Esta solução simples e elegante (é bom quando as duas coisas vêm juntas) para uma narrativa em quadrinhos foi retirada da adaptação de Robin Hood realizada em 2004 pela dupla Marc Lizano (desenho) e Denis Leroux (roteiro), chamada Robin de Sherwood. Esta HQ em si, ligeira, encantadora, com algumas soluções interessantes e arte charmosa, pode ser despretensiosa e até um tanto esquecível, mas esta página especificamente acabou retida na memória. Por quê?
Vejamos: você já deve ter notado que esta página divide um só espaço (a floresta, o rio, a cachoeira, o tronco caído), a partir de somente uma angulação, em vários quadros. Não há, como podemos ver, nesta página, uma decupagem (que mostraria um mesmo espaço em vários ângulos diferentes, aquilo que em cinema chamamos uma montagem analítica). Ou, se há o corte do espaço, ele divide em várias imagens uma única e mesma imagem, como em um quebra-cabeças. A diferença é que, em um quebra-cabeças, não há movimento porque não há uma sequência ordenada de visualização das imagens. Um quebra-cabeças pode dividir sua imagem em pequenos pedaços ou peças, mas não a divide em quadrinhos. Se há uma imagem em uma paisagem de quebra-cabeças, este movimento interior (na terminologia de Bergson) pertence à imagem antes de sua divisão em peças. O que podemos afirmar, absolutamente, é que não há movimento exterior (ou seja: um movimento sequencial, euclidiano), numa paisagem de quebra-cabeças. Trata-se, apesar de sua divisão em peças, de uma imagem só, uma pose, um instante apenas (ainda que o movimento interior possa indicar mais de um instante, conforme tentou demonstrar a pintura moderna).
Como podemos ver, há movimento (não apenas interior, como o da cachoeira) nesta página. Robin Hood começa sua ação no primeiro quadro superior à esquerda e aparece nos três quadros seguintes, que, em ordem serpenteada, fogem, digamos, à “dicção” comum dos quadrinhos ocidentais, com ordem de leitura esquerda-direita, cima-baixo. O cenário permanece o mesmo em um grande quadro segmentado em quadrinhos, mas o movimento do personagem principal se incide fantasmagoricamente sobre ele: não há mudança de espaço nos quadros, mas há o movimento de seu protagonista por esta floresta “congelada” (vamos lembrar que, em quadrinhos convencionais, quando se muda um quadro, muda-se também o cenário conforme o movimento). Bergson nos alertava sobre não confundir “movimento” com “espaço percorrido”, o que parece uma dica interessante para quem estuda a narratividade em quadrinhos. Já Deleuze atualiza Bergson ao dizer que “o movimento será a passagem reguladora de uma forma a outra, uma ordem de poses ou instantes privilegiados”.
Bem, o que se depreende disso? Primeiro, que o que vemos nesta página é exatamente uma visualização do espaço percorrido, acima de qualquer outra coisa. Logo, para Bergson, não se trata de movimento. Para o pensador francês, o movimento é uma categoria mais fantasmagórica e sutil: “sempre se faz no intervalo entre dois instantes ou duas posições, às nossas costas”. Isso fica claro em algo como o cinema: percebemos o movimento das imagens, mas não o vemos. Quando procuramos o movimento, ele já passou. Um instante já se tornou outro. Por isso cabe resguardar, para o que percebemos do movimento (e para o movimento do cinema especificamente). a ideia de que estes instantes percebidos são privilegiados, ou seja: a percepção do movimento é uma seleção, um slide-show criado pelo nosso próprio filtro perceptivo, e o cinema seria uma epítome deste processo, pois o denunciaria pela sua artificialidade. Já para Deleuze era muito importante frisar que esta passagem de uma forma a outra é reguladora, ou seja, que provoca um mudança de estado na coisa que é movimentada, algo que ajudaria na produção de significação do cinema.
Uma página de quadrinhos como esta, como podemos ver, funcionaria como um mapa deste tipo de percepção selecionada da realidade muito mais esquemática e resumida. Digamos, um filme com pouquíssimos fotogramas (como sugere Scott McLoud). Até aí nada de novo. Porém, a manutenção do cenário, transformado em suporte para um movimento “fantasmagórico” do personagem implica na criação de um impasse ou até um pequeno paradoxo em relação a se isto constitui, efetivamente, algum tipo de movimento ou não. Afinal, ao contrário do cinema, aonde o movimento é percebido como completo, em uma página como esta a ênfase no tal instante privilegiado é definitiva, não apenas porque literalmente recorta este instante do espaço exterior, como também porque mantém este mesmo espaço lá, sugerindo uma continuidade e ao mesmo tempo uma disjunção. Pequenos filmes em loop, GIFs animados, praxinetoscópios e outras formas de movimento paranoico, repetitivo e que se reporta diretamente à posição estática funcionam mais ou menos sob a mesma lógica: recortam o instante privilegiado, o eternizam com o movimento, mas ao mesmo tempo não provocam a tal mudança de estado sugerida por Deleuze, algo que, nos quadrinhos, vai ocorrer muito mais com a conquista do espaço (logo, pela mudança de cenário) e pela emulação do tempo do que em uma forma como esta.
Esta estranha forma em quadrinhos, em quase tudo paradoxal e alienígena, não é nova e nem tão rara. Vejamos este exemplo clássico, da inesquecível tira Gasoline Alley, obra-prima de Frank King, ainda nos anos 1930: