Primeiros encontros entre Batman e Superman

Em fevereiro realizamos mais uma edição do nosso curso História dos Quadrinhos - Trajetória de uma Arte Sequencial e nos deparamos com uma turma muito interessada, conhecedora dos quadrinhos e disposta a ampliar e dialogar sobre este conhecimento. Dentre nossos melhores alunos estava o jornalista João Rodrigues, com experiência em jornais, blogs e podcasts, cujo objetivo atual é se especializar em cultura pop. Pedimos para ele escrever algo para a gente e ele trouxe este texto sobre a história dos encontros (e confrontos) entre Batman e Superman nos quadrinhos, aproveitando o gancho do novo filme de Zack Snyder. Como o filme saiu esta semana, achamos que era bom apresentar a vocês não apenas o texto, mas também este novo colaborador. Aproveitamos o espaço para, na caixa de comentários, debatermos também a respeito da qualidade do filme, que tem dividido opiniões. De um lado, a crítica "chauvinista" que achou seu roteiro irregular, cheio de furos e com precária caracterização dos personagens. De outro, os fãs dos personagens, que ficaram exultantes com o caráter sombrio, e boa direção de arte e os desdobramentos realistas do filme. E você, o que achou? Valeu João! (CIM)

por João Rodrigues

Batman vs Superman - A Origem da Justiça está chegando. O filme de Zack Snyder continua as histórias do Homem de Aço interpretado por Henry Cavill e trará o primeiro encontro dele com Ben Affleck no papel de Batman.  Pelos trailers e sinopses apresentados, já é fato que Bruce Wayne vai caçar Superman por causa da destruição causada na luta entre o herói e o general Zod. Para quem acompanha quadrinhos, o que foi divulgado até o momento não é nenhuma surpresa: os dois irão se enfrentar e logo virarão parceiros.  Porém, alguém sabe como se deu o primeiro encontro entre os dois nos quadrinhos? Bem, antes de fazer essa pergunta é preciso especificar de qual história (em que os dois estrelam pela primeira vez juntos) estamos falando. Sim. Heróis de gibis americanos têm sua origem recontada diversas vezes para não ficarem desatualizados com o passar do tempo.  Assim, personagens octogenários como Batman e Superman já se encontraram pela "primeira vez" muitas vezes.  Vamos conhecer alguns dos primeiros encontros entre os dois:

O primeiro dos primeiros:

O primeiro encontro: absurdo e na surdina

No período pós Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de super-heróis ficaram impopulares devido à onda de pessimismo devastadora deixada na sociedade norte-americana pelo conflito. Poucos heróis não foram cancelados. Superman e Batman foram dois deles (lembrando que a Marvel Comics ainda era chamada de Timely Comics e seus heróis populares - Homem-Aranha, X-men, Quarteto Fantástico - ainda não tinham sido criados).  Em Superman 76, publicado em 1952, Clark Kent e Bruce Wayne estão viajando de férias no mesmo cruzeiro. Como o navio estava lotado, os dois foram hospedados na mesma cabine. Do lado de fora, Lois Lane se mete em perigo para variar. Os dois heróis precisam se vestir para ajudar. Para não ser descoberto, Bruce diz que vai dormir e apaga a luz. Ele queria virar o Batman para ver o que estava acontecendo. Clark aceita, já que também pretendia aproveitar a escuridão pela mesma razão.

Porém, a luz de um farol ilumina o quarto deles e ambos vêem um ao outro assumindo suas identidades secretas. Sem nada podendo ser feito, os heróis se unem e resolvem a situação e prendem os responsáveis por uma tentativa de assalto. Depois, Clark e Bruce trabalham em conjunto para convencer Lois Lane de que eles não são Superman e Batman. A história possui toda a simplicidade e inocência costumeiras da Era de Ouro. Foi escrita por Edmond Hamilton e desenhada por Curt Swan. 

Na verdade, ambos já dividiam a mesma revista, World's Finest Comics, mas em histórias separadas. Após Superman 76, eles se encontrariam diversas vezes. Na Era de Prata, eram muito amigos.

O primeiro após Crise nas Infinitas Terras:

Em 1985, a DC Comics lançou a minissérie em 12 edições Crise nas Infinitas Terras. A saga foi criada para acabar com a cronologia confusa de décadas  e com a ideia das terras paralelas do Universo DC. Ao término dela, só uma terra existia e a origem de todos os heróis foi atualizada e recontada. A de Batman aconteceu no famoso arco de histórias Batman - Ano Um, escrita por Frank Miller, nas edições 404 a 407 de seu título mensal nos Estados Unidos. Já o Superman foi totalmente revitalizado pelas mãos de John Byrne na minissérie The Man of Steel, com desenhos de Dick Giordano. Com personalidades bem diferentes das da Era de Ouro, a nova versão do primeiro encontro dos dois, que aconteceu na terceira edição do arco, não foi amistosa como a anterior.  

Batman está em Gotham City caçando uma vilã quando sua corda é puxada por Superman, que queria prendê-lo por suas atividades ilegais de vigilante. Sabendo que esse encontro podia acontecer um dia, o Homem-Morcego diz que se o kryptoniano tocar nele, uma explosão acontecerá em algum ponto de Gotham matando um inocente.

Sem escolhas, o alter-ego de Clark Kent ajuda o morcego em sua caçada. Após a vilã ser presa, Superman descobre que Batman mentiu parcialmente e que a única vida em risco era a dele mesmo. Assim, mesmo contrariado, o Homem de Aço adquire um pouco de respeito e o deixa em paz. Bruce o vê partindo e lamenta que não possa chamá-lo de amigo. 

A história enfatiza a diferença entre um e outro. Um representava a luz e a esperança. Outro, a frieza e o pessimismo adquirido pelo assassinato dos pais. Obviamente, mais tarde ambos viraram amigos e atuaram juntos diversas vezes e também na Liga da Justiça.

A trama se passa no período conhecido como Era de Bronze dos quadrinhos norte-americanos. Nessa época, o comics code authority (Código de Ética dos quadrinhos americanos) estava em declínio. A inocência criada na Era de Prata deu lugar a tramas com elementos mais pesados como drogas, guerras e questões sociais que eram debatidas na época. Mesmo os que não traziam esses temas acabavam mostrando personagens com mais toques de realismo em seus comportamentos. 

Assim, Byrne e Miller deram comportamentos totalmente diferentes e bem definidos aos dois heróis no período Pós-Crise. Eles se respeitavam mutuamente, mas um desaprovava os métodos do outro. Suas aventuras conjuntas retornaram com Superman/Batman, publicada entre 2003 e 2011. Jeph Loeb escreveu os 25 primeiros números, mas saiu depois. A série terminou na edição 87. O primeiro arco da revista - Inimigos Públicos - virou animação em 2009.

Novos 52 e novo primeiro encontro:

Quase trinta anos depois de Crise nas Infinitas Terras, a DC novamente resolveu reiniciar sua cronologia e começar do zero. Assim sendo, os heróis tiveram suas origens novamente contadas. Esse é o mundo dos Novos 52. 

Esse primeiro encontro dos dois heróis não ocorreu somente entre eles, mas com todos os membros que formariam a Liga da Justiça. Na trama escrita por Geoff Johns e desenhada por Jim Lee, Batman conhece o Lanterna Verde e ambos estão sendo caçados por policiais que consideravam os vigilantes perigosos na época. No final da primeira edição, Superman aparece. 

Pensando que o Cavaleiro das Trevas e o Gladiador Esmeralda eram os responsáveis por um ataque que sofreu mais cedo, Superman avança contra ambos. Logo, o Flash aparece tentando acalmar a situação e evitar danos, mas acaba piorando as coisas. Sempre frio e calmo, Batman consegue ser ouvido por todos e explica que não teve nada a ver com o ataque. Como a polícia aparece novamente, os quatro fogem. 

Não irei me prolongar muito na história, pois ela não é o ponto deste texto. Os demais membros - Cyborg, Mulher-Maravilha e Aquaman, aparecem depois e todos detêm uma tentativa de invasão à terra liderada por Darkseid. Após o confronto, a Liga da Justiça é formada. O arco foi publicado entre a primeira e a sexta edições da segunda série da revista Liga da Justiça pela Panini Comics, e também no encadernado, lançado recentemente, Liga da Justiça - Origem. Uma versão animada da história (Justice League - War) também foi lançada. Até o momento, essa é a atual origem da parceria entre os dois.  Não há um consenso sobre o nome da era que estamos vivendo e nem uma caracterização dela. Hoje, temos diversos tipos de histórias dentro do mesmo universo. Boas, ruins, infantis, juvenis, adultas...

No caso d'Os Novos 52, a DC está sendo criticada por tirarem elementos importantes da personalização dos heróis. O Superman não fez sucesso. A nova versão não traz sua personalidade e imponência combinados à  humildade, como estamos acostumados. É um herói que não tem como inspirar os demais. Alguns super-heróis de quadrinhos estão sofrendo com o sucesso do cinema. Claro que é bom que os filmes estejam aí! Mas não podemos misturar as coisas. As HQs precisam manter suas identidades e não misturarem as coisas. Senão, os heróis podem não alçar os voos gloriosos de outrora.

Medo de um planeta negro!



Temos recebido colaborações de gente legal e preocupada em pensar o mundo dos quadrinhos. Ficamos extremamente felizes com o entusiasmo das pessoas em torno do conceito do site. Esta última é muito especial, porque vem de um cara que tanto eu quanto o Pedro admiramos enormemente. Lima Neto é artista plástico, quadrinista e empresário, e é responsável por uma parada obrigatória da cultura pop em Brasília: a gibiteria Kingdom Comics, no Conic. Esta loja é, desde os anos 90, ponto nevrálgico do debate quadrinístico na cidade, onde passam grandes figuras, são trocadas grandes ideias e construídas grandes amizades. Lima não apenas mencionou a RL no (ótimo) blog da loja, como nos ofereceu a republicação de um texto lúcido e necessário. Só temos a agradecer. (CIM).

por Lima Neto

Se você leu qualquer site ou blog de quadrinhos nesses últimos dois dias, já deve estar por dentro de duas novidades que veem tendo uma grande repercursão no mundo dos gibis.

Como essas notícias jã não são mais novidades e foram amplamente divulgadas até pela imprensa leiga, não vou temer spoilers…

A primeira notícia se refere ao Homem-Aranha do universo Ultimate. Como já noticiamos em nosso site, a Marvel deu carta branca para a equipe criativa do universo de Marvel Millenium para ousarem e escreverem o tipo de estória que nunca seria visto no universo convencional da editora. Esse com certeza é o maior presente que um escritor poderia receber e é uma ótima notícia também para os leitores ávidos por novidade. Sendo assim, munido de uma liberdade editorial inédita em um título do Aracnídeo, o escritor Brian Michael-Bendis botou as mangas pra fora e revirou o mundo do Ultimate Spider-man de cabeça para baixo. Peter Parker encontrou seu fim em um dos momentos mais tocantes da série e foi substituído por um novo personagem: Miles Morales. Jovem e negro de decendência latina.


Outra novidade que vem causando arrepios na espinha da juventude W.A.S.P (Branco, Anglo-saxões e Protestantes) norte-americana é a escalação do ator Laurence Fishburne como o novo Perry White, o editor irrascivo do Planeta Diario,  na nova superprodução de Zack Snyder.

Ambas as notícias foram recebidas com milhões de e-mails espumantes que podem ser classificados em uma enorme pasta com o nome de “Não sou racista, mas…”

A indústria de quadrinhos mainstream nos estados unidos, ou seja Marvel e DC, vem se debatendo como peixes fora d’água para se adaptarem às mudanças extremas que o mercado está sofrendo. A editora pertecente o grupo Warner e casa do Super-homem e Mulher-Maravilha já vem passando por mudanças polêmicas que, além de professarem o fim do quadrinho impresso mensal, com a publicação simultânea online e nas bancas, ainda acena com uma preocupação formal de promover uma inclusão de minorias sociais dentro de seus títulos. Mesmo que algumas afirmações truculentas do editor chefe da casa, Dan Didio, quase tenham levado esses planos por água abaixo (Didio respondeu agressivamente a uma leitora que o questionou sobre o por quê da editora ter reduzido o número de mulheres trabalhando na casa de 12% para 1%), a editora aumentou sensivelmente a variedade racial/social/sexual em seu relançamento, optando por manter alteregos diversos no lugar dos originais anglo-saxãos como o Elektro. Enquanto isso, a Marvel aproveita seu universo alternativo, o universo Ultimate, para explorar os benefícios que a diversidade cultural pode trazer ao mercado. A equação é óbvia, se estamos perdendo leitores a solução é trazer novos leitores que não se sentiam representados em nossos títulos.

Fanboy argumentando: "Heimdall é um deus nórdico! É incoerente!"
Essa equação não foi o resultado de um raciocínio comunitário em direção à sobrevivência, mas uma lição ensinada pelas suas companhias irmãs de Hollywood, que reconhecem já a muito tempo o quanto pode ser lucrativa a diversidade. O que não quer dizer que estejam livres de polêmica. O recente filme do Thor deixou eriçado até leitores brasileiros com a escolha de Idris Elba como Heimdall, fato que se repete agora com o novo Perry White e antes ainda com a escolha de Michael Clarke Duncan como Rei do Crime (que causou bem menos rebuliço do que o fator Heimdall, por que será?…).

Porque sou o rei... do crime?
A principal reclamação dos fãs é que tudo isso modifica a mitologia de seus personagens. Que altera cânones sagrados das comic books. Eu chamo isso de posição reacionária.

Peter Parker, Perry White, Clark Kent e Miles Morales tem uma coisa em comum. São todos personagens fictícios, criados por seres humanos que são um reflexo da época em que vivem e naquilo que acreditam. São ideias. O problema é que estas mesmas ideias são cultuadas com um fervor quase religioso pelos fãs, o que acaba por engessá-las e anulam a habilidade das boas ideias de serem abrangentes. Muito provavelmente nos guetos do bairro judeu de uma Nova York atolada na depressão do final dos anos 30, a diversidade de culturas fosse algo bem difícil de experimentar, mas isso não é motivo para se levar essa experiência limitada para frente só por que foi assim que ela foi “criada”. Concordo que certas modificações burocráticas a título de preenchimento de cotas em detrimento do roteiro são questionáveis. Mas ter a oportunidade de ver um ator do calibre de Laurence Fishburne encarnando um personagem querido como o Perry White é um prazer pra qualquer apreciador de cinema. E a gama de possibilidades que se abre com um novo Homem-Aranha, e o aroma fresco da ousadia e da criatividade põem por terra qualquer argumento reacionário onanista que apareça.

“Inteligência. Essa é a única arma capaz de deter a decadência” como diz a banda Cidadão Instigado. Os quadrinhos estão passando por uma de suas piores crises desde sua criação como mídia de massa. E ele só vai poder sobreviver se se transformar e se adaptar. E somos nós, leitores, que temos a responsabilidade de guiar esta transformação para algo que valha a pena ser lido. Queremos representatividade social e cultural, queremos estórias dinâmicas e relevantes e, acima de tudo, queremos criatividade e inovação!

O título desse artigo é o título de uma música do grupo norte-americando Public Enemy chamada Fear of a Black Planet.

Eu diria: Não temam um planeta diverso!

Supernirvana: All-star Superman no Iphone






















por Ciro I. Marcondes

Nos últimos tempos, vem me ocorrendo essa necessidade inexplicável de retratações ambíguas, e é um tipo de processo um pouco angustiante, mas satisfatório. Justiça seja feita. Se em primeiro lugar veio um texto baita elogioso sobre Thor, chegou a vez de pensar novamente em Superman. Este texto já estava planejado, mas vem a calhar, já que não vale a pena ficar pensando no Super apenas como um fetiche cultural do bully ou do escoteiro. Partindo do mesmo Grant Morrison de quem parti em “Superbully Americano”, a ideia é trazer uma visão espelhada, em tudo um negativo da outra, da primeira apresentada.

Eu já vinha lendo a HQ All-star Superman antes mesmo de começar a ler o Superman crônicas, que inspirou o texto “Superbully americano”. Escrever sobre Superman já era um interesse de longa data. Acho que, nessa altura de vida e dos nossos tempos, cabe pensar um pouco num dilema difícil, que acompanha as pessoas no presente. Que tipo de homem deve-se querer ser? Deve-se avançar até o limite de sua própria potencialidade e produtividade, buscando superar sempre as próprias condições de atuação no mundo? Ou deve-se conformar com nossa condição limitada, mortal e modesta, tornando-se o homem comum uma carapuça confiável e justa, dentro da condição de cada um em alcançar a própria felicidade?

Acredito que o mito de Superman tem a ver com isso. Usei, portanto, a minissérie All-star Superman (publicada em 2007 pela Panini sob título Grandes astros Superman), cultuada parceria do escocês Grant Morrison com o célebre ilustrador Frank Quitely (publicada originalmente entre 2005 e 2008), para ao mesmo tempo instigar este tipo de questão mais filosófica sobre Superman e testar a leitura de uma HQ mais longa no Iphone, procurando pensar também na mudança de input na recepção da leitura dos quadrinhos que este tipo de gadget proporciona.

Uma tarefa, portanto, que resume certo grau de imaterialidade e eternidade (“buscar os aspectos quintessenciais da mitologia do Superman”, parafraseando Morrison) com a fortuita mudança de suporte para os quadrinhos, que pode ser bem passageira e sugere volatilidade (ler pelo Icomics no Ipad ou pelo CDisplay já é diferente, e não sabemos qual(is) modelo(s) de leitura digital pode permanecer). Vou dividir este texto, então, em pequenos blocos alternando comentários pontuais sobre All-star Superman em si e outros processando as sacadas que a dinâmica para quadrinhos que o app da DC para Iphone (que é idêntico ao da Marvel) me proporcionou. Espero que gostem da leitura.

"Não tem jeito fácil de dizer isso, então vou dizer logo!"
1 – Supercâncer: Para os que não conhecem, All-star Superman foi um segundo lançamento desta série All-star, que buscava resgatar, fora da cronologia “oficial” da DC (e pensar que agora tudo já se esculhambou mais ainda), aspectos interessantes dos heróis clássicos, revalorizando determinado conceitos. Esta história é geralmente pensada como uma espécie de criação do livro de mitologia definitivo para o Superman, trazendo de volta a beleza arquetípica de cada personagem importante envolvido em seu universo. O plot básico é muito simples, mas se complexifica: Luthor consegue fazer com que Superman entre dentro do sol para realizar um perigoso resgate. O contato tão violento com a colossal virulência energética do sol produz uma absurda sobrecarga nas células do próprio Superman (lembremos que é justamente a influência do nosso sol amarelo que dá os poderes ao herói). Ele desenvolve novos poderes, sente-se ainda mais invulnerável (e eu que já pensara que ele próprio era o limite disso tudo), mas logo descobre que esta sobrecarga fará com que, logo, suas células se convertam em energia pura. Ou seja, Superman está condenado à morte, através de uma espécie de supercâncer. Este conhecimento revoluteia em nosso herói, que, impassível e com clareza de raciocínio também amplificada, reconhece o próprio papel que exerce no planeta Terra e decide realizar doze tarefas profeticamente atribuídas e ele, afim de, determinadamente, deixar tudo organizado para que o mundo possa sobreviver “bem” sem a presença de um Superman. Cada edição da série é, ao mesmo tempo, voltada nostalgicamente a um personagem ou ambiente do universo de Superman. Assim, vamos nos deparando com enfoques distintos em Lois Lane, Jimmy Olsen, o Planeta Diário, Lex Luthor, a dinastia futura dos Supermen, os Kents, Lana Lang, Smallville, o Planeta Bizarro, Kandor, a Zona Fantasma, etc. Analisar em detalhe isso tudo seria perda de tempo e redundância. Vou me ater ao conteúdo mais reflexivo que vi na série.

2 – Um Apolo, um Buda, um Cristo: Acho um engano pensar que All-star Superman seja algum tipo de concentração mítica das características quintessenciais associadas ao Superman. Vamos pensar que, coletivamente, a figura do Superman em muito se distanciou de sua representatividade para os quadrinhos. Para quase todo cidadão comum, Superman é uma figura prototipal e genérica do super-herói em si, traduzida na fórmula “valores morais padrão (estilo “direito humanos”) + poder para resolver isso na base da porrada, ultrapassando legislações e fronteiras nacionais". Superman, na coletividade, acaba sendo mesmo um supersoldado ocidental guiado pelo senso comum, mas ao mesmo tempo incapaz de um traquejo mais malicioso com as condições mais banais da vida humana. Pensemos que ele é eternamente incapaz de resolver sua situação com Lois Lane, sendo nesse sentido bem humano, bem impotente (sabe-se lá em que graus de impotência. Vamos reconhecer que ele deve ser, quase com certeza absoluta, virgem!).

Virgem?

Frank Quitely
Não é este o Superman que Morrison inscreve em All-star Superman (ainda bem). O elegante herói que vemos aqui, de profunda (e quase religiosa) nobreza de caráter, de estoica consciência sobre sua própria condição, e possuindo enorme sagacidade e límpida inteligência, é um desdobramento da cultura quadrinística a respeito do herói, e são seus leitores fiéis é que transpiram esta nostalgia e são consumidos pelo caráter zen e holístico da história. Neste sentido, esta série atravessa o mundo científico louco e surreal de Superman, com suas cidades encolhidas e universos ao contrário, com seus viajantes no tempo e criaturas que devoram sóis. O grande magnetismo, com desdobramentos probabilísticos e quânticos que Morrison (um notório interessado em psicotrópicos fortes e contracultura transcendental) provoca com esta história não parece ser exatamente o lado humano de Superman, mas o reconhecimento de sua condição divina, num entrecruzamento de fábulas, levando tudo isso a um patamar de maturidade e fazendo do personagem uma serena e empolgante mistura de Apolo, com Cristo, com Buda.

A arte de Quitely com certeza ajuda a reforçar estas ideias. Dono de um traço leve e humanístico sem deixar de ser escultural, ele ilustra estas disposições embelezando componentes de mitologia com fascinante detalhismo, mas mantendo os personagens com expressões bem puras. Este apelo meio renascentista (a leveza dos seus gigantes sempre me pareceu um pouco botticelliana), meio barroco (neste caso, a multitude de objetos e cenários) parece mesmo transmitir esta tensão, tão secular, entre razão e espiritualidade que a série deixa transparecer.
3 – Quadrões? Adquiri as 12 edições de All-star Superman pela próprio reader da DC no Iphone, e o ato de comprá-las é simples, rápido e eficaz. Cada uma delas custou $ 1,99 e, na conversão atual do dólar, a série completa saiu por cerca de R$ 18. Achei honesto. Em princípio, a leitura de uma HQ mais densa no Iphone pode chamar atenção pelo desconforto (o aparelho, ao contrário do Ipad, é muito menor que uma revista), e muitas vezes mesmo os quadros individualizados na interface dele são menores do que os publicados em papel originalmente. Porém, o dispositivo que o aplicativo oferece pra resolver esse problema é não só interessante para travarmos um contato mais minucioso com a arte da HQ, como provoca esta sensação curiosa de aproximar as HQs do cinema. São 3 fatores que me fazem arriscar a dizer isso, e este é o primeiro deles. Explico: no Iphone, temos a opção de ver, antes ou depois de ela ocorrer, a página inteira miniaturizada, mas uns 90% da leitura se dá quadro-a-quadro, cada um deles projetados integralmente na telinha. Cada “quadrinho”, portanto, se torna um “quadrão” individualizado.

A vantagem que temos, nesse caso, é a de passear livremente pela superfície desse “quadrão”, aplicando todo tipo de zoom, ao nosso bel-prazer. Nosso olho se torna mais móvel, e nosso dedinho, correndo pela imagem, uma extensão daquele. Isso tudo me lembra a pioneira teoria cinematográfica de Hugo Munsterberg, quando ele dizia que o cinema era um dispositivo que replica nosso próprio processar mental: se o “quadrão” do cinema nos joga diante de um close-up ou um zoom, ele estaria replicando nosso ato físico de aproximar o olho de um cenário ou objeto, com a diferença de que, neste caso, estamos paradinhos na poltrona e o “mundo” se movimenta em direção a nós. No caso da HQ pelo Iphone, um fenômeno misto ocorre: nosso “olho”, mediado pelos dedos, se aproxima do “mundo” desenhado pelos quadrinhos mas, nesse caso, ele não é “dirigido” pela temporalidade cinematográfica, mas sim pela nossa velocidade própria de leitura, conforme fazemos sempre nos quadrinhos de papel.

aqui tem uma resenha em vídeo do app da Marvel:



4 – O gênio de Superman: Para mim, o melhor par de nêmesis do mundo dos super-heróis continua sendo (e creio que sempre será) a querela Superman x Lex Luthor, por suas condições que evidenciam uma proporção inversa: nosso herói é invulnerável, e poucas coisas podem realmente lhe ameaçar. Sua condição de defensor é quase um truísmo: ele deve proteger, supostamente porque não há nenhum outro capaz de fazer isso. Morrison evidencia isso no final da história, quando enquadra Superman como um tipo de consciência cósmica, enxergando os fios transcendentais que unem os aspectos da realidade e tornando sua função de defensor e unificador uma inevitabilidade.

Clark...

Porém, nosso senso comum coloca sempre Superman como condicionado por uma moralidade autoevidente, do tipo “tem um prédio em chamas? Vou lá salvar todo mundo e apagar o fogo”. Mas as nuances da moral com certeza não são autoevidentes como a cultura do bom-mocismo quer passar, e é nesse ponto que Luthor – uma figura fascista, 100% compenetrada na certeza de que sua própria inteligência e genialidade são também truísmos e de que é uma conclusão lógica que ele deva ser o governante mundial – estabelece o contraponto básico desta relação: pode um homem normal, munido apenas de arrogância, autoconfiança ensandecida e genialidade, derrotar algo fisicamente indestrutível e guiado por um senso moral comum, mas sólido e legitimado?

Aqui, Morrison dá uma resposta que subverte os clichês de ambos os personagens, sem sacrificar a tal “quintessência” deles. O “câncer” de Superman e todo o plano de matá-lo é previsivelmente uma grande arquitetação de Luthor, e até aqui nada parece estar fora do lugar. Porém, a grande sacada do escocês é a ideia de que Superman simplesmente não é quem ele parece ser. Filho de uma linhagem avançadíssima de seres alienígenas, Kal-El não herda simplesmente a sobrenaturalidade física de seus ancestrais, mas também uma inteligência sobrenatural. Lembremos que Kal-El/Superman/Clark Kent é filho de Jor-El, o mais brilhante cientista de Kripton, e Morrison o transforma também em um tipo específico de cientista. Em All-star, Superman sabe muito bem o jogo de disfarces que precisa operar em suas várias identidades na Terra, mas é a consciência sobre-humana de kriptoniano que parece ser seu local de maior conforto. Como parte de seu testamento, Superman lega à humanidade a fórmula para que, após seu fim, um novo Superman (“Superman 2”) possa ser criado. Enquanto isso, desenvolve em laboratório uma “mini-Terra” em que tudo no nosso mundo é igual, mas sem a existência do Superman. Morrison faz sua homenagem ao universo do leitor fazendo-nos perceber que esta Terra experimental é o nosso próprio mundo “real”, e Superman aparece como personagem de quadrinhos, criado por Siegel e Shuster.

Enquanto isso, Luthor é condenado à cadeira elétrica por crimes contra a humanidade, e a edição em que Clark vai entrevistá-lo para registrar suas últimas palavras é uma das melhores da série. Arrogante, Luthor não admite temores (muito menos da morte), e sua visão e simpatia pelo abobalhado Clark como o absoluto oposto de Superman é a grande aporia que faz seu plano naufragar: gênio como poucos, Luthor (como todos) não enxerga o óbvio. Na última edição, a relação finalmente se inverte e coloca os personagens em suas reais limitações. Superman já está no fim de sua vida, muito enfraquecido pela “doença”, e Luthor (por meio de algum technobubble que não me lembro direito) adquire os poderes divinais do herói por 24 horas. Tudo parece perfeito para a conquista global, se Luthor simplesmente não ficasse paralisado em meio uma epifania causada pelo estado de ser Superman, em sua consciência superior, por algumas horas. O contato não com os superpoderes, mas sim com a ontologia divinal, deixa Luthor confuso a respeito de seus propósitos, e ele reconhece uma verdade ao mesmo tempo mística e científica nas ações altruístas e na compaixão de Superman. A ironia de tudo é que este estado é provocado após Luthor ser atingido por um raio gravitacional (?) por um frágil Clark Kent, acelerando a superconsciência do vilão. No final das contas, a inteligência se prova um estado mais refinado que o de elaborar grandes planos.


5 – Fim da página: Ler quadrinhos no Iphone logicamente nos distancia do conforto físico que é o ato de virar páginas e dobrar uma revista. Esta imaterialidade não é o único problema, já que o próprio formato do Iphone é um pouco inadequado para este ato. Ler na cama, por exemplo, requer uso constante das duas mãos, e isso se torna cansativo. Essa projeção do mundo de quadrinhos para uma completa imaterialidade tem também um desdobramento na própria percepção do conteúdo, e mais dois aspectos fazem isso se aproximar de percepção imaterial que é o cinema (ninguém “toca” o filme, certo?).

Em primeiro lugar, a abstração da noção de página. Por mais que a gente vá acompanhando mais ou menos a disposição dos quadros num vislumbre rápido da página, a sensação geral é de um emaranhado impreciso de “quadrões” em sequência. Para alguns, aqui a arte dos quadrinhos perde algo essencial. Como diz o pesquisador David Carrier: “A página não é um elemento neutro, meramente passivo, e sim constitui um aspecto visual distinto e ativo”. As incríveis páginas de temporalidade simultânea, específicas das HQs, na edição da fuga de Luthor, por exemplo, passam batidas, no Iphone, a um leitor incauto. O efeito disso, portanto, é de pura virtualidade: tudo aquilo que se transmite como uma simultaneidade expressiva (a página, a ordem e a disposição dos quadros dentro da composição da página) se converte em uma simultaneidade em sucessão, quando, sintaticamente, temos que absorver a história numa linha bem mais direcional, imagem por imagem, exatamente como é a (imensa) sucessão de “quadrões” do cinema.


Este efeito se confirma com mais um recurso do reader da DC para Iphone: os movimentos de “correção” que adicionam um grau de temporalidade e duração aos quadrinhos. Ora, a gente sabe que os quadrinhos possuem uma temporalidade complexa a intricada, basta ler o velho McLoud, mas a noção de “duração” era bastante ausente, justamente porque os quadrinhos são mesmo... parados. No Iphone, cada quadrinho acaba sendo dividido em sub-partes que vão sendo mostradas, num interessante movimento automático feito pelo aplicativo, uma a uma, em detalhes, para o leitor. Assim, certo suspense pode ser acrescentado a um mesmo quadro quando, por exemplo, ao lermos o detalhes da fala de um personagem, não sabemos a forma e o teor da resposta do interlocutor no mesmo quadro (o que seria visível numa leitura de HQ física). O corretor “oculta”, então, os detalhes adicionais, não só enrijecendo a ordem com que lemos as HQs como mostrando os detalhes na medida em que vamos pressionando a tela, criando movimentos e dinâmicas específicas dentro do quadro. Esse proto-movimento nos aproxima, é claro, de imagens animadas, e muitos querem sugerir que, no futuro dos quadrinhos, está o desenvolvimento deste potencial.

(fiz um videozinho pra demonstrar esses efeitos todos. Perdoem os aspecto... hmmm... rudimentar da minha câmera)




6 – Super-nirvana: Por fim, e como conclusão, vale mais uma observação a respeito de um ato de All-star Superman. Duas edições dela são dedicadas ao aparecimento do planeta Bizarro (“Htrae”), dos confins de uma dimensão inferior, na órbita da Terra, que é invadida por genéricos “bizarros” que passam a assumir formas “bizarras” da população. Esta ideia, do Bizarro (bem popular no desenho “Superamigos”), pode parecer invenção maluca e ingênua, mas às vezes as ideias simplesmente se complementam sem a gente perceber. Se a mitologia de Superman é em tudo um conto sobre a perfeição, no planeta Bizarro tudo é tão absurdamente imperfeito que nem mesmo Superman pode fazer qualquer coisa por ele (neste caso, em sua infalibilidade, Superman é o mais inútil dos seres). Já fraco e próximo do fim, Superman é tragado para a superfície do planeta, e todo seu esforço pode ir por água abaixo porque ele já não pode voar e perde a superforça. Sua única salvação se encontra em construir um foguete e voltar para a Terra. Este plot, porém, não é mais interessante do que a aparição de Zibarro, um tipo de desdobramento do Superman de tal maneira raro em Htrae, com uma genética tão única e acidental, que possui... inteligência, consciência, talento e sentimentos. Zibarro é ridicularizado pelos outros “bizarros” por ser considerado uma aberração, e se queixa de sentir colossal solidão. Este episódio em Htrae é um dos mais poéticos da série não apenas porque, a partir de uma relação negativa, conhecemos a solidão divina do próprio Superman, mas também porque é um dos momentos em que a arte de Quitely se supera, criando uma paisagem vermelha, apocalíptica e desoladora, inundando a HQ com comovente tristeza gráfica.

Bizarro

O contraste trazido à tona por Zibarro, o poeta solitário de Htrae cujo único sonho é se sentir normal, num mundo de normais, nos traz de volta àquele primeiro questionamento, entre a ambição do “super” e o conforto estoico do “comum”. Morrison evidencia, com Luthor e com Zibarro, que “caminhar sobre ombros de gigantes” nem sempre é uma experiência de magnitude, a não ser a magnitude sublime do abismo, a terrível solidão dos deuses e gênios. Estas passagens nos transmitem as nuances da visão de mundo atribuída a Superman, e a maneira com que ele sublima todos estes paradoxos curiosamente remete a uma ideia clássica do imaginário do super-herói: a persistência. A despeito destas trevas trazidas à tona pelos outros personagens, em nenhum momento Superman, Kal-El, Clark ou todos juntos parecem hesitar. A atribuição de Superman é da autoconsciência de um destino cósmico, de uma razão já calculada sobre suas ações no mundo, de uma investigação já encerrada sobre as fronteiras da moralidade. Este Superman de Morrison é um ser olímpico, apolíneo, e a dúvida é um benefício (?) dos mortais. Diante de sua própria morte, Superman não hesita e insiste em cumprir, irrevogavelmente, todas as suas doze tarefas com perfeição, deixando a humanidade preparada para sua ausência.

Zibarro

No final da história, num ato de metempsicose que remete às experiências com o oculto de Grant Morrison, Kal-El já está numa dimensão de certo além-vida, em transfiguração da matéria que torna oblíquos o tempo e o espaço. Ele vive numa vida em que Krypton nunca foi destruída, e, conversando com seu pai Jor-El, percebe que não cumpriu todas as suas tarefas em sua materialização imediatamente anterior, na Terra. Jor-El explica que voltar no tempo, reconfigurar a realidade e mesmo transmutar-se novamente para uma vida anterior são escolhas nossas. Sem hesitar, Kal-El realiza (como um deus, vejam bem, não como humano) a escolha de retornar, tendo já, há sabe-se lá há quanto tempo, percebido o fundamento de sua persistência implacável. Superman retorna e, como tantos deuses, adquire o dom de subverter a morte. Seu retorno acontece para que ele possa salvar a Terra da destruição do nosso sol, enfermo graças à ação de Solaris, um sol maligno e artificial. Sabendo, numa consciência claramente transcendental, que suas próprias células se tornaram baterias solares e que ele mesmo se tornará umas espécie de sol, Superman sublima sua própria existência e voa para o centro da estrela que ilumina nosso planeta, não apenas recompondo-a, mas tornando-se parte dela. Isso parece ou não, afinal de contas, uma espécie de nirvana?

SUPERNIRVANA!

All-star Superman também virou, em 2011, animação pela Warner. Veja a primeira parte:








Superbully Americano




por Ciro I. Marcondes

Por uma questão de coincidência, a DC Comics acaba de zerar novamente (“reboot”) seu universo, no legítimo sentido mercadológico de adaptar seus personagens às novas condições culturais, justamente no momento em que eu preparava este texto a respeito das primeiras histórias do Superman, datadas de 1938, republicadas pela Panini sob o título de “Crônicas – Volume 1, em 2007. No reboot em questão, a mitologia do personagem será repensada a partir de uma ideia muito conveniente de Grant Morrison: a de trazê-lo de volta às suas raízes mais profundas. O novo “velho” Superman não vai voar (apenas dar uns saltos muito grandes) e seus poderes divinais serão consideravelmente reduzidos. Da mesma forma, ao invés de supervilões intergalácticos e de outras dimensões, este novo Superman estará a serviço do cidadão comum, combatendo gangsters, falsários, políticos corruptos, etc. De fato, estas alterações (radicais a ponto do “azulão” vestir calça jeans) possuem uma convergência com o Superman de Jerry Siegel e Joe Shuster. Mas que Superman era este?

As origens culturais do Superman são mais ou menos bem conhecidas: mistura de herói de ficção científica pulp, com herói de capa e espada, com halterofilista. O seu surgimento – os autores o criaram em 1932 e tentaram vendê-lo no usual formato de comic strip, mas só conseguiram publicá-lo no formato de comic book, em 1938) – dentro de um mundo de publicações pop muito crescentes nos anos 30 que incluíam toda espécie de histórias fantásticas, poderia ser, de certa forma, previsto (vide outros justiceiros mascarados precedentes). Porém, usando uma linguagem contemporânea, este meme que se inaugura com Superman – o do super justiceiro com poderes esdrúxulos advindos de explicações científicas grosseiras (considerando o mundo sci-fi B das histórias de alienígenas como tal), usa roupa esquisita e protege os fracos e oprimidos – foi disparado com a grande sacada de Siegel e Shuster. Como podemos ver pelo sucesso deste mesmo arquétipo nos dias de hoje, foi um meme vitorioso, adaptado ao imaginário cultural do século 20.


O que é mais interessante ao se ler “Superman Crônicas”, porém, são as mutações que este arquétipo sofre no decorrer do desenvolvimento do personagem, e que revelam como nos apropriamos e hiperdimensionamos os conceitos de “super”, “homem” e “herói” de maneira que o original não previa. O Superman de Siegel e Shuster é um produto dos anos 30, ao mesmo tempo herdeiro das reformas de Roosevelt e do avanço da cultura americana como modelo para o mundo. No caso do cinema, é o momento em que os conglomerados de distribuição mundial ganham força, e políticas de boa vizinhança são instauradas. Os gêneros clássicos do cinema falado ganham corpo e presença, e passam a formatar os códigos comuns de várias linguagens culturais. O western se torna o gênero mais popular da época, e seria justamente o responsável pela criação de uma mitologia americana, contando e formatando as origens daquele povo. Os super-heróis surgem dentro deste imaginário, e refundam esta mitologia sob o prisma das então modernas indústrias culturais.

Fanfarrão
O Superman dos anos 30 se parece com um caubói. Mesmo fisicamente. Lembra uma mistura de Clark Gable com John Wayne. O cabelo, poderíamos atribuir ao protótipo de todos eles, Douglas Fairbanks, astro de inúmeros filmes de capa e espada. Porém, são as atitudes do personagem nestas primeiras histórias que lembram melhor o que significava ser um herói nos anos 30. A tríade básica da mitologia está lá: Superman é ao mesmo tempo Clark Kent, um repórter eficiente, justo, mas tímido e covarde, completamente abobalhado diante da colega repórter Louis Lane, retratada aqui como uma biscate sem caráter e sacana, mas ao mesmo tempo astuta e “investigativa”. É apaixonada pelo herói, mas desdenhosa de seu inadequado alterego. Imagino que talvez Louis Lane tenha sido a invenção deste estereótipo, tão repetido em filmes e gibis, feminista e machista ao mesmo tempo. Porém, o senso de justiça desta fase do herói, sempre descrito como uma grande invenção de Siegel, era muito adequado aos valores de outros produtos culturais da época. Tratava-se de um olhar atento aos reais problemas sociais, fruto do new deal; e uma atitude impetulante e arrogante de superpotência crescente, “direito divino” dos Estados Unidos em aplicar o senso moral “correto” da maneira que bem entendesse.

Biscate

Justiça social e fanfarronismo

Essa coisa ambígua se refletia no jeito que Superman resolve seus desafios. Da mesma forma que os caubóis (intermediários entre a civilização crescente e a selvageria natural de todo western), ele é um tipo rude e impaciente, fanfarrão e porradeiro, bem diferente do modelo apolíneo a que estamos acostumados a associá-lo (o escoteiro puritano). São várias as cenas em que o herói arremessa os bandidos de prédios ou para longe, sempre fazendo comentários cínicos, agressivos: “Desculpa, mas foi você quem pediu!”, “Sou alguém que odeia ardorosamente a sua pessoa!”. Da mesma forma, ele é um agente impiedoso e ensandecido de destruição: chega a trucidar fábricas de automóveis para impedir que se aumente o índice de atropelamentos, ou a destruir favelas para que os governos sejam obrigados a realizar reformas que impeçam o aumento da criminalidade. Suas entradas em cena são sempre bombásticas: destruindo vidros, arrebentando portas, virando carros. Se o tipo “valentão” (bully) é um dos maiores vilões sociais nos dias de hoje, podemos ver que nos anos 30 ele era um modelo de heroísmo.

Porém, esse jeito pouco ortodoxo ou “caubói” (vejam bem que o caubói é um fora-da-lei de bom coração, que realiza a justiça que a lei não alcança) de ser tinha implicação profunda nas aspirações dos Estados Unidos enquanto difusor (agressivo) de uma cultura global padrão, e especialmente enquanto força de guerra, já que estamos falando de um período à beira da Segunda Guerra Mundial. O alistamento dos soldados e a colaboração da população em terra natal (especialmente mulheres e crianças) eram atitudes que não podiam deixar ambigüidades. O cinema, os quadrinhos e toda indústria cultural serviram como força motriz para este processo. Basta lembrar que vários aviões da força aérea americana tinham o “azulão” ou o Capitão América pintados em suas superfícies.

Métodos "pouco ortodoxos"
Este modelo diferente de Superman tinha uma interessante aplicabilidade social, que nos faz refletir sobre para quão distante do nosso próprio mundo o universo dos super-heróis se afastou, enquanto, em sua origem, ele alertava para problemas bem reais. Diante da ausência da figura do supervilão, Superman dá cabo (em sua maneira tosca e até... anti-heroica) de: magnatas do tráfico de armas, torturadores, estupradores, empresas que exploram seus trabalhadores, capatazes de prisões em péssimas condições, falsários que vendem ações de petróleo falidas. De certa maneira, este mapeamento do universo do new deal que as histórias do herói traziam parecem ainda dizer mais sobre nossa própria época do que suas histórias contemporâneas.

A diferença é que, para resolver os problemas, Superman adota uma espécie de código “olho-por-olho, dente-por-dente” bastante associado ao esforço do puritanismo protestante tão presente na era clássica da cultura industrial americana: para “punir” o industrial que dá péssimas condições aos seus mineiros, Superman cria um esquema para prendê-lo, junto com outros grã-finos, dentro de uma mina, deixando-os se virarem sozinhos para sair. Da mesma forma, para “punir” o magnata da indústria bélica, Superman o obriga a alistar-se no front, para que possa vivenciar os horrores da guerra e se arrepender. Na história mais absurda de todas, Clark Kent compra dos falsários todas as ações falidas de um poço de petróleo inativo, para depois, com seus poderes de Superman, escavar a terra e ativar o poço, revendendo as ações para eles, para logo depois destruir os poços e trazer mais algum tipo “lição” torta, quase inexplicável. Esta “doutrina de correção punitiva” parece uma mistura de judaísmo primitivo, do velho testamento, com a força moral do puritanismo. Certamente muito convicente no empenho de reconstrução de um país ou de um esforço de guerra.


As histórias originais do Superman, e despeito dessas ambiguidades, possuem grande valor cultural, e entusiasticamente traziam o conceito de heroísmo para uma causa do povo (mesmo que fosse só o povo americano). Como o arquétipo “super” acabou sendo usado como propaganda de guerra, é natural que estes valores tenham se deturpado no decorrer dos anos 40, até que a cultura do gênero morresse para dar chance a um “realismo” mais brutal e sanguinário: quadrinhos de crime, horror e guerra da EC Comics. O arquétipo “super” só ressurgiria após o macartismo e censura às HQs nos anos 50, quando sua vitoriosa forma “light” seria concebida pela Marvel nos anos 60. Vale comentar, porém, que a forma “light” se enclausuraria num universo próprio e fechado, cada vez mais fazendo referência apenas a seu “mundo paralelo”, virando entretenimento puro.

Em uma das histórias de “Superman – Crônicas”, um charlatão tenta lucrar com a fama do herói, acreditando que ele fosse apenas uma lenda. Ele então patenteia direitos de comercialização da imagem de Superman, vendendo cereais, carros e até gasolina com a marca do herói. Até que chega o momento em que este “agente” procura vender para o jornal (então “Estrela Diária”) uma entrevista com o próprio Superman, que acabaria sendo realizada pelo repórter Clark Kent. No final das contas, é claro, Superman dá umas boas pancadas nos falsários, elucidando-os sobre os perigos da capitalização extrema das notícias, dos cidadãos, do heroísmo. Vista com o distanciamento de quase 80 anos, esta história parece uma ironia perdida no tempo. Um tipo como Superman obviamente nunca existiu, mas aquele mundo de mafiosos, picaretagens e extorsões continua bem vivo. A imagem do personagem descambou para capitalização extrema, e o mundo dele acabou se tornando uma mistura maluca de pseudo-futurismo, fantasia e delírios intergalácticos que pouco lembra o nosso. Fica a lição. Vamos torcer para que Grant Morrison se lembre dela. 


Crazy bastard