Especial Editora Mino #2: A Missão

O negócio é o seguinte: a Editora MINO segue aprontando, lançando material de primeira com o acabamento que HQs de respeito merecem. A gente segue trabalhando aqui, procurando ler e desvendar os mistérios destas publicações. Assim, quem ganha é o nosso leitor, com mais seis resenhas que desbravam as fronteiras das mais interessantes publicações nacionais (e além). Mesmo esquema do nosso primeiro especial. Outras editoras, se liguem! (CIM)

Caso queira enviar seu material para ser resenhado na Raio Laser, o endereço é o seguinte:

RAIO LASER

SQS 212 Bloco G Apto 501.

Brasília-DF

Brasil

CEP: 70275-070 

por Ciro I. Marcondes, Marcos Maciel de Almeida, Márcio Jr. e Lima Neto

O Soldador Subaquático – Jeff Lemire (Mino, 2016, 228 págs.): O canadense Jeff Lemire é um quadrinista de fronteira. Transita com desenvoltura entre o mainstream (leia-se Marvel/DC) e o quadrinho autoral. No Brasil, é tão conhecido por Sweet Tooth, sensível HQ da Vertigo, quanto por seus trabalhos com medalhões super-heroísticos – vide Old Man Logan, Homem-Animal, Superboy, X-Men e até o bombadão Thanos (desenhado pelo brazuca Deodato Filho, ops... Mike Deodato Jr.).

O Soldador Subaquático, graphic novel lançada pela Mino, encampa com veemência essa faceta mais autoral de Lemire. E cai como uma luva no belo catálogo da editora. Jack vive em uma remota cidadezinha próxima a uma plataforma marítima de extração de petróleo. Ali, trabalha como soldador subaquático, profissão de altíssimo risco. Sua esposa está às vésperas de dar à luz seu primeiro filho. O pai, alcóolatra – e também mergulhador – faleceu há muitos anos, em um acidente obscuro. A relação com a mãe, atravessada por esta tragédia do passado, é complexa – para dizer o mínimo. Este é o cenário no qual se desenvolve a narrativa, conduzida com brilhantismo por Jeff Lemire. Em sua introdução, Damon Lindelof (cocriador da série Lost e produtor executivo envolvido com os recentes Jornadas nas Estrelas e Prometheus) trata O Soldador Subaquático como uma versão contemporânea do clássico seriado Além da Imaginação. Comparação pobre. A HQ é um profundo tratado sobre relações familiares, memória e os dilemas de se tornar pai/deixar de ser filho – temas caros a Lemire e que já haviam sido tratados, sob outra perspectiva, em Sweet Tooth. Na estante, O Soldador Subaquático ficaria muito bem ao lado de Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw. Mas Dash Shaw não escreve super-heróis – o que faz com que o livro do canadense forneça outros pontos de vista sobre as fronteiras existentes entre os diferentes gêneros de histórias em quadrinhos.

Formalmente, o que Jeff Lemire exibe em O Soldador Subaquático é um preciso domínio da linguagem quadrinística. A história avança e recua conforme suas intenções narrativas. Há uma ausência completa de redundância. Os personagens são carregados de alma e profundidade. O mais intrigante é que o autor consegue isso lançando mão de um desenho muito simples, de poucos recursos, urgente, quase taquigráfico. 

Não há subterfúgios no traço de Lemire. O álbum sequer conta com as vistosas cores presentes em Sweet Tooth. No máximo a aguada, também urgente, pouco elaborada. O artista não parece nada preocupado em escamotear suas deficiências técnicas (anatomia, perspectiva e quetais). Ao contrário, parece eviscerá-las. Em O Soldador Subaquático, Jeff Lemire encara os desafios de se apresentar nu. Ao olhar do leitor médio de super-heróis, provavelmente lhe falte algum botox e litros de silicone. 

Isso talvez explique porque, na Marvel/DC, Jeff Lemire esteja confinado ao papel exclusivo de roteirista. É como se estivesse estabelecido que seu desenho não é “profissional” o suficiente para a indústria de super-heróis. Daí que, apesar de ser um quadrinista de fronteira, que transita entre o autoral e o mainstream, Lemire – por forças alheias à qualidade do seu trabalho – não consegue diluir estes limites. No autoral, é um autor. Na indústria, é o funcionário do mês. Sua posição é sintomática da atual incapacidade dos quadrinhos de super-heróis conduzirem seus leitores a novas experiências com outros tipos de quadrinhos, como por exemplo a BD europeia, o mangá japonês e o quadrinho sul-americano. 

A Mino prometeu para o início do segundo semestre a publicação de The Complete Essex County, outro tijolaço autoral de Lemire. Maravilha. Até lá, seria interessante que seus leitores do universo Marvel/DC se dessem a oportunidade de conhecer O Soldador Subaquático. Em última instância, não é que o desenho de Jeff Lemire seja amador para o mainstream. Mas sim que este mesmo mainstream talvez não tenha um público com o olhar um pouco mais amplo para acessar o que de melhor o quadrinista tem a oferecer. (MJR)

Você é um Babaca, Bernardo – Alexandre S. Lourenço (Mino, 2016, 132 p.): Fosse um filme (coisa que dificilmente seria), poderíamos dizer que Você é um Babaca, Bernardo está obcecado com a continuidade. Afinal, a despeito de toda a complexidade formal imaginada para este estranho quadrinho, é o seu apego à micronarrativa – como pequenas bolhas de som que encontramos quando ouvimos Daft Punk ou Spoon em fones de ouvido –, e aos detalhes quase imperceptíveis espraiados no curioso passar do tempo; é nestes pontos que a HQ se sustenta. Interessa-nos mais, aqui, como narrativa, qual quadro está pregado na parede ou qual roupa o personagem veste no dia de chuva, do que o modesto romance que se apega ao plot principal. Não que isso importe muito. Às vezes a experiência da arte é mesmo vasculhar a engrenagem e a engenharia da beleza. Ninguém liga muito, hoje em dia, para o discurso revolucionário de Eisenstein, mas todos admiram sua maneira de erigi-lo.

Alexandre Lourenço foi caçado na Internet (a partir de seu site “Robô Esmaga – Quadrinhos Miúdos” – sugestivo, não?) pela Mino, e Você é um Babaca, Bernardo de certa forma se tornou um hit no nosso meio, ganhando prêmios e figurando em listas. Peguei o livrinho com imensa curiosidade, o trabalho é minucioso e delicado, mas certamente não é essa cocada toda. Com influência clara dos papas do quadrinho experimental norte-americano (Chris Ware e Richard McGuire), além de uma pontinha de Rafael Sica (sem sua poesia), esta HQ prima por um experimentalismo bem calculado. 

Em primeiro lugar, há duas ordens de leitura na primeira parte (podemos ler sequencialmente ou um quadrinho por página, acompanhando os dias monótonos do personagem). Como nos quadrinhos de Ware, o procedimento todo é curioso, intelectualmente concebido, um experimento. Também como nos quadrinhos de Ware, esta forma intrincada e microscópica de se fazer e ler HQs deságua sempre na temática do tédio, da repetição mecânica, da solidão moderna. Me pergunto por que toda micronarrativa experimental em quadrinhos precisa ter personagens tão enfadonhos quanto Bernardo e Gabriela, os protagonistas do morno romance aqui representado.

Não que fazer um romance gráfico com excesso de traços formalistas não tenha lá seu charme. Lourenço se utiliza de diversos outros recursos interessantes, como garranchos e cores representando mensagens de texto, o uso pontual e preciso dos close-ups, além de certos momentos mais livres (desgarrados do sistema proposto no começo – o que indica que, em certo momento, o autor jogou o planejamento às traças) em que praticamente em cada página temos um arranjo de leitura diferente. 

É quadrinho em laboratório, que procura produzir reflexão sobre modos modernos de solidão e amor, mas que insiste em chamar atenção para sua fábrica formal a cada instante, não deixando o sentido efetivamente se libertar. Lourenço, em certos momentos, até mesmo resiste a fazer uma arte propriamente sequencial (o nome mais acadêmico dos quadrinhos) para produzir uma arte de imagens em simultaneidade. Como se saísse de um “eixo sintático x” (da narração) e fosse para um do “eixo paradigmático y” (da mostração e da acumulação poética). 

Lourenço é um talento, sem dúvida, e Você é um Babaca, Bernardo é inventivo e bem engendrado. Vai agradar aos geeks do experimental matemático e aos fãs do Chris Ware que começaram a ler quadrinhos em 2009, mas, para mim, de certa forma, quando a cabeça do personagem se esvai naquelas cenas surrealistas, escapa pelo buraco no pescoço também a alma deste quadrinho. (CIM

The Shaolin Cowboy – Geof Darrow (Mino, 2016): Geof Darrow é um artista do tipo maníaco obsessivo, que adora criar cenas incrivelmente detalhadas. Sabe aquela coisa de desenhar a perna peluda da mosca em cima do cocô do cavalo do bandido? É mais ou menos por aí... E o novo lançamento da Mino, Shaolin Cowboy, é uma prole fidedigna do estilo Geof Darrow de fazer gibis. Aliás, é mais do que isso. Pode-se dizer que Shaolin Cowboy é o gêmeo separado no nascimento de seu irmão mais velho, Hard Boiled, escrito por Frank Miller e lançado em 1990. Vinte e seis anos depois o caçulinha chegou no Brasil chutando bundas, mas isso é assunto para daqui a pouco. Falemos, por enquanto, do primogênito.

Hard Boiled é o suprassumo do gibi bagaceira, numa história que combina doses cavalares de violência, sucata, lixo e destruição. O detalhismo presente no traço de Darrow era – e continua sendo – enlouquecedor e levou a nona arte a um novo patamar. Quem ainda duvidava que quadrinhos também eram coisa de gente grande deve ter ficado sem argumento diante das cenas de apocalipse urbano meticulosamente ilustradas por Darrow. Arrisco dizer que ele é um dos precursores do hiper-realismo nos gibis. Eis um artista capaz de criar imagens tão perfeitas que são quase mais reais que a própria realidade. Apesar disso, o clima da revista é aquele típico de vídeo games vida loka, estilo GTA, especialmente pela gostosa sensação de estar breaking the law, ainda que de mentirinha. Outra coisa que lembra jogos de ação é o ritmo acelerado. Em Hard Boiled tudo é tão apressado e intenso que os personagens, objetos e páginas parecem estar gritando o tempo todo.

Hard Boiled

E este talvez seja o grande contraste com Shaolin Cowboy, pelo menos em parte. Se a ação em Hard Boiled é urbana, com requintes de confinamento, a trama de Shaolin Cowboy, não menos sufocante, ocorre em espaços abertos, num deserto habitado por jacarés, tartarugas e gatos. Metal e vidro dão lugar a carne e sangue, também em quantidades generosas. Se, no gibi anterior, Miller imaginou uma metrópole barulhenta e densamente habitada, Darrow, agora alçado à condição de roteirista/desenhista, optou por uma narrativa que tem por testemunha o silêncio dos personagens e das locações.

Mas, afinal, do que se trata o gibi? Bem, é a aventura de um cowboy shaolin no deserto tentando salvar a pele durante um ataque zumbi. E é interessante notar as escolhas do Darrow roteirista para contar esta história. As primeiras duas páginas contêm uma recapitulação do que havia ocorrido antes do início da revista, num texto enorme com letra pequena. Já a HQ em si tem inúmeras páginas sem diálogos, compensadas, em contrapartida, por violência e pancadaria quase hipnóticas. A opção pela marcação do fluxo da narrativa fica, portanto, evidenciada, já que o autor começa com um ataque verborrágico que logo é substituído por um storytelling que funciona como um voto de silêncio, no melhor estilo zen budista. 

Também como em Hard Boiled, Shaolin tem como prerrogativa a estética do exagero. Tudo é grandioso e colossal. Mutilações, decapitações e mortes dão as caras em escala industrial e são mostradas com precisão sádica. Muito contribui para isso a arma utilizada pelo protagonista – uma vara de bambu com uma motosserra em cada extremidade – para detonar os pobres dos mortos-vivos. E Darrow parece ter prazer especial em triturar os “walkers”, já que passa a maior parte do gibi eliminando-os de tudo quanto é forma possível. Lembra que eu falei que Darrow é maníaco? Então, quando ele resolve dar voz a suas obsessões, sai de baixo... Prepare-se para encarar páginas e mais páginas de um holocausto zumbi, ou melhor, um holocausto de zumbis, que funciona como uma espécie de exorcismo para o autor. É um verdadeiro desbunde de tripas e miolos voando para tudo quanto é lado. Se Miller pôde fazer terapia semelhante em Hard Boiled, com inúmeras cenas de carros destruídos, metal retorcido e caos generalizado, Darrow também não quis ficar atrás e promoveu uma festa gore de responsa. 

E confesso que não poderia culpá-lo por ter feito o que fez. Atire a primeira pedra quem nunca quis sair dando porrada – sem mais nem menos – numa multidão zumbi. E o shaolin cowboy, grande responsável pela matança (?) dos cadáveres ambulantes, faz seu “trabalho” de forma abnegada e disciplinada, com a mesma tranquilidade que teria se estivesse na fila para comprar pão, afinal os problemas terrenos são meros obstáculos no caminho da iluminação. 

No fim das contas só posso elogiar a Mino pela escolha do título e pela belíssima edição em capa dura. Os loucos fãs do maníaco Darrow agradecem. (MMA)

Hermínia – Diego Sanchez (Mino, 2015): Certos relacionamentos são bastante autodestrutivos, mas talvez sejam a única saída para almas perdidas como as de Hermínia e Arcádio. Essa é – ou parece ser – a premissa da HQ de Diego Sanchez. Digo "parece ser" porque a vibe onírica é uma constante no decorrer das páginas. O tom de incerteza sobre o que seria real ou ilusório está presente tanto no roteiro quanto nos desenhos, que têm uma pegada – intencional – de rascunho, como que para retratar a dimensão que enxergamos quando sonhamos, ou seja, aquela percebida sob um ponto de vista construído por esboços e, não raro, fora de foco.

Isso não quer dizer que o traço seja simplório, muito pelo contrário. Sanchez conseguiu encontrar o equilíbrio entre a fugacidade onírica, no desenho dos personagens, e a realidade quotidiana, na fotografia do quadrinho. Assim, as imagens das ruas e das casas – detalhadamente registradas – são a âncora que garantem a permanência do casal no plano dos despertos. Outro fator de desorientação – novamente premeditado – é o fato de a história ser contada fora da ordem cronológica, com diversos saltos para frente e para trás. E o efeito disso é a sensação de estar preso em um momento único, no qual todas as ações têm a sua importância e parecem transcorrer simultaneamente. Mas é uma pena que o autor não tenha achado outra solução para a inserção dos flashbacks e dos flashforwards que não fosse a utilização de páginas magenta chapadas espremidas entre os capítulos. O problema da utilização desse recurso foi a excessiva quebra de ritmo da narrativa, por demais brusca em determinados momentos. 

A história de amor entre Hermínia e Arcádio, permeada por excessos de paixão e prazer, é caracterizada pela necessidade frequente de reafirmação do romance, requisito que é levado às últimas consequências. A chaga de Arcádio é sua obrigação de ter que provar a todo instante sua devoção a Hermínia que, por sua vez, se sente atraída pela aura de mistério do parceiro. E sobre este último, marcado para sempre com uma grande cicatriz sobre o nariz, há uma curiosidade, revelada de forma sutil. A ferida, na verdade, foi resultado de uma brincadeira inventada por seu irmão mais velho, que se tornaria tatuador. Pode-se dizer, assim, que o primogênito já era uma pessoa predestinada a deixar marcas na pele dos outros.

Gostei muito do capricho na produção do gibi, especialmente a gramatura das páginas e a ilustração da capa (dura).  Apesar disso, creio que houve certa incoerência entre o luxo da edição e o tom despojado que a história se propõe a ter. Outra coisa que incomodou é o que costumo chamar de "síndrome do cinema brasileiro", ou seja, a constante prática de preencher o vazio com uma suposta profundidade. Explico. Muitas vezes os autores são obrigados a ocupar espaços na trama para aumentar o volume de suas obras, como se tamanho e duração de determinado produto resultassem, automaticamente, em maior credibilidade. 

E isso pode gerar mais problemas que soluções. É o que acontece com Hermínia. Sanchez podia ter enxugado o número de páginas, deixando a trama com menos pontos de interrogação, no melhor estilo "menos é mais". Optou, entretanto, por esticar a história e inserir mensagens e cenas de difícil interpretação, especialmente no final da trama. Ok, talvez o desfecho não tenha que ser necessariamente cartesiano, com tudo detalhadamente explicado, mas confesso que fiquei com a impressão de que o autor ficou diante de uma encruzilhada para conseguir encerrar a história. E a solução encontrada foi carregar na dose de mistério e simbologia, fato que conferiu hermetismo indesejado ao gibi. (MMA

Fungos – James Kochalka (Mino, 2016): Terrece Mckenna - o xamã psicodélico da geração rave – teorizou, após uma experiência particularmente forte com o cogumelo psilocibina, que alguns tipos de fungos são um mecanismo de comunicação cósmica lançado no espaço por uma raça primordial e que seu consumo permitia a comunicação com os deuses. Em seu melancólico livroA Transmigração de Timoty Archer, Phillip K. Dick mostra que a verdade por trás da experimentação da presença do espírito santo nas sociedades cristãs primitivas era obra de um fungo que nasce nas cavernas áridas da região de Jerusalém. Para muitos estudiosos, os seres vivos do reino fungi têm um papel seminal no desenvolvimento do ser humano na terra. Estes não são os fungos que encontraremos no gibi Fungos do norte-americano James Kochalka. O incensado autor, que estreia no Brasil nesta bem cuidada edição da Mino, é conhecido nos EUA por uma variedade de trabalhos, dos mais sensíveis aos mais humorísticos. 

Embora os personagens de Fungos não sejam os cogumelos de Mckenna, estas divertidas criaturas passam boa parte do seu tempo se preocupando com a comunicação. Seja tentando entender as intenções de Deus, ou fingindo ser os desenvolvedores do Facebook, os fungos de Kochalka parecem ter se entediado com a natureza à sua volta e a reinterpretam como versões da vida tecnológica do nosso dia a dia. O resultado são continhos leves e prazerosos que ironicamente nos fazer rir de nós mesmos, como se os fungos fossem crianças encenando o mundo dos adultos. Fungos é um quadrinho despretensioso como aquele mofo de quintal, mas a simplicidade narrativa burilada por anos de produção de Kochalka faz de cada continho um jogo de conceitos divertido de se ler. 

Importante citar que boa parte do prazer dessa leitura vem da versão bem esmerada da tradutora Dandara Palankof que deu vida aos diálogos adaptando as falas com um humor característico da contemporaneidade digital, mas sem esbarrar em chavões que poderiam tornar o texto datado e piegas. (LN)

Mar – Diego Sanchez (Mino, 2016, 44 pg.): Diego Sanchez Más Saint Martin é o mais prolífico autor da Editora Mino. Vira e mexe, o cara (agora também um tatuador originalíssimo) tá com trabalho novo na praça. Mar é seu gibi mais recente e, por assim dizer, o mais ligeiro. 

A primeira coisa a impressionar é o design da publicação, que imediatamente remete ao experimentalíssimo gráfico da Nobrow Press – ou a fanzines mais artesanais e invocados, vibe Feira Plana. A história em si tem leitura rápida e traz todos os ingredientes característicos do autor: narrativa aberta e polissêmica, atmosfera onírica, pegada indie-intimista, layouts de página inusitados (com pausas, silêncios e espaços vazios). O desenho, em particular, se apresenta mais sujo que o usual, oxidado, como que vítima da maresia que compõe o cenário da HQ.

Morto e Martin estão sozinhos em um navio, à deriva – sensação esta que se impõe sobre a obra. Em dado momento, o alter-ego do quadrinista afirma: “Minhas histórias são caracóis. Encolhidos e patéticos.”

Para quem já conhece e admira o trabalho de Sanchez, pode vir sem medo. Mas como primeiro contato, Hermínia e Perpetuum Mobile oferecem entradas mais consistentes. (MJR)

Rapidinhas Raio Laser #05

Machado escreveu, com aquela pomposidade tipicamente machadiana: "Estabelecei a crítica, mas a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata, que não reflete nem discute, que abate por capricho ou levanta por vaidade; estabelecei a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada, — será esse o meio de reerguer os ânimos, promover os estímulos, guiar os estreantes, corrigir os talentos feitos; condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença, — essas três chagas da crítica de hoje, — ponde em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a justiça, — é só assim que teremos uma grande literatura."

Bem, pomposidade à parte (Machado pode), e sem essa de "grande" literatura, as palavras do nosso autor predileto ainda ressoam para a crítica de hoje. Condenar o ódio gratuito, a camaradagem estéril e a indiferença blasé - é o que tentamos fazer por aqui (vejam bem, Machado condenava esse vícios no século 19). Logicamente, nossa crítica é de Internet, e não pretendemos exaurir nada. O texto tem de ser enxuto, e algumas generalizações precisam ser feitas. Mesmo assim, vocês devem ter notado um certo aumento de tamanho (e de maturidade) em relação às primeiras "Rapidinhas". É que nós respeitamos o que lemos. Respeitamos o trabalho do autor de quadrinhos no Brasil.

Dito isso, aquela coisa: quase tudo é bem novo, mas tem coisa velha (tipo um quadrinho do Gerlach de 2012 - mas é Gerlach, p*rra! Esse é outro que pode), pois nosso encalhe aqui parece interminável. Além disso, estreiam nesta seção dois dos nossos colaboradores mais novos, Lima Neto e Marcos Maciel de Almeida (sumidades da cultura de quadrinhos de Brasília). Aguardem mais resenhas e não deixem de mandar coisas pra gente. Lenta como uma lesma presa numa labirinto, a Raio Laser procura cobrir tudo que recebe. Para aparecer aqui, envie seu material para:

RAIO LASER

SQS 212 Bloco G Apto 501.

Brasília-DF

Brasil

CEP: 70275-070

Peace! (CIM)

por Ciro Inácio Marcondes, Lima Neto e Marcos Maciel de Almeida

PIMBA Nº 3 – Vários (Independente, 2016, 28 p.): aqui na Raio Laser, o Jornal Pimba já dispensa qualquer apresentação. Depois de passarem 2015 em branco, a equipe radicada em Brasília (Gomez, Mello e Sobreiro, esses apocalípticos), do jeito que deu, chupando cana e trocando pneu de carro ao mesmo tempo, lançou uma nova e linda edição do jornal de quadrinhos mais carismático do País (há outros, como o mais avant-garde Suplemento, ou o ótimo jornal de tiras Graphic, do guerrilheiro das HQs Mário Latino, ou o novíssimo Altamira). Como sempre impresso em uma cor dominante (desta vez amarelo) e layout despojado e eficaz, o Pimba retorna repetindo algumas pratas da casa (Góes, San, Valente, Belga) e traz novos convidados do indie brazuca que dão certo peso e responsa à publicação: Chiquinha e Pablo Carranza, por exemplo, coisas de espectros meio opostos, entregam folhas de quadrinhos despretensiosos, diria até dispensáveis (dado o potencial); bobos, mas não sem graça. Já a dupla Bruno Maron e Ricardo Coimbra, de lente e lápis afiados para um cinismo bruto (que a nossa geração merece ouvir), não parecem ter reservado seus melhores trabalhos para o jornal. Soou como improviso. Mais interessante, em quadrinhos, é a metacrítica feita por André Valente “Fazer quadrinhos vai destruir você, vai partir seu coração”. De fato, ao que parece, vai. Valente pega esta citação de Schulz e, num sentido mesmo charliebrownesco, constrói uma visão na verdade desoladora, neurótica e categórica sobre o ofício de fazer quadrinhos no Brasil. Resta pouca esperança, realmente, se o melhor de uma produção reside na autoparódia. Tudo fica em tom de despedida.

Assim como na edição 2, os quadrinhos oscilam, mas há muitos bons momentos em texto (e ilustração) para deixar o Pimba 3 mais interessante. Com maior participação feminina, temos, por exemplo, um conto de memória rural (mas de mentalidade urbana) exíguo e melancólico de Marcella Moraes; e uma ótima, satírica e perversa leitura de certa tosca mentalidade masculina por Maíra Valério. Temos Arnaldo Branco, que cria uma pequena exegese para o vício (viva!); temos um conto bastante prosaico (em tom de crônica, mas sem perder e verve de Literatura sobre o interior do Brasil) de Milton Sobreiro (o que dá um ar menos hipster pra coisa toda); e temos uma fritadíssima autorreflexão de Hector Lima sobre a adesão descontrolada e antissocial a produtos culturais de consumo, misturado a ciência contemporânea e Literatura de Internet (o que traz um ar pós-moderno). Não falta ao Pimba, portanto, gente talentosa. A minha impressão, no entanto, é que a editoração dessa p*rra funciona como uma invasão dos Piratas do Tietê, espécie de onda caótica de mentes tresloucadas sedentas por expressão, mas ainda assim se atropelando de ansiedade. (CIM)

Topografias – Bárbara Malagoli, Julia Balthazar, Lovelove6, Mariana Paraizo, Puiupo, Taís Koshino (Piqui, 2016, 60 p.): se pensarmos a topografia como o mapeamento de um território, este quadrinho tem dupla função: em primeiro lugar, é um radar para o melhor da produção feminina no Brasil atualmente, especialmente no meio indie. A ideia é realmente construir uma cartografia, indicar o caminho, levar a produção masculina pelas mãos e dizer: “fazemos bem e fazemos diferente”. Neste sentido (e sem querer avançar mais no chauvinismo da guerra de sexos), Topografias é um material aberto à experimentação e à sensibilidade radical, um tipo de autoria em quadrinhos que possui outro DNA, outras preocupações e prioridades. Em segundo lugar, a topografia (escrita do espaço) também diz muito sobre a qualidade artística do trabalho em si destas minas. Pouco preocupadas em construir narrativas funcionais ou numa “antiquada” produção mais tradicional de sentido, estas quadrinistas deixam o espaço falar (e também o espaço da página) como se fosse uma expressão em si, deixando balões de fala, texto e mesmo questões políticas em segundo plano.

O resultado em geral é acima da média. Há uma forte pulsão expressiva na maneira como este coletivo representa suas ideias em quadrinhos. Em alguns momentos, porém, ainda resvalam em certos procedimentos naïve, e muitas vezes o texto mais atrapalha do que qualquer outra coisa. Vejamos o caso de Bárbara Malagoli: ela constrói um poderoso dispositivo visual inspirado em sci-fi, com trabalho de cores louquérrimo e embasbacante, mas há uma disjunção entre estas splash pages e os textos, que parecem excertos (pseudo) filosóficos (“É tudo um sonho, um sonho grotesco e tolo”) soltos, sem muita conexão com as imagens. Falta aquela “liga” que faria o quadrinho ressoar melhor na gente. Já Julia Balthazar se sai melhor ao apresentar uma simples tarde na piscina vivenciada por duas garotas apaixonadas, em sua exclusividade. Também há uma forte presença do espaço e das cores, como se a transmissão da impressão do sentimento se sobressaísse a quaisquer palavras (de fato os diálogos são vagos e não dizem muito).

A sci-fi também está presente nas contribuições sui generis de Taís Koshino e Puiupo. A primeira é a melhor participação da revista e talvez sua melhor história ever: numa turma de crianças telepatas praticantes de meditação, temos acesso a certo “museu do futuro”, que conta a história de nossa evolução (com bem-humoradas alterações). Koshino alterna bem a disposição entre um senso de humor muito próprio, questões sobre tecnologia, corpo humano e realidade virtual, além de um intrigante trabalho com cores e empaginação (e aqui o texto – paródia do cientificismo – funciona). Já Puiupo apresenta uma cena grotesca em sua visão freak, cronenberguiana, sexy de um jeito inimaginável. Não entendi muita coisa, mas há personalidade e imagens que não saem da cabeça. Por fim, Lovelove6 traz um trabalho bastante radical e pessoal, em tons (eroticamente bem pensados) de vermelho e roxo, também numa cena arquetípica de amor entre duas mulheres. A topografia em si da história é bastante marcante e virulenta, mas a mensagem do texto (“o ciúme é bastante antigo”) me pareceu meio moralista. Enfim, vale também destacar o belo trabalho de editoração de Lívia Viganó para este que é um dos mais bonitos e significativos lançamentos do ano passado. (CIM)

Cais – Janaína de Luna e Pedro Cobiaco (Mino, 2016): quando acordamos e relembramos acontecimentos ocorridos em nossos sonhos, nada parece fazer sentido. Ainda assim, quando estamos dentro da realidade onírica, tudo parece ter lógica, não é? Agora imagine poder ver um sonho estando acordado. Foi assim que me senti quando li Cais. Essencialmente intimista, a narrativa em primeira pessoa nos dá dicas preciosas sobre o inconsciente de Diana, a protagonista, mas deixa muita coisa em aberto. Confesso que tive de ler umas três vezes para sacar qual era a onda do gibi, mas isso não é um ponto negativo. Muito pelo contrário. Numa época em que a informação tem que ser cada vez mais objetiva e mastigada para agradar a leitores apressados, é saudável encontrar HQs que nadam contra essa corrente. 

A água, em suas diversas formas, é presença constante no gibi, assim como são as diversas metáforas que ajudam a entender (ou confundir) quem é Diana e qual a natureza de seu relacionamento com – eis um nome escolhido a dedo – Martin. As lentas idas e vindas do casal são a preguiçosa maré que vai embalar o ritmo desta HQ, que poderia se passar em qualquer vila litorânea do Brasil. A arte é um capítulo à parte. O belo contraponto em preto e branco deste Cais com o colorido esfuziante de Aventuras nailha do tesouro mostra que Pedro Cobiaco está à vontade em qualquer praia. Ouvi dizer por aí que pode ser que Diana volte num gibi de mais de cem páginas. Espero que o sonho se torne realidade. (MMA

Quadrinhos Insones – Diego Sanchez (Mino, 2016, 96 p.): não são poucos os motivos que nos fazem embarcar em vigílias involuntárias noite adentro. E embora tenha certeza de que o bem-estar social no mundo é um deles, a grande maioria das insônias são causadas por pequenos nós íntimos do dia a dia que nosso cérebro insiste em tentar desatar quando deitamos. E Quadrinhos insones, um apanhado da produção digital do quadrinista Diego Sanchez publicado pela Mino em 2016, é uma testemunha disso. O belo livrinho – que poderia ter uma produção mais modesta em consonância ao caráter despojado das narrativas – abre com uma pesada descrição da guerra civil no Camboja em 1975, mas rapidamente a narrativa histórica dá lugar a reflexões e micro-crônicas às vezes fantasiosas e muitas vezes íntimas e autobiográficas. A arte de Sanchez é uma delícia de se ver, algo como um Richard Sala hiper detalhado. E, no geral, o gibi proporciona alguns momentos de entretenimento belos e descompromissados. A bela “Escalas” e “O estranho caso da baía 4” são bons exemplos disso. Alguns continhos de uma página também seduzem pela capacidade de síntese. Quanto à linguagem, o grande destaque é o quadrinho sem título da página 50, uma perolazinha que traz ecos de Spiegelman e McCloud, que nos lembra novamente por que produzimos e lemos narrativas neste tipo de mídia.  O restante do quadrinho, entretanto, é prejudicado pela intimidade autobiográfica que esbarra em alguns lugares-comuns do modo de vida “indie”, tornando egocêntrico o que poderia ser distinto. Essa irregularidade do título, assim como seu caráter despojado, me fazem pensar em como ele seria melhor se lido com uma produção mais baixa – uma lombada canoa, papel jornal e algumas páginas a menos fariam deste Quadrinhos insones um sono mais agradável. (LN)

2015 – Antônio Silva, Augusto Botelho e Daniel Lopes (Org., MÊS, 2015, 152 p.): mais uma pira de Brasília, esta antologia é o resultado do trabalho de curadoria da galera da Mês, que em 2014 lançou religiosamente 12 zines (e repetem a fórmula em 2016). Em 2015 eles resolveram fazer diferente e financiaram no Catarse uma antologia a partir de uma convocatória. O resultado é um livro responsa com mais de 20 colaboradores e uma ampla diversidade de estilos. Alguns nomes (Diego Sanchez, Laura Athayde, Renata Rinaldi, Taís Koshino) são já conhecidos no meio indie, mas há muitos aventureiros também. Isto torna o conteúdo da revista irregular, como é de praxe neste tipo de publicação. Conhecendo o perfil editorial da galera, já se pode esperar da Mês um incentivo à experimentação, ao ato subversivo de romper certas barreiras que margeiam escapar dos quadrinhos. Artes visuais, colagem, fotomontagem, ilustração abstrata e rabiscos não são estranhos à mentalidade dos caras, assim como forte apelo ao nonsense  e quadrinhos que parecem pura zoação. Memes, enfim. Não sou contra essas coisas, mas é um terreno pantanoso. Dentro desta perspectiva, destaco a bela expressão de angústia juvenil de Gustavo Magalhães, em amplos quadros que dizem muito pouco, mas transmitem forte intensidade emocional: é uma equação precisa para se produzir bom quadrinho experimental.

Porém, mesmo com certa quantidade de coisas apressadas (e logo esquecíveis), 2015 tem quatro trunfos, que fazem a revista valer a pena. Em primeiro lugar, a história de abertura de Diego Sanchez: voo livre num surrealismo bem próximo dos sonhos (talvez tenha sido um), com sua arte em grande forma e sensibilidade na medida certa. É assim que se faz poesia em quadrinhos (e não recitando seu diário de adolescente junto a imagens expressionistas). É uma das melhores histórias que li dele. Em segundo lugar, a participação dos editores, bem mais calejados, com uma preocupação séria em se pensar a expressão em quadrinhos. Antônio Silva ainda vacila um pouco: sua história é tão doidona que parece ter sido desenhada em “escrita automática”. Mesmo assim, tem vigor nos movimentos, e intensidade. Lembra o estilo do querido Mateus Gandara. Já Augusto Botelho também oferece seu melhor trabalho até aqui. Ele conta a história (muda, profundamente inteligente e expressiva) de um menino (alter-ego?) numa praia que encontra um totem num barco e quer levá-lo para casa, mas a “entidade” não permite. Botelho trabalha bem o uso de luz, ângulos e expressões (seu traço está em consonância com sua geração, vide Pedro Cobiaco), e o sentido metafísico da história tem um quê de cabalístico, sem exageros. Por fim, temos a também muda história de Daniel Lopes, sobre o encontro entre um menino e um astronauta, também onírica (e esotérica), que remete ao ciclo infindável de nascimento e morte, com ótimas referências a 2001, Marco e até Incredible science fiction (da EC Comics – a famosa história do astronauta negro). O quadrinho de Daniel tem preciso timing, delicadezas e figuras de linguagem, revelando, assim como no caso de Botelho, exímio domínio da linguagem muda. Estes quadrinhos destoam muito do resto da edição, mostrando que estes caras estão prontos para saltos mais ambiciosos. (CIM)      

The Concept – Um quadrinho inspirado na canção da banda Teenage Fanclub

(Clube do Single Volume 1) – Fábio Lyra (Beléléu, 2014, 18 p.): eu havia criticado o estilo de Fábio Lyra em outra publicação, mas, como a vingança é um prato servido frio, preciso dar o braço a torcer aqui. Lyra bolou este projeto “Clube do Single”, que é o de escrever pequenas HQs inspiradas em canções, no formato físico de um single. A escolha para o primeiro projeto (lá de 2014) não poderia ter sido mais acertada: o Teenage Fanclub é das bandas que mais agregam loucos e apaixonados, desembocadouro para qualquer introvertido, indie ou ser antissocial dos anos 90. Há quem vire o nariz, mas o som deliciosamente melódico da banda, com as melhores influências (Beatles, Neil Young) e sem perder a personalidade discreta, tímida, mas generosa e cativante (capaz de transformar o rock numa crônica do cotidiano), este som é o de uma das minhas bandas favoritas. E The concept é, tipo, a melhor música do Teenage Fanclub. Pequeno épico do power pop, funciona como se o Big Star cruzasse com o Pink Floyd. E Lyra usa uma estratégia inteligente: ao invés de transcrever a letra da música para uma HQ, ele inventa uma história bastante diferente, sobre o encontro fortuito e fugaz entre dois jovens na madrugada (a garota como mote tanto na canção quanto na HQ), para procurar capturar o espírito (ou o mojo, ou sei lá o quê) da música na mídia quadrinhos. O traço de Lyra é bonito, e ele sabe tirar dos quadrinhos instantes que parecem paralisados na nossa percepção, memórias que ficarão para sempre. Assim, o Concept de Fábio Lyra é despojado e melancólico, mas que se vale de mini-emoções. Seria uma coisa assim, digamos, low-profile mas de bom coração. E não seria esta uma boa maneira de descrever o som dos escoceses? (CIM)    

Alvoroço – Diego Gerlach (Vibe Tronxa, 2012, 28 p.): pode ser dito com segurança que Diego Gerlach é um dos traços mais ativos do quadrinho nacional.  E em Alvoroço, gibi de seu personagem Boy Rochedo, se vê claramente também sua verve de artista gráfico. Do projeto da capa, de visível inspiração na produção gráfica de Emilio Damiani, até seu traço afiado que parece cortar a folha do papel, tudo expressa a psicodelia contundente como navalha que é marca do seu trabalho. Ao lado de uma produção gráfica mecânica e tradicional, Gerlach incorpora ainda uma tecnologia lo-fi nas suas retículas digitais e degradês deliciosamente piegas.

Alvoroço conta o retorno de Boy Rochedo, invocado de sabe Deus onde, renascido de uma fumegante vagina de beijú (tapioca para os ocidentais). Um nonsense transpirante que não vê incômodo em não ter início ou fim, e está mais interessado em expressar a amoralidade mambembe de seu personagem. Essa amoralidade acidental contrasta com o início da revista e seu ar de manifesto, mas, na soma de tudo, o que há é uma sensação e “com o passar do tempo a sensação passa a importar muito mais que a própria resposta”.

Alvoroço é um gibi curioso, bate aquela familiar vontade de acompanhar para ver o que acontece. Mas Gerlach tem uma intenção artística e anárquica que dispensa essas estratégias tradicionais de “storytelling”. É a “vibe” que importa. Pelo menos, no caso de Gerlach,  a vaibe é boa e autêntica. (LN)

Quadrinhos Perturbados – João Rabello (Avocado, 2015): eis um gibi contendo tiras com um tipo de humor bastante peculiar. Fazendo uso de tiradas e trocadilhos – escritos ou imagéticos – João Rabello dá protagonismo às suas manias e obsessões, como piratas, crânios e bigodes. Sim, bigodes. É um tipo de humor que poderá agradar a gregos, mas não a troianos, devido ao fato de representar a particular maneira através da qual o autor enxerga a vida e os fatos cotidianos. Por meio de várias referências à cultura pop – especialmente personagens de HQ – Rabello dá voz a um universo essencialmente pessoal. Confesso que me identifico com o tipo de piadas nonsense que estão espalhadas pelo gibi, cuja leitura me remeteu a James Kochalka em seu "The Horrible Truth about Comics". Neste último, o autor norte-americano destaca um dos recursos mais importantes dos quadrinhos: sua facilidade em favorecer a expressão individual. Em sua HQ, Kochalka ensina que talento ou dom são meros coadjuvantes diante de uma das grandes forças da nona arte, que é a capacidade de difundir visões e opiniões de forma visceral, autêntica e direta. Seguindo – consciente ou inconscientemente – esta ideia, Rabello acerta ao se permitir trazer para a superfície sua visão de mundo e de humor. (MMA)

O Diabo e Eu – Alcimar Frazão (Mino, 2016, 64 p.): Eu amo country blues. Nada como se render à simplicidade de três acordes e à emanação de toda uma época. Música pura, de inconfessáveis verdades. Simples, mas que nos atinge de primeira. Lonnie Johnson, Leroy Carr, Blind Willie McTell, Big Bill Broonzy, Memphis Minnie. E Robert Johnson, é claro. Esses cantores ainda emocionam porque estão atrelados a uma realidade onde música e vida não podem ser separados. É esta realidade que Alcimar Frazão traz aos quadrinhos ao elaborar, de maneira radicalmente pessoal, a história de Robert Johnson e o pacto com o Diabo. 

O Diabo e eu é uma história muda, cheia de signos sinistros, legítima gothic south, onde nos sentimos imersos no mundo apodrecido dos pântanos e deltas nos Estados Unidos do começo do século XX. Frazão legitima o terror ao fazer reverência à tradição brasileira do gênero: Shimamoto, Rodolfo Zalla e Mozart Couto parecem influências. Além de trabalhar grafismos cheios de psicologia (como uma menina com cabeça de cachorro), o quadrinista ainda discute a ideia do Diabo, que aqui aparece (quase) como metáfora da podridão da sociedade americana pós-escravocrata, e o mal absoluto brota na imagem do pai de Johnson, facínora violento que prostituía a própria esposa. Tudo isso sem perder o horror literal (o diabo está mesmo lá) e associando o silêncio do texto em quadrinhos à tristeza inerente ao blues rural, como se este silêncio e a música pudessem dizer a mesma coisa, mas em meios diferentes. (CIM)

Lavagem – Shiko (Mino, 2015, 72 p.): este talvez seja o melhor trabalho do paraibano Shiko (ainda que eu goste muito do experimentalismo poético de Blue Note).

Lavagem guarda muitas semelhanças com O Diabo e eu: é uma história de assassinato num lugar “abandonado por Deus” com a presença de um Diabo personificado. Fórmula de terror e símbolos ocultos. A arte de Shiko, porém, é mais dinâmica e cinematográfica, com ótimo domínio do timing narrativo.

Lavagem também retoma nossa tradição de quadrinhos de terror, mas acrescenta algo de cinema novo (eu ouvi Portodas caixas?) e Brasil contemporâneo à coisa. É um sincretismo eficiente e Shiko mira direto no oportunismo dos pastores evangélicos (“sometimes satan comes as a man of peace”) para fazer sua interpretação do mal. Mesmo não sendo brilhante (ainda acho que o movimento no quadrinho e as expressões dos personagens podem ganhar mais vida), o autor aproveita bem a sua chance de socializar o horror com questões sobre opressão feminina, desemprego e pobreza no Brasil.

Lavagem satisfaz, mas também produz aquela velha sensação: “agora que já fez esse, vai lá e faz um melhor”. Ou seja: mais e melhor Shiko, por favor. (CIM)

BONS QUADRINHOS QUE LEMOS EM 2015 - PARTE 4

A gente tinha falado que a lista do Pedro era a última, mas aí o nosso novo (e brilhante) colaborador Márcio Jr. nos enviou, como chave de ouro, mais estas 20 indicações de quadrinhos lidos em 2015. Totalizamos então 52 indicações devidamente resenhadas para você ler em 2016. Mãos à obra! (CIM)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

por Márcio Jr.

Amo quadrinhos. Comecei a guardá-los desde que comprei Superaventuras Marvel nº 1, da Abril, em 1982. Da lá pra cá, a coisa meio que saiu de controle. Compro mais do que sou capaz de ler (ainda que toda compra tenha o claro - e fantasioso - propósito de ser lida em algum ponto do futuro). Não acho que isso seja muito saudável. Já pensei em terapia. Fiz as contas e percebi que ficaria mais caro que comprar os gibis. Sigo acumulando papel.

Numa tentativa de estabelecer um filtro nas aquisições, comecei a anotar na agenda todas as leituras e compras feitas ao longo do ano. Não deu muito certo. Em 2015, li em torno de 150 HQs. Devo ter adquirido o quádruplo disso. Ao menos serviu para mapear as leituras do período, o que nos traz a esta lista de melhores. Os meus melhores quadrinhos de 2015. (O que não quer dizer que tenham sido obrigatoriamente publicados em 2015. Alguns dos títulos estavam ali, esperando leitura há um bom par de anos.)

Listas são sempre subjetivas, incompletas, blábláblá. Dane-se. Esta é a lista que me agarrou pelas vísceras. Tem uma certa hierarquia nela, mas nada para se levar muito a sério. Eu mesmo não levo. Olhando para a lista, gosto de acreditar que seja uma bela porta de entrada para qualquer pessoa minimamente inteligente  que nunca leu uma HQ. Maurício de Sousa não vale. Faça o teste. Se não gostar, desista dos quadrinhos. A campanha do Bolsonaro precisa de você.  

1- TALCO DE VIDRO - Marcello Quintanilha (Veneta, 2015)

Mal baixamos a guarda após o nocaute provocado em 2014 pelo já clássico Tungstênio, e Marcello Quintanilha nos faz beijar novamente a lona com Talco de vidro. Niteroiense radicado em Barcelona, Quintanilha tem construído uma obra originalíssima, sem paralelos, transbordante de uma brasilidade impossível de ser capturada em clichês. Não por acaso, tem amealhado tudo quanto é prêmio (de  quadrinhos e literatura) ao redor do mundo. Em Talco de vidro - um tratado acerca da ordem indizível da inveja -,  mais uma vez expande seus próprios limites, gráficos e narrativos. De quebra, leva a linguagem das HQs a novos horizontes. Em lugar algum existe alguém fazendo quadrinhos como Marcello Quintanilha. Imperdível.

2- OS OLHOS DO GATO - Alejandro Jodorowsky e Moebius (Nemo, 2015)

Publicada originalmente no Brasil em 1987 pela Martins Fontes (em edição hoje raríssima  e disputada no fio da navalha por colecionadores), esta obra-prima finalmente retorna às livrarias, após inexplicáveis 28 anos. Cortesia da Editora Nemo - que diga-se de passagem, tem feito um belíssimo trabalho suprindo a inexplicável semi-ausência de Moebius em terras brasileiras. Simbolismo polissêmico, quadros que ocupam a totalidade da página, experiências envolvendo campo e contra-campo, a tensão dialógica estabelecida por uma arte alternadamente minimalista e detalhada, tudo isso está presente neste álbum, um clássico nascido do acaso, como nos explica o mago Jodorowsky em seu prefácio.  

3- A CHEGADA - Shaun Tan (SM, 2011)

A chegada, do australiano Shaun Tan, é daquelas HQs que dão vontade de sair mostrando para todo mundo, como prova irrefutável do quão rica, sofisticada e artística pode ser a linguagem dos quadrinhos. Uma epopeia tocante sobre migração, banhada em realismo fantástico. Tudo isso sem uma palavra sequer. Espetacular é pouco.

4. KAPUTT - Eloar Guazzelli (WMF Martins Fontes, 2014)

O multi-artista Eloar Guazzelli tem se tornado o maior nome de um gênero muito em voga nos quadrinhos brasileiros: a adaptação literária. Os dois Jabutis que ele papou em 2015 (um deles com este Kaputt, adaptação da obra do italiano Curzio Malaparte) não me deixam mentir. Guazza é também o quadrinista mais rápido de que se tem notícia: 700 páginas em seis meses é uma marca de deixar de orelha em pé velocistas lendários como Jack Kirby e Julio Shimamoto. A explicação me foi dada pelo próprio autor: "Quadrinho paga mal, então eu tenho que produzir muito para que seja viável economicamente." O xis da questão é que Guazzelli consegue produzir muito e com qualidade inquestionável. Para isso, desenvolveu uma estética muito peculiar, que converte brilhantemente urgência em estilo. Em Kaputt, profundo tratado acerca dos horrores do nazismo, baila entre diferentes abordagens gráficas, que vão do nanquim anoitecendo toda a página ao lápis de cor que beira o sublime. Um livraço, cujo lugar na estante é ao lado de Maus, de Art Spiegelman.

5 - COLEÇÃO HISTÓRICA MARVEL QUARTETO FANTÁSTICO Vol. 1 - Stan Lee e Jack Kirby (Panini, 2015)

O patético filme do Quarteto Fantástico teve ao menos um efeito colateral positivo: o lançamento no Brasil dos quatro volumes da Coleção Histórica Marvel, dedicados ao grupo que é a pedra fundamental da editora. Na primeira edição, Stan Lee e Jack Kirby estabelecem todos os parâmetros dos quadrinhos de super-heróis e nos entregam o que de melhor o gênero pode oferecer: personagens carismáticos, ação ininterrupta, imaginação tresloucada e arte embasbacante. O Dr. Destino, tema deste primeiro volume, é o único capaz de disputar com o Coringa o posto de vilão mais cool dos comics. É um pecado mortal as 102 edições originais do Quarteto, sob a batuta de Lee e Kirby, permanecerem sem publicação digna e completa no Brasil. São insuperáveis.

6- CASTELO DE AREIA - Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters (Tordesilhas, 2011);

AÂMA Vol. 1 - Frederik Peeters (Nemo, 2014);

PÍLULAS AZUIS - Frederik Peeters (Nemo, 2015)

2015 foi o ano em que finalmente entrei de cabeça na obra do suíço Frederik Peeters. Meu maxilar ainda está deslocado. O primeiro contato se deu no magnífico Castelo de areia, poderosa alegoria sobre o envelhecimento, onde a serena narrativa gráfica de Peeters dá o tom exato ao roteiro do documentarista oscarizado Pierre Oscar Lévy. Pílulas azuis, tocante HQ autobiográfica em que o quadrinista narra sua vida ao lado de uma portadora do vírus HIV está em todas as listas de melhores do ano. Nada mais justo. E o menos badalado (mas não menos espetacular) Aâma pode ser descrito como uma ficção científica existencialista. Três excelentes trabalhos que apontam em direções diferentes, unidas pelo senso de humanidade presente na arte de Frederik Peeters. Craque.

7- SERES URBANOS - vários (Independente, 2015)

No início dos anos 90, era pré-internet, Weaver Lima, Lupin e mais um bando de moleques cearenses criaram o coletivo Seres Urbanos e entupiram as caixas de correio do Brasil com uma tonelada de fanzines ultra envenenados, talento e transgressão escorrendo do papel. Fizeram história. Parte dela está registrada nesse livro (bancado com uma lei de incentivo local), indispensável em tempos de gourmetização fanzinística. Weaver garante que um segundo volume está a caminho, só com conteúdo impublicável. Mal posso esperar.

8. DAYTRIPPER - Fábio Moon e Gabriel Bá (Panini, 2011);

DOIS IRMÃOS - Fábio Moon e Gabriel Bá (Quadrinhos na Cia., 2015)

Falar sobre Daytripper é chover no molhado. Solidificou o nome dos gêmeos Moon e Bá dentro e fora do Brasil, ganhou prêmios, vendeu pra caramba. Merecidíssimo. (Mesmo com aquele papo estranho sobre plágio.) Depois de tanto sucesso, deve pesar bastante a expectativa sobre um próximo trabalho.

Dois irmãos, adaptação do romance homônimo de Milton Hatoun, veio para ratificar todas as conquistas pregressas. Não conheço o livro original. Ponto para a adaptação, que funciona espetacularmente como HQ. Salta aos olhos a verossimilhança dos personagens e seu entorno. Eu conheço aquela Manaus impressa no papel. E se é evidente a influência de Mike Mignola sobre Gabriel Bá, foi delicioso ver em seus desenhos ecos do saudoso Flávio Colin. Parafraseando a dupla, Daytripper e Dois irmãos são foda!

9- EISNER/MILLER - Charles Brownstein (Criativo, 2014)

Em 2002, durante um final de semana, o lendário Will Eisner (1917 - 2005) recebeu o não menos lendário Frank Miller em sua casa, na Flórida. Ali, os dois gigantes conversaram (e usualmente discordaram) sobre suas carreiras, quadrinhos, mercado, arte e cinema. Poucas vezes se viu um debate tão profundo e cheio de propriedade acerca das HQs quanto o que está registrado neste antológico livro. A edição da Criativo, graficamente superior à original norte-americana, desliza na tradução e no prefácio um tanto impreciso do Professor Nobu Chinen. Ainda assim, é um presente inestimável ao mercado brasileiro e a todos aqueles que se interessam seriamente por quadrinhos. 

10- MÁGICO VENTO Nos 32-40 - Gianfranco Manfredi (Mythos, 2005)

Tentaram rotular a saga de 131 edições de Mágico Vento como faroeste horror. É pouco. A epopeia do soldado Ned Ellis, que perde a memória após um terrível acidente e é adotado pelos índios Sioux, tornando-se um poderoso xamã que desconhece o homem que fora no passado, traz os limites característicos da Bonelli Editora (a mesma de Tex), tais como a obrigatória presença de um parceiro de aventuras (no caso, o jornalista Poe, sósia do escritor norte-americano) e  a disposição nada inovadora dos quadros na página. Todavia, a perícia do escritor Gianfranco Manfredi (que também é roteirista de cinema e TV, além de músico) leva a série em uma direção adulta e sofisticada, principalmente no que tange à representação nada maniqueísta da cultura indígena. Escudado por desenhistas do calibre de Pasquale Frisenda, José Ortiz, Goran Parlov e Ivo Milazzo, Mágico Vento é um fumetto comparável ao idolatrado Ken Parker. E como tal, não tem aquela babaquice caça-níquel dos super-heróis americanos, onde é impossível compreender uma história isoladamente. Qualquer edição que você pegar de Mágico Vento tem começo, meio e fim. Porém, lida em sua totalidade, a série adquire ares de grande romance americano. Made in Italy. Espero viver o suficiente para ler tudo.

11- NEXT MEN - John Byrne (Mythos, 2013)

John Byrne já foi o mais popular desenhista dos quadrinhos norte-americanos. Brilhou como ninguém nos títulos X-Men, Quarteto Fantástico, Tropa Alfa e Super-Homem. Mas as HQs estão longe de ser a mais generosa das profissões. Ondas se sucedem, turbinadas por impiedoso marketing corporativo - e o que era ouro para um geração, passa a ser lixo para a outra. Some-se a isso o desgaste natural de anos desenhando sem parar. Há mais de duas décadas Byrne não produz com a qualidade de seus tempos de glória. Tampouco faz o mesmo sucesso de outrora. Mas no início dos anos 90 ele ainda era quente e lançou Next Men pelo selo Legend (que também abrigava Sin City e Hellboy), da editora Dark Horse. Foi seu último grande trabalho. Vinte anos mais tarde, a Mythos publica pela primeira vez no Brasil um livrão coletando as 10 primeiras edições da série.

Next Men tem tudo aquilo que Byrne faz de melhor: a fusão entre ficção científica e super-heróis, desenhos vigorosos, cenários hipertecnológicos e roteiro capaz de segurar o leitor. O preço, como é de praxe na Mythos, é proibitivo: 100 mangos. Dá pra comprar quadrinho bem melhor com essa grana. Faça como eu: espere uma promoção. Vale a pena.

12- DEMOLIDOR Nos 7 e 8 - Mark Waid, Chris Samnee e outros (Panini, 2015)

Ao lado do Gavião Arqueiro, a série do Demolidor escrita pelo veterano Mark Waid é o comic book mais incensado e  premiado dos últimos anos. Não é pra menos: a concorrência é uma grandessíssima porcaria. Waid não reinventa a roda e nem tenta enganar o leitor com um suposto "conteúdo adulto". Ao contrário, ele conduz a série com apelo, suspense e simplicidade. As cores são corretas e condizentes com a arte (trocando em miúdos, você não ficará cego pelos efeitos de photoshop). E os desenhos de Chris Samnee são um espetáculo a parte. Sua clareza, equilíbrio e dinâmica narrativa remetem a mestres como John Romita e Gil Kane. Enfim, tudo que um gibi de super-herói tem a obrigação de ser. E pensar que ali pelos anos 70 e 80 quase todos os gibis da Marvel eram assim...

13 - HOMEM-MÁQUINA - Tom DeFalco, Herb Trimpe e Barry Windsor-Smith (Panini, 2015)

Taí outro gibi supimpa de super-herói, publicado originalmente em meados da década de 80. Trata-se de uma recauchutagem cyberpunk de um personagem secundário do panteão Marvel, criado pelo Rei Jack Kirby. Mas o que faz esta mini-série antológica é o retorno aos quadrinhos do magistral Barry Windsor-Smith. Após fazer história em Conan, o Bárbaro, o desenhista britânico sumiu do mapa, para voltar ainda melhor em Homem-Máquina. A capa dura e metalizada da edição da Panini são um quitute extra.

14 - MITCH O'CONNELL: THE WORLD'S BEST ARTIST (Last Gasp, 2014)

Como não poderia faltar um art book nesta lista, parti logo para o mais legal de todos: Mitch O'Connell: The world's best artist. Iconoclasta e sarcástico até falar chega, Mitch O'Connell reúne nesta deliciosa edição um apanhado geral de sua carreira de ilustrador, pintor e, eventualmente, quadrinista. Centenas de imagens do universo trash-pop do autor inundam as páginas, ancoradas em textos divertidíssimos. E se o recheio é quente, a embalagem não deixa por menos: capa emborrachada com aplique de purpurina, bordas arredondadas e um design matador que, por si só, já valeria a aquisição desta pérola. Duvido que seja publicado no Brasil.

15 - LIMIAR: DARK MATTER - Luciano Salles (Independente, 2015)

Luciano Salles vem se configurando como um dos quadrinistas mais sui generis (ou interessantes, ou pitorescos, ou estranhos, ou incômodos) da nova geração. Seus roteiros não se entregam na primeira leitura. Provavelmente nem na última. Possuem uma temporalidade enigmática, que provoca um desconforto cronenberguiano na leitura. E sua arte é acachapante, anfetaminada pelas cores de Marcelo Maiolo. Debaixo de camadas de personalidade, é possível, com algum esforço, encontrar fantasmagorias de Moebius, Mutarelli e Frank Miller (Elektra Vive). Melhor ficar de olho nesse sujeito.

16: ADORMECIDA: CEM ANOS PARA SEMPRE - Paula Mastroberti (8Inverso, 2012)

Os quadrinhos são apenas uma das áreas de atuação da artista e pesquisadora Paula Mastroberti. Entre 1988 e 1990 ela teceu para si mesma a intrincada tapeçaria que é Adormecida: cem anos para sempre. Ali cristalizou-se a paixão pelos contos de fada e pelos quadrinhos europeu de Moebius, Druillet e Crepax. Ponto para 8Inverso, que 22 anos depois conseguiu abrir essa arca secreta. Belo e atemporal.

17. PERPETUUM MOBILE - Diego Sanchez (Mino, 2015)

A lista não ficaria completa sem um livro da Editora Mino, responsável pelos lançamentos mais bacanas de 2015. Perpetuum Mobile, foi um deles. Diego Sanchez é um legítimo representante da novíssima geração de feras dos quadrinhos brazucas, ao lado de nomes como Pedro Cobiaco e Felipe Nunes. Eles têm em torno de 20 anos e chegaram sem o menor respeito, com o pé na porta. Os quadrinhos de Sanchez possuem uma atmosfera etérea, fluida, com um senso muito peculiar de disposição dos quadros na página. Ainda em 2015 ele lançaria Hermínia, um livro mais elaborado, bonito e bem estruturado. Mas Perpetuum Mobile possui uma espontaneidade que faz dele o meu favorito até o momento.  

18- A SOBREVIVENTE - Paul Gillon (Martins Fontes, 1988)

Paul Gillon (1926-2011) foi um mestre do erotismo francês. Sua arte irrepreensível, elegante e de clássico refinamento nos conduz em A sobrevivente - ficção científica pós-apocalíptica que retrata um mundo onde apenas um belíssima mulher parece ter sobrevivido. O robô da capa ficou bem feliz. 

19- GAROTA SIRIRICA - Lovelove6 (Independente, 2013)

2015 foi um ano decisivo para as quadrinistas no Brasil. Tomaram as redes sociais de assalto e fizeram um barulho gigantesco no FIQ. Não era sem tempo. A presença das mulheres como autoras e leitoras de quadrinhos é algo que precisa ser imediatamente discutido e potencializado. Como ponta-de-lança dessa agitação toda está Gabi, a Lovelove6, e sua irresistível Garota Siririca. Seu mérito? Produzir um quadrinho que é engajado, mas também divertido e instigante. Isto é, um quadrinho que sobrevive como linguagem, para além de sua função política. Gabi tem a manha.

20- O BABACA - Gary Panter (A Bolha, 2012)

Gary Panter é o pai da punk art, do desenho feio e sujo, influenciando todo mundo de bom gosto que tem atração pelo mau gosto. Fabio Zimbres é um exemplo desse tipo de gente. Gary Panter tem status de gênio no mundo das artes gráficas e é simplesmente ridículo que permaneça inédito no Brasil. Graças a Deus, temos A Bolha para tentar colocar o barraco em ordem, lançando este hilário

O babaca. Mais uma vez, muito obrigado, Rachel

Rapidinhas Raio Laser #04




E as aguardadas quickies estão de volta, com pouca alteração no formato além do título em português (o que pareceu mais conveniente) e a estreia de resenhas rapidíssimas (para zines e coisas de leitura muito rápida). Lembrem-se: as resenhas são voltadas para o mercado (in)dependente e podem surgir coisas de anos anteriores que estavam encalhadas aqui. Muito do que a gente resenha nos foi enviado pelo correio. Então, não dê mole (se tiver coragem): mande seu material para a Raio Laser no seguinte endereço:


RAIO LASER
SQS 212 Bloco G Apto 501.
Brasília-DF
Brasil
CEP: 70275-070

por Ciro I. Marcondes

Menina Infinito Nº 1Fábio Lyra (Beleléu, 2015, 36 p.): os quadrinhos de Fábio Lyra seguem um certo padrão: são singelos, com seu traço um tanto duro (sem sombras e gradações), entulhados de referências de bandas indie, noise e shoegaze dos anos 80 e 90, e um pouco lacônicos. Menina infinita, sua nova série pela Beleléu, não foge à regra e, em meio a citações a Death From Above, Ride, Eugenius e Jesus and Mary Chain, somos inseridos dentro de uma apática festinha de apartamento marejada por este tipo de referência, com gente (já nem tão) jovem explorando as possibilidades afetivas deste ambiente já desgastado e um tanto melancólico, buscando romance xôxo e umas brejas quentes. Se o resultado não é ruim (há uma delicadeza e um humor sutil – para iniciados – que cativam), também carece de urgência. Muito curtinha, a revista não engrena não apenas pelo tamanho, mas pelo apego excessivo ao banal, algo que não acontece nos dramas íntimos de Adrian Tomine, ou nas tramas rocambolescas de Jayme Hernandez, que são claras inspirações. Menina infinito ainda está longe de seus mestres, peca um pouco por uma quadrinização sem ambição e talvez tenha mais referências que conteúdo, mas ainda está na número 1, e, quando se trata de séries, sabemos que o piloto é sempre um parto difícil. A ver as edições restantes.



Baratão 66 – Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum (Beleléu, 2013, 193 p.): em termos de romance gráfico, Baratão 66 é a grande pedida no quadrinho brasileiro contemporâneo. Não tem pra ninguém. Hilário, cheio de recursos, enraizado num ambiente profundamente brasileiro, esta HQ é tudo que o quadrinho de ativismo ingênuo, o quadrinho blasé/minimalista, o quadrinho punk/doido sem referência e o quadrinho sentimental-vinte-e-poucos-anos não são. Ou seja, o roteiro de Bruno Azevêdo, que gira em torno de uma família de mulheres que gerenciam um puteiro em São Luís, vai contra quase tudo que têm sido as tendências do quadrinho brasileiro. Do delineamento psicológico dos personagens, aos seus nomes, à composição dos coadjuvantes, ao timing do humor, à engenhosidade da trama, e até à multiplicidade de registros multimídia (cartas, fotos, postais), Baratão 66 dá o tom exato de como se fazer uma leitura do Brasil em quadrinhos. É o encontro de dois mundos: o da visita à cidadezinha brasileira e seu bestiário de putas, taxistas, michês, policiais e políticos mentecaptos, com uma problematização social do Brasil que está lá como substrato, mas não passa incólume, sempre em chave de ironia. Como se fosse o encontro de Angeli com Érico Veríssimo, ou algo que o valha.  Há baixaria na medida certa, há referências e easter eggs para os que gostam, e há uma arte meio inspirada em cordel, mas sem perder a leveza do pop, que não nos deixa desgrudar os olhos. Uma preciosidade talhada na safadeza e na estultice brasileiras. 




Aerolito Nº 2 e 3 – Lucas Marques, Bruno Prosaiko, Túlio Mendes, Cauê Brandão (Semear, 2014 e 2015, 48 p. cada): a Aerolito é uma nova publicação de jovens quadrinistas brasilienses interessados em narrativas de maior fôlego e histórias mais elaboradas, quase sempre com um pé no insólito e coisas extraordinárias, mas os temas variam bastante. Tive a satisfação de escrever a apresentação da número 1. O acabamento é ótimo, e as capas, paródias de pinturas famosas, são divertidas, cheias de cores e intenções vibrantes. Se na número 1 as histórias ainda careciam de maturidade e traziam um aspecto um tanto amadorístico, nos números seguintes há uma melhora realmente visível, mesmo que pontuada por growing pains, coisa de quem tá começando. O destaque vai para a qualidade autoral do traço carismático de Bruno Prosaiko, que trabalha histórias de verniz mais surrealista. Falta aos roteiros, porém, um equilíbrio entre ambição de (falsa) “profundidade” às histórias e um resultado efetivo nesse sentido. Mesmo “sérias”, estas histórias ainda soam infantis. Melhor partir logo para a fantasia juvenil e desvairada.

Também um tanto desequilibrado, Lucas Marques alterna o traço, o estilo e os temas a cada edição, dando a impressão de ser um artista um pouco desorientado na sua busca por um caminho, sendo confuso e poluído em “Mister Lonely”, mas acertando na mosca no traço limpo, caricatural e despojado na ótima “Rarimish, o messias”, a melhor história de todas as Aerolito. O humor pode ser uma boa. Já Túlio Mendes, atrás dos outros, precisa melhorar a ação e o dinamismo tanto dentro dos quadros quanto entre eles (e soltar o traço!), para fazer as histórias fluírem melhor, além de abandonar quaisquer pretensões de histórias muito “adultas”. Não é um desperdício do seu tempo ler o trabalho destes erráticos quadrinistas, mas há um salto ainda entre o que estas histórias oferecem por trás de sua suposta ousadia e a envergadura do projeto editorial. 



Pigmaleão – Diego Sanchez (Circuito Ambrosia, 2014, 52 p.): e eis que o quadrinista carioca Diego Sanchez, anos depois da “treta de 2012”, retorna às páginas de Raio Laser. Zoações à parte e zero de ressentimento de ambas as partes (o cara é gente boa), temos em mãos este delicado, intuitivo e esotérico Pigmaleão, um salto quântico em relação ao que ele havia apresentado em Peixe fora d’água. Aqui, temos uma história de requadros sem arestas cuidadosamente costurada em torno da iconografia do Tarô de Marselha, a partir de sonhos dentro de sonhos de um jovem processando um relacionamento irreparável em seu inconsciente profundo. Se o tema não é lá dos mais originais (o mito de Pigmaleão para a fantasia masculina da mulher ideal também acabou se tornando um clichê), Sanchez nos conquista com a beleza minimal de seus desenhos (lembra o francês Lewis Trondheim), com o movimento delicado e sinuoso das diagonais de seus quadros, com os intervalos e silêncios que exemplificam sua maturidade narrativa, com o erotismo refinado a partir do qual elabora afetos e mágoas. Memórias inventadas são um bom tema para um tipo de arte que embaralha imagens em diversos níveis e plataformas, e neste ambiente Sanchez encontra porto seguro para expiar seus tormentos e inquietações. 



Coral – Taís Koshino (Selo Piqui, 2015, 22 p.): seria injusto criticar Coral apenas pelo amadorismo de seus desenhos. Certo, Taís Koshino não é uma desenhista profissional, mas, até aí, críticas a um estilo rude e até grosseiro poderiam ser levantadas contra desde Gary Panther, passando por Arnaldo Branco, e até a Henfil ou Wolinski. A questão mesmo é que a excelência nos desenhos deixou de ser pré-requisito para se fazer quadrinhos, goste-se disso ou não. Coral é o trabalho mais maduro da autora, em sua busca silenciosa por autoconhecimento, em sua experimentação com as divisões e cores dos quadros, com a espessura do lápis, tudo eivado com um tom escapista e melancólico. Temos, por exemplo, a bela exploração de um certo discurso indireto livre em quadrinhos, marcado pelos planos em primeira pessoa, que terminam num quadro magritteano. Sem estardalhaço e sem recursos apelativos, a autora vai cavando sua subjetividade radical na cena dos quadrinhos independentes brasileiros, por meio da poesia e da abstração. Mesmo assim, ainda falta a Coral um norte que a livre da esterilidade do teimoso dadaísmo aleatório e da aversão ao próprio leitor no momento em que a produção de sentido se faz mais necessária. E, neste caso, produzir uma arte simplesmente naïf não ajuda. 



Velhaco’s – André Aguiar (TocasTudios, 2013, 14 p.): Velhaco’s é uma aventura bate-pronto cheia de fuleiragem misturando universos do skate, do cyberpunk, do antropomorfismo, do videogame vintage, etc. A coisa é curta e rasante como um esporro, e o desenhista e roteirista André Aguiar não economiza nas tintas rabiscadas, como se se aproveitasse de uma arte-final de improviso, para narrar a história de dois maloqueiros na missão doida de salvar um gatinha de robôs, policiais, coisas assim. É como se o filme Warriors tivesse um spin-off underground na revista Animal. Se o resultado parece tolo e esquecível, é porque não tinha como ser diferente. O punk não pode ser eterno. 



GoróLuiz Berger (Org., Gordo Seboso, 2013, 76 p.): histórias de bebedeira. Esta simples premissa poderia ser motivo de esta publicação de 2013 ser nada mais que pura tosqueira. Porém, um bom punhado dos autores do gibi resolveu usar a birita como gatilho para criar situações pitorescas, histórias policiais e até reflexões existenciais. Editado por Luiz Berger, o rei da escatologia, Goró de certa maneira demonstra como o quadrinista brasileiro contemporâneo consegue se virar em qualquer situação, topar qualquer empreitada, transformar merda em ouro. Abraham Diaz, por exemplo, cria espécie de True Detective dos mendigos birituns numa história, cheia de recursos, de traição, espionagem e morte. Eduardo Belga tem aqui um de seus trabalhos mais impressionantes em quadrinhos, levando o conceito de “porre” para além de qualquer limite, num texto que nada deve a um Pedro Juan Gutiérrez. No final, esmagados pela night de sexo dantesco, pela consciência moral e pelo excesso de “Ph de buceta”, o leitor é esmigalhado junto com autor e personagens.

O quadrinista Victor Bello traz a melhor contribuição da revista, “Mijo de Cristo tem poder”, possivelmente uma das histórias mais profanas jamais publicadas. Com quadrinização minuciosa e bem feita (digna de um Daniel Clowes bananense), o autor conta a história de um padre que faz uma cachaça com o mijo de Cristo. Os detalhes são escrotérrimos, com gags infames em timing perfeito. Vale mencionar ainda a boa contribuição do americano Josh Bayer, que, numa história rabiscada e um tanto preguiçosa, recobra aleatoriamente sua relação com festas regadas a bebida e com o álcool em si. Segura o suficiente para trazer mais consistência à revista, que poderia dispensar algumas pin ups e outras histórias curtas e rasas que são puro filer. Mesmo assim, vale tomar uma cerva pra celebrar.



Know-Haole Nº 2Diego Gerlach (Vibe Tronxa, 2013, 14 p.): Gerlach é um quadrinista punk e sua linguagem é a da mais pura malacaiagem das ruas, uma coisa febril e violenta, onde os personagens parecem estar sempre sob efeito de tóxicos estimulantes, noiados e sem rumo. O leque de referências aparece por toda história dos quadrinhos e desenhos, com paródias de Droopy, Dick Tracy e Disney, passando por coisas mais underground. Gosto de dizer que ele dá a mesma pala crackeira do Gabriel Góes e seu irrefreável Kowalski, e também que me lembra a dupla espanhola Gallardo e Mediavilla, de Makoki, algo extraído diretamente da estética alucinada dos anos 80. E esta década é referência para Gerlach. Suas histórias são de encontros fortuitos e desvairados nas ruas, com tipos urbanos bizarros, linguagem de mala e abreviações de internet, e muito de suas qualidades está em embaraçar estas referências todas num estilo inconfundível. Know-Haole 2 traz algum do seu melhor material, com as histórias entrecruzadas de Gilso, um cachorro de rua que se fode numa treta com outro mendigo; e a de Charlindo, um pato loser que tem um colapso nervoso ao tomar um choque elétrico. A história funciona como um furacão alucinado de visões turvas e impressões doentias das coisas. Mas atenção: é quadrinho de rua, é quadrinho de doidão. Sem pudores por aqui.



A Última Bailarina – Guilherme de Sousa (Korja dosQuadrinhos, 2014, 52 p.): não é que este seja um trabalho especialmente ruim. Ele tem algum carisma e um conceito: três personagens pitorescos (um ursinho de pelúcia machão – onde eu vi isso? –; uma garota bailarina abobalhada e ingênua; e um unicórnio efeminado) precisam resistir a um apocalipse zumbi. Os desenhos são “fofos” (ainda que muito pobres em composição e cenário) e algumas gags funcionam (ainda que com problemas de ritmo), mas os problemas se sobrepõem: primeiro, QUEM aguenta mais histórias genéricas com zumbis, seja em chave de ironia ou não? Segundo: personagens grosseiramente estereotipados, sem se definirem enquanto adultos ou infantis. Terceiro: cacoetes de animação, com uma história que anda em círculos procurando preencher o espaço de 15 minutos de duração. Enfim, por quê lançar um livro luxuoso, com boa impressão e gramatura, com este material, eu tenho minhas dúvidas. 



 
Rapidíssimas (zines):

GaiolaMorgana Mastrianni (Independente, 2013, 12 p.): misturando influências de expressionismo e teatro kabuki, a autora tece uma intrigante narrativa muda sobre máscaras (literais e metafóricas), tangendo o inconsciente feminino em eficiente simbolismo em quadrinhos.



Re/Forma – Luís Aranguri (Aparato/Independente, 2014, 10 p.): o quadrinho abstrato ainda é uma novidade conceitual no Brasil, mas o trabalho (simples e efetivo) de Luís Aranguri inspira a imaginar (guardadas as proporções) o que Kandinsky ou Mondrian poderiam ter pensado sobre o meio. Aqui, o autor provoca um esfacelamento gradual do espaço em quadrinhos a partir do próprio uso da leitura sequencial e de seus recursos, produzindo um quadrinho que se autossabota, um antiquadrinho.



Pirata Perna Curta Nº 1 – Chico, Thiago Fagundes, Lucas Feat, Mayra (Pirate Books/Independente, 2015, 14 p.): à parte um bom conto cáustico de Lucas Feat, o material desse zine parece coisa de iniciante, um tanto insípido, lembrando tiras amadoras de Facebook, com pin-ups dispensáveis e quadrinhos muito destoantes entre si. A intenção é um espírito meio Mad, mas o resultado tá mais pra Will Tirando.



Quer Dançar? – Guilherme de Sousa (Independente, 2013, 32 p.): uma história muda e amalucada que envolve sexo casual, um feto largado no esgoto e a proliferação de uma raça de homens-crocodilo num estilo meio Marcelo Cassaro funciona muito melhor do que a empreitada mais “ambiciosa” do autor (acima). Eis o caminho. 



  

Raio Laser's Comics' Quicky #01






















por Ciro I. Marcondes

Escrevi aqui sobre alguns dos quadrinhos nacionais que me chegaram em mãos recentemente. Tem mais coisa por vir, mas a ideia é fazer uma tentativa de mapear (sem obrigação de regularidade, sem obrigação de cobrir tudo, sem seguir lançamentos e sem deadline) uma fração da imensa quantidade de coisas que se tem produzido em HQs em nosso país, seja em publicações luxuosas, coisas independentes, zines ou online. Nesta primeira versão da nova seção, privilegiei alguns artistas daqui de Brasília, não apenas pra ser um pouco bairrista, mas também porque a cidade está se tornando um celeiro interessante de quadrinistas. Quem quiser nos enviar suas produções, basta nos escrever em “contato”, ok?

BátimaAndré Valente (Samba, 2011): Haveria com certeza algum jeito de interpretar sociologicamente essa pérola-express que é o gibizinho (lembram dos gibizinhos da Turma da Mônica? Esse é um Mini-samba) Bátima. Afinal, é sobre um cara classe-C que trabalha o cão (estaria vestido “simbolicamente” de Batman pra mostrar o “herói da vida real” que é) num McDonalds e manda cartas pra mãe fingindo ser um redator da Globo. Porém, conhecendo o autismo artístico (não se enganem. Isso é uma qualidade rara) de André Valente, prefiro ver esta pequena história pelo prisma de sua verve non-sense. Prefiro vê-la (não sei bem explicar por quê) como salto sem volta na sensorialidade psicótica de um sujeito ainda mais miserável, enlouquecido pela cultura pop e pela solidão. Um sujeito sem arestas egoicas que escreve cartas para uma mãe inexistente, sobre um emprego inexistente, processando o derretimento de seu aparelho psíquico. E tudo teria começado quando ele foi batizado “Bátima” (como alguns são batizado “Mai Conjecso” ou “Cridence”) após seu nascimento.


Não fui euAndré Valente (2011): Se André Valente é um quadrinista que possui certo autismo artístico, é porque em suas histórias eventualmente há um elemento que nos escapa, um ponto cego onde apenas habita o artista, e nunca o leitor. Isso seria decepcionante se ele não preenchesse todo o resto com referências e solidez cultural que escapam à maioria dos quadrinistas brasileiros, fazendo-nos ter que investigar entrelinhas em quadrinhos simples, mas engenhosamente despojados, com senso de humor que mistura “O Pasquim” com “Além da imaginação”, bastante refinado. Esta aparentemente modesta coletânea “Não fui eu”, que se inicia com Sol e Lua àMéliès, traz uma ótima amostra do equilíbrio quadrinístico e do desequilíbrio mental de Valente, com destaque para os lindos painéis do primeiro capítulo da novela gráfica “Coelho”, e para a surrealista “Uma espinha”, que poderia ser a história longa que o Laerte nos deve há muitos anos.

Peixe fora d’águaDiego Sanchez e Laura Lannes (Org., 2011): Esta publicação independente reune mais de 20 artistas diferentes e com certeza é uma iniciativa louvável e bem-feita. O problema é que, sustentando essa postura “do it yourself” que vem junto com a pecha de “peixe fora d’água”, quase todos os quadrinhos, sketches e poemas dão essa impressão de mal-acabado, de orgulho de ser tosco, de sumir no non-sense por falta de ideias ou medo delas. A quantidade de metalinguagem inócua e piadas internas acaba comprometendo o trabalho todo. Há uma variedade interessante de estilos e técnicas gráficas, mas a maioria do material sofre com essa síndrome de não querer produzir nada relevante, de um niilismo inútil. Quadrinhos com baixa autoestima. Não é à toa que a melhor série do livro é “Them wishing wells”, de Guilherme Lírio e Vidi Descaves, bem sacada, feita com desenhos de palitinhos. Logicamente, vale destacar “Certa manhã acordei de um sonho agitado”, em que a quadrinista Laura Lannes (talentosa) acorda no corpo do pintor Francis Bacon, além de uma paródia inteligente de Batman feita por Diego Gerlach. Mas, francamente, quem ainda está afim de ler mais uma paródia do Batman?

Garoto Mickey – Yuri Moraes (Dobro quadrinhos, 2011): Quando dou aula de roteiro cinematográfico, acho que a lição mais valiosa que passo é a seguinte: “se você não tem nenhuma ideia para criar um roteito, não faça um roteiro sobre como você não tem nenhuma ideia para criar um roteiro”. Acho que essa simples lição limaria metade dos artistas contemporâneos, e esse seria um mundo melhor. Garoto Mickey não é uma novela gráfica ruim, que fique claro. Yuri Moraes tem claro domínio e consciência narrativa, além de um traço expressivo e simpático. A história é dividida em duas partes muito claras: primeiro, uma espécie de revisão autobiográfica que tem força especial nas agruras melancólicas da infância, quando ele fazia uma HQ porradeira da qual todos gostavam, substituída pelo eterno carma do quadrinho autoral. A relação com o amigo um tanto obtuso e imbecil, abandonada na idade adulta, acaba sendo um ponto de verdade na HQ, além de insights de linguagem e algumas ironias bem marcadas. Mas parece que tudo se perde e a procura por uma psicologia de si mesmo ganha absurda autoindulgência, com o autor querendo antecipar as próprias críticas que as pessoas fariam à HQ, numa obsessão em prever e tapar seus próprios defeitos, o que se transmite, evidentemente, para os defeitos da HQ. A segunda parte, quando essa autojornada cínica se converte numa história de ação absurda e até piegas (com o autor fazendo questão de deixar claro que está fazendo algo piegas – como não?), é que a coisa se esfarela completamente e as virtudes da HQ se perdem. Não o talento de Yuri Moraes, é claro. Mas afirmar-se como loser numa HQ não torna ninguém menos loser, que fique claro.

Valente para sempreVitor Cafaggi (Pandemônio, 2011): Na contramão de uma tendência muito experimentalista de boa parte dos quadrinhos brasileiros contemporâneos, Valente vence pela simplicidade. Na forma de uma tira tradicional, num traço simples em preto-e-branco (mas confiante e cheio de expressões), o talento de Vitor Cafaggi para representar ideias parece orgânico e fácil, como se simplesmente tivesse estado a vida toda ao lado dele. E assim é a vida do cachorro Valente, seus amigos, amores e desamores: simples, natural, intenso, vivo. Publicada pela Pandemônio, na antiga forma retangular e monocromática com que antigos gibis de Garfield e Mafalda saíam, esta coletânea (de tiras ainda saindo na Internet) é um presente ideal para corações românticos. Uma HQ que, ao optar por navegar, confiante, pelas águas dos clássicos, dirige-se rumo ao triunfo.

Duo.toneVitor Cafaggi (2011): É estranho que a minha reação a Duo.tone, após ter lido Valente, tenha sido de ligeira frustração, já que esta é uma publicação de fôlego um pouco maior, coloridinha e mais longa, com certeza de maior ambição. A revistinha (legal chamar assim, porque de fato é isso que essa HQ é), de leitura fácil e despojada em linguagem simples (mas bem dosada em sequências silenciosas, serializações, metarrequadros, diálogos naturais e outros recursos) é certamente adorável, e tem potencial encantador para o público infantil. Mas confesso que, ao contrário do Valente, onde a gente se envolve e se emociona, aqui tanta fofura e ternura infantil causam um tanto de desconforto, uma certa ingrisia que vai se desatinando em mau-humor. Uma coisa assim, leite de pêra e ovomaltino. Eu aprecio histórias de growing pains, mas a primeira delas, do menino loirinho, é muita dor pra pouca desgraça, o que me fez preferir a segunda, toda silenciosa, do garoto japonês cool e intrépido, em que Cafaggi arrisca mais na sua habilidade narrativa, e faz uma homenagem menos piegas ao contato que um quadrinista tem, na infância, com o mundo dos super-heróis.

Mix tapeLu Cafaggi (2011): Estes outros quatro mini-gibis trazem essa proposta lírica de emular quatro fitinhas K-7, abordando os temas do som a da música de uma maneira completamente contrária ao que se poderia esperar de tal empreitada (ou seja: ideias tímidas se afogando num mar citações e referências). Ao contrário, fã de fitinhas K-7 como sou (passei a adolescência gravando-as pras minhas garotas favoritas), respirei com alívio ao ver que o trabalho de Lu Cafaggi compõe um delicado tributo à própria memória, à sinestesia de nossos passados, sendo um deles (o melhor) uma pequena sinfonia (muda – e isso me afeta!) de sons preferidos; o segundo a memória de uma pessoa guardada no som de um piano; a terceira (mais fraca) um diálogo imaginário com a cantora Patti Smith; e a última a experiência onírica de uma doce super-heroína. O aspecto fosco, de um violeta apastelado, monocromático, faz a experiência de ler quase táctil. Uma HQ especial, à altura do trabalho que Lu Cafaggi, Mariamma Fonseca e Samanta Coan realizam no blog Ladys Comics.

Kowalski #2Gabriel Góes (Org., Samba, 2011): Esta revista é um spin-off do grupo Samba, daqui de Brasília, que já constitui uma geração completa de quadrinistas talentosos e realiza um dos trabalhos mais interessantes das HQs nacionais atualmente. Participam dela, além de Gabriel Góes, editor e criador do personagem-título, Lucas Gehre e Gabriel Mesquita (os outros caras da Samba) e convidados de peso. Aos poucos, na medida em que as publicações do grupo vão aparecendo, uma estética em princípio caótica e desajeitada vai se organizando. Fruto do casamento herético dos quadrinhos com as artes plásticas, a geração Samba desenvolve uma relação muito visual com os quadrinhos, com a narrativa muitas vezes servindo como serialização para impressões imagéticas, profanas, coisa de pesadelo mesmo. Para tornar isso uma práxis refinada, os caras bebem de tudo: cinema, fotonovela, pin-ups. A capa de Eduardo Belga, surreal e obscena, dá uma amostra das ambições do grupo. Esta número 2 dá continuidade e aprimora as ideias da número 1, com alguns feitos mais narrativos, como a paródia “Cidadão Z”, de André Valente, que horroriza com a figura controversa de Ziraldo, fazendo-o beber de seu próprio veneno e estilo (do mesmo jeito, mas mais irônico, que Valente havia feito com Maurício na número 1); e uma das primeiras histórias de maior consistência (hmm..) “filosófica” do grupo, “Quando éramos cavalos”, de Góes e Mesquita, que conta o mundo horrendo e impressionista (cheio de personagens fofinhos de outros gibis) de um sujeito que presencia um suicídio.


Mas eu ainda acho que o grande destaque é a série do próprio personagem que dá título à revista, algo que parece um produto puro, bruto, saído da mente... diferente de Gabriel Góes. Kowalski e seus amigos são cartoons junkies, que assaltam para fumar crack ou cheirar pó, e Góes serializa essas histórias num traço infantil e perturbador, com quadros minúsculos e tortos, sendo a própria viagem do leitor montar estes efeitos rítmicos. “Kowalski” é sim um tipo de monstruosidade crua e imoral, parecendo uma versão nada idealista do clássico Freak Brothers, do genial Gilbert Sheldon, mas Góes aos poucos acrescenta mais sacadas e refinamentos a essa série, mesmo que ainda não seja possível (se é que um dia será) entender o que esse universo quer dizer. Vale destacar também a série “A casa das mulheres-pássaro”, de Gehre, um prostíbulo de action-figures (os antigos “bonequinhos”) e a série de impressões visuais, circulares, de Gehre e Mesquita, sobre seres em decomposição. Eu tiraria duas tentativas de séries narrativas: a fotonovela (sei que dá trabalho, mas não tá engrenando) e “A estrada do diabo”, que, apesar de graficamente interessante (mas muito derivado de Clowes e Lynch), é menos impactante do que parece querer ser.

Sim – Gabriel Góes (Projeto 1000, 0005, Barba Negra/Cachalote, 2011): Góes é um ilustrador de mão cheia, e uma de suas maiores virtudes é mudar de estilo sem perder sua marca pessoal. Seja no traço torto e macabro de Kowalski, seja numa história em 3-D, num cartaz de festival de rock, ou numa história de livro-jogo, sua personalidade, ainda que coerentemente adaptada aos diferentes gêneros, está sempre visível, sempre imediatamente identificável. Sua habilidade como narrador e quadrinista ainda é um ponto a emergir completamente, e esta Sim é prova de que sua versatilidade onírica e seu imaginário claustrofóbico vêm ganhando camadas e camadas de densidade.  Como de praxe nesta grande iniciativa da editora Barba Negra e seu Selo Cachalote, esta é uma HQ sem palavras. Góes, metamorfoseado numa criatura antropomórfica e primitiva (cabeça de lobo e um tacape na mão), atravessa paisagens psicodélicas e alucinatórias, como se avançando em camadas mais profundas ou desdobramentos de dimensões de si mesmo, cruzando com figuras míticas, arquetípicas. Esta HQ, que se experimenta numa leitura rápida, pode ser pensada toda num sentido jungiano, um tipo de representação mítica e lisérgica, mas vou deixar essa análise pra lá. O que vale mesmo é a robustez do traço e dos grandes requadros panorâmicos de Góes, imagens inalcançáveis e errantes.

Desvio – Daniel Gisé (Projeto 1000, 0003, Barba Negra/Cachalote 2011): Desvio, do mesmo projeto que Sim, curiosamente parte de uma premissa semelhante, mesmo que o resultado seja muito diferente. O fato de, quando obrigados a construírem uma série sequencial sem palavras, quadrinistas tendam a representar o mundo dos sonhos e delírios, geralmente encaixando mundos dentro de mundos, deve dizer algo muito importante sobre a linguagem visual muda. Sem a correção das palavras, as imagens têm o poder de correr soltas, transportarem-se de um mundo para o outro, num livre fluir de formas e cores. Desvio é mais causal do que Sim, e Gisé modela uma estranha história envolvendo dois recém-casados, uma psicótica, um lenhador gay e outras coisas, num traço clássico, fino, lembrando uma HQ dos anos 50 (onde se imagina ser também a época da história). A virtude está em, no meio de ações que subitamente se tornam imaginação e sonhos, o encadeamento sem palavras da HQ ainda manter os pés no chão, numa organização de alta compreensibilidade, criando uma aura de enigma não muito fácil de ser alcançada, mesmo que o final não ofereça respostas.  QHQ