Sobrevoo na cena de HQs chilenas

Sobrevoo na cena de HQs chilenas

Recentemente transferido para Santiago por motivos de trabalho, não demorei muito para começar a procurar por quadrinhos chilenos. A esse respeito, posso dizer que já me senti bem-vindo logo na chegada. Afinal, a casa que alugamos para passar os primeiros dias tinha uma pequena coleção de Condorito, personagem marcante para a nona arte local e que já arrebata leitores novos e adultos desde 1949. Antes de continuar, é importante dizer que o colaborador da Raio Laser Gustavo Trevisolli já havia feito, em 2012, um panorama da HQ do país sul-americano. Minha intenção, portanto, será a de complementar o texto anterior, tentando informar como está a situação hoje. Você poderá ler o primeiro artigo aqui. De quebra ainda vou inserir, no final, pequenas resenhas com alguns gibis chilenos que me chamaram a atenção.

A primeira parte de minha busca por quadrinhos levou-me às bancas da capital, mas o resultado mostrou-se desapontador. Em primeiro lugar, este tipo de negócio mostra-se bastante decadente e as revistas parecem artigos em extinção. Percebi que gêneros alimentícios de segunda e brinquedos mixurucas gradualmente empurram publicações impressas para escanteio. Houve, inclusive, uma banca que estava mais para quitanda de frutas que para vendedora de revistas e jornais. É, pelo visto não é só no Brasil que as bancas estão diversificando as mercadorias oferecidas, numa clara desvantagem para o público leitor, grande perdedor do embate entre os fornecedores de produtos para quiosques e bancas. Nas de Santiago, quando aparece alguma coisa, é basicamente material estrangeiro traduzido para o espanhol, como super-heróis Marvel e Star Wars. Além disso dá para encontrar o incontornável Condorito e algumas edições de Hagar, o Horrível. Em suma, muito pouco.

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Três dias em Hicksville: cobertura do FIQ!

por Lima Neto

Prólogo -  Hicksville: uma pequena resenha

Há alguns meses atrás chegou às minhas mãos a graphic novel Hicksville, de Dylan Horrocks. Não conhecia a revista ou seu autor com profundidade e a comprei baseado num burburinho difuso que a fazia se destacar um pouco dentre as outras possibilidades de compra, além da bela capa um tanto Jayme Hernandez. 

Hicksville é um mistério. Acompanhamos o jornalista especializado em quadrinhos Leonard Batts a uma jornada pelos confins da Nova Zelândia em busca de elementos para escrever a biografia definitiva de um astro fictício dos quadrinhos contemporâneos chamado Dick Burguer. Sua busca o leva à pequena cidade de Hicksville, localizada “no cu do hemisfério sul”, uma espécie de Twin Peaks onde todos os habitantes – do banqueiro ao zelador – são apreciadores, críticos e potenciais criadores de histórias em quadrinhos. A investigação de Batts não é fácil. Tudo que ele descobre é que toda a cidade odeia Burguer e suas criações e que ninguém vai revelar nada relacionado a este ódio... e que café não é uma bebida popular na Nova Zelândia. 

No clímax da história, em uma festa comunitária anual chamada Hogan's Alley Party (para aqueles que não são nativos da cidade, Hogan's Alley é o nome da tira que apresentou ao mundo o Menino Amarelo e consolidou as páginas dominicais como um sucesso da imprensa do final do século XIX), vemos toda a comunidade da cidade fantasiada de seus personagens de quadrinhos preferidos. São tantas referências visuais, mundiais e específicas da Nova Zelândia, que a sensação é inebriante: Capitão Haddock, Fu Manchu, Mestre do Kung Fu, Ferdinando, Terry de Terry e os Piratas, etc. Esta festa é o ápice de uma sensação de valorização superlativa das HQs que emana de todas as páginas de Hicksville

Dick Burguer é um mega astro de Hollywood graças às adaptações milionárias de seus quadrinhos para o cinema. A revista para a qual o repórter Batts trabalha paga uma viagem ao outro lado do mundo para construir um perfil de um quadrinista. A mágoa envolvida em torno do que aconteceu na cidade e sua estrela internacional é tão intensa que a sensação que se tem é que o mundo gira em torno das histórias em quadrinhos. E esta sensação é o dado mais fantástico da trama. É o elemento que quebra com o realismo das interações entre os personagens e a cidade. Totalmente irreal...

...ou será que não?

FIQ 2015

Este texto é um levantamento do Festival Internacional de Quadrinhos 2015, ocorrido entre os dias 11 e 15 de Novembro. Um levantamento bem pessoal, deixando claro, pois cheguei a Belo Horizonte somente no dia 13, sexta-feira. Mas a ideia é bem por ai. Estas linhas não pretendem ser um substituto da experiência de participar do FIQ. Muito pelo contrário, elas vão mostrar um pequeno diário que busca expor a sensação de que, por alguns dias, eu estive em Hicksville. E lá sempre é uma festa. 

Dia 13 de Novembro

Uma semana de poucas horas de sono não tiraram a excitação de que nos próximos três dias eu iria respirar quadrinhos, ou pelo menos mais quadrinhos do que eu já respiro normalmente. A chegada é aquele ritual apressado – guarda mala, toma banho, almoça e vai pra Serralheria Souza Pinto, o tradicional espaço físico onde ocorre o evento. A própria localização do lugar já é peculiar: um enorme galpão no centro-sul de Belo Horizonte, embaixo de um viaduto que também serve de área de lazer e sempre ocupado aos sábados pelo pessoal do Hip Hop. Logo ao lado da Serralheria está o Parque Municipal Américo Renne Gianetti, um dos parques mais bonitos que eu já vi com uma vastidão de árvores que compõem um ambiente bucólico, porém não livre dos problemas sociais que estão presentes na maioria dos grandes centros: uma comunidade de cidadãos dependentes de entorpecentes que tomam as ruas e becos sem o alento de nenhum cuidado social, apenas obedecendo ao contrato implícito de que, se não mexerem com a população, estarão salvaguardados de intervenção policial. Todo o centro de Belo Horizonte refletia esta descrição, o que ajuda sempre a lembrar à multidão de apreciadores de quadrinhos o verdadeiro significado de “sarjeta”. Como evento de quadrinhos, o FIQ se posiciona lado a lado com um “underground” de Belo Horizonte, refletindo sua relação com as possibilidades subversivas do meio, mas sempre como um potencial de integração e não segregacionista. É muito significativo que o FIQ ocorra neste lugar. 

Diferente de edições anteriores, a versão 2015 parecia um pouquinho menor. Não havia uma área de salas de aula onde ocorriam as oficinas bem no meio do saguão principal, e também faltava o diário do FIQ, publicação que resumia os acontecidos do dia anterior. Mesmo assim a sensação é de finalmente estar em casa, reencontrar os amigos. A falta de uma área de salas abria espaço para mais mesas de artistas, e ainda era pouco. Foram mais de 200 lançamentos, muito mais do que qualquer orçamento poderia acompanhar. Apliquei então uma metodologia simples: apenas iria meter a mão no bolso depois que visse todas as bancas e mesas de lançamentos. Olharia tudo com calma e tirei uma fotografia das publicações que me pareciam interessantes. A tarefa não foi tão fácil quanto parece. No final do primeiro dia, registrei apenas uma parede e meia de mesas de artistas e standes de editoras. 

Chaykin e Mike McKone

Este FIQ 2015 teve como tema principal o papel da mulher nos quadrinhos. Longe de ser recente, esta discussão encontra eco na quantidade enorme de mulheres com lançamentos programados. Não por acaso, as palestas e a escolha dos convidados eram reflexo deste tema. Cada vez mais as HQs vêm perdendo seu papel de entretenimento masculino adolescente para se assumir com arena de discussão e atuação das minorias. Gail Simone, Babs Tar, Marcelo D'Salete, Jen Wang, Marguerite Abouet e até mesmo Howard Chaykin, cada autor tinha um discurso a expressar e buscar repercussão na imensa quantidade de visitantes. Seja através do tema principal, o  feminismo, seja passando pelas minorias étnicas, raciais e sexuais, até à sempre urgente necessidade de aceitação seus apetites sexuais (sim, estou me referindo a Chaykin). 

Um fanboy e Howard Chaykin

Neste meu primeiro dia ocorreu a palestra com Howard Chaykin no auditório do evento (batizado de  Mateus Gandara como uma emocionante lembrança desse artista que carregava todo mundo com sua ferrenha empolgação). Bem-humorado, Chaykin interpretava um papel pouco visto entre os artistas norte-americanos: longe de ser simpático, o autor de American Flagg era provocador e carismático. Sempre com um “fuck” no discurso, o que acabava atraindo a atenção dos olhares para o tradutor de libras tentando descobrir quais eram os gestos correspondentes ao palavrão, Chaykin atirava para todos os lados. Ofendia alguns fãs de maneira jocosa, destratava a industria dos EUA e resmungava pelo fato de seu traço não ser mais apreciado nos quadrinhos de hoje. Howard Chaykin estava se sentindo bem à vontade. Fez uma pequena biografia onde revelava as origens precoces de suas experiências sexuais (achou quando muito pequeno uma caixa de revistas pornográficas - “não eram do tipo Playboy” - que construíram sua sexualidade) e revelou os interesses fashionistas muito presentes em seu trabalho dos anos 80. Chaykin soava como um dos personagens amargurados de Hicksville. Entretanto, esta amargura não escondia sua felicidade por estar lá. Como ele próprio disse, “nada me deixa mais feliz do que ser reconhecido e respeitado." 

Jeff Smith!

Cheguei ainda a tempo de conseguir um autógrafo do autor de Bone, Jeff Smith. Aguentar uma fila de 40 minutos para conseguir um autógrafo é, para muitos, muito mais uma chance de trocar alguns dedos de prosa com um artista que você admira do que agregar valor a quadrinhos que podem ser revendidos. Esse aspecto é muito valorizado pelos artistas internacionais, e eles consideram o público brasileiro muito mais como carente de atenção do que como mercenários profissionais caçadores de autógrafos. 

Mas é de noite que a sensação de estar em um mundo paralelo em que todos leem quadrinhos se acentua. Neste lado B da sexta-feira de FIQ, fomos todos a um complexo de bares no centro da cidade, bem próximo do local do evento, apelidado de “maleta”. É nesta outra mesa redonda que as conversas se aprofundam. Artistas famosos, estrelas internacionais, críticos e estudiosos das HQ´s, todos se acotovelam entre as mesas para comemorar e relaxar. Bebi e conversei com gente como Evandro Esfolando – autor de quadrinhos e divulgador das HQs e do rock nas escolas públicas do DF; Dandara Palankof – amiga íntima, tradutora da Mythos e ex-editora da HQM, responsável por retornar a publicação de Strangers in Paradise no Brasil (mesmo que por um breve período); Márcio Júnior – Pesquisador dos quadrinhos e vocalista da banda Mechanics de Goiânia, publicou recentemente o livro COMICZZZT! Rock e Quadrinhos: possibilidades de interface; Daniel Lopes – um dos editores da DC Comics no Brasil e atuante nos vídeocasts do site Pipoca e Nanquim; Paulo Floro – Jornalista da revista O Grito! Marcos Maciel – fundador da Kingdom Comics. Todos com os pulmões devidamente hiperventilados de histórias em quadrinhos. 

O livro de Márcio Júnior

A conversa variava entre comentários sobre os lançamentos, levantamentos sobre os eventos e troca de experiências editoriais, isso sem contar o saudável papo furado que fazia de todos seres humanos normais. Destaco dentre as conversas o acalorado e um tanto deprimente bate-papo com Márcio Jr. e sua realista visão do mercado. Para Márcio, se as editoras estão trabalhando com tiragens de 1000  exemplares, isso quer dizer que existem apenas 1000 leitores de quadrinhos no Brasil inteiro e que um evento como o FIQ, por mais festivo que seja, é uma reunião de todos esses leitores para trocar gibis que eles mesmos produzem entre si. Difícil não ver um pouco de verdade neste ponto de vista, e muito fácil esquecê-lo ao se colocar a cabeça no travesseiro às 4 da manhã sabendo que vai acordar daqui a 4 horas para mais festa.

Dia 14 de Novembro

O sábado marcava 38 graus nos termômetros e, no dia mais cheio de FIQ, a temperatura parecia o triplo! O calor só dava para aguentar com os din-dins (ou chup-chups, ou sacolés, etc...) de fruta que eram vendidos no evento. Salvaram minha vida e de muitos outros habitantes da vila dos quadrinhos. Outra possibilidade de salvamento era a área de descanso localizada na frente do auditório, devidamente mobiliada com pufs, bancos e muito ar condicionado. 

Este sábado de FIQ foi o mais cheio por diversos motivos, mas o principal deles foi a presença de

Maurício de Souza

. Com a intenção de celebrar e divulgar seu bem sucedido projeto de Graphic Novels, o pai da Mônica e do Cebolinha não apenas compareceu, como teve a mesa de autógrafos mais cobiçada de todo o evento! Crianças se espremiam, adultos choravam, jovens admiravam a longevidade deste polêmico criador que aparentava a fragilidade de seus oitenta anos. Entretanto, de todos os eventos que ocorreram neste dia, apenas consegui assistir a uma palestra – a entrevista com a americana autora da graphic Koko Be Good, Jan Wang. A entrevista foi mediada por outra quadrinista que merece atenção: Lu Cafaggi – cujo belo  e vaporoso traço deu um rosto para todo o evento. Lu se destacou junto com seu irmão - Vittor Cafaggi – pela produção do primeiro álbum da Graphic MSP, intitulado Laços, e que teve também uma continuação recente.

A razão de eu não conseguir participar das palestras foi a continuação da saga logística de visitar todos os estandes e mesas de artistas antes de comprar qualquer coisa. A essa altura, já previa que alguns lançamentos se esgotariam antes que eu terminasse e por isso concebi um plano para adiantar o processo: eu iria pular toda banca que vendesse prints de Guerra nas Estrelas ou cujo trabalho fosse um quadrinho de zumbi. Isso garantiu que no domingo, o último dia, eu já pudesse ir atrás do que eu iria comprar após realizar um verdadeiro tetris monetário em que encaixava a intenção de compra com a realidade orçamentária. Mas o domingo não viria antes de mais uma rodada de cerveja no “maleta”, novamente acompanhado dos amigos e rodeado das celebridades dos quadrinhos... surreal descreve bem o sentimento.

Dia 15 de Novembro

Levemente de ressaca e já com um cheirinho de saudade no ar. É assim que se inicia o dia 15 de Novembro, o último do FIQ. E ele teve a temperatura um pouco mais amena e a quantidade menor de pessoas dava uma agrádavel sensação de conforto. Dei início às compras com o novo (e lindo) álbum de Lélis, Goela Negra, publicado pela editora Mino - e corri pra que ele assinasse sua obra com uma de suas miniaturas de aquarelas. O processo está filmado e poderá ser visto em breve aqui na Raio Laser. De Lélis passei para a mesa de Marcelo D´Salete, onde comprei seu último livro, Cumbe, e levei para assinar, bater um papo e observar o pincel seco do autor construir sua arte em seu peculiar traço sujo e direto. O combo de autógrafos termina com o paraibano Shiko, um dos autores com mais quadrinhos circulando pelo evento. Da sessão de autógrafo no stand da Mino, eu saí com quatro títulos deste desenhista de traço belo e formalista, porém de alma agressiva e explícita. Após a sessão, dei prosseguimento às aquisições escolhidas após o levantamento extenso dos dias anteriores. Mais na frente vamos publicando resenhas desse material, mas pela foto dá pra se ter uma ideia do espírito da coisa. 

Shiko

O domingo fecha com a aguardada mesa redonda da escritora Gail Simone. Em sua palestra ela fala de sua experiência ao sair do salão de beleza em que trabalhava para sua seção de crítica e humor no site Comic Book Resources, e como virou uma das escritoras proeminentes do feminismo dentro da indústria dos quadrinhos. Seu blog intitulado “Women in refrigerators” se tornou sinônimo da denúncia da utilização instrumental das personagens femininas a favor do protagonista masculino dentro das grandes editoras e sua passagem por títulos como “Birds of Prey”, “DeadPool”, “Secret Six”, “Wonder Woman” e “Batgirl” a transformou em uma estrela conhecida por seu estilo bem humorado e atual (mesmo que bastante formalmente convencional, na opinião pessoal deste narrador). 

Gail Simone

Mesmo não tendo acompanhado todo o evento, não foi difícil perceber como a temática se desenvolveu em suas mesas redondas e atrações. A sexualidade livre e prazerosa de Chaykin não passa muito longe da liberdade feminista de Simone, ou da presença maciça de novos rostos de diferentes nacionalidades, todos buscando seu espaço nesta mídia que há muito deixou de ser de massa, mas que ainda tem frescor o suficiente para se reinventar para o futuro. No fim das contas, o FIQ não deixa de ser um refúgio, uma ilha em que se reúnem os últimos sacerdotes de uma religião em franco processo de esquecimento. Porém, como em Hicksville, as pessoas responsáveis por resguardar estas histórias e a maneira de contá-las vão cumprir seu dever com prazer e partilhando de um sentido comunitário em torno das HQs que vai contra este movimento consumista internacional onde todo o fluxo do desejo é transferido para uma megacorporação midiática. Enquanto houver FIQ, haverá pequenas publicações e um público caridoso para consumi-las. Como em Hicksville, o FIQ é uma cidade pequenina onde todos leem gibis. Onde todos partilham de uma ligação afetiva com a narrativa de imagens reprodutíveis – dos clássicos obscuros do início do século XX até os super-heróis que assolam todos os países. Somos todos consumidores e guardiões dessas histórias. 

Se você gosta de quadrinhos, de todo gênero, não deixe de visitar o FIQ pelo menos uma vez na vida! Com certeza você vai achar algum bairro nessas ruas apertadas e abarrotadas de gibis onde vai se sentir tão em casa que seu peito dói quando termina. 

Eu irei em todos!

Até o próximo FIQ! 

A fortaleza dos quadrinhos

por Pedro Brandt

Qualquer colecionador de quadrinhos que se preze frequenta – ou em algum momento da vida frequentou – bancas e livrarias que vendem revistas usadas. É nesses estabelecimentos, popularmente conhecidos como sebos, que o leitor tem a chance de encontrar não apenas aquele quadrinho há muito tempo procurado, mas também conhecer outros tantos que, não fosse a visita a esses locais, provavelmente jamais saberia da existência.

Em tempos de Internet, a compra de quadrinhos ficou muito mais fácil. Achar um gibi antigo, raro, ou mesmo a edição do mês anterior está ao alcance de alguns cliques. Mas num passado não muito distante, “garimpar” revistas nos sebos era a alternativa mais viável. Para não dizer a única. Não foram poucas as surpresas que encontrei nesses lugares, as pechinchas pagas, as trocas honestas.

Uma banca, em especial, tem lugar cativo na minha memória afetiva da pré-adolescência. Localizada na quadra 511 Sul (Brasília), entre uma loja de materiais de construção e uma tradicional loja de colchões, a Banca Fortaleza foi, durante muito tempo, uma das principais referências na cidade para se comprar e trocar revistas.

A Fortal, hoje

A Fortal, como eu e meus amigos a apelidamos, era dividida em três partes: do lado direito ficavam os livrinhos de romance tipo Sabrina, Julia, etc., do lado esquerdo, os quadrinhos e, ao fundo, as revistas de mulher pelada (muita Playboy, Sexy, a saudosa Ele & Ela e, eventualmente, até as vintage Homem e Status).

Eu estudava perto da Fortaleza e quando ia a pé ou de ônibus para a colégio era inevitável dar uma passada na banca. Naquela época, completar uma coleção era mais do que ler todas as histórias, era um investimento: ingenuamente, eu e meus amigos pensávamos que algum dia aquelas revistas, especialmente as coleções completas, valeriam uma pequena fortuna.

A Fortal era uma banca poeirenta, com pouca iluminação, e, geralmente, bagunçada. Vi baratas entre os gibis algumas vezes. Mera formalidade. Sujar as mãos é parte da garimpagem. O grande lance – pelo menos para mim sempre foi – era entrar ali sem saber o que poderia ser encontrado. A surpresa do tesouro é parte da graça. Foi assim, quase por acaso, que comprei uma edição encadernada de

Batman – O cavaleiro das trevas por módicos R$ 3. E por menos do que isso, incontáveis Heróis da TV, Super Aventuras Marvel, X-Men, Wolverine, Homem-Aranha, DC 2000, Liga da Justiça, Crypta, Ken Parker, Monstro do Pântano, Lobo Solitário, minisséries, edições especiais...

Não achar nada também era comum. Aliás, mais comum do que achar alguma coisa interessante.

Tive a sorte de começar a frequentar a Fortaleza antes de um “acontecimento” que mudaria a forma como o comércio de quadrinhos era praticado no Brasil até então: a chegada, em 1996, da versão brasileira da revista americana Wizard. Quem leu a revista, tanto a gringa, quanto a nacional, deve se lembrar que, além de entrevistas, matérias e resenhas sobre o universo dos quadrinhos, ela também publicava um guia de preços de revistas. Isso fez com que os sebos abrissem os olhos para um potencial até então desconhecido e aumentassem os preços. Isso numa época em que com R$ 10 você comprava pelo menos três revistas em quadrinhos novas.

O interior da Papil

À medida que fui conseguindo os quadrinhos que queria, o acervo da Fortaleza, só renovado sazonalmente (eles vendiam basicamente comics dos anos 80 e 90), foi me afastando de lá. 

Por anos, passei ali, de carro, e pensei em fazer uma visita. E foi numa dessas ocasiões que vi a banca fechada e... chamuscada. A Fortaleza tinha pegado fogo. Fiquei imaginando os super-heróis, as musas desnudas e as mocinhas românticas, todos apertados dentro daquela lata de sardinha gigantesca, desesperados enquanto o fogo consumia as páginas que habitavam. Teria sido um ato de vandalismo? Um acidente? Um incêndio proposital para conseguir o dinheiro do seguro? Ou a Fortaleza nunca pegou fogo e a banca em chamas foi apenas um sonho?

Não foi, como me confirmou Carlos, o homem atualmente por trás do balcão da Fortaleza, quando estive lá, este ano. Em março deste ano, fui até lá perguntar. A banca realmente pegou fogo – não se sabe a causa do incêndio – há alguns anos e ficou muito tempo fechada até reabrir. Carlos me contou que a Fortaleza é uma das bancas mais antigas de Brasília e foi “fundada” há quase 50 anos por seu pai, Seu Antônio, falecido recentemente. A Fortaleza pós-incêndio é igual à sua versão anterior. Provavelmente, mais bagunçada.

A Papil, hoje

Perto dali, mais especificamente na quadra 512 Sul, encontra-se uma outra banca de usados. O vendedor, Romeu, é o mesmo cara que trabalhava na Fortaleza das antigas, da época em que eu a frequentava. Resolvi puxar conversa. Ele me explicou que é dono da Papil, como se chama a banca dele. A Papil tem poucos quadrinhos. Curiosamente, também tem pouco de seu antigo carro-chefe, as revistas de mulher pelada. Tem sim, um pouco de tudo, entre livros, revistas de todos os tipos, DVDs e também discos de vinil. Bagunçada, claro. Mas os preços, ainda bastante convidativos. Procurei, mas não achei nada que eu quisesse. Como tantas outras vezes ali (ou quase ali). Saí de mãos abanando. Por um instante, tive 13 anos outras vez.

Romeu@Papil

A influência dos gibis na minha paixão pelos livros e outras histórias




Volta e meia, nós da Raio Laser pedimos para amigos nossos escreverem sobre suas experiências como leitores de quadrinhos. A maioria não topa o desafio. A justificativa para a negativa seria um pretenso pequeno conhecimento sobre o universo das HQs. Insistimos dizendo que nesses casos não procuramos textos de especialistas, também nos interessa saber o que pensa o leitor comum, aquela pessoa que já leu quadrinhos mas não tem uma relação tão próxima, intenção ou aprofundada sobre o assunto. Queremos conhecer as memórias afetivas, as impressões instantâneas, os causos pitorescos. O primeiro amigo a topar a empreitada foi nômade bon vivant Leonardo Messias. O segundo é o jornalista brasiliense (anapolino de nascimento) Lúcio Flávio Silva. Apreciador do bom rock e do bom cinema, Lúcio edita um blog muito bacana no qual fala de suas paixões e expurga alguns demônios. Tudo de maneira bastante despojada e pessoal, por vezes bastante intimista, sempre com contornos interessantes e dicas valiosas. No texto a seguir, Lúcio Flávio comenta como os gibis lidos na infância serviram para ele de ponta para a literatura e ainda revela como esse contato germinou uma eterna simpatia pelos quadrinhos. (PB)

por Lúcio Flávio Silva

Houve um tempo, em algum lugar da minha infância, que os sábados não eram apenas dias santos, mas um estado de espírito mágico materializado em nossas visitas à banca de revista mais próxima de casa naqueles passeios matinais com papai. O coroa, sempre protegido do sol com sua boina estilo Pablo Neruda, trazia debaixo do braço a feira do dia e o jornal da semana, enquanto que eu e meu irmão gêmeo nos deliciávamos com os gibis de nossa predileção que ele comprava. E assim, mês a mês, nossa coleção ia aumentando consideravelmente. 

Bem, digam o que quiserem sobre os malefícios da leitura de quadrinhos, da má influência de Walt Disney sobre várias gerações, de milhares de bobagens do tipo. Mas o fato é que, bem antes de Monteiro Lobato e coisas do gênero, aprendi a gostar de ler mesmo foi com Pato Donald e o Mickey Mouse, Tio Patinhas e os seus sobrinhos, com a turma da Luluzinha e claro, com o Maurício de Sousa e seus personagens marcantes.



E, mesmo que não soubéssemos ainda, de uma forma ou de outra, estava tudo lá, nas entrelinhas lúdicas dos quadrinhos, influências de um Molière, das aventuras de Alexandre Dumas, dos desafios científicos de Júlio Verne e H. G. Wells, do submundo das tramas policiais delineadas pela narrativa elegante dos escritores Dashiell Hammett e Raymond Chandler e, veja só, até mesmo Shakespeare. Sim, ou você acha que personagens como o avarento Tio Patinhas e seus corajosos mosqueteiros Huguinho, Luizinho e Zezinho, assim como o inventivo Professor Pardal e os mal-intencionados irmãos Metralhas, entre outros, surgiram de onde?

Como diria o velho poeta maranhense Ferreira Gullar, citando a influência da obra de Le Corbusier no trabalho de Oscar Niemeyer: “Na cultura, assim como na vida, tudo é herança e transformação”.

E dos gibis da turma da Disney, da Luluzinha e da Mônica para os livros de Monteiro Lobato e outros clássicos da literatura infanto-juvenil comAlice no país das maravilhas, O pequeno príncipe, O menino do dedo verde, Meu pé de laranja-lima, entre outros, foi um pulo. Contudo, ainda perduram em algum lugar de minhas recordações infanto-juvenis, aquelas tardes gostosas de sábado e domingo com cheiro de café quente e petas da minha mãe, misturados com as páginas surradas dos meus gibis. Pilhas e mais pilhas de gibis que não sei onde foram parar depois.

Fragmentos de algumas dessas leituras até hoje pairam em meu inconsciente fosse pelo forte caráter social, político ou existencial, embora na época eu estivesse longe de saber o que significava essas coisas todas. Não me esqueço, por exemplo, de uma crítica à ganância e ao capitalismo desenfreado num episódio em que, na medida em que o Pato Donald ia subindo de status numa empresa, seu espaço no estacionamento acompanhava o bem sucedido desempenho profissional dele, simbolizado pelo materialismo. Assim, logo, logo aquela reles e sucateada bicicleta de entregador que ele pedalava no início da história, para cima e para baixo, era substituída por um carro mais aconchegante, e mais outro e outro, até chegar a uma lustrosa limusine.

Numa história do Maurício de Sousa, um personagem vive em agonia com o latente medo de tudo que sente. De não conseguir emprego, de andar sozinho pela rua, de não conseguir ser alguém na vida, de ficar doente, enfim, de morrer. Um dia, a Morte, em osso puro, lhe faz uma visita e o leva embora para o além-mundo e lá está ele a sete palmos do chão, para desespero da Senhora Foice, reclamando do medo de ressuscitar. E olha que estamos falando de um singelo quadrinho de Maurício de Sousa. Mais barra pesada impossível.

Daí veio a fase dos super-heróis e era um tal de barganhar gibis do Homem-Aranha, Super-Homem, Capitão América, Hulk, Homem de Ferro, e claro, Batman, meu preferido, com os colegas do colégio. Além de economizar uma grana, valia pela troca de experiências sensoriais e impressões afetivas de cada um.

Lembro que dessa fase, o maior ato de rebeldia ou quem sabe coragem que cometi foi chegar em casa um dia, para desespero da minha mãe, com uma revista do Conan, o Bárbaro enrolada sorrateiramente debaixo da camisa. Tudo isso para a coroa não se assustar com os traços sensuais das personagens baseadas na literatura de Robert E. Howard e as musas do crimeriano cheias de desejos. Um estratagema usado por pura vergonha que não funcionou, mas que com certeza, foi uma experiência bem menos traumática do que eu me decepcionar com a silhueta do bárbaro nos quadrinhos. Sim, porque eu não me conformava com o fato do personagem criado nos anos 70, não ter a cara do Arnold Schwarzenegger das telonas. Fazer o quê, como disse os meninos dos Stones, a gente nem sempre consegue tudo o que quer.


Nos últimos anos, motivado por experiências amorosas frustradas e momentos familiares mágicos, tenho me dedicado, não sei por que, com mais afinco, à leitura de clássicos como Calvin e Hobbes, Snoopy, Tintim e Malfada, esse último o predileto lá de casa, dividido entre tapas com minha sobrinha-afilhada. Não há como não se encantar com a urgente ingenuidade da menina Mafalda.

Bom, tenho muitos amigos que são profundo conhecedores de quadrinhos por aí, verdadeiras bibliotecas e enciclopédias ambulantes sobre o assunto e às vezes, me envergonho e sinto constrangido de não ter o conhecimento que eles têm no seguimento, com as observações sofisticadas e perspicazes sobre mangás, autores conceituados no gênero como um Robert Crumb ou Will Eisner e tantos outros. De modo que só me resta uma grande admiração pela turma.

* Este texto foi escrito ao som de: Out here e Roadmaster (Love/1969 – Gene Clark/1972)

Quadrinhos ou romances gráficos?


Quem debuta por aqui hoje é, com enorme satisfação (nossa), o Thomaz Simões, professor de História da Arte, altamente qualificado, e que mesmo assim escreveu a mais surpreendente crônica sobre os quadrinhos... E ele se apresenta:

Hoje professor, foi graças aos quadrinhos que acabei tomando gosto por desenho e leitura. Me formei arquiteto, fiz mestrado em História da Cultura, em breve começo um doutorado em Antropologia Social... Um dia, em algum lugar, me encontro (espero que tenha quadrinhos por lá).

por Thomaz Simões

“Romance gráfico”?... Fico na dúvida se respondo – monossilabicamente, ou melhor, quadrinisticamente – : “sei não” ou “putz!”...

Sei que deveria ficar feliz com esse reconhecimento dos quadrinhos como Arte, mas... sei não. É que no fundo não ligo. Isso vem lá da minha adolescência e, por isso mesmo, é digno de nota: perdido, “sem pai nem mãe” no tiroteio da fase, consumia, colecionava, quilos de “gibis” sem peso na consciência de estar sendo infantil...

Certa vez, para a incredulidade do meu pai, pedi que enviasse uma carta com “perguntas ao editor”, dúvidas sobre detalhes quase insignificantes detectados no meio das histórias (vinham muitas vezes de notas de rodapé – marcadas com asterisco – com referências a números ou personagens antigos), resumindo: qualquer sombra de cultura quadrinística que me faltasse eu ia atrás.
           
Pleno sol de subúrbio carioca, lá ia eu me embrenhar em sebos, quero dizer, bancas velhas e falidas (que, para mim, desempenhavam a mais nobre das funções sociais) procurando os números perdidos. Demolidores de Miller e Mazzucchelli, Ligas da Justiça de Giffen-DeMatteis-Maguire (depois Hughes), Justiceiros de Potts e Lee... Bons tempos.


Pois bem, plena adolescência... de onde vinha toda essa segurança? (Olha que eu era dos mais tímidos, daqueles que dava graças a Deus por ter alguns poucos amigos que aceitavam, ou não percebiam, minhas esquisitices.) A resposta só deve surpreender a quem não é do meio: ora, vinha dos próprios quadrinhos! Eles valiam a pena. Eram a melhor coisa que havia.
           
Meus heróis, vejam bem, não eram exatamente os personagens a ou b, mas os personagens a ou b escritos e desenhados por x e y. Eram sensacionais. (Imaginem minha satisfação quando, tempos depois, encontrei uma história do Ken Parker em que aparecem Berardi e Milazzo. Simplesmente genial.)


Vamos colocar as coisas nos seguintes termos: se havia muitos que ridicularizavam os quadrinhos, o problema para mim não era o que eles achavam dos quadrinhos, e sim o que os quadrinhos achariam deles. Aqui retomo meu ponto inicial: “Romance gráfico”? Putz!

No meu tempo graphic novel denotava simplesmente trabalhos esporádicos, mais cuidadosos e, sobretudo, mais caros. Eram uma festa para olhos acostumados a papel jornal, mas de forma alguma outro patamar de qualidade. Afinal eram os mesmos autores, apenas, vamos dizer, mais maquiados. Vem daí minha desconfiança. Os quadrinhos nunca precisaram desse tipo de reconhecimento, ou mesmo, arrisco dizer, sempre desdenharam dessa tendência esnobe. Sua “arte” surge em meio a um turbilhão de aventuras repetitivas, anestésicas, após muito suor inútil, – como que por acaso.


E para quem costuma opor quadrinhos à “alta cultura”, deixo aqui o registro de uma aventura da LJA na Rússia (antiga União Soviética...): Sobrevoando aquelas paisagens brancas sem fim, rumo ao combate contra um trio de extraterrestres (que, pacifisticamente, queria salvar a Terra das armas atômicas), o sátiro Besouro Azul comenta com Canário Negro:

– Já leu Os Irmãos Karamázov?
– Duas vezes.
– Eu três...  BOOM! (A nave é interceptada.)

Nem preciso dizer que só depois disso me interessei por Dostoiévski. 

Será Ba-Ba-Barbarella??


por Pedro Brandt

Acho que não é só na banca pertinho da minha casa, mas em várias outras já constatei que a seção de revistas pornô fica muito próxima da seção de quadrinhos. Será que os funcionários acham que o público é o mesmo? Vai saber...

O fato é que, não fosse por essa “coincidência”, eu não teria levado para casa uma edição de Quadrinhos Super Eróticos. Não foi uma necessidade masturbatória que me fez levar para casa esse gibi proibido para menores de 18 anos (como indica a capa).

Comprei a revistinha por uma curiosidade quadrinística (“claro, claro”, diria um amigo). Ainda que eu saiba que o conteúdo desse tipo de publicação está há anos luz de um Manara, um Serpieri, um Levis, um Frollo ou mesmo um Carlos Zéfiro, um detalhe me chamou a atenção e foi determinante para a aquisição. A tarja preta impressa no plástico que embrulhava a revista deixava à mostra, no alto, seu título e um personagem, um robô que, não tive dúvidas, reconheci das histórias de Barbarella.

Puxei o plástico para um lado e para o outro na tentativa de identificar, na capa, algo que confirmasse a presença da personagem no interior da publicação, mas foi em vão. A revista, tão fininha, claro, não teria como ter uma HQ completa de Barbarella, mas quem sabe um pedaço?

Na dúvida, resolvi pagar os R$ 2,99 pela minha curiosidade. Se não estivesse ali a famosa heroína criada por Jean-Claude Forest, pelo menos eu poderia conferir o nível dos quadrinhos eróticos publicados no Brasil atualmente (e ainda teria uma prova cabal do uso indevido — leviano, mal intencionado, diria um amigo — da imagem da loira espacial). Detalhe: há uma nota no editorial que diz: “O Hard Studio que criou, produziu e realizou este projeto. Assim, tem inteira responsabilidade sobre a originalidade e autenticidade de seu conteúdo”. Então tá.

Realmente, Barbarella está apenas na imagem da capa (deitada numa cama ao lado do robô). As 34 páginas da revista são divididas entre quatro HQs. Diana é a protagonista da primeira delas, assinada (argumento e arte) por Leão Lim (um sub-Watson Portela). A personagem é uma prisioneira que usa de artimanhas sexuais para escapar da prisão. Depois de prestar favores sexuais a uma guarda, ela faz sexo com um tenente que, fatigado depois da transa, adormece. Diana escapa. Fácil demais, né? Mas tudo não passa de uma armação da guarda. “Realmente, um golpe de mestre”, ela diz. Então tá.

A segunda história tem argumento de Ataíde Braz e desenhos de Roberto Kussumoto, dois veteranos dos quadrinhos brasileiros. Apesar de as ilustrações estarem (toscamente) coloridas por computador, suspeito que essa HQ — intitulada Espelho — seja antiga (é o que sugere o visual e o figurino dos protagonistas). A dupla de autores cria uma história interessante na qual o sexo é o coadjuvante das inquietudes e inseguranças dos personagens. Naldo acha que seu membro é pequeno e que ele não será capaz de satisfazer Ana. Para ilustrar a situação, Kussumoto desenhou alguns quadros no qual Naldo aparece em tamanho diminuto em relação a Ana. A história é o ponto alto da edição, não pelo apelo erótico, mas pelas soluções narrativas apresentadas pelo desenhista.


Ela é... Sádika foi escrita e desenhada por Franco de Rosa e arte-finalizada por Bonini (também veteraníssimos). Uma historinha boba e clichê, na qual o homem se surpreende quando a namorada se revela uma devassa sadomasoquista e dominadora. Também tem cara de ser uma HQ antiga recolorida e, neste caso, as cores digitais só empobreceram a arte.

A revista termina com A boneca e seu boneco (autores não revelados). Pelo padrão dos desenhos, suspeito que seja uma antiga HQ gringa. A protagonista, uma menina de 19 anos, não desgruda de palhaço de brinquedo. Os pais dizem que ela não tem mais idade para isso, mas não desconfiam que o objeto toma vida quando eles não estão olhando e, com um enorme membro, transa gostoso com a ninfeta (desculpem, não pude evitar usar em ao menos uma frase as palavras transa, gostoso e ninfeta).

Como inspiração onanista, Quadrinhos Super Eróticos é uma negação. As histórias são simplórias, sem clima, e o acabamento gráfico é grosseiro. Boa sorte tentando se satisfazer com ela (putz, não rola nem uma ereção básica). Entretanto, a sem-vergonhice máxima de vender gato por lebre colocando Barbarella na capa me conquistou. Fico imaginando a equipe da editora Heavy Sex pensando “vamos colocar Barbarella na capa! Quem sabe, mesmo com o plástico, alguém reconheça o desenho e acabe sendo fisgado por isso”. Parabéns, pessoal, eu fui fisgado!

Sabe quando você fica impressionado com a tosquice, com a simplicidade de alguma coisa? Como se aquilo, na sua rudeza e, em alguns caso, ingenuidade, de alguma forma te diverte? Pois é, foi o que aconteceu comigo. E só a história de Braz e Kussumoto já valeram meus R$ 2,99. Encontrar a produção deles, hoje em dia, é algo raro (estão nos sebos e nas coleções espalhadas pelo país, não em bancas de jornal).

Mas Quadrinhos Super Eróticos é ruim, não comprarei outra. Bom, quem sabe se eles colocaram na capa uma Phoebe Zeit-Geist ou uma Little Annie Fanny, talvez uma Jodelle ou uma Pravda ...

Dando uma boa olhadinha debaixo da cama [e dentro das lixeiras também!]



Cristiano Bastos é um gaúcho sangue boníssimo e nosso amigo, residindo aqui em Brasília. Escreveu, dentre muitas atividades, para as revistas Bizz, ESPN e Aplauso. Atualmente é reporter especial da revista Rolling Stone, onde escreve sobre música e política.  Nesta última, fez reportagens maravilhosas sobre Novos Baianos, Raul Seixas e Romário. É autor do livro Gauleses Irredutíveis - Causos e atitudes do rock gaúcho. É também diretor do documentário Nas paredes da pedra encantada, sobre o álbum Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. E ele curte quadrinhos. E ele curte EC Comics, Tales from the Crypt, quadrinhos de antes do comics code authority. E ele curte bons textos. E fez um ótimo texto pra gente, contando sua relação com estes lendários quadrinhos de terror, além da arte de chafurdar no lixo alheio. Para quem quiser conhecer o trabalho do Cristiano, ele tem um blog e um portfolio online. Valeu meu véio. Esta é uma colaboração realmente especial. PS: Ilustrei a crônica do Cristiano com imagens sortidas das HQs de Cripta do terror. Enjoy! (CIM

por Cristiano Bastos

Aos meus “40 invernos” eu às vezes ainda sonho um sonho que sonhava sempre quando criança. De tanto sonhá-lo ficou gravado em minha memória. Sonho que perambulo entre as lixeiras do prédio “minhocão” [esses conjuntos habitacionais levantados pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), nos anos 1970, para acomodar a classe C], em um dos quais minha família estabeleceu-se quando meus pais deixaram Cachoeirinha, na região metropolitana da capital gaúcha, para ir morar em Porto Alegre. Eram dezesseis blocos e as respectivas lixeiras, enfileiradas uma ao lado da outra. E, para cada andar, havia um compartimento através do qual os moradores despojavam seus refugos domésticos – e, também, jornais, livros e revistas.

Cristiano, à esquerda, e seus irmãos: Ethel e Marcelo.
No local onde revirava as lixeiras. Porto Alegre, anos 80. 

Para mim, uma tarefa religiosa, diária e, sobretudo, uma grande aventura era revolver o lixo alheio possivelmente repleto de “surpresas gráficas”. Pedalando a minha bicicleta Caloy, chafurdava a imundície dos outros atrás de qualquer coisa para ler. Embora meu pai, sócio fiel do “Clube do Livro”, não deixasse que faltasse leitura em casa [nem comida!] – as mais diversificadas. O velho comprava um livro por semana, em média. Muitos best-sellers como Sidney Sheldon e o “mestre da sordidez” Haroldo Robbins [dentre os quais as obras: Nunca Ame um Estranho (1948) e Uma prece para Danny Fisher (1952), roteirizado para o cinema como King Creole (1958), estrelado pelo ainda “príncipe” Elvis Presley].

Woolf
Também havia “alta literatura”: Jack London, até hoje, um dos meus herois da vida e das letras. E o sacana Henry Miller, que me ensinou umas palavrinhas desbocadas antes do tempo... O primeiro livro que ganhei de meu pai foi uma edição de Tarzan – O Filho das Selvas (1912), de Edgar Rice Burroughs, porém, confesso que não li até hoje. Mas o livro continua morando na minha biblioteca; representa uma espécie de desafio que, um dia, terei de cumprir em nome da honra. Mesmo que a historia de Tarzan seja conhecida de trás para diante. Tal como aconteceu com a leitura de Mrs Dalloway (1925), de Virginia Woolf – lido tardiamente, mas lido. Quase apenas para tentar decifrar um pouquinho do que as mulheres pensam. A revolução oferecida por Mrs Dalloway, todavia, não é feminista: é estilística. Desenrola-se em um dia na vida da protagonista, Clarissa Dalloway, e tem como cenário o período pós-Primeira Guerra Mundial, na Inglaterra. Trata dos preparativos para uma festa da qual Clarissa é a anfitriã. Artifício literário do qual o escritor gaúcho Dyonélio Machado também lançou mão, uma década depois, com a publicação de Os Ratos (1935) – história nascida de um pesadelo relatado a Dyonélio por sua mãe. A narrativa centra-se no pobre “barnabé” Naziazeno Barbosa, que um dia inteiro perambula pelo centro de Porto Alegre à cata de dinheiro para garantir o leite da recém-nascida cria.

Zéfiro
Nessas incursões “trash”,  descobri muitas leituras que, inconscientemente, formaram  muito de minhas futuras predileções literárias. Lembro, certa vez, de ter encontrado uma intocada coleção de fascículos sobre dinossauros – uma das minhas fascinações da “estação” infância. Noutra achei um inocente livro sobe ioga ilustrado com fotos de iogues contorcendo-se piramidalmente em posições nunca dantes imaginadas em minha inocência de petiz. Em minha cabecinha de guri, achei que aquilo, afinal, era o que tanto chamavam de “sexo”. Na verdade foi uma experiência pra lá de estranha: “Será isso?”, me perguntava com uma interrogação sobrevoando a cuca [naquela época ainda falava-se “cuca”!]. Dúvida que logo foi desfeita quando, numa dessas incursões, deparei-me com os primeiros exemplares de pulp pornografia: havia desde a pornografia “pesada” [para os anos 70, ainda vivia-se sob jugo militar] aos catecismos de Carlos Zéfiro, iniciadores das gerações anteriores “nas artes onanísticas”. Ou mais bonitamente dizendo , na arte de se fazer “justiça com as própria mãos”. Meu pai incluído, provavelmente. Nos anos 60/70 – e nem ainda nos 80’s – “comer alguém” não era bem assim, meus amigos.

Eu era obsessivamente fascinado pelos livros e pelas revistas, não importando o calão: alto ou baixo. Devo à leitura toda minha formação “intelectual”, muito mais do que à faculdade, onde os jornalistas, especialmente os contemporâneos – pelo que se lê nas entrelinhas – poucos, de fato, estão interessados na exigente arte de ler um livro.

Nunca vou esquecer o dia em que minha avó quis se desfazer de todos os volumes de enciclopédica coleção O Tesouro da Juventude [editada de 1920 a 1958, por W. M. Jackson, Inc.]. Obra originalmente britânica,, que, no português de antigamente, assim anunciava-se: 

“Encyclopedia em que se reunem os conhecimentos que todas as pessoas cultas necessitam possuir, offerecendo-os em forma adequada para o proveito e entretimento (sic) dos meninos”.

Antes, eu sempre lia O Tesouro da Juventude quando ia à casa dela, em Caxias do Sul. Para ganhar a coleção, já em Porto Alegre, fui sozinho até sua residência, a pézito, buscar os pesados volumes, carregados “no muque” até minha casa. Conhecimento exige algum esforço, o qual nem sempre é garantido somente às custas da máxima socrática do “sei que nada sei”. 

Minha seção predileta era o “O Livro do Porquês”, que trazia perguntas e respostas para qualquer indagação. Como, por exemplo, esta [no original]: 

Conhece-se alguma especie de matéria que não se encontre na terra?
“Segundo o que o espectroscopio nos revelou, existe no sol um elemento que não se encontra no nosso planeta; foi observado pela primeira vez na parte do sol que se chama a "coroa", dando-se, por isso, o nome de "coronio". Até hoje ainda não se encontrou este elemento em parte alguma da terra. Tambem se descobriu no sol outro elemento conhecido com o nome de "helio", palavra derivada do vocabulario grego "helios" que significa sol; mas alguns anos depois de ter sido observado no sol, esse mesmo elemento foi encontrado na terra, na forma de um mineral muito raro; e, actualmente, sabe-se que o (elemento) radio o produz continuamente. Do mesmo modo que averiguámos que elementos formam o sol, podemos chegar a saber, por meio do estudo da luz que as estrellas emittem, de que se compõem estes astros, situados a tão enorme distancia de nós”.

Não é uma maravilha? 

Quem disse que as gerações passadas não tinham seu  “Google”?

E vou confessar para vocês: a mania de revirar lixeiras é um hábito [obsessão?] que ainda acompanha-me... Minha atual vizinha de prédio, uma gostosa assessora de algum mistério – que é melhor nem comentar –, recebe, aos fins de semana, todas as revistas semanais disponíveis no Brasil e todos os “importantes” jornais em circulação. Leitura, como se sabe, que não é lá grandes coisas. Criei atualmente um novo ritual: toda santa manhã de sábado e de domingo, o porteiro de meu prédio deixa em frente à porta dela um fardo de revistas e periódicos. De meu apartamento posso ouvir a vizinha gostosa agachando seu belo traseiro para recolhê-lo. Espero cerca de uma ou duas horas e vou à lixeira. E é “batata”: lá estará aquele monte de papel ainda recendendo tinta – maior parte deles intocados como a última das virgens.

Voltando à infância, ou melhor, adolescência [revirei lixeiras dos seis ao dezesseis anos], foi numa dessas andanças de piá que achei uma das HQ’s que afetaram muitos a minha “visão gráfica”, por assim dizer – assim como afetou a de toda da juventude reprimida criada nos estertores dos anos 1950. A revistinha chama-se Tales From The Crypt, da EC Comics, que, no Brasil, foi editada como Contos da Cripta.


Para meu completo déjà vu, dia desses o Ciro Marcondes, editor deste site, apareceu-me com uma caprichada edição da HQ, trazida por ele dos Estados Unidos. Robusta, a edição  compila cinco volumes lindamente encadernados e ricamente recoloridos: Tales From The Crypt – The EC Archives – Volume Two [Six Complete Issues 7-12!. Comandada pelo lendário publisher Bill Gaines, Tales... foi originalmente publicada de 1950 a 1955, e inspirou, por exemplo, a televisiva série da HBO. Igualmente afetou dezenas de bandas. Dentre elas, Ramones, The Cramps, Fuzztones e a homônima Tales From The Crypt.  


Nessa edição que me chegou às mãos, há contos clássicos de horror escritos por autores como Al Feldstein e ilustrada por um line-up estelar das história em quadrinhos: Wally Wood, Jack Kamen, Craig Johnny, Al Feldstein, Orlando Joe, Ingels Graham, Jack Davis, John Severin. No total são 24 histórias. O prefácio leva assinatura de Joe Dante, diretor de filmes como Gremlins e Twilight Zone: The Movie, assumidamente fascinado pela obra. Com histórias, em sua maioria, pintadas em um odioso/delicioso horror cotidiano/fantástico, a cada edição a série surpreendia/espantava ao abordar situações das mais bizarras/amedrontadoras imaginadas. Verdadeiro deleite visual e narrativo. Geralmente com um “plot twist” surpreendente ao final de cada conto.


                                                                   TFTC: o filme
Wertham
Mas o fim da revista iniciou-se rapidamente, com a perseguição moral liderada pelo psiquiatra alemão Fredric Wertham, que publicou a obra Seduction of the Innocent [em português, Sedução dos Inocentes], de 1954. O livro tentava desacreditar os leitores com a tese de que as revistas em quadrinhos eram uma “forma ruim” de literatura popular – além de sério estímulo à “delinqüência juvenil”. Seduction of the Innocent   não só causou rebuliço entre os pais norte-americanos como desencadeou uma campanha a favor da censura para esse tipo de publicação. O documentário “embedado” ao final deste texto mostra cenas de Gaines defendendo a Tales From The Crypt no tribunal. O caso repercutiu ao cúmulo de o Congresso Norte-Americano lançar uma investigação cujo foco foi a indústria dos quadrinhos. Logo após a publicação de Seduction..., a EC viu-se obrigada a formular o “Comics Code Authority” ou “Código dos Quadrinhos”, que passou a regular o conteúdo e a autocensurarem-se... Sem o terrorífico “mojo”, nunca mais a revista foi a mesma. Uma lástima que terminou por matar a publicação, a qual sobreviveu na humorística Mad – um grande sucesso até hoje.

A EC foi revolucionária, e poderia ter revolucionado mais se não fosse o livro A Sedução do Inocente, escrito pelo alemão Dr. Fredric Wertham. Foi na Cripta dos anos 1950 que vimos e lemos as melhores histórias de guerra, mistérios, horror e crimes já criadas. Narrativas ousadas e livres do infantilismo pós-Sedução... Contos macabros de humor negro fez da nona arte um terreno fértil com frutos maduros de doces venenos. Nas páginas autores como Graham Ingels, Wally Wood, Jack Davis, Bernard Krigstein e outras feras marcaram uma época, influenciaram gerações de quadrinistas, diretores de cinema e escritores como Frank Miller, Steven Spielberg, Joe Dante, Stephen King e Neil Gaiman.  Às vezes fico pensando o que poderia ter sido dos quadrinhos norte-americanos se Sedução do Inocente não tivesse sido escrito e não tivesse polemizado tantos os quadrinhos como um mal aos seus leitores. Talvez, seria um outro reinado. Não com os super-heróis, mas com inteligência, horror e humor negro”, diz o roteirista e ilustrador Carlos Ferreira – editor da revista independente Picabu,  que também roteirizou para os quadrinhos, entre outras, obras como Os Sertões – A Luta, ilustrado por Rodrigo Rosa.

Zelador da Cripta
Em Tales From The Crypt, as histórias eram inicialmente apresentadas pelo Crypt Keeper [o “Zelador da Cripta”, no Brasil], um velho decrépito e sarcástico que introduzia as histórias e dava uma “moral” ao final de cada conto. Personagem, ao mesmo tempo,  arrepiante e engraçado, que fazia piadas com o trágico e o caótico. Ter o Crypt Keeper apresentando as horripilantes narrativas foi o primeiro passo em direção ao famoso “Estilo EC”. O Crypt Keeper apareceu pela primeira vez na revista Crime Patrol#15 e repetiu a dose na edição seguinte. Logo após, na revista War Against Crime#10, apareceu outro personagem com a mesma função: The Vault Keeper [“O Guardião da Câmara”]. E, mais tarde, um novo ser surgiu das trevas:  The Old Witch [“A Bruxa Velha”], que estreou em The Haunt of Fear. Todos maravilhosamente decrépitos.


Entre junho e novembro de 1991, a Editora Record tentou, essa é a verdade, publicar no Brasil o gibi Tales From the Crypt. Mas apenas sete parcas edições do “Contos da Cripta”, como foi chamado por aqui, viram a luz das bancas de jornais. Guri, consegui comprar somente dois desses números. Esse aqui é um exemplar que se salvou no alfarrábio das relíquias infanto-juvenis. Lançada em dezembro de 1991, a edição traz um conto de psico-ficção científica muito chocante escrito pelo falecido Ray Bradbury. Jackie Davies, Kurtzmann e Frazeta são outros autores que também “exprimiram sangue” na páginas da versão brasileira da Cripta. A tradução do nome dos contos, pelo menos, conservaram o bom-humor original: “Tomo um Banho de Lua, Fico Branco de Pavor”, “Refeição Noturna!”, “Infiltra-Sangue”, “A Rinha”.

Lembro ter lido e folheado o gibi-filho-único dezenas de vezes – e não sem o mesmo calafrio de sempre. Um dos motivos de tanta atração estavam os enredos de suspense na linha soberbamente canônica [e horripilante] do mestre Edgard Allan Poe. Numa das estórias mais impressionantes, após cometer grave crime o bandido fica paranóico com as próprias digitais e, por fim, consigo mesmo [“Caidaço”]. Desabaladamente sai a limpar a cena do crime com igual obsessão do “noiadinho de pedra”. Ele finalmente pira: o crime nunca compensa. Noutro quadrinho, o pobre e desavisado viajante noturno descobre-se numa convenção de... vampiros! Tarde demais.

A única coisa que, na realidade, a Record fez direitinho foi apresentar material antigo da EC Comics no formato “magazine”, seguindo especificações originais da revista. Em sua breve existência, a edição nacional primou por desleixo gráfico, papel de terceira e impressão meia-boquíssima. Não emplacou por falta de capricho. No divertidíssimo site Nostalgia do Terror dá para conhecer todas as edições da Tales From The Crypt saídas no Brasil.  O site conglomera verdadeiro universo paralelo de capas, títulos e editoras, de épocas distintas, e libera, também, download de HQs de artistas da velha e da nova guarda.

Tem, ainda, contos, reportagens e o apavorante “Correio do Terror”. A ilustração deste post é um almadiçoado walpapper. Seria muito legal seria se a Record – ou outra esperta editora – reeditasse a Tales From the Crypt no Brasil. Nem é preciso dizer, com a merecida qualidade. E hoje à noite, antes de ir dormir, não esqueça: dê uma boa olhadinha debaixo da cama!

E nas lixeiras também. Sempre pode haver altas aventuras à sua espera.