Q para QUADRINHOS

por Ciro I. Marcondes

Eu fui pego de calças curtas. Tendo adquirido Ovelha negra – A revista que o Brasil não leu encomendando-a pela Internet através do site da Pandemônio, fui lendo-a sem saber exatamente do que se tratava. Apenas tinha a referência de ser de autoria do Professor da UFMG e quadrinista retumbantemente aficcionado Daniel Werneck, em parceria com o desenhista Ricardo Tokumoto. Era o suficiente. Porém, ao começar a ler o gibi, envolvi-me num mundo mais intrigante do que poderia esperar: tratava-se de uma recuperação (“restauração”) devidamente comentada e contextualizada, de uma revista de HQs de contracultura que havia balançado a cena belorizontina, como zine ou revista, nas décadas de 50, 60 e 70. O material era incrível, e a evolução dos desenhos e quadrinistas, acompanhando a trajetória sociopolítica do Brasil, mais ainda. O trabalho de “pesquisa” parecia extremamente bem-feito, especialmente em contextualizar o desaparecimento, sem rastros, da revista nas décadas seguintes, devido à linha dura do governo militar. Até que, de repente, um estalo me bateu à cabeça: “Como é possível que uma revista desse calibre, com experimentações avançadas de linguagem e conteudo forte e contracultural, não seja absolutamente idolatrado pelos quadrinistas de hoje, na era da Internet, ou isso não seja recorrentemente citado por artistas do calibre de Angeli ou Adão. Como é possível que eu mesmo nunca tenha ouvido falar nisso”?? Não aguentando mais, chequei as últimas páginas e percebi que todo o gibi de tratava de um tipo de mockumentary, ou um “jornalismo falso em quadrinhos”.

F for fake.

Este parágrafo escrito acima é um parágrafo falso. O que ocorreu na verdade foi bem diferente. Werneck já anunciava a publicação desta HQ pelo twitter muito antes de ela efetivamente sair, no final de 2011, e eu tive a oportunidade de conhecê-lo (apenas virtualmente), via @raiolaserhq, já há algum tempo e, através de meses a fio, acompanhei o desenvolvimento desta HQ: a redação das notas de rodapé, importantíssimas para se entender o comentário ideológico e estético da obra; a construção dos documentos forjados; a conceituação estética de cada uma das tiras, diferentes entre si (assim como dos “autores”), referindo-se a culturas diversas de quadrinhos dos 50’s aos 70’s; e até mesmo a chegada das pinups desenhadas por ótimos quadrinistas da presente geração hipermoderna de HQs no Brasil. Quando recebi Ovelha negra, portanto, rasguei o papel da embalagem e li numa sentada só, conferindo o apuro detalhado com que aquiilo havia sido concebido e executado.

O segundo parágrafo, acima, também é uma mentira? Pode muito bem ser, e esse é o ponto (perdoem a introdução fora dos padrões) a que eu gostaria de chegar sobre esta HQ: citando uma frase de Eumyr (o “maior falsário do século 20”), personagem de F for fake de Orson Welles, “se você pindura uma pintura falsa por muito tempo numa parede, ela se torna real”. Por mais que Ovelha negra não seja um fake que não se admite, como o filme de Welles (está tudo devidamente explicadinho, nas páginas finais, incluindo as homenagens aos quadrinistas históricos que a HQ emula), esta brincadeira (avançada) com o jornalismo dos e em quadrinhos tem toda uma charmosa narrativa subjacente, cativante para mentes espertas, que percebem não apenas uma maneira classuda de se reler a história de BH e do Brasil, mas uma construção, de vários jeitos inédita, de se contar a história dos quadrinhos em si, underground (o foco mais óbvio) ou mainstream (de maneira paralela). É desse jeito que esse gibi nos aprisiona em várias frentes: além de toda a construção metalinguística, os autores tiveram a preocupação de criar bons quadrinhos em sua farsa, respeitando suas referências originais (questão de coerência com a História e com o próprio mockumentary) e ao mesmo tempo pingando gotas de originalidade e autoria em cada uma delas. Assim, os falsos autores de quadrinhos vão ganhando personalidades delineadas na própria evolução histórica das tiras, que vão se intensificando em conceitos diferentes, tudo a partir dos mesmos dois autores implícitos. Mestres da falsificação.

A "evolução" do Capitão Raio-Laser Fica, então, a lição mais bonita de Ovelha negra. Por mais que identifiquemos ali, naquelas tiras, a Revista MAD, Peanuts, Gato Félix, Flash Gordon, Agente X-9, Recruta Zero, Zap Comix, Angeli, Laerte e o escambau (basicamente duas páginas inteiras de citações), os quadrinhos em si são encantadores. Vale pensar na autonomia metalinguística do traço simplório de Sir Roderick, ou o comentário sobre a cultura do rock em Os meteoros, ou que bela e sagaz tira real daria Urubu rei e Cristiano; ou o apelo à HQ mais abstrata na nada ingênua Crás, boom e bang; ou, fazendo eu mesmo a minha própria ficção derivativa e alucinatória, o comentário político em Capitão Raio Laser, cujo nome teria sido inspirado neste mesmo site que vocês leem neste momento.

Ovelha negra chega justamente num momento em que o reconhecimento das HQs como arte segue a uma gigante exponenciação do potencial desta mesma arte, com artistas no mundo inteiro investindo nesta carreira e apontando para todas as direções possíveis. Verdadeira diáspora das HQs. Como o cinema (não se enganem: esta é uma arte hoje decadente) fez nos anos 60. Vale, pra finalizar, mandar outra frase de F for fake, citada (supostamente), do poeta Kipling: “Adão, nosso pai, ao chegar no paraíso, pegou um graveto no chão e começou a fazer lindos desenhos na lama, quando, sorrateiramente, o diabo se aproxima dele e sussurra, ao pé do ouvido, a danação: estes desenhos são muito bonitos, mas eles são arte”? Bem, quanto a isso, posso apenas sugerir que Ovelha negra seja lido em cada falso detalhe de cada falso editorial, em cada falsa sessão de cartas, em cada falsa nota de rodapé, em cada falso documento da ditadura. Nestas entrelinhas, sinais de arte verdadeira.

Sir Roderick é uma das piadas mais interessantes de "Ovelha Negra"

HQ em um quadro: o monstro de Frank N. Stein tem o cérebro de Hitler?, por Bill Gaines e Bill Elder



Saído de uma edição maltrapilha de MAD (William M. Gaines e Bill Elder, 1953): esta imagem apareceu no meio de uma leitura entusiasmada de uma coletânea de bolso da revista MAD publicada pela novaiorquina Ballatine em 1956 a partir dos originais da EC de 52, 53 e 54. Este poeirento, mofado e fedorento livrinho reúne algumas das melhores histórias da MAD clássica escritas por Bill Gaines, como "Melvin of the apes",  "G.I. Shmoe" e "Little Orphan Melvin", com desenhos de caras legais como John Severin, Wally Wood e o próprio Bill Elder. Me custou a bagatela de 4 reais esse gibi puído e esquecido na prateleira de um sebo. Muito possivelmente, fui a última pessoa que vai lê-lo desde sua longa trajetória quando pertencia à biblioteca da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros (como diz um carimbo na folha de rosto), ou quando passou às mãos de um certo ˜Eduardo˜, que não deixou qualquer outro registro. Digo isso porque, na medida em que fui lendo o gibi, ele foi literalmente se despedaçando, por mais que eu tenha costume de ler livros com cuidado para preservá-los. Primeiro, ele se dividiu ao meio. Depois, uma de suas partes segmentou-se em outras duas (estilo Gremlins), até que as páginas começaram a cair uma a uma, algumas realmente se esfarelando. Death comes to us all, even little books

O humor da MAD original, como se sabe, era paródico e pentelho, e foi uma das primeiras publicações a sacanear pesado com a cultura pop de sua própria época, coisa hoje quase irritantemente lugar-comum (de coisas boas, como South Park, a ruins, como CQC). Incrível que uma concepção completa de humor contemporâneo tenha saído da cabeça de uns 4 ou 5 caras no meio do macartismo americano. Esta história Frank N. Stein é uma das mais divertidas, justamente porque Gaines cria a paródia perfeita do cientista europeu genial, sádico e obcecado. Tudo bem que o Dr. Frankenstein original fosse um personagem suíço. Aqui ele vira um alemão aloprado, de sotaque carregado (chega a ser difícil de entender coisas como "Ja boss! Ja boss! All der time you iss saying, 'Ja boss'! Rause mitt der 'Ja boss', hey vill you?"). Era o início dos anos 50, bem fácil de sacanear alemães.

O quadro em questão é o primeiro em que o monstro de Frank N. Stein, já no final da história, aparece. Ele é diferente porque, no resto todo dela, Gaines coloca uma enormidade de falas malucas e histéricas nas desventuras do Dr. Stein e seu mongol ajudante Bumble em busca do monstro fugitivo. Aqui, o quadro é sem falas e o desenho diz tudo, sem mencionar a palavra "Hitler" uma vez sequer. O mistério todo se dava porque Bumble havia acidentalmente roubado um cérebro "horripilante, que deveria ser destruído imediatamente" e colocado no monstro. Elder vai desenhando o jeito histriônico desses personagens sempre com o detalhismo cômico dos college comics e cheio de easter eggs de cultura pop, paródias estilísticas, movimentos legais de aproximação, enfim, uma beleza. Quando eles finalmente acham o monstro, este quadro da criatura com bigodinho nos surpreende tanto quanto aos soldados americanos que o caçam. Porém, a coisa fica ainda mais aloprada quando o monstro simplesmente bate os braços e levanta voo, piando sem parar. O dono original do cérebro então chega e diz que aquilo pertencia a um passarinho. Como se vê, Gaines já tinha a sacação de parodiar o nazismo e ao mesmo tempo o estereótipo da crítica ao nazismo numa mesma história.  Pena que um humor tão fino e burlesco como esse esteja mais em quadrinhos esfarelados e que deram perda total como esse meu gibi do que nesses webcomics cínicos e sem qualquer sutileza de hoje em dia. (CIM)