Contos sobre a decomposição: conheça Al Feldstein

por Ciro I. Marcondes

Al Feldstein é mais um daqueles nomes que hoje pairam sob obscura sombra na história das HQs. Seu trabalho como editor, ilustrador e, principalmente, de roteirista nas clássicas publicações da EC Comics nos anos 50 (e posteriormente em MAD) hoje parece, especialmente no Brasil, relegado a um vão ostracismo, quando quadrinhos de horror, crime e ficção científica, tão populares naquela segunda aurora para o comic book, vão se tornando não apenas obsoletos, mas verdadeiras peças de arqueologia. Um pulo na banca de jornal hoje e tudo o que se vê são dezenas de publicações com os mesmos super-heróis de sempre, apenas remodelados para um design contemporâneo (de traço realista e fino, pouco estilizado, geralmente colorido em computação gráfica), com a diferença de sua ética e estética serem estrategicamente adaptados ao gosto contemporâneo. Um nojo, em geral. Quadrinhos de péssimo gosto, sem imaginação ou variabilidade de gênero.

Não deixa de ser irônico, portanto, que os quadrinhos da EC, tão vilipendiados nos anos 50 devido a uma vultosa caça às bruxas promovida tanto por setores moralistas da sociedade, quanto por intelectuais, quanto pelo próprio governo americano, sejam hoje lidos por aficcionados e colecionadores como trabalhos de qualidade estética, laboratório para grandes desenhistas (como Wally Wood, Bill Elder e John Severin) e como inventário de incríveis histórias, escabrosas, delirantes, anormais, detestáveis. O “mau gosto” e o tom altamente politicamente incorreto dos quadrinhos de horror e crime da EC, passados mais de 60 anos de suas publicações originais, se tornaram quadrinhos de culto, ousados, fora dos padrões de qualquer época para as HQs, verdadeiros tesouros elaborados por mentes delirantes que viam este salto politicamente incorreto como um passo além dos quadrinhos de aventuras, super-heróis e family strips que vinham sendo publicados nos Estados Unidos desde os anos 1930.

Al Feldstein foi um dos nomes principais desta geração e formava, juntamente com o editor-chefe Bill Gaines e o multi-talentoso roteirista e desenhista Harvey Kurtzman, a tríade que tornou a EC uma editora lendária. Caçada pela censura durante os anos de chumbo do macartismo, a EC não durou muito tempo, mas os três títulos de horror da editora, Tales from the Crypt (anteriormente Crypt of Terror), The Vault of Horror e The Haunt of Fear marcaram época ao apostar em temas-tabu como canibalismo, esquartejamento, putrefação, além de todo tipo de horror psicológico. Feldstein acreditava que era hora de a EC deixar de copiar histórias de crime que faziam sucesso em outras editoras (títulos como Crime does not Pay) e criar um gênero autêntico que os fizesse ser, por sua vez, copiados pelas outras editoras. Daí o insight de debater com Gaines a criação de revistas de horror escatológico, quase explícito, beirando o exploitation e o gore, tão populares hoje em dia, inspirado em aterradoras novelas de horror para o rádio dos anos 30.

A despeito da contribuição de Bill Gaines na hora de elaborar os argumentos, ou do resto do espetacular time da EC nos títulos de ficção-científica, guerra e crime, é o trabalho de Feldstein em Tales from the Crypt e nos outros títulos de horror que vai catapultar a EC a tornar-se o maior sucesso comercial dos quadrinhos americanos dos anos 50. Suas histórias possuíam certo senso de ironia e humor escarninho, bastante perversos, traduzidos especialmente no final com um twist grotesco de horror que nos leva, por exemplo, a imaginar situações que podem ser resumidas nas seguintes storylines: “um sujeito apaixonado por sua falecida amada que se tranca por acidente em seu mausoléu e é obrigado a se alimentar dela para sobreviver”; “um caçador e colecionar de troféus de caça que se vê caçado por um homem insano que transforma sua própria cabeça em um troféu humano”; “um homem que conduz uma carroça escondendo por dentro dela, atrás de seu corpo, um gêmeo siamês morto e apodrecido”, dentre centenas de atrocidades, enterramentos de pessoas vivas, mortes hediondas, monstros e criaturas pútridas que retornam para saciar quaisquer sedes de vingança que possuam. Para melhor pensar o estilo de Feldstein e seus quadrinhos, selecionei, para fazer um pequeno comentário, três histórias que compartilham, de alguma forma, um tema comum: a incapacidade de morrer ou os efeitos da postergação da morte.

Três níveis de postergação da morte

Na primeira delas, que vem a ser a melhor dentre as três, Feldstein cria um exótico efeito de suspense médico, deixando o leitor à deriva por quase todas as 7 tradicionais páginas das histórias da EC. The living death foi publicada em Tales from the crypt número 24, em 1951, e foi ilustrada com o traço tortuoso e deformativo de Graham Ingels, deixando os personagens da história com aspecto agressivo e grosseiro, o que não era novidade para os padrões da EC. Ao longo de uma narrativa sisuda, pontuada por muitos letreiros (este aspecto literário também era comum nos textos de Feldstein, que era mais uma mente criadora de histórias escabrosas do que propriamente um narrador habilidoso), somos apresentados a um conflito digno do final do século XIX: dois médicos, amigos de faculdade, anteveem futuros diferentes para a medicina, ao mesmo tempo em que amam a mesma mulher, Laurie. Enquanto Lester Jerome acredita que a maioria das doenças ocorre através de processos da mente (flertando com a pré-psicanálise de Charcot e Breuer, mesmo que mais de 50 anos depois que estas questões tomaram outros rumos na neurologia e na psicologia), Arnold Manning torna-se um halopata mais tradicionalista, sucesso em sua área. Jerome acaba se casando com Laurie, mas seus métodos (que incluem a hipnose) o levam ao obscurantismo, enquanto Manning alcança a glória como médico de renome. A ironia do destino leva a esposa de Jerome a desenvolver um câncer com pouquíssima probabilidade de cura. Tratada no hospital de Manning, a junta médica decide que o tratamento do médico famoso seria melhor do que os métodos pouco testados do marido dela. Laurie é tratada por Manning e morre, para o desespero de Jerome, que vocifera com olhar de desespero e vingança: “eu poderia ter salvado ela!”

A história poderia se encerrar neste caso por si só, já que estamos lendo um texto com um drama humano bastante razoável, com interessante insight sobre visões da medicina, ilustrado por uma arte simples, mas suficientemente brutal, seca e aterradora. Porém, Feldstein nos leva a um novo plot twist quando o próprio Manning é acometido por um câncer quase incurável, o que o leva a abandonar seus próprios métodos e a procurar, anos depois, o velho colega e rival pouco ortodoxo para tentar salvar sua vida. Amargurado e rancoroso, Jerome acaba aceitando realizar o tratamento por hipnose, infligindo-lhe a sugestão de “jamais morrer”, “independente de quaisquer circunstâncias”, “até que ele diga a palavra ‘Laurie’”. O que se sucede é bizarro. Manning efetivamente morre, quando seu coração sofre uma parada cardíaca, mas seu cadáver continua a emitir sons e grunhidos, mexendo-se grosseiramente, em algum centro motor, indefinidamente. E, por indefinidamente, considere-se meses. Manning treme e grunhe gemidos de dor até que a junta médica decide chamar o médico que o havia tratado: Jerome. É neste momento que emerge o único aspecto mais gore da história, justamente no último quadro, quando, em meio a resmungos, Jerome pronuncia a palavra “Laurie” e quebra a hipnose depois de meses. Instantaneamente, o corpo de Manning passa a putrefazer-se até virar uma massa disforme.

Apesar do final grosseiro (bem ao sabor da EC) e com um quê meio “WTF?”, a história de Jerome e Manning não deixa de ser uma das mais excepcionais de Feldstein, não apenas por não trazer monstros e elementos sobrenaturais, mas também por envolver sentimentos complexos como a vingança e a redenção, o amor e a competitividade profissional, além de um debate estranho a respeito do real alcance da hipnose, de um verdadeiro conceito de morte, alma, e do decaimento do corpo humano. Neste caso, o prolongamento da vida se dá por meio da sugestão sobre a mente, o que sugere uma separação em relação ao corpo, que insiste em morrer.

É um caso semelhante do que ocorre em Judy, you’re not yourself today, que Feldstein escreveu para Tales from the crypt  N° 25, ilustrada por ninguém menos que um precoce Wally Wood. Nesta curiosa história, uma formosa e loira dona de casa chamada Judy abre sua porta para uma velha mendiga que acaba por se revelar uma espécie de bruxa após praticar temível feitiço: à procura de um corpo jovem com o qual possa trocar de almas, ela encontra na beleza de Judy a saída perfeita, e executa a bruxaria. Aterradora, essa história se foca no choque com que a moça percebe a troca de corpos, tendo se tornado agora uma figura decrépita, frágil e horrenda. O marido de Judy, Donald, consegue, através de plano mirabolante, reverter o processo e assassinar a velha bruxa. O plot twist, neste caso, se dá quando, meses depois, mesmo com a velha enterrada no porão, a alma da bruxa consegue novamente fazer o feitiço se reverter, e Judy, de repente, se vê incorporada novamente no que restou, putrefato, do corpo morto. Judy se reergue, agora um monstro em decomposição, resistente à morte. 

Neste caso, a vida é prolongada por algum tipo de recurso sobrenatural, não tão sofisticado quanto a sugestão que rompe o equilíbrio entre morte e vida da história anterior, mas amparado por uma espécie de vontade recorrente e interminável de continuar vivendo, representado na alma demoníaca da bruxa. O que é mais exótico e perturbador é imaginar que, de alguma forma, e por algum mecanismo que desafia todo tipo de resolução que inclua o assassinato, o tempo, o enterro e a decomposição, os demônios sempre encontram alguma maneira de retornar e possuir os vivos.

Nossa última fábula de morte e decomposição foi retirada do imaginário do grande autor de ficção-científica Ray Bradbury, que transitava entre o pulp e a especulação filosófica, e cujas histórias foram em grande parte adaptadas por Feldstein (um grande fã do autor, que também reconhecia a qualidade da EC e firmou parceria) para os quadrinhos. The Black ferris foi publicada em Haunt of Fear N° 18, em 1953, e também apareceu por aqui na saudosa edição número 1 de Cripta do Terror, da editora Record, que saiu em 1991. Aqui, uma dupla de garotos vai a um parque de diversões velho durante uma noite sombria e presencia um acontecimento extraordinário: um homem adulto sobe na roda-gigante e, após algumas voltas controladas por um operador corcunda e cego, retorna... como um criança! O princípio todo da história é fabuloso e imaginativo, e parte da ideia de que esta roda gigante, com algum tipo de propriedade mágica sobre o tempo, acelera ou reduz (dependendo do sentido para o qual a roda está girando) o envelhecimento de quem está dentro dela. A trama se desdobra sobre um golpe praticado por este homem misterioso, que ora aparece como menino, ora aparece como adulto. O clímax ocorre justamente no final, quando as crianças procuram sabotar o plano maléfico deste homem-menino e abatem o operador cego, enquanto a roda gira para o futuro. O resultado, com a roda girando sem parar e o homem gritando freneticamente “parem a roda!”, não poderia ser menos assombroso: quando a polícia efetivamente consegue parar a roda, jaz apenas um esqueleto do homem, envelhecido “demais” pelo mecanismo de tal exótica máquina do tempo.

Se no primeiro caso temos um rompimento das relações normais entre mente e corpo através do procedimento meio mecânico e meio espiritual que é a hipnose, provocando o prolongamento de uma vida através de morte, e no segundo temos a insistência de um ser de pura vontade inefável de continuar existindo e se perpetuando (um espírito demoníaco), neste terceiro caso temos uma guinada completamente mecânica, quando o decaimento ou não do corpo e o prolongamento da vida é realizado por algo inteiramente externo: uma máquina, e, mais interessante ainda, uma máquina do tempo. Aqui, Feldstein encerra essa forçosa “trilogia” ao colocar cada um dos potenciais de ressurgimento ou apodrecimento do corpo e da alma em um limiar que inclui o mundo mecânico, da matéria, ou o mundo espiritual, da mente. Não que estas histórias, ingênuas e fabulosas apenas, em suas origens, se proponham a que sejam lidas em tal lente “metafísica”, mas não deixa de soar interessante imaginarmos que tais arquétipos como o da hipnose, dos demônios ou das máquinas do tempo possam ressoar uma significação comum, enredada: a do horror. Horror do prolongamento da vida. Horror do medo da morte.  

Dando uma boa olhadinha debaixo da cama [e dentro das lixeiras também!]



Cristiano Bastos é um gaúcho sangue boníssimo e nosso amigo, residindo aqui em Brasília. Escreveu, dentre muitas atividades, para as revistas Bizz, ESPN e Aplauso. Atualmente é reporter especial da revista Rolling Stone, onde escreve sobre música e política.  Nesta última, fez reportagens maravilhosas sobre Novos Baianos, Raul Seixas e Romário. É autor do livro Gauleses Irredutíveis - Causos e atitudes do rock gaúcho. É também diretor do documentário Nas paredes da pedra encantada, sobre o álbum Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. E ele curte quadrinhos. E ele curte EC Comics, Tales from the Crypt, quadrinhos de antes do comics code authority. E ele curte bons textos. E fez um ótimo texto pra gente, contando sua relação com estes lendários quadrinhos de terror, além da arte de chafurdar no lixo alheio. Para quem quiser conhecer o trabalho do Cristiano, ele tem um blog e um portfolio online. Valeu meu véio. Esta é uma colaboração realmente especial. PS: Ilustrei a crônica do Cristiano com imagens sortidas das HQs de Cripta do terror. Enjoy! (CIM

por Cristiano Bastos

Aos meus “40 invernos” eu às vezes ainda sonho um sonho que sonhava sempre quando criança. De tanto sonhá-lo ficou gravado em minha memória. Sonho que perambulo entre as lixeiras do prédio “minhocão” [esses conjuntos habitacionais levantados pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), nos anos 1970, para acomodar a classe C], em um dos quais minha família estabeleceu-se quando meus pais deixaram Cachoeirinha, na região metropolitana da capital gaúcha, para ir morar em Porto Alegre. Eram dezesseis blocos e as respectivas lixeiras, enfileiradas uma ao lado da outra. E, para cada andar, havia um compartimento através do qual os moradores despojavam seus refugos domésticos – e, também, jornais, livros e revistas.

Cristiano, à esquerda, e seus irmãos: Ethel e Marcelo.
No local onde revirava as lixeiras. Porto Alegre, anos 80. 

Para mim, uma tarefa religiosa, diária e, sobretudo, uma grande aventura era revolver o lixo alheio possivelmente repleto de “surpresas gráficas”. Pedalando a minha bicicleta Caloy, chafurdava a imundície dos outros atrás de qualquer coisa para ler. Embora meu pai, sócio fiel do “Clube do Livro”, não deixasse que faltasse leitura em casa [nem comida!] – as mais diversificadas. O velho comprava um livro por semana, em média. Muitos best-sellers como Sidney Sheldon e o “mestre da sordidez” Haroldo Robbins [dentre os quais as obras: Nunca Ame um Estranho (1948) e Uma prece para Danny Fisher (1952), roteirizado para o cinema como King Creole (1958), estrelado pelo ainda “príncipe” Elvis Presley].

Woolf
Também havia “alta literatura”: Jack London, até hoje, um dos meus herois da vida e das letras. E o sacana Henry Miller, que me ensinou umas palavrinhas desbocadas antes do tempo... O primeiro livro que ganhei de meu pai foi uma edição de Tarzan – O Filho das Selvas (1912), de Edgar Rice Burroughs, porém, confesso que não li até hoje. Mas o livro continua morando na minha biblioteca; representa uma espécie de desafio que, um dia, terei de cumprir em nome da honra. Mesmo que a historia de Tarzan seja conhecida de trás para diante. Tal como aconteceu com a leitura de Mrs Dalloway (1925), de Virginia Woolf – lido tardiamente, mas lido. Quase apenas para tentar decifrar um pouquinho do que as mulheres pensam. A revolução oferecida por Mrs Dalloway, todavia, não é feminista: é estilística. Desenrola-se em um dia na vida da protagonista, Clarissa Dalloway, e tem como cenário o período pós-Primeira Guerra Mundial, na Inglaterra. Trata dos preparativos para uma festa da qual Clarissa é a anfitriã. Artifício literário do qual o escritor gaúcho Dyonélio Machado também lançou mão, uma década depois, com a publicação de Os Ratos (1935) – história nascida de um pesadelo relatado a Dyonélio por sua mãe. A narrativa centra-se no pobre “barnabé” Naziazeno Barbosa, que um dia inteiro perambula pelo centro de Porto Alegre à cata de dinheiro para garantir o leite da recém-nascida cria.

Zéfiro
Nessas incursões “trash”,  descobri muitas leituras que, inconscientemente, formaram  muito de minhas futuras predileções literárias. Lembro, certa vez, de ter encontrado uma intocada coleção de fascículos sobre dinossauros – uma das minhas fascinações da “estação” infância. Noutra achei um inocente livro sobe ioga ilustrado com fotos de iogues contorcendo-se piramidalmente em posições nunca dantes imaginadas em minha inocência de petiz. Em minha cabecinha de guri, achei que aquilo, afinal, era o que tanto chamavam de “sexo”. Na verdade foi uma experiência pra lá de estranha: “Será isso?”, me perguntava com uma interrogação sobrevoando a cuca [naquela época ainda falava-se “cuca”!]. Dúvida que logo foi desfeita quando, numa dessas incursões, deparei-me com os primeiros exemplares de pulp pornografia: havia desde a pornografia “pesada” [para os anos 70, ainda vivia-se sob jugo militar] aos catecismos de Carlos Zéfiro, iniciadores das gerações anteriores “nas artes onanísticas”. Ou mais bonitamente dizendo , na arte de se fazer “justiça com as própria mãos”. Meu pai incluído, provavelmente. Nos anos 60/70 – e nem ainda nos 80’s – “comer alguém” não era bem assim, meus amigos.

Eu era obsessivamente fascinado pelos livros e pelas revistas, não importando o calão: alto ou baixo. Devo à leitura toda minha formação “intelectual”, muito mais do que à faculdade, onde os jornalistas, especialmente os contemporâneos – pelo que se lê nas entrelinhas – poucos, de fato, estão interessados na exigente arte de ler um livro.

Nunca vou esquecer o dia em que minha avó quis se desfazer de todos os volumes de enciclopédica coleção O Tesouro da Juventude [editada de 1920 a 1958, por W. M. Jackson, Inc.]. Obra originalmente britânica,, que, no português de antigamente, assim anunciava-se: 

“Encyclopedia em que se reunem os conhecimentos que todas as pessoas cultas necessitam possuir, offerecendo-os em forma adequada para o proveito e entretimento (sic) dos meninos”.

Antes, eu sempre lia O Tesouro da Juventude quando ia à casa dela, em Caxias do Sul. Para ganhar a coleção, já em Porto Alegre, fui sozinho até sua residência, a pézito, buscar os pesados volumes, carregados “no muque” até minha casa. Conhecimento exige algum esforço, o qual nem sempre é garantido somente às custas da máxima socrática do “sei que nada sei”. 

Minha seção predileta era o “O Livro do Porquês”, que trazia perguntas e respostas para qualquer indagação. Como, por exemplo, esta [no original]: 

Conhece-se alguma especie de matéria que não se encontre na terra?
“Segundo o que o espectroscopio nos revelou, existe no sol um elemento que não se encontra no nosso planeta; foi observado pela primeira vez na parte do sol que se chama a "coroa", dando-se, por isso, o nome de "coronio". Até hoje ainda não se encontrou este elemento em parte alguma da terra. Tambem se descobriu no sol outro elemento conhecido com o nome de "helio", palavra derivada do vocabulario grego "helios" que significa sol; mas alguns anos depois de ter sido observado no sol, esse mesmo elemento foi encontrado na terra, na forma de um mineral muito raro; e, actualmente, sabe-se que o (elemento) radio o produz continuamente. Do mesmo modo que averiguámos que elementos formam o sol, podemos chegar a saber, por meio do estudo da luz que as estrellas emittem, de que se compõem estes astros, situados a tão enorme distancia de nós”.

Não é uma maravilha? 

Quem disse que as gerações passadas não tinham seu  “Google”?

E vou confessar para vocês: a mania de revirar lixeiras é um hábito [obsessão?] que ainda acompanha-me... Minha atual vizinha de prédio, uma gostosa assessora de algum mistério – que é melhor nem comentar –, recebe, aos fins de semana, todas as revistas semanais disponíveis no Brasil e todos os “importantes” jornais em circulação. Leitura, como se sabe, que não é lá grandes coisas. Criei atualmente um novo ritual: toda santa manhã de sábado e de domingo, o porteiro de meu prédio deixa em frente à porta dela um fardo de revistas e periódicos. De meu apartamento posso ouvir a vizinha gostosa agachando seu belo traseiro para recolhê-lo. Espero cerca de uma ou duas horas e vou à lixeira. E é “batata”: lá estará aquele monte de papel ainda recendendo tinta – maior parte deles intocados como a última das virgens.

Voltando à infância, ou melhor, adolescência [revirei lixeiras dos seis ao dezesseis anos], foi numa dessas andanças de piá que achei uma das HQ’s que afetaram muitos a minha “visão gráfica”, por assim dizer – assim como afetou a de toda da juventude reprimida criada nos estertores dos anos 1950. A revistinha chama-se Tales From The Crypt, da EC Comics, que, no Brasil, foi editada como Contos da Cripta.


Para meu completo déjà vu, dia desses o Ciro Marcondes, editor deste site, apareceu-me com uma caprichada edição da HQ, trazida por ele dos Estados Unidos. Robusta, a edição  compila cinco volumes lindamente encadernados e ricamente recoloridos: Tales From The Crypt – The EC Archives – Volume Two [Six Complete Issues 7-12!. Comandada pelo lendário publisher Bill Gaines, Tales... foi originalmente publicada de 1950 a 1955, e inspirou, por exemplo, a televisiva série da HBO. Igualmente afetou dezenas de bandas. Dentre elas, Ramones, The Cramps, Fuzztones e a homônima Tales From The Crypt.  


Nessa edição que me chegou às mãos, há contos clássicos de horror escritos por autores como Al Feldstein e ilustrada por um line-up estelar das história em quadrinhos: Wally Wood, Jack Kamen, Craig Johnny, Al Feldstein, Orlando Joe, Ingels Graham, Jack Davis, John Severin. No total são 24 histórias. O prefácio leva assinatura de Joe Dante, diretor de filmes como Gremlins e Twilight Zone: The Movie, assumidamente fascinado pela obra. Com histórias, em sua maioria, pintadas em um odioso/delicioso horror cotidiano/fantástico, a cada edição a série surpreendia/espantava ao abordar situações das mais bizarras/amedrontadoras imaginadas. Verdadeiro deleite visual e narrativo. Geralmente com um “plot twist” surpreendente ao final de cada conto.


                                                                   TFTC: o filme
Wertham
Mas o fim da revista iniciou-se rapidamente, com a perseguição moral liderada pelo psiquiatra alemão Fredric Wertham, que publicou a obra Seduction of the Innocent [em português, Sedução dos Inocentes], de 1954. O livro tentava desacreditar os leitores com a tese de que as revistas em quadrinhos eram uma “forma ruim” de literatura popular – além de sério estímulo à “delinqüência juvenil”. Seduction of the Innocent   não só causou rebuliço entre os pais norte-americanos como desencadeou uma campanha a favor da censura para esse tipo de publicação. O documentário “embedado” ao final deste texto mostra cenas de Gaines defendendo a Tales From The Crypt no tribunal. O caso repercutiu ao cúmulo de o Congresso Norte-Americano lançar uma investigação cujo foco foi a indústria dos quadrinhos. Logo após a publicação de Seduction..., a EC viu-se obrigada a formular o “Comics Code Authority” ou “Código dos Quadrinhos”, que passou a regular o conteúdo e a autocensurarem-se... Sem o terrorífico “mojo”, nunca mais a revista foi a mesma. Uma lástima que terminou por matar a publicação, a qual sobreviveu na humorística Mad – um grande sucesso até hoje.

A EC foi revolucionária, e poderia ter revolucionado mais se não fosse o livro A Sedução do Inocente, escrito pelo alemão Dr. Fredric Wertham. Foi na Cripta dos anos 1950 que vimos e lemos as melhores histórias de guerra, mistérios, horror e crimes já criadas. Narrativas ousadas e livres do infantilismo pós-Sedução... Contos macabros de humor negro fez da nona arte um terreno fértil com frutos maduros de doces venenos. Nas páginas autores como Graham Ingels, Wally Wood, Jack Davis, Bernard Krigstein e outras feras marcaram uma época, influenciaram gerações de quadrinistas, diretores de cinema e escritores como Frank Miller, Steven Spielberg, Joe Dante, Stephen King e Neil Gaiman.  Às vezes fico pensando o que poderia ter sido dos quadrinhos norte-americanos se Sedução do Inocente não tivesse sido escrito e não tivesse polemizado tantos os quadrinhos como um mal aos seus leitores. Talvez, seria um outro reinado. Não com os super-heróis, mas com inteligência, horror e humor negro”, diz o roteirista e ilustrador Carlos Ferreira – editor da revista independente Picabu,  que também roteirizou para os quadrinhos, entre outras, obras como Os Sertões – A Luta, ilustrado por Rodrigo Rosa.

Zelador da Cripta
Em Tales From The Crypt, as histórias eram inicialmente apresentadas pelo Crypt Keeper [o “Zelador da Cripta”, no Brasil], um velho decrépito e sarcástico que introduzia as histórias e dava uma “moral” ao final de cada conto. Personagem, ao mesmo tempo,  arrepiante e engraçado, que fazia piadas com o trágico e o caótico. Ter o Crypt Keeper apresentando as horripilantes narrativas foi o primeiro passo em direção ao famoso “Estilo EC”. O Crypt Keeper apareceu pela primeira vez na revista Crime Patrol#15 e repetiu a dose na edição seguinte. Logo após, na revista War Against Crime#10, apareceu outro personagem com a mesma função: The Vault Keeper [“O Guardião da Câmara”]. E, mais tarde, um novo ser surgiu das trevas:  The Old Witch [“A Bruxa Velha”], que estreou em The Haunt of Fear. Todos maravilhosamente decrépitos.


Entre junho e novembro de 1991, a Editora Record tentou, essa é a verdade, publicar no Brasil o gibi Tales From the Crypt. Mas apenas sete parcas edições do “Contos da Cripta”, como foi chamado por aqui, viram a luz das bancas de jornais. Guri, consegui comprar somente dois desses números. Esse aqui é um exemplar que se salvou no alfarrábio das relíquias infanto-juvenis. Lançada em dezembro de 1991, a edição traz um conto de psico-ficção científica muito chocante escrito pelo falecido Ray Bradbury. Jackie Davies, Kurtzmann e Frazeta são outros autores que também “exprimiram sangue” na páginas da versão brasileira da Cripta. A tradução do nome dos contos, pelo menos, conservaram o bom-humor original: “Tomo um Banho de Lua, Fico Branco de Pavor”, “Refeição Noturna!”, “Infiltra-Sangue”, “A Rinha”.

Lembro ter lido e folheado o gibi-filho-único dezenas de vezes – e não sem o mesmo calafrio de sempre. Um dos motivos de tanta atração estavam os enredos de suspense na linha soberbamente canônica [e horripilante] do mestre Edgard Allan Poe. Numa das estórias mais impressionantes, após cometer grave crime o bandido fica paranóico com as próprias digitais e, por fim, consigo mesmo [“Caidaço”]. Desabaladamente sai a limpar a cena do crime com igual obsessão do “noiadinho de pedra”. Ele finalmente pira: o crime nunca compensa. Noutro quadrinho, o pobre e desavisado viajante noturno descobre-se numa convenção de... vampiros! Tarde demais.

A única coisa que, na realidade, a Record fez direitinho foi apresentar material antigo da EC Comics no formato “magazine”, seguindo especificações originais da revista. Em sua breve existência, a edição nacional primou por desleixo gráfico, papel de terceira e impressão meia-boquíssima. Não emplacou por falta de capricho. No divertidíssimo site Nostalgia do Terror dá para conhecer todas as edições da Tales From The Crypt saídas no Brasil.  O site conglomera verdadeiro universo paralelo de capas, títulos e editoras, de épocas distintas, e libera, também, download de HQs de artistas da velha e da nova guarda.

Tem, ainda, contos, reportagens e o apavorante “Correio do Terror”. A ilustração deste post é um almadiçoado walpapper. Seria muito legal seria se a Record – ou outra esperta editora – reeditasse a Tales From the Crypt no Brasil. Nem é preciso dizer, com a merecida qualidade. E hoje à noite, antes de ir dormir, não esqueça: dê uma boa olhadinha debaixo da cama!

E nas lixeiras também. Sempre pode haver altas aventuras à sua espera.



A importância histórica e estética dos quadrinhos de guerra: Harvey Kurtzman e Héctor Oesterheld



por Ciro I. Marcondes

Este artigo foi produzido para dois congressos pioneiros na tentativa de amadurecer os estudos universitários sobre histórias em quadrinhos no Brasil. O primeiro deles foi a II Jornada de Romances Gráficos, organizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, que rendeu debates amplos sobre a necessidade de se pensar os quadrinhos no Brasil, participações memoráveis de quadrinistas como Laerte e pesquisadores como Benjamin Picado e Elvira Vigna, além de um texto afetivo da Raio Laser. Os textos do congresso podem ser lidos aqui.

O segundo foram as 1as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, realizadas, em agosto na ECA-USP. De maior porte e maior diversidade temática (foram abordados aspectos múltiplos da história, da indústria, da tecnologia e da estética dos quadrinhos), este encontro foi fundamental para legitimar ainda mais esta opção de pesquisa, fazendo uma varredura espessa na maneira com que a pesquisa científica pode olhar para o fenômeno que são os quadrinhos.

Segue, então, meu artigo completo, publicado nos anais dos dois congressos, expandindo o que eu já havia anunciado em Raio Laser. Boa leitura e comentários são sempre bem-vindos.


1 – Introdução:

O estudo das histórias em quadrinhos (HQ), mesmo dentro de um mais aberto ambiente cultural contemporâneo, ainda precisa enfrentar, em sua revisão histórica, o problema de o meio ter sido abertamente manipulado, através de décadas, para que seu conteúdo se mantivesse sob rigoroso controle de suas potencialidades expressivas. Mais do que isso, outro problema é procurar vasculhar o valor cultural da trajetória das HQs quando é sabido (cf. HADJU, 2009) que elas foram também controladas mercadologicamente e ideologicamente em função de diversos interesses políticos e econômicos, sempre relativizados porque eram “produto para crianças”, álibi perfeito para transformá-las em espécie de subproduto cultural aparentemente sem importância.

Este artigo procura demonstrar que um estudo retrospectivo a respeito da inserção das histórias em quadrinhos na vida cultural do século XX não apenas tem valor para o estudo da produção cultural e social, mas também valor legítimo histórico, sendo influente sobre os eventos que narra, com alguns exemplos de decisiva capacidade crítica, e por fim de influente problematização estética. O universo das guerras modernas tem sido amplamente debatido tanto no âmbito da filosofia quanto da história, da literatura e da sociologia, assim como, obviamente, no cinema e no jornalismo, praticamente desde antes de as grandes guerras terem propriamente eclodido, e uma simultaneidade de questões são levantadas sempre em confluência com o surgimento de mais e mais campos e ambientes de conflito através dos séculos XX e XXI. A inserção da cultura de HQs neste debate, entretanto, é nova por parte tanto de uma revisão histórica, quanto sociocultural, quanto estética.

Cabe, portanto, lembrar um pouco da apropriação que as editoras americanas, nos anos 30 e 40, fizeram da imensa popularidade dos quadrinhos na época, para instilar, mesmo nas mentes infantis, uma noção de total união em torno dos ideais americanos, que transformavam todo tipo de participação civil em um ato em colaboração com a guerra, mesmo em terra natal. Em 1943, após a declaração de guerra americana, mais de 30 milhões de HQs eram vendidas mensalmente nos EUA,  e uma em cada 4 revistas enviadas às tropas americanas eram revistas em quadrinhos (cf. WRIGHT, 2003, p.31). O assédio aos meios de comunicação no final dos anos 30 e começo dos anos 40 coincidiu com a popularização do formato dos quadrinhos em revista, a criação dos super-heróis e de um aumento de camadas sociais, de gênero e de gerações que consumiam as HQs. Super-heróis hoje dominantes na cultura pop, como o Super-Homem, Batman ou Capitão América (criado especialmente com este fim, seguido de vários outros) rapidamente se tornaram emblemas de militarização e conscientização sobre a necessidade de apoiar incondicionalmente a participação americana na guerra. As crianças, inescapavelmente, eram convocados pelos super-heróis a contribuir com a cultura beligerante, mas defensora da democracia:

As editoras também viram que podiam melhorar sua imagem associando os produtos ao patriotismo e ao esforço de guerra. Superman salientou, aos leitores, a importância de doar para Cruz Vermelha Americana. Batman e Robin pediram às crianças para “manter a águia americana voando” através da compra de seguros de guerra e selos. Capitão América e seu ajudante Bucky mostravam aos leitores como coletar papel e metal para reciclagem. Editoras de todo o filão imprimiram um carta aberta do Secretário do Tesouro Henry Morgenthau Jr. pedindo a meninos e meninas que comprassem selos de guerra (Idem, p.34, tradução nossa).


O pesquisador Bradford Wright nos expõe, em Comic book nation, um detalhado histórico sobre como, desde antes do início da guerra e também antes do início dos ataques a Pearl Harbor, a indústria de quadrinhos americana (até hoje as vendas desta época se mostram dentre as mais rentáveis de todos os tempos) estava alinhada em esforços de patriotização, que envolvia grosseira demonização e estereotipagem xenófóbica, claramente conscientes de que uma entrada no conflito era iminente. Numa época em que a TV era ainda muito pouco influente, os esforços nacionais e praticamente unânimes das editoras ajudaram enormemente na tarefa difícil de manter o foco sobre a união nacional e impedir qualquer tipo de relativização pacifista.

O esforço de guerra dos quadrinhos, muito como o esforço político real, não deixou espaço para ambiguidade ou debates na maioria dos assuntos. Diretos, emocionais e ingênuos, os quadrinhos contribuíram para a largamente difundida impressão popular, que ainda persiste, de que a Segunda Guerra foi verdadeiramente uma “guerra boa” (Idem, p.44, tradução nossa).

Nosso estudo se concentrará em dois casos contraculturais e altamente influentes de histórias em quadrinhos de guerra que ajudaram a problematizar a indústria dos quadrinhos nos anos 50. Fundada nos anos 40, a Educational Comics (posteriormente “Entertainment Comics”, ou EC) deu radical guinada na visão americana sobre as HQs, trazendo conteúdo de muito mais verossimilhança, pessimismo e maturidade ao leitor (que já não era tão jovem), provocando a revolta de associações de pais e mestres e das igrejas. Seu reformulador, William M. Gaines, teve de depor à Suprema Corte Americana durante a Guerra Fria, e o legado da EC só pôde ser reconhecido décadas depois. Além de padrões grotescos de terror e ficção-científica, bastante chocantes, a EC ofereceu, através de uma visão arrojada e pós-moderna avant-la-lettre de seu editor, roteirista e desenhista Harvey Kurtzman, alguns dos melhores quadrinhos de guerra de todos os tempos, trazendo uma leitura sombria e niilista da Guerra de Coréia, que ainda estava em curso. Perceptivelmente influenciado por estes quadrinhos, o clássico roteirista argentino Héctor Oesterheld lançou, no final dos anos 50, a série Ernie Pike, de incrível visão humanística afiliada a seu peronismo radical, revisando a segunda guerra mundial como um constante ato fúnebre, de luto eterno, a partir do lápis do desenhista italiano Hugo Pratt.


HQ em um quadro: o monstro de Frank N. Stein tem o cérebro de Hitler?, por Bill Gaines e Bill Elder



Saído de uma edição maltrapilha de MAD (William M. Gaines e Bill Elder, 1953): esta imagem apareceu no meio de uma leitura entusiasmada de uma coletânea de bolso da revista MAD publicada pela novaiorquina Ballatine em 1956 a partir dos originais da EC de 52, 53 e 54. Este poeirento, mofado e fedorento livrinho reúne algumas das melhores histórias da MAD clássica escritas por Bill Gaines, como "Melvin of the apes",  "G.I. Shmoe" e "Little Orphan Melvin", com desenhos de caras legais como John Severin, Wally Wood e o próprio Bill Elder. Me custou a bagatela de 4 reais esse gibi puído e esquecido na prateleira de um sebo. Muito possivelmente, fui a última pessoa que vai lê-lo desde sua longa trajetória quando pertencia à biblioteca da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros (como diz um carimbo na folha de rosto), ou quando passou às mãos de um certo ˜Eduardo˜, que não deixou qualquer outro registro. Digo isso porque, na medida em que fui lendo o gibi, ele foi literalmente se despedaçando, por mais que eu tenha costume de ler livros com cuidado para preservá-los. Primeiro, ele se dividiu ao meio. Depois, uma de suas partes segmentou-se em outras duas (estilo Gremlins), até que as páginas começaram a cair uma a uma, algumas realmente se esfarelando. Death comes to us all, even little books

O humor da MAD original, como se sabe, era paródico e pentelho, e foi uma das primeiras publicações a sacanear pesado com a cultura pop de sua própria época, coisa hoje quase irritantemente lugar-comum (de coisas boas, como South Park, a ruins, como CQC). Incrível que uma concepção completa de humor contemporâneo tenha saído da cabeça de uns 4 ou 5 caras no meio do macartismo americano. Esta história Frank N. Stein é uma das mais divertidas, justamente porque Gaines cria a paródia perfeita do cientista europeu genial, sádico e obcecado. Tudo bem que o Dr. Frankenstein original fosse um personagem suíço. Aqui ele vira um alemão aloprado, de sotaque carregado (chega a ser difícil de entender coisas como "Ja boss! Ja boss! All der time you iss saying, 'Ja boss'! Rause mitt der 'Ja boss', hey vill you?"). Era o início dos anos 50, bem fácil de sacanear alemães.

O quadro em questão é o primeiro em que o monstro de Frank N. Stein, já no final da história, aparece. Ele é diferente porque, no resto todo dela, Gaines coloca uma enormidade de falas malucas e histéricas nas desventuras do Dr. Stein e seu mongol ajudante Bumble em busca do monstro fugitivo. Aqui, o quadro é sem falas e o desenho diz tudo, sem mencionar a palavra "Hitler" uma vez sequer. O mistério todo se dava porque Bumble havia acidentalmente roubado um cérebro "horripilante, que deveria ser destruído imediatamente" e colocado no monstro. Elder vai desenhando o jeito histriônico desses personagens sempre com o detalhismo cômico dos college comics e cheio de easter eggs de cultura pop, paródias estilísticas, movimentos legais de aproximação, enfim, uma beleza. Quando eles finalmente acham o monstro, este quadro da criatura com bigodinho nos surpreende tanto quanto aos soldados americanos que o caçam. Porém, a coisa fica ainda mais aloprada quando o monstro simplesmente bate os braços e levanta voo, piando sem parar. O dono original do cérebro então chega e diz que aquilo pertencia a um passarinho. Como se vê, Gaines já tinha a sacação de parodiar o nazismo e ao mesmo tempo o estereótipo da crítica ao nazismo numa mesma história.  Pena que um humor tão fino e burlesco como esse esteja mais em quadrinhos esfarelados e que deram perda total como esse meu gibi do que nesses webcomics cínicos e sem qualquer sutileza de hoje em dia. (CIM)