BIENAL DE QUADRINHOS DE CURITIBA 2018 - Um evento à altura do quadrinho brasileiro

BIENAL DE QUADRINHOS DE CURITIBA 2018 - Um evento à altura do quadrinho brasileiro

Grosso modo, pode-se olhar para as histórias em quadrinhos sob duas perspectivas distintas e, eventualmente, antagônicas. De um lado, existe o quadrinho como mero entretenimento, inserido num mercado multimilionário e transnacional. Trata-se da tão propalada “cultura pop” – ou geek, ou nerd, tanto faz. Neste campo, a relação do indivíduo com o universo dos quadrinhos se dá através do consumo desenfreado e acrítico. O sujeito – sujeito é modo de falar, não me levem ao pé da letra, por favor – assiste os filmes e séries, compra o balde de pipoca, a camiseta, o pôster, a caneca, o protetor de celular, o bonequinho, o videogame, a cueca. Compra também o encadernado em capa dura de seu super-herói favorito. Mas não é sempre que lê. 

Na outra ponta, temos as histórias em quadrinhos entendidas como media. Um meio de comunicação potente e autônomo, que se materializa através de uma gramática particular e infinitamente rica. Tal e qual o cinema, a literatura, as artes visuais e outras formas de expressão, os quadrinhos podem ser tudo. Inclusive, arte. Toda a complexidade da experiência humana cabe em suas páginas. Logo, tomar os quadrinhos como mero produto mercadológico evidencia uma perspectiva pobre, tacanha e medíocre, incapaz de dar conta de sua intrínseca sofisticação. Um desserviço às próprias HQs.

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MELHORES QUADRINHOS LIDOS EM 2017 - PARTE 4

Fazendo o levantamento das melhores leituras de 2017, algumas constatações me saltaram aos olhos. A primeira, é que não li pouco – mas li menos do que gostaria. A bem da verdade, se pudesse, passaria o tempo todo lendo. Ou quase.

Ainda que tenha lido em boa quantidade, fiquei longe de equilibrar a razão entre o que adquiri e o que efetivamente consumi. De modo que a pilha segue aumentando de forma doentia. Mantenho a fantasia de que irei ler absolutamente todos os gibis que tenho. Mas a matemática e o tempo são implacáveis e essas questões têm me atormentado mais e mais (vou até comprar uns gibizinhos agora pra aliviar um pouco a ansiedade).

A escolha das leituras também não obedeceu a nenhum critério claramente definido. Tirei o atraso de algumas obras importantes. E perdi tempo com algumas besteiras. A ideia que vai se plasmando em mim é que não sou eu quem escolhe os gibis a serem lidos, são eles que me escolhem – numa equação que envolve acessibilidade (muitas vezes não encontro o que quero ler em determinado momento) e intuição.

Sempre advoguei que a Raio Laser deva ter uma perspectiva atemporal. É consenso entre nós. As listas de melhores não têm a mínima pretensão de cobrir o ano editorial. Isso é papo de assessoria de imprensa jabazeira. Bons quadrinhos nunca terão prazo de validade. Minha surpresa foi perceber que a maioria das HQs que compõem minha lista de melhores foi, coincidentemente, publicada em 2017. O que isso significa? Sei lá.  Por fim, não gosto de estabelecer hierarquia entre as obras. Então, chega de papo furado e vamos à lista. (MJR)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

por Márcio Junior

01 - O MUNDO DE EDENA, Volumes 1 a 6 – Moebius (Nemo, 2013 a 2014): Tenho uma dívida pessoal com a Editora Nemo pelo esforço e qualidade com que preencheram inadmissíveis lacunas do mercado editorial brasileiro. Em edições primorosas, publicaram (ou republicaram) autores de primeira grandeza como Hugo Pratt, Enki Bilal e Jean Giraud, o insuperável Moebius. Após oito álbuns cobrindo diferentes trabalhos do mítico autor francês, foi a vez da espantosa série O Mundo de Edena. Moebius é um artista sem igual. Dentro e fora do mundo das HQs. Entre 1983 e 2001, ao longo de 18 anos – o hiato de uma maioridade –, concebeu os seis livros que narram a epifânica trajetória de Atan e Stel. Por mais improvável que pareça, a série nasceu de uma encomenda feita pela gigante automobilística Citroën. Foi a fagulha necessária para que o autor se lançasse num oceano de profunda criação, sem destino certo ou porto seguro. Guiado unicamente pela liberdade, deu à luz uma obra de infinitas leituras, lidando com temas tão diversos quanto a relação homem/máquina, sexualidade, natureza, mitos criacionais, opressão, sonho, psicanálise, inconsciente, alimentação, magia e, acima de tudo, transformação.  Para Moebius, a vida se dá em constante mutação. E mais que pontos de partida e chegada, o mais importante é o caminho – ele mesmo dinâmico e mutável.

Posto que forma e conteúdo não se dissociam, graficamente O Mundo de Edena nos conduz a infindáveis viagens imagéticas. Nasce de uma busca do artista pela essência do traço, pela negação dos excessos. E mesmo esta busca se transubstancia em tantas outras abordagens visuais ao longo dos álbuns, num constante processo de experimentação que jamais se esgota em si mesmo. Ali, a beleza se materializa e se atualiza de modo sempre novo. Uma obra de arte definitiva.

Realizei uma imersão no Mundo de Edena. Foi, sem sombra de dúvidas, minha mais importante leitura em 2017. Planejei longos textos sobre a obra aqui na Raio Laser. A vida – em constante mutação, como já dito – não permitiu. Fica para outro momento. Mas aquele mundo onírico permanece aberto, à espera de quem se aventure por suas paragens. Faço então um único pedido à Nemo: deixem minha dívida aumentar. Continuem publicando Moebius.

02 - BILLIE HOLIDAY – Muñoz & Sampayo (Mino, 2017) e EL COLMILLO DE LA SERPIENTE – Muñoz & Charyn (Norma, 1999): O argentino José Muñoz é um deus do claro-escuro, um poeta das sombras, um gênio dos quadrinhos. Sua pena cava profundos sulcos no papel, deixando um leito aberto para que o nanquim/sangue/treva possa preenchê-lo, dando forma a obscuras facetas da experiência humana. Não deixa de ser absurdo um artista desta magnitude permanecer praticamente inédito no Brasil. Movida a coragem, a Mino deu sua contribuição para reverter este quadro com a preciosa edição de Billie Holiday – na minha opinião o grande lançamento de 2017 no mercado brasileiro. Outra obra-prima de Muñoz lida ano passado foi El Colmillo de la Serpiente – esta, ainda inédita por estas plagas. Falei sobre os dois livraços aqui.

03 - SILÊNCIO – Didier Comès (Bertrand, 1983): Silêncio, obra icônica do belga Didier Comès, foi um desses acasos fortuitos: numa jogada de pura sorte, o livro veio parar em minhas mãos. Daí para se tornar um dos favoritos (não de 2017, mas de toda a minha vida), foi o prazo de uma leitura. Escrevi sobre ele aqui.

04 - CIDADES ILUSTRADAS - SALVADOR – Marcello Quintanilha (Casa 21, 2005): A tradução gráfica de uma cidade a partir das impressões de um olhar estrangeiro era o mote da coleção Cidade Ilustradas. Quadrinistas nacionais e internacionais eram convidados a viver por cerca de duas semanas em uma cidade brasileira. A partir desta imersão, com grande nível de liberdade oferecido aos artistas, nasciam os livros – invariavelmente ricos e interessantes. David Loyd (São Paulo), Jano (Rio de Janeiro), Fabio Moon & Gabriel Bá (Manaus) e Guazzelli (Florianópolis) foram alguns dos nomes que participaram da coleção. O ponto mais alto, entretanto, viria com a Salvador de Marcello Quintanilha.

A tão decantada capacidade de Quintanilha em captar o tipo comum brasileiro brilha aqui mais que figurino de Ivete em cima de trio elétrico. Seu pendor natural pela originalidade faz com que Cidades Ilustradas: Salvador não seja uma mera compilação de desenhos (espetaculares, como de praxe, em se tratando de Quintanilha). Mais que isso, o livro situa-se num lugar indefinido entre livro ilustrado e história em quadrinhos, expandindo os limites de ambos.  Existe uma narrativa em prosa a percorrer a obra, com saltos e interstícios. Personagens surgem, desaparecem, retornam. As imagens possuem um diálogo com esta narrativa, são atravessadas por ela. E as atravessam. Imagem e texto, um prenhe do outro.

Cidades Ilustradas: Salvador opera então com uma meta-HQ. Por outro lado, a qualidade do texto de Quintanilha é, por si só, notável. O livro é a prova cabal que o autor poderia se dedicar exclusivamente à literatura. Mas não faça isso não, Marcello. Já nos basta a ausência de um Mutarelli. 

05 - NÓIA, UMA HISTÓRIA DE VINGANÇA! – Diego Gerlach (Escória Comix e Vibe Tronxa Comix, 2017): No atual (e riquíssimo) panorama dos quadrinhos brasileiros, o gaúcho Diego Gerlach é – como ele mesmo afirma, em profusa auto-ironia – avis rara. Desenhista de mão cheia e idiossincrático até a medula, tem criado uma obra originalíssima em dezenas de zines espalhados por aí. Ponto para a Escória Comix ao intimar o sujeito a criar Nóia, uma história de vingança! Com sua inconfundível personalidade, Gerlach sintetiza uma vibe moral setentista/oitentista, respaldada em um repertório que abarca o Justiceiro do Ross Andru, Dirty Harry e... Mauricio de Sousa! Nóia, o personagem principal, é um Cebolinha ultra-reaça, com cabelo de maconha e camisa da CBF. A hiper-violência que escorre pelas páginas carregadas de tensão frenética de Gerlach é gratuita apenas a um olhar desatento. Muito do Brasil 2018 está ali. Para mim, isso é que é Graphic MSP.

06 - ÚLCERA VORTEX, Volumes I e II – Victor Bello (Escória Comix, 2017): Outra pedrada da Escória Comix. Em um país sério e honesto, gente como o editor Lobo Ramirez e o quadrinista Victor Bello estariam atrás das grades. Sorte a nossa que estamos no Brasil.

Úlcera Vortex é um delírio da podreira. A imaginação de Victor Bello é irrefreável. Vejo o sujeito como uma espécie de Jack Kirby – só que débil mental e comedor de bosta cagada por pessoas movidas a uma dieta de ácido e Pitú. Obrigado Escória Comix e Úlcera Vortex. Vocês são a única resposta cabível à fofurização que acomete o quadrinho brasileiro.  

07 - CAMALEOA – Watson Portela (HC Comix, sem data, anos 1990): Se a memória da outrora popular tradição do terror no quadrinho brasileiro está se apagando, o que dizer então de nossas HQ eróticas? Quando falamos em sacanagem desenhada, um único nome vem à mente: Carlos Zéfiro. Nada mais injusto. Ao longo de décadas, nossas bancas foram o lar de milhares de gibis dedicados ao auxílio da prática onanista. Muito desse material era de qualidade questionável. Todavia, em períodos de vacas magras, a pornografia era o ganha-pão de legendas como Flavio Colin, Julio Shimamoto e Mozart Couto.

Camaleoa é um registro dos estertores deste mercado. Trata-se de uma pornografic novel (sic) do gigante Watson Portela. Ou melhor, de Helga (roteiro) e Barroso (arte) – afinal, o uso de pseudônimos era frequente no meio, uma vez que os quadrinistas buscavam resguardar sua imagem de “artistas sérios”. Manara, Crepax, Serpieri e quetais são tidos como mestres do erotismo. O Brasil produziu HQs do mesmo nível. Está passando da hora deste material ser resgatado com o devido cuidado. Eu ajudo. Com o maior prazer.

08 - MENSUR – Rafael Coutinho (Quadrinhos na Cia., 2017): Mensur está em tudo que é lista de melhores de 2017. Eu é que não serei blasé a ponto de retirá-lo da minha só por causa disso. Mas também não vou ficar aqui dizendo o quanto essa HQ é das coisas mais incríveis já vistas no quadrinho brasileiro. Periga o Rafa Coutinho ficar blasé...

09 - BLACK HOLE, Volumes 1 e 2 – Charles Burns (Conrad, 2007 e 2008): É sempre difícil encarar a pilha de quadrinhos que aguarda leitura anos a fio – enquanto cresce exponencialmente. Em 2017, um dos títulos com os quais finalmente acertei as contas foi Black Hole, de Charles Burns, ainda em sua primeira edição nacional, pela Conrad. As pilhas que se acumulam por anos dizem muito da nossa patologia. E patologia é um dos temas centrais da mais ambiciosa obra de Charles Burns, já alçada à categoria de clássico. Medo, isolamento, inadequação, sexo... Os dilemas enfrentados por todo ser humano na passagem para a fase a adulta são tratados com bizarra densidade através da perspectiva única de Burns. E como desenha esse desgraçado! Se você ainda não conhece Black Hole, não seja doente como eu. Pare o que está fazendo e corra atrás do livro, agora em edição única pela DarkSide.

10 - OS MORCEGOS-CÉREBRO DE VÊNUS E OUTRAS HISTÓRIAS – Coleção Incendiária, Volume 1 (Mino, 2017): A Mino segue resoluta no objetivo de construir um dos mais brilhantes e diversificados catálogos de quadrinhos no Brasil. Este primeiro volume da Coleção Incendiária – que marca o retorno do editor Lauro Larsen à casa que ajudou a fundar – é prova inconteste do profundo cuidado dedicado às suas publicações. Se é que alguém ainda não sabe, trata-se de uma portentosa compilação de quadrinhos norte-americanos de ficção científica, com um recorte que vai de 1939 a 1954 – ano em que se instaurou o famigerado Comics Code Authority. (Um parêntesis: alguma vez no mundo alguém já citou o Comics Code sem antes precedê-lo do adjetivo “famigerado”?). Ao todo, são 31 HQs que compõem um mais que representativo panorama do período. O material, em domínio público, passou por um monástico processo de restauração pelo designer Carlos Junqueira, idealizador do projeto. A qualidade do preto e branco alcançada na publicação não tem paralelos no mundo. Todavia, há controvérsias em se abrir mão das cores originais – planas e com paleta reduzida. Não foi à toa que Roy Lichtenstein ficou de quatro por elas.  O livro (de design impecável), foi traduzido com categoria pelo demônio Diego Gerlach. Intimidade com quadrinhos bizarros o sujeito tem de sobra - e é uma pena que a revisão não tenha sido mais criteriosa. 

Um certo Dr. Ciro Inácio Marcondes abre os trabalhos com o não menos que excepcional artigo Os intrusos numa era antes da censura. Daí pra frente é deliciar-se com as mirabolantes narrativas de um período cada vez mais distante de nós e assistir diversos nomes (alguns hoje consagrados; outros, injustamente esquecidos) dando seus primeiros passos na arte sequencial – ao mesmo tempo em que faziam com que a própria linguagem se desenvolvesse.

É emocionante ver a insanidade de Basil Wolverton e Fletcher Hanks, a classe de Alex Toth, Joe Kubert e Wally Wood, a originalidade à toda prova de Jack Kirby. Eram autores se estabelecendo num meio absolutamente avesso à autoralidade: o comic book. Pois se nas prestigiosas tiras de jornal o público procurava Alex Raymond, Hal Foster e Milton Caniff (entre tantos outros de elevada reputação à época), no descartável e industrial comic book tudo que a garotada buscava eram histórias completas, de seus personagens ou gêneros favoritos. Para além de nostalgia vintage, Os Morcegos-Cérebro de Vênus são um precioso documento do próprio amadurecimento em curso nos quadrinhos norte-americanos da época. Pena que o famigerado Código de Ética provocou um indesejável desvio de percurso, do qual as HQs se ressentem ainda hoje. 

11 - JACK KIRBY PENCIL AND INKS – Jack Kirby (IDW, 2016): Se estivesse vivo, em 2017 Jack Kirby completaria um século de existência. A data foi comemorada com uma miríade de lançamentos mundo afora. Nada mais justo. Após um final de carreira onde amargou certo ostracismo, desde sua morte, em 1994, a coisa gradativamente mudou de figura. Não tenho estatísticas nas mãos, mas as colocaria no fogo pela afirmação de que nenhum quadrinista norte-americano foi mais estudado, discutido e reverenciado nas últimas duas décadas. Com a mesma segurança, sou capaz de afirmar que Kirby é, em diversos aspectos, o mais influente autor de comics desde sempre. No Brasil, a celebração foi pateticamente tímida. Com milhares e milhares de páginas implorando publicação – muitas delas ainda inéditas no país do golpe – a Panini, a título de exemplo, resumiu-se às duas edições de Super Powers (um trabalho tardio, infantil e sem o vigor pleno do Rei). Jack Kirby Pencil and Inks é uma belíssima edição da IDW. Os primeiros números de Demon, Kamandi e OMAC estão reunidos sob uma excelente proposta editorial. Cada página das HQs é apresentada lado a lado: à esquerda, apenas o lápis de Kirby (que àquela época fotocopiava tudo que produzia antes de enviar os originais à editora); e à direita, arte-finalizada (e escaneada diretamente do original, o que significa termos acesso às nuances do nanquim, aos retoques com guache branco, às anotações feitas nos rodapés). Além da imaginação infinita – tão típica de Kirby –, é possível perceber a inacreditável precisão de seu lápis. Desenhos detalhadíssimos, que parecem nascer sem qualquer esboço ou estudo prévio. Por outro lado, constata-se também que o brilhante Mike Royer é, de fato, seu arte-finalista definitivo. Um livro para se degustar com o babador rente ao pescoço.

12 - HELLBOY NO INFERNO Volume 1: DESCENSO – Mike Mignola (Mythos, 2015): Já disseram tudo sobre Hellboy: que é terror de influências lovecraftianas, conto de fadas misturado a lendas folclóricas de diferentes matrizes culturais, aventura pulp. Nada disse deixa de ser verdade. Mas há algo que paira acima de todas estas referências: Hellboy é um gibi de super-herói. Dos melhores. Temos ali toda a imaginação tresloucada típica do gênero, o herói carismático em uma jornada de percalços infinitos, vilões casca-grossa, ação em doses cavalares e o melhor: despretensão. Assim como Mike Mignola é um dos mais dignos herdeiros de Jack Kirby – o rei eterno e absoluto desta seara –, Hellboy carrega o legado do melhor da Marvel dos anos 60/70. Compare o capetão com o Coisa da dupla Lee & Kirby e verá que as semelhanças extrapolam a mera coincidência – a começar pelo gosto por charutos.

Após tempos dedicando-se exclusivamente aos roteiros e ao espólio do personagem (que inclui filmes, animações e tudo que a indústria do entretenimento pode oferecer), Mignola retorna ao timão na série Hellboy no Inferno. Para isso, teve antes que matar o personagem – por motivos que não os usualmente adotados pelos comics norte-americanos. A morte de Hellboy não foi uma ação de marketing para inflacionar as vendas do personagem, mas um estratagema para jogá-lo no inferno, lugar imaginário onde Mignola não teria que desenhar nada que lhe incomodasse – como carros, aparatos tecnológicos reais e cidades contemporâneas. Livre de amarras gráficas, dali pra frente seria só alegria. Não foi bem o que aconteceu. Após dez edições, Mignola – que curiosamente parece ser um artista em constante crise criativa, a despeito de seu descomunal talento – jogou a toalha. As cinco primeiras edições foram compiladas neste encadernado. As restantes estão anunciadas para o início de 2018. Já estou salivando. 

13 - INUYASHIKI Números 1 a 4 – Hiroya Oku (Panini, 2017): Ichiro Inuyashiki é um perdedor. Tem 58 anos, mas aparenta mais. É frágil, medíocre e constantemente humilhado – até pela própria família. E então descobre que está com câncer. Em estado terminal. O absurdo entra em cena: Inuyashiki é pego por uma explosão de origem alienígena e acorda sem se lembrar de nada. Com o passar do tempo, descobre que se tornou um androide com incríveis poderes. O que fazer com eles? Como toda ficção científica de primeira, Inuyashiki não é sobre ciência, capacidades especiais, máquinas invocadas ou destruição em escala nuclear, mas uma profunda reflexão sobre a vida contemporânea. O mangaká Hiroya Oku é um craque. Desenhista brilhante e dono de um storytelling afiadíssimo, conduz a HQ com classe e sofisticação, criando um tratado sobre as penúrias do homem comum, invisível. Coisa fina. Das poucas que me deixam ansioso pela próxima edição.

14 - TEX GIGANTE nº 31: CAPITÃO JACK – Tito Faraci e Enrique Breccia (Mythos, 2016): A coleção Tex Gigante traz o suprassumo do mítico personagem italiano – que em 2018 comemora 70 anos de vida editorial. Quadrinistas internacionais do mais alto gabarito são convidados a oferecer sua visão do ranger em álbuns que ultrapassam 200 páginas. Joe Kubert, Magnus e Ivo Milazzo são apenas alguns dos nomes que já desfilaram pelas páginas da coleção. Capitão Jack traz Enrique Breccia (filho do imortal Alberto Breccia, legenda maior do quadrinho argentino) abusando de seu espetacular preto e branco, destilando diversas técnicas na arte-final e compondo as páginas de forma bela e sóbria. Tudo isso para nos levar à aridez do velho oeste, onde se desenrola a trama habilmente escrita por Tito Faraci, num tom mais maduro que o usual bonelliano. Em algum momento, Capitão Jack deve ser republicado pela coleção da Salvat ou mesmo em Tex Gigante em Cores, da Mythos, onde a colorização arruinará (ao menos em parte) o brilhante trabalho de Breccia.

15 - TEX nº 573 a 575: O Sinal de Yama – Mauro Boselli e Fabio Civitelli (Mythos, 2017): Ainda falando em Tex, difícil imaginar uma melhor porta de entrada para o universo do personagem que a trilogia O Sinal de Yama. Está tudo ali: tiroteios, ciladas, pancadaria, magia, vilões terríveis, heróis destemidos e infalíveis. Mauro Boselli entrega uma aventura de tirar o fôlego, explorando um elenco de personagens que esbanja carisma – ainda que claramente estereotipado. Mas o destaque vai mesmo para a inacreditável arte de Fabio Civitelli, de longe meu texiano favorito. Seu rigor acadêmico e a obsessão com os detalhes beira a insanidade. Civitelli desenha com precisão absoluta cada grão de areia do deserto, cada folha de arbusto, cada espinho de cacto. As 34 primeiras páginas da HQ – mostrando o retorno do icônico arqui-inimigo Yama – são um espetáculo de atmosfera horrorífica. A boa notícia é que em abril a Mythos republicará O Sinal de Yama, em formato maior e edição caprichada – os formatinhos usuais são um atentado contra os desenhistas da Bonelli. A má notícia é que novamente irei gastar dinheiro com esta HQ. 

16 - MASTERS OF SPANISH COMIC BOOK ART – David Roach (Dynamite Entertainment, 2017): Minha dieta de leituras invariavelmente inclui art books. E em 2017 foi este Masters of spanish comic book art que fez a alegria da casa. Na década de 1970, os espetaculares desenhistas espanhóis tomaram de assalto os quadrinhos norte-americanos, principalmente através dos magazines em preto e branco da editora Warren (que não se submetiam ao famigerado Código de Ética e, portanto, lidavam com conteúdo mais adulto). Gênios do traço como Esteban Maroto, Auraleón, Luis Bermejo, Pepe Gonzáles, Fernando Fernández, José Ortiz e Sanjulián levaram a arte das HQs a patamares inauditos. O belíssimo livro organizado por David Roach destaca este período, mas cobre um espectro bem mais amplo dos quadrinhos de autoria espanhola, chegando a nomes contemporâneos como Daniel Acuña e David Aja, conhecidos dos nerds mais espertos. Com 272 páginas e 500 ilustrações – das quais mais da metade escaneadas diretamente dos originais – Masters of spanish comic book art é de encher os olhos (podendo até fazê-los verter lágrimas, a depender da sensibilidade do cliente).

Rapidinhas Raio Laser #05

Machado escreveu, com aquela pomposidade tipicamente machadiana: "Estabelecei a crítica, mas a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata, que não reflete nem discute, que abate por capricho ou levanta por vaidade; estabelecei a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada, — será esse o meio de reerguer os ânimos, promover os estímulos, guiar os estreantes, corrigir os talentos feitos; condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença, — essas três chagas da crítica de hoje, — ponde em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a justiça, — é só assim que teremos uma grande literatura."

Bem, pomposidade à parte (Machado pode), e sem essa de "grande" literatura, as palavras do nosso autor predileto ainda ressoam para a crítica de hoje. Condenar o ódio gratuito, a camaradagem estéril e a indiferença blasé - é o que tentamos fazer por aqui (vejam bem, Machado condenava esse vícios no século 19). Logicamente, nossa crítica é de Internet, e não pretendemos exaurir nada. O texto tem de ser enxuto, e algumas generalizações precisam ser feitas. Mesmo assim, vocês devem ter notado um certo aumento de tamanho (e de maturidade) em relação às primeiras "Rapidinhas". É que nós respeitamos o que lemos. Respeitamos o trabalho do autor de quadrinhos no Brasil.

Dito isso, aquela coisa: quase tudo é bem novo, mas tem coisa velha (tipo um quadrinho do Gerlach de 2012 - mas é Gerlach, p*rra! Esse é outro que pode), pois nosso encalhe aqui parece interminável. Além disso, estreiam nesta seção dois dos nossos colaboradores mais novos, Lima Neto e Marcos Maciel de Almeida (sumidades da cultura de quadrinhos de Brasília). Aguardem mais resenhas e não deixem de mandar coisas pra gente. Lenta como uma lesma presa numa labirinto, a Raio Laser procura cobrir tudo que recebe. Para aparecer aqui, envie seu material para:

RAIO LASER

SQS 212 Bloco G Apto 501.

Brasília-DF

Brasil

CEP: 70275-070

Peace! (CIM)

por Ciro Inácio Marcondes, Lima Neto e Marcos Maciel de Almeida

PIMBA Nº 3 – Vários (Independente, 2016, 28 p.): aqui na Raio Laser, o Jornal Pimba já dispensa qualquer apresentação. Depois de passarem 2015 em branco, a equipe radicada em Brasília (Gomez, Mello e Sobreiro, esses apocalípticos), do jeito que deu, chupando cana e trocando pneu de carro ao mesmo tempo, lançou uma nova e linda edição do jornal de quadrinhos mais carismático do País (há outros, como o mais avant-garde Suplemento, ou o ótimo jornal de tiras Graphic, do guerrilheiro das HQs Mário Latino, ou o novíssimo Altamira). Como sempre impresso em uma cor dominante (desta vez amarelo) e layout despojado e eficaz, o Pimba retorna repetindo algumas pratas da casa (Góes, San, Valente, Belga) e traz novos convidados do indie brazuca que dão certo peso e responsa à publicação: Chiquinha e Pablo Carranza, por exemplo, coisas de espectros meio opostos, entregam folhas de quadrinhos despretensiosos, diria até dispensáveis (dado o potencial); bobos, mas não sem graça. Já a dupla Bruno Maron e Ricardo Coimbra, de lente e lápis afiados para um cinismo bruto (que a nossa geração merece ouvir), não parecem ter reservado seus melhores trabalhos para o jornal. Soou como improviso. Mais interessante, em quadrinhos, é a metacrítica feita por André Valente “Fazer quadrinhos vai destruir você, vai partir seu coração”. De fato, ao que parece, vai. Valente pega esta citação de Schulz e, num sentido mesmo charliebrownesco, constrói uma visão na verdade desoladora, neurótica e categórica sobre o ofício de fazer quadrinhos no Brasil. Resta pouca esperança, realmente, se o melhor de uma produção reside na autoparódia. Tudo fica em tom de despedida.

Assim como na edição 2, os quadrinhos oscilam, mas há muitos bons momentos em texto (e ilustração) para deixar o Pimba 3 mais interessante. Com maior participação feminina, temos, por exemplo, um conto de memória rural (mas de mentalidade urbana) exíguo e melancólico de Marcella Moraes; e uma ótima, satírica e perversa leitura de certa tosca mentalidade masculina por Maíra Valério. Temos Arnaldo Branco, que cria uma pequena exegese para o vício (viva!); temos um conto bastante prosaico (em tom de crônica, mas sem perder e verve de Literatura sobre o interior do Brasil) de Milton Sobreiro (o que dá um ar menos hipster pra coisa toda); e temos uma fritadíssima autorreflexão de Hector Lima sobre a adesão descontrolada e antissocial a produtos culturais de consumo, misturado a ciência contemporânea e Literatura de Internet (o que traz um ar pós-moderno). Não falta ao Pimba, portanto, gente talentosa. A minha impressão, no entanto, é que a editoração dessa p*rra funciona como uma invasão dos Piratas do Tietê, espécie de onda caótica de mentes tresloucadas sedentas por expressão, mas ainda assim se atropelando de ansiedade. (CIM)

Topografias – Bárbara Malagoli, Julia Balthazar, Lovelove6, Mariana Paraizo, Puiupo, Taís Koshino (Piqui, 2016, 60 p.): se pensarmos a topografia como o mapeamento de um território, este quadrinho tem dupla função: em primeiro lugar, é um radar para o melhor da produção feminina no Brasil atualmente, especialmente no meio indie. A ideia é realmente construir uma cartografia, indicar o caminho, levar a produção masculina pelas mãos e dizer: “fazemos bem e fazemos diferente”. Neste sentido (e sem querer avançar mais no chauvinismo da guerra de sexos), Topografias é um material aberto à experimentação e à sensibilidade radical, um tipo de autoria em quadrinhos que possui outro DNA, outras preocupações e prioridades. Em segundo lugar, a topografia (escrita do espaço) também diz muito sobre a qualidade artística do trabalho em si destas minas. Pouco preocupadas em construir narrativas funcionais ou numa “antiquada” produção mais tradicional de sentido, estas quadrinistas deixam o espaço falar (e também o espaço da página) como se fosse uma expressão em si, deixando balões de fala, texto e mesmo questões políticas em segundo plano.

O resultado em geral é acima da média. Há uma forte pulsão expressiva na maneira como este coletivo representa suas ideias em quadrinhos. Em alguns momentos, porém, ainda resvalam em certos procedimentos naïve, e muitas vezes o texto mais atrapalha do que qualquer outra coisa. Vejamos o caso de Bárbara Malagoli: ela constrói um poderoso dispositivo visual inspirado em sci-fi, com trabalho de cores louquérrimo e embasbacante, mas há uma disjunção entre estas splash pages e os textos, que parecem excertos (pseudo) filosóficos (“É tudo um sonho, um sonho grotesco e tolo”) soltos, sem muita conexão com as imagens. Falta aquela “liga” que faria o quadrinho ressoar melhor na gente. Já Julia Balthazar se sai melhor ao apresentar uma simples tarde na piscina vivenciada por duas garotas apaixonadas, em sua exclusividade. Também há uma forte presença do espaço e das cores, como se a transmissão da impressão do sentimento se sobressaísse a quaisquer palavras (de fato os diálogos são vagos e não dizem muito).

A sci-fi também está presente nas contribuições sui generis de Taís Koshino e Puiupo. A primeira é a melhor participação da revista e talvez sua melhor história ever: numa turma de crianças telepatas praticantes de meditação, temos acesso a certo “museu do futuro”, que conta a história de nossa evolução (com bem-humoradas alterações). Koshino alterna bem a disposição entre um senso de humor muito próprio, questões sobre tecnologia, corpo humano e realidade virtual, além de um intrigante trabalho com cores e empaginação (e aqui o texto – paródia do cientificismo – funciona). Já Puiupo apresenta uma cena grotesca em sua visão freak, cronenberguiana, sexy de um jeito inimaginável. Não entendi muita coisa, mas há personalidade e imagens que não saem da cabeça. Por fim, Lovelove6 traz um trabalho bastante radical e pessoal, em tons (eroticamente bem pensados) de vermelho e roxo, também numa cena arquetípica de amor entre duas mulheres. A topografia em si da história é bastante marcante e virulenta, mas a mensagem do texto (“o ciúme é bastante antigo”) me pareceu meio moralista. Enfim, vale também destacar o belo trabalho de editoração de Lívia Viganó para este que é um dos mais bonitos e significativos lançamentos do ano passado. (CIM)

Cais – Janaína de Luna e Pedro Cobiaco (Mino, 2016): quando acordamos e relembramos acontecimentos ocorridos em nossos sonhos, nada parece fazer sentido. Ainda assim, quando estamos dentro da realidade onírica, tudo parece ter lógica, não é? Agora imagine poder ver um sonho estando acordado. Foi assim que me senti quando li Cais. Essencialmente intimista, a narrativa em primeira pessoa nos dá dicas preciosas sobre o inconsciente de Diana, a protagonista, mas deixa muita coisa em aberto. Confesso que tive de ler umas três vezes para sacar qual era a onda do gibi, mas isso não é um ponto negativo. Muito pelo contrário. Numa época em que a informação tem que ser cada vez mais objetiva e mastigada para agradar a leitores apressados, é saudável encontrar HQs que nadam contra essa corrente. 

A água, em suas diversas formas, é presença constante no gibi, assim como são as diversas metáforas que ajudam a entender (ou confundir) quem é Diana e qual a natureza de seu relacionamento com – eis um nome escolhido a dedo – Martin. As lentas idas e vindas do casal são a preguiçosa maré que vai embalar o ritmo desta HQ, que poderia se passar em qualquer vila litorânea do Brasil. A arte é um capítulo à parte. O belo contraponto em preto e branco deste Cais com o colorido esfuziante de Aventuras nailha do tesouro mostra que Pedro Cobiaco está à vontade em qualquer praia. Ouvi dizer por aí que pode ser que Diana volte num gibi de mais de cem páginas. Espero que o sonho se torne realidade. (MMA

Quadrinhos Insones – Diego Sanchez (Mino, 2016, 96 p.): não são poucos os motivos que nos fazem embarcar em vigílias involuntárias noite adentro. E embora tenha certeza de que o bem-estar social no mundo é um deles, a grande maioria das insônias são causadas por pequenos nós íntimos do dia a dia que nosso cérebro insiste em tentar desatar quando deitamos. E Quadrinhos insones, um apanhado da produção digital do quadrinista Diego Sanchez publicado pela Mino em 2016, é uma testemunha disso. O belo livrinho – que poderia ter uma produção mais modesta em consonância ao caráter despojado das narrativas – abre com uma pesada descrição da guerra civil no Camboja em 1975, mas rapidamente a narrativa histórica dá lugar a reflexões e micro-crônicas às vezes fantasiosas e muitas vezes íntimas e autobiográficas. A arte de Sanchez é uma delícia de se ver, algo como um Richard Sala hiper detalhado. E, no geral, o gibi proporciona alguns momentos de entretenimento belos e descompromissados. A bela “Escalas” e “O estranho caso da baía 4” são bons exemplos disso. Alguns continhos de uma página também seduzem pela capacidade de síntese. Quanto à linguagem, o grande destaque é o quadrinho sem título da página 50, uma perolazinha que traz ecos de Spiegelman e McCloud, que nos lembra novamente por que produzimos e lemos narrativas neste tipo de mídia.  O restante do quadrinho, entretanto, é prejudicado pela intimidade autobiográfica que esbarra em alguns lugares-comuns do modo de vida “indie”, tornando egocêntrico o que poderia ser distinto. Essa irregularidade do título, assim como seu caráter despojado, me fazem pensar em como ele seria melhor se lido com uma produção mais baixa – uma lombada canoa, papel jornal e algumas páginas a menos fariam deste Quadrinhos insones um sono mais agradável. (LN)

2015 – Antônio Silva, Augusto Botelho e Daniel Lopes (Org., MÊS, 2015, 152 p.): mais uma pira de Brasília, esta antologia é o resultado do trabalho de curadoria da galera da Mês, que em 2014 lançou religiosamente 12 zines (e repetem a fórmula em 2016). Em 2015 eles resolveram fazer diferente e financiaram no Catarse uma antologia a partir de uma convocatória. O resultado é um livro responsa com mais de 20 colaboradores e uma ampla diversidade de estilos. Alguns nomes (Diego Sanchez, Laura Athayde, Renata Rinaldi, Taís Koshino) são já conhecidos no meio indie, mas há muitos aventureiros também. Isto torna o conteúdo da revista irregular, como é de praxe neste tipo de publicação. Conhecendo o perfil editorial da galera, já se pode esperar da Mês um incentivo à experimentação, ao ato subversivo de romper certas barreiras que margeiam escapar dos quadrinhos. Artes visuais, colagem, fotomontagem, ilustração abstrata e rabiscos não são estranhos à mentalidade dos caras, assim como forte apelo ao nonsense  e quadrinhos que parecem pura zoação. Memes, enfim. Não sou contra essas coisas, mas é um terreno pantanoso. Dentro desta perspectiva, destaco a bela expressão de angústia juvenil de Gustavo Magalhães, em amplos quadros que dizem muito pouco, mas transmitem forte intensidade emocional: é uma equação precisa para se produzir bom quadrinho experimental.

Porém, mesmo com certa quantidade de coisas apressadas (e logo esquecíveis), 2015 tem quatro trunfos, que fazem a revista valer a pena. Em primeiro lugar, a história de abertura de Diego Sanchez: voo livre num surrealismo bem próximo dos sonhos (talvez tenha sido um), com sua arte em grande forma e sensibilidade na medida certa. É assim que se faz poesia em quadrinhos (e não recitando seu diário de adolescente junto a imagens expressionistas). É uma das melhores histórias que li dele. Em segundo lugar, a participação dos editores, bem mais calejados, com uma preocupação séria em se pensar a expressão em quadrinhos. Antônio Silva ainda vacila um pouco: sua história é tão doidona que parece ter sido desenhada em “escrita automática”. Mesmo assim, tem vigor nos movimentos, e intensidade. Lembra o estilo do querido Mateus Gandara. Já Augusto Botelho também oferece seu melhor trabalho até aqui. Ele conta a história (muda, profundamente inteligente e expressiva) de um menino (alter-ego?) numa praia que encontra um totem num barco e quer levá-lo para casa, mas a “entidade” não permite. Botelho trabalha bem o uso de luz, ângulos e expressões (seu traço está em consonância com sua geração, vide Pedro Cobiaco), e o sentido metafísico da história tem um quê de cabalístico, sem exageros. Por fim, temos a também muda história de Daniel Lopes, sobre o encontro entre um menino e um astronauta, também onírica (e esotérica), que remete ao ciclo infindável de nascimento e morte, com ótimas referências a 2001, Marco e até Incredible science fiction (da EC Comics – a famosa história do astronauta negro). O quadrinho de Daniel tem preciso timing, delicadezas e figuras de linguagem, revelando, assim como no caso de Botelho, exímio domínio da linguagem muda. Estes quadrinhos destoam muito do resto da edição, mostrando que estes caras estão prontos para saltos mais ambiciosos. (CIM)      

The Concept – Um quadrinho inspirado na canção da banda Teenage Fanclub

(Clube do Single Volume 1) – Fábio Lyra (Beléléu, 2014, 18 p.): eu havia criticado o estilo de Fábio Lyra em outra publicação, mas, como a vingança é um prato servido frio, preciso dar o braço a torcer aqui. Lyra bolou este projeto “Clube do Single”, que é o de escrever pequenas HQs inspiradas em canções, no formato físico de um single. A escolha para o primeiro projeto (lá de 2014) não poderia ter sido mais acertada: o Teenage Fanclub é das bandas que mais agregam loucos e apaixonados, desembocadouro para qualquer introvertido, indie ou ser antissocial dos anos 90. Há quem vire o nariz, mas o som deliciosamente melódico da banda, com as melhores influências (Beatles, Neil Young) e sem perder a personalidade discreta, tímida, mas generosa e cativante (capaz de transformar o rock numa crônica do cotidiano), este som é o de uma das minhas bandas favoritas. E The concept é, tipo, a melhor música do Teenage Fanclub. Pequeno épico do power pop, funciona como se o Big Star cruzasse com o Pink Floyd. E Lyra usa uma estratégia inteligente: ao invés de transcrever a letra da música para uma HQ, ele inventa uma história bastante diferente, sobre o encontro fortuito e fugaz entre dois jovens na madrugada (a garota como mote tanto na canção quanto na HQ), para procurar capturar o espírito (ou o mojo, ou sei lá o quê) da música na mídia quadrinhos. O traço de Lyra é bonito, e ele sabe tirar dos quadrinhos instantes que parecem paralisados na nossa percepção, memórias que ficarão para sempre. Assim, o Concept de Fábio Lyra é despojado e melancólico, mas que se vale de mini-emoções. Seria uma coisa assim, digamos, low-profile mas de bom coração. E não seria esta uma boa maneira de descrever o som dos escoceses? (CIM)    

Alvoroço – Diego Gerlach (Vibe Tronxa, 2012, 28 p.): pode ser dito com segurança que Diego Gerlach é um dos traços mais ativos do quadrinho nacional.  E em Alvoroço, gibi de seu personagem Boy Rochedo, se vê claramente também sua verve de artista gráfico. Do projeto da capa, de visível inspiração na produção gráfica de Emilio Damiani, até seu traço afiado que parece cortar a folha do papel, tudo expressa a psicodelia contundente como navalha que é marca do seu trabalho. Ao lado de uma produção gráfica mecânica e tradicional, Gerlach incorpora ainda uma tecnologia lo-fi nas suas retículas digitais e degradês deliciosamente piegas.

Alvoroço conta o retorno de Boy Rochedo, invocado de sabe Deus onde, renascido de uma fumegante vagina de beijú (tapioca para os ocidentais). Um nonsense transpirante que não vê incômodo em não ter início ou fim, e está mais interessado em expressar a amoralidade mambembe de seu personagem. Essa amoralidade acidental contrasta com o início da revista e seu ar de manifesto, mas, na soma de tudo, o que há é uma sensação e “com o passar do tempo a sensação passa a importar muito mais que a própria resposta”.

Alvoroço é um gibi curioso, bate aquela familiar vontade de acompanhar para ver o que acontece. Mas Gerlach tem uma intenção artística e anárquica que dispensa essas estratégias tradicionais de “storytelling”. É a “vibe” que importa. Pelo menos, no caso de Gerlach,  a vaibe é boa e autêntica. (LN)

Quadrinhos Perturbados – João Rabello (Avocado, 2015): eis um gibi contendo tiras com um tipo de humor bastante peculiar. Fazendo uso de tiradas e trocadilhos – escritos ou imagéticos – João Rabello dá protagonismo às suas manias e obsessões, como piratas, crânios e bigodes. Sim, bigodes. É um tipo de humor que poderá agradar a gregos, mas não a troianos, devido ao fato de representar a particular maneira através da qual o autor enxerga a vida e os fatos cotidianos. Por meio de várias referências à cultura pop – especialmente personagens de HQ – Rabello dá voz a um universo essencialmente pessoal. Confesso que me identifico com o tipo de piadas nonsense que estão espalhadas pelo gibi, cuja leitura me remeteu a James Kochalka em seu "The Horrible Truth about Comics". Neste último, o autor norte-americano destaca um dos recursos mais importantes dos quadrinhos: sua facilidade em favorecer a expressão individual. Em sua HQ, Kochalka ensina que talento ou dom são meros coadjuvantes diante de uma das grandes forças da nona arte, que é a capacidade de difundir visões e opiniões de forma visceral, autêntica e direta. Seguindo – consciente ou inconscientemente – esta ideia, Rabello acerta ao se permitir trazer para a superfície sua visão de mundo e de humor. (MMA)

O Diabo e Eu – Alcimar Frazão (Mino, 2016, 64 p.): Eu amo country blues. Nada como se render à simplicidade de três acordes e à emanação de toda uma época. Música pura, de inconfessáveis verdades. Simples, mas que nos atinge de primeira. Lonnie Johnson, Leroy Carr, Blind Willie McTell, Big Bill Broonzy, Memphis Minnie. E Robert Johnson, é claro. Esses cantores ainda emocionam porque estão atrelados a uma realidade onde música e vida não podem ser separados. É esta realidade que Alcimar Frazão traz aos quadrinhos ao elaborar, de maneira radicalmente pessoal, a história de Robert Johnson e o pacto com o Diabo. 

O Diabo e eu é uma história muda, cheia de signos sinistros, legítima gothic south, onde nos sentimos imersos no mundo apodrecido dos pântanos e deltas nos Estados Unidos do começo do século XX. Frazão legitima o terror ao fazer reverência à tradição brasileira do gênero: Shimamoto, Rodolfo Zalla e Mozart Couto parecem influências. Além de trabalhar grafismos cheios de psicologia (como uma menina com cabeça de cachorro), o quadrinista ainda discute a ideia do Diabo, que aqui aparece (quase) como metáfora da podridão da sociedade americana pós-escravocrata, e o mal absoluto brota na imagem do pai de Johnson, facínora violento que prostituía a própria esposa. Tudo isso sem perder o horror literal (o diabo está mesmo lá) e associando o silêncio do texto em quadrinhos à tristeza inerente ao blues rural, como se este silêncio e a música pudessem dizer a mesma coisa, mas em meios diferentes. (CIM)

Lavagem – Shiko (Mino, 2015, 72 p.): este talvez seja o melhor trabalho do paraibano Shiko (ainda que eu goste muito do experimentalismo poético de Blue Note).

Lavagem guarda muitas semelhanças com O Diabo e eu: é uma história de assassinato num lugar “abandonado por Deus” com a presença de um Diabo personificado. Fórmula de terror e símbolos ocultos. A arte de Shiko, porém, é mais dinâmica e cinematográfica, com ótimo domínio do timing narrativo.

Lavagem também retoma nossa tradição de quadrinhos de terror, mas acrescenta algo de cinema novo (eu ouvi Portodas caixas?) e Brasil contemporâneo à coisa. É um sincretismo eficiente e Shiko mira direto no oportunismo dos pastores evangélicos (“sometimes satan comes as a man of peace”) para fazer sua interpretação do mal. Mesmo não sendo brilhante (ainda acho que o movimento no quadrinho e as expressões dos personagens podem ganhar mais vida), o autor aproveita bem a sua chance de socializar o horror com questões sobre opressão feminina, desemprego e pobreza no Brasil.

Lavagem satisfaz, mas também produz aquela velha sensação: “agora que já fez esse, vai lá e faz um melhor”. Ou seja: mais e melhor Shiko, por favor. (CIM)

Rapidinhas Raio Laser #04




E as aguardadas quickies estão de volta, com pouca alteração no formato além do título em português (o que pareceu mais conveniente) e a estreia de resenhas rapidíssimas (para zines e coisas de leitura muito rápida). Lembrem-se: as resenhas são voltadas para o mercado (in)dependente e podem surgir coisas de anos anteriores que estavam encalhadas aqui. Muito do que a gente resenha nos foi enviado pelo correio. Então, não dê mole (se tiver coragem): mande seu material para a Raio Laser no seguinte endereço:


RAIO LASER
SQS 212 Bloco G Apto 501.
Brasília-DF
Brasil
CEP: 70275-070

por Ciro I. Marcondes

Menina Infinito Nº 1Fábio Lyra (Beleléu, 2015, 36 p.): os quadrinhos de Fábio Lyra seguem um certo padrão: são singelos, com seu traço um tanto duro (sem sombras e gradações), entulhados de referências de bandas indie, noise e shoegaze dos anos 80 e 90, e um pouco lacônicos. Menina infinita, sua nova série pela Beleléu, não foge à regra e, em meio a citações a Death From Above, Ride, Eugenius e Jesus and Mary Chain, somos inseridos dentro de uma apática festinha de apartamento marejada por este tipo de referência, com gente (já nem tão) jovem explorando as possibilidades afetivas deste ambiente já desgastado e um tanto melancólico, buscando romance xôxo e umas brejas quentes. Se o resultado não é ruim (há uma delicadeza e um humor sutil – para iniciados – que cativam), também carece de urgência. Muito curtinha, a revista não engrena não apenas pelo tamanho, mas pelo apego excessivo ao banal, algo que não acontece nos dramas íntimos de Adrian Tomine, ou nas tramas rocambolescas de Jayme Hernandez, que são claras inspirações. Menina infinito ainda está longe de seus mestres, peca um pouco por uma quadrinização sem ambição e talvez tenha mais referências que conteúdo, mas ainda está na número 1, e, quando se trata de séries, sabemos que o piloto é sempre um parto difícil. A ver as edições restantes.



Baratão 66 – Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum (Beleléu, 2013, 193 p.): em termos de romance gráfico, Baratão 66 é a grande pedida no quadrinho brasileiro contemporâneo. Não tem pra ninguém. Hilário, cheio de recursos, enraizado num ambiente profundamente brasileiro, esta HQ é tudo que o quadrinho de ativismo ingênuo, o quadrinho blasé/minimalista, o quadrinho punk/doido sem referência e o quadrinho sentimental-vinte-e-poucos-anos não são. Ou seja, o roteiro de Bruno Azevêdo, que gira em torno de uma família de mulheres que gerenciam um puteiro em São Luís, vai contra quase tudo que têm sido as tendências do quadrinho brasileiro. Do delineamento psicológico dos personagens, aos seus nomes, à composição dos coadjuvantes, ao timing do humor, à engenhosidade da trama, e até à multiplicidade de registros multimídia (cartas, fotos, postais), Baratão 66 dá o tom exato de como se fazer uma leitura do Brasil em quadrinhos. É o encontro de dois mundos: o da visita à cidadezinha brasileira e seu bestiário de putas, taxistas, michês, policiais e políticos mentecaptos, com uma problematização social do Brasil que está lá como substrato, mas não passa incólume, sempre em chave de ironia. Como se fosse o encontro de Angeli com Érico Veríssimo, ou algo que o valha.  Há baixaria na medida certa, há referências e easter eggs para os que gostam, e há uma arte meio inspirada em cordel, mas sem perder a leveza do pop, que não nos deixa desgrudar os olhos. Uma preciosidade talhada na safadeza e na estultice brasileiras. 




Aerolito Nº 2 e 3 – Lucas Marques, Bruno Prosaiko, Túlio Mendes, Cauê Brandão (Semear, 2014 e 2015, 48 p. cada): a Aerolito é uma nova publicação de jovens quadrinistas brasilienses interessados em narrativas de maior fôlego e histórias mais elaboradas, quase sempre com um pé no insólito e coisas extraordinárias, mas os temas variam bastante. Tive a satisfação de escrever a apresentação da número 1. O acabamento é ótimo, e as capas, paródias de pinturas famosas, são divertidas, cheias de cores e intenções vibrantes. Se na número 1 as histórias ainda careciam de maturidade e traziam um aspecto um tanto amadorístico, nos números seguintes há uma melhora realmente visível, mesmo que pontuada por growing pains, coisa de quem tá começando. O destaque vai para a qualidade autoral do traço carismático de Bruno Prosaiko, que trabalha histórias de verniz mais surrealista. Falta aos roteiros, porém, um equilíbrio entre ambição de (falsa) “profundidade” às histórias e um resultado efetivo nesse sentido. Mesmo “sérias”, estas histórias ainda soam infantis. Melhor partir logo para a fantasia juvenil e desvairada.

Também um tanto desequilibrado, Lucas Marques alterna o traço, o estilo e os temas a cada edição, dando a impressão de ser um artista um pouco desorientado na sua busca por um caminho, sendo confuso e poluído em “Mister Lonely”, mas acertando na mosca no traço limpo, caricatural e despojado na ótima “Rarimish, o messias”, a melhor história de todas as Aerolito. O humor pode ser uma boa. Já Túlio Mendes, atrás dos outros, precisa melhorar a ação e o dinamismo tanto dentro dos quadros quanto entre eles (e soltar o traço!), para fazer as histórias fluírem melhor, além de abandonar quaisquer pretensões de histórias muito “adultas”. Não é um desperdício do seu tempo ler o trabalho destes erráticos quadrinistas, mas há um salto ainda entre o que estas histórias oferecem por trás de sua suposta ousadia e a envergadura do projeto editorial. 



Pigmaleão – Diego Sanchez (Circuito Ambrosia, 2014, 52 p.): e eis que o quadrinista carioca Diego Sanchez, anos depois da “treta de 2012”, retorna às páginas de Raio Laser. Zoações à parte e zero de ressentimento de ambas as partes (o cara é gente boa), temos em mãos este delicado, intuitivo e esotérico Pigmaleão, um salto quântico em relação ao que ele havia apresentado em Peixe fora d’água. Aqui, temos uma história de requadros sem arestas cuidadosamente costurada em torno da iconografia do Tarô de Marselha, a partir de sonhos dentro de sonhos de um jovem processando um relacionamento irreparável em seu inconsciente profundo. Se o tema não é lá dos mais originais (o mito de Pigmaleão para a fantasia masculina da mulher ideal também acabou se tornando um clichê), Sanchez nos conquista com a beleza minimal de seus desenhos (lembra o francês Lewis Trondheim), com o movimento delicado e sinuoso das diagonais de seus quadros, com os intervalos e silêncios que exemplificam sua maturidade narrativa, com o erotismo refinado a partir do qual elabora afetos e mágoas. Memórias inventadas são um bom tema para um tipo de arte que embaralha imagens em diversos níveis e plataformas, e neste ambiente Sanchez encontra porto seguro para expiar seus tormentos e inquietações. 



Coral – Taís Koshino (Selo Piqui, 2015, 22 p.): seria injusto criticar Coral apenas pelo amadorismo de seus desenhos. Certo, Taís Koshino não é uma desenhista profissional, mas, até aí, críticas a um estilo rude e até grosseiro poderiam ser levantadas contra desde Gary Panther, passando por Arnaldo Branco, e até a Henfil ou Wolinski. A questão mesmo é que a excelência nos desenhos deixou de ser pré-requisito para se fazer quadrinhos, goste-se disso ou não. Coral é o trabalho mais maduro da autora, em sua busca silenciosa por autoconhecimento, em sua experimentação com as divisões e cores dos quadros, com a espessura do lápis, tudo eivado com um tom escapista e melancólico. Temos, por exemplo, a bela exploração de um certo discurso indireto livre em quadrinhos, marcado pelos planos em primeira pessoa, que terminam num quadro magritteano. Sem estardalhaço e sem recursos apelativos, a autora vai cavando sua subjetividade radical na cena dos quadrinhos independentes brasileiros, por meio da poesia e da abstração. Mesmo assim, ainda falta a Coral um norte que a livre da esterilidade do teimoso dadaísmo aleatório e da aversão ao próprio leitor no momento em que a produção de sentido se faz mais necessária. E, neste caso, produzir uma arte simplesmente naïf não ajuda. 



Velhaco’s – André Aguiar (TocasTudios, 2013, 14 p.): Velhaco’s é uma aventura bate-pronto cheia de fuleiragem misturando universos do skate, do cyberpunk, do antropomorfismo, do videogame vintage, etc. A coisa é curta e rasante como um esporro, e o desenhista e roteirista André Aguiar não economiza nas tintas rabiscadas, como se se aproveitasse de uma arte-final de improviso, para narrar a história de dois maloqueiros na missão doida de salvar um gatinha de robôs, policiais, coisas assim. É como se o filme Warriors tivesse um spin-off underground na revista Animal. Se o resultado parece tolo e esquecível, é porque não tinha como ser diferente. O punk não pode ser eterno. 



GoróLuiz Berger (Org., Gordo Seboso, 2013, 76 p.): histórias de bebedeira. Esta simples premissa poderia ser motivo de esta publicação de 2013 ser nada mais que pura tosqueira. Porém, um bom punhado dos autores do gibi resolveu usar a birita como gatilho para criar situações pitorescas, histórias policiais e até reflexões existenciais. Editado por Luiz Berger, o rei da escatologia, Goró de certa maneira demonstra como o quadrinista brasileiro contemporâneo consegue se virar em qualquer situação, topar qualquer empreitada, transformar merda em ouro. Abraham Diaz, por exemplo, cria espécie de True Detective dos mendigos birituns numa história, cheia de recursos, de traição, espionagem e morte. Eduardo Belga tem aqui um de seus trabalhos mais impressionantes em quadrinhos, levando o conceito de “porre” para além de qualquer limite, num texto que nada deve a um Pedro Juan Gutiérrez. No final, esmagados pela night de sexo dantesco, pela consciência moral e pelo excesso de “Ph de buceta”, o leitor é esmigalhado junto com autor e personagens.

O quadrinista Victor Bello traz a melhor contribuição da revista, “Mijo de Cristo tem poder”, possivelmente uma das histórias mais profanas jamais publicadas. Com quadrinização minuciosa e bem feita (digna de um Daniel Clowes bananense), o autor conta a história de um padre que faz uma cachaça com o mijo de Cristo. Os detalhes são escrotérrimos, com gags infames em timing perfeito. Vale mencionar ainda a boa contribuição do americano Josh Bayer, que, numa história rabiscada e um tanto preguiçosa, recobra aleatoriamente sua relação com festas regadas a bebida e com o álcool em si. Segura o suficiente para trazer mais consistência à revista, que poderia dispensar algumas pin ups e outras histórias curtas e rasas que são puro filer. Mesmo assim, vale tomar uma cerva pra celebrar.



Know-Haole Nº 2Diego Gerlach (Vibe Tronxa, 2013, 14 p.): Gerlach é um quadrinista punk e sua linguagem é a da mais pura malacaiagem das ruas, uma coisa febril e violenta, onde os personagens parecem estar sempre sob efeito de tóxicos estimulantes, noiados e sem rumo. O leque de referências aparece por toda história dos quadrinhos e desenhos, com paródias de Droopy, Dick Tracy e Disney, passando por coisas mais underground. Gosto de dizer que ele dá a mesma pala crackeira do Gabriel Góes e seu irrefreável Kowalski, e também que me lembra a dupla espanhola Gallardo e Mediavilla, de Makoki, algo extraído diretamente da estética alucinada dos anos 80. E esta década é referência para Gerlach. Suas histórias são de encontros fortuitos e desvairados nas ruas, com tipos urbanos bizarros, linguagem de mala e abreviações de internet, e muito de suas qualidades está em embaraçar estas referências todas num estilo inconfundível. Know-Haole 2 traz algum do seu melhor material, com as histórias entrecruzadas de Gilso, um cachorro de rua que se fode numa treta com outro mendigo; e a de Charlindo, um pato loser que tem um colapso nervoso ao tomar um choque elétrico. A história funciona como um furacão alucinado de visões turvas e impressões doentias das coisas. Mas atenção: é quadrinho de rua, é quadrinho de doidão. Sem pudores por aqui.



A Última Bailarina – Guilherme de Sousa (Korja dosQuadrinhos, 2014, 52 p.): não é que este seja um trabalho especialmente ruim. Ele tem algum carisma e um conceito: três personagens pitorescos (um ursinho de pelúcia machão – onde eu vi isso? –; uma garota bailarina abobalhada e ingênua; e um unicórnio efeminado) precisam resistir a um apocalipse zumbi. Os desenhos são “fofos” (ainda que muito pobres em composição e cenário) e algumas gags funcionam (ainda que com problemas de ritmo), mas os problemas se sobrepõem: primeiro, QUEM aguenta mais histórias genéricas com zumbis, seja em chave de ironia ou não? Segundo: personagens grosseiramente estereotipados, sem se definirem enquanto adultos ou infantis. Terceiro: cacoetes de animação, com uma história que anda em círculos procurando preencher o espaço de 15 minutos de duração. Enfim, por quê lançar um livro luxuoso, com boa impressão e gramatura, com este material, eu tenho minhas dúvidas. 



 
Rapidíssimas (zines):

GaiolaMorgana Mastrianni (Independente, 2013, 12 p.): misturando influências de expressionismo e teatro kabuki, a autora tece uma intrigante narrativa muda sobre máscaras (literais e metafóricas), tangendo o inconsciente feminino em eficiente simbolismo em quadrinhos.



Re/Forma – Luís Aranguri (Aparato/Independente, 2014, 10 p.): o quadrinho abstrato ainda é uma novidade conceitual no Brasil, mas o trabalho (simples e efetivo) de Luís Aranguri inspira a imaginar (guardadas as proporções) o que Kandinsky ou Mondrian poderiam ter pensado sobre o meio. Aqui, o autor provoca um esfacelamento gradual do espaço em quadrinhos a partir do próprio uso da leitura sequencial e de seus recursos, produzindo um quadrinho que se autossabota, um antiquadrinho.



Pirata Perna Curta Nº 1 – Chico, Thiago Fagundes, Lucas Feat, Mayra (Pirate Books/Independente, 2015, 14 p.): à parte um bom conto cáustico de Lucas Feat, o material desse zine parece coisa de iniciante, um tanto insípido, lembrando tiras amadoras de Facebook, com pin-ups dispensáveis e quadrinhos muito destoantes entre si. A intenção é um espírito meio Mad, mas o resultado tá mais pra Will Tirando.



Quer Dançar? – Guilherme de Sousa (Independente, 2013, 32 p.): uma história muda e amalucada que envolve sexo casual, um feto largado no esgoto e a proliferação de uma raça de homens-crocodilo num estilo meio Marcelo Cassaro funciona muito melhor do que a empreitada mais “ambiciosa” do autor (acima). Eis o caminho. 



  

Raio Laser's Comics' Quicky #02

por Ciro I. Marcondes e Pedro Brandt

Conforme avisado na primeira edição, esta coletânea não tem a intenção de ter uma periodização regular. Assim, não se surpreendam com o atraso para a chegada deste Volume 2. Nós queríamos e pretendemos ser mais frequentes na cobertura de quadrinhos nacionais, mas às vezes os compromissos pessoais, a preguiça ou outras prioridades quadrinísticas empurram esta publicação um pouco mais pra frente. Da mesma forma, não nos cobrem pela incoerência. Tem coisas que estavam aqui fazia tempo, mas ainda não havíamos lido, e coisas mais novas. Esta seção não é exclusiva para lançamentos, que fique claro, apesar de privilegiarmos coisas recentes. Por fim, às crianças: a crítica é uma visão pessoal, ainda que embasada em qualquer coisa. Caso não goste do que está escrito aqui, por favor tente ignorar. De nossa parte, tentamos ser o mais construtivos possível. Acabou chorare, ok? (CIM)

Caso desejem aparecer aqui, favor enviar seus quadrinhos a:

RAIO LASER
SQN 407 Bloco A, Apto 213.
Brasília-DF
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Aparecida Blues – Biu e Stêvz (Beleléu, 2011, 112 p.): apesar de já ter sido lançado há algum tempo, Aparecida blues é uma HQ que vale um bom comentário, já que prima por alguns méritos de experimentação intermidial não muito comuns seja nas produções nacionais, seja nas estrangeiras. Mesmo aparentemente non-sense, esta HQ, de um jeito fragmentado e esquizofrênico, consegue reunir estilos diversos de representação, como num ensaio livre, todo baseado em aspectos da teoria musical (daí a alusão ao famoso, difícil e maluco “O som e o sentido”, de JoséMiguel Wisnik), buscando tornar a referência da “história” um eterno ponto de fuga, como se, atacando seu tema principal (a solidão) por todos os lados, a HQ criasse a impressão de “caixa de ressonância de tudo”. É essa a marca de simultaneidade buscada pelos diversos registros tratados em Aparecida Blues: HQ non-sequitur, tira de jornal, diário, carta de amor, texto de jornal, álbum de fotografias. Tudo isso encaixado numa premissa simples, singela e admirável: um músico frustrado apaixonado por uma moça surda (não à toa, a epígrafe de “todos estão surdos”, do Roberto, marca presença). Este aparente rebuscamento ganha frescor com a arte minimal, mas adorável, de Stêvz, e comprova o amadurecimento do texto de Biu, já comentado antes aqui em Raio Laser. (CIM)


Cabeça Dinossauro Vol. 1Stêvz (Independente, 2012, 28 p.): esta pequeno volume produzido por Stêvz, de apenas 50 exemplares, começa com este entusiasmado texto de abertura: “O aluguel das cavernas anda os olhos da cara”. E é com este despojo mezzo naïve, mezzo non-sense, que o desenhista vai criar sua própria tira de dinossauros: uma tira sobre um dinossauro urbano encalacrado nos entraves do cotidiano, como o ato de pegar um ônibus, comprar um bilhete de loteria ou alugar um apartamento. A iniciativa é muito despretensiosa, os desenhos são rabiscos, e as piadas na maioria das vezes são bem inócuas ou simplesmente muito discretas para chegarem a ser “engraçadas”. Não é o caso de implicar com a falta de inspiração do artista, afinal, ele sabe ser irônico, como comprova a melhor tira do pequeno volume: o dinossauro pergunta no guichê: “é aqui a fila pro sucesso”? No que respondem: “Profissional, amoroso, financeiro ou familiar”? “Só pode escolher um”? “Quem falou em escolher”? Num ta fácil pra ninguém. (CIM)

NeebEduardo Medeiros (Independente, 2011, 36 p.): Neeb daria um ótimo curta de animação assim rasteiro, com amplo espaço para grandes linhas de ação, explosões incríveis, cenários majestosos e personagens canastrões, embebidos em adrenalina. Tudo isso se constrói muito bem, com enérgico senso de aventura cyberpunk, nesta simples e rápida HQ de páginas fáceis, viradas com velocidade e volúpia, graças ao traço vigoroso e bem finalizado de Medeiros, que imprime justamente ritmo de cinema aos seus quadrinhos. Feita para fãs de Star Wars ou Guia do mochileiro das galáxias, Neeb, apesar da história curta, rasa e, de algum modo, bem picareta, vale pelo jeito vertiginoso com que os personagens saltam das naves, atravessam canyons e derrubam robôs, imprimindo esse caráter de imersão, como se num videogame, tão fundamental para a experiência da arte no mundo de hoje. (CIM)


Se a Vida Fosse Como a Internet - Pablo Carranza (Independente/Proac, 2012, 83 páginas): em Se a vida fosse como a internet, Pablo Carranza faz graça com essa ferramenta que pode ser tanto de grande utilidade quanto uma perda de tempo imbecilizante. Qualquer um acostumado a passar horas na frente do computador em redes sociais, tuitando, facebookando ou simplesmente buscando informações e trocando e-mails poderá se identificar com os cartuns, tirinhas, histórias curtas ou curtíssimas de Carranza. Aliás, um dos méritos dos quadrinhos do autor (morador de São Paulo, sergipano de nascimento) é perceber o potencial para o humor das peculiaridades e comportamentos que compõem esse universo. Nem tudo aqui são grandes achados (algumas piadas não se sustentam ou são muito batidas), mas entre traições virtuais, vício internético, nostalgia tecnológica, vírus de computador, tosquices que circulam pelas caixas de e-mail e temas correlatos, o cartunista atinge o alvo (a risada do leitor – seja ela uma cosquinha no cérebro ou uma boa gargalhada) na maioria das vezes. Destaque para a dantesca "Submundo dos arquivos excluídos", na qual o protagonista parte para a lixeira do computador em busca de uma foto nua da ex-namorada. Carranza dá vida às ideias com um desenho cartunesco (em preto e branco na maioria das 83 páginas), aparentemente simples, mas bastante vivaz, com algo, no traço, de Crumb, Laerte, Angeli e Ota. Sua narrativa tem um bom ritmo, com páginas formadas por variados enquadramentos e angulações. E por falar em Ota (que assina o texto de apresentação), Se a vida fosse como a internet tem muito do humor da revista que o cartunista/editor tomou conta por décadas aqui no Brasil, a Mad – publicação para a qual, aliás, Carranza colabora. Editores de cadernos e revistas de informática, o que vocês estão esperando para transformar Se a vida fosse como a internet em um espaço semanal (ou diário, por que não) em seus veículos? (PB)


Bananas!Chiquinha + Cynthia B. (Independente, 2012, 24 p.): eis a chance de se ler a respeito de taras e obsessões femininas desenhadas por duas das mais talentosas quadrinistas da geração atual. O resultado, bem... diverge. Se as duas garotas têm o mérito de expor um certo jeito feminino de ser sem qualquer tipo de hipocrisia, escrevendo com uma honestidade brutal e chutando baldes com um humor franco e consideravelmente grosseiro, o resultado em quadrinhos é apenas um pouco tolo (no caso da Chiquinha) e bem mais charmoso, no caso da Cynthia. No primeiro caso, acompanhamos uma personagem bem gore e grotesca embarcando num ritual de macumba para emagrecer. Chiquinha capricha nas estrias e na escatologia, produzindo um humor provocativo, mas infantiloide e mongol um pouco pr’além da conta. Tosco, com orgulho. Já Cynthia trabalha melhor alguns tipos de dosagens em sua história, com algumas referências maneiras (Truffaut, Allen, Lennon), um traço mais singelo e saudável (bem menos anárquico que o da Chiquinha) e uma narrativa mais indie que reflete sobre seu próprio desejo, flertando com a ninfomania, mas meio que estragando tudo no final com excesso de explicações retóricas. Entre mortos e feridos, um lançamento significativo. Girl power, baby. (CIM)


Achados e Perdidos – Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho e Bruno Ito (Pandemônio/Quadrinhos Rasos, 2011, 212 p.): Até que ponto quadrinhos feitos “para todas as idades” podem não resultar em satisfatórios para idade nenhuma? É essa pergunta que me veio à cabeça ao terminar de ler este Achados e perdidos, um lançamento significativo em quadrinhos no Brasil, já que foi um dos primeiros a sair via Catarse, numa base crowd funding (da qual eu mesmo participei, por gostar do trabalho dos autores no site original). Todo feito com arte digital, Achados e perdidos tem lindo acabamento, muito respeito com seu leitor (com ótima introdução e making of), um CD com trilha sonora e toda boa vontade de mundo. Porém, a história-alegoria de um menino que um dia aparece com um buraco negro na barriga acaba esbarrando em alguns problemas, talvez facilmente consertáveis no desenvolvimento da carreira futura dos autores.

Em primeiro lugar, a arte digital, se às vezes aparece com colorido vívido e aproveita bem o contraste em sequências mais sombrias, ela é em geral muito esquemática, pouco detalhada e até simplória. Mesmo que o design dos personagens seja bem-feito e criativo, a execução final (os personagens em ação) deixa a desejar. Já a história padece de um problema facilmente diagnosticável em alguns quadrinhos indie brasileiros: o excesso de “fofura”. E aí volto ao início do texto: a história é uma alegoria simpática a respeito de nossos próprios recalques, as páginas passam rápido (porque privilegiam o visual) e as “lições de vida”, com seus personagens “corretos”, se encaixam todas no final. Porém, acabei não compreendendo se existe um público-alvo para a HQ e confesso que, enquanto leitor adulto, me senti de certa forma ultrajado com o excesso de doçura da história, como se não fosse possível construir uma fábula construtiva com matizes mais robustas de sobriedade e adulthood. De qualquer forma, vale ficar de olho no trabalho de Garrocho e Damasceno, ainda promissor. (CIM)


Fade out – Suicídio sem dor - Beto Skubs, Rafael De Latorre e Marcelo Maiolo (Independente/Proac, 2012, 64 p.): este trabalho apresenta um time competente. Nenhum deles é gênio, e, sim, há no que se melhorar. Mas Fade out – Suicídio sem dor consegue juntar romance, aventura, suspense e comédia como numa boa HQ, lembrando as boas aventuras do Homem-Aranha das antigas. Nada muito original ou surpreendente, mas uma leitura divertida. O roteiro de Skubs, especialmente, parece querer provar sua versatilidade. Tudo leva a crer que a trama se passa nos EUA, o que se confirma nos nomes e diálogos dos personagens, no tipo de humor e nas situações. Suspeitando que sua mãe pode ser a futura vítima de um serial killer, o universitário Kurt parte para uma investigação por conta própria. Paralelamente a isso, ele concilia uma namorada chata, uma pretendente misteriosa e a sombra de um pai ausente. Ao longo das 64 páginas, roteirista e desenhista conseguem manter o ritmo da história, com as reviravoltas aparecendo na hora certa. Ok, tudo acontece um tanto rápido, mas a narrativa não se atropela. O que não se explica tão bem é a vontade de morrer do protagonista, já que ele levava uma vidinha bem comum e pacata, sem grandes dramas. Deixemos a verossimilhança um pouco de lado então. Afinal, Fade out – Suicídio sem dor é uma HQ mais desencanada, para não ser levada tão a sério (ou assim eu a encarei). A narrativa gráfica de Rafael De Latorre flui bem (seu traço me lembrou o dos irmãos Luna), com bons enquadramentos e angulações – mas a fisionomia dos personagens poderia ser melhor trabalhada, já que eles se parecem demais uns com os outros. Um maior rebuscamento de cenários e detalhes de cena com certeza também lhe faria bem. Talvez seja questão de tempo. Não curti muito a paleta de cores (digital) de Maiolo, para mim, muito artificiais, mas também não me incomodei muito com isso, pois é um trabalho muito bem executado. Ainda não virei fã desses três, mas depois de Fade out – Suicídio sem dor eles conseguiram a minha curiosidade sobre seus próximos projetos. (PB)




Golden Shower Nº 2 Cynthia B. e Fabio Lyra (Org., Independente, 2012, 136 p.): a capa da Golden Shower já dá a deixa: “quadrinhos bizarros para adultos sem noção”. Sendo assim, não há muito o que contestar. Trata-se de uma coletânea (como as antigas revistas estilo “mix”) que reúne alguns dos melhores quadrinistas nacionais da atualidade em torno de temas singelos: putaria pesada, escatologia, baixaria de todos os tipos. Não que estes temas já não façam parte da rotina do quadrinho nacional já há algum tempo (parece uma geração que cresceu vendo pornô hardcore na Internet), mas o fato é que aqui podemos ler nomes como Stêvz, Diego Gerlach, Bruno Maron, Koostella, Daniel Lafayette, Cynthia B., Daniel Og, Laerte, Allan Sieber, Eduardo Medeiros, Chiquinha, dentre muitos outros, todos envolvidos numa maneira de celebrar o politicamente incorreto, de falar sobre uma sexualidade abusiva e desproporcional, de dar vazão a quadrinhos agressivos e alucinados, de se autoafirmarem como uma geração comix brasileira, sem concessões a super-heróis moloides ou bichinhos moralistas, tradicionais no meio. Golden Shower, com seu absurdo de sem-noçãozice, é quase um manifesto; é a demarcação de uma posição, um latido que acena para uma opção não só estética, mas (pasmem) política para os quadrinhos nacionais.

A editoração deste número 2 é bastante primorosa, com direito a pin-ups, contos, “poemas”, sketches, etc. Mas, à parte todo este material extra (quase tudo dispensável – melhor desistir da literatura, nesse caso), são os quadrinhos que realmente contam. Por mais que algumas coisas abusem do mau gosto (Pat Aulisio, Guido Imbroisi) ou sejam simplesmente insípidas (Felipe Velloso, Thiago Tomé, Daniel Ferreira), a maioria da revista é composta por material de primeira, com humor frenético, febril, como se os quadrinistas compartilhassem com prazer e orgulho essa doença da putaria desguarnecida, sem defesas, natural como a própria vida. Singelo como um banho de mijo. Vale destacar o trabalho da própria Cynthia B., com seu riscado firme e expressivo, seja em roteiro próprio ou num pequeno achado: um roteiro de um Allan Sieber quebrado, quadrinista fodido, num mau humor à Pekar, de 1997. Outra história incrivelmente engraçada é a de Pablo Carranza, que traz grande sacada relacionando sexo, TV e quadrinhos. Também é interessante a contribuição de Gerlach, misturando estilos e materiais, grotesca até o talo. Vale também certamente conferir a história de Koostella, talvez a melhor da revista, sobre um cara que morre e pode ver sua mulher trepando com mil caras diferentes. Por fim, fica destaque especial para a participação de Eduardo Belga, com seu estilo expressionista com certo naturalismo, numa história brutal, sem palavras, de bizarro erotismo, sobre um ritual de bruxaria. Sinal de que, entre uma fartura de quadrinistas, a Golden pode até pecar pelo excesso, mas dá conta do recado. (CIM)

F.A.B.I.O., edições 001 a 005 – André Valente e Gabriel Góes (Independente, 2013, 8 p. cada): ao ler estes cinco primeiros volumes (zines) do projeto F.A.B.I.O. (Góes e Valente se propõem a fazer 100 destes e enviá-los todos ao Fabio Zimbres), me vieram três constatações: primeiro, é impossível não pensar este trabalho como um work in progress, em que a materialidade do projeto não seja necessariamente parte do seu significado. Cada zine é impresso em um papel diferente, com um conceito geral diferente, como se o corpo todo do projeto fosse mesmo desenvolver conceitos visuais totais mais do que simples histórias em quadrinhos. Além disso, o trabalho de confecção é todo zinesco e manual, sem interferência de softwares de edição de imagens, procurando restaurar alguma “aura” a estes pequenos zines colecionáveis. Em segundo lugar, o fato de o projeto ao mesmo tempo parecer um trabalho diário e operário e obedecer a algumas regras de artesanalidade me lembraram o conceito Dogma proposto por Lars von Trier nos anos 90 como exercício de cinema: filmes com atores amadores, iluminação natural e imagens digitais. Por fim, por mais que o conteúdo dos quadrinhos em si prime pelo non-sense (Góes chega a enfileirar gratuitamente umas dezenas de buc*tas numa edição particularmente engraçada e sacana), tornando-se prontamente criticáveis (especialmente para os que esperam do quadrinho nacional uma pegada mais narrativa), é a força das ideias coletivas, rascunhadas e experimentadas de F.A.B.I.O. que o tornam um tipo de experiência sobre o próprio processo de criação, com seus desvios e falhas, seus excessos, claudicâncias e problemas. Entramos na mente dos autores. Temos suas caixas-pretas abertas. Vale destaque para as “histórias reais de escritório” de Valente, trabalhando o timing dos quadrinhos; os sketches de personagens de Góes, fazendo o que sabe fazer melhor; além dos perfis com retrato e hábito escroto dos personagens de Valente, dando sequencia à tradição que conhecemos em Angeli ou Allan Sieber. (CIM)





Ensaio do Vazio - Inspirado no livro de Carlos Henrique Schroeder. Adaptação e arte: Diego Gerlach, Pedro Franz, Berliac, Manuel Depetris, Leya Mira Brander (Editora da Casa/7 Letras, 2012, 140 páginas): A proposta deste Ensaio do vazio é boa e seria interessante ver outras iniciativas buscando livros de novos escritores brasileiros para transformar em histórias em quadrinhos. O argumento algo bukowskiano do livro de Carlos Henrique Schroeder apresenta um protagonista bastante escroto, um tipo sem escrúpulos rodeado quase sempre de outras pessoas escrotas. Sexo, drogas, assassinato e um pouco de romance pontuam uma história que passeia entre o realismo e viagens oníricas – “isso realmente aconteceu ou foi um delírio?” é uma pergunta que pode pipocar várias vezes na cabeça do leitor, impressão reforçada pela arte um tanto expressionista de alguns dos participantes. Se a ideia desse projeto em princípio é boa, não posso dizer que gostei do resultado. Fica claro que a opção editorial foi por ilustradores cujos desenhos têm mais a ver com as artes plásticas do que com os quadrinhos. Essa combinação não é novidade e já rendeu trabalhos consagrados (como as parcerias de Neil Gaiman e Dave McKean, só para ficar em um exemplo notório), mas aqui não funciona porque ao invés do que está escrito andar de mãos dadas com o que está desenhado, o texto serve como muleta para as ilustrações. Aliás, Ensaio do vazio parece mais um livro ilustrado (em alguns casos, mal ilustrado) do que uma história em quadrinhos propriamente dita. Fica clara a pouca familiaridade dos desenhistas com a linguagem narrativa dos quadrinhos (talvez o passo mais difícil para dominar a produção de uma HQ). O talentoso Pedro Franz poderia ser apontado como uma exceção aqui, mas já o vi bem melhor em outros trabalhos. Ensaio do vazio é, no geral, pouco convidativo visualmente (os ilustradores carecem de personalidade e estilo) e se for para contarmos só com o texto, melhor optar pelo leitura do livro que inspirou o projeto. Se os participantes aceitam uma sugestão, a leitura de Delírios cotidianos, de Mathias Schultheiss sobre texto de Charles Bukowski, pode se inspiradora. (PB)


Cabra macho