TOP 50 LEITURAS DA RAIO LASER EM 2020 - PARTE 2

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por Bruno Porto, Ciro Inácio Marcondes, Marcos Maciel de Almeida, Márcio Jr. e Pedro Brandt

Semana passada soltamos as resenhas para a primeira parte das nossas 50 melhores leituras do estrambótico ano de 2020 (considerando toda a equipe Raio e leituras publicadas em todos os tempos). Agora, terminamos a lista de quadrinhos mais charmosa da internet com os 25 derradeiros títulos. Tem lançamentos, quadrinho brasileiro, mangá, tebeo, BD, comics, indie, graphic novels – grande diversidade para provar que não ficamos ao léu e à toa no ano da pandemia (apesar de termos ficado!). (CIM)

A LISTA:

Ayako - Osamu Tezuka (Veneta, 2018): Já ouvi dizer que o mercado de quadrinhos no Japão, sozinho, é maior que o do resto do mundo somado. Inclusive gosto de repetir isso por aí, mesmo sem checar a informação. Pode ser que a estatística não seja exatamente essa, mas com certeza não é muito diferente. Sabendo que Osamu Tezuka é o deus maior desse mercado gigantesco, e Ayako uma de suas obras máximas, fica difícil não incluí-lo na lista de melhores quadrinhos lidos no ano. E na vida. Mais AQUI. (MJR)

Heimat: Ponderações de uma Alemã Sobre sua Terra e História - Nora Krug (Quadrinhos na Cia, 2019): Pensando no que ocorre atualmente, com o recrudescimento do fascismo e a crescente popularização de uma ideologia supremacista branca nos rincões da internet, cabe a pergunta: quem são os Eichmanns de hoje? Quem são o tecnocrata e o cidadão comum que autorizam e dão corpo popular ao pensamento totalitário e ao autoritarismo? O livro Heimat, da alemã Nora Krug, não fala especificamente sobre isso, mas nos traz poderosos insights ao reconstruir a história de um avô, um tio-avô e um tio que estiveram envolvidos, direta ou indiretamente, com o nazismo durante a Segunda Guerra. Este trabalho é o que eu chamaria, adaptando um conceito de Rosalind Krauss, de “quadrinhos expandidos”, pois reúne diversos tipos de registros (através de um procedimento memorialístico-investigativo), cartas, fotografias, documentos antigos, objetos – e parte da ficcionalização da narrativa ocorre em quadrinhos. Um trabalho minucioso, original e fortemente imersivo.

Radicada nos EUA há muitos anos, Krug entrega uma obra profundamente confessional, que conta a história da pequena cidade alemã de Karlsruhe. O desafio é buscar sentido para as noções de identidade e ancestralidade (a tal “heimat”) a partir dos conflitos morais que acometem todo cidadão alemão de hoje em dia. Trata-se de um doloroso, mas inescapável acerto de contas com o passado individual da autora e também com o ethos de seu povo. Que os alemães, após passarem pela traumatizante experiência do nazismo, sejam hoje um povo libertário (ainda que com chagas abertas), é um indicativo de esperança para que o pensamento autoritário possa também ser varrido de países como Brasil e EUA. Mais AQUI. (CIM)    

Akira nº 1 a 38 - Katsuhiro Otomo (Globo, 1990-1998): Após décadas de ausência no mercado editorial brasileiro, Akira reencontra os leitores em seis impecáveis edições da JBC. Mas o Akira da minha geração é esse, espalhado em 38 gibis da Editora Globo, adaptado do mercado norte-americano, com sentido ocidental de leitura e cores do pioneiro Steve Oliff. Finalmente devorei a epopeica saga de Tetsuo, Kay e Kaneda. Para além da ação cinemática e do desbunde gráfico proporcionado por Otomo – com evidente influência do quadrinho sci-fi europeu de Moebius e Druillet –, Akira se desvela uma obra feminista, uma crítica ao militarismo masculino e um tratado sobre o caráter infantil do poder. Um monumento dos quadrinhos mundiais. (MJR)

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Das Kabinett des Wunder: Skurril-Surreale Storys von Gustavo Duarte - Gustavo Duarte (Panini, 2020): Ainda inédita no Brasil, a bem cuidada antologia editada pela sucursal alemã da Panini reúne dez histórias curtas produzidas durante a última década por Gustavo Duarte mesclando uma eficiente economia de palavras com seu elegante traço hirschfeldiano. Nove HQs foram originalmente publicadas no Brasil e no exterior principalmente em revistas - como a edição de estreia da Fierro Brasil (2011) e a Dark Horse Presents #7 (2015) - e livros - como Esta é a Verdadeira História do Brasil, de Millôr Fernandes (Cia das Letras, 2014) e Little Nemo: Dream Another Dream (Locust Moon Press, 2014) - mas há também histórias de uma página feitas para exposições apresentadas em eventos como o FIQ 2009, em Belo Horizonte, e o H.P. Lovecraft Film Festival 2019, em Portland. Estas últimas demonstram com muita propriedade o poder de síntese do cartunista, que subverte clichês universais com a mesma inspiração que insere easter eggs do mais profundo imaginário brasileiro. O livro fecha com "Bauruzilla”, HQ inédita de 14 páginas estrelada pelo recorrente Pinaud, personagem de sua graphic novel Monstros! (Quadrinhos na Cia., 2012). (BP)

Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias – Jefferson Costa (Pipoca e Nanquim, 2019): Quando penso que o livro Primeiras Estórias de Guimarães Rosa foi publicado quase 20 anos após sua obra de estreia (Sagarana), me pergunto o que levou o famoso escritor mineiro a cunhar o livro assim. Talvez reconhecesse que aqueles contos eram primevos, primordiais. É o mesmo que pergunto agora com esta ótima estreia (escrevendo e ilustrando sozinho) de Jefferson Costa em romances gráficos, que busca alinhavar, numa narrativa barroca e enveredada, várias estórias que remetem às linhagens de seus avós maternos e paternos, em diferentes regiões do Nordeste.

Jefferson ilustra como se encravasse xilogravuras, mas o efeito provocado, ao invés de rústico, é de beleza e encantamento. Realismo, estilização e caricaturização são todos procedimentos que ele domina e são distribuídos na obra, juntamente com cores que alternam paletas quentes e frias, servindo para alternar as emoções e diversos eventos vividos pelas dezenas de personagens. Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias pode até parecer confuso, pois não se responsabiliza em dar a mão ao leitor e conduzi-lo de maneira pedagógica ao cerne das histórias, mas tampouco foi assim o cinema de Fellini ou a literatura do próprio Rosa. Por trás do barroquismo narrativo e das enoveladas histórias, surge um sentido maior que é a luta e a superação de adversidades humanas (aspectos primevos, primordiais), leitmotiv que faz deste quadrinho algo sofisticado literariamente, e um dos melhores do ano. Mais AQUI. (CIM)

Vostradeis - Fernando Gonsales (Devir, 2012): Há quem diga que não seria Níquel Náusea a grande criação do cartunista Fernando Gonsales, mas Vostradeis, o mago, o mito, o picareta. E depois de ler essa compilação de histórias do personagem – sorry Níquel!—, difícil não acreditar em tal afirmação. Fazer graça do óbvio e encontrar o que de cômico ou absurdo reside em praticamente tudo sempre foi o forte de Fernando Gonsales. Se o mundo animal e suas imbricações com acontecimentos e comportamentos do mundo dos homens dá a tônica na tirinhas do camundongo azulado, a matéria-prima em Vostradeis é a humanidade em sua aparente infinita ignorância – ainda que estejamos falando de HQs passadas em algum momento da Idade Média. O protagonista é um mago charlatão que engana as pessoas não por simples maldade, mas porque, em sua soberba, quem o contrata está também querendo passar a perna em outra pessoa. Publicadas originalmente em preto e branco nas diferentes versões da revista Níquel Náusea, essas HQs ganharam cores (a cargo de Marília de Lascio) para esta edição definitiva do personagem, que conta ainda com capa dura e papel couché. O mínimo em se tratando de uma obra-prima do humor em quadrinhos brasileiro. Para os fãs de Gonsales, uma oportunidade de conhecer ou reler suas histórias no formato de HQs com várias páginas, não apenas em tiras de poucos quadros. (PB)

Este Não é um Lugar Seguro – Guilherme Silveira (Selo Reverso, 2019): Um projeto gráfico e editorial arrojado, espécie de sanfona em quadrinhos que expressa todo tipo de afeto presente no humano e na natureza por meio de sequências puramente não-figurativas, Este Não é um Lugar Seguro, do pesquisador e artista experimental Guilherme Silveira, é desde já um marco nos quadrinhos abstratos brasileiros. Mais AQUI. (CIM)

Barrera – Brian K. Vaughan e Marcos Martín (Gigamesh, 2019): O encontro entre um imigrante hondurenho (Óscar) e uma garota texana durona (Liddy) os levará a uma viagem interplanetária em que a tolerância mútua será fundamental para a sobrevivência. Essa é a premissa de Barrera, gibi originalmente lançado no site do Panel Syndicate, onde é possível fazer download de gibis pagando somente o valor que o leitor acha justo. Esta caprichada edição da editora espanhola Gigamesh coleciona, no formato horizontal, os cinco capítulos deste belo conto sobre as diversas barreiras – físicas e abstratas – que afastam as pessoas. Ricamente ilustrado e colorido, este poema de ficção científica sobre encontros e desencontros tem diálogos escritos às vezes em inglês e outras em espanhol. E a sugestão do escritor Brian K. Vaughan é que o leitor não se utilize de tradução, ainda que não compreenda nenhum dos idiomas. A ideia é transformar a leitura numa experiência catártica em busca da compreensão do outro tendo por base apenas a linguagem dos quadrinhos. O autor espera que o poder desta última seja capaz de passar a mensagem sem depender da palavra. E qual o resultado do teste? Só lendo para saber. (MMA)

The Umbrella Academy: Hotel Oblivion - Gerard Way e Gabriel Bá (Dark Horse, 2018- 2019): As sete edições de The Umbrella Academy que compõem o arco “Hotel Oblivion” começaram a ser publicadas quase uma década depois do último arco do título, “Dallas” (2008-2009), que por sua vez veio na sequência da aclamada estreia “Apocalypse Suite” (2007-2008). Este intervalo fez muito bem a seus autores, firmando-os na indústria dos quadrinhos e permitindo que desenvolvessem, separadamente, trabalhos com características análogas às aventuras da disfuncional família de heróis: o roteirista Gerard Way trabalhou tanto para a DC (onde capitaneou o selo Young Animal de personagens excêntricos como Patrulha do Destino e Shade The Changing Girl, entre outros) como para a Marvel (criando Peni Parker, uma das versões alternativas de Peter Parker que participaria do oscarizado Homem-Aranha no Aranhaverso), enquanto o desenhista Gabriel Bá, em parceria com o gêmeo Fábio Moon, amealhou elogios e prêmios da crítica mundial por trabalhos como Daytripper (2011) e Dois Irmãos (2016), além de trabalharem em cima de roteiros de Neil Gaiman (Como falar com garotas em festas, 2016) e Matt Fraction (Casanova, 2006-2017).

É com este reforço na bagagem de dramas familiares, viagens interdimensionais e personagens bizarros baseados em arquétipos super-heróicos que esta terceira aventura de The Umbrella Academy expande o universo concebido por Way e Bá. Embora os dois primeiros arcos sejam primorosos, “Hotel Oblivion” acrescenta uma polpuda e extensa camada de mistério na narrativa, sem modificar o tom sci-freak, a bem estabelecida dinâmica entre os personagens, ou a identidade visual da série que funcionaram tão bem (a ponto da série conquistar o prêmio Eisner de Best Limited Series de 2008 e uma bem sucedida adaptação na Netflix). Destaque especial para a belíssima série de variant covers, pintadas digitalmente em duotone por Bá, enigmaticamente retratando personagens secundários que surgem no decorrer desta aventura. (BP)

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Surfista Prateado, Vol. 1 a 5 - Dan Slott e Mike & Laura Allred (Panini, 2019 – 2020): Nem tudo está perdido no dispensável universo dos super-heróis. Dan Slott e Mike Allred entregaram o melhor gibi do gênero que li nos últimos tempos – justamente porque se assume como tal. O Surfista da dupla é um oásis longe da pseudo-maturidade/seriedade que tanto encanta os infelizes nerds quarentões. Tampouco cai na cilada de ser um gibi indie no meio de personagens mascarados, com o propósito único de legitimar artisticamente uma baleada indústria mainstream. As aventuras de Norrin Rad e Dawn Greenwood são solares, imaginativas e divertidas. A que homenageia Jean Giraud/Moebius então, está entre as mais criativas e inovadoras feitas no meio. Tudo isso sem um lampejo de pretensão. O legítimo picolé de limão numa tarde ensolarada. (MJR)

Jeanine - Matthias Picard (Veneta, 2019): Autor e também personagem na HQ, Matthias Picard apresenta em Jeanine diversas passagens da vida de sua vizinha, uma prostituta de 64 anos. Suas anedotas vão da prática desportiva até o ativismo político, com passagens pela prisão, algumas mortes e também amores. Falastrona e carismática, Jeanine é uma figura interessantíssima, muito consciente do que faz e dona de histórias de vida por vezes tão pitorescas que parecem ficção, de maneira que essa bande dessinée vai muito além de relatar as vivências de uma profissional do sexo da terceira idade. Sua história, como ela mesmo diz, é comovente. Com uma arte um tanto borrada e encharcada de vitalidade, Matthias Picard construiu as páginas da HQ de maneira concisa e eficiente, com uma ótima noção de tempo narrativo. Jeanine é a primeira obra de Picard publicada no Brasil e tomara que não seja a última. (PB)

La Noche - Philippe Druillet (Eurocomic, 1982): Com a belíssima edição de Lone Sloane, a editora Pipoca & Nanquim corrigiu um erro histórico ao dar fim à inaceitável ausência de Philippe Druillet do mercado editorial brasileiro. Golaço. De qualquer forma, meu contato mais intenso com o tresloucado francês em 2020 foi La Noche, edição espanhola da seminal La Nuit, publicada originalmente em 1976. Estão lá os incomensuráveis cenários lovecraftianos, a obsessão pelos detalhes, a virulência das cores, o desdém pela linearidade narrativa e alguns dos designs de página mais arrebatadores da história dos quadrinhos. Mas a marca essencial de La Noche é outra: Druillet transpôs para a BD – de forma enviesada e nada literal – a dor da precoce perda de sua esposa Nicole para o câncer, transformando a leitura do álbum num delírio exasperante. (MJR)

Era a Guerra de Trincheiras - Tardi (Nemo, 2011): O grande Jacques Tardi se debruçou, a partir dos relatos de seu avô e de historiadores, em memórias para reconstituir em quadrinhos as especificidades do front na Primeira Guerra Mundial, um trabalho que durou muito, entre os anos 1980 e 1990. Ele usa seu estilo elástico e semi-caricatural para ilustrar histórias quase aleatórias do verdadeiro inferno que era lutar nas trincheiras, dando dimensão épica e expressiva, mas ao mesmo tempo lúgubre e paralisante. O resultado é um álbum muito doloroso, que nos leva ao limiar da crueldade humana, e certamente uma das maiores obra-primas dos quadrinhos. Mais AQUI. (CIM)

O Ateneu/Luzes de Niterói – Marcello Quintanilha (Ática, 2012/Veneta, 2019)  : Marcello Quintanilha raramente deixa a peteca cair. E as duas leituras aqui selecionadas mostram porque o niteroiense continua a ser considerado um dos maiores representantes do moderno quadrinho brasileiro. Em O Ateneu, brilha ao retratar a realidade massacrante de Sergio, estudante novato num internato só para garotos. Quem já conhecia o livro certamente vai apreciar a versão quadrinizada, que oferece interpretação envolvente para os acontecimentos deste clássico da língua portuguesa. E o que dizer – se é que existe algo que ainda não foi dito – de Luzes de Niterói, mais recente trabalho de fôlego do quadrinista? Jogando dentro do seu elemento favorito – o Rio de Janeiro dos anos de 1950 – Quintão nada de braçada ao nos brindar com um belo conto biográfico sobre amizade, juventude e resiliência. A sequência de quase afogamento do protagonista Hélcio (pai de Quintanilha) é um dos momentos mais memoráveis da HQ brasileira dos últimos tempos. Mestre do efeito catártico, o autor transforma essa cena num momento literal e metaforicamente asfixiante, um pesadelo doloroso, real e inesquecível. Seja ao adaptar a obra mais famosa de Raul Pompeia, mantendo o texto original intacto, ou colocando mais um tijolo na parede de sua já consistente obra, Quintanilha segue emocionando com seu traço afiado e capacidade narrativa sofisticada. (MMA)

Todo Wood & Stock - Angeli (Quadrinhos na Cia., 2020): Mais do que um exercício sobre o conflito de gerações e o envelhecer, as tiras de Wood & Stock são uma grande tiração de sarro com a geração que viveu sexo, drogas e rock’n’roll entre o final dos anos 1960 e a década de 1970, tirando todo o suco de clichês e estereótipos, resultando em um humor que, mesmo com o distanciamento do tempo – o material foi publicado originalmente entre as décadas de 1980 e o começo dos anos 2000 –, continua afiado e divertidíssimo. E, para além do texto, apreciar uma coletânea com algo da produção de Angeli é sempre um deleite visual. Entre tiras em preto e branco e coloridas, em Todo Wood & Stock temos também um série de pin-ups, capas de revistas e rascunhos. Mas se Angeli dispensa apresentações, e acredito que o mesmo pode ser dito de seus personagens mais populares, caso da dupla protagonista em Todo Wood & Stock, minha queixa em relação a este compilado de luxo, com capa dura, papel e impressão de alta qualidade (afinal, Quadrinhos na Cia.) é em relação à ausência de um texto contextualizando a existência editorial desses velhos roqueiros. Volto a repetir, Angeli e seu trabalho não carecem de apresentações. Entretanto, penso que a edição em questão se tornará a definitiva dos personagens, de maneira que, a posteriori, para as futuras gerações, algum texto nesse sentido seria de alguma utilidade. Independente disso, trata-se uma lombada de respeito, para ter na coleção. (PB)

Dois Irmãos – Fábio Moon e Gabriel Bá (Cia das Letras, 2015): Esta HQ premiada com o Eisner de melhor adaptação para outro meio em 2016 é baseada na publicação homônima de Milton Hatoum, que conta o conflito de dois irmãos gêmeos na Manaus dos anos de 1950. Yaqub e Omar têm ascendência libanesa e várias questões mal resolvidas. Disputas da adolescência deixaram marcas para a vida adulta que jamais serão esquecidas. E toda a família será tragada pela rivalidade que oporá os arquétipos de caos (Omar) e ordem (Yaqub). Tudo isso magistralmente ilustrado por outra dupla de gêmeos que, ao contrário dos personagens do gibi, funciona em plena harmonia, com um traço simultaneamente simples e rebuscado. Anti-climática, a obra não foca na resolução do confronto fraternal, mas em mostrar as consequências de ausência e vazio nas relações familiares. E o preguiçoso ritmo da narrativa original ficou mais palatável na HQ, graças aos incríveis desenhos, impregnados de contemplação e – sobretudo – autoralidade.  Sei que comparar gibi e literatura é quase um sacrilégio, mas ouso dizer que a HQ supera o livro. (MMA)

Crying Freeman - Kazuo Koike e Ryoichi Ikegami (Panini, 2006): Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, os mangás não abarrotavam as bancas brasileiras e os poucos que chegavam por aqui ganhavam, não sem razão, certo ar mítico. Um dos títulos dessa “era heróica” é justamente Crying Freeman, lançado no Brasil em 1990 como minissérie em quatro partes (reunidas depois em dois almanaques) pela editora Nova Sampa com a história do assassino tatuado que derrama lágrimas ao executar suas vítimas. Entre 2006 e 2007, a Panini relançou a série em 10 números. E foi o número 1 que encontrei quase casualmente em uma promoção em uma livraria de usados. Sua leitura foi não apenas uma volta ao passado (meu, no caso), mas o despertar de lembranças dessa mesma leitura em tempos mais imberbes. O impacto de antes foi revivido e intensificado décadas depois. Não é para menos. Kazuo Koike costura um enredo de ação, violência, sensualidade e certo mistério que urge pela leitura da continuação. Aqui, o talento do roteirista – autor também de Lobo Solitário – é acompanhado por outro gigante dos mangás, Ryoichi Ikegami, cuja narrativa cinematográfica joga o leitor direto na cena de ação. A combinação dessas duas forças rende uma leitura bastante fluida, mas tensa, na qual uma sensação de desconforto e tragédia iminente parece estar sempre presente. (PB)

A Casa – Paco Roca (Astiberrí Ediciones, 2015): O valenciano Paco Roca tem revelado grande habilidade em contar, de forma sutil, belas histórias no formato slices of life, ou seja, retratos da vida que poderiam pertencer a qualquer pessoa. Em A Casa, isso não é diferente. Com elegância e sensibilidade acima da média, Roca entrega relato mezzo autobiográfico mezzo ficcional sobre o destino de uma casa deixada pelo pai para três irmãos. E o retorno de cada um deles a este templo familiar traz à tona memórias de momentos marcantes para suas formações infantil e adulta. Com personalidades bastante distintas entre si, os herdeiros deverão superar suas desavenças para reformar o local, no intuito de colocá-lo à venda. O problema é que se fizerem isso poderão estar se desfazendo de parte importante de sua própria identidade. Subjacente à narrativa pujante, que abre mão de recordatórios para marcar a passagem do tempo, temos a gradual revelação do mistério acerca do motivo pelo qual o patriarca perdera o entusiasmo pela vida. A paleta de cores – eminentemente básica e chapada – é um capítulo à parte. Os tons escolhidos pelo autor temperam a saudade de lembranças ainda muito presentes. Numa narrativa tocante e dolorosa, Roca nos faz lembrar que ainda somos humanos, apesar do embrutecimento diário a que estamos submetidos. Reza a lenda que o gibi sairá no Brasil pela Devir em 2021. Seria mais um ótimo lançamento da editora paulistana, que já publicou o igualmente incrível Rugas, pelo mesmo autor, em 2017. (MMA)

¡Universo! – Albert Monteys (Astiberri Ediciones, 2018): Um sujeito que volta no tempo para colocar a marca de uma corporação nas partículas do universo pós Big Bang. A viagem de uma tripulação rumo ao “first contact”. Um lote defeituoso de robôs-acompanhantes que começa a assassinar os “conjes”. Estes são alguns dos contos – originalmente publicados no formato digital – que compõem essa antologia belamente ilustrada pelo espanhol Albert Monteys. Sempre em tom sarcástico, o autor desfila um caleidoscópio de referências pop sci-fi do cinema e da literatura. Não por acaso, a obra já alcançou tiragem de mais de 9 mil cópias no país ibérico, número que, no atual mercado quadrinístico, parece milagroso. Eis uma publicação prontinha para sair no Brasil por alguma editora que queira lançar gibi com grande apelo comercial e humor inteligente. Vai vender mais que pão quente. (MMA)

Sarvan - Jordi Bernet e Antonio Segura (L&PM, 1991): Subverter o que poderia ser banal é uma arte, infelizmente, para poucos. O roteirista valenciano Antonio Segura, felizmente, é conhecido por isso. No enredo de Sarvan constam boas doses de ficção científica, espada e feitiçaria e ainda romance: num mundo selvagem em reconstrução, Sarvan é uma nobre guerreira defendendo seu povo de ameaças místicas ao mesmo tempo em que vive o dilema de ter se apaixonado por um forasteiro. Até aqui, nada muito novo. A graça está no equilíbrio dos ingredientes, dando para o leitor um enredo familiar, mas não apenas isso. O grande trunfo, talvez, esteja na arte do sensacional Jordi Bernet. É ele, com sua narrativa ágil e desenhos de um realismo cartunesco e de grande personalidade, que prende o leitor e os joga nas tramas traçadas por Segura. Quadrinho de aventura de primeira, Sarvan, é daquelas obras que na última página já almejamos pela continuação. (PB)

Ranxerox – Stefano Tamburini, Tanino Liberatore e outros (Conrad, 2010): Desde sua publicação nas páginas da revista Animal, Ranxerox já havia se tornado um dos personagens favoritos do público brasileiro. E a publicação desta simpática edição da editora Conrad com todas as histórias do robô boy-toy brindou todos os leitores que por anos amargaram esperar a conclusão da série. Toda a expectativa não veio de graça, afinal o gibi – que se passa num futuro distópico em que as crianças se tornaram adultas cedo demais – respirava transgressão e altas doses de sexo. Outro fator de atração era a metralhadora giratória de Tamburini, que não poupava ninguém: hedonistas, junkies, autoridades e religiosos também eram vistos como parte do problema. Parido durante o turbulento final dos anos 70 na Itália, Ranxerox retrata a urgência dos tempos modernos num verdadeiro teatro do absurdo no qual personagens surgem e desaparecem de forma caótica. Odeio clichês, mas esse é incontornável: leitura obrigatória para qualquer fã de HQs que se preze. (MMA)

JTHM: Director’s Cut – Jhonen Vasquez (Slave Labor Graphics, 1997): Controverso, o californiano Jhonen Vasquez é um dos mais subestimados quadrinistas do panorama independente americano. Ele ganhou certa notoriedade no início dos anos 2000 quando seu desenho animado Invasor Zim – uma preciosidade do humor negro que expõe uma visão tenebrosa da infância e da escola, tudo misturado com alienígenas e tecnologia obscura – sofreu diversos tipos de censura do canal Nickelodeon. Durou apenas duas temporadas, mas deixou um legado trevoso e hilário! Sua carreira como quadrinista precede a de animador, e JTHM, ou melhor, Johnny the Homicidal Maniac, reunido aqui completo num “director’s cut”, dá a pista para o universo alucinado e demente de Invasor Zim.

Personagem que acompanha o autor desde a sua adolescência, Johnny C., um psicopata, é, de certa maneira, “humanizado” aqui quando seus conflitos, sua visão sobre a vida e a morte, sobre deus e o diabo, são contrastados com seus crimes brutais. Trata-se de uma HQ caótica e até certo ponto ilegível. Vasquez escreve inclusive recordatórios minúsculos dentro da sarjeta e procura atrapalhar o leitor o máximo possível. Ele desenha sem sombreamento (ou então somente nas sombras, uma coisa meio caligaresca), num nanquim chapado, com uma multiplicidade de detalhes que vão escorrendo das páginas, já vazadas em vários processos metalinguísticos. Além disso, seus personagens lunáticos de olhos grandes são meio que marcas registradas, algo que ocorre também em Zim e no spin-off Squee. Um quadrinho para obsessivo-compulsivos, insones, sonâmbulos, hipnofóbicos e até sociopatas. Mais AQUI. (CIM)   

Bloody Perks - Paulo DeFreitas Jr. (Independente, 2020): Outra da lista que também é inédita no Brasil – espera-se que por pouco tempo – esta graphic novel de humor negro conta o inferno que se transforma a vida de Ken Perks, um pacato e frágil vegano que trabalha como avaliador de antiguidades, quando este cruza com uma lendária estatueta que o transforma em um sanguinário imortal. Paralelamente a esta trama que insere o horror e o sobrenatural no ordinário cotidiano - à maneira de Stephen King e Neil Gaiman - há uma segunda narrativa que parece saída das páginas da Métal Hurlant do final dos anos 1970, por vezes me lembrando algumas HQs de Al Voss e Moebius (estou me esforçando para não dar spoilers aqui...). Vale destacar ainda os bem construídos personagens coadjuvantes, inusitados como nos contos de Gaiman, e a consistente arte + cores de DeFreitas. O autor vive há duas décadas nos Estados Unidos, onde trabalha principalmente como ilustrador e, há cerca de dez anos, na produção de storyboards para séries de tv (como Preacher, Into the Badlands, Jean-Claude Van Johnson e o novo Twilight Zone, entre outros) e cinema (Green Book, Pitch Perfect, Get on up, The Highwaymen). Originalmente, a história foi concebida justamente visando esses formatos, mas os meses de interrupção das produções audiovisuais estadunidenses – por conta da pandemia - levaram ao autor a produzi-la como HQ, e a viabilizá-la por financiamento coletivo no Kickstarter. (BP)

Kings in Disguise – James Vance e Dan Burr (W.W. Norton, 2006): Quando o dramaturgo James Vance se aventurou no mundo dos quadrinhos em 1988 para, juntamente com o ilustrador Dan Burr lançar, pela Kitchen Sink, uma traumática graphic novel (no sentido moderno) sobre um garoto que perde tudo na Grande Depressão e passa a perambular pela miséria dos EUA nos anos 1930 juntamente com um mendigo lunático, o resultado foi essa genial e infelizmente esquecida Kings in Disguise. Aqui encontramos o horror da existência juntamente com a podridão e a comiseração humanas em seus aspectos mais inimagináveis. Sem compaixão para quem se aventurar nestas páginas. Mais AQUI. (CIM)

Aqui - Richard McGuire (Quadrinhos na Cia., 2017): Nos quadrinhos, tempo é espaço. (MJR)