A Meca dos gibis virtuais: entrevista com PC Castilho























por Pedro Brandt

Quem lê a Raio Laser, sabe que o nosso negócio são os “quadrinhos além”, em resumo, não queremos nos limitar ao esquemão dos quadrinhos mainstream. Para isso, é necessária toda uma dedicação, toda uma pesquisa para encontrar esses títulos que mais chamam a nossa atenção, que abastecem a fogueira da nossa paixão pelas HQs. Além de visitas a sebos, troca de ideias com amigos etc. e tal, tem um blog em especial que virou a minha Meca dos gibis, um espaço virtual que preciso visitar religiosamente todos os dias. Ali, achei quadrinhos que sempre quis ler, mas nunca tinha encontrado (em edição física ou virtual), outros que já li, mas são muito bem vindos em minha “coleção de scans” e, principalmente, quadrinhos que eu jamais saberia da existência não fosse pelo HQ Point.

Com um visual simples (quase um fanzine virtual), mas de fácil navegação e, o principal, democrático (todos os downloads são gratuitos), o blog é onde me abasteço. Confesso: às vezes a gula é maior do que a vontade de comer, e muitos arquivos esperam meses até serem conferidos. Coisas do nosso tempo – como essa nova possibilidade de poder ler, de graça, quadrinhos que, de outra forma, eu continuaria desconhecendo.

Se o HQ Point está certo em distribuir todo esse material gratuitamente, é motivo de um longo debate (e um muito pertinente nos dias de hoje). Acredito que o PC Castilho, editor do blog, tem uma postura muito correta com relação a isso, como ele mesmo comenta em uma das perguntas da entrevista a seguir. Acima de tudo, acho que o HQ Point presta um grande serviço aos leitores brasileiros de quadrinhos – e não deixa de ser curioso saber que os títulos mais baixados no blog não são quadrinhos, mas livros sobre ilustração.

Se tem um blog que complementa o que é a proposta da Raio, esse é o HQ Point. Se você não o conhece, recomendo uma visita longa e demorada. Boa leitura!


Como e quando começou o HQ Point? Já era a sua ambição que o blog tomasse essa proporção, essa quantidade de títulos disponíveis para download?

Até pouco tempo atrás, eu não sabia o que era um blog e muito menos conhecia scans. Foi quando chegou do Japão o amigo Takao, trazendo vários arquivos, que me deixaram impressionado. Em pouco tempo, eu estava visitando vários blogs e baixando tudo que via. Com o tempo, percebi que todo mundo postava praticamente as mesmas coisas. Senti que faltava algo diferente no mercado e resolvi criar meu próprio blog.

O HQ Point começou como um blog para venda de revistas. Faltava divulgação e o número de visitas era desanimador. Resolvi então disponibilizar scans, os títulos que não eram encontrados nos blogs que eu visitava. Sempre curti o quadrinho europeu. Na verdade, comecei lendo super-heróis, como a maioria dos leitores, mas depois que conheci o quadrinho europeu meu gosto foi se sofisticando.

Meu objetivo era atingir 100 mil visitas. Ultrapassamos fácil a meta e meu objetivo agora é 1 milhão de visitas! E olha que a nossa página é bem grande, com um número variado de edições. Alguns blogs apresentam quatro ou cinco edições e já mudam a página, o que faz o contador de visitas pular a todo instante.

Possuir o número de títulos disponíveis no blog seria impossível para qualquer colecionador se ele tivesse que adquiri-los em papel. Acho que está aí uma das vantagens do scan. Quem se nega a ler scans vai ficar sem conhecer uma grande quantidade de títulos. Se bem que eu não acredito que o cara que diz ser contra scans, de vez em quando, não baixe alguma coisa.

QG da HQ Point
O site tem muitas postagens quase diariamente. Hoje em dia, o HQ Point ainda é um hobby ou virou uma obrigação?

Virou vício. Não consigo passar um dia sem fazer uma tradução, diagramação, digitalização, tratamento de imagem ou postagem. Olhar a caixa de mensagens também é outro vício. Consegui fazer grandes amizades através do blog. Sou autodidata no espanhol. Sei que ainda não estou 100% nas traduções, mas tento fazer um trabalho aceitável.

Você mora em Goiânia, certo? Como é a cidade para os quadrinhos (para comprar coisa antigas e tal)?

Sim, moro em Goiânia. O mercado de quadrinhos por aqui já foi bem melhor. Hoje, como em todo o resto, anda meio escasso. É difícil encontrar um leitor e mais difícil ainda é encontrar revistas usadas para comprar. Antigamente, qualquer banca as tinha e os sebos estavam abarrotados. Hoje tá todo mundo vendendo pela internet, com valores lá em cima. A sorte é que tenho um grande número de amigos colecionadores e estão sempre nos ajudando, emprestando suas revistas. Meu “point” hoje em Goiânia para comprar revistas é no sebo de um amigo, Hocus Pocus, onde consigo a maioria das revistas que disponibilizo.

Imagino que a sua coleção de quadrinhos deve ser bem extensa. Fale um pouquinho sobre a sua história como colecionador: quando começou a paixão pelos quadrinhos? Quantos títulos você tem em casa?

Já fui daqueles caras que compravam de tudo. Cheguei a ter tanta revista que me faltava espaço para guardá-las. Nos anos 1980, eu e o Marcio Jr. (O Ogro) fizemos em Goiânia a Primeira Exposição de Quadrinhos, que aconteceu na Livraria Flicts e teve a participação do Ziraldo, que estava presente para lançar o seu livro com o mesmo nome da livraria.

No começo dos anos 1970, meu irmão pediu pelo reembolso postal algumas edições da Outubro e Taíka. Me lembro perfeitamente de folhear as revistas e ver trabalhos do Rodolfo Zalla e Colonnese. Essa foi a primeira luz.

No final dos anos 1970, nos mudamos para uma pequena cidade do interior aqui de Goiás. Lá não tinha televisão. Meu irmão trabalhava na capital e nos finais de semana ia pra lá de ônibus. Um dos amigos dele trabalhava em uma distribuidora de revistas aqui da cidade e levava inúmeras revistas sem capas pra mim (era a “devolução” das bancas). Através dessas revistas, eu passei a fazer pedidos pelo reembolso postal. Comprei praticamente tudo que a EBAL disponibilizava. Minha mãe fazia pequenas viagens nas cidades vizinhas, e como na minha não existia bancas de revistas, ela sempre trazia algum exemplar de Tex (Vecchi) ou Homem-Aranha (Bloch).

Nos anos 1980 eu editei o fanzine Imaginação 1985. Gastei uma grana preta para lançar a primeira edição em off-set, que teve a participação de Julio Emilio Braz, Rodval Matias, Mozart Couto, Geraldo Cavalcanti e outros. Existe uma versão digital em nosso blog.

Nos anos 1990, passei a comandar um fã-clube de Elvis Presley, o TCB Elvis Fã Clube, que passou a me exigir muito tempo e acabei deixando os quadrinhos de lado. Só voltei aos quadrinhos em 2004, com a chegada do Takao. Comecei a comprar revistas novamente, só que de maneira bem mais seletiva.

Hoje tenho uma imensa quantidade de revistas, mas a maioria são de minha loja virtual. Minha coleção mesmo é de mais ou menos umas 500 revistas, a maioria álbuns importados no estilo “The art of...” ou edições com capa dura de seleções especiais (com desenhistas ou personagens preferidos). Os únicos títulos que compro mensalmente nas bancas são Tex e Mágico Vento.


Quais são os seus títulos, autores, escolas e personagens favoritos?

Desenhista preferido: Al Williamson (da velha guarda). Dos desenhistas atuais eu gosto muito do italiano Mastantuono e do brasileiro Mozart Couto.

Não dá pra abrir mãos dos álbuns europeus. São deles os melhores desenhistas, os melhores roteiristas, eu poderia citar uma grande quantidade deles, mas é melhor não ser tão detalhista.

Vai ser difícil surgir um personagem com a qualidade de Ken Parker, que é o melhor pra mim.

É claro que existem os grandes mestres, que estão entre os meus prediletos: Red Crandall, Angelo Torres, Eisner, Raymond, Milton Cannif, Alex Toth, Flavio Colin, Shimamoto, Rodval Matias, Carlos Chagas, Benicio...

Como o HQ Point tem funcionado hoje em dia? Você recebe muitas colaborações ou faz tudo sozinho? O que é mais difícil nesse processo?

Antigamente eu fazia praticamente tudo sozinho. No final do ano passado, passando por algumas dificuldades, pedi ajuda aos nossos usuários. Tive que praticamente “trancar” o blog, repassando os links somente àqueles que estavam ajudando. A resposta foi rápida. Recebemos ajuda até mesmo financeira e surgiram vários colaboradores.

Fui muito criticado pela atitude de “trancar” o blog e por estar recebendo dinheiro. Mas é importante ressaltar que só assim foi possível continuar com o blog, que melhorou muito depois desse episódio. A ajuda financeira possibilitou a aquisição de um novo scanner, pude melhorar a velocidade de nossa internet e adquiri muito material interessante. Depois de dois meses, o blog voltou a ficar “liberado” a todos. Quem não ajudou está desfrutando o material e trabalho de quem ajudou... e olha que poucos foram contra a minha atitude. A maioria entendeu numa boa.

Os maiores colaboradores do HQ Point são os amigos João de Deus (Brasilia-DF), Paulo Henrique (aqui de Goiânia) e J. Valverde (Portugal), sem querer desmerecer os outros amigos/ colaboradores, é claro.

Atualmente estou na batalha de traduzir e diagramar toda a série de Blueberry. Estou em busca de amigos que possam ajudar na tradução e diagramação dos álbuns, mas é difícil encontrar pessoas que queiram dedicar tanto tempo a um trabalho que não vai gerar lucro algum. Faço isso por puro amor e vício aos quadrinhos.

O mais difícil em tudo isso é ainda ter que ouvir críticas negativas em relação ao nosso trabalho. Tem uns cretinos que têm a coragem de dizer que estou “ganhando dinheiro” com o blog, que estou “explorando as pessoas”. Outros ficam procurando erros nas traduções... poderiam estar colaborando como colaboradores. Mas eu não ligo pra isso... Polêmicas sempre geram uma boa divulgação e eles acabam me fazendo um grande favor.


Qual o quadrinho mais baixado da história do site? E qual aquele que você achou que seria um sucesso, mas acabou não sendo? E você tem feedback dos leitores? Como tem sido essa interação?

Os arquivos mais baixados são os de arte (revistas que ensinam a desenhar, livros com a arte de determinados desenhistas). As que têm liderado em downloads são Illustration Magazine. Não houve nenhum título que tenha me decepcionado, todos os arquivos recebem mais de 200 downloads. Poucos leitores dão retorno com comentários, mas os poucos que chegam são tão “ricos” que valem por todos. Por incrível que pareça tenho recebido retorno da França, Estados Unidos, Argentina, Chile, Espanha, Itália e até do próprio Arcângelo Stigliani, autor de Cargo Team (desenhada por Mastantuono) e disponibilizada em nosso blog, escreveu nos elogiando pelo nosso trabalho.

É claro que a interação tem aumentado. Hoje eu poderia “trancar”, ficar apenas com os amigos que realmente estão interessados em ajudar. Mas minha intenção é formar a cabeça de novos leitores, mostrar pra eles que existem muitos quadrinhos de qualidade e que dificilmente serão publicados por aqui.

Com a ajuda do Takao, que tem postado muita coisa, o trabalho ficou mais tranquilo. O legal de tudo isso é que o gosto dele é completamente diferente do meu, o que tem dado uma certa diversificada ao blog. É aquilo que eu falo, quem mais lucra nessa história são os nossos usuários.

Você já foi contactado por alguma editora por causa dos downloads? Qual a sua posição quanto à distribuição gratuita de conteúdo na internet?

Já fui procurado por três editores, não para reclamar dos scans, mas sim para pedir divulgação dos trabalhos deles. Acho que a coisa funciona por aí. Eu sempre defendi que os editores precisam se unir aos blogs de scans, usá-los como fonte de pesquisa e divulgação. Através dos blogs, dá pra se ter uma idéia de que tipo de material os leitores estão lendo. Por mais que o camarada baixe arquivos, ele sempre compra uma ou outra edição no papel. A internet veio para democratizar a coisa. Antigamente, éramos obrigados a comprar uma revista com cinco histórias ruins e uma boa... comprávamos por causa de um desenhista ou roteirista de nossa preferência. Hoje isso já não é mais preciso, podemos adquirir aquela história na versão digital. Mas se sai um álbum no estilo da Cripta (Mythos), não tem como resistir sem comprar o álbum.

O que eu não concordo é disponibilizar edições de revistas que estão sendo publicadas no mercado nacional. O digital está sempre na frente e acaba prejudicando o mercado. Tem tanta coisa boa pra se disponibilizar, material que não foi publicado e nunca será. Posto muita coisa que está saindo na Europa, mas que por enquanto não tem nenhum editor brasileiro publicando.

Penso que quando algum editor se sentir prejudicado com algumas postagens, ele deveria entrar em contato com os blogs e solicitar a retirada dos arquivos. Reclamar com os provedores e fechar o blog não resolve o problema, pelo contrário, só causa revolta nos blogueiros, que irão encontrar outras formas de distribuir os arquivos digitais.

Outro pensamento meu é que devemos assumir o que fazemos. Eu uso meu nome verdadeiro. A partir do momento que usamos apelidos e não nos identificamos, estamos agindo na marginalidade.

Acredita que os tablets ou outros aparelhos de leitura digital vão, com o passar dos anos, substituir o quadrinho em papel? E o que você acha dessa mudança?

Falaram que a televisão iria acabar com o rádio... isso não aconteceu. Os tablets apenas vão facilitar as coisas, mas as edições de papel vão continuar por muito tempo. A tendência é parar com as revistas ruins e ficar só os álbuns de luxo (no papel). Eu mesmo não abro mão de uma boa edição com capa dura e papel couché. A mudança vai atrair novos leitores, essa gurizada que gosta de informática. Também irá facilitar as coisas para quem estiver viajando... poderão carregar livros, revistas, vídeos e músicas em um pequeno equipamento que cabe fácil na mala.

Tá na hora dos artistas começarem a pensar em maneiras diferentes de vender seus trabalhos. Por exemplo, ao invés de vender seus trabalhos para as editoras, por que não disponibilizar histórias em um site pessoal e vender espaço publicitário para empresas? Já que o scan tem uma boa audiência, nada melhor para as empresas que querem ver seu produto circular entre os consumidores.

Se você fosse indicar 10 títulos para quem nunca visitou o HQ Point, quais seriam e por que?

1) Blueberry: por ser uma série que nunca foi publicada na íntegra no Brasil

2) Bouncer: por ser um ótimo western, escrito pelo chileno Jodorowsky e traduzido por nós

3) Long John Silver: uma série que mais parece um filme.

4) Mestres do Terror: que resgata as obras-primas publicadas por Zalla

5) As edições da Marvel sem balões: nas quais poderão apreciar a arte dos desenhistas

6) Tarzan – Lança de ouro: praticamente completa, pela arte de Joe Kubert

7) As revistas e livros da Dolmen (em espanhol): nas quais os leitores poderão ficar sabendo de muita coisa que ainda não se publicou por aqui.

8) Belém: outra série, na qual estou trabalhando na segunda edição. Outro “filme” em quadrinhos.

9) The Jack Kirby Collection: que está temporariamente “fora do ar”... links quebrados.

10) Kripta, da RGE, que foi retirada em respeito ao editor da Mythos, que está publicando os álbuns especiais.

As histórias incompletas de Barry Windsor-Smith




Seguindo com nosso ótimo fluxo de colaborações, recebemos um texto do Professor e Mestre em Literatura pela UnB Eiliko Flores. Tendo se voltado, num doutorado, a um intenso estudo sobre diálogos entre gerações em nossa literatura, Eiliko foi convencido a reler uma antiga paixão, a incompleta e ambiciosa série Storyteller, do ilustrador Barry Windor-Smith, e a escrever sobre ela. Ei-lo:

por Eiliko Flores

Barry Windsor-Smith (1949- ) é conhecido pelo seu trabalho em Conan, o bárbaro, mas principalmente por Arma X, a brilhante graphic novel sobre a origem de Wolverine. Em 1997, artista já consagrado nos quadrinhos, com um estilo único que rendia o privilégio de fazer apenas as capas de muitas revistas, Windsor-Smith decidiu lançar um projeto autoral, criado em seu próprio estúdio. A revista se chamaria Barry Windsor-Smith´s Storyteller, e seria lançada em um formato ainda maior do que aquele usado nas graphic novels usuais. Storyteller era a autêntica criação livre e apaixonada de um artista completo, que escrevia, desenhava e coloria suas histórias.  

 
Storyteller traria três universos de personagens: Freebooters, Paradoxman e Young Gods. Freebooters apresenta a história de “Axus, the great”, um guerreiro e herói cuja fama o transformara em uma lenda. Velho, barrigudo e distante de seus dias de glória, Axus funciona como uma espécie de paródia cômica das histórias de Conan, o Bárbaro.

Paradoxman gira em torno de elementos de ficção científica: a princípio, é a história de Tristan, um homem que viaja pelo tempo em uma moto. O protagonista será abduzido por alienígenas, que criam para ele um mundo imaginário. Talvez o personagem mais carregado e complexo daqueles que habitam Storyteller, boa parte das histórias de Tristan são contadas em um consultório psiquiátrico, que também é parte das ilusões forjadas pelos alienígenas. Paradoxman é uma trama que tentou ganhar profundidade em um questionamento mais amplo do que costumamos reconhecer como realidade. O jargão “this is not reality”, com o qual o protagonista tenta se livrar de suas alucinações, é parte desse desdobramento, bem como a aparição do próprio autor dentro da história, para um bate-papo com seu personagem.


Young Gods,  o terceiro e último universo de Storyteller, é dedicada a Jack Kirby (1917-1994), um dos grandes pioneiros nos quadrinhos americanos, artista que colaborou na criação de quase todos os principais personagens da Marvel. Young Gods, onde Windsor-Smith cita em suas linhas o estilo inconfundível de Jack Kirby, trata de um universo de deuses e semi-deuses metidos em questões triviais, como casamento, discussões em meio a bebedeiras, etc. Assim como em Freebooters, há um clima humorístico presente em quase todos os episódios.

Kirbyesco
Infelizmente, Storyteller se tornaria um projeto inacabado. Após nove edições, a revista foi cancelada, devido ao pouco sucesso comercial. Não podemos culpar apenas os leitores por essa derrota, neste caso: embora exuberante e com um premiado trabalho de coloração, as tramas, enredos e diálogos de Storyteller talvez não estivessem à altura da parte gráfica e, principalmente, não estivessem em harmonia com a pretensão que o formato gigante da revista, a qualidade luxuosa do papel e da impressão inspiravam nos leitores; além dos preços de cada exemplar – altos, embora justos. A primazia visual de Storyteller demandava enredos com mais peso, diálogos melhores e uma concisão que ficou latente.

Quase quinze anos se passaram desde a publicação de Storyteller, projeto ambicioso de um artista experiente e cheio de talento. Entretanto, embora o projeto de Windsor-Smith seja hoje uma ruína, uma construção inacabada, a experiência de ter um dos nove exemplares de Storyteller nas mãos é inigualável para todos aqueles que admiram o inconfundível traço de Barry Windsor-Smith.  

HQ em um quadro: o monstro de Frank N. Stein tem o cérebro de Hitler?, por Bill Gaines e Bill Elder



Saído de uma edição maltrapilha de MAD (William M. Gaines e Bill Elder, 1953): esta imagem apareceu no meio de uma leitura entusiasmada de uma coletânea de bolso da revista MAD publicada pela novaiorquina Ballatine em 1956 a partir dos originais da EC de 52, 53 e 54. Este poeirento, mofado e fedorento livrinho reúne algumas das melhores histórias da MAD clássica escritas por Bill Gaines, como "Melvin of the apes",  "G.I. Shmoe" e "Little Orphan Melvin", com desenhos de caras legais como John Severin, Wally Wood e o próprio Bill Elder. Me custou a bagatela de 4 reais esse gibi puído e esquecido na prateleira de um sebo. Muito possivelmente, fui a última pessoa que vai lê-lo desde sua longa trajetória quando pertencia à biblioteca da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros (como diz um carimbo na folha de rosto), ou quando passou às mãos de um certo ˜Eduardo˜, que não deixou qualquer outro registro. Digo isso porque, na medida em que fui lendo o gibi, ele foi literalmente se despedaçando, por mais que eu tenha costume de ler livros com cuidado para preservá-los. Primeiro, ele se dividiu ao meio. Depois, uma de suas partes segmentou-se em outras duas (estilo Gremlins), até que as páginas começaram a cair uma a uma, algumas realmente se esfarelando. Death comes to us all, even little books

O humor da MAD original, como se sabe, era paródico e pentelho, e foi uma das primeiras publicações a sacanear pesado com a cultura pop de sua própria época, coisa hoje quase irritantemente lugar-comum (de coisas boas, como South Park, a ruins, como CQC). Incrível que uma concepção completa de humor contemporâneo tenha saído da cabeça de uns 4 ou 5 caras no meio do macartismo americano. Esta história Frank N. Stein é uma das mais divertidas, justamente porque Gaines cria a paródia perfeita do cientista europeu genial, sádico e obcecado. Tudo bem que o Dr. Frankenstein original fosse um personagem suíço. Aqui ele vira um alemão aloprado, de sotaque carregado (chega a ser difícil de entender coisas como "Ja boss! Ja boss! All der time you iss saying, 'Ja boss'! Rause mitt der 'Ja boss', hey vill you?"). Era o início dos anos 50, bem fácil de sacanear alemães.

O quadro em questão é o primeiro em que o monstro de Frank N. Stein, já no final da história, aparece. Ele é diferente porque, no resto todo dela, Gaines coloca uma enormidade de falas malucas e histéricas nas desventuras do Dr. Stein e seu mongol ajudante Bumble em busca do monstro fugitivo. Aqui, o quadro é sem falas e o desenho diz tudo, sem mencionar a palavra "Hitler" uma vez sequer. O mistério todo se dava porque Bumble havia acidentalmente roubado um cérebro "horripilante, que deveria ser destruído imediatamente" e colocado no monstro. Elder vai desenhando o jeito histriônico desses personagens sempre com o detalhismo cômico dos college comics e cheio de easter eggs de cultura pop, paródias estilísticas, movimentos legais de aproximação, enfim, uma beleza. Quando eles finalmente acham o monstro, este quadro da criatura com bigodinho nos surpreende tanto quanto aos soldados americanos que o caçam. Porém, a coisa fica ainda mais aloprada quando o monstro simplesmente bate os braços e levanta voo, piando sem parar. O dono original do cérebro então chega e diz que aquilo pertencia a um passarinho. Como se vê, Gaines já tinha a sacação de parodiar o nazismo e ao mesmo tempo o estereótipo da crítica ao nazismo numa mesma história.  Pena que um humor tão fino e burlesco como esse esteja mais em quadrinhos esfarelados e que deram perda total como esse meu gibi do que nesses webcomics cínicos e sem qualquer sutileza de hoje em dia. (CIM)

As sombras, sempre





















por Ciro I. Marcondes

O expressionismo é um padrão visual e conceitual que, com o passar do tempo e diluição bem rala de suas origens, acabou deixando de ser uma estética completa para se tornar uma espécie de estilema. Digo isso porque, na maioria das coisas que vejo com influência expressionista, parece existir uma intenção bem explícita de parecer expressionista, como se identificar essa predileção fizesse parte do processo de entender estas obras. Isso faz com que sempre esses efeitos pareçam somente lisonjeiros ou até paródicos. Daí coisas como o cinema de Tim Burton ou boa parte desses filmes de terror asiáticos. Nos quadrinhos acho que o fenômeno se repete, sendo o estilema um conjunto de dados visuais bem fechado. A gente pode achar isso desde na clássica história de Spiegelman “Prisioneiro do planeta inferno”, que aparece também em Maus, até nas adaptações de Kafka feitas por Peter Kuper, legais, mas bem óbvias, apesar de um quadrinista como Mutarelli flutuar na direção de uma composição bem mais orgânica com o tema.

É aí que vejo o maior mérito (não pequeno, e não único) da graphic novel Três sombras, do francês Cyril Pedrosa, premiada em Angoulême e publicada aqui pela Cia. das Letras. Curiosamente famoso por animar Hércules e Corcunda de Notre Dame para a Disney (guardadas as proporções, a base do traço é a mesma de Três sombras), Pedrosa acabou escrevendo um conto de fadas não apenas com franca inspiração expressionista, mas que também traz o conteúdo essencialista de seu arcabouço estético e filosófico sem parecer estar fazendo um monte de citações inócuas. Três sombras tem muita força estilística e conceitual, e a beleza de sua história aproveita, de maneira muito pessoal, o fundamento expressionista sem recorrer a um estilema visual.


Vejamos: supostamente direcionado às crianças (talvez para causar-lhes pesadelos), Três sombras é uma HQ muito adulta, em que um pequeno núcleo familiar e rural, situado num tempo imemorial (mas que se assemelha à idade mercantil), que convive harmoniosamente em laços legítimos e comoventes, precisa lidar com a chegada de três viajantes (“sombras”), que nunca se aproximam, nunca se revelam, mas das quais sabe-se bem o propósito: vão levar o filho Joachim, para nunca mais trazê-lo de volta. A harmonia então transmuta-se num conto de angústia até que o pai, Louis, decide forçar a barra e carregar o filho para longe das sombras, saindo do pequeno geno da fazenda e abrindo os horizontes do filho e de si mesmo para “mares nunca d’antes navegados”, numa jornada sinistra com tipos cada mais estranhos e perversos entrecruzando-se no caminho dos dois. A jornada em busca da vida é também, portanto, uma jornada de descoberta, amadurecimento e enfrentamento.

A qualidade gráfica do trabalho de Pedrosa é exasperante e exultante. Logicamente está presente um alfabeto expressionista básico, com contrastes de luz e sombra, mas o autor sabe bem subvertê-lo e deixar sua influência mais transparente. Ao contrário da angulação excessiva, tradicional nos decalques do estilo (imagino que a origem de tudo ainda seja a tosqueira que é O gabinete do Dr. Caligari), Três sombras é uma obra de fluxo livre, bem mais simbolista, alternando figura e fundo, eliminando as fronteiras entre os requadros, com linda modulação de movimentos e matizes de giz e grafite que se adaptam às tensões emocionais das cenas. Este era um dos princípios tanto das encenações teatrais expressionistas (basta pensar nas obras de Wedekind ou Strindberg) quanto na pintura expressionista do fim do século 19, que deu origem a tudo: o expressionismo não é uma deformação óptica (como o impressionismo ou esses decalques), mas sim uma visão produzida a partir das ambiguidades internas do indivíduo, uma expressão do “eu”. Em uma Europa perturbada por longa sequência de guerras e com a arte entrando em crise profunda, a busca por uma essência gutural, longe da técnica, que retomasse nossa animalidade intrínseca, acabou sendo fundamental para abalar a noção iluminista de indivíduo que até então vigorava.  É por isso que, mais do que uma estética manjada de embelezamento gótico, o expressionismo é também uma filosofia em si, e suas obras narrativas são sempre alegóricas. De Da aurora à meia-noite a um filme como Nosferatu (Murnau), a histórias projetadas são transvisualizações (o que nos leva a pensar em como este conteúdo ajudou a fomentar a psicanálise ou o surrealismo) de nossas próprias funções mentais, e assim acontece em Três sombras.

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O que temos nesta HQ seria uma redução bem primal de certas angústias básicas e inevitáveis, num conto de fadas que ao mesmo tempo não deixa de ser uma aventura encantadora. O medo da morte, medo do crescimento, do envelhecimento, da fragmentação familiar, de perdermos nosso Éden originário (a infância, a família), de encararmos o lado torpe do mundo, etc., são temas que vão tomando estas formas oníricas, e a de se estar sonhando também é uma sensação que Três sombras nos transmite. A saída deste Éden (útero) primaveril e telúrico de pai e filho leva a um mundo de extorsão, repleto de canalhas, dissimulados, cretinos e psicopatas. Louis acredita que a força inesgotável de seu amor paternal é suficiente para vendar os olhos de seu filho para esta realidade inevitável, mas o roteiro de Pedrosa nos mostra que a persistência é também um ato dilacerado e inútil. O luto pesado, portanto, diante da morte ou do crescimento (growing pains), é algo graficamente e simbolicamente traduzido nas páginas de Três sombras. Este luto, natural a cada um de nós, é a metáfora que reside na sombra expressionista, para a qual sempre olhamos de um jeito torpe, difuso, à meia-luz.

Esta redução a arquétipos, tão mitologicamente proposta pelos pintores e dramaturgos alemães que previam uma grande transformação da psiquê humana com a virada daquele século, tem sempre na figura sinistra da morte uma concentração simbólica maior. Em Três sombras, quando a morte aparece, é para, como sempre, reafirmar seu caráter de inexorabilidade, sua emulsão sem fim de angústia, ainda que de forma plácida. Ela surge apenas para afirmar que “não pode revelar” o que há do outro lado da travessia, da mesma maneira que faz no clássico filme O sétimo selo, de Bergman, quando afirma ao cavaleiro Antonius Block “não saber” o que acontece com as almas depois que elas partem. Este filme, não por coincidência, parte do mesmo princípio de originalidade de Três sombras: investe num profundo mergulho do inconsciente expressionista sem citá-lo, sendo-o sem procurar sê-lo. É o grande mérito de artistas cada vez mais raros que, de fora do ambiente histórico e cultural que gerou esta forma de expressão, conseguem pensar, naturalmente, de forma expressionista. Três sombras, uma grande HQ, acaba de entrar para um clube seleto.              

As sombras, sempre

Essencialmente brasileiros






















por Pedro Brandt

No ano em que Zé Carioca, o mais verde e amarelo dos personagens de histórias em quadrinhos, completou 70 anos (ou seriam 69? Há divergências), cabe uma pergunta: a cultura, as temáticas, as histórias, enfim, o Brasil pode servir como inspiração para HQs? Muitos responderiam que sim. No entanto, não é preciso ir muito longe para  perceber que a maioria dos quadrinhos brasileiros têm, no fundo, histórias de teor universal nas quais a brasilidade aparece de maneira mais implícita. Essa constatação de forma alguma tira os méritos desses quadrinhos. Mas é interessante notar que alguns autores têm conseguido imprimir em suas obras uma inegável cara brasileira — sem apelar para ufanismo. Marcello Quintanilha e André Toral são dois deles.

Coincidentemente, Quintanilha e Toral estão com novos trabalhos na praça, Almas públicas, do primeiro, e Curtas e escabrosas, do segundo. Mais coincidências: ambos têm 72 páginas e um preço muito parecido. Além disso, os dois álbuns apresentam tanto histórias recentes quanto trabalhos antigos dos desenhistas/ roteiristas. Outra semelhança entre eles são os desenhos com personalidade, imediatamente reconhecíveis. Mas enquanto André Toral é mais direto e simples, Marcello Quintanilha é rebuscadíssimo, próximo da fotografia.



Toral, paulistano de 53 anos, tem um currículo acadêmico que ajuda a entender os temas de suas HQs. Ele é graduado em ciências sociais pela USP, mestre em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ e doutor em história pelo Departamento de História da USP. Sua dissertação de mestrado é sobre religião e organização social dos povos de língua Karajá, e sua tese de doutorado sobre a iconografia da guerra do Paraguai.

Mas o universo de índios, escravos e Brasil antigo inspirou apenas algumas das histórias de Curtas e escabrosas. Outras tantas vêm de observações do cotidiano urbano, de personagens como garotas de programa, leões de chácara, motoboys e funcionários do baixo escalão do tráfico de drogas. Nem todas as HQs são escabrosas (tem muito humor nelas), mas todas são curtas. “Duas páginas é o mínimo, pelo menos pra mim, para se poder contar um história. Como quadrinhos no Brasil pagam mal, era a forma mais barata de contar uma história decentemente e, ao mesmo tempo, não gastar muito tempo, nem do autor e nem do leitor. Terminei me acostumando a essas limitações e o que era uma contingência virou opção”, explica Toral no posfácio da edição. Acaba que suas HQs ganham cara de crônicas ligeiras, que falam o que precisam falar em pouco espaço/tempo.

Nascido em Niterói (atualmente vivendo em Barcelona), Marcello Quintanilha, 40 anos, é outro apaixonado pelo Brasil de ontem, mais especificamente as décadas de 1950 e 1960. Mas Almas públicas também reúne histórias que se passam hoje em dia, a exemplo de "De pinho", que narra o encontro casual de um grupo de jornalistas com um jogador de futebol tímido que é ídolo na comunidade onde mora. Aliás, a vida nos subúrbios, seus causos e personagens pitorescos são recorrentes na obra de Quintanilha.

O que se sobressai na produção desses dois autores é a capacidade de, em poucas ou muitas páginas, apresentar personagens incrivelmente humanos — e essencialmente brasileiros. A coloquialidade dos diálogos e a simplicidade das situações aproximam o leitor e o levam para ser testemunha dos pequenos dramas narrados. Prova não só de suas capacidades como contadores de história, mas de como a inspiração para uma boa HQ pode estar em qualquer coisa, em qualquer lugar.

Almas públicas
De Marcello Quintanilha. 72 páginas. Conrad Editora. R$ 39,90.


Curtas e escabrosas
De André Toral. 72 páginas. Devir Livraria. R$ 39,50.





Publicado originalmente no Correio Braziliense

Medo de um planeta negro!



Temos recebido colaborações de gente legal e preocupada em pensar o mundo dos quadrinhos. Ficamos extremamente felizes com o entusiasmo das pessoas em torno do conceito do site. Esta última é muito especial, porque vem de um cara que tanto eu quanto o Pedro admiramos enormemente. Lima Neto é artista plástico, quadrinista e empresário, e é responsável por uma parada obrigatória da cultura pop em Brasília: a gibiteria Kingdom Comics, no Conic. Esta loja é, desde os anos 90, ponto nevrálgico do debate quadrinístico na cidade, onde passam grandes figuras, são trocadas grandes ideias e construídas grandes amizades. Lima não apenas mencionou a RL no (ótimo) blog da loja, como nos ofereceu a republicação de um texto lúcido e necessário. Só temos a agradecer. (CIM).

por Lima Neto

Se você leu qualquer site ou blog de quadrinhos nesses últimos dois dias, já deve estar por dentro de duas novidades que veem tendo uma grande repercursão no mundo dos gibis.

Como essas notícias jã não são mais novidades e foram amplamente divulgadas até pela imprensa leiga, não vou temer spoilers…

A primeira notícia se refere ao Homem-Aranha do universo Ultimate. Como já noticiamos em nosso site, a Marvel deu carta branca para a equipe criativa do universo de Marvel Millenium para ousarem e escreverem o tipo de estória que nunca seria visto no universo convencional da editora. Esse com certeza é o maior presente que um escritor poderia receber e é uma ótima notícia também para os leitores ávidos por novidade. Sendo assim, munido de uma liberdade editorial inédita em um título do Aracnídeo, o escritor Brian Michael-Bendis botou as mangas pra fora e revirou o mundo do Ultimate Spider-man de cabeça para baixo. Peter Parker encontrou seu fim em um dos momentos mais tocantes da série e foi substituído por um novo personagem: Miles Morales. Jovem e negro de decendência latina.


Outra novidade que vem causando arrepios na espinha da juventude W.A.S.P (Branco, Anglo-saxões e Protestantes) norte-americana é a escalação do ator Laurence Fishburne como o novo Perry White, o editor irrascivo do Planeta Diario,  na nova superprodução de Zack Snyder.

Ambas as notícias foram recebidas com milhões de e-mails espumantes que podem ser classificados em uma enorme pasta com o nome de “Não sou racista, mas…”

A indústria de quadrinhos mainstream nos estados unidos, ou seja Marvel e DC, vem se debatendo como peixes fora d’água para se adaptarem às mudanças extremas que o mercado está sofrendo. A editora pertecente o grupo Warner e casa do Super-homem e Mulher-Maravilha já vem passando por mudanças polêmicas que, além de professarem o fim do quadrinho impresso mensal, com a publicação simultânea online e nas bancas, ainda acena com uma preocupação formal de promover uma inclusão de minorias sociais dentro de seus títulos. Mesmo que algumas afirmações truculentas do editor chefe da casa, Dan Didio, quase tenham levado esses planos por água abaixo (Didio respondeu agressivamente a uma leitora que o questionou sobre o por quê da editora ter reduzido o número de mulheres trabalhando na casa de 12% para 1%), a editora aumentou sensivelmente a variedade racial/social/sexual em seu relançamento, optando por manter alteregos diversos no lugar dos originais anglo-saxãos como o Elektro. Enquanto isso, a Marvel aproveita seu universo alternativo, o universo Ultimate, para explorar os benefícios que a diversidade cultural pode trazer ao mercado. A equação é óbvia, se estamos perdendo leitores a solução é trazer novos leitores que não se sentiam representados em nossos títulos.

Fanboy argumentando: "Heimdall é um deus nórdico! É incoerente!"
Essa equação não foi o resultado de um raciocínio comunitário em direção à sobrevivência, mas uma lição ensinada pelas suas companhias irmãs de Hollywood, que reconhecem já a muito tempo o quanto pode ser lucrativa a diversidade. O que não quer dizer que estejam livres de polêmica. O recente filme do Thor deixou eriçado até leitores brasileiros com a escolha de Idris Elba como Heimdall, fato que se repete agora com o novo Perry White e antes ainda com a escolha de Michael Clarke Duncan como Rei do Crime (que causou bem menos rebuliço do que o fator Heimdall, por que será?…).

Porque sou o rei... do crime?
A principal reclamação dos fãs é que tudo isso modifica a mitologia de seus personagens. Que altera cânones sagrados das comic books. Eu chamo isso de posição reacionária.

Peter Parker, Perry White, Clark Kent e Miles Morales tem uma coisa em comum. São todos personagens fictícios, criados por seres humanos que são um reflexo da época em que vivem e naquilo que acreditam. São ideias. O problema é que estas mesmas ideias são cultuadas com um fervor quase religioso pelos fãs, o que acaba por engessá-las e anulam a habilidade das boas ideias de serem abrangentes. Muito provavelmente nos guetos do bairro judeu de uma Nova York atolada na depressão do final dos anos 30, a diversidade de culturas fosse algo bem difícil de experimentar, mas isso não é motivo para se levar essa experiência limitada para frente só por que foi assim que ela foi “criada”. Concordo que certas modificações burocráticas a título de preenchimento de cotas em detrimento do roteiro são questionáveis. Mas ter a oportunidade de ver um ator do calibre de Laurence Fishburne encarnando um personagem querido como o Perry White é um prazer pra qualquer apreciador de cinema. E a gama de possibilidades que se abre com um novo Homem-Aranha, e o aroma fresco da ousadia e da criatividade põem por terra qualquer argumento reacionário onanista que apareça.

“Inteligência. Essa é a única arma capaz de deter a decadência” como diz a banda Cidadão Instigado. Os quadrinhos estão passando por uma de suas piores crises desde sua criação como mídia de massa. E ele só vai poder sobreviver se se transformar e se adaptar. E somos nós, leitores, que temos a responsabilidade de guiar esta transformação para algo que valha a pena ser lido. Queremos representatividade social e cultural, queremos estórias dinâmicas e relevantes e, acima de tudo, queremos criatividade e inovação!

O título desse artigo é o título de uma música do grupo norte-americando Public Enemy chamada Fear of a Black Planet.

Eu diria: Não temam um planeta diverso!

Supernirvana: All-star Superman no Iphone






















por Ciro I. Marcondes

Nos últimos tempos, vem me ocorrendo essa necessidade inexplicável de retratações ambíguas, e é um tipo de processo um pouco angustiante, mas satisfatório. Justiça seja feita. Se em primeiro lugar veio um texto baita elogioso sobre Thor, chegou a vez de pensar novamente em Superman. Este texto já estava planejado, mas vem a calhar, já que não vale a pena ficar pensando no Super apenas como um fetiche cultural do bully ou do escoteiro. Partindo do mesmo Grant Morrison de quem parti em “Superbully Americano”, a ideia é trazer uma visão espelhada, em tudo um negativo da outra, da primeira apresentada.

Eu já vinha lendo a HQ All-star Superman antes mesmo de começar a ler o Superman crônicas, que inspirou o texto “Superbully americano”. Escrever sobre Superman já era um interesse de longa data. Acho que, nessa altura de vida e dos nossos tempos, cabe pensar um pouco num dilema difícil, que acompanha as pessoas no presente. Que tipo de homem deve-se querer ser? Deve-se avançar até o limite de sua própria potencialidade e produtividade, buscando superar sempre as próprias condições de atuação no mundo? Ou deve-se conformar com nossa condição limitada, mortal e modesta, tornando-se o homem comum uma carapuça confiável e justa, dentro da condição de cada um em alcançar a própria felicidade?

Acredito que o mito de Superman tem a ver com isso. Usei, portanto, a minissérie All-star Superman (publicada em 2007 pela Panini sob título Grandes astros Superman), cultuada parceria do escocês Grant Morrison com o célebre ilustrador Frank Quitely (publicada originalmente entre 2005 e 2008), para ao mesmo tempo instigar este tipo de questão mais filosófica sobre Superman e testar a leitura de uma HQ mais longa no Iphone, procurando pensar também na mudança de input na recepção da leitura dos quadrinhos que este tipo de gadget proporciona.

Uma tarefa, portanto, que resume certo grau de imaterialidade e eternidade (“buscar os aspectos quintessenciais da mitologia do Superman”, parafraseando Morrison) com a fortuita mudança de suporte para os quadrinhos, que pode ser bem passageira e sugere volatilidade (ler pelo Icomics no Ipad ou pelo CDisplay já é diferente, e não sabemos qual(is) modelo(s) de leitura digital pode permanecer). Vou dividir este texto, então, em pequenos blocos alternando comentários pontuais sobre All-star Superman em si e outros processando as sacadas que a dinâmica para quadrinhos que o app da DC para Iphone (que é idêntico ao da Marvel) me proporcionou. Espero que gostem da leitura.

"Não tem jeito fácil de dizer isso, então vou dizer logo!"
1 – Supercâncer: Para os que não conhecem, All-star Superman foi um segundo lançamento desta série All-star, que buscava resgatar, fora da cronologia “oficial” da DC (e pensar que agora tudo já se esculhambou mais ainda), aspectos interessantes dos heróis clássicos, revalorizando determinado conceitos. Esta história é geralmente pensada como uma espécie de criação do livro de mitologia definitivo para o Superman, trazendo de volta a beleza arquetípica de cada personagem importante envolvido em seu universo. O plot básico é muito simples, mas se complexifica: Luthor consegue fazer com que Superman entre dentro do sol para realizar um perigoso resgate. O contato tão violento com a colossal virulência energética do sol produz uma absurda sobrecarga nas células do próprio Superman (lembremos que é justamente a influência do nosso sol amarelo que dá os poderes ao herói). Ele desenvolve novos poderes, sente-se ainda mais invulnerável (e eu que já pensara que ele próprio era o limite disso tudo), mas logo descobre que esta sobrecarga fará com que, logo, suas células se convertam em energia pura. Ou seja, Superman está condenado à morte, através de uma espécie de supercâncer. Este conhecimento revoluteia em nosso herói, que, impassível e com clareza de raciocínio também amplificada, reconhece o próprio papel que exerce no planeta Terra e decide realizar doze tarefas profeticamente atribuídas e ele, afim de, determinadamente, deixar tudo organizado para que o mundo possa sobreviver “bem” sem a presença de um Superman. Cada edição da série é, ao mesmo tempo, voltada nostalgicamente a um personagem ou ambiente do universo de Superman. Assim, vamos nos deparando com enfoques distintos em Lois Lane, Jimmy Olsen, o Planeta Diário, Lex Luthor, a dinastia futura dos Supermen, os Kents, Lana Lang, Smallville, o Planeta Bizarro, Kandor, a Zona Fantasma, etc. Analisar em detalhe isso tudo seria perda de tempo e redundância. Vou me ater ao conteúdo mais reflexivo que vi na série.

2 – Um Apolo, um Buda, um Cristo: Acho um engano pensar que All-star Superman seja algum tipo de concentração mítica das características quintessenciais associadas ao Superman. Vamos pensar que, coletivamente, a figura do Superman em muito se distanciou de sua representatividade para os quadrinhos. Para quase todo cidadão comum, Superman é uma figura prototipal e genérica do super-herói em si, traduzida na fórmula “valores morais padrão (estilo “direito humanos”) + poder para resolver isso na base da porrada, ultrapassando legislações e fronteiras nacionais". Superman, na coletividade, acaba sendo mesmo um supersoldado ocidental guiado pelo senso comum, mas ao mesmo tempo incapaz de um traquejo mais malicioso com as condições mais banais da vida humana. Pensemos que ele é eternamente incapaz de resolver sua situação com Lois Lane, sendo nesse sentido bem humano, bem impotente (sabe-se lá em que graus de impotência. Vamos reconhecer que ele deve ser, quase com certeza absoluta, virgem!).

Virgem?

Frank Quitely
Não é este o Superman que Morrison inscreve em All-star Superman (ainda bem). O elegante herói que vemos aqui, de profunda (e quase religiosa) nobreza de caráter, de estoica consciência sobre sua própria condição, e possuindo enorme sagacidade e límpida inteligência, é um desdobramento da cultura quadrinística a respeito do herói, e são seus leitores fiéis é que transpiram esta nostalgia e são consumidos pelo caráter zen e holístico da história. Neste sentido, esta série atravessa o mundo científico louco e surreal de Superman, com suas cidades encolhidas e universos ao contrário, com seus viajantes no tempo e criaturas que devoram sóis. O grande magnetismo, com desdobramentos probabilísticos e quânticos que Morrison (um notório interessado em psicotrópicos fortes e contracultura transcendental) provoca com esta história não parece ser exatamente o lado humano de Superman, mas o reconhecimento de sua condição divina, num entrecruzamento de fábulas, levando tudo isso a um patamar de maturidade e fazendo do personagem uma serena e empolgante mistura de Apolo, com Cristo, com Buda.

A arte de Quitely com certeza ajuda a reforçar estas ideias. Dono de um traço leve e humanístico sem deixar de ser escultural, ele ilustra estas disposições embelezando componentes de mitologia com fascinante detalhismo, mas mantendo os personagens com expressões bem puras. Este apelo meio renascentista (a leveza dos seus gigantes sempre me pareceu um pouco botticelliana), meio barroco (neste caso, a multitude de objetos e cenários) parece mesmo transmitir esta tensão, tão secular, entre razão e espiritualidade que a série deixa transparecer.
3 – Quadrões? Adquiri as 12 edições de All-star Superman pela próprio reader da DC no Iphone, e o ato de comprá-las é simples, rápido e eficaz. Cada uma delas custou $ 1,99 e, na conversão atual do dólar, a série completa saiu por cerca de R$ 18. Achei honesto. Em princípio, a leitura de uma HQ mais densa no Iphone pode chamar atenção pelo desconforto (o aparelho, ao contrário do Ipad, é muito menor que uma revista), e muitas vezes mesmo os quadros individualizados na interface dele são menores do que os publicados em papel originalmente. Porém, o dispositivo que o aplicativo oferece pra resolver esse problema é não só interessante para travarmos um contato mais minucioso com a arte da HQ, como provoca esta sensação curiosa de aproximar as HQs do cinema. São 3 fatores que me fazem arriscar a dizer isso, e este é o primeiro deles. Explico: no Iphone, temos a opção de ver, antes ou depois de ela ocorrer, a página inteira miniaturizada, mas uns 90% da leitura se dá quadro-a-quadro, cada um deles projetados integralmente na telinha. Cada “quadrinho”, portanto, se torna um “quadrão” individualizado.

A vantagem que temos, nesse caso, é a de passear livremente pela superfície desse “quadrão”, aplicando todo tipo de zoom, ao nosso bel-prazer. Nosso olho se torna mais móvel, e nosso dedinho, correndo pela imagem, uma extensão daquele. Isso tudo me lembra a pioneira teoria cinematográfica de Hugo Munsterberg, quando ele dizia que o cinema era um dispositivo que replica nosso próprio processar mental: se o “quadrão” do cinema nos joga diante de um close-up ou um zoom, ele estaria replicando nosso ato físico de aproximar o olho de um cenário ou objeto, com a diferença de que, neste caso, estamos paradinhos na poltrona e o “mundo” se movimenta em direção a nós. No caso da HQ pelo Iphone, um fenômeno misto ocorre: nosso “olho”, mediado pelos dedos, se aproxima do “mundo” desenhado pelos quadrinhos mas, nesse caso, ele não é “dirigido” pela temporalidade cinematográfica, mas sim pela nossa velocidade própria de leitura, conforme fazemos sempre nos quadrinhos de papel.

aqui tem uma resenha em vídeo do app da Marvel:



4 – O gênio de Superman: Para mim, o melhor par de nêmesis do mundo dos super-heróis continua sendo (e creio que sempre será) a querela Superman x Lex Luthor, por suas condições que evidenciam uma proporção inversa: nosso herói é invulnerável, e poucas coisas podem realmente lhe ameaçar. Sua condição de defensor é quase um truísmo: ele deve proteger, supostamente porque não há nenhum outro capaz de fazer isso. Morrison evidencia isso no final da história, quando enquadra Superman como um tipo de consciência cósmica, enxergando os fios transcendentais que unem os aspectos da realidade e tornando sua função de defensor e unificador uma inevitabilidade.

Clark...

Porém, nosso senso comum coloca sempre Superman como condicionado por uma moralidade autoevidente, do tipo “tem um prédio em chamas? Vou lá salvar todo mundo e apagar o fogo”. Mas as nuances da moral com certeza não são autoevidentes como a cultura do bom-mocismo quer passar, e é nesse ponto que Luthor – uma figura fascista, 100% compenetrada na certeza de que sua própria inteligência e genialidade são também truísmos e de que é uma conclusão lógica que ele deva ser o governante mundial – estabelece o contraponto básico desta relação: pode um homem normal, munido apenas de arrogância, autoconfiança ensandecida e genialidade, derrotar algo fisicamente indestrutível e guiado por um senso moral comum, mas sólido e legitimado?

Aqui, Morrison dá uma resposta que subverte os clichês de ambos os personagens, sem sacrificar a tal “quintessência” deles. O “câncer” de Superman e todo o plano de matá-lo é previsivelmente uma grande arquitetação de Luthor, e até aqui nada parece estar fora do lugar. Porém, a grande sacada do escocês é a ideia de que Superman simplesmente não é quem ele parece ser. Filho de uma linhagem avançadíssima de seres alienígenas, Kal-El não herda simplesmente a sobrenaturalidade física de seus ancestrais, mas também uma inteligência sobrenatural. Lembremos que Kal-El/Superman/Clark Kent é filho de Jor-El, o mais brilhante cientista de Kripton, e Morrison o transforma também em um tipo específico de cientista. Em All-star, Superman sabe muito bem o jogo de disfarces que precisa operar em suas várias identidades na Terra, mas é a consciência sobre-humana de kriptoniano que parece ser seu local de maior conforto. Como parte de seu testamento, Superman lega à humanidade a fórmula para que, após seu fim, um novo Superman (“Superman 2”) possa ser criado. Enquanto isso, desenvolve em laboratório uma “mini-Terra” em que tudo no nosso mundo é igual, mas sem a existência do Superman. Morrison faz sua homenagem ao universo do leitor fazendo-nos perceber que esta Terra experimental é o nosso próprio mundo “real”, e Superman aparece como personagem de quadrinhos, criado por Siegel e Shuster.

Enquanto isso, Luthor é condenado à cadeira elétrica por crimes contra a humanidade, e a edição em que Clark vai entrevistá-lo para registrar suas últimas palavras é uma das melhores da série. Arrogante, Luthor não admite temores (muito menos da morte), e sua visão e simpatia pelo abobalhado Clark como o absoluto oposto de Superman é a grande aporia que faz seu plano naufragar: gênio como poucos, Luthor (como todos) não enxerga o óbvio. Na última edição, a relação finalmente se inverte e coloca os personagens em suas reais limitações. Superman já está no fim de sua vida, muito enfraquecido pela “doença”, e Luthor (por meio de algum technobubble que não me lembro direito) adquire os poderes divinais do herói por 24 horas. Tudo parece perfeito para a conquista global, se Luthor simplesmente não ficasse paralisado em meio uma epifania causada pelo estado de ser Superman, em sua consciência superior, por algumas horas. O contato não com os superpoderes, mas sim com a ontologia divinal, deixa Luthor confuso a respeito de seus propósitos, e ele reconhece uma verdade ao mesmo tempo mística e científica nas ações altruístas e na compaixão de Superman. A ironia de tudo é que este estado é provocado após Luthor ser atingido por um raio gravitacional (?) por um frágil Clark Kent, acelerando a superconsciência do vilão. No final das contas, a inteligência se prova um estado mais refinado que o de elaborar grandes planos.


5 – Fim da página: Ler quadrinhos no Iphone logicamente nos distancia do conforto físico que é o ato de virar páginas e dobrar uma revista. Esta imaterialidade não é o único problema, já que o próprio formato do Iphone é um pouco inadequado para este ato. Ler na cama, por exemplo, requer uso constante das duas mãos, e isso se torna cansativo. Essa projeção do mundo de quadrinhos para uma completa imaterialidade tem também um desdobramento na própria percepção do conteúdo, e mais dois aspectos fazem isso se aproximar de percepção imaterial que é o cinema (ninguém “toca” o filme, certo?).

Em primeiro lugar, a abstração da noção de página. Por mais que a gente vá acompanhando mais ou menos a disposição dos quadros num vislumbre rápido da página, a sensação geral é de um emaranhado impreciso de “quadrões” em sequência. Para alguns, aqui a arte dos quadrinhos perde algo essencial. Como diz o pesquisador David Carrier: “A página não é um elemento neutro, meramente passivo, e sim constitui um aspecto visual distinto e ativo”. As incríveis páginas de temporalidade simultânea, específicas das HQs, na edição da fuga de Luthor, por exemplo, passam batidas, no Iphone, a um leitor incauto. O efeito disso, portanto, é de pura virtualidade: tudo aquilo que se transmite como uma simultaneidade expressiva (a página, a ordem e a disposição dos quadros dentro da composição da página) se converte em uma simultaneidade em sucessão, quando, sintaticamente, temos que absorver a história numa linha bem mais direcional, imagem por imagem, exatamente como é a (imensa) sucessão de “quadrões” do cinema.


Este efeito se confirma com mais um recurso do reader da DC para Iphone: os movimentos de “correção” que adicionam um grau de temporalidade e duração aos quadrinhos. Ora, a gente sabe que os quadrinhos possuem uma temporalidade complexa a intricada, basta ler o velho McLoud, mas a noção de “duração” era bastante ausente, justamente porque os quadrinhos são mesmo... parados. No Iphone, cada quadrinho acaba sendo dividido em sub-partes que vão sendo mostradas, num interessante movimento automático feito pelo aplicativo, uma a uma, em detalhes, para o leitor. Assim, certo suspense pode ser acrescentado a um mesmo quadro quando, por exemplo, ao lermos o detalhes da fala de um personagem, não sabemos a forma e o teor da resposta do interlocutor no mesmo quadro (o que seria visível numa leitura de HQ física). O corretor “oculta”, então, os detalhes adicionais, não só enrijecendo a ordem com que lemos as HQs como mostrando os detalhes na medida em que vamos pressionando a tela, criando movimentos e dinâmicas específicas dentro do quadro. Esse proto-movimento nos aproxima, é claro, de imagens animadas, e muitos querem sugerir que, no futuro dos quadrinhos, está o desenvolvimento deste potencial.

(fiz um videozinho pra demonstrar esses efeitos todos. Perdoem os aspecto... hmmm... rudimentar da minha câmera)




6 – Super-nirvana: Por fim, e como conclusão, vale mais uma observação a respeito de um ato de All-star Superman. Duas edições dela são dedicadas ao aparecimento do planeta Bizarro (“Htrae”), dos confins de uma dimensão inferior, na órbita da Terra, que é invadida por genéricos “bizarros” que passam a assumir formas “bizarras” da população. Esta ideia, do Bizarro (bem popular no desenho “Superamigos”), pode parecer invenção maluca e ingênua, mas às vezes as ideias simplesmente se complementam sem a gente perceber. Se a mitologia de Superman é em tudo um conto sobre a perfeição, no planeta Bizarro tudo é tão absurdamente imperfeito que nem mesmo Superman pode fazer qualquer coisa por ele (neste caso, em sua infalibilidade, Superman é o mais inútil dos seres). Já fraco e próximo do fim, Superman é tragado para a superfície do planeta, e todo seu esforço pode ir por água abaixo porque ele já não pode voar e perde a superforça. Sua única salvação se encontra em construir um foguete e voltar para a Terra. Este plot, porém, não é mais interessante do que a aparição de Zibarro, um tipo de desdobramento do Superman de tal maneira raro em Htrae, com uma genética tão única e acidental, que possui... inteligência, consciência, talento e sentimentos. Zibarro é ridicularizado pelos outros “bizarros” por ser considerado uma aberração, e se queixa de sentir colossal solidão. Este episódio em Htrae é um dos mais poéticos da série não apenas porque, a partir de uma relação negativa, conhecemos a solidão divina do próprio Superman, mas também porque é um dos momentos em que a arte de Quitely se supera, criando uma paisagem vermelha, apocalíptica e desoladora, inundando a HQ com comovente tristeza gráfica.

Bizarro

O contraste trazido à tona por Zibarro, o poeta solitário de Htrae cujo único sonho é se sentir normal, num mundo de normais, nos traz de volta àquele primeiro questionamento, entre a ambição do “super” e o conforto estoico do “comum”. Morrison evidencia, com Luthor e com Zibarro, que “caminhar sobre ombros de gigantes” nem sempre é uma experiência de magnitude, a não ser a magnitude sublime do abismo, a terrível solidão dos deuses e gênios. Estas passagens nos transmitem as nuances da visão de mundo atribuída a Superman, e a maneira com que ele sublima todos estes paradoxos curiosamente remete a uma ideia clássica do imaginário do super-herói: a persistência. A despeito destas trevas trazidas à tona pelos outros personagens, em nenhum momento Superman, Kal-El, Clark ou todos juntos parecem hesitar. A atribuição de Superman é da autoconsciência de um destino cósmico, de uma razão já calculada sobre suas ações no mundo, de uma investigação já encerrada sobre as fronteiras da moralidade. Este Superman de Morrison é um ser olímpico, apolíneo, e a dúvida é um benefício (?) dos mortais. Diante de sua própria morte, Superman não hesita e insiste em cumprir, irrevogavelmente, todas as suas doze tarefas com perfeição, deixando a humanidade preparada para sua ausência.

Zibarro

No final da história, num ato de metempsicose que remete às experiências com o oculto de Grant Morrison, Kal-El já está numa dimensão de certo além-vida, em transfiguração da matéria que torna oblíquos o tempo e o espaço. Ele vive numa vida em que Krypton nunca foi destruída, e, conversando com seu pai Jor-El, percebe que não cumpriu todas as suas tarefas em sua materialização imediatamente anterior, na Terra. Jor-El explica que voltar no tempo, reconfigurar a realidade e mesmo transmutar-se novamente para uma vida anterior são escolhas nossas. Sem hesitar, Kal-El realiza (como um deus, vejam bem, não como humano) a escolha de retornar, tendo já, há sabe-se lá há quanto tempo, percebido o fundamento de sua persistência implacável. Superman retorna e, como tantos deuses, adquire o dom de subverter a morte. Seu retorno acontece para que ele possa salvar a Terra da destruição do nosso sol, enfermo graças à ação de Solaris, um sol maligno e artificial. Sabendo, numa consciência claramente transcendental, que suas próprias células se tornaram baterias solares e que ele mesmo se tornará umas espécie de sol, Superman sublima sua própria existência e voa para o centro da estrela que ilumina nosso planeta, não apenas recompondo-a, mas tornando-se parte dela. Isso parece ou não, afinal de contas, uma espécie de nirvana?

SUPERNIRVANA!

All-star Superman também virou, em 2011, animação pela Warner. Veja a primeira parte: