Folheei uma, duas vezes e nada. Procurei então no índice e fui direto na página. Eu já sabia que o Roger Cruz participaria daquela edição da Metal Pesado e estava ansioso para conferir o resultado – eu era fã do cara, tinha um monte de revistas desenhadas por ele. Logo entendi porque eu não tinha achado a história antes. O Roger ali não era o que eu estava acostumado, o desenhista de comics, mas o Roger autor (RO.C.K.), com um traço bem diferente de todos os que eu já tinha visto ele usar até aquele longínquo 1997. Adorei a HQ! Xampu era o nome. Me identifiquei demais com aquela história de sexo, birita e rock’n’roll – tanto que xeroquei as três páginas da HQ e usei como capa e contracapa do meu fichário de colégio (que foi comigo, guerreiro, até o fim da faculdade). Pouco depois eu li em algum lugar que aquela era uma história de várias que o Roger gostaria de contar. A espera para ler as outras histórias do universo Xampu demorou 13 anos. Em seu blog, o desenhista dava pequenas amostras do trabalho.
Em maio do ano passado, Xampu -Lovely Losers foi lançada pela Devir. A minha ansiedade para conferir a obra foi tão grande quanto aquela de 13 anos atrás. E a minha satisfação ao terminar de ler todo o álbum, comparativamente, foi a mesma da adolescência.
Depois de anos de espera, Roger me provou o talento que eu sempre soube que ele tinha – e que eu acho que não aparecia mais em sua produção para a Marvel havia anos. Em Xampu temos um Roger renovado, criativo, em plena forma tanto como narrador gráfico quanto como contador de história.
Entrevistei o desenhista paulistano por e-mail em junho de 2010. A nossa conversa segue abaixo.
Quando e por que você decidiu que tinha chegado a hora para fazer a HQ?
Isso ocorreu no ano passado, em 2009. Já há alguns anos não sentia o mesmo prazer em desenhar comics por uma série de motivos.
O fato é que hoje eu entendo bem a decisão de alguns amigos que pararam de desenhar para as editoras americanas.
Xampu sempre esteve nos meus planos mas o volume de trabalho para a Marvel inviabilizava qualquer investida no projeto porque pretendia usar outro estilo no título.
E não é fácil fazer uma página de comics de manhã e “virar uma chave” para fazer algo completamente diferente à tarde.
A única opção foi pedir férias por tempo indeterminado na Marvel.
Isso me deu tempo para amadurecer uma identidade visual para o Xampu.
Nos últimos cinco ou seis anos, entre uma edição de X-Men e outra, tentei finalizar o livro diversas vezes. E sempre que voltava para uma página do Xampu percebia que o traço não fluia como eu queria.
Nessas férias da Marvel consegui produzir o livro de um fôlego só. O que conferiu a unidade que eu buscava desde o início.
Os outros dois volumes já estão prontos? Pode dar uma prévia de como continuam as histórias? Elas terão os mesmos personagens? Quando serão publicadas?
Ainda não. Tenho roteiros escritos para mais ou menos 50 páginas de HQ. O que ainda é bem pouco. Mas pretendo intercalar as próximas edições do Xampu com as edições de Gutigutz.
Alguns personagens deste livro ainda estarão nos próximos mas não serão o foco. As épocas serão outras também. O que signifca que o pano de fundo musical não será tão relevante.
E a Gutigutz, tem previsão de publicação?
Espero terminar o primeiro livro ainda neste ano. Mas, no momento, estou me dedicando a outro projeto pessoal mais urgente e que, por enquanto, não posso divulgar.
Ainda assim, pretendo cumprir o prazo que estabeleci para as Gutigutz. Estou fazendo o mesmo que fiz com Xampu – estabelecendo um prazo. Nem mesmo tentei elaborar uma linguagem que soasse universal para que se adequasse também a mercados no exterior.
Penso que o livro não funcionaria para mim se tivesse isso em mente.
Mas algumas pessoas já me sugeriram apresentar o Xampu para outros mercados. Se houver interesse, será ótimo também.
Você cita várias bandas de rock ao longo da HQ, desde o som mais pesado, que está claro que é a preferência musical dos personagens, até o rock clássico, punk rock, new wave, indie rock, bandas alternativas brasileiras dos anos 80, brega, etc. Imagino que tudo isso seja um reflexo do seu gosto musical. Ou você inseriu algumas dessas bandas para dar mais personalidade aos personagens? Quais eram as suas bandas favoritas naquela época? Você costumava ir nos shows das bandas de SP na época? E hoje, você ainda curte rock? Quais bandas você tem ouvido atualmente?
Eu optei por não deixar clara a distinção entre realidade e ficção, mas esse era realmente o meu gosto musical.
Ainda gosto de muitas dessas bandas. Outras, ouvindo hoje, não gosto mais. Acontece.
Nesta fase da vida, o gosto musical define quem você é no grupo ou na tribo da qual faz parte.
Conheci pessoas com “bom gosto musical” e que também gostavam de sons de “gosto duvidoso”. E, no final, a quem importa se você gosta disso ou daquilo, não é?
Mas olhando de perto, as urgências dos personagens são outras e a música é apenas o pano de fundo nas histórias.
Na época, as minhas preferências eram quase as mesmas de todos. Gostava de Iron Maiden, Metallica, Rush, Led Zeppelin, Ramones, Violeta de Outono, Slayer, Megadeth, etc. Mas gostava muito de bandas com bons bateristas porque tinha uma bateria e me arriscava com as baquetas.
A investida na carreira de baterista não durou muito, felizmente.
Eu não era um grande frequentador de shows mas fui em alguns. New Model Army, Ramones, quinto dia do Rock in Rio 2, Ratos de Porão, alguns que não me lembro e outros que prefiro esquecer.
Ainda gosto de rock e metal mas realmente ouço de tudo um pouco e, às vezes, por pouco tempo. Estou sempre desatualizado com relação a tudo. Música, quadrinhos, cinema, etc.
Até prefiro assim. Não sinto tanta necessidade de ficar “antenado”, essa correria para ficar por dentro de tudo.
Acho que o ritmo de trabalho dos últimos 10 anos me fez desejar uma rotina cada vez mais lenta, longe de pressões e urgências.
Na Xampu original eram perceptíveis as influências de Laerte, Love & Rockets, Crepúsculo (do Pascal Ferry – que, aliás, ganhou citação na nova Xampu), por exemplo. No novo traço da história, arrisco dizer que Mutarelli, Paul Pope (e os gêmeos Bá e Moon, na condução da história) foram algumas das suas influências. Quem mais você diria que serviu de inspiração/ influência?
Laerte, Love & Rockets e Crepúsculo (HQ do Pascal Ferry!) foram influências importantes na época em que comecei a fazer HQs autorais antes de entrar para o mercado de comics nos EUA. Certamente me influenciaram na primeira HQ de 97.
Mutarelli também foi influência em uma HQ específica publicada na extinta revista Mil Perigos.
Pope e os gêmeos são grandes artistas mas nunca os tive como influência. Na verdade, tudo o que eu não queria no Xampu era ser influenciado por algum trabalho.
Tentei deixar o lápis correr solto, sem construções de anatomia e perspectiva. Finalizei intencionalmente com as ferramentas com a quais estou menos acostumado – bico de pena e penas caligráficas para as áreas de preto.
Uma tentativa de me afastar do desenho muito mecânico e estruturado que faço para comics.
A intenção era que as figuras parecessem lembranças disformes e sem nitidez daquela época.
Quais foram os desafios da produção de Xampu?
O prazo foi o maior desafio.
Fiz uma reserva financeira prevendo quatro meses de produção do álbum.
Não seria possível produzir as páginas, tratar as imagens, letrerar e fechar os arquivos digitais se eu estivesse produzindo regularmente para a Marvel.
Penso que este é o maior desafio para quem pretende tocar um projeto pessoal.
Conheço muitos artistas com excelentes idéias que não podem se dedicar a elas porque precisam antes garantir seus salários.
Além disso, se dedicar a um projeto pessoal é trocar o certo pelo duvidoso.
Você não recebe para produzir, você não sabe se alguém vai comprar a sua idéia e você não sabe se vai vender.
É um tiro no escuro mesmo.
E como a Devir entrou nessa história?
O Leandro, que foi o editor no Xampu, sempre foi um dos grandes incentivadores do projeto.
Desde a época da editora Pandora ele me dizia que eu precisava fazer um álbum do Xampu.
E toda vez que nos encontrávamos ele me dizia isso.
Por esse motivo, a Devir foi a primeira e única editora que procurei para oferecer o projeto. Queria mesmo que o Leandro estivesse envolvido.
E quando finalmente apresentei um preview para a Devir, o Douglas aceitou publicar na hora.
A partir desse ponto, cabia a mim produzir o restante do álbum.
Você comenta no álbum que as outras histórias foram criadas na época da primeira. Você manteve os textos/ enredos intactos desde lá? Para você, quais são os desafios de criar também os textos de uma HQ?
Sim. Escrevi os outros roteiros na mesma época. Entre 1997 e 1999, mais ou menos. Fiz algumas mudança para atualizar ou reforçar certos pontos de vista ou para mudar desfechos de situações. Sempre fui fã de autores confessionais como Charles Bukowski, Angeli e Henry Miller por se posicionarem abertamente. Foi algo que tentei nesse álbum.
O personagem Max é bem parecido (fisicamente, pelo menos) contigo. O quanto das situações apresentadas na HQ são vivências suas? Todas as histórias têm um quê de autobiográficas ou você também se valeu da ficção para criá-las?
Algumas pessoas já me disseram isso. Que me pareço com o Max ou vice-versa.
Será? (risos) Combinei vivências minhas com muita ficção. O Sombra, por exemplo, é um mix das características de um amigo de escola que tinha o apelido de Sombra com Paul Stanley do Kiss e Slash do Guns n Roses. Sobre o caminho que cada personagem segue na história, não tive nada a ver com isso. Não escrevi nenhuma delas com idéias prontas de começo, meio e fim. Tentei durante o processo de criação fazer o exercício de acompanhar os personagens sem julgar ou direcionar escolhas.
O seu contrato com a Marvel vai até quando? O que pode adiantar sobre os seus próximos trabalhos para o mercado gringo?
O contrato é de exclusividade e por tempo ou edições. Ainda me resta um ano ou 12 edições.
Não pretendo renovar o contrato.
Se eu continuar com o trabalho no mercado americano, prefiro ficar livre para escolher o que vou fazer.
Você acha possível viver de HQs autorais no Brasil? Vislumbra isso para você no futuro? Além de Xampu e Gutituzt você tem outros trabalhos autorais?
Só de HQs autorais? Não mesmo. Não no Brasil.
E aí vem a pergunta: “Então por que fazer?”
Porque através da HQs posso realizar idéias com texto e desenhos.
Posso fazer isso em casa e escolher meu horário de trabalho.
Com certeza eu receberia um salário melhor se tivesse continuado a trabalhar com agências de publicidade mas não teria a mesma qualidade de vida.
Não espero que as HQs autorais sejam a minha fonte de renda. Seria uma grande surpresa se isso acontecesse.Além de Xampu e Gutigutz tenho outros projetos. Nem todos são HQs. Em breve, poderei dar mais detalhes.
Em entrevista em evento na Quanta Academia de arte em 2007, Roger ainda tinha planos duradouros com os comics:
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Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas. Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?
No momento em que começo a escrever esse texto, são 13h em Roma. Daqui a duas horas, mais exatamente às 10 da manhã no horário de Brasília, está marcado para acontecer o começo do fim. Se você não sabe do que estou falando, explico. Hoje, 22/09/18, é o último dia de funcionamento da Kingdom Comics, loja especializada em HQs e camisetas, que ajudei a fundar 22 anos atrás. Sim, o sonho acabou. Considerando a baixa longevidade das microempresas no Brasil, pode-se dizer até que a Kingdom durou bastante. Mesmo assim, a tristeza é grande.
A loja começou em 1996. Não vou entrar muito em detalhes sobre isso, porque já existe um mini documentário muito bacana sobre isso, feito pela Rafa Rodrigues em 2006. Agora, talvez seja melhor falar um pouco sobre o que aconteceu desse momento da época das filmagens até hoje.
Eu costumava defender que Asterix é a melhor história em quadrinhos de todos os tempos. Hoje, acho que este tipo de categorização não faz o menor sentido, por razões bastante óbvias. Mas, a título de curiosidade, o que eu argumentava?
Muito já foi dito sobre Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, nova investida de Frank Miller ao universo que o consagrou por definitivo em 1986, quando do lançamento da antológica minissérie original. Considerando-se que a HQ permanece incompleta, isso só reforça um fato: Miller segue como o maior e mais influente quadrinista da indústria norte-americana desde Jack Kirby. E isso não é Ki-Suco de groselha. Com a chegada da primeira edição às bancas brasileiras, via Panini, passa a existir a possibilidade concreta de um encontro efetivo com essa nova obra – a menos para aqueles com R$ 9,90 no bolso. Assim, o que proponho aqui é uma série de ensaios, um a cada edição, sempre escritos no calor da batalha. Apesar da perda do status de unanimidade, o volume de polêmicas e discussões geradas por cada movimento de Miller mostra que o velhote (que cronologicamente nem é tão velhote assim, batendo na casa dos 59 anos) ainda tem tinta pra queimar.
Antes de propriamente retomar o intenso trabalho que será reformular a nossa querida Raio Laser em 2015, cabe um post que retome um pouco a origem dos quadrinhos. Quero dizer: que busque mais um mito de origem para os quadrinhos do que qualquer outra coisa. Trilhar um caminho vetorial e teleológico para a História nunca é uma opção muito legal, já que tendemos a condensar o mundo numa visão seletiva (logo, impositiva) e simplista, perdendo tudo o que ocorre ao redor (justamente o que há de mais interessante). Porém, um exercício de fantasia histórica não vai nos fazer mal. Há mais, de tudo que envolve nosso hábito de ler quadrinhos em 2015, no imaginário japonês do séc. XIX, do que talvez se costume considerar. Vamos dissecar isso um pouco .
Certo dia, quando estava elaborando algumas linhas de pensamento para escrever um texto sobre a série Guerra Civil, da Marvel, que estava lendo no momento, eu adormeci. Curiosamente, estas elocubrações bem conscientes e planejadas acabaram transformando-se no mundo absurdo e sem rédeas do sonho. Não tão exótico, mas significativo: um sonho de voo. Este tipo de sonho não é novidade para mim. Desde criança sonho que possuo a habilidade de voar, seja flutuando como um astronauta, dando rasantes como um jato, ou vertendo o céu aberto, como um super-herói. A quantidade de vezes em que mergulhei na experiência do voo (que é contagiante e prazerosa) me fez ter sonhos continuados a respeito deste assunto. Se, em um sonho, eu estava desajeitadamente aprendendo a voar, no seguinte eu já tinha domínio e podia me exibir narcisicamente para as outras pessoas. Depois de centenas de sonhos deste tipo, me tornei um mestre na arte do voo, e passei a uma nova etapa: desenvolver uma ciência do voo, que é refletir, durante o sonho, sobre a habilidade técnica de voar, sua natureza e limitações, etc. A ciência do voo, por sua vez, me despertou para pensar numa ciência do super-herói.
Em vários quadrinhos de Will Eisner, mas especialmente radiografado em sua obra-prima Avenida Dropsie, de 1995, há um fator de complexidade que faz emergir dois patamares de tessitura das histórias. Explico-me: em Dropsie, há um emaranhado incontável de fatores imprevisíveis – incêndios, guerras, suicídios, mortes acidentais, mercado imobiliário, etc , etc – além de outros mais facilmente calculáveis – levas de imigrantes, intolerância étnica, crescimento industrial, etc , etc – que fazem Eisner dirigir o sentido de um bairro em Nova York, de seu precoce estabelecimento no Séc. XIX até a sua ruína, afundada por crises financeiras, manipulações especulativas e invasão de sem-teto, no final do Séc. XX. O significado que o autor queria dar a isso é bastante claro num primeiro plano: as cidades, prédios e estabelecimentos em geral possuem uma história própria, uma trajetória que se assemelha de alguma forma à de um organismo vivo; um organismo formado pelos vivos. Daí sua vivificação do espaço, o uso dos quadros vazados ou sangrados (que fazem a HQ “respirar”), de sua preocupação em trazer vida também à estrutura espacial de formação da HQ como um todo, aproveitando tanto o espaço interno quanto externo dos quadrinhos
Quer dizer que, depois da “polêmica” do texto anterior, você voltou à Raio Laser cheio de esperança de ler outra iluminada crítica do Ciro Marcondes?! Pois você se deu mal! As linhas a seguir falam de lembranças afetivas, de um mangá semi-pirata e de videogame. Se você também leu esse gibi lá nos idos de 1993, deixe seu depoimento na caixa de comentários.
Dando pontapé inicial à QUINTA temporada do querido Lasercast, Diego Gerlach, o quadrinista que o Brasil precisa, abre seu coração macabro para falar sobre sua carreira, influências, bandas de rock, super-heróis e mais um monte de coisas. Revelações sensacionais!
Se no longínquo Brasil pré-pandêmico você era frequentador de feiras de quadrinhos, com certeza passou pela mesa de Marcos Batista. E se você já fez parte dos circuitos mais underground do rock, as chances de ter visto o mesmo Batista num palco não são nada remotas. Agora, se o seu lance é cartum na internet, a possibilidade de desconhecer o sujeito é virtualmente nula. A boa nova é que Batista acaba de lançar seu primeiro livro-solo: O que conto quando conto uma piada. Com curadoria do onipresente Diego Gerlach e design classudo do craque Stêvz, a compilação de mais de 200 tiras e cartuns é um convite ao riso. Duvido que consiga segurá-lo. Dá-lhe, Batista!
Atendendo a um convite da revista Plaf, escrevi um perfil sobre o desenhista José Márcio Nicolosi, veterano funcionário da Mauricio de Sousa Produções, hoje atuando como diretor de muitos dos projetos de animação da empresa, mas, entre meados da década de 1970 e o comecinho dos anos 1980, um dos mais destacados artistas – para alguns, o melhor – a ilustrar os personagens da Turma da Mônica.
Usei o pretexto do artigo para a revista para conhecer melhor o Nicolosi (Zé Márcio para os íntimos), que gentilmente respondeu a 30 perguntas por e-mail, em agosto de 2019, que utilizei como base para o meu texto – e que, aliás, foi publicado na edição 4 da Plaf, lançada em abril de 2020. Passado um ano da publicação do meu texto na edição impressa da revista, retiro essa entrevista da gaveta na expectativa de que ela encontre muito mais fãs do Nicolosi por aí. Atentem que, em alguns casos do que você lerá abaixo, duas perguntas são respondidas na mesma resposta.
Paulistano, nascido em 6 de novembro de 1958, o desenhista está na ativa profissionalmente desde 1974. Talvez você reconheça seu traço do antigo gibi do Pelezinho, da paródia Cascão Porker (sua volta aos quadrinhos MSP, depois de década afastado), da adaptação em livro ilustrado (estrelando Cebolinha e o próprio Mauricio) de O Pequeno Príncipe, ou ainda dos dois álbuns de sua série autoral Fetichast (lançados em 1991 e 2007). Mas, se você teve sorte, conheceu o traço de José Márcio Nicolosi lendo os gibis do Cebolinha, no final dos anos 1970, quando, indiscutivelmente, as HQs mais bem desenhadas da turminha foram produzidas.
Há mais de duas décadas, Galvão Bertazzi esfrega na cara de todo mundo – em jornais ou na internet – quão besta a vida é. Ácido até a medula, o roqueiro que se criou em Goiânia e partiu pra Floripa tem sido um dos mais consistentes autores de tiras do Brasil. Tanto que durante o período em que a deusa-maior Laerte ficou afastada da Folha devido à Covid 19, foi Galvão o autor escalado para substituí-la. Passou no teste com louvor. Nessa entrevista ele relata a experiência e fala ainda de HQs longas, empreitadas editoriais, mercado, artes plásticas e desenhos animados. Assunto não falta pro sujeito. (Márcio Jr.)
A trama da graphic novel Psicopompo gira em torno da disputa entre dois grupos de crianças por um campinho de futebol em um morro carioca. Mas isto é apenas o que se vê no plano terreno desta HQ, cuidadosamente burilada durante seis anos pelo escritor Octavio Aragão e pelo ilustrador Carlos Hollanda. Sinalizando atributos de Fantasia, Terror e Esoterismo, o título da obra tem origem na palavra grega psychopompós - junção de psyché (alma) e pompós (guia) - usada para denominar o arquétipo que atua como condutor das almas entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Eu bati um papo com os autores durante o lançamento – virtual, realizado em meio à pandemia do COVID-19 – sobre o longo processo de desenvolvimento da HQ, seu enredo impregnado de analogias e simbolismos, e a peculiar estrutura visual da sua narrativa.
Imagine que as principais experiência de sua vida – de suas namoradas/os aos seus empregos e lugares que conheceu – passem sempre pela sua coleção de quadrinhos. Ou sua coleção do que quer que seja: discos de vinil, obras de arte, bonecos, etc. Sua vida é mediada pela lógica inconsútil do colecionismo: todas suas memórias remetem a um quadrinho, todos os seus quadrinhos empregam alguma lembrança. Cada assinatura na folha de rosto de um livro te remete a um evento, as dedicatórias te conduzem a lágrimas há muito derramadas.
Há uma poesia nisso tudo, uma trágica poesia, que O Colecionador (Editora Hipotética), do roteirista Djeison Hoerlle, do ilustrador Dieferson Trindade e do colorista Juliano Dalben, procura examinar.
Ciro Inácio Marcondes escreve sobre o primeiro romance gráfico de Aline Zouvi, “Pigmento”, uma obra sofisticada que traduz imagens, símbolos e tatuagens em história de amor. Nasce clássico!
Bruno Porto percorre os 78 anos de vida profissional de um dos mais encantadores e prolíficos quadrinistas do mundo, o português José Ruy. Falecido semana passada aos 92 anos, o autor de dezenas de HQs de aventura e quadrinizações de obras literárias e biografias estava em plena atividade e deixa trabalhos inéditos.
Andei por Entre as Frestas e te Trouxe Flores, Pedras e Algumas Miudezas, livro intemedial de Paulo Crumbim, procura levar a linguagem dos quadrinhos ao limite das outras linguagens. Uma grande conquista do quadrinho experimental brasileiro.
Recentemente transferido para Santiago por motivos de trabalho, não demorei muito para começar a procurar por quadrinhos chilenos. A esse respeito, posso dizer que já me senti bem-vindo logo na chegada. Afinal, a casa que alugamos para passar os primeiros dias tinha uma pequena coleção de Condorito, personagem marcante para a nona arte local e que já arrebata leitores novos e adultos desde 1949. Antes de continuar, é importante dizer que o colaborador da Raio Laser Gustavo Trevisolli já havia feito, em 2012, um panorama da HQ do país sul-americano. Minha intenção, portanto, será a de complementar o texto anterior, tentando informar como está a situação hoje. Você poderá ler o primeiro artigo aqui. De quebra ainda vou inserir, no final, pequenas resenhas com alguns gibis chilenos que me chamaram a atenção.
A primeira parte de minha busca por quadrinhos levou-me às bancas da capital, mas o resultado mostrou-se desapontador. Em primeiro lugar, este tipo de negócio mostra-se bastante decadente e as revistas parecem artigos em extinção. Percebi que gêneros alimentícios de segunda e brinquedos mixurucas gradualmente empurram publicações impressas para escanteio. Houve, inclusive, uma banca que estava mais para quitanda de frutas que para vendedora de revistas e jornais. É, pelo visto não é só no Brasil que as bancas estão diversificando as mercadorias oferecidas, numa clara desvantagem para o público leitor, grande perdedor do embate entre os fornecedores de produtos para quiosques e bancas. Nas de Santiago, quando aparece alguma coisa, é basicamente material estrangeiro traduzido para o espanhol, como super-heróis Marvel e Star Wars. Além disso dá para encontrar o incontornável Condorito e algumas edições de Hagar, o Horrível. Em suma, muito pouco.
Multimodalmente, a capa deixava claro o que ia acontecer: “A LUTA A QUE VOCÊ NUNCA PENSOU ASSISTIR!”. Afinal de contas, eram dois super-heróis brigando ENTRE SI! Isso pode parecer normal nos dias de hoje, e sempre foi comum nas HQs da Marvel (onde os marrentos novaiorquinos se estranhavam o tempo todo diante dos mais singelos mal-entendidos), mas na DC todos eram amigos, ou melhor, superamigos. Não havia chance de dois Super Amigos (o desenho animado estreara no Brasil três anos antes, e a EBAL publicava o gibi homônimo) brigarem sem que um ou outro ou ambos estivessem sendo controlados mentalmente por um Brainiac da vida (ou sob os efeitos da kriptonita prateada). Um outro motivo por que essa era A LUTA A QUE EU NUNCA PENSARA ASSISTIR é que, diacho, a Mulher-Maravilha é uma MULHER e a toda criança SABE que em menina não se bate! Como assim, o Super-Homem vai BATER nela?!?!
Splash page de “Super-Homem versus Mulher-Maravilha” (Gerry Conway, José García-López e Dan Adkins, 1978): A trama de Super-Homem versus Mulher-Maravilha se passa após a entrada dos EUA na Segunda Guerra e gira em torno do conflito de opiniões entre os dois protagonistas acerca do desenvolvimento da bomba atômica: enquanto a Filha da Ilha Paraíso considera inconcebível o poder de destruição do artefato, o Homem de Aço está disposto a protegê-lo em prol dos valores estadunidenses. Saem na mão mas têm que se unir para impedir que dois supervilões do Eixo - Sumo e Barão Blitzkrieg, criados para a aventura - se apoderem dela. A EBAL publicou a HQ no Brasil no final de 1978 como seu Almanaque de Quadrinhos 1979, no mesmo formato tablóide de 27 cm x 36 cm adotado para confrontos épicos do Kryptoniano com o Homem-Aranha (1977), Muhammad Ali (1979) e o Capitão Marvel (1980).
A imagem de Salvo saindo de casa pela primeira vez, no meio da neve tóxica, portanto, poderia se tornar signo de uma realidade que tensiona questões propostas por Godard no pequeno filme: a regra quer ocultar a exceção de todas as formas, mas o que ocorre quando exceção e regra tornam-se vítimas de ambiguidades quase insolúveis? A loucura narcísica do presidente, uma exceção que se torna regra; e a ciência, vista como “autoritária”, é regra que vira exceção. Diante de tal angústia, a inquietação interior de Salvo, que não pode ser traduzida senão como o medo, filha de Deus. (CIM)
O que eu vejo nos quadrinhos que se difere das outras formas de expressão? É uma pergunta dura, cheia de armadilhas, mas seu aspecto capcioso está, na verdade, correto: o quadrinho é a forma de arte que nos permite abolir uma linha distintiva entre as subjetividades infantil, adolescente e adulta. Permite uma formação cíclica, nietzschiana, de uma ética humana sem fronteiras disciplinares, institucionais. Charlie Brown, Mônica, Calvin, Mafalda: são crianças que rompem estes muros que nos formatam como “cidadãos”. E Crumb, Alan Moore, Al Capp, etc., são crianças grandes que imaginam e escrevem para nos alertar disso. E assim falou Zaratustra.
Escrever sobre quadrinhos independentes ou de selos/editoras pequenas é um deleite porque essas obras não estão marcadas ainda pela apreciação e mercantilização do circuito viciado de influencers falando de gibi por aí. Assim como o rock virou uma espécie de mercado de nicho, direcionado para pessoas muito especializadas - porém, ressalto, sem dever para os gigantes nos ombros do quais eles andam (quer dizer: o rock de hoje é tão bom quanto o de sempre, porém nichado) -, os quadrinhos indie primam por maior experimentação, menos a perder, dedicação de fã (e não de estrela) e autores mais inteirados sobre o que está rolando por aí. Daí mais uma seleção bacanuda de indie rockers dos quadrinhos para os quais vale uma boa olhada, incluindo o gibi de Dona Dora “exposed” pela extrema direita no FIQ 2024. Ah, tem um gibi chinês da Comix Zone no meio aí, culpa do Márcio Jr., que demora demais pra entregar suas resenhas. (e tenho dito!) (CIM)
Nosso editor Ciro I. Marcondes retorna à crítica para falar sobre o mundo desalmado de Damasco, de Alexandre S. Lourenço e Lielson Zeni, além resenhas curtas para três ótimos quadrinhos brasileiros recentes.
Mais uma vez sob o ensejo do Dia do Quadrinho Nacional, esta edição das “rapidinhas” (pacote de resenhas curtas - ou nem tanto - da Raio) aborda a produção brasileira. Alguns autores são velhos conhecidos (aproveitem para clicar nos hiperlinks e conferir resenhas antigas para obras deles), outros estreiam por aqui. Uma de nossas intenções em 2023 é acelerar a prática do texto escrito novamente (sem abandonar o Lasercast, claro!), valorizando essa sofrível tradição em crítica de quadrinhos, que parece ter se tornado mais rara que encontrar um canguru no meio da floresta amazônica. E sem chatGPT, é claro! ;) (CIM)
por Ciro Inácio Marcondes, Marcão Maciel e Bruno Porto
Dois meses depois da cobertura exclusiva RAIO LASER/EUROCOMICS em Angoulême, com alguns dos gibis adquiridos devidamente lidos, vale a pena compartilhar nossas impressões (na forma de crítica) sobre estas novidades. Portanto, aí vão cinco contribuições minhas e duas de Bruno Porto neste sentido – um quadrinho francês, dois belgas, um israelense e três espanhóis. Resenhas RAIO no padrão de sempre. (CIM)
Estamos de volta com mais uma rodada de rapidinhas. E, novamente, uma edição especial só com gibis nacionais para dar nossa singela contribuição aos festejos do dia do quadrinho nacional. E para abrir esta edição começamos falando da sexta Bienal de Quadrinhos de Curitiba, que ocorreu no segundo semestre de 2021. Especificando, vamos iniciar com os projetos desenvolvidos na Residência Notas e Traços da Bienal. No dia 05 de Novembro de 2021 aconteceu a exposição dos trabalhos que foram elaborados nesta Residência, que deu continuidade online para uma proposta de trabalho conjunto que já foi desenvolvida presencialmente em outras edições. Desta vez, capitaneada pelos grandes Luiz Gê e Arrigo Barnabé. O tema da Bienal era exatamente a relação entre música e quadrinhos, inspirado nas históricas colaborações entre este monstro das artes gráficas que é o Gê e o Kaiju das experimentações musicais que é Barnabé. E os convidados para este desafio foram as duplas Gabriel Góes e Fernando Nicknich, Silvanny Sivuca e Marília Marz, e Grazi Fonseca e Rodrigo Stradiotto. O objetivo dessas linhas não é esgotar estas obras, mas sim convidar todos a experimentá-las. (LN)
por Márcio Jr, Marcos Maciel de Almeida, Bruno Porto e Lima Neto
Tá de quarentena, em casa, na medida do possível e do saudável? Ótimo, permaneça assim. Para você nem precisar sair para comprar gibi, a RAIO LASER faz um delivery de quatro resenhas curtas de Quadrinhos Digitais que você pode conferir do conforto e da segurança do seu lar. #FicaEmcasa #LeiaQuadrinhos (BP)
por Lima Neto, Bruno Porto, Márcio Jr. e Ciro I. Marcondes
Em meio à pandemia, o show não pode parar. Continuamos tocando violino enquanto o navio afunda. Por aqui, mais pequenas resenhas de quadrinhos nacionais. Tem uns de pegada mais abstrata, tem lançamentos da editora Mino, tem Ugrito da LoveLove6, tem Periferia Cyberpunk. Dá uma olhada! (CIM)
As Rapidinhas estão entre as mais tradicionais colunas da RAIO LASER. Quem não gosta de receber um pacote fresquinho de resenhas curtas, sobre quadrinhos dos mais mainstream ao mais independente, sempre com franqueza e qualidade? Desta vez são 13 novos textos. Leia a compartilhe o que te interessar!
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?