Ayako: Osamu Tezuka para maiores
/por Marcos Maciel de Almeida
Países com grandes tiragens de quadrinhos nativos costumam ter grandes patriarcas das HQs. Sergio Bonelli é a referência na Itália. Walt Disney e Will Eisner são os caras nos EUA. Brasil e Japão não são diferentes nesse quesito. Mauricio de Sousa e Osamu Tezuka são referências incontornáveis. Elevados – por muitos – à categoria de semi-deuses do gibi, ambos conseguiram deixar marcas indeléveis na história da nona arte em seus países. Criadores de verdadeiros impérios do entretenimento, Sousa e Tezuka parecem ter nascido com o toque de Midas. Ambos têm obra vasta e diversa. Mauricio conseguiu se aventurar além do entretenimento infanto-juvenil, criando histórias que passam por gêneros como o romance adolescente (Rollo e Pipa), filosofia (Horácio) e escapismo (Astronauta). Tezuka também não ficou para trás nesse aspecto, muito pelo contrário. Atacou em várias frentes, com temáticas do tipo aventura/fantasia (Astro Boy), contos de fadas (A Princesa e o Cavaleiro), semibiografia (Adolf) e suspense sobrenatural (Dororo), entre outras. Apesar disso, existem diferenças importantes entre os publishers brasileiro e japonês. Por mais que a obra de Maurício de Sousa seja diversificada, ela é facilmente fagocitada pela extensão, profundidade e riqueza daquela produzida por seu homólogo nipônico. Como sói acontecer com os super-heróis americanos, as crias de Maurício vagam eternamente pelo universo da ficção, envelhecendo nada ou muito pouco, numa verdadeira história sem fim. No Japão, o papo é diferente e as trajetórias dos personagens costumam ter final, ainda que estejam no auge. E aí não tem choro nem vela. Acabou, está acabado, ainda que milhares de fãs insistam por ressureições e continuações.
Tezuka também é partidário dessa filosofia e, por isso, investiu numa infinidade de temas e narrativas, que lhe consagraram um legado de fôlego. Além disso, conseguiu se manter como alvo de interesse por públicos de muitas faixas etárias, não apenas de crianças e adultos saudosos. Tezuka mostrou que, apesar do traço aparentemente delicado e infantil, a temática das histórias não precisava ser sempre pueril. Nem mesmo o linguajar e as situações mostrados deveriam ser sempre pasteurizados, afinal a vida não é feita apenas de momentos cor-de-rosa. Há ocasiões em que a barra fica pesada e somos forçados a reconhecer que tem muita gente escrota nesse mundo. O que nos leva ao calhamaço de 700 páginas (!)
Ayako, publicado no Brasil em fevereiro de 2018 pela Editora Veneta.
Não é à toa que, para muitos, este trabalho seja considerado a obra prima do mestre mangaká. A epopeia da família Tenge no pós II Guerra Mundial toca em vários pontos sensíveis não apenas para o povo japonês, mas para toda a humanidade. O mais importante deles são as implicações de política interna e externa para o Japão derrotado.
Já estamos acostumados a nem mesmo questionar a visão histórica que privilegia o ponto de vista dos vencedores, relegando a perspectiva dos vencidos a um segundo plano. Digo isso, porque não quero pintar um quadro no qual os japoneses apareçam somente como vítimas, mas o fato é que as narrativas que mostram as agruras do povo da terra do sol nascente são escassas. Exemplo: as bombas atômicas disparadas sobre Hiroshima e Nagasaki são tema praticamente inexplorado, especialmente em relação ao número de filmes e documentários dedicados à Guerra do Vietnã e outros eventos trágicos, como o holocausto do povo judeu.
Como Ayako foi produzido em 1972-3, talvez nem mesmo Tezuka tenha tido as manhas de colocar o dedo nas feridas – ainda – abertas pelo ataque nuclear norte-americano de 1945. Mas isso não significa que ele tenha deixado de abordar outros assuntos espinhosos, que teimam em não ser mencionados, como o fato de que o Japão tenha virado uma espécie de “Estado Vassalo” dos EUA.
De forma discreta, mas incisiva, Tezuka dá diversas alfinetadas na maneira pela qual os americanos em particular e a comunidade internacional em geral trataram os japoneses vencidos. A crítica às medidas empurradas goela abaixo, como a reforma agrária, mostram que foi preciso paciência oriental para suportar a política do General MacArthur, militar norte-americano que derrotou e, em seguida, comandou o Japão. Outro fato que não passou foi despercebido foram os tribunais internacionais que julgaram os crimes cometidos pelo Japão durante o segundo conflito mundial. Para Tezuka, nessas cortes de exceção ocorreram flagrantes arbitrariedades, evidenciadas pelo fato de que os argumentos dos advogados de defesa foram solenemente ignorados.
A história do gibi começa com o retorno ao Japão do prisioneiro de guerra Jiro Tenge, um dos filhos do patriarca Sakuemon, após o término das hostilidades. Refeito o vínculo familiar, Jiro rapidamente se dá conta que a volta para casa nem sempre é uma benção. Seu pai é um devasso, seu irmão não é flor que se cheire e ninguém consegue explicar a origem de Ayako, sua irmã mais nova. E o próprio Jiro traz consigo um segredo que mudará os rumos da trama. Desde as primeiras páginas o clima de mistério é quase tangível. Somos apresentados a uma gama de personagens e situações tão inusitados quanto imprevisíveis. Tudo isso pontuado por incríveis cenas de contemplação da natureza, que servem como momentos de respiro para a trama frenética, teimosa em descansar.
Protótipo da família feliz. #sqn
Já virou clichê falar sobre protagonistas anti-heróis, mas Jiro é um caso à parte. Ele pega bem mais pesado que os costumeiros personagens desse tipo, chegando a um novo patamar de mau-caratismo, característica presente em boa parte do elenco desta HQ. Como consequência, o gibi é profícuo em situações repugnantes que atentam contra o bom gosto da tradicional família brasileira. Por isso, para mim, Ayako representa uma espécie de maioridade de Tezuka, que se permitiu publicar perversões e cenas indigestas que incluem violência contra a mulher, incesto e maus-tratos contra crianças.
Temas que, certamente, não serão vistos na próxima edição do Cebolinha. A crueldade e a crueza de algumas partes do gibi remetem a uma linha de pensamento sobre a qual passei a refletir depois de perceber alguns traços comuns em obras de autores japoneses, tanto no cinema (Ringu), como na literatura (1Q84). Cheguei à conclusão que, na ficção nipônica, o sadismo do agressor é potencializado pela crença de que o sofrimento da vítima é determinado pelo destino, não podendo ser, portanto, evitado. Isso faz com que as cenas de tortura e violência sejam muito mais intensas que aquelas presentes nos similares ocidentais, chegando a níveis quase insuportáveis. E Ayako não foge à regra. É Made in Japan, com muito orgulho.
Cena presente no mangá e que ainda acontece na vida real.
Ayako traz uma pungente reflexão sobre os impactos da ocupação norte-americana no Japão pós II Guerra, sem medo de expor feridas ainda não completamente cicatrizadas na sociedade japonesa contemporânea. E o clã Tenge, que nunca foi sinônimo de estabilidade, é rapidamente tragado pelo inexorável vendaval de mudança anunciado pelos novos tempos. Os membros da família, contagiados pelo clima de “salve-se quem puder” tomam decisões egoístas cujos resultados recairão sobre Ayako, a pessoa mais indefesa daquele núcleo. Em Ayako, Tezuka tece uma teia de relações conflituosas habitada por pessoas sedentas por poder e dinheiro, que passarão por cima de qualquer escrúpulo ou sentimento de compaixão para atingir seus objetivos sórdidos. E é esse ambiente de devassidão e amoralidade que servirá como o playground para a disseminação de perversões e fantasias latentes. Em Ayako, Tezuka mostrou que os quadrinhos também poderiam alcançar a maioridade e se mudar da casa dos pais, indo para bem longe do Bairro do Limoeiro.
A edição nacional de Ayako é extremamente bem cuidada, com inúmeras notas de rodapé. Traz, pela primeira vez no Ocidente, os dois desfechos para a saga imaginados por Tezuka. Coisa fina.
Silêncio dos inocentes
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?