Razão, causalidade e narrativa: o caso das HQs
/por Eiliko Flores
O uso que fazemos das palavras é capaz de dizer muito sobre o modo como enxergamos o mundo. No uso da palavra razão encontra-se as marcas de como, em geral, a concebemos. Dizemos que “a razão disto é aquilo”, ou seja, associamos, sem perceber, razão a causalidade, como se fossem a mesma coisa. Quando dizemos que “a razão disto é aquilo” estamos querendo dizer justamente que a “causa” disto é aquilo. Mas um pensamento que se guie unicamente pela causalidade na interpretação do mundo certamente corre sério risco de reduzí-lo. O mesmo acontece na narrativa: ainda que muitas narrativas sejam construídas em torno de uma causalidade que simplesmente encadeia os acontecimentos, há sempre a possibilidade de construir de outro modo o que se quer contar. Um exemplo banal: começar pelo fim.
Se associamos de modo tão escancarado razão e causalidade, e se é verdade que a causalidade não é tão importante assim para a arte, não é estranho que se associe tanto arte e loucura. O reino da arte consegue subverter o primado da causalidade, permite o exercício de uma racionalidade outra, sem as rédeas e margens do mecanicismo. Subverter os meandros da causalidade na narrativa, explorar os múltiplos significados que podem surgir quando deixamos de ser regidos pela racionalidade anquilosada do pensamento estreito e unívoco, abrindo campo para a exploração de associações inesperadas, é uma experiência de liberdade: é deixar que emerja o mistério e a plurissignificação, é a descoberta de novas maneiras de interpretação e figuração do mundo, capazes de surgir do choque e da diferença entre os fragmentos, e não apenas de seu mero encadeamento linear, causal.
No âmbito da arte seqüencial, a justaposição de quadros pode, evidentemente, limitar-se a colocar uma ação ou pensamento depois do outro, como em uma narrativa tradicional. Entretanto, essa lógica pode ser subvertida, e não é nenhuma novidade: a justaposição de quadros pode ser capaz de associar imagens e momentos aparentemente desconexos, ocasionando a implosão de plurissignificações e simbolismos que a mera causalidade desconhece.
Associações narrativas inesperadas: uma experiência de liberdade
Citando um artista da arte seqüencial contemporânea, de reconhecida posição iconoclasta, é fácil perceber que, há décadas, Laerte produz quadrinhos que subvertem não apenas a lógica causal em sua arte (promovendo, muitas vezes, associações inesperadas que beiram um absurdo calculado) e que afrontam todo um modo de ver o mundo. Laerte subverte a lógica estreita e mecanicista do dia-a-dia, as caretices das quais faz parte a causalidade erigida como lógica imperialista do pensamento. E não é o único, é claro.
Narrativa segundo Laerte
O pensamento causal, indispensável à ciência, é de pouca utilidade para a atividade do artista e sua interpretação da existência: basta dizer que o fluxo da vida, excluídas as contingências naturais, encontra pouco amparo na causalidade, embora seja comum que tentemos conduzir nossas ações segundo esse tipo limitado de lógica, prevendo conseqüências e reações a cada pequeno instante, de maneira automática. Não é a toa que o que se chama de ironia trágica, ou ironia do destino, seja justamente a emergência na cadeia dos acontecimentos de algo imprevisto, contraditório, inesperado e completamente avesso àquilo que as expectativas usuais poderiam prever. Também não é por acaso que a arte do século XX demonstrou a inutilidade da imediatez causal frente às marés do pensamento interior e suas associações selvagens, essa dança das idéias e sensações que transfigura o mundo exterior em símbolos e significações.
É o caso do movimento geral dos sonhos que encontramos em Little Nemo, por exemplo. É curioso ver que ali a lógica da criança está associada a tudo, menos à causalidade: e é inevitável notar que o jogo de associações que resulta da exclusão da causalidade imediata – que obviamente emula o universo infantil mais primário – alcança, em Little Nemo, justamente a expressão de muitas das possibilidades poéticas da arte seqüencial. A zombaria que se faz da causalidade, como nas vanguardas do século XX, associada com freqüência ao mundo infantil por razões óbvias, é, na arte, expressão da mais alta maturidade e domínio de expressão.
Little Nemo: lógica da criança não está associada à causalidade
O Dr. Manhattan de cada um
Utilizando nomenclatura que talvez seja considerada antiquada, poucas vezes a lógica causal, importante nas ciências exatas, consegue importar no mundo da arte na consideração daquilo que não está aparente, do que não é facilmente apreensível ao nosso redor. Causas aparentes, na arte, em geral são apenas isso: aparentes. A aparência é muito usada para determinar causas e conseqüências, e daí saem todos os preconceitos. Também todos os utilitarismos, toda a paranóia, toda a doentia vontade de poder que instrumentaliza o mundo, tentando dominar as causas e conseqüências de cada pequeno aspecto da realidade, até o limite da frustração. É nosso lado Dr. Manhattan – tanto mais evidente à medida que Dr. Manhattan se desumaniza, ao longo de Watchman.
É impossível negar a importância do pensamento causal e ele é necessário. Mas pode ser nocivo quando se transforma em um modo padronizado de interpretação do mundo, baseado mais em associações do que em diferenças. É isso o que a arte, incluindo os quadrinhos, consegue enfrentar. Jogar fora a causalidade seria, também, apenas infantilidade (sem arte). Recairíamos em uma ênfase desmedida no casual, no gratuito. Questões de pesos e medidas, é claro.
Não pretendemos com estas considerações nenhuma atividade prescritiva: não pressupomos este texto como uma causa, da qual se extraia necessariamente uma conseqüência. Há muito mais no mundo do que isso.
Eiliko Flores é escritor, compositor e professor de literatura brasileira.
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?