Do registro indestrutível da memória: sobre Marjane Satrapi


Após um pequeno hiato para que nosso time de redatores possa respirar, voltamos à ativa na Raio Laser com a estreia de mais uma querida colaboradora. A bola da vez é de Gabriela Sobral (blog dela aqui), jornalista, analista de comunicação e fã de quadrinhos. Gabi tem talento e sensibilidade para as narrativas eternamente (e ternamente) afetivas, e resolveu se debruçar um pouquinho sobre a obra da querida (em vários meios) quadrinista iraniana Marjane Satrapi. Esperamos, logo, mais colaborações da Gabi. Seja bem-vinda! (CIM)

por Gabriela Sobral

Sagas da família, álbuns de família, histórias que os avós contam sempre foram coisas muito caras para mim. Sempre procuro algo nesse cheiro de passado, por puro encanto; uma necessidade de me perceber naquelas pessoas. Esse diálogo com a minha memória até hoje é essencial para a construção do que sou, e aos poucos vou tecendo um elo entre os “eus” antigos e os presentes. Essa introdução justifica o interesse em escrever sobre a obra da Marjane Satrapi, nas quais vejo os retratos de pessoas que não conheci, mas que adquiri. Agora, deixemos de lado minhas enrolações e vamos falar de quadrinhos. 

Por causa de meu hobby mofado, assim que tive contato com a obra de Satrapi, senti uma identificação imediata com a abordagem da quadrinista que mistura história, histórias de vida e um resgate de suas experiências, pois a narrativa nada mais é do que contar memórias, reais ou criadas. 


A memória pode surgir daquilo que adquirimos seja por experiências próprias ou pelo contato com outros; é a manifestação do que está arquivado em nós. Essa célula, parte do que somos, pode se manifestar de diversas maneiras, e a autora as manifestou por meio de seus belos e sensíveis quadrinhos, a partir de acontecimentos-chave na História do Irã que se confundem com a rotina privada da família Satrapi. Se você está achando esse texto meloso, a intenção é essa. 

Talvez a obra de Marjane comunique tanto por trabalhar com sentimentos presentes nas consciências coletivas de muitas pessoas. Apesar de trabalhar mais propriamente a realidade iraniana, conflitos sociais, repressão, retratos de governos autoritários, conflitos familiares, imigração e questões existenciais são temas que estão presentes na vida de várias nações. Além disso, em toda a sua obra essas questões ‘macro’ são mostradas pela perspectiva privada, da convivência familiar. Podemos perceber e entender o comportamento daquela realidade pelas conversas das mulheres, enquanto tomam seus chás, pelas relações amorosas, pela necessidade de liberdade, pela relação entre pais e filhos, pelo papel da mulher naquela sociedade, etc.

Em Persépolis encontramos uma obra mais profunda, com elementos que nos passam tanta verdade que é difícil não se sentir sensibilizado com aquilo, em algumas passagens. Contudo, em outras histórias, com um recorte mais específico, como Frango com Ameixas e Bordados, encontramos situações mais esmiuçadas. Essas relações entre quatro paredes fazem o leitor criar todo um imaginário emocional, capaz de catalisar uma identificação com todas as experiências de Marjane, fazendo com que o leitor se encontre, muitas vezes, com suas próprias memórias familiares (pelo menos no meu caso). 

 Em Bordados vi isso quando encontrava pontos de semelhança com aquela muralha de mulheres, que sempre me rodeou, falando sobre sexo, virgindade, aflições e política, e eu sentia que estava ‘ventilando o coração’ junto com as tias, avó e as amigas das avós de Marjane. Talvez essa ligação entre leitor e narrativa aconteça em cima de espaços e tempos que não conseguimos definir ou localizar, uma vez que nossas memórias são construídas entre emaranhados de lembranças e vivências de terceiros. De acordo com Halbwachs, “sempre levamos em nós um certo número de pessoas inconfundíveis” e de histórias inconfundíveis, e isso acaba, de alguma maneira, ficando inscrito em nós. Por mais que essas lembranças pertençam à autora, são construídas e apoiadas pela coletividade, ou seja, dentro de nossas cabecinhas. Dessa maneira, cada quadradinho se eterniza não só no registro material – livro – mas no registro indestrutível – a memória. 

A balada de Astrid e Stu


por Pedro Brandt

Stuart Sutcliffe foi um beatle por pouco tempo. Ele trocou a música por suas verdadeiras paixões: as artes plásticas e a namorada, Astrid Kirchherr, fotógrafa alemã que virou amiga dos rapazes de Liverpool antes da fama, durante a temporada do grupo em Hamburgo — onde eles aprimoram seu poder de fogo em cima do palco tocando em inferninhos na zona boêmia da cidade. É neste período que se passa a história em quadrinhos Baby’s in black — O quinto beatle.

Como o título sugere — e como o subtítulo A história de Astrid Kirchherr e Stuart Sutcliffe confirma —, a HQ escrita e ilustrada pelo alemão Arne Bellstorf tem os Beatles como coadjuvantes do curto, mas intenso, relacionamento do baixista com a fotógrafa. Stu, como era conhecido, tocou baixo nos Beatles entre 1960 e 1961. Especular como teria sido a história da banda caso ele tivesse permanecido nela é um exercício que não vai muito longe. Sutcliffe morreu de aneurisma cerebral, aos 21 anos, em 10 de abril de 1962.


O romance do casal foi bastante linear, sem conflitos, ainda que com um final trágico. Nesse sentido, Bellstorf pouco acrescenta para fazer a histórias dos protagonistas mais interessantes, se atendo aos relatos biográficos. Astrid foi apresentada aos Beatles pelo amigo (na época, namorado) Klaus Voormann, jovem que, assim como ela, era estudante de artes plásticas. Klaus conheceu a banda no Kaiserkeller, bar escuro, esfumaçado e cheio de gente onde o então quinteto varava a madrugada (à base de entusiasmo e anfetaminas) tocando clássicos do rock’n’roll americano. Em 1960, o grupo era formado por John Lennon, Paul McCartney e George Harrison nas guitarras e vozes, Pete Best na bateria (em breve, ele seria substituído por Ringo Starr) e Stu Sutcliffe no baixo e, eventualmente, ao microfone (para cantar a balada Love me tender). A banda se diferenciava das demais que faziam o mesmo circuito pelo carisma e energia.

Mangá e nouvelle vague

No palco, Stu se destacava entre os beatles com um charme à James Dean, meio tímido, meio indiferente (por vezes, tocando de costas para o público). Astrid se apaixonou por ele na primeira visita ao Kaiserkeller. Ela falava pouco inglês e Stu pouco alemão, mas o idioma não foi barreira para a união do casal. Em pouco tempo, o baixista estava morando no porão da casa da mãe da moça, onde montou um ateliê e voltou a se dedicar à pintura.

Em algumas passagens, Astrid e seus amigos estudantes de arte comentam o quanto gostam da literatura e do cinema francês. Arne Bellstorf transporta essa predileção estética para a condução da história. Os tempos mortos da narrativa, o preto e branco das imagens e as cenas deixadas em aberto para o leitor preencher evocam a nouvelle vague.
 
A isso, o autor adiciona desenhos com algo de mangá, o quadrinho japonês, especialmente na maneira de desenhar os rostos dos personagens — deixando todos “fofinhos”. Bellstorf narra o romance de forma intimista — os primeiros encontros, as trocas de olhares, os passeios pelo bosque e as conversas debaixo do cobertor são apresentadas com delicadeza.

Ao contrário das gravações feitas pelos Beatles acompanhando o cantor Tony Sheridan no período vivido em Hamburgo, que geralmente interessam apenas aos fãs mais dedicados do quarteto, não é preciso conhecer uma músicas da banda para curtir Baby’s in black.

Baby’s in black — O quinto beatle
De Arne Bellstorf. 214 páginas. 8inverso Graphics. R$ 51.

Quadrinhos ou romances gráficos?


Quem debuta por aqui hoje é, com enorme satisfação (nossa), o Thomaz Simões, professor de História da Arte, altamente qualificado, e que mesmo assim escreveu a mais surpreendente crônica sobre os quadrinhos... E ele se apresenta:

Hoje professor, foi graças aos quadrinhos que acabei tomando gosto por desenho e leitura. Me formei arquiteto, fiz mestrado em História da Cultura, em breve começo um doutorado em Antropologia Social... Um dia, em algum lugar, me encontro (espero que tenha quadrinhos por lá).

por Thomaz Simões

“Romance gráfico”?... Fico na dúvida se respondo – monossilabicamente, ou melhor, quadrinisticamente – : “sei não” ou “putz!”...

Sei que deveria ficar feliz com esse reconhecimento dos quadrinhos como Arte, mas... sei não. É que no fundo não ligo. Isso vem lá da minha adolescência e, por isso mesmo, é digno de nota: perdido, “sem pai nem mãe” no tiroteio da fase, consumia, colecionava, quilos de “gibis” sem peso na consciência de estar sendo infantil...

Certa vez, para a incredulidade do meu pai, pedi que enviasse uma carta com “perguntas ao editor”, dúvidas sobre detalhes quase insignificantes detectados no meio das histórias (vinham muitas vezes de notas de rodapé – marcadas com asterisco – com referências a números ou personagens antigos), resumindo: qualquer sombra de cultura quadrinística que me faltasse eu ia atrás.
           
Pleno sol de subúrbio carioca, lá ia eu me embrenhar em sebos, quero dizer, bancas velhas e falidas (que, para mim, desempenhavam a mais nobre das funções sociais) procurando os números perdidos. Demolidores de Miller e Mazzucchelli, Ligas da Justiça de Giffen-DeMatteis-Maguire (depois Hughes), Justiceiros de Potts e Lee... Bons tempos.


Pois bem, plena adolescência... de onde vinha toda essa segurança? (Olha que eu era dos mais tímidos, daqueles que dava graças a Deus por ter alguns poucos amigos que aceitavam, ou não percebiam, minhas esquisitices.) A resposta só deve surpreender a quem não é do meio: ora, vinha dos próprios quadrinhos! Eles valiam a pena. Eram a melhor coisa que havia.
           
Meus heróis, vejam bem, não eram exatamente os personagens a ou b, mas os personagens a ou b escritos e desenhados por x e y. Eram sensacionais. (Imaginem minha satisfação quando, tempos depois, encontrei uma história do Ken Parker em que aparecem Berardi e Milazzo. Simplesmente genial.)


Vamos colocar as coisas nos seguintes termos: se havia muitos que ridicularizavam os quadrinhos, o problema para mim não era o que eles achavam dos quadrinhos, e sim o que os quadrinhos achariam deles. Aqui retomo meu ponto inicial: “Romance gráfico”? Putz!

No meu tempo graphic novel denotava simplesmente trabalhos esporádicos, mais cuidadosos e, sobretudo, mais caros. Eram uma festa para olhos acostumados a papel jornal, mas de forma alguma outro patamar de qualidade. Afinal eram os mesmos autores, apenas, vamos dizer, mais maquiados. Vem daí minha desconfiança. Os quadrinhos nunca precisaram desse tipo de reconhecimento, ou mesmo, arrisco dizer, sempre desdenharam dessa tendência esnobe. Sua “arte” surge em meio a um turbilhão de aventuras repetitivas, anestésicas, após muito suor inútil, – como que por acaso.


E para quem costuma opor quadrinhos à “alta cultura”, deixo aqui o registro de uma aventura da LJA na Rússia (antiga União Soviética...): Sobrevoando aquelas paisagens brancas sem fim, rumo ao combate contra um trio de extraterrestres (que, pacifisticamente, queria salvar a Terra das armas atômicas), o sátiro Besouro Azul comenta com Canário Negro:

– Já leu Os Irmãos Karamázov?
– Duas vezes.
– Eu três...  BOOM! (A nave é interceptada.)

Nem preciso dizer que só depois disso me interessei por Dostoiévski. 

Ode à idiotia: a morte de Groo

por Ciro I. Marcondes

Sempre fui um fã de Sergio Aragonés. Lembro-me perfeitamente de, back in the good old nineties, comprar uma edição velha de Groo, o errante (uma que tinha Groo caminhando, num plano bem aberto, no deserto, junto a um esqueleto de urubus) e ler e reler aquela edição, até então única para mim, de maneira quase psiquiatricamente obsessiva. Estava ali, antes que eu conhecesse o humor da verve da MAD (da qual Aragonés foi um dos mais assíduos colaboradores), um tipo de diferente de HQs, primado por um humor negro, mas não baixo e cínico, como quase tudo que se vê em humor (mesmo de qualidade) hoje em dia. O humor de Groo conseguia ao mesmo tempo ser irônico, ácido, crítico, e leve, suave, quase inocente. Que tipo de inteligência mordaz seria capaz de produzir uma paródia de Conan que conseguia ser quase melhor que o original? Certamente não uma bitolada mente americana. Aragonés, o espanhol-mexicano, com pleno domínio da quadrinização, era a própria mente multicultural que poderia produzir o quadrinho mais engraçado dos anos 80: acostumado a deitar e rolar na linguagem dos quadrinhos mudos em Louder than words para a MAD, ele fez, junto ao impagável Mark Evanier, de Groo uma obra-prima tanto da estética, quanto das paródias, quanto do humor, quanto da linguagem em quadrinhos.

Quando chegou, esses dias, às minhas mãos a edição, escrita e ilustrada por Aragonés em 1998, chamada

Dia de los muertos (publicada pela Pandora Books em 2001 no Brasil), era impossível não pensar: “preciso escrever algo sobre Aragonés para a Raio Laser. Urgente. Preciso, mais do que tudo no mundo. Aragonés. Preciso. Urgente.”. De alguma forma, a obsessão psiquiátrica parecia ter retornado de maneira persecutória e patológica. Porém, um Aragonés de 1998 não é a mesma coisa que a fase áurea de Groo, um compêndio adorável e insuperável de aventuras medievais protagonizada por um idiota de fazer inveja a Homer Simpson. Em Groo, não deixamos de ver tudo que compete aos fanáticos por mediavalismo pop: reis, bandidos, castelos, navios, menestréis, guerreiros, belas donzelas e belas amazonas, tudo no traço ricamente detalhado e potentemente vívido de Aragonés, um mestre da indumentária medieval, dos costumes de época e genial ao verter esta cultura em uma forma de humor.

Groo é a casa do cão Ruferto, o único que acredita em sua astúcia. Groo é a casa do Sábio, que procura ajudá-lo, mas inevitavelmente se impacienta com ele. Groo é a casa de Grooela, a rainha mesquinha e irmã do herói, que preferia vê-lo morto. Groo é a casa de um incontável número de grandes coadjuvantes, personagens que dão cor à saga do mais idiota entre os idiotas. Se Dia de los muertos era apenas uma anedota, já meio preguiçosa, a respeito do capitalismo e da imbecilização dos americanos em relação a culturas estrangeiras, eu precisava voltar ao meu tesouro original. Precisava voltar a Groo.

Infelizmente, porém, a minha coleção completa de

Groo, assim como 90% da minha coleção inteira de quadrinhos, foi levada pelos cupins, estes seres bestiais. A única coisa que me restava em mãos, assim, para satisfazera obsessão persecutória, era reler a edição de A morte de Groo, uma edição fechada, do selo Graphic novel da Abril (que curiosamente não lançava Graphic Novels, mas sim apenas histórias curtas e fechadas, one-shots), que eu comprara num sebo recentemente. Esta história foi publicada originalmente em 1987, e saiu no Brasil em 1989. Com tratamento gráfico diferenciado, amplos quadros detalhadíssimos, colorido à mão e com um roteiro muito inspirado de Mark Evanier, A morte de Groo é uma das histórias canônicas do personagem, e sua sutil inversão moral, quando Groo, retornando como desconhecido, é recebido como herói, torna esta também uma das histórias com maior amplitude para uma leitura final da saga. 

Em A morte de Groo, o bárbaro é mais odiado por todos do que nunca antes. O rei Krag, figura enfastiada e de péssimo humor, odeia Groo, e ao mesmo tempo é obcecado por Groo. Seu bobo da corte precisa repetir seguidamente “odeio Groo” para convencer o rei de que... odeia Groo o suficiente. E isso não basta. Há muito ódio sobrando para Groo. Krag chega a mandar matar um homem... por se parecer com Groo. Outro... por andar como Groo. E um vendedor de queijo (comida favorita de Groo)... por feder como Groo! A obsessão do rei por espancar bonecos de Groo e colocar cartazes decretando o repúdio geral a Groo levam a cidade (um pequeno feudo) a uma hilariante caça às bruxas por Groo. Este exasperante repúdio à idiotia de Groo tem um sentido, explicado pelo menestrel, em flashback: o bárbaro, então escudeiro do rei, defenestrou seu exército após se confundir e alçar um bandeira de guerra, ao invés de uma bandeira de paz, conforme era o plano (maquiavélico) do rei. Desde então, Krag não governa, não se importa com seus súditos, não faz um plano de economia, não se preocupa com sua sociedade. Tudo que lhe importa é espalhar aos quatro ventos o ódio a Groo, que se torna obrigatório a todo o reino.

Groo, sem entender o que se passa, acaba virando um fora-da-lei, e, quando entra em contato com o dragão Floom-Floom, buscando redenção, acaba deixando suas roupas e espadas junto a um monte de ossos, que logo são confundidos com a ossada... dele próprio. A notícia da morte de Groo então se espalha, e enormes festividades são lançadas pela cidade, sendo particularmente hilário o funeral de Groo, onde uma galeria de personagens clássicos aparece para demonstrar seu repúdio ao grande idiota. Sempre dentro da lógica da comédia de erros, porém, Groo traça um plano: “As pessoas não sabem o quanto precisam de Groo. Por isso, não sentem falta. Eles iam se dar conta se um grande vilão aterrorizasse todo mundo! Pena que não existe nenhum grande vilão! Nesse caso, vou virar um”. 

A tônica de uma HQ como Groo segue a mesma premissa de um humor antigo como o do Krazy Kat de Herriman: Groo sempre tentar fazer tudo de um jeito certo, mas, de alguma forma randômica, ou vítima de sua própria idiotia, tudo sempre sai errado para ele. Ao mesmo tempo, saindo tudo errado, Groo sempre consegue triunfar no final, da mesma maneira que o rato Ignatz sempre acaba preso pelo guarda Pup ao tentar acertar tijolos na cabeça de Krazy. Isso torna, certamente, Groo um dos mais quixotescos personagens dos quadrinhos, e, não por acaso, nesta história, quando Groo procura se tornar o vilão, ele acaba revertendo-se num improvável herói. Isso me lembra o capítulo do próprio Quixote analisado por Erich Auerbach, em que, quando Sancho e o Quixote decidem trocar de papéis, as coisas estranhamente passam a dar certo, mas uma dinâmica de ação ao qual estavam acostumados se esfarela, fazendo ruir a interação entre os protagonistas. Aqui, quando Groo procura se tornar o vilão e reconstruir sua imagem, estranhamente suas ações deletérias acabam por ajudar a cidade, fazendo-o viver um dilema típico do Homem-Aranha: quanto mais ele procura fazer o bem, mais implacavelmente caçado ele se torna.

A exacerbação da idiotia de Groo e todo esculacho pelo qual ele passa certamente fazem do bárbaro um herói ainda muito contemporâneo: profundamente paródico, é um perfeito espelho às avessas dos ideais do heroísmo clássico. Porém, uma verdade mais inteligente emerge das histórias de Groo se analisarmos seus antagonistas: mesquinhos, egocêntricos, traíras e covardes (além de profundamente idiotas), eles nos remetem ao contexto de que o pecado original de Groo (a idiotia) é compartilhado por todos, e não há como não preferir a errância molóide do bárbaro ao mundo dog-eat-dog em que ele erra. Desta forma, Groo ainda traz um reflexo, ainda que pálido, dos heróis da era moderna: torcemos por ele não por ele possuir virtudes, mas por, através de pura ingenuidade, evitar os vícios.

Pinóquio das trevas

por Pedro Brandt

“A história a seguir é uma adaptação bastante livre do romance de Carlo Collodi”, avisa o roteirista e desenhista Winshluss antes da primeira pagina ilustrada de sua versão em quadrinhos para Pinóquio. Nas mãos deste artista francês (nascido Vincent Paronnaud, em 1970), a marionete que ganha vida não é de madeira e seu nariz não cresce se ele mentir. O boneco também não tem fada madrinha, um pai carinhoso preocupado com ele ou um grilo falante fazendo papel de consciência.

Se tanto a obra de Collodi quanto a animação feita a partir dela pelos estúdios Walt Disney pregavam lições visando o bom comportamento dos petizes, Winshluss apresenta em 183 páginas uma visão sombria do mundo que nada tem de conto de fadas. Uma publicação, definitivamente, não recomendado para crianças — mas indicada para quem quiser conhecer uma das mais impressionantes HQs francesas em anos recentes, vencedora do prêmio máximo no festival de Angoulême em 2009. À qualidade do conteúdo, soma-se o ótimo acabamento editorial, com capa dura, papel de alta gramatura, impressão impecável e uma adaptação muito bem-feita da tipografia original.



Com uma trajetória ainda curta nas histórias em quadrinhos, Winshluss é mais conhecido pela premiada versão em longa metragem de animação da HQ Persépolis (cuja autora, Marjane Satrapi, assina com ele a direção do filme). Essa relação com a sétima arte ajuda a entender a habilidade do francês como narrador visual. Boa parte de Pinóquio é contada com imagens, sem balões de fala — é com olhares, movimentos e expressões, acompanhados de diversos recursos gráficos, que ele comunica, com excepcional eficácia, ações, ideias e intenções. Os diálogos ficam reservados para as sequências (algumas, hilárias) estreladas por Jiminy Barata, o Grilo Falante da vez. O inseto, um escritor boêmio e em crise que mora na cabeça de Pinóquio, mais parece a cigarra preguiçosa da fábula de Jean de La Fontaine.

Autômato

Winshluss pontua a história com tramas paralelas, que vão se amarrando com o passar das páginas. O leitor é apresentado a intrigas, assassinatos, tráfico de órgãos e violência doméstica. O Pinóquio de Winshluss foi criado por um Gepeto que de bonzinho tem apenas a aparência. Feito de peças robôticas, o menino pode realizar de tarefas domésticas a ataques militares, mas é um autômato (aparentemente) sem vontade própria ou sentimento.

Solto no mundo, o protagonista é manipulado por todos que cruzam seu caminho. E são esses personagens — em geral, perversos, gananciosos ou perturbados — que vão guiando a história, caso da dupla de mendigos (um trapaceiro, outro cego e fanático religioso), do menino de rua que vira amigo de Pinóquio, do policial depressivo e alcoólatra, dos sete anões pervertidos, do monarca vaidoso e do industrial que explora trabalho infantil. Se tem uma lição que Winshluss dá com seu Pinóquio é que, no meio de tanta escuridão, só se chega à redenção com sentimentos puros.

Pinóquio
De Winshluss. 192 páginas. Editora Globo. Preço R$ 75.


JORNADA!!!

Começa amanhã, e segue até quarta-feira, a III Jornada de Estudos Sobre Romances Gráficos na UnB. O evento é organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea e, desta vez, tive a honra de participar da organização. Apresentarei, logo na primeira mesa, no dia 24, o trabalho "A espaçotopia a partir de Moebius", e vou ministrar um pequeno workshop sobre a história dos Quadrinhos no dia 25. A programação está muito rica e conta ainda com o lançamento do livro Histórias em quadrinhos: diante da experiência dos outros, organizado por Regina Dalcastagnè.

Segue a programação abaixo e... programe-se! (CIM)


III Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos
 
Brasília – Universidade de Brasília – 24 a 26 de setembro de 2012
Local: Auditório 1 do Instituto de Ciências Biológicas
Coordenação: Regina Dalcastagnè (UnB) 
Comitê organizador: Ciro Inácio Marcondes (UnB), Gabriel Estedis Delgado (UnB), Igor Ximenes Graciano (UFF), Ludimila Moreira Menezes (UnB), Maria Clara da Silva Ramos Carneiro (UFRJ) 
Organização: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea
Apoio: Departamento de Teoria Literária e Literaturas 
Inscrições pelo e-mail:jornadaromancesgraficos@gmail.com
As histórias em quadrinhos contaminaram o imaginário contemporâneo com seus personagens mais famosos, assim como sua estrutura icônica e sua narrativa tornaram-se referência para outras artes. Elas fazem parte do universo plástico e afetivo de pessoas de diferentes faixas etárias, gêneros, nacionalidades. Das tiras às histórias mais longas, seu sistema compreende diversos modos de realização, dentre as quais destacamos as graphic novels – ou romances gráficos. Fugindo ao herói tradicional dos gibis, muitos romances gráficos tratarão de temas extremamente literários, trazendo à baila, também, novas possibilidades discursivas. Dessa forma, os romances gráficos suscitam questões sobre o mercado livreiro, a indústria do entretenimento, a arte como relato e testemunho, e apresentam-se como espaço de exercício sobre memória, subjetividade, gênero, sexualidades. São problemas frequentes para a crítica literária que podem ser analisados, hoje, à luz desse objeto cultural ainda tão pouco estudado. 
Nesse âmbito, a Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos, organizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, chega à sua terceira edição confirmando-se como um espaço necessário ao aprofundamento de tais discussões. Reunindo estudantes, profissionais da área de comunicação, artes e literaturas, professores e pesquisadores, o evento cresce a cada ano, envolvendo, a cada vez, novos eixos de debates.


PROGRAMAÇÃO
Dia 24/9
MESA 1
8h às 10h
Pontos de contato entre literatura infantil e histórias em quadrinhos no mercado editorial brasileiro
Paulo Ramos (Unifesp)
A espaçotopia a partir de Moebius 
Ciro Inácio Marcondes (UnB)
A utopia enquanto forma em La fièvre d’Urbicande
André Cabral de Almeida Cardoso (UFF)
MESA 2
10h30 às 12h
Formas animadas e percursos de leitura da imagem: vetorialidade e sistema das ações no humor gráfico
Benjamim Picado (UFF)
Sigmund Freud em quadrinhos: O homem dos lobos 
Pascoal Farinaccio (UFF)
Arquiteto de papel: ação do duplo em Asterios Polyp
Rosângela Maria Soares de Queiroz e Cleriston de Oliveira Costa (UEPB)
MESA 3
14h30 às 16h
Os homens da areia de Hoffmann e Gaiman
Sílvia Herkenhoff Carijó (UFF)
A fase independente de Alan Moore e sua cria subversiva
Naiana Mussato Amorim (UFU)
A Liga Extraordinária: o fanfiction de Alan Moore e Kevin O’Neill
Vinicius da Silva Rodrigues (UFRGS)
MESA 4
16h30 às 17h30
Jonah Hex: um cowboy americano de típico italiano
Alex Vidigal Rodrigues de Sousa (UnB)
Os cegos, os mortos, os bárbaros: desastre, violência e prognósticos do presente em Os mortos-vivos e Ensaio sobre a cegueira 
Pedro Galas Araújo (UnB)



Dia 25/9
MESA 5
8h30 às 10h
A difícil representação da equivocidade feminina em O homem que ri: da narrativa hugoana aos romances gráficos da contemporaneidade  
Junia Regina de Faria Barreto (UnB)
O grotesco e a monstruosidade feminina em Y: o último homem
Anne Caroline de Souza Quiangala (UnB)
Anti-urbanismo queer em Fun Home: uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel
Adelaide Calhman de Miranda (UnB)
MESA 6
10h30 às 12h
Gênero, Shoujo Mangá e história alternativa: reflexões sobre Ōoku de Fumi Yoshinaga
Valéria Fernandes da Silva (FTB/Colégio Militar de Brasília)
Representações da prostituição nos quadrinhos
Daniel Leal Werneck e Letícia Cardoso Barreto (UFMG)
MESA 7
14h30 às 16h
Liberação sexual: a juventude da contracultura a partir da autobiografia de Robert Crumb, emMinha vida
Larissa Silva Nascimento (UEG)
Autobiografia e subjetividade: Fréderic Boilet e a nouvelle manga
Tiago Canário de Araújo (UFBA)
Sarjeta: o espaço subjetivo dos quadrinhos
André Valente (UnB)
MESA 8
16h30 às 18h
Capuchinho Vermelho, de Charles Perrault, e Mônica: a de vestidinho vermelho, de Mauricio de Sousa: dois estilos, duas linguagens e a expressão contemporânea do conto de fadas
Rita de Cássia Silva Dionísio (UNIMONTES)
O exílio da gata: a mulher felina como ameaça sexual em Batman
Marcia Heloisa Amarante Gonçalves (UFF)
Heróis em ação: palavra, narrativa e heroicidade na longa viagem entre o passado e o presente
Juliano de Almeida Pirajá (UEG)



Dia 26/9
MESA 9
8h30 – 10h
Narrativas contemporâneas: das artes “à margem”. Sobre Encruzilhada e outras “artes periféricas”
 Maria Clara da Silva R. Carneiro (UFRJ)
A imagem na palavra, a representação sob o signo da Esfinge em A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli
Rafael Martins (UFMG)
A narrativa visual em Eu te amo Lucimar, de Lourenço Mutarelli
Guilherme Lima Bruno E. Silveira (UNESP/São José Rio Preto)
MESA 10
10h30 – 12h
Infortúnios espaciais, prosperidades distantes em Lucille e Renée, de Ludovic Debeurme
Ludimila Moreira Menezes (UnB)
Desenhos do isolamento: personagens de Jimmy Corrigan, de Chris Ware
Breno Couto Kümmel (UFMG)
The Left Bank Gang: crise da memória e a crise na escrita
Pedro Henrique Trindade Kalil Auad (UFMG)
MESA 11
14h30 – 16h
Tradução e formação do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil
Dennys da Silva Reis (UnB)
E-comics: linguagens, estratégias e prospectivas
Raimundo Clemente Lima Neto (UnB)
A poética da imagem como o atrativo de HQs
Eliane Dourado (UnB)
MESA 12
16h30 – 17h30
A peso do fandon no universo dos quadrinhos
Lucas de Sousa Medeiros (UFU)
Graphic novels na escola: o que propõem os suplementos de leitura?
Angela Enz Teixeira (UEM)



Oficinas
24/09 (18:30 às 21h30)
Oficina Básica de HQ’s, com André Valente
25/09 (18:30 às 21h30)
Oficina “História dos quadrinhos em 3 atos”,  com Ciro Marcondes



Lançamentos
Livro Histórias em quadrinhos: diante da experiência dos outros, organizado por Regina Dalcastagnè.
Número 39 da revista Estudos de literatura Brasileira Contemporânea, com dossiê sobre “realismo e realidade”.

Lixo extraordinário: sobre as HQs de Zé Carioca


por Ciro I. Marcondes

No ano passado, numa frutífera excursão aos sebos, encontrei uma pequena coleção do Zé Carioca – edição quinzenal – entre 1971 e 1979 (pegando os – ainda modestos – 25 anos da Editora Abril), que consegui pechinchar pela quantia de R$ 1,00 cada, levando, ao todo, no final, umas 40 edições bem conservadas, sem grampo, bem amareladas (como não poderia deixar de ser), mas dignas. A coleção está toda furada, mas isso pouco me importava (não sou muito afeito aos esquisitismos do colecionismo). Após uma amiga me declarar que eu havia gasto 40 reais em uma bela pilha de lixo, resolvi ensacar aquilo e guardar para quando uma oportunidade interessante de aproveitá-la na Raio Laser aparecesse.

Sempre fui leitor Disney (é verdade que é difícil indicar algum tipo de HQ que eu não leia) desde a infância, e, por mais que estivesse distante desse universo há alguns bons anos (ou décadas), sentia falta dessa parcela tão importante da cultura de HQs aqui no blog. Disney acabou sendo bastante defenestrado por suas associações com o macartismo, além da presença daquele livro eficiente, mas academicamente chucro e datado (“Para ler o Pato Donald”), que cuidou de limar lentamente outros tipos de leitura inteligente de seus quadrinhos. Minha lembrança dos quadrinhos Disney sempre foi de narrativas versáteis, atuais, cheias de ricos universos de personagens, com arquétipos fortes (carregando, lá, seus preconceitos, mas, felizmente, naquela época ninguém se importava), variabilidade temática, instigações cientificas, sociológicas, uma fartura de benesses.

Minha pequena “pilha de lixo” vai do número 1031 até o número 1445, lembrando que, em primeiro lugar, esta série começa no número 449 (primeira estranheza) e que, em segundo, ela consta apenas de números ímpares, já que os números pares eram dedicados ao Pato Donald na Abril dos anos 60-70 (estranheza editorial número 2). É claro que, como estamos falando de Zé Carioca, estamos falando de um tipo especial de cultura Disney, ou seja, uma desenvolvida no Brasil e para o Brasil, e vou privilegiar aqui a análise deste aspecto das histórias. A imensa maioria delas é já da fase de editoração 100% nacional, provavelmente desenhadas pelo lendário Renato Canini, responsável pelo abrasileiramento absoluto do Zé nos anos 70, mas não há créditos.

As histórias do Zé nesta época são intensamente vivazes, muito coloridas, com familiar cenário brasileiro, e geralmente lidando com problemas mais afeitos ao leitor brasileiro: um tipo especial de assaltos e violência, por exemplo, ou a cultura do samba e outros tipos de cultura de matriz negra, geralmente excluídas do compêndio cultural da Disney, ou um certo temperamento mais despojado, elétrico e malandro de todos os personagens, contaminados por um senso de ética carioca que, sejamos francos, ainda faz bastante sentido. Portanto, selecionei quatro histórias que funcionam como um anedotário daquilo que encontrei em Zé Carioca ao chafurdar neste “lixo extraordinário”.

1: A cultura do western e a cultura da violência

Em “O mais procurado da cidade”, presente em Zé Carioca Nº 1037, de 71, acompanhamos a história se abrir com um belo requadro panorâmico desenhado de forma realista (grande sacada), em que uma grande tela de cinema mostra um cowboy atirando (Bam! Bam!), ao mesmo tempo em que silhuetas de personagens Disney observam atônitos. Logo depois, após mais um requadro anunciar o fim da história, vemos as silhuetas (dentre as quais podemos identificar a de Zé Carioca) conversarem empolgadamente sobre o filme. Saindo do cinema, diante do cartaz, Zé (ainda vestido de terninho, chapéu panamá e guarda-chuva, conforme seu visual clássico) empunha o guarda-chuva empolgado, entusiasmadamente falando em voz alta: “Menino! O Texas Bill é o máximo! É o quente!”

Esta pequena história, cuja moral se centrará num engano (Zé será confundido com um bandido e verá que vida “cheia de perigos” do faroeste não é tão legal quando vivenciada no “mundo real”), me faz pensar em dois aspectos dignos de nota: em primeiro lugar, a solidez da cultura do western no Brasil já nos anos 70, quando o gênero, em sua matriz americana, resfolegava. Filmes extremamente críticos à cultura do faroeste, como Os profissionais (66), Meu ódio será sua herança (69) e Pequeno grande homem (70), já delineavam o declínio do gênero, que nas décadas seguintes apenas perderia cada vez mais sua espantosa popularidade adquirida nos anos 30, 40 e 50. 

Como o entusiasmo do Zé com o filme de “Texas Bill” parece fresco como o de um menino vendo hoje “Os vingadores”, isso é amostra o suficiente da perenidade da cultura dos westerns no Brasil, com vários cinemas especializados, durante os anos 70, além da popularidade dos chamados “Western Spaghetti” (feitos por italianos), que vão se disseminar a partir especialmente desta década. O nome do filme de “Texas Bill”, “O Cruzeiro furado”, de fato parece parodiar os títulos dos filmes de Sérgio Leone. A história, simpática, ainda flerta com o gangsterismo e o noir, fazendo singela homenagem ao cinema, alinhavando a relação que o cinema de violência no Brasil tem com estas culturas estrangeiras. Se alguém se lembrou, na outra ponta da corda, um filme como Cidade de Deus, eu não acho que seja por acaso.

2: O Rio continua lindo

Em “Um guia em apuros” (Zé Carioca Nº 1207), o quadro panorâmico que geralmente abre toda história Disney mostra Zé Carioca em um modesto stand (o “Zé-Tur”) tentando dar viabilidade à sua agência de turismo. No fundo, nada menos que os morros da Urca e do Pão de Açúcar. “Conheçam o Rio! Férias! Sol! Verão!”. No quadro seguinte, após vermos as ofertas dos concorrentes, Zé olha, num plano frontal, para o próprio leitor e comenta, desanimado: “Ufa! E me disseram que o turismo é um bom negócio... mas por mais que eu grite... a turma vai toda pra agência concorrente!”

Tentando trabalhar (mas não conseguindo – como é a tônica da maioria das histórias do Zé Carioca) honestamente, Zé, aturdido com os baixos preços dos concorrentes (uns gatunos malhados), resolve implementar todo tipo de reforma no negócio para conseguir tirar um trocado: muda o stand de localidade (juntamente com seu amigo urubu, Nestor), abaixa os preços, mas nada muda. Resolvendo então pagar para ver qual o segredo dos gatos, eles descobrem que os concorrentes executavam um crime consideravelmente hediondo: levavam os turistas para cima de um morro e os assaltavam. Me pergunto se colocavam eles dentro de pneus enfileirados e tacavam fogo também, para depois jogar as carcaças na floresta da Tijuca.

Dadinho é o caralho!

Esta história me trouxe à tona dois imaginários sobre o Rio: primeiro, o turismo, que agora bomba tanto com as Olimpíadas, sempre primitivo, batendo na mesma tecla tropical, mostrando que, num estereótipo grosseiro em um gibi para as massas, ou numa campanha governamental “séria”, o Rio de Janeiro continua sob o signo de umas duas ou três características supostamente imutáveis. Em segundo lugar, o aparecimento, bastante agressivo, de uma terceira característica implicada no mundo caótico dos cariocas: a violência associada a uma inteligência intrusa e perversa, ou a selvageria do gangsterismo à brasileira. De alguma forma enraizado num paradoxo de eterno paraíso perdido, o Rio só tem salvação mesmo, nas páginas do gibi, na figura do malandro romântico que é Zé Carioca, trazendo sempre algo de “bom selvagem”, procurando sempre mostrar ao leitor cínico que naquele algures caótico que se valoriza o descaso e a trapaça, convive também a cultura do “viva e deixe viver” tropical, deitada na rede, jogando futebol.

Malandraij

3: Tô me guardando pra quando...

A edição número 1.111 de Zé Carioca, datada (precisamente) de 23/02/73, é uma edição de carnaval. Logo na capa, uma bela ilustração sobre fundo rosa-bebê, vemos um verdadeiro fuzuê com Zé, Donald, Pateta e toda turma batucando no tamborim, soprando corneta, soltando serpentina, cheirando lança-perfume (sic!). Quando abrimos o gibi, nos deparamos com a encantadora história “Um paulista na corte do rei momo”, um tema dificilmente batível em termos de brasilidade. Cheia de vitalidade carnavalesca, esta história vai contar o deslumbramento do desajeitado primo Zé Paulista quando é convidado por Zé Carioca para desfilar no carnaval mais famoso do mundo. Vale recontar a primeira página: Zé Paulista, de cabelinho penteado, terninho empoleirado e uma puída gravata, chega na rodoviária carioca cheio de dúvida e anseios, enquanto lê-se numa placa na própria rodoviária: “o serviço público rodoviário informa: faltam 3 dias para o carnaval”.

Zé Paulista, pontual e ansioso, pergunta-se onde estará Zé Carioca, que prometera buscá-lo na rodoviária. Ao mesmo tempo, num suspeito estereótipo de erudição paulista, pergunta-se como comprará ingressos para o Teatro Municipal. A verdade é que Zé Carioca estava na praia e vai buscar o primo apressado e “culto” com duas horas de atraso. O grande charme desta história é exatamente a caricatura um tanto ridícula, mas ao mesmo tempo insistentemente pregnante, que se pode observar da cultura de São Paulo a partir do primo de Zé. Este enfoque na dedicação, mas ao mesmo tempo na ingenuidade, acabam por definir o destino do personagem na história. Se o trabalho sem malandragem (exatamente o oposto do Zé Carioca) aparece como fator definidor do paulista na história, é justamente o apego ingênuo ao trabalho que o transforma no melhor tocador de tamborim de Vila Xurupita. Como bom paulista obcecado e dedicado, ele recebe a missão de tocar o instrumento, no bloco de rua da moçada, das mãos do próprio Zé. Levando a experiência como uma missão de vida ou morte e treinando dia e noite, ele acaba surpreendendo os jurados e vencendo o carnaval de Vila Xurupita. Diante deste panorama paradoxal, qual é exatamente, portanto, a visão construída sobre os paulistas nesta história? A do “mané” que não sabe tocar e perde o tempo treinando pateticamente, ou a do bastião da força de trabalho, eficiente até mesmo na cultura alheia? Esta singela historinha tem o poder de invocar as duas perspectivas.

Locomotiva do Brazeel

4:  Brasil grande

Por fim, uma das histórias que melhor atestam o carimbo de “brasilidade” atribuído às HQs do Zé Carioca está na edição número 1209, e tem por título “O sumiço dos herdeiros”. Aqui, novamente o primeiro requadro panorâmico, padronizadamente responsável por nos introduzir os conteúdos essenciais da história, é o guia que nos denuncia os signos para uma análise cultural. Num casarão iluminado a velas e com a presença elementos aristocráticos (uma armadura medieval, uma grande poltrona central), o velho coronel (sim, um coronel brasileiro à moda antiga) conversa com quatro de seus herdeiros, humildemente espremidos em um pequeno sofá. São eles: Zé Paulista, Zé dos Pampas, Zé Queijinho e Zé Jandaia, cada um representando o estereótipo cultural de uma região brasileira, fator bem marcado pelo chapéu que cada indivíduo veste. Este coronel, pintado como uma figura severa, mas de bom coração, explica que há um mistério: tentam matá-lo, e cabe aos herdeiros resolver esse problema.

Esta história vale-se de um sincretismo bastante bizarro, que associa o coronelismo arcaico brasileiro a uma certa aristocracia europeia, fazendo a casa do coronel parecer um castelo, e fazendo seus herdeiros parecerem, de algum jeito estranho, vassalos de uma casta nobre e digna. A história, portanto, desenvolve-se em exótica mistura do clima de uma fazenda no interior do Brasil, com direito a sotaque característico e comidas típicas, com romance de fantasmas europeu à Horace Walpole. No final das contas, Zé Carioca, que não participara da reunião por esperteza, salva a família do golpe planejado pelos primos tortos que não estavam sendo contemplados pela herança do coronel. 


Este coronel, que usa chapéu, bengala, monóculo e bigodinho, propõe-se na história a ser um signo exótico, de um antigo conformismo paternalista com culturas brasileiras arcaicas, ainda num manso traquejo de favores entre uma cultura herdeira do escravismo (ou de um militarismo torpe e corrupto) e uma certa dignidade empostada perdida na contemporaneidade. Que as regiões mais famosas do Brasil estejam presentes para abaixarem a cabeça diante de tal autoridade não surpreende e, mesmo sendo tiro pela culatra, a história do Zé Carioca acaba desvelando um sentido meio macabro da própria subserviência brasileira. Uma história de terror e fantasmas, sem dúvida.