Esta história é contada, com magnífica sensibilidade documental e artística, pelo proeminente Paco Roca, talvez o grande quadrinista espanhol da atualidade. Roca já havia surpreendido com o multipremiado romance gráfico Arrugas, de 2007, que gerou uma animação candidata ao Oscar, desenhando intrigante retrato do Mal de Alzheimer, e volta-se para a metalinguagem em El invierno del dibujante (O inverno do desenhista) para narrar, de forma quase aleatória, sem sequencia causal, sem marcadores tradicionais como letreiros e narradores, em um embelezado padrão de cores mornas, a aventura e posterior derrocada destes quadrinistas, incapazes de manter viva a revista Tío vivo (a publicação independente) graças a uma prática, bastante brutal, de phising (espécie de chantagem mercadológica) feita pela Brughera junto às distribuidoras da Espanha para que a nova revista nunca chegasse às bancas. Roca desenha seus mestres com forte detalhismo documental, preocupando-se com o que vestem, o que comem, para que time torcem, o que fumam (uns fumam charutos, outros, cigarros, outros, cachimbos, mas todos fumam), além de trazer nuances, em cenas bastante isoladas, que parecem “pescadas” do mundo real, a respeito do perfil psicológico de cada um, enchendo a história com pequenos easter eggs para o conhecedor da HQ europeia. A história é contada em 8 capítulos, entre 1957 e 1958, cada um representando uma estação do ano, e, cada estação, em uma cor diferente para as páginas, além de um amargo epílogo, no outono de 1979. A edição da Astiberri é bastante luxuosa, com textos complementares e a mais absoluta deferência prestada a esta viagem de volta à Barcelona dos anos 1950.
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?