Aura de Eisner





















Estive em São Paulo recentemente, mas a passagem foi muito curta (apenas uma segunda-feira, praticamente). Logo após sair de um importante compromisso, queria voar até o Centro Cultural São Paulo para ver esta exuberante exposição de Will Eisner e escrever algo aqui para a RL. Bem, segunda-feira os museus fecham e fiquei na mão. Ainda bem que essa figura de impressionante solidez intelectual e artística que é Lima Neto foi e executou, com primor, a minha intenção, para a página da Kingdom Comics. Ele liberou o texto pra gente. Salve! De minha parte, apenas uma modesta contribuição: estou disponibilizando o arquivo de power point (aqui!) sobre Will Eisner que usei para aulas de História e narrativa de Quadrinhos na Universidade de Brasília (Valeu Lima! - CIM).
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por Lima Neto
fotos de Rafael Felix

Se você é assíduo leitor deste blog já deve saber do que é feito uma boa História em Quadrinhos. Aquela mistura mágica entre narrativa gráfica e ou texto, uma arte fluida e convincente e aquela habilidade cada vez mais rara de saber como contar uma história. Se esta definição lhe traz o nome de Will Eisner à mente, então você precisa ir urgentemente à exposição “O espírito vivo de Will Eisner” que está rolando no Espaço Cultural São Paulo, ou torcer para que ela visite sua cidade. Mas, para apreciar a beleza desta exposição é preciso que deixemos todas essas qualidades citadas acima de lado, o tipo de magia que se pode experimentar na mostra é de um tipo bem diferente e secular.


Antes de explicarmos a aparentemente paradoxal afirmação acima, vamos nos recordar que as Histórias em Quadrinhos como conhecemos hoje é fruto de uma necessidade comercial nascida da imprensa do começo do século XX com as possibilidades tecnológicas de reprodução das imagens que começaram um vertiginoso avanço com a invenção da fotografia. O surgimento destas tecnologias também foram responsáveis pela mudança no paradigma das artes plásticas, que, colocando de maneira bem simples, deixaram de lado a representação da realidade após perceberem a extrema eficiência com que as fotografias realizavam essa função e passaram a explorar questões mais abstratas e conceituais do fazer artístico. O crítico Walter Benjamin discute amplamente o impacto das novas tecnologias na arte em um texto seminal intitulado “A obra de Arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. Neste estudo, ele afirma que esta mudança radical da arte é decorrente da morte da “aura” – uma qualidade específica das obras de arte que está ligada à sua existência real na história e só pode ser sentida na presença da obra original – mas, com as possibilidades de reprodução que começaram a se desenvolver, esta aura já não fazia mais sentido. Dos escombros da arte tradicional, nasceram as HQ’s.

E o que isto tem a ver com a exposição “O espírito vivo de Will Eisner”? Ao entrar na galeria, previamente sinalizada com dezenas de banners com imagens clássicas de Graphic Novels de Eisner e de seu mais famoso personagem, o Spirit, pode-se perceber que se você quer ler um bom quadrinho, o melhor lugar é na sua casa sentando confortavelmente acompanhando de uma boa xícara de café. O que está sendo mostrado na galeria montada na Gibiteca Henfil no Centro Cultural São Paulo, mesmo sendo páginas de HQ, exala uma qualidade única, tocante, fantasmagórica e poderosíssima – uma aura, digna das pinturas mais clássicas da história da arte!

A mostra é recheada de páginas originais de quadrinhos, abrindo com belíssimas artes de Contrato com Deus, passando pelos traços paranóicos de Um Sinal do Espaço, pelo colorido etéreo de O último Cavaleiro Andante e através dos quadros/quartos de Avenida Dropsie. Estão presentes ainda os aguados de nanquim de Fagin o Judeu e muito mais páginas de várias outras Graphic Novels que dão forma à primeira parte da curadoria. A segunda parte é focada no Spirit e segue com mais páginas impressionantes diretamente dos anos 40. Separando as duas alas está uma mesa-painel com objetos pessoais do artista, como seus famosos óculos e cachimbo, esboços, quadrinhos raros e quinquilharias temáticas. Na ala de Spirit podemos ver ainda ilustrações do autor, inacreditáveis originais de capas clássicas de Spirit e reproduções em Silk Screen. Fechando a exposição há ainda uma ala separada construída com uma cenografia toda especial representando o cemitério Wild Wood (onde supostamente está enterrado o corpo de Danny Colt), onde podem ser vistas raríssimas peças como uma estatueta original produzida por Eisner em conjunto com o artista plástico Peter Poplasky representando o justiceiro de Central City em toda sua força. Mais belo ainda é o quadro de Spirit pintado em tinta acrílica sobre papel de pão que iria servir como design para uma tapeçaria encomendada pela esposa de Eisner.

Porém, nem esta narração da mostra, tampouco as fotos abaixo, são capazes de expressar o forte sentimento que pode se sentir ao observar a belíssima exposição. Ao olhar atentamente as artes originais, apreciar os traços firmes e expressivos, observar as camadas de nanquim e a maneira precisa com que se acumulam e se dispersam dando vida às sombras dos cortiços da Nova Yorque de Eisner e a saborosa ilusão causada pelas pinceladas de branco contrastando com os tons escuros, pode-se desconstruir os desenhos, refazendo cada passo em um processo impressionante que nos leva ao lápis, do lápis à folha em branco, e da folha em branco diretamente para dentro da cabeça deste que foi um dos maiores gênios do século XX. Neste momento abro mão da impessoalidade do texto jornalístico para escrever aqui um relato sincero. Nos mais de 10 anos estudando arte, e dos 30 anos em contato com quadrinhos, nunca pude me deparar com o fenômeno da aura artística. A razão é óbvia. Nunca tendo visto uma obra clássica do calibre de um Velásquez, por exemplo, de perto, nunca pude experimentar esta sensação atemporal de desconstrução que pode nos transportar à presença quase tangível do artista. Se as histórias em quadrinhos, como uma mídia do século XX, não gera tal sensação, ou gera um outro tipo de sensação específica que ainda carece de estudos mais aprofundados, a obra viva de Eisner transborda desse sentir. A cada painel, cada pincelada, cada estratégia percebida para compor as páginas de seu quadrinho, podemos sentir, como que olhando por cima de nossos ombros, a presença de Eisner.



Termino parabenizando a equipe responsável pela mostra (especialmente o belíssimo trabalho de iluminação de Marisa Furtado e Tadeu), pois através dela pude realmente descobrir e experimentar o que é a Aura artística de Benjamim, ainda mais emanando de uma exposição que, embora não sendo uma história em quadrinho em si, expõe o seu corpo irreprodutível. Se, ao ler uma Graphic Novel de Eisner, podemos experimentar o seu pensamento, sua filosofia, sua maneira de ver o mundo, ao ver seu traço exposto, seu trabalho braçal de desenho, podemos sentir uma corporeidade fantasmagórica. Como olhar para um corpo, mas não um corpo morto, sem vida. E sim um corpo vivo, ativo e animado pelo encontro dinâmico do observador com a obra. Se algum quadrinho de Eisner já lhe tocou em algum momento, caro leitor, então arranje um jeito de ver esta exposição!

Confira abaixo as fotos da cobertura exclusiva Kingdom Comics (a agora Raio Laser!) e também um vídeo feito pelo mestre Evandro, do blog Esfolando, onde o dono da maioria do acervo da exposição, Denis Kitchen - da editora Kitchen Sink, faz um tour especial pela versão carioca da mostra que rolou na Rio Comicon!

A mostra está ficará em São Paulo até 18 de Dezembro, então ainda dá tempo de conferir! (Valeu James!)





































A Bolha Editora: relação visceral





















 por Pedro Brandt

Insatisfeita com o que considera mesmice, falta de ousadia do mercado editorial brasileiro, Rachel Gontijo Araújo resolveu publicar ela mesma os livros de que gosta. Para a empreitada, não poderia ter escolhido nome mais apropriado. A Bolha Editora começou a atuar este ano e já nos primeiros títulos deixou clara sua proposta.

Vá para o diabo, do argentino Federico Lamas, por exemplo, apenas parece um caderninho do tipo moleskine repleto de ilustrações. Mas visto com o auxílio de um visor que acompanha a publicação (chamado de visão infernal), os desenhos revelam segredos (escabrosos e divertidos), e mostram o que, a olho nu, o leitor não consegue perceber.


A celebração, do moçambicano Rui Tenereiro, Powr mastrs vol.1, de Christopher “CF” Forgues e 0-800-Ratos, de Matthew Thurber, ambos americanos, são histórias em quadrinhos com artes e tramas pouco convencionais. Seu corpo figurado, de Douglas A. Martin (com tradução do escritor gaúcho Daniel Galera) é o primeiro lançamento da coleção Just a Bubble (dedicada à prosa) e apresenta uma análise dos trabalhos dos pintores Balthus e Francis Bacon, e do poeta Hart Crane. Até o final do mês, mais dois livros da coleção serão lançados (em coedição com a editora Autêntica).

Rachel conta que, por enquanto, o retorno que A Bolha vem recebendo chega mais na forma de reconhecimento pela iniciativa do que em número de vendas. Ainda assim, a receita geradas pelos livros tem lhe dado condições de pagar algumas das contas da editora e acreditar em seu futuro. A Bolha, afirma a editora, é um projeto de vida.

Antes de começar A Bolha, esta brasiliense de 33 anos estava nos Estados Unidos, terminando um mestrado no Instituto de Arte de Chicago e dando aulas na Universidade de Columbia. “Escrevendo e passando frio”, ela lembra sobre estes anos que foram fundamentais para sua formação e na decisão de montar a editora. Antes disso, na Universidade de Brasília, ela fez mestrado em filosofia (curso que estudou na França) e, na cidade, trabalhou como editora assistente na Unesco. De volta ao Brasil, Rachel escolheu o Rio de Janeiro para morar. Lá, montou a sede d’A Bolha, no terraço do prédio onde funcionava a fábrica de chocolates Bhering. É onde vende os livros de sua editora e diversas outras publicações nacionais e importadas, todas de artistas com afinidades com a proposta da Bolha.

Linguagem como corpo

A Bolha, nas palavras de Rachel, busca trabalhos de investigação estética quase marginais, malcomportadas. A escolha deles, ela diz, é estritamente pessoal. “Não existe curadoria que não seja pessoal e, se existe, não me interessa. Eu gosto do trabalho e publico. Pode até parecer ingênuo, mas não acredito em nenhum outro tipo de escolha editorial. Acho que esse negócio do ‘gostar’ nas artes tem menos porquês do que geralmente se imagina. É visceral. Tem que ser, se não, qual a graça?”, explicita Rachel. “Eu gosto de artistas e de escritores que arriscam a própria linguagem como corpo. Eu acredito muito no que a Hilda Hilst dizia, que ‘a carne é que sente’. Eu gosto de artistas que não têm medo da própria carne”.

E por falar em Hilst, em 2012, A Bolha publicará nos Estados Unidos (em parceria com a Nightboat Books, de Nova York), A obscena senhora D, célebre romance da escritora paulistana. “O segundo titulo de Hilda, Cartas de um sedutor, ainda está sendo traduzido e só deve ser lançado em 2013. E Fluxo-floema, em 2014”, adianta Rachel.



A Bolha Editora

Lançamentos: 0-800-Ratos, de Matthew Thurber, 24 páginas, R$ 12; A celebração, de Rui Tenereiro, 108 páginas, R$ 39; Powr mastrs vol.1, de Christopher “CF” Forgues, 120 páginas, R$ 36; Seu corpo figurado, de Douglas A. Martin, 148 páginas, R$ 34 e Vá para o diabo, de Federico Lamas, 52 páginas, R$ 35. Informações: www.abolhaeditora.com.br.





Entrevista com Rachel Gontijo

Você é brasiliense. Como a cidade te influenciou no gosto pelas artes?
Sim, eu nasci em Belo Horizonte, mas sou brasiliense. Demorei muito tempo para me sentir confortável suficiente na minha relação com Brasília para poder afirmar isso. Não tem como um lugar onde se vive tanto tempo não influenciar de alguma forma. Mas para ser sincera, acho que Brasília me influenciou pelas próprias limitacões — da cidade e das minhas limitações em relação à cidade. Aqui se vive numa espécie de estética da imposição e/ou imposição estética. E são justamente esses movimentos de imposição que não me interessam nas artes, e que tento combater diariamente, tanto no meu trabalho de editora como na minha própria escrita.

Como tem sido o contato com as editoras estrangeiras? E o que é mais difícil nessas negociações?
Meu contato é quase que só diretamente com autores. Eles apostam em mim e eu neles. Foi assim em todos os casos. Tanto com Nathanel, Douglas A. Martin, Gail Scott, Bhanu Kapil, como com Federico Lamas, Rui Tenreiro, Marc Bell, Heather Benjamim, Christopher Forgues e Matthew Thurber. O que faz todo processo ser muito mais prazeroso. É realmente uma parceria. Mesmo no caso da Picturebox, liderada pelo grande Dan Nadel (editor do Thurber e Christopher “CF” Forgues), a relação acaba sendo direta com os autores. Mais difícil e desinteressante é a negociação com agentes. É um diálogo, na grande maioria das vezes, baseado em números, seco. Então tento evitar.

Você vai lançar livros da Hilda Hilst nos Estados Unidos. Come você percebe o interesse de literatura latinoamericana por lá?
Eu não acho que tenho conhecimento suficiente para falar sobre o interesse na literatura latinoamericana como um todo (na América do Norte). Confesso que tenho uma certa dificuldade com esse termo, “latinoamericano”, até pelo próprio entendimento norteamericano do que vem a ser América Latina e o latinoamericano, o que acaba quase por se transformar numa categorização. O que posso dizer é que muito pouco se conhece da literatura brasileira por lá. Não tenho medo nenhum em afirmar que a literatura brasileira, infelizmente, é inexistente na América do Norte. A verdade é que, tirando alguns poucos, sempre mencionados autores brasileiros, somos quase que invisíveis no norte. Mas acredito sim que hoje se tem mais espaço para se mudar essa realidade, para que o norteamericano se deixe ser mais curioso em relação a outras linguagens. E não acredito em melhor abre-alas que Hilda Hilst para forçar ainda mais essa abertura.

Como foi o seu contato com essa produção mais alternativa de quadrinhos?
Eu comecei a prestar mais atenção — pelo menos com mais consciência — em quadrinhos quando estava indo embora de Chicago (2009) e me preparava para fazer uma viagem de trem com a artista Stephanie Suaer, de Chicago para Sacramento, Califórnia. A viagem duraria dois dias. E me lembro que nós passamos na Quimby’s e eu comprei uma série de livros, incluindo A drifting life (do Yoshihiro Tatsumi). Até então minha interação mais direta com narrativas se dava, pelo menos de maneira mais linear, pela escrita. Não acho que li um só quadrinho nessa viagem, mas logo depois quando voltei ao Brasil devorei um atrás do outro e continuei a pesquisar, ler, ler e pesquisar, e fiquei impressionada com as possibilidades de linguagem que a narrativa visual traz. Logo depois, durante uma residência artística em Nova York, comecei a pesquisar mais a fundo e fui encontrando uma série de trabalhos extraordinários. Eu sempre gostei muito de pesquisar, cavucar. Me ajuda a prestar menos atenção à insônia.

E os interessados em entrar para o catálogo da Bolha, como fazem?
No momento, como sou só eu tocando o projeto, e temos uma série de outros livros já programados para publicação, não estou podendo aceitar originais para avaliação. Mas espero em breve poder começar a receber originais, dar a devida atenção a novas possibilidades de publicação. E quem sabe contar também com apoio de outras editoras (leia-se: coedições).


Quem você gostaria de ver publicado pela Bolha (brasileiro e estrangeiro)?
Leando Mello, Mark Beyer, Virgilio Neto, Seth, Maura Lopes Cançado, Suzanne Jacob, John Keene, Claude Cahun. Mais Bhanu Kapil, mais Nathanel, mais Douglas A. Martin. A lista é grande e continua crescendo.

O leitor brasileiro é careta? Ou desinformado? Ou, pior ainda, desinteressado?
Eu acho que algumas editoras brasileiras é que são caretas e não têm o devido respeito, não dão o devido crédito ao leitor brasileiro.

Você já publicou alguma coisa sua? O quê?
Sim, tenho algumas partes de um manuscrito (primary anatomy) ainda em progresso em alguns jornais literários norteamericanos e algumas outras partes desse mesmo manuscrito que serão publicadas em 2012 na Mandorla (setembro) e na Evening Will Come (fevereiro). Espero poder finalizar esse manuscrito até o começo do ano que vem, mas ter tempo para me permitir escrever tem sido difícil.

HQ em um quadro: massacre de Chumblies nas trincheiras de Castrovalva, por Ian Edington e D'Israeli





















O horror da guerra em pelúcia (Ian Edington e D'Israeli, 2004): enquanto Hollywood continua gastando milhões em merchandising de fantasia e adaptando livros ruins do gênero em infindáveis partes iguais, uma história que poderia se tornar um verdadeiro renovador do gênero continua relegada a uma injusta marginalidade. E foi publicada no Brasil. Eu adquiri O reino dos malditos no ano de sua publicação pela Pixel em 2006 (original da Dark Horse), mas até um dia desses ainda podia ser encontrada em um saldão motivado pelo fim das atividades quadrinísticas de editora por muito módicos R$ 3,00 num Wall-Mart da vida. E essa HQ tinha tudo para virar um grande filme: trata-se de uma história intensa, perturbadora, e de tiro curto: pouco mais de 100 páginas que alternam entre um colorido mágico com gosto de infância e um ambiente tenebroso de devastação e genocídio. A trama é simples: em seus cada vez mais constantes e cada vez mais violentos desmaios, o prestigiado autor de fantasia Christopher Grahane adormece e retorna, em sonho, a Castrovalva, um mundo que ele criaria quando criança, povoado de fofos seres imaginários. Porém, algo muito brutal ocorreu a Castrovalva enquanto seu autor cresceu e se tornou adulto: a terra ampliou-se em seu inconsciente e foi dominada por um ditador brutal e desumano, promovendo pandemônio e horror ao antes inocente mundo infantil.


Grahane precisa então lidar com sua própria trajetória inconsciente quando esteve fora de Castrovalva enquanto, no mundo real, sua saúde perece cada vez mais. Este quadro, na verdade o segundo de uma sequencia de três, faz parte de um dos momentos mais intensos da história, quando Grahane vai parar no meio um massacre de Chumblies, antes ursinhos fofos e carinhosos (!), obrigados há 10 anos e entrarem no front desigual contra o ditador. O ilustrador D'Israeli, parceiro frequente do também britânico (os ingleses continuam sendo os mestres do gênero) Edington, ilustra a sequencia como se em "câmera lenta", num zoom aquebrantado, nestes quadros longitudinais que favorecem planos de conjunto. Mais curiosos ainda são as onomatopeias frankmillerianas, "budda budda", bem a calhar para a violência gráfica da HQ, ainda que bem melhor do que qualquer coisa que Miller tenha realizado em pelo menos 15 anos. Três conto, pessoal. Corre lá. Mais barato que meia entrada de filme de vampiro vagabundo. (CIM)


Daytripper: quadrinhos como vontade e representação























por Ciro I. Marcondes

Li Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, em um avião. De certa maneira, acabei me tornando um leitor privilegiado de uma obra que não para de receber o mais unânime e justo laureamento. No avião, você parece ainda mais dentro de Daytripper, como se esta coincidência de ironia macabra fizesse parte daquele penúltimo capítulo, de um sonho emaranhado na vida, que nunca termina. Como Daytripper nos alerta, a cada instante, da possibilidade iminente da morte (ainda que celebrando a robustez da vida), não apenas não havia como não se substituir pelo personagem Brás de Oliva Domingos (isso é óbvio, já que esta HQ fala mesmo é de mim, você, todos), como não havia como não pensar em minha própria morte, em sua iminência, naquele mesmo instante. Para quem já leu, apenas imaginem como me senti enquanto estava lendo o capítulo do acidente da TAM.  Penso que alguns não conseguissem empreender tal façanha (ler Daytripper no voo), mas a vida é esta, e o pior que podemos perder é ela própria, não é? Segui lendo, arriscando minha própria obsessão por uma morte irônica, e venci esta venturosa graphic novel.


Na página de abertura do capítulo dos sonhos, vemos Brás retornando ao episódio onírico em que se encontra, num bote, com Iemanjá, em mar aberto, rodeado por oferendas. Ela lhe diz: “Você é este barco flutuando em um oceano infinito. Estas cestas contêm desejos, ambições... forças que movem sua vontade adiante. Porém, se você ficar aqui apenas olhando para elas... cedo ou tarde... elas irão todas afundar”. Esse trecho, além de retomar a própria trajetória do personagem e dar-lhe ares mitológicos, fundamenta a linda base filosófica (schopenhaueriana, como veremos) da qual a HQ parte: a vida como insistência em resistir à força inelutável que é a morte.


Para quem ainda está por fora, um resumo didático: cada capítulo de Daytripper é um dia na vida de Brás de Oliveira Domingos – o nome nos leva ao Brás Cubas de Machado de Assis, curiosamente num romance que trata seu protagonista como meio para uma elaboração niilística e moderna da vida –, da infância à velhice. São dias fundamentais, marcados por experiências que dividem águas para o personagem. Cada capítulo é nomeado pela idade em que Brás está no momento. Isso não seria uma história particularmente incomum se, ao final de cada capítulo, não nos deparássemos com a morte do próprio Brás, sempre em circunstâncias acidentais, fazendo emergir um significado próprio da vida do personagem caso ela tivesse acabado com aquela idade em particular. A cada idade, somos um, e o que seremos no futuro será determinado tanto pelo acaso quanto por nossa perseverança.

Eu já havia escrito a respeito de outra HQ de Moon e Bá, bem menos ambiciosa, em que um mote similar se nos é (uau) apresentado: a ideia de que cada decisão nossa, a cada instante, gera um outro eu hipotético, que segue sua trilha paralela, que, por sua vez, a cada instante, gera outra trilhas, etc. Em Daytripper, esta ideia se amplifica com incomparável força lírica, colocando-nos diante de escolhas (ou acidentes) a respeito de quem nos tornamos, e como nos tornamos, e o que é, afinal, nossa biografia diante da dialética que plasma nossa vontade pessoal e as forças inexoráveis do acaso. Afinal, qual é a biografia de Brás de Oliveira Domingos? Ele é o jovem obituarista frustrado que morre em um assalto, nunca tendo conseguido sair da sombra do pai? É o escritor de sucesso que morre nas mãos enlouquecidas de seu melhor amigo? É o “pequeno milagre”, que, como uma flecha, atravessa o mundo e se despedaça? Moon e Bá criam um sistema de possibilidades, um roteiro de intervenções possíveis, um logaritmo gerador de vidas e mortes. O sentido da história, porém, convulsiona-se para o leitor: quem, quando e onde é você? Quem, quando e onde foi você? E, a mais importante, porque temos o poder de mudar: quem, quando e onde será você?

Quem, quando e onde será você?

Quando eventualmente afirmo que os quadrinhos são a forma de arte mais importante para o mundo que está se construindo no século 21, não tenho intenção de criar frases de efeito e bravatas. Daytripper aparece em um cenário cultural em que outros meios já problematizaram há muito a percepção da vida, do espaço, do tempo e da memória levando suas potencialidades ao limite. Vejamos Rashomon, de Kurosawa, e sua ideia de que a verdade é um consenso de causos. Vejamos O ano passado em Marienbad, de Resnais, em que se indistinguem a memória do fato, e a visão do personagem da própria visão do narrador, e a credibilidade do próprio ato de rememorar, tornando impossível sistematizar leitura para o filme. Já lemos o delírio como expressão da vida em Dom Quixote, já lemos a vida como jornada de volta às catacumbas do tempo, em Proust. Já lemos um dia como a própria vida, em Joyce. Daytripper faz de sua estrutura em quadrinhos e vidas simultâneas um projeto de probabilidades, e nos coloca no olho desta consciência de que devemos, inevitavelmente, calculá-las e agir, a cada instante. É um grande fardo e uma grande aventura. Os quadrinhos, em sua simultaneidade, seu vai-e-vem, acabam se tornando expressão máxima desta encruzilhada de probabilidades.

Para o leitor brasileiro, a beleza desta história tem ainda sabor especial, porque os gêmeos a situam numa cuidadosa seleção de memórias (não-clichês, vejam bem), de nosso imaginário cultural. O espaço, seja ele amplo (a Chapada Diamantina, as cidades de Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro), diminuto (um posto de gasolina numa estrada brasileira, uma mesa de bar, um quarto, um sítio), ou histórico (o acidente da TAM, a popularidade de um time de futebol, a tecnologia de cada época) nos é revelado com esmero e afetividade. A jornada de Daytripper, para nós, é também uma jornada enquanto brasileiros, revisitando com essa memória afetiva nossa própria trajetória nacional (muitas vezes não muito diferente da de Brás) através de objetos, marcas, formas, cores. Os personagens, tão cheios de humana complexidade, envelhecem e rejuvenescem com verossimilhança, e Daytripper não deixa de ser também um estudo sobre a fisionomia humana.


Destino schopenhaueriano

Por fim, vale pensar uma conclusão de base mais filosófica, já que, afinal de contas, a HQ trata, de maneira muito específica e direta, da vida e da morte. E é fácil levar uma leitura focando em algum tipo de épico íntimo (é um paradoxo, eu sei) que traceja o rompimento brusco entre a grandiosidade de cada momento da vida e a obtusidade da morte. Porém, pensando em um filósofo como Schopenhauer (e podemos avançar para um procedimento psicanalítico, em Freud, ou científico, em Richard Dawkins), nós somos movidos por um ímpeto originário e gerador de todas as coisas, chamado Vontade, que nos impele, em moto perpétuo, adiante.

A irrefreável Vontade é, de maneira um tanto platônica, o movimento natural e invisível de todas as coisas, combustível processador e gerador do mundo e que é, no fim das contas, o mundo em si. Essa Vontade – que é ao mesmo tempo nosso instinto de sobrevivência, o pulsar de nossa consciência, nossa sensação de presença e nossa força libidinal – se manifesta em seu duplo material, a Representação (todas as coisas que vemos, sentimos e percebemos), em cuja multiplicidade se replica, em cada mínimo ser, a centelha da Vontade. O objetivo da Vontade é, num mundo de Representação, a manutenção da própria Vontade, e isso basta enquanto “sentido da vida”. Queremos arrumar trabalho, diversão, felicidade, satisfação espiritual, afeto, sexo e reprodução simplesmente porque estes são caminhos válidos e inquestionáveis para que nossa Vontade possa continuar existindo. Aspiramos não apenas a continuar vivendo, mas à imortalidade em si. A morte, é claro, seria o cessar da Vontade.

Quando os gêmeos falam em “Você é este barco flutuando em um oceano infinito. Estas cestas contêm desejos, ambições... forças que movem sua vontade adiante”, estão trazendo este destino schopenhaueriano, com toda sua pungência, ao mundo dos quadrinhos. E que melhor mídia que os quadrinhos, com sua mistura de simultaneidade em sucessão, linguagem simbólica (palavras!) e icônica (imagens!) para nos desvelar um mundo de vontade e representação? Quando lemos Daytripper, tememos a morte (como temi no avião) e refazemos a trajetória da nossa vida com intensidade e sufocamento justamente porque esta HQ atinge o coração de nossa Vontade, acendendo-lhe a centelha iridiscente. E daí passamos a olhar quem somos, em nossas dores e amores, em percalços e desventuras, em nossas origens familiares, nossos habitats, nossos céus e infernos particulares. Coisas, é claro, que nos distraem enquanto procuramos ludibriar a presença da morte, que, como Daytripper bem mostra, está sempre à espreita, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, a cada momento, a cada etapa da vida.

             
                  

Arquiteto de papel


por Pedro Brandt


Usado sem critério, o termo graphic novel está sendo banalizado no Brasil. Hoje, qualquer publicação com uma história completa está ganhando a chancela de graphic novel, sem necessariamente o ser. O fato de a trama se resolver até a última página — em contraposição, por exemplo, às revistas em quadrinhos mensais, com histórias continuando na edição seguinte sem previsão para chegar ao fim — não é o suficiente para classificar uma história em quadrinhos como graphic novel.

Isso acontece pelo fato de o termo não ter critérios tão estritamente definidos. Em resumo, uma graphic novel é um romance (o gênero literário) narrado com o auxílio de ilustrações em sequência (a linguagem visual dos quadrinhos). O que ajuda a separar o joio do trigo é a intenção do autor. As graphic novels se popularizaram com títulos que buscavam temas pouco (ou nunca) explorados na mídia quadrinhos e novas maneiras de contar as histórias, com narrativas gráficas mais rebuscadas. São obras geralmente indicadas para leitores maduros. Surge daí o selo de qualidade geralmente associado às graphic novels — espertamente usado por editoras para atrair leitores e, em muitos casos, vender gato por lebre.

Nesse contexto, Asterios Polyp chega em um momento interessante às livrarias brasileiras. A HQ de David Mazzucchelli foi lançada em 2009 e laureada no ano seguinte como melhor graphic novel nos prêmios Eisner e Harvey (os dois mais conceituados dos quadrinhos nos Estados Unidos).

O destaque que Asterios ganhou na imprensa internacional trouxe para a obra leitores que não necessariamente lêem quadrinhos. Isso foi muito importante pois gerou um feedback bastante diversificado para a HQ e uma série de avaliações e comentários tanto sobre suas qualidades literárias quanto como quadrinísticas.

Uma folheada em Asterios Polyp é o bastante para encher os olhos. O visual do álbum é impressionante. E não teria como ser diferente, já que o autor é David Mazzucchelli, veterano dos quadrinhos que há muito tempo abandonou as séries regulares de super-heróis (ele desenhou sagas antológicas dos personagens Batman e Demolidor) para se dedicar a projetos pessoais, constantemente se reinventando como artista — como é o caso em Asterios, em que Mazzucchelli apresenta um traço tão diferente dos que mostrou anteriormente que seria quase impossível saber que é ele o ilustrador da HQ sem ver seu nome na capa.

Nada na arte de Asterios é à toa. A paleta de cores, os formatos dos balões de fala dos personagens, o design do personagens, a diagramação das páginas, a construção das cenas… enfim, tudo serve a uma função na condução da história (e para causar algum efeito no leitor) e é usado de maneira criativa e inovadora. Uma autêntica exploração das possibilidades da linguagem das histórias em quadrinhos. Como narrador visual, Mazzucchelli é um mestre. Algumas pontas soltas deixadas pelo caminho da trama, no entanto, revelam um roteirista em desenvolvimento — detalhe compensado pelas incríveis ilustrações.  

Arquiteto de papel

No seu 50º aniversário, Asterios Polyp tem um momento de revelação. Filho de pais gregos (o sobrenome da família foi encurtado por um agente da imigração americana), ele viveu seus 50 anos assombrado pelo fantasma do irmão gêmeo (Ignazio), morto no parto. Arquiteto de papel (que conquistou renome graças a seus projetos, não das edificações construídas a partir deles), Asterios passou a vida como um catedrático arrogante e narcisista, preso a neuroses e visões de mundo muito rígidas, que o impossibilitaram de enxergar a beleza além de seus preconceitos — atrapalhando sua relação com as pessoas, inclusive com a mulher, Hana. Ao perder tudo em um incêndio, o protagonista sai em busca de uma revisão de sua vida.

Mazzucchelli preenche a narrativa de citações filosóficas e ensinamentos herdados dos gregos antigos. Eles surgem tanto na fala dos personagens quanto nas imagens. A aproximação com a filosofia incomodou muitos leitores, que observaram a superficialidade com que o autor as utiliza. O problema, neste caso, seria mais com o próprio protagonista do que com Mazzucchelli. Até porque Asterios Polyp não tem pretensões filosóficas. Acontece que o herói da HQ é, em muitos momentos, tão irritantemente cheio de si, prepotente, que fica difícil não nutrir alguma antipatia por ele.


Isso, na verdade, é um trunfo da HQ. Asterios é um personagem vívido, crível. Assim como são todos do elenco. Os simbolismos que pipocam pela trama ajudam a tocar a história. Mas é a trajetória do personagem e seus dramas que a conduz. Na dúvida do que é uma graphic novel exemplar? Em forma e conteúdo, Asterios Polyp é uma ótima opção.

David Mazzucchelli

O desenhista americano começou a ser conhecido pelos leitores de quadrinhos a partir de seus trabalhos com os personagens Batman e Demolidor. Do primeiro, ilustrou a mini-série Batman — Ano um, com roteiro de Frank Miller, uma das mais consagradas do Cavaleiro das Trevas. Do Demolidor, desenhou a saga A queda de Murdock, outra parceria com Miller e momento clássico do herói cego. Com o roteirista Paul Karasik, Mazzucchelli adaptou Cidade de vidro, do escritor Paul Auster.





Publicado originalmente no Correio Braziliense

Os fabulosos X-Pué Inchados: apologia de Chico Mozart

por

Ciro I. Marcondes

Chico Mozart

A história em quadrinhos que ilustra este texto se chama

Os fabulosos X-Pué Inchados

(número 1) e foi realizada em 1994 por dois promissores caras que – pasmem! – não se tornaram quadrinistas. O primeiro deles é este que vos escreve. Desenhei mais de 200 revistas completas entre, sei lá, 1988 e 1997, e devo ter acumulado uns... talvez quatro leitores nesta época. Meu irmão mais novo lia os gibis coagido por puro constrangimento. Creio que nem meu pai e nem minha mãe jamais leram nenhuma dessas histórias. Tudo parte de um grande conceito chamado “universo Bilak”, que talvez algum dia mereça um texto à parte. Acho que eu ainda não sei bem processar o autismo que era escrever e desenhar várias revistas completas por mês, de maneira obsessiva, e receber virtualmente

nenhum

feedback. Mesmo assim, nos idos de 1994, nesta incrível idade que são os 12 anos (nesta época, tricolor paulista bicampeão mundial seguido. Puta era de ouro), chamei um grande amigo meu, que fora colega da Escola Classe na 308 Sul desde a 4ª série, para uma empreitada de parceria.

Se você é de Brasília e tem o mínimo de vida social, deve conhecer a figura que é Chico Mozart. Naqueles idos de 1994 (

Copa dos EUA

, e tal), era apenas Chiquinho. Hoje, Chico é formado

em Artes Plásticas

pela UnB e trabalha no meio, mas o lance que realmente define sua inserção nas personas interessantes da cultura brasiliense hoje em dia é ao mesmo tempo sua onipresença e sua volatilidade: Chico está em toda parte, mas, ao mesmo tempo, está flutuando em seu denso mundo interno, em lugar nenhum, bem diferente da imagem boêmia, sem-noção e beberrona (ele é tudo isso também) que todos cultivam dele.

Conheço-o há muito, e posso dizer que o verdadeiro

self

de Chico é quase o avesso de sua imagem folclórica nos bares e cantos culturais da capital. Chico não é artista, não é bêbado, não é celebridade local, não é um cara com arquétipo

clown

. Sua natureza é uma coisa esquiva e indefinida, e é isso que o torna um sujeito bem mais raro e complexo, entre as hordas de hipsters da cidade.

Por exemplo: na quarta ou na quinta série, nós fizemos uma matéria de desenho animado na Escola Parque da 308 sul (vale lembrar coisas fantásticas que o ensino público nos trouxe nessa época: estudei música, teatro, história em quadrinhos...). Enquanto eu tentava achar um tipo de traço mais definido, mas sempre com dificuldade em proporções, sombreamento, cenários (essas coisas que definem um desenhista de verdade), eu percebia que Chico não apenas desenhava com muito mais personalidade, mas também muito mais naturalmente. Eu era, digamos, um pouco mais intelectualizado e aficcionado por cultura em geral, e existia uma coisa não-declarada: ele se sentia inseguro porque eu compensava minha falta de talento pra desenhar com palavras bonitas (depois das HQs, passei à Literatura em prosa; da Literatura em prosa, à poesia; da poesia... entrei na faculdade... e virei crítico, e aí me fodi mesmo), enquanto eu visivelmente, impacientemente, incredulamente, o invejava simplesmente porque ele tinha uma habilidade e senso estético naturais. Chico tem um traço espesso e cômico, altamente personalizado, com altas doses de cinismo e ironia presentes diretamente no estilo de ilustração. O seu desenho é sua tradução.

Em certo momento, participamos de um concurso para crianças, acho que da Folha de SP, para desenhar uma paródia do filme

Aladin

. Nós dois nos inscrevemos. O desenho do Chico era “Alodum”: um Aladin gordo, baiano, tosco, melequento, com pau de fora (acho que os idiotas da Folha não perceberam isso) – um primor rabelaisiano saído de uma mente infantil. O meu era absurdo, ridículo, e apenas lembrar daquilo baixa meus níveis de serotonina. A imagem daquele desenho sequer se forma completa na minha memória, tão rápida é a atuação do meu superego

em vetá-la. Não

duvido que me atormente em pesadelos esquecidos. Mesmo assim, arrogantemente eu achava aquele desenho do Chico uma coisa sem-noção demais para ter chance, e aquela excrescência que eu havia desenhado era, para mim, um franco favorito. No final das contas, Chico venceu o concurso, teve o desenho publicado, ganhou uma caixa de brinquedos maneiros, uma passagem para São Paulo (roubada pelo professor, que fugiu com o namorado). Eu fiquei na minha, tentando perguntar pro bom e velho deus por que o mundo tinha uma lógica tão estranha.

Um clássico duelo

Em 1994 convidei o Chico pra ser co-autor de uma nova série mensal que minha prolífica “Editora Nuvensinha” publicaria. Dentre vários títulos ridículos de 20 páginas que eu desenhava por mês, eu curtia a “clássica” série “Biss & Halk”, sobre dois irmãos que atingem o paroxismo da imbecilidade (teve mais de 50 edições!). Com Chico, resolvemos fazer uma nova série de humor, parodiando os X-Men. A premissa era até boa! O maléfico “Ratonético” arrasa o grupo de mutantes, que sofre alterações radicais: Charles Xavier sofre um terrível acidente e se transforma em um ser nojento, azul e flácido, completamente retardado, que consegue dar apenas uma ordem: “vai lá e bate nele”! A revista foi escrita e desenhada tanto por mim quanto pelo Chico. Dentre os novos X-Men recrutados havia criações promissoras como, por exemplo, a X-Pôr, uma atriz pornô que usa só uma tanguinha e sai com os peitos de fora. Ou o assustador X-Dunga, um ser irracional e assassino, que distribui caneladas nos inimigos (ironicamente, levantaria a Copa do Mundo naquele ano e viraria mentor e técnico da Seleção brasileiro em 2010); ou o grotesco X-monstricuspsicopaticusassassinicuscabeçudicusbebênicusdeoutricosmundicos, inspirado em um amigo que hoje é antropólogo da Presidência da República. Criações de Chico.

Infelizmente,

X-Pué Inchados

(o nome vem da nossa mania de chamar de “pé inchado” tudo que é ridículo, tosco, mal-acabado, etc) durou só essa edição, cuja simplória história se resumia a Ratonético indo atrás de Charles Xavier, mas não reconhecendo-o em sua nova forma obesa, enquanto o pau comia entre bandidos e mocinhos. Mas há uma página em especial em que o jovem Chico, o Chiquinho (11 anos), criou um padrão de ação narrativa digna de um

Krazy Kat

: Ratonético dá uma porrada em X-Zoiúdo, que atravessa a sarjeta do requadro e bate na lombada da página. Ao mesmo tempo X-Boi (uma criatura zoomórfica) dá uma barrigada em Ratonético, que rebate na lombada e rola até o último quadro da página, metendo a cara na lombada de baixo e atravessando-a até a página seguinte. Comparado com a regularidade boçal e insossa das minhas narrativas, aquilo era uma verdadeira obra de arte.

Chico Mozart é um sujeito com uma quantidade tão grande de histórias inacreditáveis que eu tinha o projeto de roteirizá-las para HQ, ficcionalizando um pouco, e pedir pro próprio Chico ilustrá-las, porque ele meio que está fora desse ramo de atividades há algum tempo. Ainda não chegamos a começar esse projeto, mas de qualquer forma deixo esse texto como incentivo e homenagem a essa figura cativante e indecifrável. Sei que o texto vai fazer mais sentido para quem habita a Capital Federal, mas, se você também é fã do Chico, escreva sua própria homenagem na caixa de comentários. Vida longa àquele que forjou seu próprio enterro!

Capa dupla e colorida!

Mundo de desgraçados: duas ou três coisas sobre um primeiro Mutarelli




por Ciro I. Marcondes

Levei a HQ Desgraçados, de Lourenço Mutarelli, para uma viagem em que realizaria prova para um processo seletivo bastante difícil. Como faz parte do primeiro ciclo de graphic novels do mais cult dos quadrinistas brasileiros (publicada pela Editora Vidente em 1993), era fininha e de rápida leitura. Boa para deglutir no avião e quem sabe produzir algo para a RL. Que catastrófico engano! Minha sorte foi ter lido no voo de volta. Desgraçados é da fase mais crua e indigesta deste excêntrico mestre, e sucede sua obra-prima mais perturbadora, a multipremiada Transubstanciação.


Certamente que uma HQ de tão doentio (todos sentidos) expressionismo, com cavalares doses de horror metafísico, não poderia ser uma leitura para descansar a cabeça. Mas a vida tem dessas lições de autopenitência, e com certeza estas experiências impensadas do acaso sempre aparecem para somar. Mutarelli, neste caso, é o próprio “abismo olhando de volta para você”. Vale explicar: Desgraçados é uma coleção de atrocidades brutais, rebaixando-se à mais abjeta miséria humana, com cenas de mutilação, suicídio, pedofilia, drogas pesadas, coprofilia e sadismo. Coisas que fariam arregalar os olhos dos realizadores de A serbian film. Certamente o título agressivo (minha mãe dizia que essa palavra – “desgraçado” – jamais devia sequer ser verbalizada), faz jus à exposição de miserabilia que se sucede. “A desgraça faz dos seres o que eles são”, diz a epígrafe do primeiro capítulo. Bem, como negar, não é mesmo?


Sexo em Mutarelli: "não se trata de vulgaridade" 
Por conta do forte impacto (pasoliniano, mas sem humor; sadeano, mas sem ser dionisíaco) que esta HQ enfia no leitor goela abaixo, acho que realmente não vale uma análise mais tradicional. A partir da expressão atormentada (ela foi escrita em um período controverso da vida do autor, que sofria de aguda depressão), impressões deste leitor. Em primeiro lugar, vale esquecer um pouco o traço mais fino e sofisticado (à Miguelanxo Prado) que Mutarelli desenvolveria mais tarde em suas obras mais consistentes e famosas, do detetive Diomedes (especialmente O dobro de cinco). Aqui, o uso do preto-e-branco, da deformação anatômica, da colagem e outros procedimentos mais “marginais” é intencionalmente grotesco, sem busca de qualquer elegância. A sexualidade é mostrada em corpos esquálidos, famélicos, flácidos, que despertam uma libido desesperada e incontrolável em quase todos os personagens. Não se trata de vulgaridade. Trata-se de outra coisa, uma essência erótica primitiva, claramente disposta a atravessar qualquer tipo de obstáculo, físico ou moral - disposta a sacrificar a saúde do próprio corpo, inevitavelmente.

Mutarelli vai prontificando a vida desses “desgraçados” – uma morfética que encontra o amor, depois se torna freira de um culto obscuro, depois psicopata; um loser que vê o pai se suicidar, se apaixona pela morfética, e termina, mutilado, no manicômio; um físico que se revolta contra Deus; a onipresença de uma figura diabólica – com passagens horripilantes do velho testamento, dando um tom de inevitável fatalismo à história. Acabam transbordando comentários sobre uma decadência social, urbana, científica, moral, religiosa (alô Bergman) de difícil solução, entre comentários desiludidos sobre o amor e o desejo. Derramando-se, no final (primoroso, vale dizer), pra um surrealismo (à Dalí) totalmente submerso no mundo dos sonhos, é difícil examinar o que o autor realmente queria dizer com tudo isso. Excelência dos grandes artistas, vale ressaltar.

"Excelência dos grandes artistas"

Louco de estimação
A única coisa que se pode perceber, no final das contas, é um certo (muito desregulado) sentimento de complacência que o autor repousa sobre seu protagonista quando este encontra alguma tranquilidade no manicômio, seja na figura autoritária, mas “piedosa” do psicanalista, seja na libertação pelo assassinato do mesmo, libertando também todos os outros gênios-loucos (o poeta Glauco Mattoso, amigo de Mutarelli, incluso) ao mesmo tempo. Essa relação com a loucura é o que sobra de sublime neste desfile dantesco. Não é à toa que saem da boca do psicanalista (que amestra a ideia mais genial da HQ: um “louco de estimação”) palavras do radical dramaturgo Antonin Artaud, com certeza a maior influência para esta obra: “Um louco é também um homem a quem a sociedade não quis ouvir e a quem quis impedir a implosão de insuportáveis verdades”.

Pensemos, portanto, que se Mutarelli cria um psicanalista que não acredita no próprio ofício, mas ao mesmo tempo se preocupa com seu paciente mesmo na hora de sua própria morte, ele adota a impensável atitude de viabilizar o caminho do infortúnio, fazendo questão de nos avisar que devemos dar chance ao extremo: deixar a loucura consumir os loucos, a psicopatia consumir os psicopatas, a desgraça consumir os desgraçados. Considerando a prolífica carreira e sucesso atual, nas HQs, literatura e cinema, deste autor sui-generis que é Mutarelli, convém, com satisfação, pensar que Desgraçados de alguma forma cumpriu sua tarefa de expurgar um pontinho de melancolia em sua mente. E não só na dele. 

The horror, the horror