Batman e seu pretenso realismo

Em primeiro lugar, gostaria de enfatizar que gosto muito do personagem criado por Bob Kane, e que constantemente leio e releio HQs de Batman, incluindo o arco da Era de Prata escrito por Denis O'Neil, o não menos relevante O cavaleiro das trevas, de Frank Miller, a obra cult A piada mortal, de Alan Moore, como também o igualmente impactante Asilo Arkham, de Grant Morrison.

Considero todas as obras mencionadas verdadeiras referências do gênero super-heróis e não tenho dúvidas de que tais obras auxiliaram na iconização do personagem, conferindo a ele uma tonalidade quase mítica. Essas HQs foram fundamentais na constituição de um rico imaginário para os leitores, não somente pela excelente qualidade das tramas, como também por apresentarem o famoso arquétipo do vigilante detetivesco pulp em um mundo mais próximo ao nosso, mais palpável, mais cotidiano e atual (em seus respectivos contextos), ou seja, por mostrarem ações e relações mais plurais, no sentido de apresentarem os defeitos e as obsessões de Bruce Wayne e uma série de elementos humanos que antes eram camuflados ou suprimidos pelas cenas de sopapos regados a onomatopeias policromáticas, carros góticos bizarros e equipamentos ao estilo Mandrake.

O mesmo vale para o excelente filme O cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, e seu senso de pretenso realismo e pragmatismo em torno do ambiente ficcional e dos coadjuvantes do Batman, incluindo o famoso vilão Coringa e sua lógica hobbesiana no que tange ao instinto de sobrevivência imanente a todos nós. Fora todo o senso estético do filme regado a uma ação e a uma fotografia que deixam de lado o excesso de computação gráfica para dar lugar a cenários, modelos, fios, máscaras, efeitos de câmera e afins, tudo com o propósito de alcançar um impacto mais "realista", segundo palavras do próprio diretor em entrevistas.

Nolan e seu pretenso realismo

Pois bem. A questão que coloco se resume a esse "pretenso realismo inerente" em torno do Batman, um realismo comumente apregoado por artistas, roteiristas, leitores e aficionados, à exaustão. Mais de uma vez perguntei a amigos, conhecidos e fãs do personagem sobre filme de Nolan e a reposta usual se deu em torno da frase: "gostei porque achei realista". O mesmo vale para opiniões de botequim no que concerne ao personagem em si. Quantas opiniões seguiam a cartilha do "eu gosto muito mais do Batman do que do Super porque ele é mais realista, porque não passa de um homem comum".

Em primeiro lugar, o fato de um personagem ser aparentemente próximo a um homem comum não o faz ser necessariamente realista, isso porque "ser humano" é algo que vai além das características fisiológicas de nossa natureza mortal (como daquele sujeito que em todos os sentidos parece um mero mortal, mas que possui um senso moral sobre-humano, no sentido de ser incorruptível em qualquer situação). Em segundo lugar, porque não basta existirem personagens aparentemente comuns para que uma obra seja realista, como bem comprova o conto Alice no país das maravilhas e tantos outros personagens como a gente que visitam lugares completamente míticos, fabulosos e fantasiosos (por acaso um homem comum não ficaria completamente insano no País das Maravilhas, tal como ficou o Chapeleiro Louco?). Em terceiro lugar, porque, apesar de parecer humano, Batman, em todas as mídias onde foi representado (incluindo a caricata série de TV dos anos 1960 estrelada por Adam West) fez coisas que pessoas comuns jamais fariam, tais como lutar com os punhos e diversas bugigangas contra criminosos munidos com armas de fogo, estando envolto em uma capa e travestido de morcego. Desculpem por escrever e acentuar o óbvio, mas sobreviver durante anos esmurrando criminosos pelos becos escuros de uma cidade fictícia chamada Gotham está longe de ser algo palpável e realista segundo critérios válidos e racionais.

Batman seria tão realista quanto James Bond, Sherlock Holmes, Indiana Jones, Rambo e todos os demais personagens que apenas se parecem com pessoas comuns à primeira vista, mas que fazem coisas fisicamente e intelectualmente impossíveis para qualquer um de nós, mortais do mundo real. Se pararmos para pensar um pouco, concluiremos que é mais próximo da realidade um alienígena super-humano vergando uma ridícula cueca por cima das calças (até porque não sabemos como é a moda em Krypton) do que seres humanos sem poderes quaisquer realizarem tudo aquilo que todos os personagens citados acima conseguem.

Rambo: tão realista quanto Batman

Isso sem falar no fato de que nenhum filho de qualquer mega empresário do mundo real se tornaria, sob quaisquer circunstâncias reais, o Batman, mesmo após a morte traumática dos pais em um beco lúgubre e sujo. Isso é facilmente comprovado pela própria realidade que nos cerca: existem milhares de pessoas no mundo real, filhos de empresários ou não, que perderam entes queridos em assaltos e crimes quaisquer e nenhum deles, sob quaisquer circunstâncias ou situação se transformou em algo próximo ao Batman pelo que se sabe. Ou seja, realismo é aquilo que em situações reais acontece e não aquilo que em situações reais não acontece.

This is real life, bitch!

Estou falando aqui de um sujeito trajando roupas de morcego que literalmente sai saltitando pelos arranhas céus de uma grande metrópole ou mesmo que se locomove velozmente pelas vias públicas em um carrão estranho e estilizado. Nem vale argumentar que existem, pelas vielas de alguma grande metrópole, indivíduos fantasiados como o Batman.

Caso existam, bem, tais indivíduos devem ser completamente incompetentes no combate ao crime (eu nunca vi no jornal qualquer manchete do tipo, "famoso gângster nova-iorquino foi preso pelo vigilante mascarado denominado Mosca") e provavelmente se tornaram vigilantes após leitura de alguma HQ dessa natureza (casos excepcionais em que a realidade imita a ficção).

Realmente não existe nada de realista no conceito do Batman enquanto personagem ou metáfora da vida urbana mortal das grandes cidades, nada de realista no conceito de alguém vergando um collant cinza de morcego enquanto combate os mais perigosos delinquentes com equipamentos diversos e ultrassofisticados para levá-los à justiça. O que temos é um mero cenário que lembra em alguns aspectos o mundo real, um protagonista ficcional voltado para entreter crianças e adolescentes a partir de aventuras irreais, no máximo passando por situações que lembram alguns aspectos da vida real.

Normalmente obras realistas tratam de pessoas e temas comuns ao extremo, do cotidiano, de relacionamentos e situações usuais, ainda que representem personagens e obras de ficção. Podemos chegar ao mais próximo do realismo em um documentário, uma foto ou sequência de fatos narrados, um texto de cunho puramente descritivo, uma narrativa de acontecimentos, talvez um diário de vida, uma entrevista de história de vida. Mas, mesmo assim, são todas apenas representações da realidade, claro, uma visão que toma certas partes pelo todo, visto que nenhuma obra consegue e nem se pretende abarcar o todo real do mundo e das coisas reais do referido mundo (uma leitura da obra do filósofo Michel Foucault ou mesmo do historiador Roger Chartier poderia auxiliar nas divagações inerentes entre realidade e representação do real).

Batman e a eterna obsessão pelo realismo

Mesmo assim, muitos argumentarão que em paralelo a outros tantos personagens das HQs, o Batman seria um dos mais realistas. Como apontado mais acima, eu já expressei minha opinião que isso não se confirma de fato, que o personagem está longe de qualquer realismo em suas premissas fundamentais, tratando-se sim de um conceito eminentemente infanto-juvenil. O que acho do Batman, e considero que o filme de Nolan fez isso como ninguém, é que ele pode ter um alto grau de verossimilhança se bem estruturado e trabalhado narrativamente com esse propósito e isso não significa ser realista, mas sim ser mais palpável dentro de seu absurdo ficcional, de sua irrealidade inerente.

Em termos conceituais, o termo latino veri similis (de onde advêm a palavra verossimilhança), tratado por retóricos e oradores do porte do político e senador romano do século I a.C, Cícero, significava algo que, em dada situação, poderia ser aproximado ao real, ainda que não fosse a realidade concreta, mas sim um espelho do real, mesmo que a imagem representada não fosse a coisa em si e até pudesse ser distorcida ou invertida. Verossimilhança significava que "se aconteceu tal coisa, em dada situação, poderia acontecer isso ou aquilo a partir do fato e isso após uma análise sobre o que se sabia sobre o assunto em questão, ainda que fosse algo inexistente e irreal".

Assim, o que era verossímil não era necessariamente verdade ou realidade enquanto tal. Como bem afirmou Aristóteles sobre o assunto, "seria verossímil que namorados se amassem e inimigos se odiassem, ainda que não fosse verdadeiro ou real que isso acontecesse em todos os casos ou em algum caso específico, pois existiam namorados que em dadas situações se odiavam e inimigos que se amavam".

Em outras palavras, um sujeito do porte do Batman não seria considerado realista em hipótese alguma na visão de qualquer orador grego ou latino de renome e nem para qualquer um de nós que saiba minimamente a diferença entre realidade e representação, verdade e verossimilhança. O que posso sustentar com tudo isso é que, em algumas obras, principalmente no supracitado filme de Nolan, Batman e seu ambiente ficcional, incluindo muitos de seus coadjuvantes, possuem certa verossimilhança.

Ora, apesar de Batman não ser verdadeiro ou real, apesar de ser irreal qualquer ideia de um sujeito fantasiado de morcego lutando contra o crime, é verossímil na obra de Nolan, que, dada a ideia de que isso seria a tônica de uma obra ficcional, tal personagem irreal faça, em dada situação, coisas palpáveis e verossímeis segundo o que se apresenta na obra. Em outras palavras, o filme do Nolan se utilizou de alguém irreal ao extremo, o Batman, e deu-lhe coisas palpáveis para ele segundo graus elevados de verossimilhança, dando um aspecto apenas pseudo-realista às narrativas, tudo isso auxiliado pelo fato de os espectadores que viram o filme confundirem conceitos como os de verdade, realidade, representação e verossimilhança.

Nolan e outros tantos roteiristas que apresentaram doses de pseudo-realismo ao Batman estavam afirmando que, dado o absurdo de tudo isso, tal conduta ou ação seriam verossímeis em dada situação, ainda que em essência toda a situação envolvendo um sujeito vestido de morcego seja irreal ao extremo. Diversos exemplos podem ser citados a partir do filme de Nolan, como a pretensa realidade de pânico coletivo apresentado ao longo da narrativa ou o experimento sociológico do Coringa ao final do filme, ou mesmo uma entrevista em que um promotor público, Harvey Dent, afirma ser na verdade o Batman.

A partir dessa grande confusão conceitual do que seja realismo e verossimilhança, muitas pessoas passaram a tratar algo irreal como papável sob diversos critérios realistas, esquecendo-se de que se trata de algo palpável apenas sob critérios verossímeis. Mas vejam, por poder ser verossímil, e isso apenas em algumas obras ou arcos, Batman é um personagem bastante interessante, talvez muito mais próximo de arquétipos junguianos do que qualquer outra personagem do universo ficcional de super-heróis.

Ano um, de Miller, é uma das obras mais verossímeis envolvendo Batman

O Batman representado como um sujeito real se tornou uma tradição dos quadrinhos, seguindo a onda dos escritores nerds que passaram a figurar nas grandes editoras de quadrinhos a partir do final da década de 1960. Autores como Roy Thomas, Denis O'Neil, John Byrne, Cris Claremont, Frank Miller, dentre outros, se tornaram famosos e reconhecidos ao trazerem toques de verossimilhança a personagens de quadrinhos mainstream de super-heróis, ainda que a tradição desses quadrinhos tenha difundido a fórmula de que se tratava de narrativas realistas ou pior, que os personagens eram realistas em essência.

Esse engano se deu por motivos variados e cito aqui algumas conclusões de Grant Morrison sobre o assunto na obra Superdeuses. Por um lado, afirma o roteirista inglês, se trata de uma teimosia do mundo adulto que se nega a aceitar a distinção entre fantasia e realidade (diferentemente das crianças, que brincam de faz de conta sem culpa, sabendo que tais brincadeiras não são reais e nem devem parecer assim). Por outro lado, desvela a vontade de um público adulto que cresceu lendo HQs voltadas para crianças e adolescentes e que quer continuar com seu hobby de leitores assíduos sem a necessidade de explicarem os motivos de ainda serem leitores de um gênero de fantasia. Além disso, tal movimento se deve a diversificação e ampliação do público consumidor das HQs da indústria cultural mainstream ao longo dos anos 1960-1970, visto que as grandes empresas de quadrinhos procuravam maximizar seus lucros vendendo narrativas infantis para adultos que, em razão de trabalharem, tinham mais poder aquisitivo.

Morrison e sua leitura de Batman

O fato é que o ethos do realismo nas narrativas de super-heróis permaneceu, e muitos leitores, espectadores e fãs acreditam piamente nessa premissa, qual seja, de que pessoas de collants contra o crime podem ser realistas se representadas em situações verossímeis. Como uma mera carapaça, o realismo nos super-heróis não passa disso, sugerindo apenas uma fórmula para vender narrativas de um gênero eminentemente infanto-juvenil. De minha parte, saber dessa distinção entre realidade e verossimilhança em nada muda meu gosto pelos quadrinhos de super-heróis, sejam aqueles mais escapistas ou mais verossímeis. Ao contrário.

Tal como afirmado por Mark Waid e Kurt Busiek em diversas entrevistas, eu aceito o gênero de super-heróis em sua natureza eminentemente infanto-juvenil, seu irrealismo inerente ou seu pseudo-realismo regado a verossimilhança. Aceito, me divirto com algumas narrativas e sigo adiante com meu hobby. O que gosto de Batman não é o fato de ele ser real ou de expressar qualquer espelho do mundo real, mas por ser verossímil às vezes em sua irrealidade inerente, por ser eminentemente ficcional e incrivelmente mítico.

Quadrinhos pra incomodar: Belga e Berger

Quando eu e Pedro Brandt lemos

O lobisomem/A múmia  e Chuva de merda, percebemos que, por díspares que possam parecer estas HQs, havia um certo substrato comum que as unificava, e justificava que as suas resenhas fossem publicadas juntas. Estes dois quadrinhos não são apenas igualmente incômodos (em sentidos diferentes), mas trabalham releituras da própria tradição do quadrinho brasileiro. Afinal de contas, se tivemos uma longa tradição de quadrinhos de horror (especialmente nos anos 50 - aquelas coisas de Colonnese, Jayme Cortez, Colin, Shimamoto, etc.), esta geração mais underground contemporânea traz novamente o horror à tona, mas sem as ingenuidades da nossa era de ouro. O corpo, suas purulências e excrescências, se torna aqui o objeto de análise e horror. Se Belga o faz por meio de metáforas doentias, Berger usa o humor punk. É tudo lindo. E incômodo. Seguem os textos, um de minha autoria, e outro do Pedro. (CIM)

Anatomia de um filha da puta nada ordinário

por Ciro I. Marcondes

O quadrinista e artista plástico Eduardo Belga não é um filha da puta qualquer. Digo isso sem fazer qualquer julgamento e sem querer enfiar-lhe uma camisa de força moralista. Digo isso porque, ao que me parece, ele pertence à estirpe dos desgraçados mutarellianos, ou seja, a um universo de infelizes glorificados por suas paixões abstrusas, por sua dedicação implacável aos seus prazeres secretos, pela honestidade brutal com que aceitam, compreendem e reproduzem a natureza de seus próprios corpos, em um processo infinito de expiação de si próprios. Filhas da puta quaisquer somos nós, eu e você que está me lendo agora, com nossos túmulos de recalques e icerbergs de traumas submersos, buscando pequenas portas para perversões dentro de um pesado sistema interno de regras e regulações.

Estas impressões nos marcam após lermos o primeiro trabalho solo de Belga, O lobisomem / A múmia, lançado pela coleção Franca do selo Narval, de Rafael Coutinho, que tem a intenção de explorar com liberdade radical a mais profunda intimidade de seus artistas. Bem, atiçar um artista como Belga com uma proposta dessas é mexer num vespeiro de vespas marinhas, e o resultado não é apenas desconcertante. É estarrecedor. A edição é dupla, e precisa ser virada do avesso para se ler cada “história” alternadamente. Na jaqueta que serve como capa, três rostos do próprio Belga, desenhados com precisão anatômica: um deles esfacelado, atropelado; outro já reconstituído, costurado; e outro de defunto maquiado, pronto para o enterro. É um aviso fúnebre do que está por vir.

As duas histórias representam o próprio Belga como personagem de suas fantasias, ambas em fetiches extremos: em “O lobisomem”, ele parte do mote dos Stooges (“I wanna be your dog”) para, em grandes quadros panorâmicos (sem qualquer decupagem, portanto), levar a fantasia de Iggy Pop a uma literariedade gráfica obviamente perturbadora, e de maneira autorrepresentada: Belga é prefigurado como um cachorro (macho ou fêmea), e, acompanhado de frases como “pra andar por aí cheirando o cu dos outros” e “pra achar uma carniça e me refestelar nela”, ele surge como desejo cru e primitivo, sem qualquer cerimônia, como se fosse a própria antítese do pudor. Na segunda, “A múmia”, ele é espécie de cientista/taxidermista que parte de um esqueleto puro, sentado e olhando-o de frente, e, passo a passo, constrói a sua bizarra boneca erótica em cima dele, para depois consumar o ato necrofílico a partir de uma decupagem seca, desta vem em quadrinhos.

À parte a identificação óbvia com a morbidez e parafilias, em um estilo gótico atualizado (a associação com monstros “clássicos” folclorizados pela literatura vitoriana, como o lobisomem e a múmia, não é à toa), sobressai-se, na arte de Belga, sua visão refinada de anatomista. Como se pode ver em sua mínima preocupação com a decupagem, a narrativa e a mise-en-page em si, ele não está muito interessado em fazer quadrinhos. Suas dimensões referenciais são ainda mais longínquas. Logicamente, poderíamos parar nas menções a Mutarelli ou Crepax, mas eu gostaria de recuar mesmo às lições de anatomia de Da Vinci, a Courbet, Francis Bacon ou Lucien Freud. Está evidente que, para Belga, a expressão máxima da arte reside na representação do corpo, em sua transubstancialidade, seu eterno estado de metamorfose, casulo para um estado libidinal permanente do qual ele não é mero reflexo, mas sim simetria, duplo consagrado no corpo do próprio mundo. Daí o até mesmo delicado e meticuloso trabalho em ilustrar passo a passo, em “O lobisomem”, a morte do cachorro a partir da evisceração, e a reconstrução do corpo, a partir das dinâmicas do desejo, por meio da taxidermia em “A múmia”. Mesmo o leitor pode fazer as vezes de “Dr. Frankenstein” ao destacar, do encarte, partes de action figures (“bonequinhos”) e construir, por si próprios, suas versões dos corpos do lobisomem e da múmia.

Conversando com Belga sobre sua obra repulsiva e genial, veio a confissão de que havia, neste trabalho, a ideia de dialogar também com o pop, com estes monstros imaginários, com estas imagens dos contos de terror. Repensando o quadrinho após ouvir este relato, percebi o quanto isso fazia sentido se pensarmos que o pop (seja na figura do “lobisomem juvenil” de O garoto do futuro ou na múmia de Brandan Fraser), pudico, anódino e asséptico (tal qual a chamada “cultura nerd” que nos assombra hoje em dia), precisa deste empurrão em direção à filhadaputagem de Eduardo Belga para abrir os seus olhos e perceber que seus ídolos caídos são feitos deste mesmo material espúrio e em putrefação.

Assim, torna-se educativo ver a múmia, originalmente concebida pelos antigos como valise para a

 vida eterna, se transformar em objeto de necrofilia (ressaltando as pulsões de vida e morte freudianas). Da mesma forma, o cachorro, hoje a coqueluche de brinquedo de uma burguesia assustada demais para encarar sua própria reprodutibilidade, retorna à sua forma instintiva, canibal e incestuosa, num frenesi libidinoso baixo demais para podermos nos recordar que isso também está dentro de nós. Não à toa, isso me lembrou o lobisomem estuprador com que Coppola representou o Drácula em seu filme. Mas Belga foi além. Sua filhadaputagem foi desnudar estas relações literalmente até os ossos, e este ultrajante é a matéria prima com que ele constrói sua arte.

Gostaria de terminar este texto devolvendo outra canção punk ao Belga, pensando em sua própria hipotética resposta a estas palavras.

Vamos de Misfits:

an omelet of disease awaits your noontime meal

her mouth of germicide seducing all your glands

i ain't no goddamn son of a bitch

you better think about it baby

O Lobisomem/A Múmia

De Eduardo Belga. 56 páginas (cor/p&b). Lançamento: Cachalote. R$ 28

Poesia de banheiro elevada à arte

por Pedro Brandt

Gostar de Chuva de merda não é para qualquer um. Calma! Estou me referindo ao título da coletânea de quadrinhos de Luiz Berger lançada recentemente em parceria pelas editoras Gordo Seboso e Ugra Press.

São 52 páginas (produzidas entre 2011 e janeiro de 2015) de escatologia nas quais convivem diarreias, caganeiras, flatos, coprofagia, sexo doentio, canibalismo, cocô, doenças venéreas, vômitos, infanticídio, fezes, satanismo, gente feia, demência, zoofilia, excrementos, cerva vagabunda, drogas, sangue, suor e vísceras.

Pode não parecer, mas trata-se de um trabalho fino. Explico: Berger está naquela categoria de autores que conseguem fazer o grotesco palatável, convidativo aos olhos, tal qual Crumb, Marcatti, Ed “Big Daddy” Roth e Basil Wolverton – todos, imagino, referências no trabalho dele. Berger aplica volume e elasticidade com muita destreza em seus desenhos, e consegue deixar tudo muito sujo e carregado na medida. O resultado é visível o suficiente sem parecer limpo e sem nublar a compreensão das páginas, todas muito bem-construídas, com angulações e enquadramentos diversos. A plasticidade dos desenhos e a quase fofura da aparência dos personagens – por mais paradoxal que isso possa parecer – mais atraem do que repelem. Quem se lembra da Gang do Lixo sabe do que estou falando.

Ajuda a digestão o sempre presente alívio cômico das HQs. É quase como se não estivéssemos lidando com assuntos tão intestinais. A sensação é diferente, por exemplo, de quando lemos quadrinhos bizarros e carregados de uma carga psicológica tensa, opressora, que exigem mais estômago, como os mangás de Suehiro Maruo e as obras antigas de Lourenço Mutarelli. Com o grotesco suavizado, por assim dizer, cabe ao leitor se divertir – sem peso na consciência – com as situações repugnantes apresentadas pelo autor.

Como dito anteriormente, a bizarria e o ultraje está por todo lado. Enquanto o carismático Rato Robson se lembra com afeto da gatinha que lhe passou uma DST, o Dr. Zárgov nos apresenta seu plano de dominação mundial. Seu Raimundo, por sua vez, entra numa espiral de loucura, e Juan, o pervertido, nos apresenta uma galeria de freaks. Sobra até para o marinheiro Popeye, Luluzinha e Bolinha. Detalhar as tramas – curtas, de rápida leitura – seria estragar o prazer de quem decidir se aventurar com Chuva de merda.

As histórias funcionam muito bem, especialmente pela arte e pelo domínio da narrativa gráfica. Mas não dá pra não perceber que os argumentos têm algo de lugar comum, como se já tivéssemos lido essas histórias antes ou as escutado na mesa de um bar qualquer. 

Isso, entretanto, não diminui a qualidade do trabalho de Berger aqui compilado. Pelo contrário. Elevar a poesia de banheiro ao estado de arte é tarefa para os realmente talentosos.

Chuva de merda

De Luiz Berger. 52 páginas (16 coloridas). Lançamento: Gordo Seboso e Ugra Press. Tiragem: 500 exemplares. R$ 18.

HQ em um quadro: Jung, Kafka e Van Gogh no mundo do quadrinho noir silencioso, por Thomas Ott

Personagem noiado caminha por cenário noir com grana e uma arma (Thomas Ott, 2008): conheci o trabalho do suíço Thomas Ott, surpreendentemente, lendo trabalhos teóricos. Em especial o de Marion Lejeune, que trata especificamente de histórias em quadrinhos sem falas, onde o curioso caso das repetições em deslizamentos gráficos ocorre com frequência na obra de Ott. Talvez não tenha sido tão surpreendente assim, já que o trabalho do suíço tem uma riquíssima elaboração gráfica, intrigante abordagem temática e parece mais desafiador a cada página que viramos. O quadro que vemos aqui pertence ao seu último trabalho, de 2008, chamado simplesmente 73304-23-4153-6-96-8 (precedido por El número na edição argentina que me chegou em mãos, da editora Loco Rabia). Ele mostra um homem enlouquecido por poder, sexo e dinheiro após entrar em uma espiral de sincronicidades jungianas provocadas por um número (sim, o do título) anotado em um papel que ele guardou de um homem condenado à morte. Ott, um perfeccionista que trabalha com a técnica do scratchboard (que consiste em riscar sobre cera pintada de preto), exprime verdadeiro terror alucinatório ao misturar o impressionismo de um Van Gogh (de onde ele tira o delineamento e o preenchimento) com o expressionismo em noir de Billy Wilder ou Robert Siodmak, revelando uma cidade engastada e old-fashioned, com personagens solitários, perdidos e diminuídos em labirintos urbanos que parecem extraídos diretamente dos anos 40. 

Este clima paranoico e labiríntico toma conta não apenas do apelo visual da HQ, inteiramente sem falas - cuja narrativa é francamente impulsionada pelas tais repetições gráficas, que acabam se transformando em um completo vocabulário silencioso -, mas também no tema circular, que vai ganhando doses e doses de surrealismo, fazendo-nos partir da ansiedade de um Kafka para chegar ao insólito de um David Lynch. Afinal, o número 73304-23-4153-6-96-8, a partir do momento em que é adquirido pelo homem soturno, passa a se repetir a cada instante de sua vida, sempre na mesma ordem, como se em coincidências absurdas e inacreditáveis (o que fundamenta uma realidade latente, segundo a teoria da sincronicidade jungiana), levando-o, obviamente, às raias da loucura. Este quadro, já no fim do processo, em contundente splash-page, materializa o aspecto sombrio e repetitivo da HQ, conduzida em silêncio com habilidade de quem tem profunda afinidade com o universo puro das imagens e suas co-ocorrências. Verdadeira obra de arte. (CIM)

A fortaleza dos quadrinhos

por Pedro Brandt

Qualquer colecionador de quadrinhos que se preze frequenta – ou em algum momento da vida frequentou – bancas e livrarias que vendem revistas usadas. É nesses estabelecimentos, popularmente conhecidos como sebos, que o leitor tem a chance de encontrar não apenas aquele quadrinho há muito tempo procurado, mas também conhecer outros tantos que, não fosse a visita a esses locais, provavelmente jamais saberia da existência.

Em tempos de Internet, a compra de quadrinhos ficou muito mais fácil. Achar um gibi antigo, raro, ou mesmo a edição do mês anterior está ao alcance de alguns cliques. Mas num passado não muito distante, “garimpar” revistas nos sebos era a alternativa mais viável. Para não dizer a única. Não foram poucas as surpresas que encontrei nesses lugares, as pechinchas pagas, as trocas honestas.

Uma banca, em especial, tem lugar cativo na minha memória afetiva da pré-adolescência. Localizada na quadra 511 Sul (Brasília), entre uma loja de materiais de construção e uma tradicional loja de colchões, a Banca Fortaleza foi, durante muito tempo, uma das principais referências na cidade para se comprar e trocar revistas.

A Fortal, hoje

A Fortal, como eu e meus amigos a apelidamos, era dividida em três partes: do lado direito ficavam os livrinhos de romance tipo Sabrina, Julia, etc., do lado esquerdo, os quadrinhos e, ao fundo, as revistas de mulher pelada (muita Playboy, Sexy, a saudosa Ele & Ela e, eventualmente, até as vintage Homem e Status).

Eu estudava perto da Fortaleza e quando ia a pé ou de ônibus para a colégio era inevitável dar uma passada na banca. Naquela época, completar uma coleção era mais do que ler todas as histórias, era um investimento: ingenuamente, eu e meus amigos pensávamos que algum dia aquelas revistas, especialmente as coleções completas, valeriam uma pequena fortuna.

A Fortal era uma banca poeirenta, com pouca iluminação, e, geralmente, bagunçada. Vi baratas entre os gibis algumas vezes. Mera formalidade. Sujar as mãos é parte da garimpagem. O grande lance – pelo menos para mim sempre foi – era entrar ali sem saber o que poderia ser encontrado. A surpresa do tesouro é parte da graça. Foi assim, quase por acaso, que comprei uma edição encadernada de

Batman – O cavaleiro das trevas por módicos R$ 3. E por menos do que isso, incontáveis Heróis da TV, Super Aventuras Marvel, X-Men, Wolverine, Homem-Aranha, DC 2000, Liga da Justiça, Crypta, Ken Parker, Monstro do Pântano, Lobo Solitário, minisséries, edições especiais...

Não achar nada também era comum. Aliás, mais comum do que achar alguma coisa interessante.

Tive a sorte de começar a frequentar a Fortaleza antes de um “acontecimento” que mudaria a forma como o comércio de quadrinhos era praticado no Brasil até então: a chegada, em 1996, da versão brasileira da revista americana Wizard. Quem leu a revista, tanto a gringa, quanto a nacional, deve se lembrar que, além de entrevistas, matérias e resenhas sobre o universo dos quadrinhos, ela também publicava um guia de preços de revistas. Isso fez com que os sebos abrissem os olhos para um potencial até então desconhecido e aumentassem os preços. Isso numa época em que com R$ 10 você comprava pelo menos três revistas em quadrinhos novas.

O interior da Papil

À medida que fui conseguindo os quadrinhos que queria, o acervo da Fortaleza, só renovado sazonalmente (eles vendiam basicamente comics dos anos 80 e 90), foi me afastando de lá. 

Por anos, passei ali, de carro, e pensei em fazer uma visita. E foi numa dessas ocasiões que vi a banca fechada e... chamuscada. A Fortaleza tinha pegado fogo. Fiquei imaginando os super-heróis, as musas desnudas e as mocinhas românticas, todos apertados dentro daquela lata de sardinha gigantesca, desesperados enquanto o fogo consumia as páginas que habitavam. Teria sido um ato de vandalismo? Um acidente? Um incêndio proposital para conseguir o dinheiro do seguro? Ou a Fortaleza nunca pegou fogo e a banca em chamas foi apenas um sonho?

Não foi, como me confirmou Carlos, o homem atualmente por trás do balcão da Fortaleza, quando estive lá, este ano. Em março deste ano, fui até lá perguntar. A banca realmente pegou fogo – não se sabe a causa do incêndio – há alguns anos e ficou muito tempo fechada até reabrir. Carlos me contou que a Fortaleza é uma das bancas mais antigas de Brasília e foi “fundada” há quase 50 anos por seu pai, Seu Antônio, falecido recentemente. A Fortaleza pós-incêndio é igual à sua versão anterior. Provavelmente, mais bagunçada.

A Papil, hoje

Perto dali, mais especificamente na quadra 512 Sul, encontra-se uma outra banca de usados. O vendedor, Romeu, é o mesmo cara que trabalhava na Fortaleza das antigas, da época em que eu a frequentava. Resolvi puxar conversa. Ele me explicou que é dono da Papil, como se chama a banca dele. A Papil tem poucos quadrinhos. Curiosamente, também tem pouco de seu antigo carro-chefe, as revistas de mulher pelada. Tem sim, um pouco de tudo, entre livros, revistas de todos os tipos, DVDs e também discos de vinil. Bagunçada, claro. Mas os preços, ainda bastante convidativos. Procurei, mas não achei nada que eu quisesse. Como tantas outras vezes ali (ou quase ali). Saí de mãos abanando. Por um instante, tive 13 anos outras vez.

Romeu@Papil

Mundos de Aldebaran: dainbaía de hâmbrios

A história de vida do amigo Marcos Maciel de Almeida se confunde com a história dos quadrinhos em Brasília. Ávido leitor de comics, este fã de Beatles, Monstro do Pântano e Warriors – Os selvagens da Noite foi fundador, junto com Nonato Natinho, da Kingdom Comics, primeira loja especializada em quadrinhos da capital brasileira. Marcos foi sócio da Kingdom até 2007, quando vendeu sua parte no negócio. A paixão pelos quadrinhos, entretanto, nunca diminuiu. Apresentei Aldebaran para o Marcos como uma das séries mais impressionantes que eu li recentemente. Ele foi atrás da obra, leu e teve a mesma percepção sobre a HQ. Aproveitei o entusiasmo do Marcos e perguntei se ele gostaria de escrever suas impressões sobre Aldebaran. O texto – esperamos que o primeiro de muitos – segue abaixo. (PB)

por Marcos Maciel de Almeida

Dinbaía de Hâmbrios: essa estranha expressão me veio durante um sonho. Não consta nos dicionários. Apesar disso, não consigo deixar de pensar que teria algum significado para mim. É como se já tivesse esquecido o que é, ou talvez seja algo que ainda conhecerei no futuro.Usei esse exemplo para tentar explicar a sensação de familiar estranhamento que a leitura de Mundos de Aldebaran causou em mim. A HQ, escrita e desenhada pelo brasileiro Luiz Eduardo de Oliveira – mais conhecido pelo acrônimo LEO – já é publicada desde 1994 no mercado franco-belga.

Mais que uma história de ficção, o carioca LEO lançou as bases de um novo futuro para humanidade, que enfim logrou colonizar outros planetas. Em um deles, Aldebaran, os colonos foram deixados à própria sorte. Os terráqueos nunca mais retornaram a essa parte do universo, e, por essa razão, os habitantes não tiveram outra alternativa senão caminhar sozinhos.

Nessa HQ singular, os personagens são o pano de fundo para o cenário, e não o contrário. OK, Marc e Kim são dois bons protagonistas, mas parecem coadjuvantes para a geografia e a fauna dos mundos dessa nova realidade. Sobreviventes de uma vila destruída pela Mantrisse – criatura misteriosa cujas aparições servem como fio condutor da saga – a dupla tem uma química interessante, mas que parece ter sido criada somente para permitir o desenrolar de situações que, gradualmente, desvendam os mundos exóticos construídos por LEO. Em busca de respostas para sua catástrofe pessoal, Marc e Kim acabam conhecendo diversas pessoas que também tiveram suas vidas afetadas pela Mantrisse, numa investigação que os levará a outros planetas e a se deparar com seres e provações tão bizarros quanto incomuns.

A primeira aparição da Mantrisse foi bastante traumática para Marc e Kim, habitantes da vila de Arena Blanca em Aldebaran. A cidade natal da dupla foi erradicada após a passagem da criatura. Nada permaneceu de pé, e eles só conseguiram escapar com a roupa do corpo. Familiares e amigos também não foram poupados da onda de destruição. Esse foi o preço pago pelo fato de os habitantes não terem ouvido Driss, forasteiro que os tinha avisado do perigo que se aproximava. Os raros sobreviventes da catástrofe pouco a pouco se encontram, e descobrem que Driss é um homem procurado pelas autoridades de Aldebaran, planeta marcado pelo autoritarismo de líderes religiosos prontos a eliminar qualquer ameaça ao status quo. Outra personagem de destaque, ligada a Driss, é Alexa, que também tem um passado em comum com a Mantrisse. Gradualmente, o autor revela a conexão de ambos com a criatura, a partir de um encontro que mudaria para sempre seus destinos.

O contato de Marc e Kim com Driss os torna procurados pela lei, já que esse último é um fator de instabilidade para o governo, que não consegue compreender e tampouco controlar sua agenda. A baixa cooperação da dupla com as autoridades faz com que eles sejam presos. A precariedade da situação os torna mais suscetíveis a fazer alianças arriscadas, com personagens de índole duvidosa, como o velho Pad, cujo auxílio nunca vem de modo gratuito. Esse personagem mostra-se um mestre da manipulação, sempre hábil a encaminhar as circunstâncias para obter benefício próprio. Sem grandes alternativas, Marc e Kim são compelidos a seguir a orientações de Pad, o que nem sempre se revela uma boa decisão.

Com o passar do tempo, Marc e Kim conseguem reunir um grupo de pessoas interessadas no mistério da Mantrisse. Ou talvez tenha sido a Mantrisse quem os selecionou para seus propósitos secretos. O fato é que todos ficarão cara a cara com a indecifrável criatura, num encontro que marcará o conflito final com os líderes de Aldebaran e trará consequências radicais para cada um dos participantes. Esses fatos marcam o desfecho do primeiro ciclo da história.

O grande mérito de LEO é não economizar na criatividade. Sim, os mundos de Aldebaran são bastante semelhantes à Terra, mas quando o autor decide mostrar a fauna e a vegetação alienígenas, a imaginação viaja longe. Os seres dos outros planetas parecem estranhos não por sua aparência, mas pela autenticidade que parecem transmitir. Assim, pode-se dizer que seriam espécies menos extra-terrestres que comuns, talvez até menos ficcionais que reais. Quem pode dizer em que formas evoluiriam os animais de nosso planeta diante de outras necessidades de adaptação? Talvez essa seja a explicação para a sensação de familiaridade/estranhamento com as criaturas de Aldebaran: perceber que elas poderiam estar aqui em nosso plano de existência, não fossem os desígnios secretos da natureza.

Os cenários também são de tirar o fôlego. Partindo de soluções aparentemente simples, LEO cria uma ambientação inovadora, que inclui despenhadeiros verdejantes no deserto, oceanos gelatinosos e pântanos habitados por seres terríveis. O senso de composição nunca parece exagerado ou inverossímil. É uma realidade coesa e espontânea, que independe de quaisquer outros universos exteriores, como o nosso.

Quanto às ilustrações, LEO revela-se um desenhista apenas regular, que carece de estilo e marcas pessoais. Entretanto, essa deficiência é compensada por sua grande habilidade em criar seres únicos, que poderiam habitar paraísos ou pesadelos. Sua originalidade é decorrente da capacidade de produzir figuras pouco convencionais, como gorilas aquáticos, répteis humanoides e vegetais flutuantes, muitas vezes revestidos por cores inesperadas, o que confere um clima bastante lisérgico ao universo criado. Seu domínio da figura humana é inquestionável, como comprovam as inúmeras cenas de sexo que permeiam a trama.

Um dos pontos altos da narrativa são as pitadas de suspense habilmente despejadas. Aos poucos os leitores vão depositando maior confiança no autor, já que ele entrega o que dele se espera. As migalhas de mistérios são gradualmente solucionadas e prontamente substituídas por outras, para que nosso apetite não seja saciado. Aqui não há espaço para embromações ou cenas desnecessárias. A história já está pronta, bastando degustá-la. Não há o temor de que surgirão soluções previsíveis ou meros tapa buracos. O autor tem algo a contar e vai fazê-lo a seu modo, porque está seguro da qualidade do enredo. Isso não quer dizer que a história não se permita surpresas ou reviravoltas, pelo contrário. O inesperado está ali, na esquina, pronto para derrubar nossas convicções. 

Com 18 álbuns já lançados no mercado franco-belga, pela Editora Dargaud, Aldebaran teve 10 histórias publicadas em 5 edições duplas no Brasil pela Panini, entre 2006 e 2007. Se puder, não hesite em mergulhar nessa dainbaía de hâmbrios. Serão águas não navegadas, mas insolitamente conhecidas.

A iniciativa ENQUADRINHOS

Novidade nos bancos de poeira do planalto central! Eu já venho dizendo que algo acontece na química que constrói os quadrinistas do Distrito Federal. Por aqui, paredes dos túneis das tesourinhas e passarelas por debaixo do eixão são encantadas e coloridas por pôsteres, lambe-lambes, ilustrações, grafites e stencil com poesia vagabunda. Bem ou mal, a linguagem gráfica ganha cada vez mais adeptos e os quadrinhos, enquanto forma de comunicação mais versátil e modelável do séc. 21, se inscrevem como mais uma forma de identidade da nossa jovem capital.

Pois eis que uma inciativa do grupo GIBI (que meigo), integrado por estudantes de pós-graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (incluindo o professor Lima Neto, membro da RAIO LASER), formalizou a criação de um evento que dá um passo além tanto na formulação teórica e científica quanto na criação artística em quadrinhos no território brasileiro. Trata-se do ENQUADRINHOS - 1° ENCONTRO DE QUADRINHOS DE BRASÍLIA (16 a 18 de setembro de 2015). Diferentemente de outros eventos semelhantes que também ajudam a consolidar o estudo dos quadrinhos como campo acadêmico, o Enquadrinhos, despojado, vai se focar em um formato mais breve (o pôster) e apostar no mérito de dar oportunidades iguais de apresentação tanto para o pesquisador quanto para o artista: existem as modalidades de inscrição "acadêmica" e "artística". 

Além dos trabalhos, divididos em quatro abrangentes eixos temáticos, o Encontro contará com quatro pauladas em forma de palestras, realizadas por gente de calibre tanto em produção acadêmica, quanto em editoração, quanto em realização artística: Paulo Ramos, Edgar Silveira Franco, Henrique Magalhães e Rafael Coutinho. Tudo isso ajuda a se pensar uma confluência dialógica entre artistas, pesquisadores e editores, elaborando a única sinergia possível para a continuidade e ampliação do movimento vibrante que ocorre com os quadrinhos no Brasil atualmente, mas que corre (sempre) o risco de morrer na praia graças à marginalização que o meio sofreu em todas as suas áreas de atuação desde... bem, desde sempre.

É hora de consolidar o grande momento dos quadrinhos no Brasil. Não apenas com uma morosa institucionalização e legitimação técnica e intelectual, mas sim com pensamento vigoroso, transformador, capaz de entender e modelar os processos que este meio de comunicação e arte move na sociedade. E isso não é possível sem que mercado, academia e os próprios artistas pensem conjuntamente. É o que o Encontro está propondo. Artista ou pesquisador, vai lá e se inscreve sem medo! É até 13 de julho. (CIM)

NORMAS PARA ELABORAÇÃO DE POSTER

1 – O EnQuadrinhos receberá resumos de trabalhos acadêmicos e projetos de produção em quadrinhos de inscritos ligados ao ensino superior. Os resumos aprovados serão transformados em posters para exibição durante o evento e se dividirão em duas categorias: Poster acadêmico e pôster artístico.

2 - Para que o pôster proposto aprovado seja apresentado é obrigatória a inscrição formal do autor, ou um dos co-autores no site do evento: www.enquadrinhos.net.br

3 - Cada poster poderá ter 01(um) autor principal e até 02 (dois) co-autores;

4 - Os resumos aprovados deverão ser adaptados para o formato de pôster e enviados para confecção até a data prevista (conferir nos informativos do site). O pôster impresso deve ser apresentado ao público por, no mínimo, um de seus responsáveis em um horário pré-determinado para apreciação geral e avaliação por parte da comissão científica;

5 - É obrigatório que o autor responsável pela inscrição forneça os seguintes dados: Título do Trabalho e nome de todos os autores com seus respectivos vínculos institucionais. Importante - Esses dados serão utilizados para confecção do certificado. O preenchimento incorreto é de inteira responsabilidade dos autores, e não implicará em troca de certificados posteriormente;

6- Prazo para sumissão de resumos: impreterivelmente até dia …, através do site www.enquadrinhos.net.br;

7 - Os posters devem obedecer as medidas de 120cm de altura e 80cm de largura, ou seja, obedecendo a orientação de retrato. Deverão estar expostos com clareza no poster: título, autores e instituição de origem na parte superior com o logotipo da respectiva instituição;

8 – O arquivo digital do pôster deve ser enviado no formato PDF atentando para o gerenciamento das cores em CMYK (cores para impressão);

9 - Abaixo do título e da identificação deve constar, em letra de tamanho inferior à utilizada no texto, a forma de contato com os autores;

10 - A área de apresentação deve conter as informações referentes aos objetivos da pesquisa, processo metodológico, corpo da pesquisa, discussão e referências bibliográficas (no caso de poster científico);

11- Deverá ser reservado 15 cm de altura na parte inferior do poster onde será colocada a identificação do Encontro (logotipo do encontro e das agências de fomento participantes assim como os apoiadores privados);

12 - Cada trabalho exposto receberá um certificado.

13 - Os certificados estarão disponíveis no site do evento em data que ainda será determinada.

Teia de aranha em quadrinhos

por Ciro I. Marcondes*

Uma casa de madeira junto a um farol na praia. Um homem tremendo, em aparente estado de intensa angústia e sofrimento, espera na porta. Uma bela mulher nua o observa da janela. O homem fuma, cospe sangue, o mar bravio se agita. Ele segue neste estado tremeluzente, elétrico, impassível. Um carro sai pela enseada. Uma história de pesadelo tem início. Quem são este homem e esta mulher? O que significam estas cenas? A que tipo de interioridade se conectam? De que inconsciente óptico fazem parte?

Estas imagens fazem parte do começo de Torpor, que o pernambucano Mateus Acioli lançou em 2014 pelo selo Narval para a coleção “Franca”, que é uma espécie de carta branca para os quadrinistas mais talentosos desta geração independente expressarem sua intimidade artística, suas ideias mais livres e radicais. São imagens que anunciam um submundo onírico e oblíquo, de difícil penetração, mas de acesso livre a um fluxo de impressões fortes, revisitando os universos selvagens do sexo e do torpor da vida e da morte. Trata-se de uma história silenciosa e carregada de uma iconografia que varia entre a psicanálise e o ocultismo, sempre com uma ação desconfortável na mente.

A primeira impressão que temos ao nos depararmos com os quadrinhos de Acioly é a de um certo desdém. O nosso, pela frouxidão da narrativa, pelas lacunares arestas abertas, que parecem, de início, um recurso fácil; e o dele, pelo “desleixo” no desenho, bastante simples, minimalista, onde até o traçado dos requadros é tremido e irregular. Avançando em leituras e releituras desta obra cíclica e infernal, percebemos, porém, que esta impressão é um erro. É como acontece com outros quadrinistas de estilo elementar, como Rafael Coutinho ou o francês Johann Sfar: estes quadrinhos estão em função de um olho arquetípico. Não são nem narração, nem documento e nem poesia, mas são todos ao mesmo tempo.

A escolha por uma obra quase inteiramente silenciosa não é por acaso. A jornada de um homem em direção ao segredo do seu desejo e, por fim, à experiência da morte, necessita de um arrojo que as palavras não comportam – a não ser que estejam em estado de poesia, quando aparecem aqui –, e a imagem crua e selvagem, sem referente, aparece como uma solução. Ela liga o torpor febril do protagonista à linguagem do sonho, e a associação livre, por meio da metamorfose destas imagens, se mescla a uma grande variedade de propostas para as páginas e os quadros. O resultado é um mapa de signos de morte e desejo que se apropriam do homem em seu estado limítrofe. Imagens da natureza se mesclam a estes signos para trazer também um sentido fugidio, profano e espectral para a figura feminina, não muito longe do que Lars Von Trier fez em Anticristo.

Através de uma rica cena da experiência de quase-morte, potente como uma martelada, somos definitivamente abatidos por esta história em quadrinhos sintética e intensa. Ela enfim nos domina com seu impressionismo cheio de sinestesias, e qualquer desconfiança inicial se dissipa. As imagens finais (um sino rachado, uma caveira com pinos, um salto feminino), o que significam? Mais do que elaborar um discurso para os personagens, elas cumprem bem a função de hipnotizar e deixar em estado de torpor também o leitor. Em transe, automaticamente recapitulamos os signos do início, reabrimos a revista, voltamos reiteradamente a este entrelugar que a obra nos coloca. Um triunfo milimetricamente calculado, uma teia de aranha em quadrinhos paranoicos. Sejamos vítimas dela. 

*Publicado originalmente no jornal Suplemento

Nº 03