originalmente em meados da década de 80. Trata-se de uma recauchutagem cyberpunk de um personagem secundário do panteão Marvel, criado pelo Rei Jack Kirby. Mas o que faz esta mini-série antológica é o retorno aos quadrinhos do magistral Barry Windsor-Smith. Após fazer história em Conan, o Bárbaro, o desenhista britânico sumiu do mapa, para voltar ainda melhor em Homem-Máquina. A capa dura e metalizada da edição da Panini são um quitute extra.

14 - MITCH O'CONNELL: THE WORLD'S BEST ARTIST (Last Gasp, 2014)

Como não poderia faltar um art book nesta lista, parti logo para o mais legal de todos: Mitch O'Connell: The world's best artist. Iconoclasta e sarcástico até falar chega, Mitch O'Connell reúne nesta deliciosa edição um apanhado geral de sua carreira de ilustrador, pintor e, eventualmente, quadrinista. Centenas de imagens do universo trash-pop do autor inundam as páginas, ancoradas em textos divertidíssimos. E se o recheio é quente, a embalagem não deixa por menos: capa emborrachada com aplique de purpurina, bordas arredondadas e um design matador que, por si só, já valeria a aquisição desta pérola. Duvido que seja publicado no Brasil.

15 - LIMIAR: DARK MATTER - Luciano Salles (Independente, 2015)

Luciano Salles vem se configurando como um dos quadrinistas mais sui generis (ou interessantes, ou pitorescos, ou estranhos, ou incômodos) da nova geração. Seus roteiros não se entregam na primeira leitura. Provavelmente nem na última. Possuem uma temporalidade enigmática, que provoca um desconforto cronenberguiano na leitura. E sua arte é acachapante, anfetaminada pelas cores de Marcelo Maiolo. Debaixo de camadas de personalidade, é possível, com algum esforço, encontrar fantasmagorias de Moebius, Mutarelli e Frank Miller (Elektra Vive). Melhor ficar de olho nesse sujeito.

16: ADORMECIDA: CEM ANOS PARA SEMPRE - Paula Mastroberti (8Inverso, 2012)

Os quadrinhos são apenas uma das áreas de atuação da artista e pesquisadora Paula Mastroberti. Entre 1988 e 1990 ela teceu para si mesma a intrincada tapeçaria que é Adormecida: cem anos para sempre. Ali cristalizou-se a paixão pelos contos de fada e pelos quadrinhos europeu de Moebius, Druillet e Crepax. Ponto para 8Inverso, que 22 anos depois conseguiu abrir essa arca secreta. Belo e atemporal.

17. PERPETUUM MOBILE - Diego Sanchez (Mino, 2015)

A lista não ficaria completa sem um livro da Editora Mino, responsável pelos lançamentos mais bacanas de 2015. Perpetuum Mobile, foi um deles. Diego Sanchez é um legítimo representante da novíssima geração de feras dos quadrinhos brazucas, ao lado de nomes como Pedro Cobiaco e Felipe Nunes. Eles têm em torno de 20 anos e chegaram sem o menor respeito, com o pé na porta. Os quadrinhos de Sanchez possuem uma atmosfera etérea, fluida, com um senso muito peculiar de disposição dos quadros na página. Ainda em 2015 ele lançaria Hermínia, um livro mais elaborado, bonito e bem estruturado. Mas Perpetuum Mobile possui uma espontaneidade que faz dele o meu favorito até o momento.  

18- A SOBREVIVENTE - Paul Gillon (Martins Fontes, 1988)

Paul Gillon (1926-2011) foi um mestre do erotismo francês. Sua arte irrepreensível, elegante e de clássico refinamento nos conduz em A sobrevivente - ficção científica pós-apocalíptica que retrata um mundo onde apenas um belíssima mulher parece ter sobrevivido. O robô da capa ficou bem feliz. 

19- GAROTA SIRIRICA - Lovelove6 (Independente, 2013)

2015 foi um ano decisivo para as quadrinistas no Brasil. Tomaram as redes sociais de assalto e fizeram um barulho gigantesco no FIQ. Não era sem tempo. A presença das mulheres como autoras e leitoras de quadrinhos é algo que precisa ser imediatamente discutido e potencializado. Como ponta-de-lança dessa agitação toda está Gabi, a Lovelove6, e sua irresistível Garota Siririca. Seu mérito? Produzir um quadrinho que é engajado, mas também divertido e instigante. Isto é, um quadrinho que sobrevive como linguagem, para além de sua função política. Gabi tem a manha.

20- O BABACA - Gary Panter (A Bolha, 2012)

Gary Panter é o pai da punk art, do desenho feio e sujo, influenciando todo mundo de bom gosto que tem atração pelo mau gosto. Fabio Zimbres é um exemplo desse tipo de gente. Gary Panter tem status de gênio no mundo das artes gráficas e é simplesmente ridículo que permaneça inédito no Brasil. Graças a Deus, temos A Bolha para tentar colocar o barraco em ordem, lançando este hilário

O babaca. Mais uma vez, muito obrigado, Rachel

Homem-Máquina e Barry Windsor-Smith: um oásis no deserto dos super-heróis

É com grande satisfação que anunciamos Márcio Júnior como colaborador de Raio Laser! Militante de longa data do rock e dos quadrinhos, o goiano Márcio Mário da Paixão Júnior (1972) é produtor cultural, mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília, sócio fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado, criador do Goiânia Noise Festival a da TRASH – Mostra Goiana de Filmes Independentes, além de vocalista da banda Mechanics. Dirigiu o curta O ogro e produziu Faroeste: um autêntico western – ambas animações premiadas. Em 2015, sua dissertação de mestrado foi lançada como livro: Comiczzt! – Rock e quadrinhos: possibilidades de interface. (PB)

por Márcio Jr.

Tédio. De um modo geral, este é o termo que define o atual panorama dos quadrinhos de super-herói que entopem as bancas de revista de norte a sul do Brasil. Golpes de marketing, megassagas que vão do nada ao lugar nenhum, personagens históricos completamente descaracterizados, desenhistas gerados em laboratórios de pasteurização, e malditas cores de photoshop que causam à nossa visão um efeito mais deletério do que aquele que o cigarro produz nos pulmões, são a tônica deste mercado - absolutamente servil ao primo rico chamado cinema. Na lógica verticalizada da indústria do entretenimento, os gibis de super-herói não têm mais fim em si mesmos. Sua função é ser o embrião de um blockbuster prenhe de licenciamentos. Ou seja, as bancas estão abarrotadas de quadrinhos que estão a anos-luz daquilo que chamamos de arte. Pior, as bancas estão abarrotadas de quadrinhos que sequer cumprem com decência sua função de divertir - esta, a verdadeira prerrogativa de um bom gibi de super-herói.

 No meio dessa pasmaceira nerd, o lançamento do encadernado Homem-Máquina (de Tom DeFalco, Herb Trimpe e Barry Windsor-Smith) pela Panini, reunindo a mini-série de 1984, é motivo de uma alegria inesperada, mas absolutamente bem-vinda.

Homem-Máquina, ainda na fase de Kirby

O tal Homem-Máquina é um herói de quinto escalão no cartel da Marvel Comics. Após uma temporada na rival DC (onde criou conceitos que ainda hoje estão entre os mais inventivos do mainstream norte-americano, tais como o Quarto Mundo, O.M.A.C. e Demon), o lendário Jack Kirby retorna ao time de Stan Lee, na segunda metade dos anos 70, com uma exigência irrevogável: escrever, desenhar e editar os próprios quadrinhos. Traduzindo em miúdos, o que Kirby queria era liberdade, autonomia e, por tabela, a possibilidade de provar de uma vez por todas que os méritos pelo sucesso da casa do Quarteto Fantástico eram seus e não do falastrão Lee. 

A coisa não transcorreu exatamente como o planejado, mas, como de praxe, Kirby inundou a Marvel com inúmeros projetos vindos de sua imaginação sem limites. Um dos mais excêntricos foi a espetacular adaptação em quadrinhos do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (o Kirby do cinema). Publicada originalmente em 1976 como uma treasury edition (edições especiais em formato gigante), 2001 logo ganhou título próprio, que não durou muito tempo. À medida em que desenvolvia conceitos sob sua ótica ímpar, os leitores foram raleando, o que fez com que Kirby desse um rumo mais convencional à série, focando-a em um super-herói, um androide cheio dos parangolés tecnológicos, mas recheado com sentimentos humanos: o Homem-Máquina. A estratégia proporcionou uma considerável sobrevida ao projeto, com o personagem pilotando agora um gibi solo. Após 19 edições (das quais Kirby foi responsável apenas pelas nove primeiras), o título foi cancelado e o herói relegado a coadjuvante eventual em gibis mais populares. Até ser resgatado, em outubro de 1984, na mini-série em 04 edições compilada agora pela Panini (e publicada em formatinho ainda nos anos 80, pela Abril).

O exuberante 2001 de Kirby

Conan do então "Barry Smith"

O que faz de Homem-Máquina uma pérola, não é apenas a retomada da cria de Kirby, mas o retorno de um gênio que por mais de uma década esteve afastado dos quadrinhos: o britânico Barry Windsor-Smith. Ao lado do roteirista Roy Thomas, Barry Smith havia causado frisson na primeira fase de Conan, o Bárbaro, no início dos anos 1970. O título destoava de tudo que era então publicado nos Estados Unidos, graças à forte pegada literária de Thomas e, principalmente, ao originalíssimo estilo do desenhista, calcado num repertório gráfico advindo da art noveau. A sofisticação do trabalho de Smith era tamanha que tornou-se impossível lidar com os prazos apertados dos gibis mensais. Conan foi então para as mãos do grande John Buscema, ao passo que Barry (agora Windsor-Smith) passou a dedicar-se a uma nova empreitada, a Gorblimey Press, especializada na publicação de portfólios e fine art. O período foi marcado por uma extraordinária pesquisa gráfica do artista rumo a um classicismo rafaelita, bem como pelo estúdio que dividiu com outros três gigantes das artes gráficas e dos quadrinhos: Jeffrey Jones, Mike W. Kaluta e Bernie Wrightson.

Ao tentar retornar aos quadrinhos, Barry Smith percebeu um terrível efeito colateral do período em que se dedicou exclusivamente ao aprimoramento de seu desenho: ele havia perdido o domínio da narrativa quadrinística. Eis então que o amigo (e veterano dos quadrinhos) Herb Trimpe lhe ofereceu os esboços feitos para a mini-série Homem-Máquina para que pudesse finalizar. Nascia então uma pequena obra-prima dos quadrinhos de super-herói dos anos 80.

No então distante ano de 2020, a robótica mundial é dominada pela Corporação Baintronics, a partir da tecnologia extraída do Homem-Máquina, desativado em 1985. Encontrado acidentalmente pelos Sucateiros da Madrugada - grupo rebelde que produz robôs e androides para o mercado negro a partir de sucata tecnológica -, o herói volta a ativa e inicia sua luta contra a megacorporação, enfrentando, entre outras coisas, uma versão recauchutada do Homem de Ferro. Tom DeFalco nunca foi um roteirista além de mediano, mas aqui ele entrega uma consistente trama de ficção científica - que obviamente fica melhor se comparada ao grosso da produção atual. Se não existem momentos de grande originalidade ou reviravoltas inesperadas, o ritmo preciso, a ação bem desenvolvida e a caracterização dos personagens garantem a leitura de cabo a rabo. Conceitos como os vid-salões (ambientes em que vídeo-viciados permanecem com seus cérebros conectados ao mundo virtual o tempo todo) e a cidadela rebelde flutuante Santuário, colocam a minissérie como uma possível influência não creditada à trilogia Matrix.

Herb Trimpe, falecido em 13 de abril último, foi um profícuo desenhista da segunda geração da Marvel, na virada dos anos 60 para os 70. Fortemente influenciado por Jack Kirby, fez história como um dos principais artistas do Incrível Hulk. É dele, inclusive, a capa da antológica edição da Rolling Stone Magazine que dissecava a editora e seu impacto na cultura jovem do período. Mais ainda, foi de seu lápis que surgiu a primeira aparição de Wolverine, a partir do design criado por John Romita. Se em meados da década de 1980 o próprio Kirby não estava entre os artistas mais populares (eram tempos de Frank Miller e John Byrne), o que dizer de Trimpe? De todo modo, foi a partir dos esboços do quadrinista que se deu o retorno de Barry Windsor-Smith aos quadrinhos. Em magnífica forma.

Trazendo na bagagem o inacreditável apuro técnico adquirido nos anos da Gorblimey Press, Barry Smith usou o storytelling de Herb Trimpe como a fundação sobre a qual edificaria a excelência visual presente em Homem-Máquina. Se na primeira edição ainda é possível reconhecer o design de Trimpe em personagens como o robô C-28 Morte Certa, já nos próximos números o artista iria progressivamente abandonar os esboços do colega - ao ponto de, no capítulo final da série, Trimpe sequer ser creditado. Em Homem-Máquina, o brilho de Barry Windsor-Smith ofusca tudo e todos.

A edição da Panini custa R$ 26,90. Vale cada centavo. A capa (dura e belíssima) é uma demonstração de como se utilizar impressão metalizada e aplicações em verniz a serviço do design da edição - e não como uma isca pega-nerd. Outro acerto digno de nota é a tradução de Érico Assis e Rodrigo Guerrino, onde fica evidente o esforço em preservar/traduzir a linguagem do futuro imaginada por DeFalco em 1984. No caso de uma série não tão popular quanto esta, a ausência de textos explicativos e extras se fez sentir. E definitivamente foi um pecado imperdoável reproduzirem as quatro capas originais (sensacional sequência em que uma parafernália tecnológica progressivamente constitui a cabeça do Homem-Máquina) em uma única página. Resta então a questão da cor...

A capa original da primeira edição

As cores sempre foram um ponto fundamental no trabalho de Windsor-Smith. O artista nunca se furtou a emitir as mais pesadas críticas ao péssimo uso de cores feito pela indústria dos quadrinhos e seu modelo de produção fordiano - que pode botar a perder todo o trabalho realizado nas etapas de desenho e tinta. A partir de seu retorno em Homem-Máquina, Barry Smith jamais deixou de ter controle sobre a arte-final e colorização de seu trabalho. Suas cores possuem função narrativa e são elaboradas levando-se em conta o tipo de impressão a ser utilizada.

Homem-Máquina é um gibi de uma época em que as edições especiais praticamente não existiam no mercado norte-americano. É anterior, por exemplo, ao Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Um gibi típico do período, impresso em papel jornal e com limitada paleta de cores. Foi dentro deste limites que Barry criou sua inovadora colorização. Uma vez que a edição da Panini utiliza papel couché brilhante, a proposta do artista não foi integralmente respeitada. Ainda assim é possível se deleitar com a abordagem cromática do inglês.

Ainda que não tenha status de clássico, Homem-Máquina é uma HQ que representa o potencial dos super-heróis enquanto gênero. No Brasil, ficou cerca de três décadas sem reencontrar leitores - o que, dada a quantidade de lixo nas bancas, é algo lamentável. Sua qualidade intrínseca vem aliada à sua importância histórica: o retorno de um mestre de primeira grandeza dos quadrinhos mundiais. Após Homem-Máquina, Barry Windsor-Smith seria responsável por algumas HQs antológicas da Marvel, como a canônica e definitiva Arma X, momento máximo do personagem Wolverine. Logo depois, seria peça fundamental na editora Valiant, publicaria livros pela Fantagraphics e ainda desenvolveria sue próprio título, o invocado BWS Storyteller, antes de sumir de novo. A esmagadora maioria deste material permanece inédita no Brasil - ou clamando por uma reedição decente. A surpresa de encontrar Homem-Máquina nas bancas acende uma pontinha de esperança em ver mais coisas dele por estas plagas. Barry Windsor-Smith tem feito uma falta dos diabos.

As histórias incompletas de Barry Windsor-Smith




Seguindo com nosso ótimo fluxo de colaborações, recebemos um texto do Professor e Mestre em Literatura pela UnB Eiliko Flores. Tendo se voltado, num doutorado, a um intenso estudo sobre diálogos entre gerações em nossa literatura, Eiliko foi convencido a reler uma antiga paixão, a incompleta e ambiciosa série Storyteller, do ilustrador Barry Windor-Smith, e a escrever sobre ela. Ei-lo:

por Eiliko Flores

Barry Windsor-Smith (1949- ) é conhecido pelo seu trabalho em Conan, o bárbaro, mas principalmente por Arma X, a brilhante graphic novel sobre a origem de Wolverine. Em 1997, artista já consagrado nos quadrinhos, com um estilo único que rendia o privilégio de fazer apenas as capas de muitas revistas, Windsor-Smith decidiu lançar um projeto autoral, criado em seu próprio estúdio. A revista se chamaria Barry Windsor-Smith´s Storyteller, e seria lançada em um formato ainda maior do que aquele usado nas graphic novels usuais. Storyteller era a autêntica criação livre e apaixonada de um artista completo, que escrevia, desenhava e coloria suas histórias.  

 
Storyteller traria três universos de personagens: Freebooters, Paradoxman e Young Gods. Freebooters apresenta a história de “Axus, the great”, um guerreiro e herói cuja fama o transformara em uma lenda. Velho, barrigudo e distante de seus dias de glória, Axus funciona como uma espécie de paródia cômica das histórias de Conan, o Bárbaro.

Paradoxman gira em torno de elementos de ficção científica: a princípio, é a história de Tristan, um homem que viaja pelo tempo em uma moto. O protagonista será abduzido por alienígenas, que criam para ele um mundo imaginário. Talvez o personagem mais carregado e complexo daqueles que habitam Storyteller, boa parte das histórias de Tristan são contadas em um consultório psiquiátrico, que também é parte das ilusões forjadas pelos alienígenas. Paradoxman é uma trama que tentou ganhar profundidade em um questionamento mais amplo do que costumamos reconhecer como realidade. O jargão “this is not reality”, com o qual o protagonista tenta se livrar de suas alucinações, é parte desse desdobramento, bem como a aparição do próprio autor dentro da história, para um bate-papo com seu personagem.


Young Gods,  o terceiro e último universo de Storyteller, é dedicada a Jack Kirby (1917-1994), um dos grandes pioneiros nos quadrinhos americanos, artista que colaborou na criação de quase todos os principais personagens da Marvel. Young Gods, onde Windsor-Smith cita em suas linhas o estilo inconfundível de Jack Kirby, trata de um universo de deuses e semi-deuses metidos em questões triviais, como casamento, discussões em meio a bebedeiras, etc. Assim como em Freebooters, há um clima humorístico presente em quase todos os episódios.

Kirbyesco
Infelizmente, Storyteller se tornaria um projeto inacabado. Após nove edições, a revista foi cancelada, devido ao pouco sucesso comercial. Não podemos culpar apenas os leitores por essa derrota, neste caso: embora exuberante e com um premiado trabalho de coloração, as tramas, enredos e diálogos de Storyteller talvez não estivessem à altura da parte gráfica e, principalmente, não estivessem em harmonia com a pretensão que o formato gigante da revista, a qualidade luxuosa do papel e da impressão inspiravam nos leitores; além dos preços de cada exemplar – altos, embora justos. A primazia visual de Storyteller demandava enredos com mais peso, diálogos melhores e uma concisão que ficou latente.

Quase quinze anos se passaram desde a publicação de Storyteller, projeto ambicioso de um artista experiente e cheio de talento. Entretanto, embora o projeto de Windsor-Smith seja hoje uma ruína, uma construção inacabada, a experiência de ter um dos nove exemplares de Storyteller nas mãos é inigualável para todos aqueles que admiram o inconfundível traço de Barry Windsor-Smith.