BONS QUADRINHOS QUE LEMOS EM 2015 - PARTE 2

Olá pessoal da Raio!

Já estamos no ano de 2016 com a marcha engatada.

Mas isso não impede a Raio Laser de fazer uma lista de melhores do ano de 2015

! A minha lista também não pretende ser um levantamento do que foi lançado no ano que findou, mas é uma ajuntado do que eu li de particularmente inédito. Coisas velhas que nunca li, material de 2014 que só pude ler em 2015 e outras coisas que minha vida de trabalhador braçal não me permitiu ler quando lançou. Na minha lista entra um material bem variado, mas também acredito que muita coisa legal ficou de fora graças à minha memória avariada. Até a próxima! (LN)

Parte 1

Parte 3

por Lima Neto

1 - PÍLULAS AZUIS – Fredrik Peeters (Nemo,2015 [2001])

A autobiografia em quadrinhos, um filão lucrativo em produções de qualidade e muitas vezes criticado por seu óbvio ensimesmamento, tem parte de seu valor situado na área indistinta e amorfa em que se interseccionam a biografia do leitor e do autor. Alguns destes quadrinhos, como as Pílulas Azuis de Fredrik Peeters, têm ainda o ponto positivo de abrir ao leitor a possibilidade de experimentar uma alteridade coletiva em que vários cotidianos são apresentados como uma tessitura particular que retrata a fundo um drama pessoal e específico.

Frederik Peeters ainda é um desconhecido por aqui. Por isso mesmo a escolha de publicar seu trabalho biográfico foi bem acertada. O livro trata de sua vida junto com a companheira, Jude, e seu filho, ambos soropositivos.

Pílulas leva o leitor a atravessar uma ponte pouco visitada - aquela que separa a realidade de quem deve conviver com a AIDS e a imagem de desespero e perigo que é rapidamente evocada pelo imaginário da doença. Alternando momentos de sensibilidade e austeridade, Peeters monta uma trama enxuta em que duas grandes qualidades se apresentam como uma arma eficiente contra o preconceito - sobriedade e maturidade.

Mais do que a situação da companheira, é a maturidade das reflexões de Peeters em relação ao seu dia-a-dia que chama a atenção no gibi. Com um pragmatismo sensível, o autor vai expondo seus medos, tanto particulares quanto do casal, e vai demonstrando como que, paulatinamente, a relação dos dois se transforma em um companheirismo sóbrio, consciente da "normalidade anormal" da posição em que se encontram. Sem heroísmos ou melodramas. Ao final somos brindados com algumas páginas feitas anos depois, onde Peeters apresenta seu traço mais atual e realista, em que vemos um depoimento dos familiares envolvidos. Com certeza um dos melhores quadrinhos do ano.

2 - NOVA MARVEL X-MEN #1 a 15 – Brian Michael Bendis & Chris Bachalo (Panini, 2015 [New Marvel Uncanny X-men #1 – 18, 2014])

Já falamos muitas vezes aqui na RL que, quanto mais próximo da realidade um quadrinho de super-herói se posiciona, pior é sua qualidade. A imagem fantasiosa do herói super poderoso se desmonta em perigosos tons reacionários quando confrontada com problemas reais que pedem por soluções reais. A melhor forma com que o quadrinho super-heroístico pode abordar a realidade é sempre através da metáfora... algumas mais diretas que outras, e é assim que um título X consegue entrar nessa lista.

Há vários anos eu deixei de comprar gibis para acompanhar personagens e passei a acompanhar escritores de HQ. Das vezes em que retorno a ler X-Men, é por que algum autor que me interessa está capitaneando o gibi. Depois de ler muitas resenhas, resolvi correr atrás da fase do escritor Brian Michael Bendis. Com seu estilo característico em que mistura diálogos extensos com criativas viradas de roteiro, em X-Men Bendis extrapola a essência do grupo de mutantes no que eles têm de mais poderoso: na metáfora entre a causa mutante e as lutas por igualdade de direitos empenhadas pelos mais diversos grupos civis que se sentem lesados por uma insuficiência social em reconhecer suas diferenças.

Criados em um EUA pós-conflitos por direitos civis, Stan Lee via em seu pacifista Professor X um Martin Luther King, enquanto que a verve belicosa de Malcom X estava presente na atitude terrorista de Magneto. Essa imagem permanecia parcialmente inalterada até alguns anos atrás. Resumindo, porque a parte chata é a novelinha, após uma mega-saga que joga X-Men contra Vingadores (embora a premissa seja simplista, a relação entre minorias VS maioria se torna bastante explicita nessa saga, mas isso fica pra outra hora) e que termina com o personagem líder dos X-men, Ciclope, matando seu mentor Professor X (nenhuma surpresa ai, ele deve voltar em breve como todos os mortos da Marvel) e sendo considerado um terrorista internacional, o grupo se divide entre os que seguem o sonho de Xavier e os que preferem a realidade proativa de Ciclope, que passa a se tornar um ícone da luta mutante. A fase de Bendis é marcada ainda pela chegada dos X-Men originais para o presente, através do plano de um Fera moribundo que serve para confrontar o Ciclope terrorista com sua versão mais nova. É aquela típica confusão mutante pelo tempo, mas que acaba tornando-se um ótimo exercício de caracterização na mão de Bendis. O ponto negativo é a arte, por conta de um cansativo Chris Bachalo, antes um herói indie dos anos 90, agora um desenhista pouco criativo e que parece fora de sintonia com o roteiro na maioria das páginas.

O que importa aqui, e o que faz o titulo entrar nesta lista, é a nova atitude do ex-líder do grupo. No gibi vemos um Ciclope fugitivo reconstruir a escola Xavier nas ruínas do projeto Arma X e recrutar os membros descontentes dos X-Men. Em sua fase, Bendis deixa claro que o espaço entre a metáfora e a realidade se torna mais estreito do que nunca. O fator super poder é jogado para segundo plano e o que brilha é o desdobramento político das ações do personagem. A renovação do herói "escoteiro" como um tipo diferente de anti-herói, um anti-herói que simboliza e atua na luta coletiva investindo na ação proativa, quebrando com o status quo. Com habilidade, Bendis se aproxima e se afasta desse paradigma político evitando cair na relação aniquiladora entre fantasia e realidade, e com isso dá um novo frescor aos personagens e uma verdadeira sensação de mudança. Ou, como o próprio Ciclope comenta ao ser criticado pelo novo status de criminoso político: "Engano seu. Odiado. Temido. E salvando o mundo. Diga-me o que mudou.”

3 - CUBE – Marcelo d’Salete (Veneta, 2015)

Há uma relação nada sutil entre este item da lista e o anterior. Se Bendis radicaliza a metáfora dos mutantes como comentário social proativo, em Cumbe não há metáforas e nem dúvidas quanto ao posicionamento de seu autor em relação à luta contra as injustiças sociais.  Cumbe é uma exposição crua da história de resistência negra contra a sociedade escravagista no Brasil colônia. O último trabalho do quadrinista Marcelo d´Salete transporta sua temática dos excluídos e periféricos para um ambiente histórico buscando jogar uma luz muito necessária nos esforços ativos e pouco mostrados da resistência negra à escravidão.

Como é dito no próprio livro, Cumbe é uma palavra bantu que significa O Sol, O Dia, A Luz, O Fogo e também um sinônimo para Quilombo. Em três histórias que se entrecruzam, d´Salete mostra a crueldade de um sistema de trabalho forçado onde aqueles que eram obrigados a se submeter eram tratados como menos que animais, alguns enlouquecendo até tomaram a própria vida e outros tantos resistindo ativamente, dia a dia, para escapar da situação degradante de violência e retomarem a posse das próprias vidas. 

Sem metáfora.

O traço de d'Salete continua com seu vigoroso e poético preto e branco, abrindo mão de um realismo que, em qualquer nível, seria insuficiente para captar a crueza do período. Ele prefere apostar em suas áreas de tonalidades cinzentas feitas com esmero com seu pincel seco. Se em trabalhos anteriores o autor usava sua técnica para escancarar as fronteiras sociais demarcadas pelo vocabulário urbano - hora picho, hora logotipo - em Cumbe seu pincel estiliza o cenário colonial com um minimalismo ao mesmo tempo singelo e sufocante.

Os personagens de Cumbe também guardam a mesma relação paradoxal: seus rostos de limitadas expressões dão lugar ao volume ensurdecedor de suas ações. Cumbe é forte e direto sem abrir mão das suas possibilidades intersubjetivas e expõe não apenas o contraste do período colonial com o nosso presente, mas, principalmente, suas muitas semelhanças.

4 - O GRALHA: TÃO BANAL QUANTO ORIGINAL – José Aguiar e vários autores (Quadrinhópolis, 2014)

Na sequência desta lista nós temos outro quadrinho de super-herói. Aliás, um dos melhores quadrinhos de super-heróis - O Gralha, com o álbum Tão Banal Quanto Original. 

O Defensor das Araucárias é uma criação coletiva que envolve os autores Gian Danton e José Aguiar e os artistas Alessandro Dutra, Antonio Eder, Augusto Freitas, Edson Kohatsu, Luciano Lagares, Nilson Muller e Tako X. Havia muito tempo que tinha lido o primeiro álbum do personagem, lançado pela Via Lettera em 2008, e esta segunda antologia de histórias do Gralha me lembrou por que o conceito do personagem é tão divertido, sendo uma das melhores leituras do ano.

Vários autores, várias visões, o Gralha é um personagem pensado para se adequar a qualquer criador. O resultado é um quadrinho mais potente e facetado que qualquer outro gibi de super-herói. Lógico que todos os elementos do gibi de herói estão lá: Gustavo Gomes é o neto do Capitão Gralha e defende uma futurista Curitiba de uma galeria de vilões tão bizarra quanto idiossincrática - A gigante Araucária, o deformado Homem Lambrequim, o gênio do mal Craniano, o metalinguístico Homem Dor-De-Cabeça... a lista é extensa.

Esse segundo álbum dá continuidade às aventuras do personagem. Em destaque temos história "O Ovo e a Gralha", em que o macabro Craniano reflete sobre a necessidade de ser o arqui-inimigo de um herói tão abaixo de seu nível intelectual, com roteiro de José Aguiar e a bela pena de Jairo Rodriguez. A mesma dupla também narra uma história de singela beleza no divertido "Dia do Pinhão". Em "A Volta do Lambrequim", José Aguiar, acompanhado de Tako X, revela a intimidade do monstruoso Homem-Lambrequim, e na ótima "As Origens do Craniano", Aguiar, agora cuidando tanto da arte quanto dos desenhos, tenta dar uma explicação para o vilão com cabeça Pêssanka.

Como se pode perceber pelos nomes, a cultura curitibana e paranaense se tornam um dos personagens mais presentes nas histórias do Gralha, mas em momento algum estes traços regionais parecem forçados ou caricatos. Na verdade, o que diferencia o Gralha, a sua originalidade banal, é o fato de ser tão idiossincrático (uma característica de muitas produções do sul do país, como o rock sulista) que a cidade parece se destacar da realidade e se aproximar de outras metrópoles imaginárias como uma Metrópolis ou uma Gotham. Tudo isso sem perder o humor ou cair em dramas pedantes ou aventuras ufanistas sem graça. Um ponto negativo? Admito que me incomoda bastante a falta de diversidade étnica nos desenhos.

O gibi foi publicado pela Quadrinhópole e a mesma editora acabou de lançar a edição O Gralha Art Book, uma espécie de making of do personagem acompanhado de diversas pin-ups e pequenas histórias para o especial que foi patrocinado via Catarse. E em sebos ainda é possível encontrar a primeira edição do Gralha pela editora Via Lettera!

5 - HICKSVILLE – Dylan Horrocks (Drawn and Quartelly, 2010 [1998])

E por falar em idiossincrasias regionais, o quinto lugar desta lista fica para o Hicksville de Dylan Horrocks. Já falamos sobre este gibi na cobertura do FIQ, mas sua mistura de biografia à la “vida secreta dos ricos e famosos”, com um mistério envolvendo a história das HQ's no melhor estilo David Lynch, faz com que ela mereça voltar a ser citada.

A HQ acompanha o jornalista Leonard Batts em sua viagem para conhecer a cidade natal de Dick Burguer, uma estrela internacional do entretenimento hollywoodiano que chegou à fama vendendo o direito de seus quadrinhos para o cinema.

Hicksville, que também é o nome desta cidade fictícia que fica na ponta mais ao sul da Nova Zelândia, foi publicado em 1998. A edição que chegou até mim é a republicação de 2010 editada pela Draw and Quartely

e que conta com um belo capítulo inédito introdutório em quadrinhos onde Horrocks fala sobre as emoções e pulsões que levaram à criação do gibi.

Voltando à trama, Batts esbarra em uma cidade misteriosa e cheia de segredos onde aparentemente o pilar cultural de sua comunidade são as histórias em quadrinhos. De uma estalagem que conta com uma gibiteca carregada de edições raríssimas em perfeito estado até uma festa folclórica à fantasia em que toda a cidade se veste de personagens clássicos da história da HQ, Hicksville parece o sonho de qualquer apreciador de quadrinhos e leva um conceito bem conhecido da literatura para o meio dos gibis – o da biblioteca das histórias sonhadas e nunca publicadas. O resto, só lendo. Saiba mais sobre este gibi aqui.

6 - MISS: BETTER LIVING THROUGH CRIME – Philippe Thirault, Marc Riou e Mark Vigouroux. (Humanoids/DC comics, 2005 [1999])

Lançado nos estados unidos em 2005 pela finada parceria entre a Humanoids e a DC Comics,

Miss: Better Living Through Crime – álbum escrito por Philippe Tirault e com arte de Marc Riou e Mark Vigouroux – é um daqueles quadrinhos de crime que fascina tanto pela crueldade das situações, quanto pelo carisma de seus protagonistas. Numa decadente Brooklyn dos anos 20, uma órfã ruiva e um cafetão negro se juntam para sobreviver à miséria que os cerca e os empurra cada vez mais para o fundo do poço. Como resultado, viram parceiros na prestação de um serviço muito procurado tanto pela população empobrecida do local quanto pela elite que começa a se erguer dos escombros: assassinato por encomenda.

Nola, ou Miss, como é chamada por seu todos (trocadilho tanto para "senhorita" quanto um apelido dado à sua involuntária capacidade permanecer viva depois dos vários tiroteios dos quais participam) é uma personagem feminina cuja representação ultrapassa em muito o estereótipo das divas do charleston que ilustram o imaginário do período. Mãe viciada em drogas, pai falecido por abuso de álcool, criada em um convento de freiras onde cedo aprendeu a revidar, Lola é o lado negociante da dupla. O fato de ser branca é o cartão de visita para negociar com a alta sociedade de NY. Seu parceiro, Slim, é filho de uma família rica, com um irmão médico bem sucedido e várias complicações devido à sua vida como cafetão enfiado em todo tipo de negociata nas espeluncas de Brooklyn. Slim é a parte logística da dupla: sua desenvoltura no submundo complementa a dinâmica de trabalho dos dois.

Visualmente, a Nova Iorque de Miss varia entre a exuberância e as ruínas. Quadras vazias com cortiços mal acabados tomam conta da maior parte do álbum. A colorização, feita digitalmente e carregada em tons amarelos nauseantes, acentua a sensação de vazio da cidade. De certa forma, esse vazio também está presente nos personagens, de maneira mais acentuada ainda nos clientes e nas suas demandas imorais – um empresário que quer ver o filho do sócio morto, uma esposa de olho na fortuna do marido, outra que quer que a amante do marido desapareça – casos relativamente comuns que acabam levando a desdobramentos mais complicados. A dupla se vira como pode. Alguns sucessos, alguns fracassos, mas sempre com uma espécie de “nobreza” torta que ajuda a compor a dinâmica dos dois – Nola sempre direta e violenta, principalmente quando escuta que seu “empregado” deve esperar do lado de fora, e Slim sempre desvelando as hipocrisias da ascendente sociedade do Brooklyn ao assumir o trabalho que escolheu para subir na vida. Em alguns momentos, principalmente no início do álbum, algumas falas e transições entre requadros se tornam bastante confusas de entender, acredito que graças a uma dificuldade de tradução do francês para o inglês. Mesmo assim, Miss é um quadrinho certeiro, e o melhor policial que li no ano.

7 - BIG BOOK OF DEATH – Bronwyn Carlton e vários artistas (Paradox Press, 1995)

Existe um selo de quadrinhos perdido nos EUA que, embora fazendo parte do grupo Time-Warner e ligados à DC Comics, teve pouquíssimos trabalhos publicados por aqui (as edições de Gon da Conrad e A Estrada Para Perdição, para ser exato). Este selo é a Paradox Press. O carro chefe da editora é a série Factóide Books, grandes livros de antologias com historietas curtas de até cinco páginas girando em torno de um tema específico. Antes de se falar em Joe Sacco e jornalismo em quadrinhos, os Big Books da Paradox já faziam um apanhado narrativo vasto esmiuçando assuntos como discos voadores, mortes bizarras, mártires religiosos, crimes históricos, etc., com uma abordagem que mistura almanaque e documentário. A maioria dos livros é escrita por um escritor apenas e desenhada por uma vasta gama de artistas de quadrinhos do underground estadunidense, incluindo o citado Sacco.

Essa introdução é para apresentar o sétimo gibi da minha lista, o Big Book of Death. Duzentas e vinte e quatro páginas, em preto e branco, com centenas de relatos sobre a mais inescapável das sinas. O álbum, como todos os Big Books, mistura um relato aprofundado com uma arte que varia do realismo ao cartum resultando em diversão garantida (e fúnebre).

Os contos são organizados por temas: o primeiro capítulo conta a história do assassinato oficial, as execuções capitais, sua história e principais práticas. Este capítulo é de abrir os olhos para a maneira com que a lei evoluiu até nosso século XXI, deixando para trás algumas execuções extremamente doentias, como o pressionamento – onde o condenado se deita em uma cama de lâminas, seu corpo é coberto por uma tábua que cobre seu torso, e são colocados sobre a tábua vários pesos, vagarosamente, até que o corpo seja esmagado e perfurado. Enquanto o condenado ainda vive.

O segundo capítulo foca o homicídio criminoso e o suicídio. Mortes idiotas, cidadãos acima de quaisquer suspeitas que escondem um lado assassino brutal, a história da eutanásia, etc.

No terceiro capítulo temos os assassinatos em massa, as pragas históricas, tuberculose, febre tifóide, morte negra. As guerras e suas grandes matanças, as mortes religiosas e cultos suicidas.

O quarto capítulo se dedica aos falecimentos peculiares. Mortes inexplicáveis, combustões espontâneas, e todo tipo de morte bizarra.

O quinto capítulo, e um dos mais interessantes, revela a ciência da morte, seus limites biológicos e

 químicos, como funciona o exame da autópsia e as formas de preservação dos corpos.

O sexto capítulo faz um tour pelos cemitérios mais famosos ou bizarros do mundo, os museus da morte, e a morte como turismo.

O sétimo capítulo foca nas maneiras históricas e atuais de se desfazer de corpos, desde os enterros ritualísticos até os métodos da máfia italiana.

O oitavo capítulo aborda os costumes culturais envolvendo os mortos em todo mundo, e, finalizando, o nono capítulo fecha o livro com contos que abordam o que há, ou se há, algo após a morte.

É diversão garantida! Todos os textos foram escritos pela escritora Bronwyn Carlton, especializada em literatura criminal e forense, e as artes são feitas por um desfile de talentos como Craig Hamilton, D´Israeli, Rick Geary, Steve Bucellato, Linda Medley, Mark Badger, Joe Orlando, Hunt Emerson, e muitos outros. Recomendo também o fabuloso Big Book of Unexplained, onde o escritor de quadrinhos Doug Moench, junto com vários artistas, o levam a um passeio pelo mundo do estranho e bizarro, e eventualmente charlatanesco. Sempre com um bom humor negro e ironia.

8 - MARCO, O MACACO DO ESPAÇO - Daniel Lopes (Mês, 2014)

Em um mundo perfeito, a viagem do macaco Marco pelos confins da galáxia seria uma publicação semanal em coloridos suplementos de quadrinhos dominicais.

O álbum de Daniel Lopes, mais um grande trabalho saído do fanzine Mês (por motivos puramente cronológicos, o álbum O Aguardado, do também mensaleiro Augusto Botelho, não entra nesta lista) reúne os quadrinhos que foram publicados em um ano de produção em uma versão colorida e luxuosa.

Marco é o nome de um dos primeiros macacos lançado ao espaço pelos terrestres. Seu corpo já falecido é encontrado pelos pacíficos e avançados Vimanaranos que, por sua vez, o reabilitam e o evoluem ao máximo de sua capacidade física e intelectual. O que se segue é uma homenagem aos quadrinhos do passado, com todo um clima de ficção científica dos seriados de cinema e um ritmo sempre acelerado, mas sem esbarrar em um pastiche de referências visuais estéreis amarradas para acionar glândulas nostálgicas.

O Macaco do Espaço é um estudo do quadrinho clássico, dos heróis da ficção científica do início do século XX, mas sua existência e qualidade nos dias de hoje se deve ao fato de ser um catálogo desses mesmos quadrinhos. No espaço, o primata sofre de muitas das provações e desventuras que ocorrem nas tiras de space opera, mas sempre ao seu jeito, com o seu ponto de vista. Sempre calado, pensativo e atuante. O problema maior deste quadrinho é sua duração. O personagem tem potencial para ter uma epopeia em quadrinhos, mas o final acaba de forma abrupta, e o excesso de extras acaba fazendo você desejar mais histórias na edição. Mesmo assim, Marco o Macaco do Espaço é viciante como eram os quadrinhos de outrora. Uma leitura recompensadora.

9 - EC ARCHIVES: TWO FISTED TALES VOLUME 2 – Harvey Kurtzman e vários artistas (Gemstone Publishing, 2011 [1951-52])

Em nono lugar na lista das melhores leituras do ano de 2015 está o encadernado The EC Archives Two Fisted Tales Volume 2, reimprimindo em alta qualidade as edições de 7 a 12 da série de guerra da EC Comics. Sobre a EC é dispensável falar, se você está lendo este texto até aqui é por que sabe de cor o papel da editora em revolucionar o quadrinho no mundo, capitaneada pelas mãos de Bill Gaines

. A coletânea é da Gemstone Publishing, e a qualidade da edição é de cair queixo: papel luxuoso e capa dura. A colorização, infelizmente, não é a original (realizada pela lenda Marie Severin) mas segue seu estilo obsessivamente, mantendo o clima das edições originais e dando uma aula de cor para as edições de arquivo das grandes editoras norte americanas.

Todas as histórias foram concebidas, escritas e editadas pelo genial Harvey Kurtzman, e são uma janela nefasta para o que ocorria nos fronts em que os EUA estavam envolvidos. Entre os destaques da edição estão "Rubble!", com arte de Kurtzman, onde vemos a saga de um pai de família norte-coreano em construir, pedra por pedra, a casa de sua família apenas para que tudo, a família e a casa, deixem de existir. A narrativa é um duelo de onomatopeias onde os sons destrutivos da guerra atropelam os miúdos chiados, rastejos e marteladas que levantaram um lar. Esta história vai ser homenageada pela dupla Jason Aaron e R. M. Guera em uma edição fechada de Scalped mais recentemente. Em "Corpse on the Imjin", também com arte de Kurtzman, temos uma reflexão sobre a vida e a morte durante tempos de guerra. Como o espetáculo da morte, mesmo no caso de um corpo flutuante no rio Imjin, pode ofuscar a vida, ainda mais na soturna rotina da guerra: “Muitas coisas bóiam no Imjin! Madeira velha, caixas de munição, embalagens de ração, cápsulas de bala!… nós ignoramos estes destroços flutuantes! Por que então, um corpo sem vida chama tanto a atenção do nosso olhar?... bom, apesar de esquecermos, a vida É preciosa, e a morte é horrível e nunca passa despercebida!” Um quadrinho angustiante. Este material, entre outros da EC, estão na lista dos quadrinhos com mais urgência de serem publicados no Brasil. Já está na hora de alguma editora tomar a frente desse projeto e trazer o catálogo da EC para cá, principalmente o material de crime e guerra.

10 - MULTIVERSITY – Grant Morrison e vários artistas (DC Comics, 2014-2015)

Fechando essa lista está mais uma história de super-heróis, e, pior ainda, uma história de uma das grandes editoras! Mas, inegavelmente, os especiais de série Multiversity estão entre os melhores e mais instigantes quadrinhos que li em 2015. Escrita por Grant Morrison e com arte de vários artistas, a minissérie conta a história de um perigo tão grande que obriga heróis de várias dimensões a se unirem pra resolver o problema. Essa parte é dispensável. É interessante como Morrison abusa das metáforas para mostrar como a super comercialização dos heróis, as preocupações do mundo real e os limites editoriais estão matando o quadrinho de super-poder. Os monstros que ameaçam a realidade da história são a corporificação desses problemas e são chamados de The Gentry, uma crítica direta da gentrificação realizada no meio pelos grandes estúdios que chegam desconstruindo e reformatando os personagens. Interessante, mas dispensável, já que acaba por levar a uma outra história sem fim. O que é realmente interessante é o intricado multiverso que Morrison constrói e como cada edição especial é carregada da criatividade e da ousadia narrativa que são a marca do autor. Publicada em sete capítulos e mais um guia do multiverso, cada edição da minissérie é uma janela para um mundo paralelo do universo DC que se encontra às margens da destruição total, e temos até uma edição que se passa no “nosso” mundo e que tenta esclarecer a noção de “super-herói” que o autor prega.

Em destaque temos os deliciosos S.O.S. e Thunderworld, um universo de aventura pulp e o mundo de Shazam, respectivamente. Poucos trabalhos do autor são tão diretos quanto estas edições. Em Society Of Super-Heroes, com a belíssima arte de Chris Sprouse, um grupo de aventureiros se reúne para evitar um armagedom inca, e falham. Em Thunderworld, junto com Cameron Stewart, Morrison mostra como se faz história de super-heróis do jeito certo – muita aventura e um otimismo infantil que faz com que os heróis lutem com um sorriso no rosto mesmo diante da invasão final de Doutores Silvana de todas as dimensões.

De acordo com o mapa que o autor desenvolveu, o posicionamento da dimensão em relação a ele

 indica o quanto de realismo ou ingenuidade uma determinada dimensão agrega. No lado diametralmente oposto ao sonho juvenil dos Marvels está a edição Pax Americana, uma crítica quadrinística cifrada endereçada a Alan Moore. Retomando sua parceria com Frank Quitely, em Pax há uma intenção clara de ser uma interpretação de Watchmen. A dimensão em que se passa a história é a da Charlton Comics, lar do Besouro Azul, do Questão e do Capitão Marvel, a matriz original da série da obra-prima de Moore. Pax é uma pequena obra-prima em si mesmo, mas seu hermetismo e obsessão acabam por diluir o prazer da leitura. Mesmo assim o roteiro levanta vários questionamentos interessantes, como o momento onde explica o sucesso dos filmes de super-heróis: “Após a queda das torres, nós vendemos sonhos infantis para adultos amedrontados.” Questão e Capitão Átomo são outros destaques da revista, mas valem ser lidos e não narrados aqui.

Ultra Comics e O Guia do Multiverso são os capítulos mais metalinguísticos. Ultra Comics é o herói criado em um mundo sem super-heróis. Na verdade trata-se de uma revista em quadrinhos com uma ideia memética que funciona como um super-protetor psicológico que é acionado quando a revista é lida. Um capítulo muito interessante e que merece ser lido duas vezes para ter o efeito desejado. O guia é um passeio pelas diversas outras dimensões concebidas pelo escritor. Temos também The Just, uma deliciosa dimensão onde os anos 90 nunca acabaram e os filhos dos heróis desse período reencenam as lutas clássicas de seus pais enquanto festejam como adolescentes ricos. Uma homenagem ao Reino do Amanhã e aos anos Image da DC. Fica faltando apenas Mastermen, uma dimensão onde o foguete de Super-homem cai na Alemanha e o presente é dominado pelo terceiro Reich. Os heróis que resistem são considerados terroristas e há uma boa emulação de como a realidade pode ser distorcida entre um país e outro. Mas, nesse sentido, o Bendis lá no começo desta lista fez muito melhor. Multiversity está sendo publicada no Brasil pela Panini no mix picareta da série Multiverso DC.

É isso meus caros! Até a próxima. 

Três dias em Hicksville: cobertura do FIQ!




por Lima Neto

Prólogo -  Hicksville: uma pequena resenha

Há alguns meses atrás chegou às minhas mãos a graphic novel Hicksville, de Dylan Horrocks. Não conhecia a revista ou seu autor com profundidade e a comprei baseado num burburinho difuso que a fazia se destacar um pouco dentre as outras possibilidades de compra, além da bela capa um tanto Jayme Hernandez. 

Hicksville é um mistério. Acompanhamos o jornalista especializado em quadrinhos Leonard Batts a uma jornada pelos confins da Nova Zelândia em busca de elementos para escrever a biografia definitiva de um astro fictício dos quadrinhos contemporâneos chamado Dick Burguer. Sua busca o leva à pequena cidade de Hicksville, localizada “no cu do hemisfério sul”, uma espécie de Twin Peaks onde todos os habitantes – do banqueiro ao zelador – são apreciadores, críticos e potenciais criadores de histórias em quadrinhos. A investigação de Batts não é fácil. Tudo que ele descobre é que toda a cidade odeia Burguer e suas criações e que ninguém vai revelar nada relacionado a este ódio... e que café não é uma bebida popular na Nova Zelândia. 

No clímax da história, em uma festa comunitária anual chamada Hogan's Alley Party (para aqueles que não são nativos da cidade, Hogan's Alley é o nome da tira que apresentou ao mundo o Menino Amarelo e consolidou as páginas dominicais como um sucesso da imprensa do final do século XIX), vemos toda a comunidade da cidade fantasiada de seus personagens de quadrinhos preferidos. São tantas referências visuais, mundiais e específicas da Nova Zelândia, que a sensação é inebriante: Capitão Haddock, Fu Manchu, Mestre do Kung Fu, Ferdinando, Terry de Terry e os Piratas, etc. Esta festa é o ápice de uma sensação de valorização superlativa das HQs que emana de todas as páginas de Hicksville

Dick Burguer é um mega astro de Hollywood graças às adaptações milionárias de seus quadrinhos para o cinema. A revista para a qual o repórter Batts trabalha paga uma viagem ao outro lado do mundo para construir um perfil de um quadrinista. A mágoa envolvida em torno do que aconteceu na cidade e sua estrela internacional é tão intensa que a sensação que se tem é que o mundo gira em torno das histórias em quadrinhos. E esta sensação é o dado mais fantástico da trama. É o elemento que quebra com o realismo das interações entre os personagens e a cidade. Totalmente irreal...

...ou será que não?


FIQ 2015

Este texto é um levantamento do Festival Internacional de Quadrinhos 2015, ocorrido entre os dias 11 e 15 de Novembro. Um levantamento bem pessoal, deixando claro, pois cheguei a Belo Horizonte somente no dia 13, sexta-feira. Mas a ideia é bem por ai. Estas linhas não pretendem ser um substituto da experiência de participar do FIQ. Muito pelo contrário, elas vão mostrar um pequeno diário que busca expor a sensação de que, por alguns dias, eu estive em Hicksville. E lá sempre é uma festa. 


Dia 13 de Novembro

Uma semana de poucas horas de sono não tiraram a excitação de que nos próximos três dias eu iria respirar quadrinhos, ou pelo menos mais quadrinhos do que eu já respiro normalmente. A chegada é aquele ritual apressado – guarda mala, toma banho, almoça e vai pra Serralheria Souza Pinto, o tradicional espaço físico onde ocorre o evento. A própria localização do lugar já é peculiar: um enorme galpão no centro-sul de Belo Horizonte, embaixo de um viaduto que também serve de área de lazer e sempre ocupado aos sábados pelo pessoal do Hip Hop. Logo ao lado da Serralheria está o Parque Municipal Américo Renne Gianetti, um dos parques mais bonitos que eu já vi com uma vastidão de árvores que compõem um ambiente bucólico, porém não livre dos problemas sociais que estão presentes na maioria dos grandes centros: uma comunidade de cidadãos dependentes de entorpecentes que tomam as ruas e becos sem o alento de nenhum cuidado social, apenas obedecendo ao contrato implícito de que, se não mexerem com a população, estarão salvaguardados de intervenção policial. Todo o centro de Belo Horizonte refletia esta descrição, o que ajuda sempre a lembrar à multidão de apreciadores de quadrinhos o verdadeiro significado de “sarjeta”. Como evento de quadrinhos, o FIQ se posiciona lado a lado com um “underground” de Belo Horizonte, refletindo sua relação com as possibilidades subversivas do meio, mas sempre como um potencial de integração e não segregacionista. É muito significativo que o FIQ ocorra neste lugar. 


Diferente de edições anteriores, a versão 2015 parecia um pouquinho menor. Não havia uma área de salas de aula onde ocorriam as oficinas bem no meio do saguão principal, e também faltava o diário do FIQ, publicação que resumia os acontecidos do dia anterior. Mesmo assim a sensação é de finalmente estar em casa, reencontrar os amigos. A falta de uma área de salas abria espaço para mais mesas de artistas, e ainda era pouco. Foram mais de 200 lançamentos, muito mais do que qualquer orçamento poderia acompanhar. Apliquei então uma metodologia simples: apenas iria meter a mão no bolso depois que visse todas as bancas e mesas de lançamentos. Olharia tudo com calma e tirei uma fotografia das publicações que me pareciam interessantes. A tarefa não foi tão fácil quanto parece. No final do primeiro dia, registrei apenas uma parede e meia de mesas de artistas e standes de editoras. 


Chaykin e Mike McKone
Este FIQ 2015 teve como tema principal o papel da mulher nos quadrinhos. Longe de ser recente, esta discussão encontra eco na quantidade enorme de mulheres com lançamentos programados. Não por acaso, as palestas e a escolha dos convidados eram reflexo deste tema. Cada vez mais as HQs vêm perdendo seu papel de entretenimento masculino adolescente para se assumir com arena de discussão e atuação das minorias. Gail Simone, Babs Tar, Marcelo D'Salete, Jen Wang, Marguerite Abouet e até mesmo Howard Chaykin, cada autor tinha um discurso a expressar e buscar repercussão na imensa quantidade de visitantes. Seja através do tema principal, o  feminismo, seja passando pelas minorias étnicas, raciais e sexuais, até à sempre urgente necessidade de aceitação seus apetites sexuais (sim, estou me referindo a Chaykin). 

Um fanboy e Howard Chaykin
Neste meu primeiro dia ocorreu a palestra com Howard Chaykin no auditório do evento (batizado de  Mateus Gandara como uma emocionante lembrança desse artista que carregava todo mundo com sua ferrenha empolgação). Bem-humorado, Chaykin interpretava um papel pouco visto entre os artistas norte-americanos: longe de ser simpático, o autor de American Flagg era provocador e carismático. Sempre com um “fuck” no discurso, o que acabava atraindo a atenção dos olhares para o tradutor de libras tentando descobrir quais eram os gestos correspondentes ao palavrão, Chaykin atirava para todos os lados. Ofendia alguns fãs de maneira jocosa, destratava a industria dos EUA e resmungava pelo fato de seu traço não ser mais apreciado nos quadrinhos de hoje. Howard Chaykin estava se sentindo bem à vontade. Fez uma pequena biografia onde revelava as origens precoces de suas experiências sexuais (achou quando muito pequeno uma caixa de revistas pornográficas - “não eram do tipo Playboy” - que construíram sua sexualidade) e revelou os interesses fashionistas muito presentes em seu trabalho dos anos 80. Chaykin soava como um dos personagens amargurados de Hicksville. Entretanto, esta amargura não escondia sua felicidade por estar lá. Como ele próprio disse, “nada me deixa mais feliz do que ser reconhecido e respeitado." 

Jeff Smith!
Cheguei ainda a tempo de conseguir um autógrafo do autor de Bone, Jeff Smith. Aguentar uma fila de 40 minutos para conseguir um autógrafo é, para muitos, muito mais uma chance de trocar alguns dedos de prosa com um artista que você admira do que agregar valor a quadrinhos que podem ser revendidos. Esse aspecto é muito valorizado pelos artistas internacionais, e eles consideram o público brasileiro muito mais como carente de atenção do que como mercenários profissionais caçadores de autógrafos. 

Mas é de noite que a sensação de estar em um mundo paralelo em que todos leem quadrinhos se acentua. Neste lado B da sexta-feira de FIQ, fomos todos a um complexo de bares no centro da cidade, bem próximo do local do evento, apelidado de “maleta”. É nesta outra mesa redonda que as conversas se aprofundam. Artistas famosos, estrelas internacionais, críticos e estudiosos das HQ´s, todos se acotovelam entre as mesas para comemorar e relaxar. Bebi e conversei com gente como Evandro Esfolando – autor de quadrinhos e divulgador das HQs e do rock nas escolas públicas do DF; Dandara Palankof – amiga íntima, tradutora da Mythos e ex-editora da HQM, responsável por retornar a publicação de Strangers in Paradise no Brasil (mesmo que por um breve período); Márcio Júnior – Pesquisador dos quadrinhos e vocalista da banda Mechanics de Goiânia, publicou recentemente o livro COMICZZZT! Rock e Quadrinhos: possibilidades de interface; Daniel Lopes – um dos editores da DC Comics no Brasil e atuante nos vídeocasts do site Pipoca e Nanquim; Paulo Floro – Jornalista da revista O Grito! Marcos Maciel – fundador da Kingdom Comics. Todos com os pulmões devidamente hiperventilados de histórias em quadrinhos. 





O livro de Márcio Júnior
A conversa variava entre comentários sobre os lançamentos, levantamentos sobre os eventos e troca de experiências editoriais, isso sem contar o saudável papo furado que fazia de todos seres humanos normais. Destaco dentre as conversas o acalorado e um tanto deprimente bate-papo com Márcio Jr. e sua realista visão do mercado. Para Márcio, se as editoras estão trabalhando com tiragens de 1000  exemplares, isso quer dizer que existem apenas 1000 leitores de quadrinhos no Brasil inteiro e que um evento como o FIQ, por mais festivo que seja, é uma reunião de todos esses leitores para trocar gibis que eles mesmos produzem entre si. Difícil não ver um pouco de verdade neste ponto de vista, e muito fácil esquecê-lo ao se colocar a cabeça no travesseiro às 4 da manhã sabendo que vai acordar daqui a 4 horas para mais festa.

Dia 14 de Novembro

O sábado marcava 38 graus nos termômetros e, no dia mais cheio de FIQ, a temperatura parecia o triplo! O calor só dava para aguentar com os din-dins (ou chup-chups, ou sacolés, etc...) de fruta que eram vendidos no evento. Salvaram minha vida e de muitos outros habitantes da vila dos quadrinhos. Outra possibilidade de salvamento era a área de descanso localizada na frente do auditório, devidamente mobiliada com pufs, bancos e muito ar condicionado. 

Este sábado de FIQ foi o mais cheio por diversos motivos, mas o principal deles foi a presença de Maurício de Souza. Com a intenção de celebrar e divulgar seu bem sucedido projeto de Graphic Novels, o pai da Mônica e do Cebolinha não apenas compareceu, como teve a mesa de autógrafos mais cobiçada de todo o evento! Crianças se espremiam, adultos choravam, jovens admiravam a longevidade deste polêmico criador que aparentava a fragilidade de seus oitenta anos. Entretanto, de todos os eventos que ocorreram neste dia, apenas consegui assistir a uma palestra – a entrevista com a americana autora da graphic Koko Be Good, Jan Wang. A entrevista foi mediada por outra quadrinista que merece atenção: Lu Cafaggi – cujo belo  e vaporoso traço deu um rosto para todo o evento. Lu se destacou junto com seu irmão - Vittor Cafaggi – pela produção do primeiro álbum da Graphic MSP, intitulado Laços, e que teve também uma continuação recente.

A razão de eu não conseguir participar das palestras foi a continuação da saga logística de visitar todos os estandes e mesas de artistas antes de comprar qualquer coisa. A essa altura, já previa que alguns lançamentos se esgotariam antes que eu terminasse e por isso concebi um plano para adiantar o processo: eu iria pular toda banca que vendesse prints de Guerra nas Estrelas ou cujo trabalho fosse um quadrinho de zumbi. Isso garantiu que no domingo, o último dia, eu já pudesse ir atrás do que eu iria comprar após realizar um verdadeiro tetris monetário em que encaixava a intenção de compra com a realidade orçamentária. Mas o domingo não viria antes de mais uma rodada de cerveja no “maleta”, novamente acompanhado dos amigos e rodeado das celebridades dos quadrinhos... surreal descreve bem o sentimento.

Dia 15 de Novembro

Levemente de ressaca e já com um cheirinho de saudade no ar. É assim que se inicia o dia 15 de Novembro, o último do FIQ. E ele teve a temperatura um pouco mais amena e a quantidade menor de pessoas dava uma agrádavel sensação de conforto. Dei início às compras com o novo (e lindo) álbum de Lélis, Goela Negra, publicado pela editora Mino - e corri pra que ele assinasse sua obra com uma de suas miniaturas de aquarelas. O processo está filmado e poderá ser visto em breve aqui na Raio Laser. De Lélis passei para a mesa de Marcelo D´Salete, onde comprei seu último livro, Cumbe, e levei para assinar, bater um papo e observar o pincel seco do autor construir sua arte em seu peculiar traço sujo e direto. O combo de autógrafos termina com o paraibano Shiko, um dos autores com mais quadrinhos circulando pelo evento. Da sessão de autógrafo no stand da Mino, eu saí com quatro títulos deste desenhista de traço belo e formalista, porém de alma agressiva e explícita. Após a sessão, dei prosseguimento às aquisições escolhidas após o levantamento extenso dos dias anteriores. Mais na frente vamos publicando resenhas desse material, mas pela foto dá pra se ter uma ideia do espírito da coisa. 

Shiko

O domingo fecha com a aguardada mesa redonda da escritora Gail Simone. Em sua palestra ela fala de sua experiência ao sair do salão de beleza em que trabalhava para sua seção de crítica e humor no site Comic Book Resources, e como virou uma das escritoras proeminentes do feminismo dentro da indústria dos quadrinhos. Seu blog intitulado “Women in refrigerators” se tornou sinônimo da denúncia da utilização instrumental das personagens femininas a favor do protagonista masculino dentro das grandes editoras e sua passagem por títulos como “Birds of Prey”, “DeadPool”, “Secret Six”, “Wonder Woman” e “Batgirl” a transformou em uma estrela conhecida por seu estilo bem humorado e atual (mesmo que bastante formalmente convencional, na opinião pessoal deste narrador). 

Gail Simone


Mesmo não tendo acompanhado todo o evento, não foi difícil perceber como a temática se desenvolveu em suas mesas redondas e atrações. A sexualidade livre e prazerosa de Chaykin não passa muito longe da liberdade feminista de Simone, ou da presença maciça de novos rostos de diferentes nacionalidades, todos buscando seu espaço nesta mídia que há muito deixou de ser de massa, mas que ainda tem frescor o suficiente para se reinventar para o futuro. No fim das contas, o FIQ não deixa de ser um refúgio, uma ilha em que se reúnem os últimos sacerdotes de uma religião em franco processo de esquecimento. Porém, como em Hicksville, as pessoas responsáveis por resguardar estas histórias e a maneira de contá-las vão cumprir seu dever com prazer e partilhando de um sentido comunitário em torno das HQs que vai contra este movimento consumista internacional onde todo o fluxo do desejo é transferido para uma megacorporação midiática. Enquanto houver FIQ, haverá pequenas publicações e um público caridoso para consumi-las. Como em Hicksville, o FIQ é uma cidade pequenina onde todos leem gibis. Onde todos partilham de uma ligação afetiva com a narrativa de imagens reprodutíveis – dos clássicos obscuros do início do século XX até os super-heróis que assolam todos os países. Somos todos consumidores e guardiões dessas histórias. 

Se você gosta de quadrinhos, de todo gênero, não deixe de visitar o FIQ pelo menos uma vez na vida! Com certeza você vai achar algum bairro nessas ruas apertadas e abarrotadas de gibis onde vai se sentir tão em casa que seu peito dói quando termina. 

Eu irei em todos!

Até o próximo FIQ!