por Pedro Brandt
Se tivesse que escolher salvar de um incêndio uma revista
em quadrinhos ou um disco, Evandro Vieira não teria dúvida: “Um quadrinho, é
claro! Música é mais fácil conseguir de novo. Tenho um exemplar de Minha vida, do Robert Crumb, autografada
pelo autor. Sei bem onde está guardado para pegar e fugir com ele!”. Rock e
quadrinhos têm sido o pão com manteiga deste brasiliense desde a infância.
Hoje, aos 42 anos, ele reúne uma considerável coleção de gibis, CDs e artigos
relacionados, como bonecos e estatuetas de músicos, heróis e (principalmente) vilões.
O mais recente item do acervo é de autoria do próprio Evandro e dialoga
diretamente com essas duas paixões. O título já escancara: Rock vs.Comics.
Há 12 anos à frente da banda de hardcore Quebraqueixo,
Evandro já foi vocalista dos grupos Macakongs 2099 e Royal Street Flesh. Alguns
de seus amigos de adolescência se tornariam roqueiros famosos nas bandas
Raimundos e Little Quail, duas das mais populares de Brasília durante os anos
1990. Evandro já colocou a voz em seis CDs e Rock vs.Comics é a quarta publicação com seu nome – ou o pseudônimo Evandro
Esfolando – na capa.

A estreia foi o livro
Esfolando
ouvidos (2005), no qual conta memórias, causos e bastidores do rock em
Brasília, especialmente das cenas punk e hardcore, desde meados da década de
1980 até o começo dos anos 2000. Depois, veio a coletânea de contos
Grosseria refinada (2008). Uma das
histórias ali presentes,
Trabalho do
Galinha Preta, foi transformada no longa-metragem
Um assalto de fé (2011).
Quebraqueixo
– A banda desenhada saiu há quase três anos e batiza tanto o segundo CD da
banda de Evandro quanto a revista em quadrinhos que o acompanha – nas páginas,as
letras do quarteto foram transformadas em HQs pelas mãos dos melhores quadrinistas
de Brasília.
Rock vs.Comics
não trata de uma disputa de um contra o outro, pelo contrário. Na publicação,
Evandro apresenta resenhas ilustradas de shows de rock e festivais de história
em quadrinhos dos quais participou entre 2010 e 2012. O estalo para a criação
de Rock vs.Comics, no entanto, surgiu
de um embate. Na noite de 30 de março de 2011, ele teve de escolher entre
assistir a um show do Iron Maiden ou a uma palestra do cartunista argentino
Liniers. Como já tinha visto a Donzela de Ferro ao vivo (na primeira vez que a
banda inglesa passou por Brasília), optou pelos quadrinhos.

Evandro conta que outra inspiração para
Rock vs. Comics veio da leitura de
O pequeno livro do rock, de Hervé Bourhis, no qual o francês apresenta com ilustrações os principais
personagens, discos e episódios do gênero musical. “Achei a ideia incrível e
pensei em fazer algo parecido com as histórias que eu conto no
Esfolando ouvidos. Comecei a fazer uns
ensaios, até para alimentar o meu blog (
esfolando.wordpress.com),
e vi que a coisa funcionava”.
Ao longo das 34 páginas da revista, o autor apresenta 25
resenhas ilustradas (em preto, branco e cinza) que vão desde shows de alguns de
seus ídolos, como JelloBiafra (ex-vocalista dos DeadKennedys) e a banda
SuicidalTendencies até de artistas que passam longe de seu gosto musical, como
Bob Dylan e Ringo Starr. “Posso nem gostar muito da banda, o importante é ver
um show maneiro”, pondera.
Disney, Mad, Moebius

A formação de Evandro enquanto leitor de quadrinhos
começou na infância com os personagens de Mauricio de Sousa e Walt Disney.
Posteriormente, a satírica revista
Mad
exerceu grande influência sobre ele. “O humor é uma ótima porta de entrada para
o universo dos quadrinhos. E a partir dele você pode escolher qual caminho
trilhar. Eu nunca gostei muito de super-heróis, sempre curti mais quadrinhos
europeus, tipo as coisas do Moebius, e autores mais underground”, conta.
Autodidata, Evandro tem um desenho simples e minimalista
(não confundir com tosco e sem estilo) e suas histórias são rápidas e direto ao
ponto como uma música de hardcore. “Tento caracterizar os personagens com o
mínimo de traços possíveis”, comenta. Até por isso, os detalhes fazem toda a
diferença em suas resenhas ilustradas. “Eu sempre me desenho usando camiseta de
alguma banda. A escolha da banda, geralmente, tem alguma coisa a ver com a
história”. Cada resenha tem uma diagramação diferente e é possível perceber com
o passar das páginas uma busca pela experimentação de novos formatos de contar
uma história – prática que Evandro pretende expandir na próxima temporada de Rock vs. Comics. “Como no Brasil ninguém
nunca fez um quadrinho com essa proposta, eu quero sentir a resposta do público
– posso ser considerado um idiota ou um pioneiro. Mas fazer esses quadrinhos é
uma paixão e, independente de qualquer coisa, pretendo continuar produzindo,
nem que seja só para colocar no meu blog”, sentencia.
Publicado com o auxílio do FAC (Fundo de Apoio à
Cultura), Rock vs. Comics será
lançado no Domingo, 24/03, no Espaço Laje (708 Sul Bloco A, casa 47 - Brasília). A entrada é gratuita e a revista estará
à venda no local por R$ 15.
Cinco quadrinhos com rock:
Lôcas – Maggie, a
mecânica, de Jaime Hernandez
Derrotista,
de Joe Sacco
Red Rocket 7, de Mike Allred
Top 5 Evandro Esfolando:
Rock: DeadKennedys, Raimundos, Ramones, Ratos de Porão e SuicidalTendencies.
Comics:
Alan Moore, Angeli, Robert Crumb, Moebius e Liniers.
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?