Quadrinhos para quem?

Quadrinhos para quem?

Como disse na primeira linha do texto, tenho uma relação afetiva com as HQ’s. Isso me coloca na categoria dos entusiastas. Somos leitores cuja experiência com os quadrinhos foi de tal modo distinta que transcendeu as finalidades mais banais dos gibis, como passatempo ou um colecionismo completista. Não se trata aqui de algo que se adquire com o tempo, mas sim de uma identificação com a linguagem que é marcada pela curiosidade. São leitores e leitoras que não se fixam a um gênero específico, mas que se interessam pelas diferentes facetas dos quadrinhos. Estão presentes nas feiras e nas bancas, consomem e dão feedback constante sobre aquilo que leem. Para estes leitores, o quadrinho impresso ainda é de grande valor, embora consumam quadrinhos eletrônicos da mesma forma. Eles se esforçam em distinguir valores artísticos nas páginas. Seja uma beleza clássica de um Alex Raymond ou o experimentalismo indie de um Chris Ware.

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Sobre guardiões, naturalistas e policiais: Seton e Guardiões do Louvre

Sobre guardiões, naturalistas e policiais: Seton e Guardiões do Louvre

A imagem que abre este texto é uma reprodução de uma pintura de Ernest Thompson Seton. A pintura é intitulada A Vitória do Lobo. Essa pintura, e sua figuração mórbida e chocante, foi reprovada pela curadoria do Grande Salão de Paris, em 1892. De nada adiantou mudar o título para Aguardando em Vão, na expectativa de que uma dose de ambiguidade pudesse convencer os júris de que aquela agourenta imagem de um lobo roendo um crânio humano acompanhado de uma despojada alcateia pudesse representar algo diferente da derrota fatal de todo um plano humanista que se encontrava a pleno vapor na Europa do Século XIX (a pintura foi inspirada na notícia de um roceiro caçador de lobos predadores de gado que desapareceu certo dia para reaparecer como um cadáver parcialmente comido pelos mesmos lobos que pretendia eliminar). Sentindo-se um incompreendido em seu discurso artístico, Seton retornou então para a América do Norte para seguir sua vida em meio aos ambientes selvagens como um estudioso dos animais que tanto respeitava. 

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Quatro vezes John Romita Jr.

Quatro vezes John Romita Jr.

Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?

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Dossiê Stan Lee - três visões sobre "O Cara"

Dossiê Stan Lee - três visões sobre "O Cara"

Stan "The Man" Lee se foi. Todo leitor de quadrinhos que se preze sabia que esse dia se avizinhava. Quando penso na extraordinária influência que sua sombra exerce sobra a cultura contemporânea, lembro de uma frase de Jack White, da findada banda de rock americana The White Stripes, comentando o fato de que seu sucesso Seven Nation Army tenha se tornado hino de torcidas em estádios de futebol do mundo inteiro. Não sei bem se isso é apócrifo, mas White, fã de blues rural e música folk americana, teria dito, sobre o fato de as pessoas não saberem mais a autoria da canção: "isso é o máximo que um artista pode almejar. Quando não se sabe mais quem criou as coisas, é porque elas efetivamente se transformaram em folclore." 

Ora, quanto aos heróis Marvel, sabe-se bem, hoje em dia, ao menos quem foi um de seus criadores. Falo de Stan Lee. Porém, isto é assunto para infindáveis debates: o fato de Kirby, Ditko e outros não receberem o devido credenciamento (e, em vida, não terem recebido o mesmo retorno financeiro) pelas criações Marvel é motivo suficiente para, no mínimo, se questionar o status de semideus assumido pelo velho "The Man" nas últimas décadas, impulsionadas pelo astronômico sucesso dos filmes de super-heróis, capazes de revolucionar a indústria do cinema em si (para o bem ou para o mal).
Porém, enfatizo a frase de Jack White no sentido de que, mesmo em relação a Lee, seus super-heróis ultrapassam qualquer engajamento em mídia, editora, história dos quadrinhos ou quaisquer autores que sejam. De uma criança de quatro anos até um quarentão militarista cafona, gerações "cantam" os heróis Marvel na vida cotidiana (como se canta Seven Nation Army nos estádios) sem saberem lhufas de quadrinhos, sobre a quase falência da Marvel no período imediatamente anterior a estas criações, à trajetória de Stan Lee como roteirista, manager e editor, sobre o marvel way, sobre Jack Kirby, John Romita, John Buscema, Marie Severin, Steve Ditko e tantos outros. Cantam estes heróis porque um inconsciente óptico lhes diz que os cante, simples assim. De fato, é a Valhalla da criação popular.

Este "dossiê" da Raio Laser apresenta três textos dos nossos escribas mais engajados (não de maneira acrítica) no universos dos quadrinhos de super-heróis. Pessoas que gastaram quase tantas horas lendo estes gibis quanto dormindo ou penteando os cabelos, escovando os dentes. Márcio Júnior põe o dedo na ferida e procura sublimar a eterna questão a respeito de Lee ser um herói ou um vilão dos quadrinhos. Marcos Maciel de Almeida realiza uma muito bem-vinda comparação com os Beatles. E Lima Neto analisa, com a categoria de sempre, a primeira edição do Quarteto Fantástico. Quanto a mim, além desta introdução, você pode ler o porquê de eu considerar o Hulk a obra-prima de Lee/Kirby na ZIP, minha coluna no Metrópoles. Excels... hmm... deixa pra lá. Acho que isso já foi dito muitas vezes.

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Kingdom Comics: o fim de uma era

Kingdom Comics: o fim de uma era

No momento em que começo a escrever esse texto, são 13h em Roma. Daqui a duas horas, mais exatamente às 10 da manhã no horário de Brasília, está marcado para acontecer o começo do fim. Se você não sabe do que estou falando, explico. Hoje, 22/09/18, é o último dia de funcionamento da Kingdom Comics, loja especializada em HQs e camisetas, que ajudei a fundar 22 anos atrás. Sim, o sonho acabou. Considerando a baixa longevidade das microempresas no Brasil, pode-se dizer até que a Kingdom durou bastante. Mesmo assim, a tristeza é grande.

A loja começou em 1996. Não vou entrar muito em detalhes sobre isso, porque já existe um mini documentário muito bacana sobre isso, feito pela Rafa Rodrigues em 2006. Agora, talvez seja melhor falar um pouco sobre o que aconteceu desse momento da época das filmagens até hoje.

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MELHORES QUADRINHOS LIDOS EM 2017 - PARTE 3

Abro os olhos. Vejo as gordas gotas de suor e sangue se multiplicando vagarosamente no chão. Meu corpo lateja como um coro barítono que vibra por meus ossos lacerados. Levanto a cabeça e posso ver o corpo estendido daquele que seria o ano de 2017 me encarando com o olhar já vazio da morte. Ao que tudo indica, sobrevivi à experiência traumática do décimo sétimo ano do século XXI. Velho sortudo… Atrás de mim, 2018 levanta sua cabeça horrenda…

Peço desculpas ao exigente leitor da Raio Laser por emular tão tristemente os cacoetes estilísticos do caríssimo Frank Miller (se bem que mesmo ele podia se desculpar por fazer a mesma coisa nos dias de hoje), mas abuso da dramaticidade para de alguma forma me justificar por trazer para vocês uma lista tão magra de leituras. Mas foi um ano difícil. E espero que esta lista traga um pouco de reflexão, diversão e entretenimento para vocês como trouxe para mim. Vale lembrar que esta não é uma lista dos melhores quadrinhos publicados no ano, mas sim de boas leituras que foram realizadas em 2017 (inclusive lançamentos). (LN)

Parte 1

Parte 2

por Lima Neto

1 – Mensur – Rafael Coutinho (Cia. das Letras, 2017): Começamos pelo título que abrilhanta 90% das listas de melhores HQ´s do ano de 2017. Não sem razão. Muito já foi dito sobre a volumosa novela gráfica de Rafael Coutinho. Inclusive aqui mesmo na Raio. Mas aproveito este espaço para falar um pouco sobre a minha leitura da obra. Em julho último publicamos no site um ensaio meu sobre a tolice intrínseca e necessária aos quadrinhos de super-heróis, sem a qual não haveria diferença entre os mascarados e os criminosos que caçam. Caso se interesse, você pode ler aqui. O que não está dito no texto é que a leitura que vai inspirar a reflexão sobre o assunto – identidade, rostidade, responsabilidade (e o inverso de tudo isso) – é a narrativa do mensuren Gringo e seu autoproclamado exílio da própria vida. Mensur, como toda obra desse calibre, forma um emaranhado de possibilidades interpretativas e caminhos para o pensar. 

Mas vai ser exatamente o caminho mais direto, o da identidade, que vai me acompanhar a leitura inteira. Desde a bela capa, que evita encarar o leitor e parece ao mesmo tempo ler seu título ou admirar as cicatrizes de seu rosto, passando pelas negras capas internas riscadas em branco - como se fossem lembranças subconscientes de que as linhas que vão dar forma ao conteúdo do livro apenas são o que são graças aos caprichos da percepção -, Mensur é uma narrativa sobre o risco. Sobre a linha e seu papel de definir limites e de avançar, ou não, sobre estes mesmos limites. Não como uma bravata, embora haja bravatas, mas como um risco que se assume e cuja forma resultante define o que se é. Gringo é um personagem ciente de que não há riscos mais eficazes e verdadeiros que aqueles que realiza e recebe em seu secreto esporte. Riscos que definem quem ele é, ou melhor, que rabiscam sobre sua identidade social e construída, uma garatuja de não-identidade que é mais real do que qualquer outra linha  mundana que dá forma aos seres sociais. Abrir mão do rosto, como traço identificador mais do que elemento estético, é a ação antissocial última. É “rasgar a identidade”, como dizem os seres de rosto tatuado para além de qualquer moda que transitam pelas grandes cidades. Insatisfeitos com qualquer identidade que a sociedade possa oferecer. Mas esta entrega ao não-ser não é de maneira alguma redentora, e nem mesmo heroica, é uma apenas uma vivência marcada pelo patético de uma obsessão. 

2 – Lendas do Cavaleiro das Trevas: Alan Davis vol. 1 e 2 – Mike W. Barr e Alan Davis (Panini, 2014/2015): Falando em quadrinhos de super-heróis, uma das leituras mais agradáveis do início de 2017 foi a coleção dedicada à breve fase do desenhista inglês Alan Davis como artista de Batman sob a batuta do escritor Mike W. Barr. Esta fase tem como tarefa dar continuidade à origem do personagem escrita por Frank Miller em Batman Ano 1, e o experiente Barr vai misturar sua verve mais madura (que junto com Brian Bolland foi responsável pela pérola Camelot 3000) com uma interpretação mais colorida e fantástica do homem-morcego. Essa mistura agridoce se inicia com a sequência de título aproveitador Batman Ano 2, que vai ter a arte do ainda desconhecido Todd McFarlane nas primeiras edições, mas termina com o lápis de Davis. A partir daí, o britânico continua no título, agregando a mistura de seriedade e fantasia um visual icônico e o Batman mais elegante da editora. Nas páginas das duas edições, vemos um desfile dos vilões mais clássicos do personagem, reapresentados para a geração pós-crise. Barr e Davis conseguem com sucesso representar os vilões com a dose correta de delírio fantástico e ainda assim parecerem perigosos para suas vítimas. Essa fase ainda conta com a parceria de Robin, tendo um jovem e irresponsável Jason Todd por trás da máscara. Boa parte desse sucesso está o colorido vivo alucinógeno de Adrienne Roy e a competente arte final do parceiro de Davis, Paul Neary. Além da galeria de vilões, vale a pena destacar um empolgante encontro do maior detetive da DC com o maior detetive do mundo – Sherlock Holmes. O encontro aconteceu na edição de 50 anos da revista Detective Comics e contava ainda com a participação do detetive casca-grossa Slam Bradley e o herói investigador de faro para o mistério, Homem-Elástico. O encontro ainda contou com a arte de Dick Giordano, Carmine Infantino, Terry Beatty e Eufranio Reyes Cruz. Outra surpresa bem-vinda na edição foi a adição do especial Circulo Completo, publicado anos depois desta fase e que mostrava a volta do vilão ceifador, personagem de Batman Ano 2 que inspirou o longa-metragem de animação Batman – Máscara do Fantasma. E ainda a colaboração de Davis e Barr na historieta “Saideira no McSurleys”, um conto em preto e branco publicado em março de 2002. 

3 – A História do Petróleo em Quadrinhos – Tales Pereira (Jaguatirica, 2016): O quadrinho nacional vive hoje um momento de intensa produção. Não há como negar. Seja nas prateleiras das livrarias ou nas bancas das feiras independentes, somos cobertos por uma enxurrada de lançamentos dos mais diversos gêneros e qualidades. Este volume de produção nem sempre é correspondido com um poder de compra que garanta o escoamento do que é produzido, e, nesse impasse, muitos quadrinhos podem passar completamente despercebidos pelos radares. Uma dessas HQs se chama A História do Petróleo em Quadrinhos, de Tales Pereira. Uma das teclas mais pressionadas entre os pesquisadores de diversos campos que têm HQ seu objeto de pesquisa é a do potencial didático dos gibis. E esse livro, lançado pela editora Jaguatirica do Rio de Janeiro e bancado por uma campanha bem sucedida no Catarse, expõe de maneira explícita esse potencial. O quadrinho, como o título entrega, é um sobrevoo pela história desta matéria-prima que até hoje demarca uma cicatriz negra na história e nas relações entre ocidente e oriente. Tales, que já trabalhou como engenheiro petroquímico para a Petrobrás, usa um traço simples e cartunesco para discorrer todo seu conhecimento sobre o “ouro preto” em uma narrativa simples, didática, mas assombrosa em seu conteúdo. Com muito despojamento, A História do Petróleo em Quadrinhos expõe os derradeiros mecanismos que movem a sociedade capitalista do ocidente, iluminando relações aparentemente não  correlatas entre ciência, tecnologia e geopolítica. Seu estilo de desenho, embora esquemático, não deixa de ser expressivo e consistente, e o resultado final é uma aula cujo extenso conteúdo pode ser assimilado de maneira muito eficiente. A simplicidade deste gibi é enganadora e esconde uma leitura que deveria ser obrigatória e capaz de mudar a forma de ver o mundo. Algo que raramente é capaz de se dizer sobre uma obra. 

4 – Monstro do Pântano Regênese Vol. 3 – Rick Veitch e vários (Panini, 2017): Rick Veitch segurou uma das maiores batatas quentes do  quadrinho norte americano quando topou dar sequência à fase do escritor Alan Moore no título Swamp Thing. Amigo pessoal de longa data do escritor inglês, Veitch escreveu um dos mais psicodélicos capítulos do personagem no espaço, ainda na fase de Moore. Sua experiência como escritor não era pouca, mas seguir os passos do amigo era um desafio que ele  conseguiu ultrapassar com elegância e uma boa dose de polêmica. Em histórias xamânicas, o personagem do lodo encontrou outras versões de si mesmo de eras passadas, presenciou o consumismo simbolizado pelos carros e autoestradas, entrou no corpo de John Constantine para poder consumar seu amor por sua mulher na forma de uma inseminação (que se tornará sua filha Teffé Holland) e tatuar uma de suas nádegas. Veitch tinha muita familiaridade com o conteúdo das histórias anteriores e isso deu a ele bastante segurança para seguir. Mas vai ser no volume 3 que veremos algumas de suas melhores histórias. A primeira, "Esperando Deus", vai colocar o elemental contra nada menos que o próprio Super-Homem ao tentar buscar justiça pelo sofrimento causado por Lex Luthor quando este destruiu sua ligação com o verde da terra, ainda na fase de Moore. A edição vai mostrar um Monstro do Pântano que se esgueira de todas as formas para consumar sua vingança, sempre sendo frustrado por um Super-Homem que o impede quase sem notar a presença do elemental, realizando apenas algumas ações das muitas que performa todos os dias na função de deus guardião da humanidade. A história vai buscar na relação entre Papa-Léguas e Coyote uma maneira divertida e pungente de homenagear o primeiro super-herói da editora prestes a completar 50 anos.

Em "O Mais Longo dos Dias", encontramos os quatro avatares do verde que, em edições anteriores, partiram para o espaço de forma a agregar à sua coletividade a experiência única que o Monstro do Pântano passou. Cada um deles, seres tão interessantes quanto próprio Alec Holland, se tornam cientes de que seu planeta natal está para ser alvo de um ataque brutal. Ainda não havia selo Vertigo, e a revista Swamp Thing estava para participar do evento "Invasão", que acontecia em todos os títulos da editora. As descrições fantásticas que cada ser dá sobre o ambiente em que agora habitam se somam à paranoia crescente que prepara terreno para a edição seguinte e, em "Enlutada", o clímax se apresenta na forma da cônjuge de um ser alienígena que foi derrotado pelo Monstro do Pântano ainda na fase original de Len Wein e Bernie Whrightson. A narrativa que se segue é tocante e uma interpretação de pensamento alienígena das mais interessantes nos quadrinhos. Como resultado, o Monstro do Pântano é novamente desligado de sua relação com o verde, e vai transitar pelo tempo reencarnando em pontos-chave da história do universo DC. Fase esta que resultou na saída de Veitch do título ao ver a história em que o Holland reencarnaria na madeira da cruz de Cristo. O escritor foi cortado em um crescendo fenomenal, e esta série de encadernadas não terá continuação tão cedo no Brasil, pois mesmo nos EUA esta fase final é proibida de ser republicada. 

5 – The Big Book of Grimm – Jonathan Vankin e vários (1999, Piranha Press): Mais um ano termina, mais uma lista e mais um livro da série Factoid Books, da Piranha Press. Em 2015 a minha lista trazia o Big Book of Death, e agora o “Grande Livro dos Grimm” chega em 2017 botando gibis como Fábulas para correr com o “real deal” dos contos de fada. Como os outros livros da série, este big book é um apanhado das melhores fábulas dos irmãos Grimm, adaptadas por Jonathan Vankin e desenhadas por um exército de quadrinistas de impressionar. George Freeman desenha Cinderella; o conto macabro de Branca de Neve se torna mais grotesco no traço de Charles Vess; Hunt Emerson ilustra o conto Clever Hans. A lista é enorme: Rick Geary, D’Israeli, Sérgio Aragonés, James Kochalka, Rick Burchett, Dame Darcy, Seth Fisher, Mashall Rogers, Steve Leialoha. A quantidade de histórias dá um panorama bem completo das verdadeiras fábulas sempre com uma arte de qualidade em preto e branco. Ainda me impressiona que estes livros não encontram publicação no Brasil. 

Polícia para quem precisa - Art Ops e o marasmo da Vertigo

por Lima Neto

Algumas vezes é difícil entender a razão de sucesso de determinados títulos. Às vezes essa dificuldade simplesmente expõe um mal gosto generalizado disfarçado de estilo ou nostalgia. Em outros momentos, porém, como no caso do Quadrinho ArtOps, lançamento do selo Vertigo e publicado no Brasil pela Panini, a incongruência entre as indicações elogiosas e a qualidade do material descredita ainda mais o mercado dos comics norte-americanos. Mesmo assim, em sua narrativa desgastada e seu discurso rasteiro sobre arte, ArtOps acidentalmente levanta alguns questionamentos bem urgentes sobre arte e liberdade de expressão. O volume, que encaderna as primeiras cinco edições da revista norte-americana, tem o roteiro de Shaun Simon e conta com a arte sempre competente (embora um tanto sem inspiração na edição em questão) de Michael Allred auxiliado pelo traço de Matt Brundage e as cores da costumeira parceira e esposa de Allred, Laura.

O roteirista Shaun Simon faz parte de uma geração que foi diretamente afetada pelo desenvolvimento do quadrinho para “leitores maduros” nas grandes editoras estadunidenses, processo este que culminou na criação do selo Vertigo e que encontrou na editora Karen Berger sua ponta de lança. Não sem motivo, o direcionamento gráfico de seus títulos da DarkHorse - Neverboy e The Fabulous Lifes of the Killjoys - seguem muito próximos ao estilo visual do selo da DC. A própria DarkHorse abriu suas portas para a mentora editorial do “mature reader” e criou o Berger Books, selo de quadrinhos editados por Berger. Em seu primeiro trabalho para a Vertigo, entretanto, Simon desaponta com uma HQ recheada de anarquismo de boutique e um discurso superficial sobre Arte – teoricamente a matéria prima conceitual de seu roteiro - que envergonha até os recentes guardiões dos bons costumes que inflamam a discussão sobre censura na arte brasileira.

Em ArtOps, título que faz trocadilho com o termo OpArt - tendência artística dos anos 60 que buscava explorar os conteúdos plásticos da imagem de maneira a dialogar com os limites e falibilidades da visão humana - vamos conhecer Reginald “Reggie” Jones, uma espécie de Joe Strummer embrulhado em um emaranhado de clichês de personagens típicos da Vertigo, parte Shade The Changing Man, parte Dane McGowan de Invisibles. Reggie é o único filho da líder do grupo de operações especiais que dá nome à revista e prefere viver no submundo do boxe e nos guetos punk de Nova York a trabalhar para a mãe.

ArtOps faz parte de uma safra de narrativas em quadrinhos que vão imaginar forças policiais para áreas do cotidiano que costumeiramente não possuem um sistema de vigilância, como é o caso de DPF - Departamento de Polícia da Física, de Simon Oliver e Robbie Rodriguez e publicada também na Vertigo. Como resultado, vemos a multiplicação de séries policiais com temas bizarros, uma influência inegável da saudosa Top Ten de Alan Moore e Gene Ha, publicada pelo selo ABC Comics, pertencente à DC.

Nessa perspectiva, ArtOps acompanha um Reggie que se vê obrigado a entrar para a corporação da mãe depois que a equipe inteira desaparece. O herói relutante se junta a um personagem de quadrinhos vivo, uma espécie de ser de nanquim também reminiscente do herói satírico Splash Branningan da ABC; uma agente sobrevivente que escapou do desaparecimento por estar presa fora do tempo; e uma garota qualquer que encontram pelo meio do caminho (sim, esta é uma descrição precisa). Juntos, devem proteger a própria Mona Lisa del Giocondo, retirada do quadro em que vive e solta no mundo real. 

Acidentalmente, a brincadeira pueril concebida por Shaun Simon de fato suscita algumas reflexões interessantes sobre as interconexões entre artes plásticas e histórias em quadrinhos, alta e baixa culturas, liberdade e fruição estética. Mas a superficialidade da abordagem derruba qualquer pretensão maior. Desde que o primeiro jornal publicou a primeira tira de linhas rabiscadas em milhares de páginas impressas no final do século XIX, as artes plásticas, sobretudo a pintura, já estavam processando em seus discursos visuais a virada pictórica que estava por vir e que culmina na Pop Art. Explorar as possibilidades estéticas, poéticas e até mesmo éticas dessas tecnologias de reprodução são características desse movimento. De especial interesse para esse texto está o trabalho de Roy Lichtenstein, que em 1961 exibiu seu quadro Look, Mickey, uma espécie de aula de anatomia da imagem impressa de quadrinhos. O que Lichtenstein representa em suas pinturas não será tanto as reproduções de quadros de comics “anônimos”, mas sim as linhas propositalmente sintéticas do processo de reprodução; as suas cores primárias e saturadas; e o prato principal - a retícula gráfica, sinônimo duplo que passa a significar a Pop Art para o senso comum e que vai simbolizar a imagem da HQ por contiguidade. É esta retícula que adorna a capa da edição de ArtOps.

Mas não se enganem, o reticulado da capa só expõe a escolha fácil dos autores da revista por intersecções óbvias entre quadrinhos e arte. Essa banalização só teria uma única qualidade redentora, caso fosse intencional, a de vingar uma velha mácula contra as HQ's praticada por artistas como Lichtenstein. Em ArtOps, a Arte finalmente vai receber o tratamento desdenhoso com que no passado tratou os quadrinhos. Se para Lichtenstein as imagens que analisava eram rabiscos anônimos livres de autoria ou intenção – e, principalmente, livres da divisão dos milhares de dólares da venda de suas obras com os autores originais dos desenhos que copiava - em ArtOps a mão do pintor também vai ser um detalhe desprezível. O Davi de Michelangelo torna-se marco sem vínculo com um criador. A Mona Lisa de Leonardo da Vinci, esvaziada de sentido, vai ser epítome do lugar comum na pintura ocidental (mas poderíamos chamar aqui de pintura apenas, pois duvido muito que os autores estejam cientes de que existe arte produzida fora destes cânones mais evidentes, quanto mais além das fronteiras europeias). Da mesma maneira que uma criança acredita que o que lê na página de um gibi é o Super-Homem, e não uma narrativa construída por pessoas para tal finalidade, assim vão ser encaradas as obras que rodeiam a história em ArtOps: imagens surgidas por geração espontânea que de maneira alguma pertencem a algum discurso ou pesquisa artística em que estejam inseridos a não ser o mais pueril conceito de “história da arte”. Como bem disse um amigo leitor, “é tudo uma desculpa para desenhar a Monalisa de moicano”.

Esta maneira anárquica de entender os cânones da arte poderia guardar um interessante potencial de questionamentos: as imagens ainda imaginam quando se tornam cânone, signos inertes que caracterizam um determinado discurso sobre a arte? Tratar estas imagens como se tivessem atingido uma vida própria, uma significação maior do que o contexto em que estão inseridas para daí subvertê-las em outros códigos me parece uma ideia rica em possibilidades, mas, como disse no início, as boas ideias da revista são acidentais demais para serem devidamente trabalhadas. Isso porque, diferente de uma HQ como DPF, a arte não é um lugar de leis objetivas que ao serem quebradas geram um efeito indesejado. Arte é o espaço criativo cuja riqueza reside na exploração dos “virem a ser” das coisas tensionadas pelo seu presente e suas possibilidades. É nesse sentido que ArtOps revela sua face mais frustrante e careta. Qualquer anarquia que apareça na edição não passa de um aceno aos saudosistas leitores da Vertigo. Porque, como policiais que são, a ArtOps apenas se interessa em manter o status quo e salvar as “belas artes” das artes “feias".

Quando a história se desenrola, vemos que tudo pode ser resumido a algo como “bonitinhos do bem, responsáveis por manter os cânones da arte, versus feiosos do mal, que distorcem os quadros e esculturas como vingança contra um mundo que não os aceita como tal”. A vilã é uma espécie de pintura cubista, como se uma das damas da ilustre pintura Demoiselles d’Avignon saísse do quadro e fosse partilhar sua aparência com o restante do mundo. Não há no gibi qualquer sinal que indique que os autores da revista estejam a par de como a pintura cubista colocava em xeque a representação como construção buscando desvincular a pintura da visão naturalista da imagem como cópia da realidade. Tampouco não vemos aceno algum para o fato de a estética da personagem representar a estratégia pictórica de expor pontos de vistas diferentes de um objeto sobre uma superfície única - uma das diretrizes do movimento de Picasso e Braque. Pelo contrário, o que vemos em ArtOps é o mesmo senso comum que se encontra tão presente no dia a dia real e virtual, e que no Brasil vai tomar contornos preocupantes desabando na criação de verdadeiros “policiais da arte”.

Em ArtOps, as pichações são monstros assassinos que arrancam braços e sequestram crianças. A beleza clássica do nu de Davi é punida com a deformação de seu corpo tal qual um Joseph Merrick. O célebre Grito de Edvard Munch é reduzido a uma vilania infantil de quem não tem maturidade para lidar com o tipo de sentimento que o quadro suscita. A ambiguidade do sorriso da Gioconda de Da Vinci é solapada pela criação de uma versão masculina que, forte e brutal, vai salva-la para a obrigar a viver ao seu lado. Os próprios agentes, apesar de serem representados como rock stars, são tacanhos, caretas e reprimidos.

O personagem Reggie tem a pretensão de ser uma metáfora: o homem que tem a arte dentro de si mas a renega, tem medo do que pode acontecer caso a liberte. Quando seu medo se realiza, Reggie se transforma num quadro de Jackson Pollock ambulante. E neste clima recalcado, a libertação de Reggie é recebida como um descontrole, como uma arte selvagem que não tem valor e deve ser controlada. As semelhanças com a maneira com que as arte plásticas vêm sendo encaradas no Brasil aponta para um ponto em comum entre os autores (pelo menos seu escritor) e a massa de “policiais da arte” que tomam o país – a incompreensão de que a Arte, essa de A maiúsculo, é um processo acumulado de pesquisa estética que se espalha por infindáveis caminhos, mas sem a intenção de chegar a lugar algum. A arte, diferente da ciência, não quer resolver, mas sim propor problemas. A Vertigo em seu início sabia disso. A própria noção de um “policiamento” artístico mostra uma incompreensão fundamental que é conceber a arte sem o espaço da liberdade que ela exige.

Termino esta resenha com a pergunta investigativa: quem lucra com a proliferação de policiais das coisas? Seria esta proliferação de títulos uma manifestação da sensação de insegurança que cresce nas classes intermediárias da sociedade, e de sua necessidade de controlar o ambiente em volta até em seus aspectos mais abstratos? Seja o que for, a cada dia aparecem mais produtos culturais que, em ambiguidade disfarçada, reforçam uma vontade difusa de entregar as liberdades em nome da segurança. Geralmente estes produtos são vendidos com um verniz anárquico que se quebra na primeira inspeção, ou então são embrulhados numa nostalgia vazia que só simboliza um passado mais seguro.

Em um presente marcado por uma instabilidade e medo constantes gerados por uma economia mundial que não parece mais ser capaz de se sustentar, alguns títulos da Vertigo parecem revelar o real estado cadavérico de uma indústria que já se mostrou renovadora, mas que agora é incapaz de arriscar na publicação de propostas realmente autorais. Com ArtOps, vemos uma Vertigo que não causa mais vertigem alguma, mas que promete segurança e satisfação enquanto pagarem bem por isso.