PIMBA na gorduchinha!

por Ciro I. Marcondes

Estando no “exílio”, recebo pouco material nacional aqui, e é por isso que a chegada do número dois do Jornal Pimba foi motivo de celebração. Já falamos sobre esta heroica publicação de Brasília aqui. O formato de jornal, que atrai certa nostalgia e ao mesmo tempo impulsiona novo entusiasmo às artes da ilustração e dos quadrinhos, é aquela contradição “do bem”: é barato, dá espaço para os desenhos fazerem vingar seu potencial, e além de tudo possui uma relação afetiva com a história dos quadrinhos. Afinal, os quadrinhos nasceram nos jornais. Aqui na França, a tradição de jornais (ou revistas que começaram como jornais) que publicam quadrinhos (de aventura ou humor) persiste até hoje. Não apenas nas pedras inaugurais belgas (Spirou, Tintin), mas em publicações que mantêm sua essência: Le Canard Enchainé, Fluide Glacial, Pilote, Charlie Hedbo. O Pimba aparece, em meio a estas leituras, em perfeita sintonia.

Felipe Sobreiro

Paradoxal também acabou sendo a leitura do segundo Pimba, já que, tendo lido a vigorosa e em tudo impressionante primeira edição, a sede de que o repeteco viesse na mesma toada era grande. Pois é, meus amigos: posso dizer que conheço o pessoal que faz o Pimba, mas não posso simplesmente me render a uma crítica camarada. Perfeito em diagramação (desta vez rosa e preto), com todo um cuidado de curadoria e franca honestidade artística, o Pimba, além de tudo, ofereceu bons textos de qualidade literária. Meu lado “estudante de Letras” (atrofiado há anos) se despertou com a capacidade que alguns colaboradores ali têm em escrever. O paradoxo, no entanto, veio junto com quadrinhos um tanto abaixo da média, que demonstram talvez uma concepção apressada aqui, um deadline apertado ali, uma escolha temática infeliz acolá. O que terá causado tal deslize?

Vejamos, primeiro, o papel dos mais veteranos: se temos um bom caso de experimentação como o jogo da memória e da imagem em quadrinhos com André Valente (o nosso “Chris Ware encontra Walt Disney”, ainda em processo de amadurecimento), com Eduardo Belga temos apenas uma tentativa de condensar grandes histórias em poucos quadros (“Mas não presta muito contar assim, só por alto. Um dia eu conto estas histórias direito”, admite). Neste caso, é preciso decidir: fazer o quadrinho narrativo direito, com desenvoltura e, especialmente, muitos quadros, ou o negócio é optar por outro gênero, mais próximo da poesia e dos sincretismos.

André Valente

Daniel Carvalho

A mente fértil de Gomez, esse sim adepto das narrativas, geralmente cíclicas, pequenas parábolas de uma Brasília juvenil, aqui bate ponto, entrega coisas engraçadas, mas causa a impressão de não ter dedicado seu melhor. Estaria Gomez se repetindo? Sim, quando o cara é bom e muito exposto, aumenta-se a cobrança. Ninguém disse que era um mundo justo. O mesmo ocorre com Daniel Carvalho, exímio ilustrador que, no campo narrativo, causou-me a impressão de ter replicado, de certa forma, a história que fez para a edição anterior.

Meus quadrinhos favoritos na edição vão para Felipe Sobreiro e “A caixa”, uma história meio “gangues de Brasília nos anos 90” com um toque surrealista à Robert Silverberg. Despretensioso, eficaz, nada mal. A outra que me agradou foi “O mestre dos muros”, quadrinho hoje póstumo do talentoso Mateus Gandara, uma linda parábola budista contada com a regularidade tântrica dos requadros tabulares, muito bonitos na diagramação do jornal.

Entre os que estrearam, aliás, há ainda arroz com feijão para comer. Pedro D’Apremont (nosso Peter Bagge do black metal), mesmo que tenha a grande vantagem de estar criando um universo e um imaginário comuns aos seus quadrinhos, ainda precisa calibrar melhor as gags e piadas, um tantos canhestras aqui. Já a Gabi LoveLove6 arrisca uma narrativa confessional, mais realista, muito direta. Não me agrada muito quando um discurso engajado parece simplesmente literal. Joga contra. Melhor voltar ao lirismo despojado e transgressor do Garota Siririca. Por fim, vale falar no quadrinho tóxico e mala (no bom sentido, se é que isso existe) do Heron Prado, herdeiro de Gabriel Góes, que dá um bom upgrade no nonsense rabiscado de Futuro do Pretérito.

Mateus Gandara

Literatura

Pedro D'Apremont

Juventude de maloqueiragem anos 90, puberdade sem qualquer romantismo e algum trato experimental, aliás, é o tom nas narrativas literárias do jornal. Pode parecer excesso de nostalgia de tempos mais simples e crus (o que na verdade não é ruim, dado o mundo de merda em que vivemos), mas os autores conseguem verter essas coisas em qualidades, visões de mundo, perspectivas literárias. Afinal, são três ou quatro contos falando de molecagem, 13 punhetas por dia, tesão pela professora, etc. Destas, gostei especialmente de Diário do Timor Leste, escrito por Danylton Penacho, uma série de relatos escrachados, mas carregados de melancolia quase exclusivamente brasiliense, como se fosse um retrato “ame-ou-odeie” de alguém ligado umbilicalmente à sua cidade. Também vale a disposição mais clássica, cômica e cruel de Retrato ao redor de um banheiro, do veterano Milton Sobreiro, além do trato à Murilo Rubião do onírico Colcha de chenile (também de Penacho), além da poesia que trinca os espaços modernistas de Brasília em Espaço é um local cercado de cantos por todos os lados, de Biu.

Heron Prado

A joia da edição, IMHO, no entanto, fica com a qualidade de literatura impressionista do conto O asfalto, de Pedro Menezes, uma jornada febril em discurso indireto livre que parte de uma aula de educação física até o mais irrevogável niilismo. Se o Pimba declaradamente não possui uma linha editorial, a própria geração de quadrinistas e escritores faz questão de trazer naturalmente suas angústias e problemáticas, criando uma massa comum de memórias e experiências com o corpo e com o espaço da cidade, marca profunda e indelével da contemporaneidade. O Pimba, com seu pé no passado, mas com mãos que apontam o futuro, carregado de imperfeições (não podia ser diferente), é talvez a melhor expressão da cultura de Brasília nos dias de hoje. Afinal, do absurdismo dos quadrinistas às trevas de Pedro Menezes, há um substrato comum com o qual qualquer brasiliense se identifica.

PS: e viva Osmar Santos!   

Raio Laser's Comics' Quicky #02

por Ciro I. Marcondes e Pedro Brandt

Conforme avisado na primeira edição, esta coletânea não tem a intenção de ter uma periodização regular. Assim, não se surpreendam com o atraso para a chegada deste Volume 2. Nós queríamos e pretendemos ser mais frequentes na cobertura de quadrinhos nacionais, mas às vezes os compromissos pessoais, a preguiça ou outras prioridades quadrinísticas empurram esta publicação um pouco mais pra frente. Da mesma forma, não nos cobrem pela incoerência. Tem coisas que estavam aqui fazia tempo, mas ainda não havíamos lido, e coisas mais novas. Esta seção não é exclusiva para lançamentos, que fique claro, apesar de privilegiarmos coisas recentes. Por fim, às crianças: a crítica é uma visão pessoal, ainda que embasada em qualquer coisa. Caso não goste do que está escrito aqui, por favor tente ignorar. De nossa parte, tentamos ser o mais construtivos possível. Acabou chorare, ok? (CIM)

Caso desejem aparecer aqui, favor enviar seus quadrinhos a:

RAIO LASER
SQN 407 Bloco A, Apto 213.
Brasília-DF
CEP: 70855-010

Aparecida Blues – Biu e Stêvz (Beleléu, 2011, 112 p.): apesar de já ter sido lançado há algum tempo, Aparecida blues é uma HQ que vale um bom comentário, já que prima por alguns méritos de experimentação intermidial não muito comuns seja nas produções nacionais, seja nas estrangeiras. Mesmo aparentemente non-sense, esta HQ, de um jeito fragmentado e esquizofrênico, consegue reunir estilos diversos de representação, como num ensaio livre, todo baseado em aspectos da teoria musical (daí a alusão ao famoso, difícil e maluco “O som e o sentido”, de JoséMiguel Wisnik), buscando tornar a referência da “história” um eterno ponto de fuga, como se, atacando seu tema principal (a solidão) por todos os lados, a HQ criasse a impressão de “caixa de ressonância de tudo”. É essa a marca de simultaneidade buscada pelos diversos registros tratados em Aparecida Blues: HQ non-sequitur, tira de jornal, diário, carta de amor, texto de jornal, álbum de fotografias. Tudo isso encaixado numa premissa simples, singela e admirável: um músico frustrado apaixonado por uma moça surda (não à toa, a epígrafe de “todos estão surdos”, do Roberto, marca presença). Este aparente rebuscamento ganha frescor com a arte minimal, mas adorável, de Stêvz, e comprova o amadurecimento do texto de Biu, já comentado antes aqui em Raio Laser. (CIM)


Cabeça Dinossauro Vol. 1Stêvz (Independente, 2012, 28 p.): esta pequeno volume produzido por Stêvz, de apenas 50 exemplares, começa com este entusiasmado texto de abertura: “O aluguel das cavernas anda os olhos da cara”. E é com este despojo mezzo naïve, mezzo non-sense, que o desenhista vai criar sua própria tira de dinossauros: uma tira sobre um dinossauro urbano encalacrado nos entraves do cotidiano, como o ato de pegar um ônibus, comprar um bilhete de loteria ou alugar um apartamento. A iniciativa é muito despretensiosa, os desenhos são rabiscos, e as piadas na maioria das vezes são bem inócuas ou simplesmente muito discretas para chegarem a ser “engraçadas”. Não é o caso de implicar com a falta de inspiração do artista, afinal, ele sabe ser irônico, como comprova a melhor tira do pequeno volume: o dinossauro pergunta no guichê: “é aqui a fila pro sucesso”? No que respondem: “Profissional, amoroso, financeiro ou familiar”? “Só pode escolher um”? “Quem falou em escolher”? Num ta fácil pra ninguém. (CIM)

NeebEduardo Medeiros (Independente, 2011, 36 p.): Neeb daria um ótimo curta de animação assim rasteiro, com amplo espaço para grandes linhas de ação, explosões incríveis, cenários majestosos e personagens canastrões, embebidos em adrenalina. Tudo isso se constrói muito bem, com enérgico senso de aventura cyberpunk, nesta simples e rápida HQ de páginas fáceis, viradas com velocidade e volúpia, graças ao traço vigoroso e bem finalizado de Medeiros, que imprime justamente ritmo de cinema aos seus quadrinhos. Feita para fãs de Star Wars ou Guia do mochileiro das galáxias, Neeb, apesar da história curta, rasa e, de algum modo, bem picareta, vale pelo jeito vertiginoso com que os personagens saltam das naves, atravessam canyons e derrubam robôs, imprimindo esse caráter de imersão, como se num videogame, tão fundamental para a experiência da arte no mundo de hoje. (CIM)


Se a Vida Fosse Como a Internet - Pablo Carranza (Independente/Proac, 2012, 83 páginas): em Se a vida fosse como a internet, Pablo Carranza faz graça com essa ferramenta que pode ser tanto de grande utilidade quanto uma perda de tempo imbecilizante. Qualquer um acostumado a passar horas na frente do computador em redes sociais, tuitando, facebookando ou simplesmente buscando informações e trocando e-mails poderá se identificar com os cartuns, tirinhas, histórias curtas ou curtíssimas de Carranza. Aliás, um dos méritos dos quadrinhos do autor (morador de São Paulo, sergipano de nascimento) é perceber o potencial para o humor das peculiaridades e comportamentos que compõem esse universo. Nem tudo aqui são grandes achados (algumas piadas não se sustentam ou são muito batidas), mas entre traições virtuais, vício internético, nostalgia tecnológica, vírus de computador, tosquices que circulam pelas caixas de e-mail e temas correlatos, o cartunista atinge o alvo (a risada do leitor – seja ela uma cosquinha no cérebro ou uma boa gargalhada) na maioria das vezes. Destaque para a dantesca "Submundo dos arquivos excluídos", na qual o protagonista parte para a lixeira do computador em busca de uma foto nua da ex-namorada. Carranza dá vida às ideias com um desenho cartunesco (em preto e branco na maioria das 83 páginas), aparentemente simples, mas bastante vivaz, com algo, no traço, de Crumb, Laerte, Angeli e Ota. Sua narrativa tem um bom ritmo, com páginas formadas por variados enquadramentos e angulações. E por falar em Ota (que assina o texto de apresentação), Se a vida fosse como a internet tem muito do humor da revista que o cartunista/editor tomou conta por décadas aqui no Brasil, a Mad – publicação para a qual, aliás, Carranza colabora. Editores de cadernos e revistas de informática, o que vocês estão esperando para transformar Se a vida fosse como a internet em um espaço semanal (ou diário, por que não) em seus veículos? (PB)


Bananas!Chiquinha + Cynthia B. (Independente, 2012, 24 p.): eis a chance de se ler a respeito de taras e obsessões femininas desenhadas por duas das mais talentosas quadrinistas da geração atual. O resultado, bem... diverge. Se as duas garotas têm o mérito de expor um certo jeito feminino de ser sem qualquer tipo de hipocrisia, escrevendo com uma honestidade brutal e chutando baldes com um humor franco e consideravelmente grosseiro, o resultado em quadrinhos é apenas um pouco tolo (no caso da Chiquinha) e bem mais charmoso, no caso da Cynthia. No primeiro caso, acompanhamos uma personagem bem gore e grotesca embarcando num ritual de macumba para emagrecer. Chiquinha capricha nas estrias e na escatologia, produzindo um humor provocativo, mas infantiloide e mongol um pouco pr’além da conta. Tosco, com orgulho. Já Cynthia trabalha melhor alguns tipos de dosagens em sua história, com algumas referências maneiras (Truffaut, Allen, Lennon), um traço mais singelo e saudável (bem menos anárquico que o da Chiquinha) e uma narrativa mais indie que reflete sobre seu próprio desejo, flertando com a ninfomania, mas meio que estragando tudo no final com excesso de explicações retóricas. Entre mortos e feridos, um lançamento significativo. Girl power, baby. (CIM)


Achados e Perdidos – Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho e Bruno Ito (Pandemônio/Quadrinhos Rasos, 2011, 212 p.): Até que ponto quadrinhos feitos “para todas as idades” podem não resultar em satisfatórios para idade nenhuma? É essa pergunta que me veio à cabeça ao terminar de ler este Achados e perdidos, um lançamento significativo em quadrinhos no Brasil, já que foi um dos primeiros a sair via Catarse, numa base crowd funding (da qual eu mesmo participei, por gostar do trabalho dos autores no site original). Todo feito com arte digital, Achados e perdidos tem lindo acabamento, muito respeito com seu leitor (com ótima introdução e making of), um CD com trilha sonora e toda boa vontade de mundo. Porém, a história-alegoria de um menino que um dia aparece com um buraco negro na barriga acaba esbarrando em alguns problemas, talvez facilmente consertáveis no desenvolvimento da carreira futura dos autores.

Em primeiro lugar, a arte digital, se às vezes aparece com colorido vívido e aproveita bem o contraste em sequências mais sombrias, ela é em geral muito esquemática, pouco detalhada e até simplória. Mesmo que o design dos personagens seja bem-feito e criativo, a execução final (os personagens em ação) deixa a desejar. Já a história padece de um problema facilmente diagnosticável em alguns quadrinhos indie brasileiros: o excesso de “fofura”. E aí volto ao início do texto: a história é uma alegoria simpática a respeito de nossos próprios recalques, as páginas passam rápido (porque privilegiam o visual) e as “lições de vida”, com seus personagens “corretos”, se encaixam todas no final. Porém, acabei não compreendendo se existe um público-alvo para a HQ e confesso que, enquanto leitor adulto, me senti de certa forma ultrajado com o excesso de doçura da história, como se não fosse possível construir uma fábula construtiva com matizes mais robustas de sobriedade e adulthood. De qualquer forma, vale ficar de olho no trabalho de Garrocho e Damasceno, ainda promissor. (CIM)


Fade out – Suicídio sem dor - Beto Skubs, Rafael De Latorre e Marcelo Maiolo (Independente/Proac, 2012, 64 p.): este trabalho apresenta um time competente. Nenhum deles é gênio, e, sim, há no que se melhorar. Mas Fade out – Suicídio sem dor consegue juntar romance, aventura, suspense e comédia como numa boa HQ, lembrando as boas aventuras do Homem-Aranha das antigas. Nada muito original ou surpreendente, mas uma leitura divertida. O roteiro de Skubs, especialmente, parece querer provar sua versatilidade. Tudo leva a crer que a trama se passa nos EUA, o que se confirma nos nomes e diálogos dos personagens, no tipo de humor e nas situações. Suspeitando que sua mãe pode ser a futura vítima de um serial killer, o universitário Kurt parte para uma investigação por conta própria. Paralelamente a isso, ele concilia uma namorada chata, uma pretendente misteriosa e a sombra de um pai ausente. Ao longo das 64 páginas, roteirista e desenhista conseguem manter o ritmo da história, com as reviravoltas aparecendo na hora certa. Ok, tudo acontece um tanto rápido, mas a narrativa não se atropela. O que não se explica tão bem é a vontade de morrer do protagonista, já que ele levava uma vidinha bem comum e pacata, sem grandes dramas. Deixemos a verossimilhança um pouco de lado então. Afinal, Fade out – Suicídio sem dor é uma HQ mais desencanada, para não ser levada tão a sério (ou assim eu a encarei). A narrativa gráfica de Rafael De Latorre flui bem (seu traço me lembrou o dos irmãos Luna), com bons enquadramentos e angulações – mas a fisionomia dos personagens poderia ser melhor trabalhada, já que eles se parecem demais uns com os outros. Um maior rebuscamento de cenários e detalhes de cena com certeza também lhe faria bem. Talvez seja questão de tempo. Não curti muito a paleta de cores (digital) de Maiolo, para mim, muito artificiais, mas também não me incomodei muito com isso, pois é um trabalho muito bem executado. Ainda não virei fã desses três, mas depois de Fade out – Suicídio sem dor eles conseguiram a minha curiosidade sobre seus próximos projetos. (PB)




Golden Shower Nº 2 Cynthia B. e Fabio Lyra (Org., Independente, 2012, 136 p.): a capa da Golden Shower já dá a deixa: “quadrinhos bizarros para adultos sem noção”. Sendo assim, não há muito o que contestar. Trata-se de uma coletânea (como as antigas revistas estilo “mix”) que reúne alguns dos melhores quadrinistas nacionais da atualidade em torno de temas singelos: putaria pesada, escatologia, baixaria de todos os tipos. Não que estes temas já não façam parte da rotina do quadrinho nacional já há algum tempo (parece uma geração que cresceu vendo pornô hardcore na Internet), mas o fato é que aqui podemos ler nomes como Stêvz, Diego Gerlach, Bruno Maron, Koostella, Daniel Lafayette, Cynthia B., Daniel Og, Laerte, Allan Sieber, Eduardo Medeiros, Chiquinha, dentre muitos outros, todos envolvidos numa maneira de celebrar o politicamente incorreto, de falar sobre uma sexualidade abusiva e desproporcional, de dar vazão a quadrinhos agressivos e alucinados, de se autoafirmarem como uma geração comix brasileira, sem concessões a super-heróis moloides ou bichinhos moralistas, tradicionais no meio. Golden Shower, com seu absurdo de sem-noçãozice, é quase um manifesto; é a demarcação de uma posição, um latido que acena para uma opção não só estética, mas (pasmem) política para os quadrinhos nacionais.

A editoração deste número 2 é bastante primorosa, com direito a pin-ups, contos, “poemas”, sketches, etc. Mas, à parte todo este material extra (quase tudo dispensável – melhor desistir da literatura, nesse caso), são os quadrinhos que realmente contam. Por mais que algumas coisas abusem do mau gosto (Pat Aulisio, Guido Imbroisi) ou sejam simplesmente insípidas (Felipe Velloso, Thiago Tomé, Daniel Ferreira), a maioria da revista é composta por material de primeira, com humor frenético, febril, como se os quadrinistas compartilhassem com prazer e orgulho essa doença da putaria desguarnecida, sem defesas, natural como a própria vida. Singelo como um banho de mijo. Vale destacar o trabalho da própria Cynthia B., com seu riscado firme e expressivo, seja em roteiro próprio ou num pequeno achado: um roteiro de um Allan Sieber quebrado, quadrinista fodido, num mau humor à Pekar, de 1997. Outra história incrivelmente engraçada é a de Pablo Carranza, que traz grande sacada relacionando sexo, TV e quadrinhos. Também é interessante a contribuição de Gerlach, misturando estilos e materiais, grotesca até o talo. Vale também certamente conferir a história de Koostella, talvez a melhor da revista, sobre um cara que morre e pode ver sua mulher trepando com mil caras diferentes. Por fim, fica destaque especial para a participação de Eduardo Belga, com seu estilo expressionista com certo naturalismo, numa história brutal, sem palavras, de bizarro erotismo, sobre um ritual de bruxaria. Sinal de que, entre uma fartura de quadrinistas, a Golden pode até pecar pelo excesso, mas dá conta do recado. (CIM)

F.A.B.I.O., edições 001 a 005 – André Valente e Gabriel Góes (Independente, 2013, 8 p. cada): ao ler estes cinco primeiros volumes (zines) do projeto F.A.B.I.O. (Góes e Valente se propõem a fazer 100 destes e enviá-los todos ao Fabio Zimbres), me vieram três constatações: primeiro, é impossível não pensar este trabalho como um work in progress, em que a materialidade do projeto não seja necessariamente parte do seu significado. Cada zine é impresso em um papel diferente, com um conceito geral diferente, como se o corpo todo do projeto fosse mesmo desenvolver conceitos visuais totais mais do que simples histórias em quadrinhos. Além disso, o trabalho de confecção é todo zinesco e manual, sem interferência de softwares de edição de imagens, procurando restaurar alguma “aura” a estes pequenos zines colecionáveis. Em segundo lugar, o fato de o projeto ao mesmo tempo parecer um trabalho diário e operário e obedecer a algumas regras de artesanalidade me lembraram o conceito Dogma proposto por Lars von Trier nos anos 90 como exercício de cinema: filmes com atores amadores, iluminação natural e imagens digitais. Por fim, por mais que o conteúdo dos quadrinhos em si prime pelo non-sense (Góes chega a enfileirar gratuitamente umas dezenas de buc*tas numa edição particularmente engraçada e sacana), tornando-se prontamente criticáveis (especialmente para os que esperam do quadrinho nacional uma pegada mais narrativa), é a força das ideias coletivas, rascunhadas e experimentadas de F.A.B.I.O. que o tornam um tipo de experiência sobre o próprio processo de criação, com seus desvios e falhas, seus excessos, claudicâncias e problemas. Entramos na mente dos autores. Temos suas caixas-pretas abertas. Vale destaque para as “histórias reais de escritório” de Valente, trabalhando o timing dos quadrinhos; os sketches de personagens de Góes, fazendo o que sabe fazer melhor; além dos perfis com retrato e hábito escroto dos personagens de Valente, dando sequencia à tradição que conhecemos em Angeli ou Allan Sieber. (CIM)





Ensaio do Vazio - Inspirado no livro de Carlos Henrique Schroeder. Adaptação e arte: Diego Gerlach, Pedro Franz, Berliac, Manuel Depetris, Leya Mira Brander (Editora da Casa/7 Letras, 2012, 140 páginas): A proposta deste Ensaio do vazio é boa e seria interessante ver outras iniciativas buscando livros de novos escritores brasileiros para transformar em histórias em quadrinhos. O argumento algo bukowskiano do livro de Carlos Henrique Schroeder apresenta um protagonista bastante escroto, um tipo sem escrúpulos rodeado quase sempre de outras pessoas escrotas. Sexo, drogas, assassinato e um pouco de romance pontuam uma história que passeia entre o realismo e viagens oníricas – “isso realmente aconteceu ou foi um delírio?” é uma pergunta que pode pipocar várias vezes na cabeça do leitor, impressão reforçada pela arte um tanto expressionista de alguns dos participantes. Se a ideia desse projeto em princípio é boa, não posso dizer que gostei do resultado. Fica claro que a opção editorial foi por ilustradores cujos desenhos têm mais a ver com as artes plásticas do que com os quadrinhos. Essa combinação não é novidade e já rendeu trabalhos consagrados (como as parcerias de Neil Gaiman e Dave McKean, só para ficar em um exemplo notório), mas aqui não funciona porque ao invés do que está escrito andar de mãos dadas com o que está desenhado, o texto serve como muleta para as ilustrações. Aliás, Ensaio do vazio parece mais um livro ilustrado (em alguns casos, mal ilustrado) do que uma história em quadrinhos propriamente dita. Fica clara a pouca familiaridade dos desenhistas com a linguagem narrativa dos quadrinhos (talvez o passo mais difícil para dominar a produção de uma HQ). O talentoso Pedro Franz poderia ser apontado como uma exceção aqui, mas já o vi bem melhor em outros trabalhos. Ensaio do vazio é, no geral, pouco convidativo visualmente (os ilustradores carecem de personalidade e estilo) e se for para contarmos só com o texto, melhor optar pelo leitura do livro que inspirou o projeto. Se os participantes aceitam uma sugestão, a leitura de Delírios cotidianos, de Mathias Schultheiss sobre texto de Charles Bukowski, pode se inspiradora. (PB)


Cabra macho






Serviço de utilidade pública: lançamento Pindura 2012






















A ideia do calendário Pindura é tão genial que chega a ser ridícula. Como ninguém pensou nisso antes?! Se você ainda não conhece o Pindura -- premiado este ano com o troféu HQ Mix de melhor projeto editorial -- visite. Em resumo, o Pindura é um calendário temático que conta com a arte de diversos desenhistas, ilustradores, quadrinistas e designers do Brasil e exterior -- boa parte deles, atuantes no cenário de quadrinhos alternativos/ autorais.

O primeiro, de 2009, é um calendário com 12 ilustrações sobre o tema bar. Aliás, veio daí o nome "pindura" (de "pendura a minha conta aí, chefia!"). O de 2010, já contando com muito mais participantes, tem uma ilustração por semana, todas fazendo referência às paradas de ônibus de Brasília. O Pindura de 2011 chegou ousado, com ilustrações para todos os dias do ano. O tema é elevador e o formato, dessa vez, é o de calendário de folhinhas, daqueles que você arranca dia após dia.    

O Pindura 2012 é um poster de 64cm x 94cm. Colaboraram 181 desenhistas, com uma ou duas ilustrações de objetos que eles gostariam de deixar enterrados para serem encontrados pelas futuras gerações -- ou por quem quer que venha a viver na terra quando todos virarmos pó, afinal de contas, 2012 vem ai.

O Pindura é uma criação de Gomez, Stevz e Biu e é publicado pela editora redundantemente intitulada (ou genialmente intitulada, se você preferir) Pegasus Alado. 

Depois de passar pela Rio Comicon, o Pindura 2012 será lançado neste domingo, em Brasília. Na ocasião, também serão lançadas as HQs Aparecida Blues, Garoto Mickey, Peixe fora d'água e Golden Shower 2. O chapas da revista Samba estarão presentes com novidades, entre elas, a edição 2 da Kowalski. A carioca Rachel Gontijo, da A Bolha Editora estará lá com seus incríveis lançamentos (sério, dá uma olhada).Outras informações estão no cartaz. Clique em cima para ampliar. Tá lindão. (PB)



HQ em uma página: poesia numa tigela de leite, por Biu e Shiko

A muda marcha ameboide de um exército albino (Biu e Shiko, 2006): o que mais impressiona neste improvável e imprevisível romance gráfico dos paraibanos Biu e Shiko é o teor da narrativa metamórfica e lisérgica que, aparentemente, não diz nada e diz tudo ao mesmo tempo. Atravessar esta HQ acaba dependendo de uns fatores que geralmente desprezamos: nosso estado de espírito, que tipo de estimulante consumimos, controle da impaciência, etc. Numa sintonia correta, as imagens inteiras e grafitadas de Shiko, com seus hipercloses e paralisias, abrem nossa passagem para insights e intrusões vigorosas, íntimas, sem ordem, num voo livre. Por estranho que pareça, esse avanço deliberadamente poético é raro em HQ. Eu poderia selecionar imagens eróticas incríveis, referências bem sacadas ou o apelo mezzo cyberpunk mezzo manguebeat da parada, mas fico com esta página em que um dos personagens defronta-se metafisicamente com o ato singular da queda progressiva e irregular do leite que escorre da caixa para a tigela, num imaginário baudelairiano. Potente. (CIM)


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