Manifesto Comunista e biografia em quadrinhos colocam Marx como autor que desafia o tempo

Manifesto Comunista e biografia em quadrinhos colocam Marx como autor que desafia o tempo

Os desenhos de Rowson mostram Marx e Engels como espécies de anjos ateus que nos guiam por ilustrações de porte avantajado, barrocas e eventualmente escatológicas, com algo de dantesco, mostrando o aspecto indecente e imoral do crescimento da burguesia industrial. Monstros mecânicos monumentais, fábricas sinistras e máquinas fantasmagóricas processam o trabalhador como se fossem transformá-lo numa salsicha de sangue, sempre em escalas de minúcias que poderiam nos tomar bastante tempo observando.

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ENSAIOS LOVECRAFTIANOS

ENSAIOS LOVECRAFTIANOS

A coisa mais misericordiosa do mundo, ao meu ver, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a obscuros mares de infinidade, e não nos é possível viajar muito longe. As ciências, cada uma se esticando em sua própria direção, pouco nos afetaram até agora; mas algum dia o agrupamento deste conhecimento dissociado irá abrir visões tão aterrorizantes da realidade, e de nossa assustadora posição nela mesma, que iremos ou padecer da loucura oriunda da revelação, ou fugir da luz em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas.

Assim, desta maneira intrigante e oracular, começa o conto/novela O Chamado de Cthulhu, escrito por Howard Phillips Lovecraft em 1926 e publicado na revista pulp Weird Tales em 1928. Famoso, esse parágrafo dá conta de muito do que se associa à literatura lovecraftiana, que se tornou base para o culto cada vez mais crescente ao gênero do terror, seja no cinema, nos quadrinhos, em games ou nos próprios contos e romances. O que há ali que já nos prenuncia uma ambientação psicológica típica da originalidade deste autor tão singular?

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Quatro vezes John Romita Jr.

Quatro vezes John Romita Jr.

Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?

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Dossiê Stan Lee - três visões sobre "O Cara"

Dossiê Stan Lee - três visões sobre "O Cara"

Stan "The Man" Lee se foi. Todo leitor de quadrinhos que se preze sabia que esse dia se avizinhava. Quando penso na extraordinária influência que sua sombra exerce sobra a cultura contemporânea, lembro de uma frase de Jack White, da findada banda de rock americana The White Stripes, comentando o fato de que seu sucesso Seven Nation Army tenha se tornado hino de torcidas em estádios de futebol do mundo inteiro. Não sei bem se isso é apócrifo, mas White, fã de blues rural e música folk americana, teria dito, sobre o fato de as pessoas não saberem mais a autoria da canção: "isso é o máximo que um artista pode almejar. Quando não se sabe mais quem criou as coisas, é porque elas efetivamente se transformaram em folclore." 

Ora, quanto aos heróis Marvel, sabe-se bem, hoje em dia, ao menos quem foi um de seus criadores. Falo de Stan Lee. Porém, isto é assunto para infindáveis debates: o fato de Kirby, Ditko e outros não receberem o devido credenciamento (e, em vida, não terem recebido o mesmo retorno financeiro) pelas criações Marvel é motivo suficiente para, no mínimo, se questionar o status de semideus assumido pelo velho "The Man" nas últimas décadas, impulsionadas pelo astronômico sucesso dos filmes de super-heróis, capazes de revolucionar a indústria do cinema em si (para o bem ou para o mal).
Porém, enfatizo a frase de Jack White no sentido de que, mesmo em relação a Lee, seus super-heróis ultrapassam qualquer engajamento em mídia, editora, história dos quadrinhos ou quaisquer autores que sejam. De uma criança de quatro anos até um quarentão militarista cafona, gerações "cantam" os heróis Marvel na vida cotidiana (como se canta Seven Nation Army nos estádios) sem saberem lhufas de quadrinhos, sobre a quase falência da Marvel no período imediatamente anterior a estas criações, à trajetória de Stan Lee como roteirista, manager e editor, sobre o marvel way, sobre Jack Kirby, John Romita, John Buscema, Marie Severin, Steve Ditko e tantos outros. Cantam estes heróis porque um inconsciente óptico lhes diz que os cante, simples assim. De fato, é a Valhalla da criação popular.

Este "dossiê" da Raio Laser apresenta três textos dos nossos escribas mais engajados (não de maneira acrítica) no universos dos quadrinhos de super-heróis. Pessoas que gastaram quase tantas horas lendo estes gibis quanto dormindo ou penteando os cabelos, escovando os dentes. Márcio Júnior põe o dedo na ferida e procura sublimar a eterna questão a respeito de Lee ser um herói ou um vilão dos quadrinhos. Marcos Maciel de Almeida realiza uma muito bem-vinda comparação com os Beatles. E Lima Neto analisa, com a categoria de sempre, a primeira edição do Quarteto Fantástico. Quanto a mim, além desta introdução, você pode ler o porquê de eu considerar o Hulk a obra-prima de Lee/Kirby na ZIP, minha coluna no Metrópoles. Excels... hmm... deixa pra lá. Acho que isso já foi dito muitas vezes.

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Sometimes, silence can be like thunder*: mais três visões sobre quadrinhos mudos

Sometimes, silence can be like thunder*: mais três visões sobre quadrinhos mudos

“Um gato tenso, tocaiando o

silêncio

”. Esta é a pequena definição que a poeta Orides Fontela atribuiu à natureza da poesia. De fato. O poético reside no fracasso assumido da tentativa de expressão do indizível. Nos pensamentos que não se completam. Na falta ao se tentar falar da imensidão do espaço. No arrebatamento ao encontrarmos a barreira que limita o entendimento e a imaginação. Sim, a poesia tem algo que margeia o silêncio, que passa a ser vetor inescapável de sua veiculação. As palavras poéticas, seja na economia de Fontela ou nos milhares de versos de um Camões, existem para circundar e mordiscar estas esferas de vazio e abnegação que nos cercam. Estes silêncios são vultos que, com a luneta das imagens poéticas, conseguimos ver bem de longe. Aterradores vultos. 

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On a mountain range, I’m Dr. Strange: impressões sobre a arte de Steve Ditko

On a mountain range, I’m Dr. Strange: impressões sobre a arte de Steve Ditko

Em 1971, quando o revolucionário rockstar Marc Bolan lançou seu segundo disco sob a alcunha T.Rex – o imprescindível boogie pulsante de

Electric Warrior

–, um par de versos na primeira faixa “Mambo Sun” chamou a atenção dos fãs de quadrinhos: “Girl, you're good / And I've got wild knees - for you / On a mountain range / I'm Dr. Strange - for you”. A menção ao Doutor Estranho é completamente prosaica, é claro. Um subterfúgio para uma rima simpática. Mas não deixa de ser legal que um “cosmic dancer” como Bolan tenha se aproximado do “mestre das artes místicas” (ou, em outros casos, “mestre da magia negra”) para agitar um flerte descolado e chacoalhar nossos sentidos nesta histórica faixa de abertura.

E ele chegou a entrevistar Stan Lee em 1975!

Somente alguém muito alheio ao cânone visual e cultural do final dos 60’s e começo dos 70’s para não pensar que o glam rock – em todo o seu desbunde que une um psiquismo espacial/alienígena/psicodélico com diversos tipos de ambiguidade (no sexo, na filosofia, na moda) – tem realmente tudo a ver com o imaginário esotérico-kitsch (que parece baseado num clichê de teosofia) que Steve Ditko imprimiu nas histórias do Doutor Estranho.

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Rapidinhas Raio Laser #09: especial Catarse

Vaquinhas virtuais chegaram para ficar. Goste ou não, o fato é que cada vez mais criadores estão utilizando o financiamento coletivo para viabilizar seus projetos. É aquela história: se tem gente interessada em bancar, por que não lançar? A coisa está especialmente disseminada nos gibis, principalmente em razão dos valores de produção, relativamente baixos se comparados aos de outras mídias. 

Aqui na Raio Laser já virou praxe fazer resenha de gibi independente. Aí pensamos em fazer um post exclusivamente dedicado às HQs que compramos por meio de vaquinhas virtuais, afinal elas continuam sendo independentes, certo? 

Na análise abaixo, a tendência é que façamos comentários positivos sobre os gibis adquiridos, já que só financiamos autores nos quais realmente acreditamos. Por isso os quadrinhos a seguir provavelmente receberão elogios rasgados. Será mesmo? (MMA)

por Marcos Maciel de Almeida e Ciro I. Marcondes

R’lyeh Boy – Caio Oliveira (Quinta Capa, 2017): R’lyeh Boy é uma sátira de ... Bem, se você não sabe, está na página errada. Busque conhecimento sobre a série mais longeva de Mike Mignola e volte aqui. R’lyeh faz referência à cidade submersa fictícia criada por HP Lovecraft, prisão do deus adormecido Cthulhu. Não sabe quem é Cthulhu? Resumo de três linhas: é um deus/entidade alienígena que está dormindinho na Terra e vai despertar qualquer hora dessas para tomar o que é seu, ou seja, o nosso planeta. Enquanto ele dorme, humanos mais sensitivos são afetados por seus sonhos e, gradualmente, passam a enlouquecer, barbarizando geral. O visual de R’lyeh Boy é claramente inspirado em Cthulhu.  R’lyeh Boy é funcionário de uma empresa que resolve problemas sobrenaturais. No gibi em questão, R’lyeh Boy é despachado para enfrentar avatares de jogadores de RPG (boa sacada, Caio!) da Terceira Dimensão (a nossa!). Os avatares invadiram o reino dos desmortos e estão botando pra quebrar. E isso é assunto pro nosso herói, claro. A pegada de Caio é enviesada para o humor e ele se sai muito bem nisso. Afinal, não é de hoje que ele vem fazendo a alegria da galera com a sua página “Cantinho do Caio” no Facebook. O gibi vem com uma série de “plus a mais”. Tem pin-ups espirituosos, piadinhas extras e adesivo engraçadinho. Simpático. 

Pensando aqui com meus botões. Enquanto Cthulhu dorme, ele segue influenciando a vida na Terra com sua presença no inconsciente coletivo. Já pensou se isso estiver acontecendo na real? Já imaginou se o próprio HP Lovecraft não for seu criador, mas mero fantoche que ajudou a propagar os mitos de Cthulhu e sua turminha da pesada, os “Old Ones”? Cthulhu é figurinha fácil na literatura, na música, no cinema, nos video-games e – por que não? – nos gibis. Nos últimos anos saíram – apenas no Brasil – pelo menos três quadrinhos relacionados ao mito alienígena (R’lyeh Boy, O Despertar de Cthulhu e Rio Negro. Pode ser que nós também estejamos contribuindo para a disseminação do imaginário do monstrengo. Mas bem, isso é papo para outro post. Por hora fiquemos com o gibi do Caio. É uma ótima pedida. Especialmente para ser apreciado antes do eventual despertar de Cthulhu. (MMA)

Adesivo maneiro pra barbarizar com seu vizinho evangélico

Anuí Lelis (Independente, 2017): A caixa de música de pequena Alice quebrou. Seu choro de desconsolo está acordando a cidade inteira. Ela e sua mãe levam a caixa de música para arrumar. O consertador é o cara mais odiado da região, daqueles que fazem até o capeta passar raiva. No entanto, tudo muda quando toca o telefone da casa de reparos. Quem será?  Esse é o resumo livre de spoilers de Anuí. É uma história simples, mas nada simplória. É, sobretudo, um trabalho de entrega. Lelis transmutou sangue, suor e lágrimas em papel e tinta guache para criar mais uma de suas obras de arte. O painel de cada quadrinho seu – é clichê dizer isso, mas fazer o quê? – merecia ser emoldurado e apreciado na parede. Lelis se esmera para pintar cada tijolo, cada pedra, cada telhado. Lelis é operário dos quadrinhos. Lelis é pedreiro. Com Lelis não tem tempo ruim. Lelis é gente que faz. Como em todo trabalho desse mineirinho desembestado, o gibi respira sutileza. É transporte certo para uma dimensão na qual as cores são mais vivas. Em que as pessoas não precisam caminhar, já que flutuam. Quando leio Lelis, é como se pudesse sentir cheiro de café fresco e pão de queijo assando no fogo à lenha. Trem bão demais, sô. Lelis é isso aí. Simplicidade e generosidade em doses cavalares. Falando em cavalo, nunca vou esquecer da primeira vez que o encontrei, no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de 2015.  Dei uma olhada na listagem de convidados no guia do evento. Todos bonitos e de banho tomado, em fotos reluzentes. Já Lelis aparecia montado em seu alazão. Quer mais autenticidade que isso?

Momento emocionante ligado a Anuí foi quando recebi – eu e todos que patrocinaram o gibi – o tocante e-mail de Lelis confessando seu descontentamento com o resultado final da revista. Na verdade, insatisfação não com o gibi em si, mas com o fato de que a versão que foi para a gráfica – por erro – foi a de baixa resolução. Eu nem tinha reparado. Fica triste não, Lelis. A edição ficou duca. 

Lelis já foi publicado na Europa, em vários gibis, inclusive Goela Negra, lançado pela Mino em 2015. Não é fraco não. Acho difícil que os gringos levem ele embora, porque o cabra não vai querer trocar o cheiro do mato “nacionar” pela grama sintética estrangeira. Apesar disso, acho que devemos aproveitar enquanto o cara está por aqui e prestigiá-lo. Lelis é mais. Lelis é Brasil. (MMA

Eudaimonia – Luciano Salles (Independente, 2017): Diferentemente do sci-fi freak/lisérgico de trabalhos como O Quarto Vivente e Dark Matter (e reaproveitando a personagem de Luzscia, a Dona do Boteco), em Eudaimonia Luciano Salles traz à tona um submundo degenerado cheio de personagens "figura", traficantes e drogados que apelam ao non-sense dentro de um ambiente mais urbano. A porraloquice, no entanto (ainda bem), permanece a mesma. Porém, a coisa ganha camadas pesadas de Geof Darrow, Frank Miller dos anos 90/00, além de pitadas de Rafael Grampá, para erigir um verdadeiro colosso visual, em P&B super hachurado, preciso nanquim e um hiper detalhismo estilizado que meio que se justifica por si só.  Digo isso porque, por mais que a história passe como um relâmpago, seja espécie de trecho entrevado de algo maior e possa ser lida em poucos minutos, o apelo visual desta HQ é algo que não passa despercebido nem pelo mais careta e equivocado crítico do estilo visual hiper detalhista. Já o enredo trata de um acerto de contas entre um matador de aluguel brutamontes e meio mongoloide vestido de onça, aliado a uma velha bem escr*ta, dona de um bar, que precisa de droga para aliviar artrites terríveis e coisas assim.  A ação é vertiginosa. Mangás de Katsuhiro Otomo e Tayo Matsumoto também marcam presença como influências para a degeneração urbana, e Eudaimonia se faz ensaio pra algo que poderia ser maior e mais robusto (portanto, mais cabuloso). Linhas de ação trôpegas cortam as operações alucinadas que fazem esse quadrinho parecer um curta-metragem (bem curto mesmo) ou um teaser de algo ambicioso que se anuncia.

Eu, pessoalmente, aguardo ansiosamente o romance gráfico monstruoso que Luciano Salles está ensaiando em todas estas histórias curtinhas, unindo esses temas todos parecidos e favoritos: o convívio doidão com drogas estimulantes e/ou psicotrópicas, personagens barra pesada sempre “under the influence”, histórias sci-fi perturbadores que funcionam como se Black Mirror não fosse tão careta, imersão em sonhos, delírios ou realidade virtual mesmo.

Eudaimonia realmente é um quadrinho legal, mas tem um certo jeito de “amostra grátis” que faz a gente pensar se não é tudo uma ação de marketing do autor para soltar sua obra-prima num futuro próximo. Estarei certo? (CIM)  

Black Emperors: Bikes vs Sk8s - Dalton Cara e Magenta King (Independente, 2017): Magenta King e Dalton Cara. Temos que ficar de olho nesses rapazes, que não estão para brincadeira. Depois de chutar nossas bundas com o não menos que espetacular 5/5, a dupla endiabrada ataca novamente para nos brindar com outra pauleira na moleira: Black Emperors.  Se tivesse que escolher apenas dois adjetivos para descrever o último fruto dessa parceria, seriam os seguintes: dinâmico e explosivo, como foi o próprio processo de produção da HQ, abundante em adrenalina. Explico. Em 2017, a dupla se propôs o desafio de produzir uma revista de 32 páginas em um mês. O processo de criação foi exposto durante as aulas que ambos ministravam na Quanta Academia e no Sesc Pompeia, contando com o feedback dos alunos. Após o sucesso da empreitada, os dois resolveram pegar ainda mais pesado e expandir os limites que se auto impuseram. A aposta agora era lançar uma edição com pelo menos cem páginas num período pouco maior que trinta dias. As doses de exposição também aumentariam. Por isso, cada nova página do gibi foi religiosamente postada nas redes sociais, permitindo o escrutínio do público interessado. Pergunta se os caras conseguiram passar pelo segundo teste? Para nossa alegria sim. Eis que é lançado Black Emperors: Bikes vs Sk8s, que compila os dois trabalhos acima. De que se trata o gibi? Bem, o título já entrega em parte, mas o confronto entre gangues de skatistas e ciclistas é apenas o pano de fundo para uma saga que envolve vingança, rebeldia e gratidão. Tudo isso num ritmo frenético. Lembra que eu falei que o gibi é dinâmico? Então, o quadrinho te pega pelo pescoço desde o primeiro quadro da primeira página – que já te lança no meio da ação – e não solta até que termine a leitura. 

Primeira página de Black Emperors

Um dos pontos positivos da HQ é a riqueza imagética dos personagens. Cada participante da trama tem linguagem e visual característicos, que parecem ter sido meticulosamente estudados. Curiosamente, o enorme talento para criação de personagens parece equivalente à capacidade dos autores para se livrar deles. A cada três páginas, cerca de quinze personagens morrem, apenas para dar lugar a novos coitados que partirão dessa para melhor na página seguinte. Apesar disso, a história mantém um fio condutor coeso e lógico, que não se cansa de transpirar diversão. 

Influenciados por Paul Pope, os autores resolveram alterar seu processo criativo, permitindo-se pequenas alterações de percurso e flexibilizações no roteiro, tudo isso em nome da diversão. E o gibi é puro reflexo disso. Black Emperors está aí para capturar os corações e mentes de leitores cansados de quadrinhos carentes de espontaneidade, criados a partir de receita de bolo. Pela leitura do gibi, fica evidente que Dalton e Magenta cresceram lendo doses maciças de gibis de super-heróis. O impressionante é que mesmo depois de comer tanto arroz com feijão, eles não se deixaram levar pelas fórmulas batidas do gênero. O mais bacana é ver que eles souberam aproveitar as influências para lançar novos olhares para o universo dos quadrinhos, fugindo de maniqueísmos e de personagens bidimensionais. Por isso, a trama de Black Emperors é altamente ousada e imprevisível. 

À moda de Howard Chaykin, os diálogos não têm espaço para didatismo ou explicações do tipo quem é quem. A história tenta emular o modo como as coisas como acontecem na vida real. Não há tempo para identificar cada um dos personagens, mesmo porque eles já estarão mortos nas páginas seguintes. O negócio é se deixar levar pelo vagalhão, sem fazer muitas perguntas. 

Não é fácil permanecer vivo no universo de Black Emperors

O leitor tem um ponto de vista privilegiado para observar o universo de Dalton e Magenta. Quem nunca foi dos grupos mais populares da escola – como eu – vai poder acompanhar de camarote uma realidade habitada exclusivamente por pessoas cool, tipo aquela turma da qual você nunca fará parte.

Black Emperors é uma espécie de versão quadrinizada e insana de seriados como Barrados no Baile e similares. Para mim, programas desse tipo suscitavam aquela sensação de fingir desprezo pela turma popular, mas sempre dar uma espiada torcendo para que os bonitões e descolados acabem se lascando. E o bom é que, em Black Emperors, quase todo mundo se dá MUITO mal. 

Para deleite dos leitores, o universo de Dalton e Magenta está todo interconectado. Fui ao delírio quando foi revelada a ligação do gibi com outra cria da dupla, o 5/5. Só posso terminar este texto dizendo: “Por favor, não parem. Continuem produzindo e eu continuarei comprando.” (MMA)