À queima-roupa: X-9 republicado
/por Pedro Brandt
A popularidade do personagem de história em quadrinhos Agente secreto X-9 no Brasil deixou pelo menos dois legados na cultura do país. Em 1944, foi fundada, em Santos (SP), uma escola de samba que leva o nome do herói. A agremiação inspirou o surgimento, em 1975, de uma outra escola com o mesmo nome na capital paulista. A alcunha também virou, especialmente, no Rio de Janeiro, sinônimo de alcaguete, delator.
Independentemente de seus significados mais conhecidos hoje em dia, X-9 sobreviveu na memória de gerações de leitores. Para os mais jovens, no entanto, ele permanece, quando muito, uma referência em enciclopédias sobre a história das HQs — afinal, há décadas o agente secreto não é publicado aqui. Quem é X-9? Qual é sua aparência? Por que ele foi tão popular? O sumiço do personagem do mercado editorial brasileiro dificulta as respostas.
Por isso, é tão bem-vinda a publicação que a Devir acabou de colocar nas livrarias. Agente secreto X-9 reune as histórias completas publicadas em 1934 e em 1935 e produzidas pelos pais do protagonista, o escritor Dashiell Hammett e o desenhista Alex Raymond.
Em informativo texto sobre a história do personagem, o editor Leandro Luigi DelManto conta que X-9 surgiu como uma resposta ao sucesso de outro justiceiro dos quadrinhos: Dick Tracy. Para fazer frente à criação de Chester Gould, o magnata da imprensa William Randolph Hearst, dono da King Features Syndicate (responsável por várias das mais populares tiras de quadrinhos da época), contratou um dos mais lidos autores de romance de mistério daquele momento, Dashiell Hammett (de O falcão maltês). Para acompanhar seus roteiros, foi escalado o desenhista Alex Raymond, criador de Flash Gordon.
Tiros e femmes fatales
Bem ao estilo da literatura policial e dos filmes de gângster da época, Hammett criava histórias com muita ação, tiroteios, perseguições automobilísticas e até aeronáuticas, nas quais o charme do sempre elegante X-9 era irresistível para as mulheres — no geral, femmes fatales com segundas intenções, por quem ele não mostrava interesse. Seu instinto de justiça o fazia levar um caso até as últimas consequências. Dexter (o nome usado por X-9, mas não necessariamente sua verdadeira identidade) não mostrava piedade com os criminosos. E não são poucos os bandidos mortos em trocas de tiro, muitas à queima-roupa.
Mais do que a ação, eram os “ganchos” para a continuação da história — vale lembrar que elas eram publicadas de forma seriada, em tiras de jornal — que fisgaram tantos admiradores. Para se ter uma ideia, O caso Powers, a primeira aventura do agente secreto, levou sete meses para ser concluído, algo raro para os padrões da época, com histórias mais curtas e diretas. E justamente para tentar facilitar para os leitores, os editores da King Features começaram a fazer alterações nos textos de Dashiell Hammett — que logo perdeu interesse em continuar na série, abandonando-a em 1935. Alex Raymond, muito mais afeito a seu trabalho com Flash Gordon e Jim das Selvas, seguiria o mesmo caminho.
Mas ainda não seria o fim do Agente Secreto X-9. Até 1996, quando a tira deixou de ser feita, ele passaria pelas mãos de outros talentosos autores, como Archie Goodwin e Al Williamson.
A edição da Devir merece elogios não só por trazer de volta o personagem, apresentando-o a uma nova geração de leitores e matando as saudades dos antigos, mas pelo acabamento do álbum, em papel de boa gramatura e impressão em sépia — e as opções de capa dura e em brochura. O texto de introdução ajuda a entender o contexto em que o herói surgiu e a biografia dos autores no fim do livro só realçam o quanto X-9 estava em boas mãos.
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?