Rapidinhas Raio Laser #10

por Ciro I. Marcondes, Marcos Maciel de Almeida e Pedro Brandt

"Um traidor entre nós!" Será que ele está na Raio Laser? Será a Raio Laser um antro de traidores mancomunados para defenestrar o quadrinho nacional, escrevendo resenhas de mau gosto e esculachando o herói diário que é nosso cartunista independente, que finaliza suas histórias com o nanquim do próprio sangue? Haverá uma resolução para acabar com estes traidores e encerrar a Raio Laser? Será o traidor o dissimulado, de humor com gosto duvidoso, Marcos Maciel de Almeida? Será o irremediavelmente sardônico Pedro Brandt? Será o gangsterzão Lima Neto? Será o onipresente Márcio Jr. com seu "touch of evil"? Ou será o amargo e desiludido Ciro Inácio Marcondes? Bem, a crítica é sempre uma institucionalização dos traidores (como já previa a revista NME), uma corporação de patifes, escroques e pessoas de caráter questionável. O bom crítico deve afundar a faca nas costas e trair com a mais assertiva convicção. Estamos aí, estamos vivenciando nossa diária sexta-feira da maldade. Sem recalque, sem camaradismo youtubeiro. 

Seguem mais facadas em coisas interessantes de editoras como Veneta, Mino e Avec. Além de trabalhos independentes feitos do esgotamento quase total do quadrinista brasileiro. (CIM)

PS: essas resenhas tão totalmente de boa, na verdade!

Todas as Rapidinhas Raio Laser

Rapidinhas Catarse

Wasteland Scumfucks – Terra do Demônio

- Yuri Moraes (Veneta, 2017): Em 2012 escrevi uma resenha bem sacolejada do gibi Garoto Mickey, romance gráfico de Yuri Moraes publicado pela dobro. Considerei que o cara tinha talento, mas o quadrinho era muito autoindulgente e até um tanto paranoico com sua possível recepção crítica. Pois bem, anos depois, Yuri volta com algo conceitualmente muito mais impactante e manda um dos quadrinhos brasileiros mais originais dos últimos tempos. É importante frisar que precisamos esperar e dar chance para os autores amadurecerem. Vamos lembrar que Chaplin fez uns 50 curtas antes de dirigir seu primeiro longa-metragem (que é O Garoto, de 1921. Not that anyone cares). 

Produzir um romance gráfico é um sacrifício que muitos autores corajosos se arvoram ainda no começo da carreira. Muitas vezes os resultados são desastrosos, mas acho que a rodagem que esse esforço produz não é em vão. Tem gente que defende que se deve esperar o momento certo (ou seja: mais amadurecido) para se arriscar neste gênero, mas eu apoio estes kamikazes. Nada enternece a experiência melhor do que a própria experiência. Yuri Morais sofisticou suas ideias. As dores de crescimento são visíveis, mas estão cicatrizadas. 

Digo tudo isso para comentar a porraloquice bem-vinda que é Wasteland Scumfucks – Terra do Demônio. Yuri é um cara que visivelmente manja de um bando de coisas – de mangá shonen ao proto-punk americano dos anos 70 –, e essas influências aparecem muito bem mapeadas neste quadrinho grindcore que seria uma espécie de mundo em que Hora de Aventura tivesse sido criado pelo Lovecraft. 

O plot é escroto e delirante: GG (inspirado no doentio ícone da iconoclastia G.G. Allin), escravo numa prisão-ditadura, com ajuda de um cientista arrogante e um robô com aspirações de liberdade, consegue escapar e se juntar a outros personagens tão pitorescos quanto para entrar na chamada “Terra do Demônio”. Este lugar, meio Mordor, meio Terra de Ooo, meio (dãrhl) Oz, é um celeiro de atrocidades: canibalismo, parricídio, etc. Lembra um pouco aquele episódio de Rick and Morty em que eles vão parar num reino “fofo” onde o rei era um estuprador de banheiro. Yuri apela no non-sense, nos diálogos agressivos num nível de humor negro que eu geralmente aprecio e na pesada (porém divertida) escatologia.

A arte está mais simples e estilizada do que em Garoto Mickey, com um funcional colorido chapado em preto e vermelho, dando a entender o esquematismo do gibi. Terra do Demônio tinha tudo para virar uma HQ cultuada. Tem todos os elementos: referências maneiras sem clichês, diálogos cortantes e memoráveis, humor de primeiro nível e uma dose cavalar de politicamente incorreto. Uma pena que todo o lobby dos quadrinhos hoje seja para coisas edulcorantes e que se pretendem profundas e edificantes dentro dos padrões morais atuais, mas que são visivelmente superficiais. Assim, como Diego Sanchez, Yuri Moraes é mais um que sai da nossa “treta de 2012” fortalecido. (CIM)

Contos do Cão Negro – Volumes I e II – Cesar Alcázar e Fred Rubim (Editora Avec, 2016/7): Quando recebi meus exemplares de A Canção do Cão Negro, tive quase certeza de que se tratava de material gringo. Afinal, não é tão comum nestas bandas encontrar, num mesmo pacote, publicações bem impressas, edição caprichada, paleta de cores de extremo bom gosto e identidade visual bem definida. Mas sim, Contos do Cão Negro está entre nós e é nacional. Para quem não leu, a grande referência aqui é o nada doce bárbaro de Robert E. Howard, que certamente foi leitura de cabeceira dos autores. Não que Cão Negro se resuma a isso, mas é uma influência inegável. 

O roteiro de Cesar Alcázar é competente para mostrar as aventuras do protagonista Anrath, em que pese os bizarros nomes escolhidos para batizar as cidades e personagens da HQ, tais como Grainne, Limerick e Clontarf (!). Entretanto, o gibi se sobressai mesmo é pela qualidade do desenhista/arte-finalista/colorista Fred Rubim. Dono de um belo traço, altamente estiloso e rústico – bastante apropriado para o tom sombrio do gibi –, Fred tem como principais virtudes o talento para desenhar locações e cenas de impacto. As sequências de ação, no entanto, carecem de maior sofisticação, já que, por vezes, percebe-se que o artista não deu muita bola para elas. 

Embora às vezes conte com diálogos com pouca fluidez, Cão Negro tem uma história de fundo envolvente, que desperta no leitor a curiosidade de chegar ao desfecho. E as expectativas são recompensadas, especialmente pelo fato de os autores engrossarem o caldo com a participação de entidade/divindade inspirada nos mitos de Cthulhu, sempre muito bem vindos. 

Infelizmente há uma queda sensível na qualidade da arte entre o primeiro e o segundo volume. Tem-se a forte impressão de que este último foi feito de forma mais apressada e com menor planejamento, já que há grande quantidade de imagens que estão mais para rascunho que para arte-final. Mas tudo bem, nada que o lançamento de um terceiro volume não possa redimir. (MMA)

Market Garden - Bruno Seelig (Editora Mino, 2017): Bruno Seelig é um nome para se prestar atenção. E caso você ainda não faça isso, visite agora mesmo o site do quadrinista gaúcho e entenda o porquê. As ilustrações de Seelig são daquele tipo carregadas de informação, com referências e citações diversas – cinema, quadrinhos, TV, rock, design gráfico - enfim, um apanhado geral de cultura pop fácil de descrever, mas que alcança um resultado além da simples junção das partes que formam essa mistureba, sendo tudo muito bem sacado e retrabalhado no traço do autor, dono de uma personalidade imediatamente reconhecível. Se Seelig fosse apenas ilustrador seria o suficiente para ser fã do cara e ficar babando com seus desenhos. Mas o filho-da-mãe ainda é um baita de um narrador, daqueles que dá gosto de ler as HQs.

Ele domina, como poucos jovens autores nessas plagas, a arte de contar visualmente uma história. O timing de sua narrativa é absurdamente bem-executado, ou seja, o tempo dos acontecimentos, os momentos de fala e os de silêncio (para causar diferentes sensações) e como eles são apresentados ao leitor (com closes, planos, contraplanos e angulações de câmera diversos) é eficiente e adequando, nada parece apressado ou devagar demais. Como num bom filme. Bruno Seelig tem o olhar apurado de um montador e a sensibilidade conceitual de um diretor.

Seu traquejo como roteirista e criador de diálogos acompanha seu talento com as outras categorias.

Market Garden, propositalmente ou não, mira na tão em voga nostalgia dos anos 80, ainda que a história se passe na década de 90. A HQ tem como protagonistas cinco amigos entrando na adolescência e vivendo os dilemas típicos da idade: aceitação, escola, garotas, amizade, morar com os pais, futuro profissional, etc. e tal. Poderia ser mais um quadrinho (ou filme ou série ou animação) com essa premissa. Mas entre a linha tênue entre o clichê a uma representação credível e divertida, a obra está mais pro lado de cá (onde estão também Stranger Things e Apenas Um Show).

Na seara dos quadrinhos, séries como Locas, do californiano Jaime Hernandez, ou Xampu, do paulistano Roger Cruz, habitam universos semelhantes, mas com um diferencial: trazem consigo uma inegável marca autoral e um relato bastante fidedigno de uma época. E, nelas, a visão particular desses autores, suas dores e alegrias, somam como um ingrediente que faz toda a diferença no resultado. Em comparação – injusta, talvez – a HQ de Seelig pode soar menos espontânea. Seus rapazes são hipsters que não existiam naquela época. Do grupo de cinco, apenas três – pelo menos até aqui – têm personalidades marcantes, mais trabalhadas. E suas sensibilidades não parecem brasileiras, mas importadas, como personagens que conhecemos em filmes na TV (aberta, pré-cabo), não durante o ensino médio ou numa vizinhança de uma metrópole brasileira. A HQ, aliás, poderia se passar nos EUA. São detalhes perceptíveis, mas que não chegam a tirar o brilho do conjunto. Seria Market Garden apenas um cartão de visitas do autor para chegar aos comics – ou ir além dos quadrinhos, para depois abandoná-los, como fez seu conterrâneo Rafael Grampá? Tomara que não. Com um pouco mais de pretensão e ousadia, Bruno Seelig tem tudo para se tornar um dos grandes autores de sua geração. (PB

Salto – Rapha Pinheiro (Editora Avec, 2017): Aqui mais um exemplo de romance gráfico lançado ainda no início da carreira do autor. Rapha Pinheiro estudou em Angoulême em 2016 e este Salto é o resultado de sua residência. Trata-se de uma exótica fábula com pretensos elementos steampunk situando-nos numa sociedade de povos do fogo (digo: literalmente feitos de fogo) que se acotovelam dentro de uma cidade movida a vapor, dentro de uma grande caverna. Eles se refugiaram lá por conta de uma colossal chuva no lado de fora que os traumatizou para sempre. A fábula em si, com intenção filosófica remetendo diretamente à alegoria de Platão, é bem sacada e vale o esforço de leitura graças a essa ambientação criativa. Há um planejamento no design (social, tecnológico e arquitetônico) deste mundo que abre bem as portas para boas histórias. O problema é que Rapha Pinheiro se rende a convencionalismos um tanto quanto irritantes para o seu conto moral. 

O layout das páginas e as sequências narrativas são decepcionantes, autoevidentes. Tudo ocorre de acordo com o que se espera. Os personagens, situados num conflito de classes (marcado criativamente pela cor das chamas), se reduzem a tipos e a um maniqueísmo insuficiente para debater questões atuais. Arquétipos desgastados não são mais que estereótipos. Por fim, a arte definitivamente não atrai. É esquemática, pouco detalhada e com acabamento (arte final) ruim. O colorido digital, então, coroa o gosto duvidoso das escolhas estéticas deste gibi. Acho que o autor tem imaginação o suficiente para superar estes entraves num próximo trabalho. Desta vez, não deu. (CIM)

Necromorfus – Osso do Rei

(RQT Comics/Korja dos Quadrinhos, 2017): O Marcos Maciel de Almeida já bajulou bastante o trabalho do Magenta King por aqui, mas eu acho que nunca é demais ressaltar a qualidade e as escolhas de um bom artista. Desta vez este personalíssimo ilustrador trabalha um roteiro (muito massa e original) de Gabriel Arrais para liberar sua arte (aquela coisa vistosa com influências diversas, de Geof Darrow a Tim Sale e gekigá) na forma de nanquim, aquarela e retículas. É isso que compõe o primeiro volume da série Necromorfus, que pretende reunir elementos de terror, violência tarantinesca, aventuras “adultas” à la Hugo Pratt, Vampiro: a Máscara, fumetti, etc. É um bom “gumbo” para gibis que querem alcançar o nível de excelência “Vertigo” para horror metafísico em quadrinhos.

É uma história curta, que basicamente apresenta o conceito do personagem: Douglas, um imortal que adquiriu este dom com 16 anos e desde então foi progressivamente perdendo a humanidade. Ele é capaz de tocar em matéria morta e assumir a forma e as memórias da pessoa ou animal em que encostou. E detalhe: Douglas revive também a hora da morte destas pessoas, tornando o personagem oco e sombrio. Outros elementos surgem no nó investigativo que decorre das ações de perseguidores e perseguidos pelo necromorfo: uma femme fatale que chama a sua atenção, um “psiquiatra de clientes muitos especiais”, a impressionante descrição do reencarnar na matéria bruta que é a psiquê de um urso. Há uma atraente aura de Dylan Dog neste gibi.

Necromorfus estreia bem, com decente capacidade de refletir sobre o que nos faz humanos e onde perdemos nossa humanidade. Além disso, tem acabamento de produto pop e boas leituras de suas referências. Pra um primeiro volume curtinho basta. Não dá pra ir mais longe que isso. Vamos ver se sustenta maior fôlego em outras edições. O volume 2, conforme está anunciado, terá arte de Abel. (CIM)

Reparos – Brão Barbosa (Independente, 2017): Eis uma HQ incensada pela crítica especializada, mas que não me pegou. A história de Eunice, a garota fascinada pelo ofício de consertar coisas, é bem intencionada, mas não deixa muitas saudades. De início, Reparos sinaliza que mostrará a evolução da paixão de Eunice pelo amigo Júnior, mas, aos poucos, a história passa a girar em torno da aproximação – quase filial – da protagonista com Ravid, senhor idoso, mestre na arte de reparar aparelhos quebrados. O crescimento da confiança e do afeto entre a garota sonhadora e o velho - aparentemente carrancudo, mas na verdade generoso - é bonito de se ver, mas não chega a emocionar. 

A arte de Brão, excessivamente cartunesca, também não ajuda muito. As sequências sem balões, por exemplo, são muito confusas e revelam que o autor ainda tem um longo a caminho a percorrer para conseguir dominar as sutilezas da arte sequencial, já que suas habilidades de storyteller, por enquanto, deixam a desejar.  O gibi anterior de Brão, Feliz Aniversário, Minha Amada, também fez uso do recurso – muito bem-vindo por sinal – de alterar a direção da narrativa para um caminho inesperado, mas em Reparos a escolha resultou num final menos redondo. (MMA)

Esquadrão Vitória – Giorgio Galli, Clóvis Brasil e Marcello Renoir (Gico HQ, 2017): O imortal Jack Kirby teria completado 100 anos em 2017. Muitas homenagens foram feitas confirmando o que já vínhamos percebendo nos últimos anos: a “Kirby renaissence”. Considerado ultrapassado nos anos 90 (ficou um certo tempo sem ser publicado aqui), o rei dos quadrinhos tornou-se referência de como ser responsa, perene, invocado e inquebrantável no mundo dos comics americanos. Sua persistência em adquirir garantias para a profissão, seu jeito austero de trabalhar, sua produção em escala cosmológica, tudo isso tornou Kirby “cool” como ele nunca havia sido antes. Pessoas que não gostam de super-heróis dão o braço a torcer. Todo tipo de ilustrador se ajoelha para a sua delirante e imaginativa obra. Kirby se tornou ícone, “ideia”, o Muhammed Ali dos quadrinhos. Kirby tornou-se como um dos titãs que ajudou a criar. Talvez não fosse necessário um culto de personalidade tão sectário. Mas, bem, como se sabe, Kirby é Kirby...

Daí a simpatia imediata por esta paródia/homenagem Esquadrão Vitória, que emula o estilo de Kirby/Lee (apesar de a edição ser dedicada apenas a Kirby) com uma equipe de “vingadores” inspirada em símbolos nacionais (e nacionalistas). O gibi é bem feliz em procurar mimetizar cada aspecto de um produto Marvel dos anos 60/70, com sessão de cartas “excelsior”, Kirby crackles e diversos outros easter eggs. Capa, cores, empaginação, diálogos, detalhes editoriais, tudo foi marejado no apelo nostálgico que os super-heróis da era de prata da Marvel inspiram nos adultos de hoje. 

O que achei mais bem sacado foi a transferência do contexto político-militar dos comics dos anos 60 para um da mesma época, só que brasileiro: nossos heróis servem ao governo (uns são militares), e atendem a deveres patrióticos. Ahá (xeroque rolmes), há uma interessante leitura social do Brasil por trás da aparente amenidade da história envolvendo o vilão “Suga-Mentes”. De quebra, ainda vemos o líder Coronel Alado (aka paródia do Capitão América inspirada no Capitão Aza) libertar seus sentimentos mais arraigados e hipócritas ao assumir a fantasia de onipotência com seus colegas Sucuri, Mãe-De-Santo, etc. Em algum lugar em Valhalla, no planeta de Beyonder ou até nas infinitas terras da DC, Kirby deve ter curtido essa revistinha. (CIM)

Porco Pirata

- João Azeitona (Editora Mino, 2017): Se eu acompanharia uma série de Porco Pirata? Com certeza! O que o roteirista e ilustrador João Azeitona, autor do álbum lançado pela Mino, mostra nessa primeira edição é um personagem carismático conduzindo uma trama de aventura com direito a algumas surpresas e reviravoltas. Tipinho canalha, como um típico pirata, o obstinado personagem-título irá até as últimas consequências – batalhas, traições, armadilhas – para desfazer o feitiço que o transformou em um suíno. Nada muito original, mas divertido e promissor. Acompanharia a série também para testemunhar, com o passar das edições, o amadurecimento do trabalho de Azeitona. Fácil perceber que o cara é talentoso (com um preto e branco expressivo) e está em pleno desenvolvimento. Por ora, sua narrativa é um pouco dura e ele explora bem menos do que poderia as possibilidades de construção de página, resultando em várias redundâncias e desperdícios visuais. Outra coisa que joga contra é o fato dos balões de fala serem quadrados ou retangulares com letreiramento feito no computador. Balões desenhados (e, se possível – por favor! – letras feitas à mão) dariam muito mais vivacidade às cenas e contribuiriam sobremaneira ao ritmo de leitura. Vale ressaltar que a HQ em questão está mais para a série cinematográfica Piratas do Caribe, com situações um tanto quanto previsíveis e o foco na ação (neste primeiro número, principalmente em terra firme) do que para antigos filmes ou romances de pirataria. Quem procura quadrinhos com essa pegada mais “clássica” não deve deixar de ler as sensacionais BDs Os Passageiros do Vento, de François Bourgeon, e Barba Ruiva, de Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon. (PB)

Balas Contadas – Hiram Miller (Independente, 2017): Hiram Miller é um quadrinista em formação. Em Balas Contadas, ficam evidentes as boas intenções em contar uma boa história de faroeste. Infelizmente, dadas suas limitações como argumentista e desenhista, o gibi não empolga e fica a sensação de que, mesmo após o autor apertar o gatilho, as balas seguem presas no cano do revólver.  A HQ narra um conto do “Bando Ébrio”, grupo de bandoleiros que parte em busca de um tesouro escondido. Entretanto, o que poderia ser uma aventura interessante, às voltas com seres sobrenaturais e grandes bebedeiras, revela-se um passeio tão desagradável quanto uma ida ao trem fantasma daquele parque de diversões à beira da falência: por mais que você queira achar graça, fica torcendo mesmo é para que tudo acabe o quanto antes.  Dentre os vários problemas encontrados, o que se sobressai é a falta de carisma dos personagens. É muito difícil para o leitor estabelecer empatia com qualquer um deles. O misterioso maquinista do trem que nunca para, Txotxo (!), por exemplo, não passa de um brutamontes retardado. Outro desafio é conseguir ignorar a – baixa – qualidade dos desenhos. As ilustrações são tão sofríveis que cheguei a sentir saudades de Rob Liefeld.  Mas não deixe minhas palavras te desanimarem, Hiram. Siga tentando. Um dia seus disparos acertarão o alvo. (MMA)

Pile Up – Bruno Soares (Independente, 2017): Morte, vida, ressurreição, alumbramento, o milagre da existência. Parece muita profundidade temática pra um gibi (mudo) de estreia sobre dois botânicos espaciais, não é? Pois é exatamente o que esse jovem Bruno Soares realizou como trabalho de conclusão de curso na graphic Pile Up. De tirar o fôlego, inspirada em Arzach de Moebius mas sem parecer nada derivativo (o traço lembra mesmo é o do espanhol Julio Ribera), este quadrinho extrai toda a potência das narrativas de qualidade universal que as HQs sem palavras podem fornecer.  As imagens são desenhadas em quadros grandes com beleza profética (lembra Druillet em alguns momentos; LEO em outros), fazendo associações simbólicas entre os temas giratórios e simétricos sem que uma boa história deixe de ser contada. Eu realmente adoro quando a ficção científica assume sua condição metafísica (herança de 2001), que outros planetas sejam índice para a origem da vida e seu local na existência. Soares consegue atingir este subconsciente que reúne ancestralidade e futuro distante num livro elegante, sofisticado como narrativa, imperativo como inconsciente óptico. Significa dizer que é preciso ficar de olho neste autor? Bem, não preciso explicar o óbvio ululante. (CIM)

O fogo de Promethea

Chackal pode ser estreante na Raio Laser, mas não é nenhum estranho no mundo das HQs. Artista plástico formado pela Universidade de Brasília, acompanha, há várias décadas, o universo dos quadrinhos com olhar arguto. Figurinha fácil em diversos fóruns especializados na internet, este marvete inveterado circula com diversos pseudônimos na rede, para preservar sua charmosa aura de mistério. É bem possível que você já tenha lido – e se divertido – com alguns de seus comentários por aí. Esta é sua primeira colaboração em nosso site. Seja bem-vindo.  Que venham muitas outras. (MMA)

por Chackal

Toda boa narrativa deve ser capaz de impressionar, para garantir que a estória a ser contada desencadeie empatia e cative o leitor. Muitas obras entraram para a História da Literatura universal por meio desse artifício e tornaram-se influentes através das eras. Em Promethea, a competência de Alan Moore não foi só empregada para provocar o mesmo efeito, desenvolvendo uma narrativa pujante, mas seu gênio criativo também atingiu a rara proeza de torná-la transformadora. Promethea é uma personagem ligada à intuição, ao inconsciente e às artes mágicas, elementos oriundos da imaginação humana. Ela é análoga a Prometheus, o titã mitológico que roubou o fogo dos deuses e o deu aos homens, habilitando-os a usar o intelecto para moldar o universo. 

Como tudo na obra de Moore, a coincidência de nomes não é acidental, uma vez que o mito de Prometheus encerra a essência da transformação, da evolução e da superação. Ao criar uma heroína que provém da imaginação de artistas e poetas, cujos poderes a propiciam transitar em mundos com diferentes teores de realidade e de subjetividade, Moore não pretendeu escrever apenas sobre super-heróis, muito embora sua narrativa ainda esteja voltada para as histórias em quadrinhos. Ele quis, na verdade, ir mais além e tratar do legado de Prometheus, interpretando o fogo dado generosamente à humanidade como uma alegoria, uma revelação para o caminho do autoconhecimento, da iluminação divina do ser humano.

À esquerda, Prometheus; à direita, Promethea: hermenêutica.

A inspiração pela Jornada do Herói

Na antiguidade clássica, o desenvolvimento das estórias que se pretendiam dramáticas requeria artifícios eficazes para unir artista e plateia indelevelmente. Um personagem era alçado ao status de herói se suas aventuras contivessem a mistura ideal entre inspiração, provação, superação e catarse junto ao público. Assim, narrativas épicas eram elaboradas sob o padrão da Jornada do Herói, ou Monomito – trama progressiva que demonstra tanto a evolução do protagonista quanto o vislumbrar de sua saga, estimulando as emoções do espectador e lançando-as para o palco, para a arte e para interação imersiva. Nele, o herói está atado ao destino, cuja propensão à catástrofe o impele a enfrentar desafios, a aprender com seus erros e a transcender suas limitações.

Essa jornada fundamenta-se na dialética humana, pela qual as vicissitudes do indivíduo são testadas e suas potencialidades concretizadas à custa de muito esforço e sofrimento. O herói, que conta com aliados durante suas atribulações, treina e domina o que aprende com seus mestres para lidar com os obstáculos que deve superar. Ao garantir sua vitória, seja física ou psicológica, seja mental ou espiritual, sua saga chega ao clímax, quando ele toma as rédeas de seu destino, em desafio aos desígnios dos deuses, e encerra sua jornada de modo apoteótico. Alan Moore prefere iniciar Promethea no ocultismo não pelo sacrifício, mas rendendo-a aos prazeres tântricos – no enfrentamento de velhos tabus, a heroína obtém controle de seus poderes e se emancipa.

A iniciação de Promethea: domínio pelo autoconhecimento.

Para Moore, é na harmonia dos contrários que a jornada de Promethea se afirma: a personagem ressurge no mundo ao fim de um século XX mais vinculada à razão que à intuição, sendo pelo contraste entre alguém com poderes puramente mágicos e uma realidade fundamentada na Ciência que se dá o ímpeto necessário para destravar as portas da percepção. Seu propósito, porém, não advém somente do domínio recém-conquistado sobre os arcanos do Tarô ou pelo misticismo oriental, configurado no poder dos chacras e da numerologia, mas também da partilha desse treinamento com o leitor, seu público. A evolução de sua saga se dá pela cumplicidade de quem a acompanha pelo trajeto em que essa heroína se comprometeu a trilhar.

A dialética de Promethea

A provação pela Cabala

O diagrama da Árvore da Vida.

Segundo o livro do Gênesis, quando Adão e Eva comeram o fruto da Árvore do Conhecimento, Deus os expulsou do Paraíso e escondeu deles a Árvore da Vida. Desde então, sacerdotes, rabinos e estudiosos buscam restabelecer contato com o divino. A Cabala é um sistema de crenças, que, por um lado, busca explicar a origem do universo, ou Cosmogonia, e, por outro, prega a evolução humana, ou Ascese, como meio de reaver a aliança de Deus com a humanidade. A prática cabalística sintetizou todo o saber científico e as convicções mais fervorosas então disponíveis em um diagrama conhecido por “Árvore da Vida”. Foi através dele que o universo, emanado a partir de Deus, filtrou-se por dez gradações de existência e manifestou como realidade tangível.

Na época do primeiro Templo de Salomão, seu Sumo Sacerdote usava a Arca da Aliança como meio para a obtenção de aconselhamento divino, o que significou que as práticas cabalistas serviam-lhe como itinerário para a enlevação, ao partir da realidade que conhecemos e ascender em direção a Deus. Há dez estágios de consciência pelos quais se deve passar, a fim de que o indivíduo comungue com as forças primordiais do universo e, além delas, com seu criador. Nesses estágios ou esferas, todas as impurezas mundanas de quem percorre os vários caminhos da Árvore da Vida são decantadas. Trata-se, portanto, de uma senda especial de autoaperfeiçoamento, que requer abnegação e sacrifício de quem pretender segui-la. 

A ambição do praticante da Cabala é ultrapassar os limites do mundo real.

Um dos pontos altos na narrativa de Alan Moore, a interpretação dos mundos que sua heroína pode acessar, por ser ela a personificação da imaginação, reforça a cumplicidade entre leitor e personagem na transmissão do conhecimento. Herdado de Toth-Hermes, deidade mercurial que o promove, o aprendizado é o desafio que enreda a personagem a sua saga, tanto no espaço quanto no tempo. Neste, aguçando-lhe a curiosidade sobre seu recém-descoberto destino; naquele, provocando a vontade de compreender sua função no mundo em que habita. Ambas as premências levaram-na a buscar, nos ensinamentos cabalísticos, o sentido de sua jornada heroica, tornando o percurso pela Árvore da Vida trajeto natural para uma criatura como Promethea.

A ‘Divina Comédia’ como exemplo de superação

Segundo Dante Alighieri, para chegar ao Paraíso, é preciso primeiro atravessar o Inferno. Ao descrever sua trajetória por mundos fantásticos, este autor colocou a si próprio como protagonista desse sacrifício titânico. Aliando a seus conhecimentos clássicos sua percepção de vida e renovando sua fé por meio da razão, ele enfrentou os tormentos infernais, as provações no Purgatório até alcançar o êxtase celestial. Contando com a orientação de Virgílio, poeta da antiguidade romana, que havia sido o último a escrever sobre a descida ao submundo, ou Katabasis, Dante utilizou seu périplo oportunamente para um exame profundo de consciência, sem o qual não lhe seria possível compreender o que presenciou na travessia desses três mundos.

Dante, Virgílio e o barqueiro Flégias singram as águas do rio Estige – Eugène Delacroix (1822).

Inferno é onde Deus está ausente, por isso não há luz nem calor, que não o da punição severa. Os espíritos, chamados por Dante de sombras, sofrem o pesar de uma densidade excessiva, que não lhes permite movimentar – jazem amarrados nas chamas, enraizados ao chão, atolados em lodo, afixados às rochas, submersos em fontes sulfúricas ou presos no gelo. A prisão impede-lhes qualquer esperança de jornada e, por conseguinte, de redenção. Purgatório, por sua vez, é uma montanha insular, na qual as trajetórias são circulares, determinadas como método de purificação. Os movimentos ali estão restritos à eterna rotina, que só se conclui obtendo-se purgação. Por isso, parecem carecer de qualquer evolução. A expiação só ocorre quando a consciência se purifica.

À esquerda, o Inferno - Bartolomeo di Fruosino (1430-5); ao centro, o Purgatório - Ugo Foscolo (1822); à direita, o Paraíso – William Blake (1825).

É a partir do Purgatório que a jornada de Dante se assemelha à heroica, embora a dantesca seja uma subversão, pois sua comédia se opõe à tragédia por diferir tanto na escolha do protagonista quanto na finalidade dramática. Tragédia é desempenhada por heróis ou semideuses, como Prometheus, que desafiam as convenções divinas numa aposta contra o destino. Comédia é a senda do homem comum, a provocar debates a respeito de suas escolhas feitas durante a vida. Se, no Inferno, as sombras em danação perderam todo o arbítrio; no Purgatório, elas labutam para reavê-lo. Essa é a razão dantesca, fundamentada no pensamento clássico que Virgílio simboliza e fio condutor a transcender os inúmeros obstáculos mitológicos e bíblicos que se perfilam na narrativa.

À esquerda, os mundos dantescos; à direita, a Árvore da Vida (expandida).

No topo da montanha do Purgatório, localiza-se o Éden, onde, segundo escrituras da Torá, reside a Árvore da Vida. Ali, encontra-se Beatriz – aquela que o autor sempre idealizou como símbolo da graça e perfeição. Beatriz é a Promethea de Dante. Foi ela quem intercedeu em favor de Dante, rogando a Virgílio seu auxílio para a jornada até ali. Ela, a partir de então, com o refinamento espiritual de Dante, que, purificado por suas atribulações, eliminou de sua consciência as dúvidas acerca da fé na humanidade, na justiça e no amor divinos, o alça ao Paraíso. Essa ascensão, ou Anabasis, embora não seja claramente inspirada na Cabala, converge com ela em diversos pontos, sendo os mais notáveis a trajetória da enlevação em si e a descrição dantesca das esferas celestes.

À esquerda, Beatriz aparece a Virgílio, em busca de ajuda para Dante – Gustave Doré (1857); ao centro, Beatriz recebe Dante no Éden – Amos Nattini (1936); à direita, Beatriz e Dante acessam a 8ª esfera celestial – William Blake (1825).

O Paraíso, segundo Dante, é um mundo de leveza, virtude e êxtase. É onde as almas detêm, segundo lhes permite a consciência, liberdade de ir e vir ao longo de 10 esferas com realidade, significado, musicalidade e tempo próprios. Percorrer os céus do Paraíso é transfigurar espírito e mente, tornando noções mundanas de tempo e espaço ou vida e morte desimportantes. Em Promethea, sua enlevação preenche lacunas, dissolve dúvidas sobre sua origem, ao recuperar memórias passadas, e reafirma suas intenções futuras. Superadas as provações, a aprendizagem encerra-se e, iluminada, a personagem compreende sua verdadeira função no mundo. Se, para Dante, a comunhão com Deus é o ápice de sua jornada; a união divina destrava, em Promethea, o começo do fim.

A iluminação de Promethea: transcendência.

O fim do mundo como catarse

A narrativa de Alan Moore empresta ao leitor parcela da responsabilidade que a heroína carrega em sua saga. A evolução místico-heroica de Promethea, em tese, ocorre em paralelo com sua instrução sobre novos modos de interpretar a realidade das coisas. Sua ascensão, transfiguração e posterior iluminação insinua a verdadeira jornada para quem deseja desvendar os mistérios presentes no universo. Quando Promethea fundiu-se a Deus, sua percepção tornou-se onisciente, dando-lhe convicção de que o papel do herói é contribuir para o bem-estar do homem comum. Isso não significa entregar a poucos escolhidos essa função. Embora o caminho para isso seja longo e tortuoso, ele é tão pessoal quanto a contribuição havida entre personagem e leitor.

Encontro com Deus: tempo, espaço, vida e morte, elementos intercambiáveis de um eterno retorno.

Ao retornar ao mundo real, Promethea hesita em dar a ele outro rumo, pois essa ideia seria apocalíptica nas mentes das pessoas. Sua realidade natal não é a imaginação – esta lhes foi tolhida, domesticada e modulada pela Ciência na Terra, tornado-as dependentes e negligentes. Apenas alguns eleitos detinham a responsabilidade heroica de zelar pelo mundo, embora eles o mantivessem sempre incólume, incapaz de mudar. A decisão de Promethea vem, então, sobrepujar todas essas coisas e alterar o status quo, mas isso estava longe de ser o fim dos tempos. O apocalipse é definido pela Bíblia como o momento em que o mundo passaria por mudanças profundas, com o triunfo do bem, ou iluminação, sobre o mal, ou ignorância, numa catarse universal e definitiva.

Esse evento, porém, não foi brusco ou traumático. Moore descreve o apocalipse de Promethea como uma conversa materna. Ao transmitir a seu leitor os conhecimentos herméticos e ocultos, seu entendimento o libertou, tanto pelo conforto quanto pelo incentivo. Conforto, na certeza de que a trilha para o conhecimento mais sublime está aberta a todos; incentivo, porque, ao seguir essa trilha, qualquer um pode ser o herói na busca pela felicidade.

Promethea, tal qual seu homônimo mitológico, democratizou o fogo antes reservado a privilegiados, trazendo à humanidade, enfim, ciência de suas responsabilidades. Nesse sentido, a narrativa de Moore passou a desempenhar a função de manual prático para a sabedoria, da qual o céu é literalmente o limite.

Cumprimentos a Alan Moore por essa jornada transformadora.

Ayako: Osamu Tezuka para maiores

por Marcos Maciel de Almeida

Países com grandes tiragens de quadrinhos nativos costumam ter grandes patriarcas das HQs. Sergio Bonelli é a referência na Itália. Walt Disney e Will Eisner são os caras nos EUA. Brasil e Japão não são diferentes nesse quesito. Mauricio de Sousa e Osamu Tezuka são referências incontornáveis. Elevados – por muitos – à categoria de semi-deuses do gibi, ambos conseguiram deixar marcas indeléveis na história da nona arte em seus países. Criadores de verdadeiros impérios do entretenimento, Sousa e Tezuka parecem ter nascido com o toque de Midas. Ambos têm obra vasta e diversa. Mauricio conseguiu se aventurar além do entretenimento infanto-juvenil, criando histórias que passam por gêneros como o romance adolescente (Rollo e Pipa), filosofia (Horácio) e escapismo (Astronauta). Tezuka também não ficou para trás nesse aspecto, muito pelo contrário. Atacou em várias frentes, com temáticas do tipo aventura/fantasia (Astro Boy), contos de fadas (A Princesa e o Cavaleiro), semibiografia (Adolf) e suspense sobrenatural (Dororo), entre outras. Apesar disso, existem diferenças importantes entre os publishers brasileiro e japonês.  Por mais que a obra de Maurício de Sousa seja diversificada, ela é facilmente fagocitada pela extensão, profundidade e riqueza daquela produzida por seu homólogo nipônico. Como sói acontecer com os super-heróis americanos, as crias de Maurício vagam eternamente pelo universo da ficção, envelhecendo nada ou muito pouco, numa verdadeira história sem fim. No Japão, o papo é diferente e as trajetórias dos personagens costumam ter final, ainda que estejam no auge. E aí não tem choro nem vela. Acabou, está acabado, ainda que milhares de fãs insistam por ressureições e continuações. 

Tezuka também é partidário dessa filosofia e, por isso, investiu numa infinidade de temas e narrativas, que lhe consagraram um legado de fôlego. Além disso, conseguiu se manter como alvo de interesse por públicos de muitas faixas etárias, não apenas de crianças e adultos saudosos. Tezuka mostrou que, apesar do traço aparentemente delicado e infantil, a temática das histórias não precisava ser sempre pueril. Nem mesmo o linguajar e as situações mostrados deveriam ser sempre pasteurizados, afinal a vida não é feita apenas de momentos cor-de-rosa. Há ocasiões em que a barra fica pesada e somos forçados a reconhecer que tem muita gente escrota nesse mundo. O que nos leva ao calhamaço de 700 páginas (!)

Ayako, publicado no Brasil em fevereiro de 2018 pela Editora Veneta. 

Não é à toa que, para muitos, este trabalho seja considerado a obra prima do mestre mangaká. A epopeia da família Tenge no pós II Guerra Mundial toca em vários pontos sensíveis não apenas para o povo japonês, mas para toda a humanidade. O mais importante deles são as implicações de política interna e externa para o Japão derrotado. 

Já estamos acostumados a nem mesmo questionar a visão histórica que privilegia o ponto de vista dos vencedores, relegando a perspectiva dos vencidos a um segundo plano. Digo isso, porque não quero pintar um quadro no qual os japoneses apareçam somente como vítimas, mas o fato é que as narrativas que mostram as agruras do povo da terra do sol nascente são escassas. Exemplo: as bombas atômicas disparadas sobre Hiroshima e Nagasaki são tema praticamente inexplorado, especialmente em relação ao número de filmes e documentários dedicados à Guerra do Vietnã e outros eventos trágicos, como o holocausto do povo judeu. 

Como Ayako foi produzido em 1972-3, talvez nem mesmo Tezuka tenha tido as manhas de colocar o dedo nas feridas – ainda – abertas pelo ataque nuclear norte-americano de 1945. Mas isso não significa que ele tenha deixado de abordar outros assuntos espinhosos, que teimam em não ser mencionados, como o fato de que o Japão tenha virado uma espécie de “Estado Vassalo” dos EUA.

De forma discreta, mas incisiva, Tezuka dá diversas alfinetadas na maneira pela qual os americanos em particular e a comunidade internacional em geral trataram os japoneses vencidos. A crítica às medidas empurradas goela abaixo, como a reforma agrária, mostram que foi preciso paciência oriental para suportar a política do General MacArthur, militar norte-americano que derrotou e, em seguida, comandou o Japão. Outro fato que não passou foi despercebido foram os tribunais internacionais que julgaram os crimes cometidos pelo Japão durante o segundo conflito mundial. Para Tezuka, nessas cortes de exceção ocorreram flagrantes arbitrariedades, evidenciadas pelo fato de que os argumentos dos advogados de defesa foram solenemente ignorados. 

A história do gibi começa com o retorno ao Japão do prisioneiro de guerra Jiro Tenge, um dos filhos do patriarca Sakuemon, após o término das hostilidades. Refeito o vínculo familiar, Jiro rapidamente se dá conta que a volta para casa nem sempre é uma benção. Seu pai é um devasso, seu irmão não é flor que se cheire e ninguém consegue explicar a origem de Ayako, sua irmã mais nova. E o próprio Jiro traz consigo um segredo que mudará os rumos da trama. Desde as primeiras páginas o clima de mistério é quase tangível. Somos apresentados a uma gama de personagens e situações tão inusitados quanto imprevisíveis. Tudo isso pontuado por incríveis cenas de contemplação da natureza, que servem como momentos de respiro para a trama frenética, teimosa em descansar. 

Protótipo da família feliz. #sqn

Já virou clichê falar sobre protagonistas anti-heróis, mas Jiro é um caso à parte. Ele pega bem mais pesado que os costumeiros personagens desse tipo, chegando a um novo patamar de mau-caratismo, característica presente em boa parte do elenco desta HQ. Como consequência, o gibi é profícuo em situações repugnantes que atentam contra o bom gosto da tradicional família brasileira. Por isso, para mim, Ayako representa uma espécie de maioridade de Tezuka, que se permitiu publicar perversões e cenas indigestas que incluem violência contra a mulher, incesto e maus-tratos contra crianças.

Temas que, certamente, não serão vistos na próxima edição do Cebolinha.  A crueldade e a crueza de algumas partes do gibi remetem a uma linha de pensamento sobre a qual passei a refletir depois de perceber alguns traços comuns em obras de autores japoneses, tanto no cinema (Ringu), como na literatura (1Q84). Cheguei à conclusão que, na ficção nipônica, o sadismo do agressor é potencializado pela crença de que o sofrimento da vítima é determinado pelo destino, não podendo ser, portanto, evitado. Isso faz com que as cenas de tortura e violência sejam muito mais intensas que aquelas presentes nos similares ocidentais, chegando a níveis quase insuportáveis. E Ayako não foge à regra. É Made in Japan, com muito orgulho.  

Cena presente no mangá e que ainda acontece na vida real.

Ayako traz uma pungente reflexão sobre os impactos da ocupação norte-americana no Japão pós II Guerra, sem medo de expor feridas ainda não completamente cicatrizadas na sociedade japonesa contemporânea. E o clã Tenge, que nunca foi sinônimo de estabilidade, é rapidamente tragado pelo inexorável vendaval de mudança anunciado pelos novos tempos. Os membros da família, contagiados pelo clima de “salve-se quem puder” tomam decisões egoístas cujos resultados recairão sobre Ayako, a pessoa mais indefesa daquele núcleo. Em Ayako, Tezuka tece uma teia de relações conflituosas habitada por pessoas sedentas por poder e dinheiro, que passarão por cima de qualquer escrúpulo ou sentimento de compaixão para atingir seus objetivos sórdidos. E é esse ambiente de devassidão e amoralidade que servirá como o playground para a disseminação de perversões e fantasias latentes. Em Ayako, Tezuka mostrou que os quadrinhos também poderiam alcançar a maioridade e se mudar da casa dos pais, indo para bem longe do Bairro do Limoeiro.  

A edição nacional de Ayako é extremamente bem cuidada, com inúmeras notas de rodapé. Traz, pela primeira vez no Ocidente, os dois desfechos para a saga imaginados por Tezuka. Coisa fina. 

Silêncio dos inocentes

Rapidinhas Raio Laser #09: especial Catarse

Vaquinhas virtuais chegaram para ficar. Goste ou não, o fato é que cada vez mais criadores estão utilizando o financiamento coletivo para viabilizar seus projetos. É aquela história: se tem gente interessada em bancar, por que não lançar? A coisa está especialmente disseminada nos gibis, principalmente em razão dos valores de produção, relativamente baixos se comparados aos de outras mídias. 

Aqui na Raio Laser já virou praxe fazer resenha de gibi independente. Aí pensamos em fazer um post exclusivamente dedicado às HQs que compramos por meio de vaquinhas virtuais, afinal elas continuam sendo independentes, certo? 

Na análise abaixo, a tendência é que façamos comentários positivos sobre os gibis adquiridos, já que só financiamos autores nos quais realmente acreditamos. Por isso os quadrinhos a seguir provavelmente receberão elogios rasgados. Será mesmo? (MMA)

por Marcos Maciel de Almeida e Ciro I. Marcondes

R’lyeh Boy – Caio Oliveira (Quinta Capa, 2017): R’lyeh Boy é uma sátira de ... Bem, se você não sabe, está na página errada. Busque conhecimento sobre a série mais longeva de Mike Mignola e volte aqui. R’lyeh faz referência à cidade submersa fictícia criada por HP Lovecraft, prisão do deus adormecido Cthulhu. Não sabe quem é Cthulhu? Resumo de três linhas: é um deus/entidade alienígena que está dormindinho na Terra e vai despertar qualquer hora dessas para tomar o que é seu, ou seja, o nosso planeta. Enquanto ele dorme, humanos mais sensitivos são afetados por seus sonhos e, gradualmente, passam a enlouquecer, barbarizando geral. O visual de R’lyeh Boy é claramente inspirado em Cthulhu.  R’lyeh Boy é funcionário de uma empresa que resolve problemas sobrenaturais. No gibi em questão, R’lyeh Boy é despachado para enfrentar avatares de jogadores de RPG (boa sacada, Caio!) da Terceira Dimensão (a nossa!). Os avatares invadiram o reino dos desmortos e estão botando pra quebrar. E isso é assunto pro nosso herói, claro. A pegada de Caio é enviesada para o humor e ele se sai muito bem nisso. Afinal, não é de hoje que ele vem fazendo a alegria da galera com a sua página “Cantinho do Caio” no Facebook. O gibi vem com uma série de “plus a mais”. Tem pin-ups espirituosos, piadinhas extras e adesivo engraçadinho. Simpático. 

Pensando aqui com meus botões. Enquanto Cthulhu dorme, ele segue influenciando a vida na Terra com sua presença no inconsciente coletivo. Já pensou se isso estiver acontecendo na real? Já imaginou se o próprio HP Lovecraft não for seu criador, mas mero fantoche que ajudou a propagar os mitos de Cthulhu e sua turminha da pesada, os “Old Ones”? Cthulhu é figurinha fácil na literatura, na música, no cinema, nos video-games e – por que não? – nos gibis. Nos últimos anos saíram – apenas no Brasil – pelo menos três quadrinhos relacionados ao mito alienígena (R’lyeh Boy, O Despertar de Cthulhu e Rio Negro. Pode ser que nós também estejamos contribuindo para a disseminação do imaginário do monstrengo. Mas bem, isso é papo para outro post. Por hora fiquemos com o gibi do Caio. É uma ótima pedida. Especialmente para ser apreciado antes do eventual despertar de Cthulhu. (MMA)

Adesivo maneiro pra barbarizar com seu vizinho evangélico

Anuí Lelis (Independente, 2017): A caixa de música de pequena Alice quebrou. Seu choro de desconsolo está acordando a cidade inteira. Ela e sua mãe levam a caixa de música para arrumar. O consertador é o cara mais odiado da região, daqueles que fazem até o capeta passar raiva. No entanto, tudo muda quando toca o telefone da casa de reparos. Quem será?  Esse é o resumo livre de spoilers de Anuí. É uma história simples, mas nada simplória. É, sobretudo, um trabalho de entrega. Lelis transmutou sangue, suor e lágrimas em papel e tinta guache para criar mais uma de suas obras de arte. O painel de cada quadrinho seu – é clichê dizer isso, mas fazer o quê? – merecia ser emoldurado e apreciado na parede. Lelis se esmera para pintar cada tijolo, cada pedra, cada telhado. Lelis é operário dos quadrinhos. Lelis é pedreiro. Com Lelis não tem tempo ruim. Lelis é gente que faz. Como em todo trabalho desse mineirinho desembestado, o gibi respira sutileza. É transporte certo para uma dimensão na qual as cores são mais vivas. Em que as pessoas não precisam caminhar, já que flutuam. Quando leio Lelis, é como se pudesse sentir cheiro de café fresco e pão de queijo assando no fogo à lenha. Trem bão demais, sô. Lelis é isso aí. Simplicidade e generosidade em doses cavalares. Falando em cavalo, nunca vou esquecer da primeira vez que o encontrei, no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de 2015.  Dei uma olhada na listagem de convidados no guia do evento. Todos bonitos e de banho tomado, em fotos reluzentes. Já Lelis aparecia montado em seu alazão. Quer mais autenticidade que isso?

Momento emocionante ligado a Anuí foi quando recebi – eu e todos que patrocinaram o gibi – o tocante e-mail de Lelis confessando seu descontentamento com o resultado final da revista. Na verdade, insatisfação não com o gibi em si, mas com o fato de que a versão que foi para a gráfica – por erro – foi a de baixa resolução. Eu nem tinha reparado. Fica triste não, Lelis. A edição ficou duca. 

Lelis já foi publicado na Europa, em vários gibis, inclusive Goela Negra, lançado pela Mino em 2015. Não é fraco não. Acho difícil que os gringos levem ele embora, porque o cabra não vai querer trocar o cheiro do mato “nacionar” pela grama sintética estrangeira. Apesar disso, acho que devemos aproveitar enquanto o cara está por aqui e prestigiá-lo. Lelis é mais. Lelis é Brasil. (MMA

Eudaimonia – Luciano Salles (Independente, 2017): Diferentemente do sci-fi freak/lisérgico de trabalhos como O Quarto Vivente e Dark Matter (e reaproveitando a personagem de Luzscia, a Dona do Boteco), em Eudaimonia Luciano Salles traz à tona um submundo degenerado cheio de personagens "figura", traficantes e drogados que apelam ao non-sense dentro de um ambiente mais urbano. A porraloquice, no entanto (ainda bem), permanece a mesma. Porém, a coisa ganha camadas pesadas de Geof Darrow, Frank Miller dos anos 90/00, além de pitadas de Rafael Grampá, para erigir um verdadeiro colosso visual, em P&B super hachurado, preciso nanquim e um hiper detalhismo estilizado que meio que se justifica por si só.  Digo isso porque, por mais que a história passe como um relâmpago, seja espécie de trecho entrevado de algo maior e possa ser lida em poucos minutos, o apelo visual desta HQ é algo que não passa despercebido nem pelo mais careta e equivocado crítico do estilo visual hiper detalhista. Já o enredo trata de um acerto de contas entre um matador de aluguel brutamontes e meio mongoloide vestido de onça, aliado a uma velha bem escr*ta, dona de um bar, que precisa de droga para aliviar artrites terríveis e coisas assim.  A ação é vertiginosa. Mangás de Katsuhiro Otomo e Tayo Matsumoto também marcam presença como influências para a degeneração urbana, e Eudaimonia se faz ensaio pra algo que poderia ser maior e mais robusto (portanto, mais cabuloso). Linhas de ação trôpegas cortam as operações alucinadas que fazem esse quadrinho parecer um curta-metragem (bem curto mesmo) ou um teaser de algo ambicioso que se anuncia.

Eu, pessoalmente, aguardo ansiosamente o romance gráfico monstruoso que Luciano Salles está ensaiando em todas estas histórias curtinhas, unindo esses temas todos parecidos e favoritos: o convívio doidão com drogas estimulantes e/ou psicotrópicas, personagens barra pesada sempre “under the influence”, histórias sci-fi perturbadores que funcionam como se Black Mirror não fosse tão careta, imersão em sonhos, delírios ou realidade virtual mesmo.

Eudaimonia realmente é um quadrinho legal, mas tem um certo jeito de “amostra grátis” que faz a gente pensar se não é tudo uma ação de marketing do autor para soltar sua obra-prima num futuro próximo. Estarei certo? (CIM)  

Black Emperors: Bikes vs Sk8s - Dalton Cara e Magenta King (Independente, 2017): Magenta King e Dalton Cara. Temos que ficar de olho nesses rapazes, que não estão para brincadeira. Depois de chutar nossas bundas com o não menos que espetacular 5/5, a dupla endiabrada ataca novamente para nos brindar com outra pauleira na moleira: Black Emperors.  Se tivesse que escolher apenas dois adjetivos para descrever o último fruto dessa parceria, seriam os seguintes: dinâmico e explosivo, como foi o próprio processo de produção da HQ, abundante em adrenalina. Explico. Em 2017, a dupla se propôs o desafio de produzir uma revista de 32 páginas em um mês. O processo de criação foi exposto durante as aulas que ambos ministravam na Quanta Academia e no Sesc Pompeia, contando com o feedback dos alunos. Após o sucesso da empreitada, os dois resolveram pegar ainda mais pesado e expandir os limites que se auto impuseram. A aposta agora era lançar uma edição com pelo menos cem páginas num período pouco maior que trinta dias. As doses de exposição também aumentariam. Por isso, cada nova página do gibi foi religiosamente postada nas redes sociais, permitindo o escrutínio do público interessado. Pergunta se os caras conseguiram passar pelo segundo teste? Para nossa alegria sim. Eis que é lançado Black Emperors: Bikes vs Sk8s, que compila os dois trabalhos acima. De que se trata o gibi? Bem, o título já entrega em parte, mas o confronto entre gangues de skatistas e ciclistas é apenas o pano de fundo para uma saga que envolve vingança, rebeldia e gratidão. Tudo isso num ritmo frenético. Lembra que eu falei que o gibi é dinâmico? Então, o quadrinho te pega pelo pescoço desde o primeiro quadro da primeira página – que já te lança no meio da ação – e não solta até que termine a leitura. 

Primeira página de Black Emperors

Um dos pontos positivos da HQ é a riqueza imagética dos personagens. Cada participante da trama tem linguagem e visual característicos, que parecem ter sido meticulosamente estudados. Curiosamente, o enorme talento para criação de personagens parece equivalente à capacidade dos autores para se livrar deles. A cada três páginas, cerca de quinze personagens morrem, apenas para dar lugar a novos coitados que partirão dessa para melhor na página seguinte. Apesar disso, a história mantém um fio condutor coeso e lógico, que não se cansa de transpirar diversão. 

Influenciados por Paul Pope, os autores resolveram alterar seu processo criativo, permitindo-se pequenas alterações de percurso e flexibilizações no roteiro, tudo isso em nome da diversão. E o gibi é puro reflexo disso. Black Emperors está aí para capturar os corações e mentes de leitores cansados de quadrinhos carentes de espontaneidade, criados a partir de receita de bolo. Pela leitura do gibi, fica evidente que Dalton e Magenta cresceram lendo doses maciças de gibis de super-heróis. O impressionante é que mesmo depois de comer tanto arroz com feijão, eles não se deixaram levar pelas fórmulas batidas do gênero. O mais bacana é ver que eles souberam aproveitar as influências para lançar novos olhares para o universo dos quadrinhos, fugindo de maniqueísmos e de personagens bidimensionais. Por isso, a trama de Black Emperors é altamente ousada e imprevisível. 

À moda de Howard Chaykin, os diálogos não têm espaço para didatismo ou explicações do tipo quem é quem. A história tenta emular o modo como as coisas como acontecem na vida real. Não há tempo para identificar cada um dos personagens, mesmo porque eles já estarão mortos nas páginas seguintes. O negócio é se deixar levar pelo vagalhão, sem fazer muitas perguntas. 

Não é fácil permanecer vivo no universo de Black Emperors

O leitor tem um ponto de vista privilegiado para observar o universo de Dalton e Magenta. Quem nunca foi dos grupos mais populares da escola – como eu – vai poder acompanhar de camarote uma realidade habitada exclusivamente por pessoas cool, tipo aquela turma da qual você nunca fará parte.

Black Emperors é uma espécie de versão quadrinizada e insana de seriados como Barrados no Baile e similares. Para mim, programas desse tipo suscitavam aquela sensação de fingir desprezo pela turma popular, mas sempre dar uma espiada torcendo para que os bonitões e descolados acabem se lascando. E o bom é que, em Black Emperors, quase todo mundo se dá MUITO mal. 

Para deleite dos leitores, o universo de Dalton e Magenta está todo interconectado. Fui ao delírio quando foi revelada a ligação do gibi com outra cria da dupla, o 5/5. Só posso terminar este texto dizendo: “Por favor, não parem. Continuem produzindo e eu continuarei comprando.” (MMA)

Autocracia: um quadrinho político sobre o mundo motorizado

Depois de umas mini-férias, a Raio Laser enfim acorda de seu sono dogmático. O texto a seguir é mais uma colaboração de Havane Melo (professora e pesquisadora de histórias em quadrinhos e fotografia), como sempre muito bem-vinda. (CIM)

por Havane Melo

Embora tenha lançado uma HQ de vanguarda, disponível no Brasil desde 2015, e  desenvolvido diversas parcerias com grandes nomes dos quadrinhos internacionais, Woodrow Phoenix ainda é um artista pouco popular por aqui. Talvez porque seu único gibi lançado e traduzido nacionalmente, Autocracia: Velocidade, Poder e Morte no Mundo Motorizado (Rumble Strip, 2008; Veneta, 2015), está longe de ser uma leitura confortável e não apresenta personagens, diálogos ou veículos. O autor comunica-se conosco através de dados reais sobre acidentes de trânsito e críticas sobre a forma como a sociedade tem orientado seu desenvolvimento, enfatizando a utilização de veículos como meio de transporte, em detrimento do pedestre e do transporte coletivo. A obra também questiona a legislação de trânsito e a relativização da punibilidade em acidentes no setor.

Se acreditarmos que o conteúdo jurídico de uma sociedade é fruto de sua organização contemporânea (ou, pelo menos, é isso que deveria ser), é considerado aceitável que a punibilidade do motorista seja reduzida, afinal, temos vários interesses em jogo aqui e tanto o Estado como o setor privado – entidades muito maiores que o indivíduo não motorizado – têm relação direta com a expansão do setor automobilístico.

Em 2017, a cidade de São Paulo chegou à marca de 6 milhões de automóveis registrados . Ainda assim, pouco mais da metade da população do Brasil tem um veículo próprio: 53% das casas brasileiras ainda não têm nem carro nem moto. Aqui em Brasília, se você é usuário de transporte público ou se já tentou pegar um ônibus no final de semana, é possível que faça parte de 61% dos usuários que consideram o transporte coletivo do DF péssimo.

Infográfico desenvolvido por Leo Aragão, Daniel Roda, Dalton Soares e Elvis Martuchelli para o site G1 

Fora das estatísticas, no mundo das artes visuais, diversos artistas têm a caminhada como ponto inicial do processo criativo. E o fato não é novo: as experiências relacionadas à caminhada e ao ato de criação remontam ao século XIX, com o conceito de flâneur, desenvolvido por Charles Baudelaire, em Paris. Na década de 1920, movimentos artísticos, como o surrealismo, por exemplo, produziam suas experiências com deambulações, enquanto os dadaístas realizavam grupos de caminhadas à deriva. Em 1950, Guy Debord e seus parceiros discutiram o ato da caminhada dentro da Internacional Situacionista. E, na arte contemporânea, dezenas de artistas utilizam o ato de caminhar como parte de seu processo criativo, direta ou indiretamente, como exemplo Richard Long, Hamish Fulton, Francis Alÿs, Mona Hatoum, Gabriel Orozco, André Breton, Lygia Pape, Hélio Oiticica, entre outros.

A versão original da obra, Rumble Strips (2008), é focada na cidade de Londres e, como tal, participou do projeto "Sequential City": uma exposição organizada pelo estúdio Baxter and Bailey, que nos apresenta Londres através dos quadrinhos e contou com 14 obras, algumas páginas originais e entrevistas sobre a relação do processo criativo dos artistas com a cidade. Entre as entrevistas, encontramos a fala de Phoenix sobre a relação entre a cidade e sua HQ:

Para o Brasil, a HQ apresentou páginas criadas especialmente para essa edição, contendo dados e construções urbanas locais. Entre as cidades brasileiras representadas, está Brasília que, até outubro de 2017, já contabilizava 17 ciclistas mortos em acidentes de trânsito, segundo dados do DETRAN/DF.

Muitos dos quadrinhos autobiográficos que desembarcaram no Brasil na última década trouxeram posicionamentos políticos por trás da história pessoal de seus personagens, refletiram estilos de vida e escolhas pessoais que conquistaram uma diversidade de leitores (vide Fun Home, Pagando por Sexo, Retalhos, entre outros). A diferença é que Autocracia não trouxe romance, ação ou aventura, não nos apresentou a personagens carismáticos e ainda critica o sistema de transportes vigente, do qual muitos de seus leitores fazem parte.  Ainda assim, Autocracia não é uma obra cicloativista. Não menciona alternativas. Não justifica o sistema. Não é um relato autobiográfico. E, definitivamente, não é um quadrinho para mero entretenimento. É um posicionamento político e crítico que, no mínimo, provoca reflexões no leitor e mexe com sua zona de conforto. O trabalho de Phoenix merece nosso olhar não apenas pela novidade da composição, mas também pelo tom político que a obra apresenta desde o início - a palavra autocracia, em português, significa governo ilimitado, absoluto. Um quadrinho capaz de perturbar os usuários mais convictos da indústria automobilística.

MELHORES QUADRINHOS LIDOS EM 2017 - PARTE 4

Fazendo o levantamento das melhores leituras de 2017, algumas constatações me saltaram aos olhos. A primeira, é que não li pouco – mas li menos do que gostaria. A bem da verdade, se pudesse, passaria o tempo todo lendo. Ou quase.

Ainda que tenha lido em boa quantidade, fiquei longe de equilibrar a razão entre o que adquiri e o que efetivamente consumi. De modo que a pilha segue aumentando de forma doentia. Mantenho a fantasia de que irei ler absolutamente todos os gibis que tenho. Mas a matemática e o tempo são implacáveis e essas questões têm me atormentado mais e mais (vou até comprar uns gibizinhos agora pra aliviar um pouco a ansiedade).

A escolha das leituras também não obedeceu a nenhum critério claramente definido. Tirei o atraso de algumas obras importantes. E perdi tempo com algumas besteiras. A ideia que vai se plasmando em mim é que não sou eu quem escolhe os gibis a serem lidos, são eles que me escolhem – numa equação que envolve acessibilidade (muitas vezes não encontro o que quero ler em determinado momento) e intuição.

Sempre advoguei que a Raio Laser deva ter uma perspectiva atemporal. É consenso entre nós. As listas de melhores não têm a mínima pretensão de cobrir o ano editorial. Isso é papo de assessoria de imprensa jabazeira. Bons quadrinhos nunca terão prazo de validade. Minha surpresa foi perceber que a maioria das HQs que compõem minha lista de melhores foi, coincidentemente, publicada em 2017. O que isso significa? Sei lá.  Por fim, não gosto de estabelecer hierarquia entre as obras. Então, chega de papo furado e vamos à lista. (MJR)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

por Márcio Junior

01 - O MUNDO DE EDENA, Volumes 1 a 6 – Moebius (Nemo, 2013 a 2014): Tenho uma dívida pessoal com a Editora Nemo pelo esforço e qualidade com que preencheram inadmissíveis lacunas do mercado editorial brasileiro. Em edições primorosas, publicaram (ou republicaram) autores de primeira grandeza como Hugo Pratt, Enki Bilal e Jean Giraud, o insuperável Moebius. Após oito álbuns cobrindo diferentes trabalhos do mítico autor francês, foi a vez da espantosa série O Mundo de Edena. Moebius é um artista sem igual. Dentro e fora do mundo das HQs. Entre 1983 e 2001, ao longo de 18 anos – o hiato de uma maioridade –, concebeu os seis livros que narram a epifânica trajetória de Atan e Stel. Por mais improvável que pareça, a série nasceu de uma encomenda feita pela gigante automobilística Citroën. Foi a fagulha necessária para que o autor se lançasse num oceano de profunda criação, sem destino certo ou porto seguro. Guiado unicamente pela liberdade, deu à luz uma obra de infinitas leituras, lidando com temas tão diversos quanto a relação homem/máquina, sexualidade, natureza, mitos criacionais, opressão, sonho, psicanálise, inconsciente, alimentação, magia e, acima de tudo, transformação.  Para Moebius, a vida se dá em constante mutação. E mais que pontos de partida e chegada, o mais importante é o caminho – ele mesmo dinâmico e mutável.

Posto que forma e conteúdo não se dissociam, graficamente O Mundo de Edena nos conduz a infindáveis viagens imagéticas. Nasce de uma busca do artista pela essência do traço, pela negação dos excessos. E mesmo esta busca se transubstancia em tantas outras abordagens visuais ao longo dos álbuns, num constante processo de experimentação que jamais se esgota em si mesmo. Ali, a beleza se materializa e se atualiza de modo sempre novo. Uma obra de arte definitiva.

Realizei uma imersão no Mundo de Edena. Foi, sem sombra de dúvidas, minha mais importante leitura em 2017. Planejei longos textos sobre a obra aqui na Raio Laser. A vida – em constante mutação, como já dito – não permitiu. Fica para outro momento. Mas aquele mundo onírico permanece aberto, à espera de quem se aventure por suas paragens. Faço então um único pedido à Nemo: deixem minha dívida aumentar. Continuem publicando Moebius.

02 - BILLIE HOLIDAY – Muñoz & Sampayo (Mino, 2017) e EL COLMILLO DE LA SERPIENTE – Muñoz & Charyn (Norma, 1999): O argentino José Muñoz é um deus do claro-escuro, um poeta das sombras, um gênio dos quadrinhos. Sua pena cava profundos sulcos no papel, deixando um leito aberto para que o nanquim/sangue/treva possa preenchê-lo, dando forma a obscuras facetas da experiência humana. Não deixa de ser absurdo um artista desta magnitude permanecer praticamente inédito no Brasil. Movida a coragem, a Mino deu sua contribuição para reverter este quadro com a preciosa edição de Billie Holiday – na minha opinião o grande lançamento de 2017 no mercado brasileiro. Outra obra-prima de Muñoz lida ano passado foi El Colmillo de la Serpiente – esta, ainda inédita por estas plagas. Falei sobre os dois livraços aqui.

03 - SILÊNCIO – Didier Comès (Bertrand, 1983): Silêncio, obra icônica do belga Didier Comès, foi um desses acasos fortuitos: numa jogada de pura sorte, o livro veio parar em minhas mãos. Daí para se tornar um dos favoritos (não de 2017, mas de toda a minha vida), foi o prazo de uma leitura. Escrevi sobre ele aqui.

04 - CIDADES ILUSTRADAS - SALVADOR – Marcello Quintanilha (Casa 21, 2005): A tradução gráfica de uma cidade a partir das impressões de um olhar estrangeiro era o mote da coleção Cidade Ilustradas. Quadrinistas nacionais e internacionais eram convidados a viver por cerca de duas semanas em uma cidade brasileira. A partir desta imersão, com grande nível de liberdade oferecido aos artistas, nasciam os livros – invariavelmente ricos e interessantes. David Loyd (São Paulo), Jano (Rio de Janeiro), Fabio Moon & Gabriel Bá (Manaus) e Guazzelli (Florianópolis) foram alguns dos nomes que participaram da coleção. O ponto mais alto, entretanto, viria com a Salvador de Marcello Quintanilha.

A tão decantada capacidade de Quintanilha em captar o tipo comum brasileiro brilha aqui mais que figurino de Ivete em cima de trio elétrico. Seu pendor natural pela originalidade faz com que Cidades Ilustradas: Salvador não seja uma mera compilação de desenhos (espetaculares, como de praxe, em se tratando de Quintanilha). Mais que isso, o livro situa-se num lugar indefinido entre livro ilustrado e história em quadrinhos, expandindo os limites de ambos.  Existe uma narrativa em prosa a percorrer a obra, com saltos e interstícios. Personagens surgem, desaparecem, retornam. As imagens possuem um diálogo com esta narrativa, são atravessadas por ela. E as atravessam. Imagem e texto, um prenhe do outro.

Cidades Ilustradas: Salvador opera então com uma meta-HQ. Por outro lado, a qualidade do texto de Quintanilha é, por si só, notável. O livro é a prova cabal que o autor poderia se dedicar exclusivamente à literatura. Mas não faça isso não, Marcello. Já nos basta a ausência de um Mutarelli. 

05 - NÓIA, UMA HISTÓRIA DE VINGANÇA! – Diego Gerlach (Escória Comix e Vibe Tronxa Comix, 2017): No atual (e riquíssimo) panorama dos quadrinhos brasileiros, o gaúcho Diego Gerlach é – como ele mesmo afirma, em profusa auto-ironia – avis rara. Desenhista de mão cheia e idiossincrático até a medula, tem criado uma obra originalíssima em dezenas de zines espalhados por aí. Ponto para a Escória Comix ao intimar o sujeito a criar Nóia, uma história de vingança! Com sua inconfundível personalidade, Gerlach sintetiza uma vibe moral setentista/oitentista, respaldada em um repertório que abarca o Justiceiro do Ross Andru, Dirty Harry e... Mauricio de Sousa! Nóia, o personagem principal, é um Cebolinha ultra-reaça, com cabelo de maconha e camisa da CBF. A hiper-violência que escorre pelas páginas carregadas de tensão frenética de Gerlach é gratuita apenas a um olhar desatento. Muito do Brasil 2018 está ali. Para mim, isso é que é Graphic MSP.

06 - ÚLCERA VORTEX, Volumes I e II – Victor Bello (Escória Comix, 2017): Outra pedrada da Escória Comix. Em um país sério e honesto, gente como o editor Lobo Ramirez e o quadrinista Victor Bello estariam atrás das grades. Sorte a nossa que estamos no Brasil.

Úlcera Vortex é um delírio da podreira. A imaginação de Victor Bello é irrefreável. Vejo o sujeito como uma espécie de Jack Kirby – só que débil mental e comedor de bosta cagada por pessoas movidas a uma dieta de ácido e Pitú. Obrigado Escória Comix e Úlcera Vortex. Vocês são a única resposta cabível à fofurização que acomete o quadrinho brasileiro.  

07 - CAMALEOA – Watson Portela (HC Comix, sem data, anos 1990): Se a memória da outrora popular tradição do terror no quadrinho brasileiro está se apagando, o que dizer então de nossas HQ eróticas? Quando falamos em sacanagem desenhada, um único nome vem à mente: Carlos Zéfiro. Nada mais injusto. Ao longo de décadas, nossas bancas foram o lar de milhares de gibis dedicados ao auxílio da prática onanista. Muito desse material era de qualidade questionável. Todavia, em períodos de vacas magras, a pornografia era o ganha-pão de legendas como Flavio Colin, Julio Shimamoto e Mozart Couto.

Camaleoa é um registro dos estertores deste mercado. Trata-se de uma pornografic novel (sic) do gigante Watson Portela. Ou melhor, de Helga (roteiro) e Barroso (arte) – afinal, o uso de pseudônimos era frequente no meio, uma vez que os quadrinistas buscavam resguardar sua imagem de “artistas sérios”. Manara, Crepax, Serpieri e quetais são tidos como mestres do erotismo. O Brasil produziu HQs do mesmo nível. Está passando da hora deste material ser resgatado com o devido cuidado. Eu ajudo. Com o maior prazer.

08 - MENSUR – Rafael Coutinho (Quadrinhos na Cia., 2017): Mensur está em tudo que é lista de melhores de 2017. Eu é que não serei blasé a ponto de retirá-lo da minha só por causa disso. Mas também não vou ficar aqui dizendo o quanto essa HQ é das coisas mais incríveis já vistas no quadrinho brasileiro. Periga o Rafa Coutinho ficar blasé...

09 - BLACK HOLE, Volumes 1 e 2 – Charles Burns (Conrad, 2007 e 2008): É sempre difícil encarar a pilha de quadrinhos que aguarda leitura anos a fio – enquanto cresce exponencialmente. Em 2017, um dos títulos com os quais finalmente acertei as contas foi Black Hole, de Charles Burns, ainda em sua primeira edição nacional, pela Conrad. As pilhas que se acumulam por anos dizem muito da nossa patologia. E patologia é um dos temas centrais da mais ambiciosa obra de Charles Burns, já alçada à categoria de clássico. Medo, isolamento, inadequação, sexo... Os dilemas enfrentados por todo ser humano na passagem para a fase a adulta são tratados com bizarra densidade através da perspectiva única de Burns. E como desenha esse desgraçado! Se você ainda não conhece Black Hole, não seja doente como eu. Pare o que está fazendo e corra atrás do livro, agora em edição única pela DarkSide.

10 - OS MORCEGOS-CÉREBRO DE VÊNUS E OUTRAS HISTÓRIAS – Coleção Incendiária, Volume 1 (Mino, 2017): A Mino segue resoluta no objetivo de construir um dos mais brilhantes e diversificados catálogos de quadrinhos no Brasil. Este primeiro volume da Coleção Incendiária – que marca o retorno do editor Lauro Larsen à casa que ajudou a fundar – é prova inconteste do profundo cuidado dedicado às suas publicações. Se é que alguém ainda não sabe, trata-se de uma portentosa compilação de quadrinhos norte-americanos de ficção científica, com um recorte que vai de 1939 a 1954 – ano em que se instaurou o famigerado Comics Code Authority. (Um parêntesis: alguma vez no mundo alguém já citou o Comics Code sem antes precedê-lo do adjetivo “famigerado”?). Ao todo, são 31 HQs que compõem um mais que representativo panorama do período. O material, em domínio público, passou por um monástico processo de restauração pelo designer Carlos Junqueira, idealizador do projeto. A qualidade do preto e branco alcançada na publicação não tem paralelos no mundo. Todavia, há controvérsias em se abrir mão das cores originais – planas e com paleta reduzida. Não foi à toa que Roy Lichtenstein ficou de quatro por elas.  O livro (de design impecável), foi traduzido com categoria pelo demônio Diego Gerlach. Intimidade com quadrinhos bizarros o sujeito tem de sobra - e é uma pena que a revisão não tenha sido mais criteriosa. 

Um certo Dr. Ciro Inácio Marcondes abre os trabalhos com o não menos que excepcional artigo Os intrusos numa era antes da censura. Daí pra frente é deliciar-se com as mirabolantes narrativas de um período cada vez mais distante de nós e assistir diversos nomes (alguns hoje consagrados; outros, injustamente esquecidos) dando seus primeiros passos na arte sequencial – ao mesmo tempo em que faziam com que a própria linguagem se desenvolvesse.

É emocionante ver a insanidade de Basil Wolverton e Fletcher Hanks, a classe de Alex Toth, Joe Kubert e Wally Wood, a originalidade à toda prova de Jack Kirby. Eram autores se estabelecendo num meio absolutamente avesso à autoralidade: o comic book. Pois se nas prestigiosas tiras de jornal o público procurava Alex Raymond, Hal Foster e Milton Caniff (entre tantos outros de elevada reputação à época), no descartável e industrial comic book tudo que a garotada buscava eram histórias completas, de seus personagens ou gêneros favoritos. Para além de nostalgia vintage, Os Morcegos-Cérebro de Vênus são um precioso documento do próprio amadurecimento em curso nos quadrinhos norte-americanos da época. Pena que o famigerado Código de Ética provocou um indesejável desvio de percurso, do qual as HQs se ressentem ainda hoje. 

11 - JACK KIRBY PENCIL AND INKS – Jack Kirby (IDW, 2016): Se estivesse vivo, em 2017 Jack Kirby completaria um século de existência. A data foi comemorada com uma miríade de lançamentos mundo afora. Nada mais justo. Após um final de carreira onde amargou certo ostracismo, desde sua morte, em 1994, a coisa gradativamente mudou de figura. Não tenho estatísticas nas mãos, mas as colocaria no fogo pela afirmação de que nenhum quadrinista norte-americano foi mais estudado, discutido e reverenciado nas últimas duas décadas. Com a mesma segurança, sou capaz de afirmar que Kirby é, em diversos aspectos, o mais influente autor de comics desde sempre. No Brasil, a celebração foi pateticamente tímida. Com milhares e milhares de páginas implorando publicação – muitas delas ainda inéditas no país do golpe – a Panini, a título de exemplo, resumiu-se às duas edições de Super Powers (um trabalho tardio, infantil e sem o vigor pleno do Rei). Jack Kirby Pencil and Inks é uma belíssima edição da IDW. Os primeiros números de Demon, Kamandi e OMAC estão reunidos sob uma excelente proposta editorial. Cada página das HQs é apresentada lado a lado: à esquerda, apenas o lápis de Kirby (que àquela época fotocopiava tudo que produzia antes de enviar os originais à editora); e à direita, arte-finalizada (e escaneada diretamente do original, o que significa termos acesso às nuances do nanquim, aos retoques com guache branco, às anotações feitas nos rodapés). Além da imaginação infinita – tão típica de Kirby –, é possível perceber a inacreditável precisão de seu lápis. Desenhos detalhadíssimos, que parecem nascer sem qualquer esboço ou estudo prévio. Por outro lado, constata-se também que o brilhante Mike Royer é, de fato, seu arte-finalista definitivo. Um livro para se degustar com o babador rente ao pescoço.

12 - HELLBOY NO INFERNO Volume 1: DESCENSO – Mike Mignola (Mythos, 2015): Já disseram tudo sobre Hellboy: que é terror de influências lovecraftianas, conto de fadas misturado a lendas folclóricas de diferentes matrizes culturais, aventura pulp. Nada disse deixa de ser verdade. Mas há algo que paira acima de todas estas referências: Hellboy é um gibi de super-herói. Dos melhores. Temos ali toda a imaginação tresloucada típica do gênero, o herói carismático em uma jornada de percalços infinitos, vilões casca-grossa, ação em doses cavalares e o melhor: despretensão. Assim como Mike Mignola é um dos mais dignos herdeiros de Jack Kirby – o rei eterno e absoluto desta seara –, Hellboy carrega o legado do melhor da Marvel dos anos 60/70. Compare o capetão com o Coisa da dupla Lee & Kirby e verá que as semelhanças extrapolam a mera coincidência – a começar pelo gosto por charutos.

Após tempos dedicando-se exclusivamente aos roteiros e ao espólio do personagem (que inclui filmes, animações e tudo que a indústria do entretenimento pode oferecer), Mignola retorna ao timão na série Hellboy no Inferno. Para isso, teve antes que matar o personagem – por motivos que não os usualmente adotados pelos comics norte-americanos. A morte de Hellboy não foi uma ação de marketing para inflacionar as vendas do personagem, mas um estratagema para jogá-lo no inferno, lugar imaginário onde Mignola não teria que desenhar nada que lhe incomodasse – como carros, aparatos tecnológicos reais e cidades contemporâneas. Livre de amarras gráficas, dali pra frente seria só alegria. Não foi bem o que aconteceu. Após dez edições, Mignola – que curiosamente parece ser um artista em constante crise criativa, a despeito de seu descomunal talento – jogou a toalha. As cinco primeiras edições foram compiladas neste encadernado. As restantes estão anunciadas para o início de 2018. Já estou salivando. 

13 - INUYASHIKI Números 1 a 4 – Hiroya Oku (Panini, 2017): Ichiro Inuyashiki é um perdedor. Tem 58 anos, mas aparenta mais. É frágil, medíocre e constantemente humilhado – até pela própria família. E então descobre que está com câncer. Em estado terminal. O absurdo entra em cena: Inuyashiki é pego por uma explosão de origem alienígena e acorda sem se lembrar de nada. Com o passar do tempo, descobre que se tornou um androide com incríveis poderes. O que fazer com eles? Como toda ficção científica de primeira, Inuyashiki não é sobre ciência, capacidades especiais, máquinas invocadas ou destruição em escala nuclear, mas uma profunda reflexão sobre a vida contemporânea. O mangaká Hiroya Oku é um craque. Desenhista brilhante e dono de um storytelling afiadíssimo, conduz a HQ com classe e sofisticação, criando um tratado sobre as penúrias do homem comum, invisível. Coisa fina. Das poucas que me deixam ansioso pela próxima edição.

14 - TEX GIGANTE nº 31: CAPITÃO JACK – Tito Faraci e Enrique Breccia (Mythos, 2016): A coleção Tex Gigante traz o suprassumo do mítico personagem italiano – que em 2018 comemora 70 anos de vida editorial. Quadrinistas internacionais do mais alto gabarito são convidados a oferecer sua visão do ranger em álbuns que ultrapassam 200 páginas. Joe Kubert, Magnus e Ivo Milazzo são apenas alguns dos nomes que já desfilaram pelas páginas da coleção. Capitão Jack traz Enrique Breccia (filho do imortal Alberto Breccia, legenda maior do quadrinho argentino) abusando de seu espetacular preto e branco, destilando diversas técnicas na arte-final e compondo as páginas de forma bela e sóbria. Tudo isso para nos levar à aridez do velho oeste, onde se desenrola a trama habilmente escrita por Tito Faraci, num tom mais maduro que o usual bonelliano. Em algum momento, Capitão Jack deve ser republicado pela coleção da Salvat ou mesmo em Tex Gigante em Cores, da Mythos, onde a colorização arruinará (ao menos em parte) o brilhante trabalho de Breccia.

15 - TEX nº 573 a 575: O Sinal de Yama – Mauro Boselli e Fabio Civitelli (Mythos, 2017): Ainda falando em Tex, difícil imaginar uma melhor porta de entrada para o universo do personagem que a trilogia O Sinal de Yama. Está tudo ali: tiroteios, ciladas, pancadaria, magia, vilões terríveis, heróis destemidos e infalíveis. Mauro Boselli entrega uma aventura de tirar o fôlego, explorando um elenco de personagens que esbanja carisma – ainda que claramente estereotipado. Mas o destaque vai mesmo para a inacreditável arte de Fabio Civitelli, de longe meu texiano favorito. Seu rigor acadêmico e a obsessão com os detalhes beira a insanidade. Civitelli desenha com precisão absoluta cada grão de areia do deserto, cada folha de arbusto, cada espinho de cacto. As 34 primeiras páginas da HQ – mostrando o retorno do icônico arqui-inimigo Yama – são um espetáculo de atmosfera horrorífica. A boa notícia é que em abril a Mythos republicará O Sinal de Yama, em formato maior e edição caprichada – os formatinhos usuais são um atentado contra os desenhistas da Bonelli. A má notícia é que novamente irei gastar dinheiro com esta HQ. 

16 - MASTERS OF SPANISH COMIC BOOK ART – David Roach (Dynamite Entertainment, 2017): Minha dieta de leituras invariavelmente inclui art books. E em 2017 foi este Masters of spanish comic book art que fez a alegria da casa. Na década de 1970, os espetaculares desenhistas espanhóis tomaram de assalto os quadrinhos norte-americanos, principalmente através dos magazines em preto e branco da editora Warren (que não se submetiam ao famigerado Código de Ética e, portanto, lidavam com conteúdo mais adulto). Gênios do traço como Esteban Maroto, Auraleón, Luis Bermejo, Pepe Gonzáles, Fernando Fernández, José Ortiz e Sanjulián levaram a arte das HQs a patamares inauditos. O belíssimo livro organizado por David Roach destaca este período, mas cobre um espectro bem mais amplo dos quadrinhos de autoria espanhola, chegando a nomes contemporâneos como Daniel Acuña e David Aja, conhecidos dos nerds mais espertos. Com 272 páginas e 500 ilustrações – das quais mais da metade escaneadas diretamente dos originais – Masters of spanish comic book art é de encher os olhos (podendo até fazê-los verter lágrimas, a depender da sensibilidade do cliente).

MELHORES QUADRINHOS LIDOS EM 2017 - PARTE 3

Abro os olhos. Vejo as gordas gotas de suor e sangue se multiplicando vagarosamente no chão. Meu corpo lateja como um coro barítono que vibra por meus ossos lacerados. Levanto a cabeça e posso ver o corpo estendido daquele que seria o ano de 2017 me encarando com o olhar já vazio da morte. Ao que tudo indica, sobrevivi à experiência traumática do décimo sétimo ano do século XXI. Velho sortudo… Atrás de mim, 2018 levanta sua cabeça horrenda…

Peço desculpas ao exigente leitor da Raio Laser por emular tão tristemente os cacoetes estilísticos do caríssimo Frank Miller (se bem que mesmo ele podia se desculpar por fazer a mesma coisa nos dias de hoje), mas abuso da dramaticidade para de alguma forma me justificar por trazer para vocês uma lista tão magra de leituras. Mas foi um ano difícil. E espero que esta lista traga um pouco de reflexão, diversão e entretenimento para vocês como trouxe para mim. Vale lembrar que esta não é uma lista dos melhores quadrinhos publicados no ano, mas sim de boas leituras que foram realizadas em 2017 (inclusive lançamentos). (LN)

Parte 1

Parte 2

por Lima Neto

1 – Mensur – Rafael Coutinho (Cia. das Letras, 2017): Começamos pelo título que abrilhanta 90% das listas de melhores HQ´s do ano de 2017. Não sem razão. Muito já foi dito sobre a volumosa novela gráfica de Rafael Coutinho. Inclusive aqui mesmo na Raio. Mas aproveito este espaço para falar um pouco sobre a minha leitura da obra. Em julho último publicamos no site um ensaio meu sobre a tolice intrínseca e necessária aos quadrinhos de super-heróis, sem a qual não haveria diferença entre os mascarados e os criminosos que caçam. Caso se interesse, você pode ler aqui. O que não está dito no texto é que a leitura que vai inspirar a reflexão sobre o assunto – identidade, rostidade, responsabilidade (e o inverso de tudo isso) – é a narrativa do mensuren Gringo e seu autoproclamado exílio da própria vida. Mensur, como toda obra desse calibre, forma um emaranhado de possibilidades interpretativas e caminhos para o pensar. 

Mas vai ser exatamente o caminho mais direto, o da identidade, que vai me acompanhar a leitura inteira. Desde a bela capa, que evita encarar o leitor e parece ao mesmo tempo ler seu título ou admirar as cicatrizes de seu rosto, passando pelas negras capas internas riscadas em branco - como se fossem lembranças subconscientes de que as linhas que vão dar forma ao conteúdo do livro apenas são o que são graças aos caprichos da percepção -, Mensur é uma narrativa sobre o risco. Sobre a linha e seu papel de definir limites e de avançar, ou não, sobre estes mesmos limites. Não como uma bravata, embora haja bravatas, mas como um risco que se assume e cuja forma resultante define o que se é. Gringo é um personagem ciente de que não há riscos mais eficazes e verdadeiros que aqueles que realiza e recebe em seu secreto esporte. Riscos que definem quem ele é, ou melhor, que rabiscam sobre sua identidade social e construída, uma garatuja de não-identidade que é mais real do que qualquer outra linha  mundana que dá forma aos seres sociais. Abrir mão do rosto, como traço identificador mais do que elemento estético, é a ação antissocial última. É “rasgar a identidade”, como dizem os seres de rosto tatuado para além de qualquer moda que transitam pelas grandes cidades. Insatisfeitos com qualquer identidade que a sociedade possa oferecer. Mas esta entrega ao não-ser não é de maneira alguma redentora, e nem mesmo heroica, é uma apenas uma vivência marcada pelo patético de uma obsessão. 

2 – Lendas do Cavaleiro das Trevas: Alan Davis vol. 1 e 2 – Mike W. Barr e Alan Davis (Panini, 2014/2015): Falando em quadrinhos de super-heróis, uma das leituras mais agradáveis do início de 2017 foi a coleção dedicada à breve fase do desenhista inglês Alan Davis como artista de Batman sob a batuta do escritor Mike W. Barr. Esta fase tem como tarefa dar continuidade à origem do personagem escrita por Frank Miller em Batman Ano 1, e o experiente Barr vai misturar sua verve mais madura (que junto com Brian Bolland foi responsável pela pérola Camelot 3000) com uma interpretação mais colorida e fantástica do homem-morcego. Essa mistura agridoce se inicia com a sequência de título aproveitador Batman Ano 2, que vai ter a arte do ainda desconhecido Todd McFarlane nas primeiras edições, mas termina com o lápis de Davis. A partir daí, o britânico continua no título, agregando a mistura de seriedade e fantasia um visual icônico e o Batman mais elegante da editora. Nas páginas das duas edições, vemos um desfile dos vilões mais clássicos do personagem, reapresentados para a geração pós-crise. Barr e Davis conseguem com sucesso representar os vilões com a dose correta de delírio fantástico e ainda assim parecerem perigosos para suas vítimas. Essa fase ainda conta com a parceria de Robin, tendo um jovem e irresponsável Jason Todd por trás da máscara. Boa parte desse sucesso está o colorido vivo alucinógeno de Adrienne Roy e a competente arte final do parceiro de Davis, Paul Neary. Além da galeria de vilões, vale a pena destacar um empolgante encontro do maior detetive da DC com o maior detetive do mundo – Sherlock Holmes. O encontro aconteceu na edição de 50 anos da revista Detective Comics e contava ainda com a participação do detetive casca-grossa Slam Bradley e o herói investigador de faro para o mistério, Homem-Elástico. O encontro ainda contou com a arte de Dick Giordano, Carmine Infantino, Terry Beatty e Eufranio Reyes Cruz. Outra surpresa bem-vinda na edição foi a adição do especial Circulo Completo, publicado anos depois desta fase e que mostrava a volta do vilão ceifador, personagem de Batman Ano 2 que inspirou o longa-metragem de animação Batman – Máscara do Fantasma. E ainda a colaboração de Davis e Barr na historieta “Saideira no McSurleys”, um conto em preto e branco publicado em março de 2002. 

3 – A História do Petróleo em Quadrinhos – Tales Pereira (Jaguatirica, 2016): O quadrinho nacional vive hoje um momento de intensa produção. Não há como negar. Seja nas prateleiras das livrarias ou nas bancas das feiras independentes, somos cobertos por uma enxurrada de lançamentos dos mais diversos gêneros e qualidades. Este volume de produção nem sempre é correspondido com um poder de compra que garanta o escoamento do que é produzido, e, nesse impasse, muitos quadrinhos podem passar completamente despercebidos pelos radares. Uma dessas HQs se chama A História do Petróleo em Quadrinhos, de Tales Pereira. Uma das teclas mais pressionadas entre os pesquisadores de diversos campos que têm HQ seu objeto de pesquisa é a do potencial didático dos gibis. E esse livro, lançado pela editora Jaguatirica do Rio de Janeiro e bancado por uma campanha bem sucedida no Catarse, expõe de maneira explícita esse potencial. O quadrinho, como o título entrega, é um sobrevoo pela história desta matéria-prima que até hoje demarca uma cicatriz negra na história e nas relações entre ocidente e oriente. Tales, que já trabalhou como engenheiro petroquímico para a Petrobrás, usa um traço simples e cartunesco para discorrer todo seu conhecimento sobre o “ouro preto” em uma narrativa simples, didática, mas assombrosa em seu conteúdo. Com muito despojamento, A História do Petróleo em Quadrinhos expõe os derradeiros mecanismos que movem a sociedade capitalista do ocidente, iluminando relações aparentemente não  correlatas entre ciência, tecnologia e geopolítica. Seu estilo de desenho, embora esquemático, não deixa de ser expressivo e consistente, e o resultado final é uma aula cujo extenso conteúdo pode ser assimilado de maneira muito eficiente. A simplicidade deste gibi é enganadora e esconde uma leitura que deveria ser obrigatória e capaz de mudar a forma de ver o mundo. Algo que raramente é capaz de se dizer sobre uma obra. 

4 – Monstro do Pântano Regênese Vol. 3 – Rick Veitch e vários (Panini, 2017): Rick Veitch segurou uma das maiores batatas quentes do  quadrinho norte americano quando topou dar sequência à fase do escritor Alan Moore no título Swamp Thing. Amigo pessoal de longa data do escritor inglês, Veitch escreveu um dos mais psicodélicos capítulos do personagem no espaço, ainda na fase de Moore. Sua experiência como escritor não era pouca, mas seguir os passos do amigo era um desafio que ele  conseguiu ultrapassar com elegância e uma boa dose de polêmica. Em histórias xamânicas, o personagem do lodo encontrou outras versões de si mesmo de eras passadas, presenciou o consumismo simbolizado pelos carros e autoestradas, entrou no corpo de John Constantine para poder consumar seu amor por sua mulher na forma de uma inseminação (que se tornará sua filha Teffé Holland) e tatuar uma de suas nádegas. Veitch tinha muita familiaridade com o conteúdo das histórias anteriores e isso deu a ele bastante segurança para seguir. Mas vai ser no volume 3 que veremos algumas de suas melhores histórias. A primeira, "Esperando Deus", vai colocar o elemental contra nada menos que o próprio Super-Homem ao tentar buscar justiça pelo sofrimento causado por Lex Luthor quando este destruiu sua ligação com o verde da terra, ainda na fase de Moore. A edição vai mostrar um Monstro do Pântano que se esgueira de todas as formas para consumar sua vingança, sempre sendo frustrado por um Super-Homem que o impede quase sem notar a presença do elemental, realizando apenas algumas ações das muitas que performa todos os dias na função de deus guardião da humanidade. A história vai buscar na relação entre Papa-Léguas e Coyote uma maneira divertida e pungente de homenagear o primeiro super-herói da editora prestes a completar 50 anos.

Em "O Mais Longo dos Dias", encontramos os quatro avatares do verde que, em edições anteriores, partiram para o espaço de forma a agregar à sua coletividade a experiência única que o Monstro do Pântano passou. Cada um deles, seres tão interessantes quanto próprio Alec Holland, se tornam cientes de que seu planeta natal está para ser alvo de um ataque brutal. Ainda não havia selo Vertigo, e a revista Swamp Thing estava para participar do evento "Invasão", que acontecia em todos os títulos da editora. As descrições fantásticas que cada ser dá sobre o ambiente em que agora habitam se somam à paranoia crescente que prepara terreno para a edição seguinte e, em "Enlutada", o clímax se apresenta na forma da cônjuge de um ser alienígena que foi derrotado pelo Monstro do Pântano ainda na fase original de Len Wein e Bernie Whrightson. A narrativa que se segue é tocante e uma interpretação de pensamento alienígena das mais interessantes nos quadrinhos. Como resultado, o Monstro do Pântano é novamente desligado de sua relação com o verde, e vai transitar pelo tempo reencarnando em pontos-chave da história do universo DC. Fase esta que resultou na saída de Veitch do título ao ver a história em que o Holland reencarnaria na madeira da cruz de Cristo. O escritor foi cortado em um crescendo fenomenal, e esta série de encadernadas não terá continuação tão cedo no Brasil, pois mesmo nos EUA esta fase final é proibida de ser republicada. 

5 – The Big Book of Grimm – Jonathan Vankin e vários (1999, Piranha Press): Mais um ano termina, mais uma lista e mais um livro da série Factoid Books, da Piranha Press. Em 2015 a minha lista trazia o Big Book of Death, e agora o “Grande Livro dos Grimm” chega em 2017 botando gibis como Fábulas para correr com o “real deal” dos contos de fada. Como os outros livros da série, este big book é um apanhado das melhores fábulas dos irmãos Grimm, adaptadas por Jonathan Vankin e desenhadas por um exército de quadrinistas de impressionar. George Freeman desenha Cinderella; o conto macabro de Branca de Neve se torna mais grotesco no traço de Charles Vess; Hunt Emerson ilustra o conto Clever Hans. A lista é enorme: Rick Geary, D’Israeli, Sérgio Aragonés, James Kochalka, Rick Burchett, Dame Darcy, Seth Fisher, Mashall Rogers, Steve Leialoha. A quantidade de histórias dá um panorama bem completo das verdadeiras fábulas sempre com uma arte de qualidade em preto e branco. Ainda me impressiona que estes livros não encontram publicação no Brasil.