Mapinguari, de Gabriel Góes e André Miranda: o folclore como revelação

Mapinguari, de Gabriel Góes e André Miranda: o folclore como revelação

A lenda do mapinguari tem uma forte reverberação simbólica nesta sólida história trazida para nós na forma de romance gráfico por Gabriel Góes e André Miranda. A criatura desfigurada das selvas que, segundo Câmara Cascudo, “é o mais popular dos monstros da Amazônia”, seria o resultado de uma espécie de pacto fáustico realizado por um indígena em busca da eternidade. Ele teria conseguido o que queria, mas acabou se transformando numa abominação devoradora de cérebros, coberta de pelo espesso, garras, pés tortos, odor insuportável e uma bocarra no meio da barriga. Coisa de pesadelos que teria sido inspirada no animal eremotherium, a preguiça-gigante que habitou o Brasil pré-histórico. 

Read More

Plágio ou Homenagem? O vantajoso e tradicional “empréstimo” de personagens feito por Marvel e DC

Plágio ou Homenagem? O vantajoso e tradicional “empréstimo” de personagens feito por Marvel e DC

Nada se cria e tudo se copia. Essa máxima é verdadeira também nos quadrinhos. Partindo-se da premissa de que tudo que é criado foi inspirado por uma referência anterior, pode-se afirmar que qualquer gibi que tenhamos nas mãos dificilmente será produto 100% original, já que é fruto das diversas influências absorvidas pelos autores. Agora, existem influências e influências. Algumas delas vão além da simples homenagem. Há histórias e personagens copiados – na cara dura – de outros que vieram antes. E nem mesmo as grandes editoras de quadrinhos norte-americanas, DC e Marvel, estão livres disso, muito pelo contrário.

Read More

ENSAIOS LOVECRAFTIANOS

ENSAIOS LOVECRAFTIANOS

A coisa mais misericordiosa do mundo, ao meu ver, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a obscuros mares de infinidade, e não nos é possível viajar muito longe. As ciências, cada uma se esticando em sua própria direção, pouco nos afetaram até agora; mas algum dia o agrupamento deste conhecimento dissociado irá abrir visões tão aterrorizantes da realidade, e de nossa assustadora posição nela mesma, que iremos ou padecer da loucura oriunda da revelação, ou fugir da luz em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas.

Assim, desta maneira intrigante e oracular, começa o conto/novela O Chamado de Cthulhu, escrito por Howard Phillips Lovecraft em 1926 e publicado na revista pulp Weird Tales em 1928. Famoso, esse parágrafo dá conta de muito do que se associa à literatura lovecraftiana, que se tornou base para o culto cada vez mais crescente ao gênero do terror, seja no cinema, nos quadrinhos, em games ou nos próprios contos e romances. O que há ali que já nos prenuncia uma ambientação psicológica típica da originalidade deste autor tão singular?

Read More

Sabrina: desolação e paranoia made in USA

Sabrina: desolação e paranoia made in USA

Tomei conhecimento do trabalho do norte-americano Nick Drnaso há alguns dias, por causa de uma matéria na revista New Yorker . A princípio achava que ele era mais um Chris Ware wannabe, mas fiquei bastante curioso para ler seu último álbum, a graphic novel Sabrina (Drawn and Quarterly, 2018). Impulsivo – eufemismo para consumista – como sou, encomendei o gibi, que devorei rapidamente. A compra valeu a pena. A leitura foi inquietante, para dizer o mínimo. Sabrina conta a história de uma garota que desapareceu. Seu namorado, desconsolado, vai morar com um amigo em Chicago, enquanto tenta superar o acontecimento. Outra personagem é a irmã de Sabrina, que teve de segurar – praticamente sozinha – a barra com o sumiço. À medida que os fatos se desenrolam, Nick aumenta o alcance da lupa que coloca sobre cada um dos protagonistas. Existe uma sensação de desconforto latente que só aumenta durante a – lenta – narrativa. 

Read More

Um Drácula de Mignola

Um Drácula de Mignola

por Márcio Jr.

Se em 1992 a recepção da crítica para Drácula de Bram Stoker foi ambígua, passado mais de um quarto de século a película de Francis Ford Coppola adquiriu status de filme de culto. Não é para menos. Abrindo mão de quaisquer efeitos especiais computadorizados, a obra é uma homenagem aos primórdios do cinema, com seus jogos de espelhos, trucagens analógicas e direção de arte embasbacante. Hoje, a iconografia do longa divide o imaginário do público com as versões do Príncipe dos Vampiros encarnadas por Bela Lugosi e Christopher Lee. Atestado inconteste da potência visionária de Coppola.

Aproveitando o lançamento do longa, a Topps Comics rapidamente colocou em produção uma adaptação em quadrinhos, reunindo uma equipe de primeira linha. No roteiro, ninguém menos que o veterano Roy Thomas. E na arte, um astro em franca ascensão: Mike Mignola. Completando o time, John Nyberg (arte-final) e Mark Chiarello (cores). Publicada como uma minissérie em 4 edições, a HQ logo saiu de catálogo, tornando-se, ela também, um objeto de culto. Somente em 2018 a série foi reunida em luxuosa edição pela IDW Publishing, ganhando versão nacional pela Mino.

Read More

Charles Schulz no divã: exposição Good grief, Charlie Brown! Celebrating Snoopy and The Enduring Power of Peanuts

Charles Schulz no divã: exposição Good grief, Charlie Brown! Celebrating Snoopy and The Enduring Power of Peanuts

Quem estreia em colaborações na Raio Laser é o não menos que excepcional Bruno Porto, que vem dialogando com a gente já de longa data, e que agora nos presenteia com essa caprichada resenha dessa incrível exposição sobre Charles Schulz em Londres. (CIM)

Bruno Porto é designer, professor e consultor. Atuou como curador da 12ª e 10ª Bienais Brasileiras de Design Gráfico (2017 e 2013) e de uma dúzia de exposições de artes gráficas montadas em países da  América do Sul, Ásia e Europa. Tem livros e textos publicados sobre design gráfico e recentemente vem pesquisando o assunto no âmbito das Histórias em Quadrinhos. Atualmente integra o GIBI - Grupo de Estudos de História em Quadrinhos do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília – UnB e os Conselhos Consultivos da ADG Brasil e do Comitê Tipos Latinos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, já morou em Nova York, Xangai e Brasília, e atualmente vive na Haia.

por Bruno Porto

A primeira exposição na Inglaterra da obra do cartunista estadunidense Charles Schulz (1922-2000) — realizada de 25 de outubro a 3 de março de 2019 na Somerset House em Londres — tem utilizado como principal mote promocional a apresentação em paralelo de originais das tiras Peanuts com obras de vinte artistas plásticos contemporâneos inspirados pelo trabalho do criador de Snoopy e cia. Apesar das reflexões interessantes geradas por estes dois chamarizes - que procuram conectar a tira iniciada em 1950 com a produção artística do século XXI - o que se destaca na montagem é a compreensão do pioneirismo de Schulz em abordar nas suas tiras diárias tópicos de extrema relevância nos dias de hoje, como racismo, feminismo e religiosidade.

Read More

Viagem ao país dos fumetti

Viagem ao país dos fumetti

Pouco mais de quatro meses atrás fui transferido para Roma, por motivos profissionais. Na hora em que comecei a tomar todas as providências práticas para a mudança ainda não tinha me dado conta, mas pouco antes de embarcar caiu a ficha de que estava prestes a morar numa das mecas do quadrinho na Europa. Sim, para quem não sabe, a cultura de quadrinhos na Itália é uma tradição estabelecida já há várias décadas. Fumetti – que é como os quadrinhos são conhecidos por aqui – são uma forma de arte largamente disseminada e é possível encontrar pessoas de todos os tipos consumindo e lendo em tudo quanto é lugar, especialmente nos meios de transporte. Aos poucos fui percebendo que tinha tirado a sorte a grande. O país é realmente um paraíso para os apreciadores da nona arte.

Read More