A iniciativa ENQUADRINHOS


Novidade nos bancos de poeira do planalto central! Eu já venho dizendo que algo acontece na química que constrói os quadrinistas do Distrito Federal. Por aqui, paredes dos túneis das tesourinhas e passarelas por debaixo do eixão são encantadas e coloridas por pôsteres, lambe-lambes, ilustrações, grafites e stencil com poesia vagabunda. Bem ou mal, a linguagem gráfica ganha cada vez mais adeptos e os quadrinhos, enquanto forma de comunicação mais versátil e modelável do séc. 21, se inscrevem como mais uma forma de identidade da nossa jovem capital.

Pois eis que uma inciativa do grupo GIBI (que meigo), integrado por estudantes de pós-graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (incluindo o professor Lima Neto, membro da RAIO LASER), formalizou a criação de um evento que dá um passo além tanto na formulação teórica e científica quanto na criação artística em quadrinhos no território brasileiro. Trata-se do ENQUADRINHOS - 1° ENCONTRO DE QUADRINHOS DE BRASÍLIA (16 a 18 de setembro de 2015). Diferentemente de outros eventos semelhantes que também ajudam a consolidar o estudo dos quadrinhos como campo acadêmico, o Enquadrinhos, despojado, vai se focar em um formato mais breve (o pôster) e apostar no mérito de dar oportunidades iguais de apresentação tanto para o pesquisador quanto para o artista: existem as modalidades de inscrição "acadêmica" e "artística". 

Além dos trabalhos, divididos em quatro abrangentes eixos temáticos, o Encontro contará com quatro pauladas em forma de palestras, realizadas por gente de calibre tanto em produção acadêmica, quanto em editoração, quanto em realização artística: Paulo Ramos, Edgar Silveira Franco, Henrique Magalhães e Rafael Coutinho. Tudo isso ajuda a se pensar uma confluência dialógica entre artistas, pesquisadores e editores, elaborando a única sinergia possível para a continuidade e ampliação do movimento vibrante que ocorre com os quadrinhos no Brasil atualmente, mas que corre (sempre) o risco de morrer na praia graças à marginalização que o meio sofreu em todas as suas áreas de atuação desde... bem, desde sempre.

É hora de consolidar o grande momento dos quadrinhos no Brasil. Não apenas com uma morosa institucionalização e legitimação técnica e intelectual, mas sim com pensamento vigoroso, transformador, capaz de entender e modelar os processos que este meio de comunicação e arte move na sociedade. E isso não é possível sem que mercado, academia e os próprios artistas pensem conjuntamente. É o que o Encontro está propondo. Artista ou pesquisador, vai lá e se inscreve sem medo! É até 13 de julho. (CIM)


NORMAS PARA ELABORAÇÃO DE POSTER

1 – O EnQuadrinhos receberá resumos de trabalhos acadêmicos e projetos de produção em quadrinhos de inscritos ligados ao ensino superior. Os resumos aprovados serão transformados em posters para exibição durante o evento e se dividirão em duas categorias: Poster acadêmico e pôster artístico.

2 - Para que o pôster proposto aprovado seja apresentado é obrigatória a inscrição formal do autor, ou um dos co-autores no site do evento: www.enquadrinhos.net.br

3 - Cada poster poderá ter 01(um) autor principal e até 02 (dois) co-autores;

4 - Os resumos aprovados deverão ser adaptados para o formato de pôster e enviados para confecção até a data prevista (conferir nos informativos do site). O pôster impresso deve ser apresentado ao público por, no mínimo, um de seus responsáveis em um horário pré-determinado para apreciação geral e avaliação por parte da comissão científica;

5 - É obrigatório que o autor responsável pela inscrição forneça os seguintes dados: Título do Trabalho e nome de todos os autores com seus respectivos vínculos institucionais. Importante - Esses dados serão utilizados para confecção do certificado. O preenchimento incorreto é de inteira responsabilidade dos autores, e não implicará em troca de certificados posteriormente;

6- Prazo para sumissão de resumos: impreterivelmente até dia …, através do site www.enquadrinhos.net.br;

7 - Os posters devem obedecer as medidas de 120cm de altura e 80cm de largura, ou seja, obedecendo a orientação de retrato. Deverão estar expostos com clareza no poster: título, autores e instituição de origem na parte superior com o logotipo da respectiva instituição;

8 – O arquivo digital do pôster deve ser enviado no formato PDF atentando para o gerenciamento das cores em CMYK (cores para impressão);

9 - Abaixo do título e da identificação deve constar, em letra de tamanho inferior à utilizada no texto, a forma de contato com os autores;

10 - A área de apresentação deve conter as informações referentes aos objetivos da pesquisa, processo metodológico, corpo da pesquisa, discussão e referências bibliográficas (no caso de poster científico);

11- Deverá ser reservado 15 cm de altura na parte inferior do poster onde será colocada a identificação do Encontro (logotipo do encontro e das agências de fomento participantes assim como os apoiadores privados);

12 - Cada trabalho exposto receberá um certificado.

13 - Os certificados estarão disponíveis no site do evento em data que ainda será determinada.

  

Medo de um planeta negro!



Temos recebido colaborações de gente legal e preocupada em pensar o mundo dos quadrinhos. Ficamos extremamente felizes com o entusiasmo das pessoas em torno do conceito do site. Esta última é muito especial, porque vem de um cara que tanto eu quanto o Pedro admiramos enormemente. Lima Neto é artista plástico, quadrinista e empresário, e é responsável por uma parada obrigatória da cultura pop em Brasília: a gibiteria Kingdom Comics, no Conic. Esta loja é, desde os anos 90, ponto nevrálgico do debate quadrinístico na cidade, onde passam grandes figuras, são trocadas grandes ideias e construídas grandes amizades. Lima não apenas mencionou a RL no (ótimo) blog da loja, como nos ofereceu a republicação de um texto lúcido e necessário. Só temos a agradecer. (CIM).

por Lima Neto

Se você leu qualquer site ou blog de quadrinhos nesses últimos dois dias, já deve estar por dentro de duas novidades que veem tendo uma grande repercursão no mundo dos gibis.

Como essas notícias jã não são mais novidades e foram amplamente divulgadas até pela imprensa leiga, não vou temer spoilers…

A primeira notícia se refere ao Homem-Aranha do universo Ultimate. Como já noticiamos em nosso site, a Marvel deu carta branca para a equipe criativa do universo de Marvel Millenium para ousarem e escreverem o tipo de estória que nunca seria visto no universo convencional da editora. Esse com certeza é o maior presente que um escritor poderia receber e é uma ótima notícia também para os leitores ávidos por novidade. Sendo assim, munido de uma liberdade editorial inédita em um título do Aracnídeo, o escritor Brian Michael-Bendis botou as mangas pra fora e revirou o mundo do Ultimate Spider-man de cabeça para baixo. Peter Parker encontrou seu fim em um dos momentos mais tocantes da série e foi substituído por um novo personagem: Miles Morales. Jovem e negro de decendência latina.


Outra novidade que vem causando arrepios na espinha da juventude W.A.S.P (Branco, Anglo-saxões e Protestantes) norte-americana é a escalação do ator Laurence Fishburne como o novo Perry White, o editor irrascivo do Planeta Diario,  na nova superprodução de Zack Snyder.

Ambas as notícias foram recebidas com milhões de e-mails espumantes que podem ser classificados em uma enorme pasta com o nome de “Não sou racista, mas…”

A indústria de quadrinhos mainstream nos estados unidos, ou seja Marvel e DC, vem se debatendo como peixes fora d’água para se adaptarem às mudanças extremas que o mercado está sofrendo. A editora pertecente o grupo Warner e casa do Super-homem e Mulher-Maravilha já vem passando por mudanças polêmicas que, além de professarem o fim do quadrinho impresso mensal, com a publicação simultânea online e nas bancas, ainda acena com uma preocupação formal de promover uma inclusão de minorias sociais dentro de seus títulos. Mesmo que algumas afirmações truculentas do editor chefe da casa, Dan Didio, quase tenham levado esses planos por água abaixo (Didio respondeu agressivamente a uma leitora que o questionou sobre o por quê da editora ter reduzido o número de mulheres trabalhando na casa de 12% para 1%), a editora aumentou sensivelmente a variedade racial/social/sexual em seu relançamento, optando por manter alteregos diversos no lugar dos originais anglo-saxãos como o Elektro. Enquanto isso, a Marvel aproveita seu universo alternativo, o universo Ultimate, para explorar os benefícios que a diversidade cultural pode trazer ao mercado. A equação é óbvia, se estamos perdendo leitores a solução é trazer novos leitores que não se sentiam representados em nossos títulos.

Fanboy argumentando: "Heimdall é um deus nórdico! É incoerente!"
Essa equação não foi o resultado de um raciocínio comunitário em direção à sobrevivência, mas uma lição ensinada pelas suas companhias irmãs de Hollywood, que reconhecem já a muito tempo o quanto pode ser lucrativa a diversidade. O que não quer dizer que estejam livres de polêmica. O recente filme do Thor deixou eriçado até leitores brasileiros com a escolha de Idris Elba como Heimdall, fato que se repete agora com o novo Perry White e antes ainda com a escolha de Michael Clarke Duncan como Rei do Crime (que causou bem menos rebuliço do que o fator Heimdall, por que será?…).

Porque sou o rei... do crime?
A principal reclamação dos fãs é que tudo isso modifica a mitologia de seus personagens. Que altera cânones sagrados das comic books. Eu chamo isso de posição reacionária.

Peter Parker, Perry White, Clark Kent e Miles Morales tem uma coisa em comum. São todos personagens fictícios, criados por seres humanos que são um reflexo da época em que vivem e naquilo que acreditam. São ideias. O problema é que estas mesmas ideias são cultuadas com um fervor quase religioso pelos fãs, o que acaba por engessá-las e anulam a habilidade das boas ideias de serem abrangentes. Muito provavelmente nos guetos do bairro judeu de uma Nova York atolada na depressão do final dos anos 30, a diversidade de culturas fosse algo bem difícil de experimentar, mas isso não é motivo para se levar essa experiência limitada para frente só por que foi assim que ela foi “criada”. Concordo que certas modificações burocráticas a título de preenchimento de cotas em detrimento do roteiro são questionáveis. Mas ter a oportunidade de ver um ator do calibre de Laurence Fishburne encarnando um personagem querido como o Perry White é um prazer pra qualquer apreciador de cinema. E a gama de possibilidades que se abre com um novo Homem-Aranha, e o aroma fresco da ousadia e da criatividade põem por terra qualquer argumento reacionário onanista que apareça.

“Inteligência. Essa é a única arma capaz de deter a decadência” como diz a banda Cidadão Instigado. Os quadrinhos estão passando por uma de suas piores crises desde sua criação como mídia de massa. E ele só vai poder sobreviver se se transformar e se adaptar. E somos nós, leitores, que temos a responsabilidade de guiar esta transformação para algo que valha a pena ser lido. Queremos representatividade social e cultural, queremos estórias dinâmicas e relevantes e, acima de tudo, queremos criatividade e inovação!

O título desse artigo é o título de uma música do grupo norte-americando Public Enemy chamada Fear of a Black Planet.

Eu diria: Não temam um planeta diverso!