
Saído de uma edição maltrapilha de MAD (William M. Gaines e Bill Elder, 1953): esta imagem apareceu no meio de uma leitura entusiasmada de uma coletânea de bolso da revista MAD publicada pela novaiorquina Ballatine em 1956 a partir dos originais da EC de 52, 53 e 54. Este poeirento, mofado e fedorento livrinho reúne algumas das melhores histórias da MAD clássica escritas por Bill Gaines, como "Melvin of the apes", "G.I. Shmoe" e "Little Orphan Melvin", com desenhos de caras legais como John Severin, Wally Wood e o próprio Bill Elder. Me custou a bagatela de 4 reais esse gibi puído e esquecido na prateleira de um sebo. Muito possivelmente, fui a última pessoa que vai lê-lo desde sua longa trajetória quando pertencia à biblioteca da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros (como diz um carimbo na folha de rosto), ou quando passou às mãos de um certo ˜Eduardo˜, que não deixou qualquer outro registro. Digo isso porque, na medida em que fui lendo o gibi, ele foi literalmente se despedaçando, por mais que eu tenha costume de ler livros com cuidado para preservá-los. Primeiro, ele se dividiu ao meio. Depois, uma de suas partes segmentou-se em outras duas (estilo Gremlins), até que as páginas começaram a cair uma a uma, algumas realmente se esfarelando. Death comes to us all, even little books
O humor da MAD original, como se sabe, era paródico e pentelho, e foi uma das primeiras publicações a sacanear pesado com a cultura pop de sua própria época, coisa hoje quase irritantemente lugar-comum (de coisas boas, como South Park, a ruins, como CQC). Incrível que uma concepção completa de humor contemporâneo tenha saído da cabeça de uns 4 ou 5 caras no meio do macartismo americano. Esta história Frank N. Stein é uma das mais divertidas, justamente porque Gaines cria a paródia perfeita do cientista europeu genial, sádico e obcecado. Tudo bem que o Dr. Frankenstein original fosse um personagem suíço. Aqui ele vira um alemão aloprado, de sotaque carregado (chega a ser difícil de entender coisas como "Ja boss! Ja boss! All der time you iss saying, 'Ja boss'! Rause mitt der 'Ja boss', hey vill you?"). Era o início dos anos 50, bem fácil de sacanear alemães.
O quadro em questão é o primeiro em que o monstro de Frank N. Stein, já no final da história, aparece. Ele é diferente porque, no resto todo dela, Gaines coloca uma enormidade de falas malucas e histéricas nas desventuras do Dr. Stein e seu mongol ajudante Bumble em busca do monstro fugitivo. Aqui, o quadro é sem falas e o desenho diz tudo, sem mencionar a palavra "Hitler" uma vez sequer. O mistério todo se dava porque Bumble havia acidentalmente roubado um cérebro "horripilante, que deveria ser destruído imediatamente" e colocado no monstro. Elder vai desenhando o jeito histriônico desses personagens sempre com o detalhismo cômico dos college comics e cheio de easter eggs de cultura pop, paródias estilísticas, movimentos legais de aproximação, enfim, uma beleza. Quando eles finalmente acham o monstro, este quadro da criatura com bigodinho nos surpreende tanto quanto aos soldados americanos que o caçam. Porém, a coisa fica ainda mais aloprada quando o monstro simplesmente bate os braços e levanta voo, piando sem parar. O dono original do cérebro então chega e diz que aquilo pertencia a um passarinho. Como se vê, Gaines já tinha a sacação de parodiar o nazismo e ao mesmo tempo o estereótipo da crítica ao nazismo numa mesma história. Pena que um humor tão fino e burlesco como esse esteja mais em quadrinhos esfarelados e que deram perda total como esse meu gibi do que nesses webcomics cínicos e sem qualquer sutileza de hoje em dia. (CIM)

Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?