BEST OF DA RAIO LASER: melhores leituras de 2016

Assim como fizemos no ano passado, vamos recobrar 2016 a partir da radicalidade da memória, da aleatoriedade provocada pelo ritmo alucinante que foi esse ano louco. Os quadrinhos foram se acumulando, e coisas velhas, coisas novas, coisas longínquas, coisas nacionais, tudo isso foi sendo despejado como caos da informação, como um vendaval descontrolado de quadrinhos. Assim, é hora de organizar essa porra e praticar aquele velho exercício de produzir sentido através da experiência. Na Raio Laser é assim: escreve quem quer, quando quer, como quer. E assim são nossas listas. Eu e o Marcos no propusemos este exercício este ano. E aí estão nossas listas, sem ordem qualquer, radicalmente pessoais. É a nossa chance de arrumar a casinha, de processar a coisa toda, e de apresentar alguns truques, como sempre. Boa leitura! (CIM

por Ciro I. Marcondes e Marcos Maciel de Almeida

HELL BREAKS LOOSE: LISTA DO CIRO

1 – L’ÉGLISE ET L’ETAT, VOLUME 1: UNE HISTOIRE DE CEREBUS (A Igreja e o Estado, Volume 1 – Uma história de Cerebus) – Dave Sim (Vertige Graphic, 2012 [1987]): o canadense Dave Sim é um dos mais controversos enfants térribles dos quadrinhos. Guru da autopublicação nos anos 80, tretou com o Comics Journal e inúmeros leitores por conta de suas opiniões radicais. Foi internado após excessos com psicotrópicos. Chegou a desafiar (na vera) o quadrinista Jeff Smith para uma luta de boxe. O background, no entanto, não vem ao caso (ou talvez a ajude a explicar) quando vamos mergulhar em sua obra Cerebus, uma coleção megalítica de vários tomos publicada entre 1986 e 2004, totalizando nada menos que 6000 páginas de um mesmo quadrinho.

Cerebus, neste sentido, é o Em busca do tempo perdido desta forma de arte: alguns poucos ousarão tentar lê-lo. Menos ainda conseguirão terminá-lo.

Em outro sentido, porém, Cerebus em nada se assemelha à delicada obra de Proust. Certo, eu tive acesso apenas a uma versão (traduzida para o francês) do primeiro volume do arco A Igreja e o Estado (que é o terceiro longo arco da série), mas só isso já são 600 páginas de quadrinho. Cerebus é um orictéropo (aardvark, um mamífero africano) antropomorfo que, nas primeiras histórias, atuava como uma paródia de Conan. Dave Sim foi, porém, progressivamente, transformando um barbárico mundo medieval em uma sociedade incrivelmente complexa com incontáveis desdobramentos de poder, refletindo fortemente as esferas política e religiosa. Neste volume, o mal-humorado e beberrão personagem vai sendo manipulado por grupos políticos, aristocratas, amantes e religiosos para sair de um estado de total abandono (após antes ter sido monarca do reino de Iest) até chegar à posição de Papa.

O humor de Sim é ácido e selvagem, e sua ironia cheia de inferências eruditas. Os quadrinhos mainstream são frequentemente demolidos pela perspectiva fanática de autor e personagens (basta checar, neste volume, Artemis, uma paródia grotesca do Wolverine). A linguagem em quadrinhos é hermética e minuciosamente elaborada. Cada página individual tem um conceito e a preocupação com o equilíbrio entre a qualidade intelectual da obra e seu senso de humor blasfemo é quase obsessiva. Não é uma leitura fácil, eu vos advirto. Sim mistura inúmeros registros diferentes e o cenário político do universo de Cerebus é tão amplo que toma tempo até fazer sentido na cabeça do leitor. O orictéropo chega a escrever um tratado sobre como governar, que se apresenta integralmente entre as páginas dos quadrinhos.

Com algum esforço, a leitura progride e o todo conceitual, incluindo sua visão sobre um muito variado leque de assuntos, vai se abrindo. Quanto mais se lê Cerebus, mas se tem fome de lê-lo, e o que antes parecia uma peça de literatura se transforma num tratado social e político dos nossos tempos. Em Cerebus, nada é literal e todo tipo de quebra com a quarta parede é recurso para elaboração do discurso da HQ. O efeito “quadrinhos sem limites” dos comix underground (origem de Sim) transparece aqui, como se o autor fosse espécie de Gilbert Shelton (Wonder Wart-Hog) intelectualizado. Enfim, uma das mais agudas visões de política e religião dos quadrinhos, realizada por uma das masterminds do meio. (CIM)

2 – BULLDOGMA – Wagner William (Veneta, 2016): sabe aquelas obras que você ama e odeia ao mesmo tempo, com um sentimento concomitante que compartilhe inteiramente as duas apreciações (do mesmo jeito que Jesus meio que seria, ao mesmo tempo, todo Deus e todo humano), sem que uma coisa necessariamente interfira na outra (Dançando no escuro é um bom exemplo...)? Pois bem: não é que Bulldogma seja exatamente isso. Não há muito o que criticar sobre o exímio trabalho de quadrinização de Wagner William neste romance gráfico. Ele usa uma proposta hipermidiática (como se o livro fosse um repositório de hiperlinks) para costurar (quase digitalmente) a persona de sua protagonista pós-moderna, a demasiado humana Deisy, a Adèle Blanc Sec “jovem adulta” dos anos 10. Ela é solteira, designer, ilustradora, pichadora, bissexual, tem um bulldog, etc, etc. Poderia parecer um clichê, mas William usa e abusa de maneiras inventivas para sofisticar o universo desta personagem: interfaces de Internet, celulares, cartazes, pichações, toys. Além disso, como se fosse uma película que recobre o drama mundano contemporâneo da personagem, há um mistério sci-fi pulp com alienígenas que nunca efetivamente se revela ou resolve.

Bulldogma é contagiante e muito impactante em sua jornada pelas telas diferentes de representação em quadrinhos: telas de arquivos de computador, telas de chats no FB, telas dos requadros, telas de TV, de videogame, de visões subjetivas, outras delirantes, alucinatórias. Infelizmente, é também muito autoindulgente, e as grossas camadas de metalinguagem da HQ me parecem não apenas excessivas e desnecessárias, como também uma estratégia guarda-chuva para proteger o próprio autor de suas inseguranças. E isso é bastante incômodo. Daí a ambiguidade estranha no fruir das páginas. Não apenas a protagonista (sim, nada plana e enredada por um rico universo ficcional) ressoa certa antipatia, como parece também antipática a empáfia hipsterista da história. Francamente, Bulldogma deve ser a HQ com mais referências e citações por cm² da História. E a carga pesada de metalinguagem (Deisy está escrevendo uma graphic novel que de certa forma é o próprio Bulldogma, etc.), procurando prever e antecipar as críticas a estes excessos todos, tornam a coisa um pouco broxante e enfadonha.

Não que estas referências sejam palha ou obtusas. William sabe costurar muito bem um grande volume de erudição no texto em quadrinhos, como se isso tudo fizesse também parte desta estrutura de hiperlinks. Porém, isso soa como se ele precisasse esconder sua incapacidade de elaborar efetivamente uma história por trás de uma visão feminina que, mais atrás ainda, é a sua própria. Daí também a necessidade de se justificar esta posição com um monte de embromação retórica posicionada meio que ironicamente dentro da boca dos personagens. É por isso que, apesar da fantástica visão de quadrinhos que o autor apresenta na tessitura deste romance gráfico, seu final é frustrante porque este dispositivo de autoblindagem impede que a coisa chegue a qualquer lugar.

Enfim, a nuvem de formatos e referências, incluindo aí o esvaziado e supostamente metafórico plot alienígena, denuncia sim a desorientação do autor, mas, para o bem da HQ, reflete-se também fortemente em sua personagem. Mais do que uma história cult, Bulldogma é um tratado pós-moderno sobre infelicidade, solidão e vazios afetivos nos centros urbanos dos nossos dias. Sua aversão à interpretação (“Você está muito mais preocupado em chegar em algum lugar do que simplesmente estar lá”) é um sintoma que somatiza na própria Deisy. Quase por acidente, portanto, em sua densa fragmentação, Bulldogma alicerça coerência ao unir a própria falta de coerência comum a autor e personagem. Ambígua, sim, mas profundamente provocativa e inteligente, esta HQ merece certamente um lugar entre as melhores leituras do ano. (CIM)

3 – VALERIAN, AGENT SPATIO-TEMPORAL: LA CITÉ DES EAUX MOUVANTES (Valerian, agente espaçotemporal: a cidade das águas movediças) – Jean-Claude Mézières e Pierre Christin (Dargaud, 1977 [1969]): a chegada de um filme adaptado de Valerian dirigido por Luc Besson (a ser lançado em agosto de 2017) trouxe nova atenção a esta HQ clássica, forte precursora da sci-fi na cultura pop. Na verdade, Valerian foi um dos principais consolidadores da space-opera em mídias visuais, e sua influência sobre Star Wars não é lenda urbana. Além disso, é a série mais longeva da HQ franco-belga que continua sendo publicada por seus autores originais. Isso me motivou a ler mais um volume encadernado, que é a segunda aventura do herói e sua parceira Laureline. Publicado originalmente na Pilote em 1969, em A cidade das águas movediças podemos ver o esplendor da arte de Jean-Claude Mézières em seus dias de ouro: mais caricata do que se tornaria posteriormente, com enorme riqueza no detalhamento de personagens e cenários, além de intensa imaginação para figurinos de época e gadgets espaciais.

Christin (que escreveu nada menos que Partida de caça, com Bilal), mestre absoluto da sci-fi, faz Valerian viajar no tempo em busca do psicopático Xombul, que retornou a uma Nova York pós-apocalíptica do ano de 1986 (!). A cidade está toda inundada (os cenários são surpreendentes e espetaculares) e Valerian precisa atravessá-la de barco, enfrentando escroques neo-hippies e um certo líder do submundo (e bandleader ocasional) chamado Sun Rae – inspirado no jazzista de vanguarda e filósofo new age Sun Ra. Desventuras cada vez mais insanas (e visualmente deslumbrantes) vão se sucedendo, e até a então jovem cidade de Brasília aparece na bagaça (como centro utópico de reunião dos líderes mundiais no cenário pós-apocalíptico). Parece maneiro o suficiente? Valerian pode parecer datado e ingênuo hoje em dia, mas é o clássico exemplo do tipo de obra que leitores “modernos e descolados” desprezam, sem saber que estão ignorando um verdadeiro tesouro de possibilidades para um bom quadrinho de aventura. (CIM)

4 – MORT CINDER – Hector Germán Oesterheld e Alberto Breccia (Clarín, 2004 [1962-4]): Mort Cinder é um homem que, ao morrer, renasce em outra época, mantendo suas memórias, infinitamente. As impressionantes histórias das memórias deste homem são relatadas a um velho antiquário londrino (Ezra Winston), que as desperta no imortal com seus objetos antigos. Mort Cinder faz parte da fase mais madura de Oesterheld, o mais importante roteirista de quadrinhos argentino, e vê a arte do gigante Breccia no auge, uma profusão de rabiscos sombrios e expressões paralisantes. Publicada de maneira seriada em Misterix no início dos anos 60, Mort Cinder é um passo além em relação à obra mais famosa Oesterheld, O eternauta: aqui, já não cabem mensagens verossímeis ou tentativas de estruturar um universo muito coerente. O imortal e seu velho amigo antiquário são pura metáfora, puro subterfúgio para Oesterheld viajar no tempo e no espaço (o Egito antigo, a Babel bíblica, o período colonial, etc.) e produzir poderosos contos de perfil sociológico, filosófico, humanista. Uma obra inigualável. Em breve mais sobre Mort Cinder por aqui! (CIM)

5 - AVENTURAS NA ILHA DO TESOURO - Pedro Cobiaco (Mino, 2015): salto selvagem e incontrolável no imaginário lisérgico dos millenials. Leia a crítica completa aqui.

6 – CIDADE DE VIDRO DE PAUL AUSTER - David Mazzucchelli e Paul Karasik (Via Lettera, 1998 [1994]): Cidade de vidro, a novela que inaugura a famosa “trilogia de Nova York” do grande autor americano Paul Auster, é como um novelo interminável de inferências metalinguísticas sobre a origem da fala, das palavras e da linguagem encaixadas dentro de um romance noir de banca, folhetinesco. Mesmo como literatura (onde a capacidade de abstração intelectiva é muito grande), lança um desafio à compreensão. O que dizer então de uma adaptação em quadrinhos? Esta graphic dos anos 90 é um exemplo paradigmático a respeito de como fazer a literatura render em  quadrinhos. O personagem principal, Quinn, é um escritor de romances pulp de detetives que certo dia recebe uma ligação em que o confundem realmente com um detetive, chamado... Paul Auster. A partir daí vamos afundando num labirinto metafísico e metalinguístico em que se confundem elementos de cultura popular (pessoas que passam 20 anos em porões), bíblica (a Torre de Babel), literária, filosófica, etc. Mazzucchelli está em grande forma, e as soluções visuais para as charadas e enigmas abstratos propostos pelas mentes devaneantes da história são intensas, imersivas, de tirar o fôlego. Talvez seja o seu trabalho mais equilibrado, e sem dúvida um ponto de virada em sua carreira, hoje ainda mais prestigiada com o genial Asterios Polyp. Para os que pensam a adaptação em quadrinhos, é hora de reler esta pequena obra-prima, que anda um tanto esquecida. (CIM)

7 – PAU E PEDRA – Peter Kuper (Quadrinhos na Cia., 2016): Kuper é um mestre do silêncio e do surrealismo, professor de Harvard e um artista tão talhado que a notícia de um lançamento seu é garantia de coisas muito acima de média. Ainda que ele nunca repita a qualidade da análise social (por meio da metonímia em quadrinhos) que realizou no insuperável O sistema, sua inventividade para bolar novos formatos de quadrinhos mudos parece não ter fim. Neste Pau e pedra, ele deixa de lado o experimentalismo obsessivo para contar uma história mais direta. Ao invés de um silêncio por meio de símbolos, um silêncio pro meio de arquétipos. Assim, sem usar palavras, ele retorna a uma ancestralidade primordial, em que seres de pau e pedra parecem travar a primeira história de opressão, a primeira rebelião e a primeira guerra do mundo. O fato de os seres de Kuper serem feitos de materiais brutos torna este ambiente ainda mais longínquo e primitivo, eons geológicos de volta a um passado de realidade mágica. A arte é elegante e a alternância entre o P&B e as cores é habilmente disposta numa programação para nos maravilhar e surpreender. Mesmo sendo um trabalho menor de Kuper, Pau e pedra é uma de suas HQs mais versáteis. Ao mesmo tempo em que o mundo arquetípico dela pode servir para educar uma criança, realiza também uma reflexão sóbria e implacável sobre temas como a tirania, o extrativismo e a escravidão. Go silent! (CIM)

8 - THE COMPLETE ELF QUEST - VOLUME 1 - Wendy e Richard Pini (Dark Horse, 2014): a encantadora saga hippie dos elfos de Richard e Wendy Pini é a mais longa HQ indie da história. Mais sobre Elf Quest aqui.

9 – DUPIN – Leandro Melite (Zarabatana, 2015): imaginem Edgar Allan Poe adaptado para os quadrinhos com forte carga lovecraftiana, e protagonizado por duas crianças. Leandro Melite teve realmente as manhas de ir muito além da homenagem ou da adaptação (Os assassinatos da Rua Morgue) ao transformar a famosa história inaugural da ficção policial em espécie de conto de fadas obscuro e aterrador. Lindamente, digamos, incrustado na cidade de São Paulo, Dupin é um romance gráfico aberto ao oculto, guardando seus segredos em aspectos e momentos precisos. Sob forte sombra de Mutarelli, mas também perfeitamente autêntico, este quadrinho solidamente bem narrado se alterna entre as vicissitudes dos dois protagonistas. De um lado, temos a angústia esperada do tween Eduard, que, na ausência de uma figura paterna de referência, se interroga sobre o que é ser um homem. Do outro, temos seu primo Gustave, um menino português de compleição estranha e trejeitos literários, claramente uma figura superdotada que fala através de enigmas e esconde um passado de tragédia e forças estranhas. Por mais que Dupin seja sofisticado em termos de arte, timing, suspense e empaginação, é a química entre estes dois personagens que o conduz a ser algo de calibre maior na fartura dos quadrinhos brasileiros contemporâneos. Melite se preocupa com a qualidade artística e esconde alguns easter eggs em seu trabalho, mas é a força humana depositada nesta estranha relação que salta aos olhos, que legitimamente emociona. No final das contas, após um (um tanto demorado e chato) preâmbulo na experimentação (às vezes inócua), o quadrinho brasileiro encontra força novamente naquelas premissas básicas: personagem, trama, ambientação, etc.

Dupin até esbarra em alguns estereótipos um tanto quanto previsíveis (o policial grosseiro e idiota, a gangue de rua que pratica bullying), mas nada que prejudique o prazer de uma história elegantemente bem narrada, com implicações inteligentes de significado. E assustadora. Muito assustadora. (CIM)

10 - QUADRADINHAS – Lucas Gehre (LTG Press, 2016): entre 2010 e 2015 o quadrinista brasiliense Lucas Gehre produziu uma série de quadrinhos em formato específico (uma página quadrada geralmente contendo nove requadros do mesmo tamanho, mas com variações), populares na Internet. Em 2016, via Catarse, ele lançou esta coletânea em formato físico. Os quadrinhos brasileiros agradecem. Nenhum trabalho produzido no Brasil atualmente é como o de Lucas. As quadradinhas são um laboratório para o voo poético do autor em direção às suas aspirações mais íntimas. Os temas podem ser completamente divergentes entre si, assim como a abordagem sobre a linguagem dos quadrinhos. Porém, há em comum a necessidade de se expressar certo inefável da vida que só pode ser comunicado dentro de um espaço de poesia. E fazer isso em quadrinhos é muito admirável.

Gehre usa como base alguns tropos (o espaço sideral, o mundo microscópico, plantas, animais, jogos, objetos, relacionamentos) que são desenvolvidos, por exemplo, sob uma sensibilidade morfológica (em quê as coisas parecem umas com as outras?) ou temporal (não é incomum que a quadradinha capture movimentos extremamente sutis, ou variações quase imperceptíveis em gradações de cor). Algumas tangem a abstração (lembrando Rothko). Os objetos, numa vibe totalmente magritteana, são realojados de suas funções originais, sendo observados com uma lente profundamente curiosa e instigada. Gehre desvela um mundo oculto aos olhos ordinários, mas que está ao mesmo tempo aí, latente, a qualquer momento. É físico, biólogo, escritor romântico, esotérico, desenhista. Não à toa, uma de suas metáforas favoritas é a do avião partindo e voltando, quando paramos nossas atividades naquele ato existencial puro de observar uma coisa cruzando o céu. Uma quadradinha é um OVNI em quadrinhos cruzando nosso cotidiano. (CIM)

11 – GENTLEMAN JIM (Jim, o gentleman) – Richard Briggs (Hamish Hamilton, 1980): Ok, Raymond Briggs é um dos grandes da Literatura infantil inglesa, chegando a assumir o papel de uma espécie de Roald Dahl britânico. Porém, nem todos conhecem sua obra em quadrinhos, e a dobradinha Gentleman Jim e When the wind blows estão entre seu trabalho mais significativo. Briggs introjeta aqui uma mistura de ingenuidade do indivíduo e perversidade social que chega a ser ultrajante. Como pode um quadrinho ser uma inocente alegoria infantil e ao mesmo tempo uma audaz sátira social?

Gentleman Jim conta a história de Jim Bloggs e sua esposa Hilda, cidadãos mentecaptos da working class britânica, ingênuos como jarros de flores. Jim lava banheiros públicos. Esta é sua profissão. Certo dia, ele decide mudar de emprego. Cogita ser soldado, cowboy, pintor, executivo. Ele decide que, bruto e iletrado, não possui instrução para exercer tais funções. Decidindo, por fim, que poderia ser espécie de “cavaleiro noturno” (herói encapuzado estilo Robin Hood), Jim vê sua empreitada fracassar ao esbarrar, a cada passo, em um empecilho moral, institucional ou burocrático, terminando preso ao cometer (meio que no estilo “Forrest Gump”) 14 delitos e voltando a lavar latrinas na cadeia. As ilustrações de Briggs são ternas, coloridas por airados lápis de cores, evocando o universo das ilustrações para crianças, próximo à “linha clara” de tradição franco-belga. O conteúdo, porém, aparentemente amenizado pela doçura dos protagonistas, é cruel com a imobilidade da classe trabalhadora, tolhida por barreiras invisíveis construídas pelas instituições sociais. Neste sentido, Briggs é brilhante. When the wind blows, sua HQ seguinte, vai colocar o mesmo casal ignóbil diante de uma guerra nuclear. The plot thickens! (CIM)

HELL AIN'T A BAD PLACE TO BE: LISTA DO MARCOS

Listas de melhores do ano me deixam ansioso. Saber que tem algo aparentemente acima da média – e ainda desconhecido para mim – por aí faz com que eu crie expectativas e mexa mundos e fundos para ter acesso ao tal material que teima em permanecer distante do alcance das minhas mãos. É assim com livros, discos, filmes, mas especialmente com gibis. E o problema aqui é potencializado pelo fato de que as Histórias em Quadrinhos são uma mídia relativamente barata e de simples produção. Compare com o custo, tempo e mão de obra empregada para fazer um filme, por exemplo. A diferença é abissal. Os gibis permitem que um autor crie, sozinho se for essa a opção, uma nova obra prima, que poderá surgir em um estúdio de desenho profissional ou em qualquer quartinho dos fundos. A máxima do “do it yourself” – mais comumente utilizada no ramo da música – parece ter sido criada sob medida para os quadrinistas. Assim, considerando que boa parte das obras de quadrinhos têm por característica uma produção sobretudo pulverizada, realizada conforme o empenho do autor em lançar aquela determinada publicação, torna-se praticamente impossível acompanhar tudo que está saindo, dada a relativa facilidade de gestação de novos quadrinhos. Por isso, lamento informar que, por mais que tentemos, meus caros, jamais conseguiremos ter acesso a 100 % do biscoito fino do quadrinho mundial, porque, neste exato momento, tem um quadrinista terminando um novo gibi que poderá ser o novo clássico imperdível. Só resta, portanto, nos conformarmos com o fato de que essa sensação de incompletude permanecerá, apesar dos pesares. Ciente disso, peço licença para apresentar minha lista de melhores de 2016 para os internautas (ansiosos ou não) de plantão. Então, sofram, curtam ou permaneçam indiferentes com a lista de alguns gibis que vocês talvez ainda não tenham tido a oportunidade de ler. Importante frisar que a relação não possui uma ordem crescente ou decrescente de preferência e que contém gibis lidos – mas não necessariamente lançados – em 2016. (MMA)

1 -GUERRAS SECRETAS #1-9 – Jonathan Hickman e Esad Ribic (Marvel/Panini, 2016): Tomei conhecimento da terceira encarnação do crossover Guerras alguns anos atrás, quando me deparei com a edição número 1. O que me chamou a atenção foi a quantidade de personagens “B” na capa de um gibi usado como ponta de lança de uma maxissérie com forte apelo comercial. Outra coisa que me atraiu foi a presença de Alex Ross como capista. Salvo em raríssimas ocasiões, ele não é o tipo de cara que entra em barca furada. E essa certamente não foi uma delas. Mais que tudo, a intrincada saga de Jonathan Hickman é uma ode de amor ao Universo Marvel. Depois de uns bons três anos lançando as bases do crossover nas revistas mensais da editora norte-americana, o escritor pôde, finalmente, materializar sua criação mais ambiciosa. E a palavra aqui não pode ser outra a não ser desbunde. Tem de tudo um pouco. Destruição de universos, zumbis, pancadaria generalizada e principalmente: interações bem sacadas entre personagens que nunca pensávamos que veríamos juntos. Thanos, Capitão Bretanha e Maximus são alguns dos participantes de uma trama que nos lembra, a todo momento, que a base de sustentação da “Casa das Ideias” não reside apenas nos medalhões. É claro que se trata de uma história em que os heróis têm de salvar o mundo contando com chances mínimas de êxito. Mas tudo é contado de modo tão saboroso, com utilização de personagens em situações tão bizarras quanto inusitadas, que vale a pena. Sim, teremos a presença obrigatória da Santíssima Trindade das Guerras Secretas, Homem Molecular, Dr. Destino e Beyonder(s), mas não se preocupe com isso. Ele só estão ali para honrar tradição do nome do gibi. Quanto ao enredo em si, não esquente a cabeça com seu aparente hermetismo. Caia de boca, sem medo de indigestão, nesse banquete preparado por e para marvetes hardcore. (MMA)

2 -TALCO DE VIDRO – Marcelo Quintanilha (Veneta, 2015): O que mais dizer sobre o gibi que sacramentou a entrada do niteroiense Marcelo Quintanilha no panteão dos monstros sagrados do quadrinho nacional? Muito já foi falado, inclusive AQUI na Raio Laser. Bem, ao invés de enumerar novamente os méritos desta graphic novel de tirar o chapéu, talvez seja mais interessante tentar compreender o que o seu lançamento significou. Para mim, Talco de vidro é o sinal dos tempos de que o quadrinho brasileiro independente, embora ainda longe de ser um fenômeno de vendas, já conseguiu amealhar um público cativo e fiel. Acho bastante difícil que os autores nacionais já possam viver exclusivamente do trabalho com quadrinhos, mas já deve ser reconfortante saber que o fruto de seu trabalho não será destinado ao ostracismo imediato como ocorria em épocas passadas. Agora sobre a HQ em si, creio que a melhor definição para expressar o que senti após a leitura seja a sensação de ter levado um chute no estômago. Quintanilha conseguiu construir uma história envolvente e enigmática que nos faz duvidar, a cada momento, se estamos diante da trama principal ou de um pano de fundo que só derrubará, no desfecho, todas as convicções que tínhamos. A sensação principal durante a leitura é de incômodo, como se algo não se encaixasse, numa espécie de mensagem subliminar que, impiedosamente, martela nossa mente.

A única certeza, aqui, são as incertezas. (MMA)

3 -MÁGICO VENTO – Gianfranco Manfredi e vários (Sergio Bonelli/Mythos Editora, 2002): 2016 foi o ano em que passei a dar mais atenção ao quadrinho italiano. E calhou que decidi começar pelo já clássico Mágico Vento, criado e escrito por Gianfranco Manfredi. Foi amor à primeira leitura. Belamente ilustrado – em geral – por grandes artistas do porte de Ivo Milazzo, Goran Parlov e Pasquale Frisenda, o fumetti

durou 131 edições, integralmente publicadas no Brasil. Na série, salta aos olhos a profundidade da pesquisa histórica realizada durante a elaboração do roteiro. Cada edição conta com ao menos uma página de texto com detalhes sobre o contexto histórico, personagens, fatos e lugares presentes na narrativa.

Não é mistério para ninguém que os italianos são obcecados pelo faroeste estadunidense. Mas o autor demonstra ter levado essa paixão às últimas consequências. Manfredi não economiza esforços para entregar ao leitor um gibi com doses maciças de realismo factual, meticulosamente investigado. Isso não quer dizer que não haja espaço para a ficção, muito pelo contrário. Amparado em bases sólidas de pesquisa, o autor se permite viajar pelos mitos americanos, seja ao dar vida a terríveis lendas e monstros do imaginário indígena, seja ao recriar fatos envolvendo pessoas que realmente existiram na segunda metade do século XIX. Localizado historicamente no pós Guerra Civil norte-americano, Mágico vento

conta a saga de Ned Ellis, soldado que, após um acidente, vira a casaca e passa a apoiar a causa indígena. Mas aqui não se trata do velho maniqueísmo do índio bonzinho contra o homem branco malvado. A palheta de cores do autor vai muito além do preto e do branco e contém, certamente, muito mais que cinquenta tons de cinza. Intrincado, envolvente, violento. Sejam bem vindos ao mundo de Mágico vento. (MMA)

4 -HABIBI – Craig Thompson (Cia das Letras, 2012): Craig Thompson já nos havia deixado em frangalhos com o novelão Retalhos, lançado no Brasil em 2009, mas agora ele resolveu apelar. Usando como pano de fundo a relação entre uma cortesã e um garoto fugitivo em um país muçulmano fictício, porém muito real, o autor constrói, em tons grandiloquentes - mas nunca pretensiosos – uma epopeia que promete sensibilizar até os corações mais embrutecidos. Habibi é puro sentimento e poesia. Utilizando-se das peculiaridades do idioma árabe, dos versos do Corão e da estética muçulmana, Thompson conseguiu gestar um visual único para sua HQ. E o gibi também impressiona pelo ritmo e fluidez. Há momentos em que não sabemos se é o argumento que orienta os desenhos ou o contrário. Mas não há motivos para se pensar nisso.

Habibi é mais emoção que racionalização. Sem delírios messiânicos, o autor faz um verdadeiro sobrevoo pela história da humanidade, mostrando como a desesperança dos tempos antigos ainda continua, infelizmente, bastante atual. Como um timoneiro, Thompson nos guia pelo melhor e pelo pior da alma humana, sem deixar, entretanto, que abandonemos a embarcação.

Sem entrar em spoilers, não posso deixar de mencionar a maldade que o autor faz com um dos protagonistas. Eis uma cena que ficará para sempre gravada na minha memória. É como diria Januário de Oliveira, ex-narrador esportivo: Crueeel! Muito cruel esse Sr. Thompson... (MMA)

5 -CHARLES MILLER: LES MOUETTES MEURENT À L'AUBE (As gaivotas morrem no alvorecer) - Jan Bucquoy e Jean-Louis Le Hir (Ansaldi Éditions, 1986): Qualquer semelhança com o pioneiro do futebol brasileiro é mera coincidência. O Charles Miller deste gibi é não tem quaisquer habilidades com os pés, nem ganha a vida dentro das quatro linhas. Funcionário de uma empresa de investigação particular, Miller é a personificação do detetive noir: irônico, sedutor e boêmio. Todos os elementos esperados de uma história com um personagem do tipo estão aqui. A femme fatale, o crime misterioso, o assassinato brutal. Fazendo uma análise fria, esta HQ não tem nada de especial, e tampouco se revela um divisor de águas nos quadrinhos do tipo romance policial. Coloquei ela nos meus dez mais em razão da eficiência dos autores em contar um história envolvente, repleta de suspense, que deixa os leitores salivando pela próxima edição, que jamais virá. Sim, este quadrinho teve vida curta e é filho único, mas não se preocupe. Aqui temos começo, meio e fim, como de praxe no mercado europeu. Nesta edição, Jan Bucquoy e Jean-Louis Le Hir conseguiram mostrar que histórias do gênero detetivesco, embora bastante popularizadas (especialmente na literatura franco-belga), ainda têm muita lenha para queimar. (MMA)

6 -THE HERO. VOLUMES 1 e 2 – David Rubín (Dark Horse, 2015): Neste reboot do mito de Héracles (leia mais sobre isso AQUI), David Rubin disseca o personagem sem dó nem piedade, não se importando se o sangue vai respingar no rosto do leitor. E a autópsia – embora o semideus ainda esteja vivo em nosso imaginário – do mito é realizada com bastante êxito. Utilizando-se de uma técnica narrativa dinâmica, que mistura mangá com Jack Kirby, o criador/escritor/desenhista, deu à luz um gibi peculiar pela sua intensidade e crueza. Certamente, se continuar a receber releituras tão inspiradas quanto esta, a lenda de Hércules continuará atraindo o interesse de velhas e novas gerações pelos séculos que virão. (MMA)

7 -XIII- W. Vance e J. Van Hamme (Dargaud/Panini, 2006): Nada é o que parece ser no gibi de W. Vance e J. Van Hamme. A história do homem amnésico que desperta com o numeral XIII tatuado acima de sua clavícula agradará aos fãs de histórias de espionagem ao brindá-los com altas doses de intriga internacional e reviravoltas. Pode-se dizer, com certo tom de maldade, que XIII é uma espécie de James Bond feito do jeito certo. Habilmente, o escritor J. Van Hamme vai costurando a sua teia de acontecimentos, que lançam muitas dúvidas sobre a real identidade do protagonista. XIII se vê, então, no centro de um sem número de conspirações, muitas delas relacionadas ao assassinato do presidente Kennedy. Abandonado à própria sorte, passa a ter contato com uma série de pessoas – amigos ou inimigos, não se sabe – que lhe fornecem dicas sobre seu passado. O problema é que tais flashbacks mais confundem que explicam. Fica sempre no ar se seriam informações autênticas ou apenas pistas falsas para convencer XIII, que - é claro - é um agente secreto altamente fodástico, recurso humano indispensável para qualquer grupo de inteligência que se preze. Uma pena que, no Brasil, ainda não tenha sido publicado o desfecho da história, sendo que falta APENAS UMA edição para fechar o ciclo da série original. Alô Panini, tende piedade de nós! (MMA)

8 - SANDMAN OVERTURE HC – Neil Gaiman e J.H. Williams III (DC/Vertigo, 2015): Após um hiato de dezessete anos do término da série original, Neil Gaiman volta para o personagem que o consagrou, afinal todos temos que pagar as contas, certo? Posso estar sendo ingênuo, mas não acho que seja o caso desta minissérie em 6 partes, que conta uma história do Mestre dos Sonhos ocorrida antes dos eventos mostrados em Sandman # 1, de1989. Por que acho isso? Simples. Dinheiro não deve ser problema para o escritor britânico. Sucesso editorial, é como se quase tudo que ele escrevesse já estivesse destinado a se tornar um novo filme ou série de TV. Sem falar na bolada que ele deve ter recebido da Marvel com a venda da personagem Angela, que ele conseguiu recuperar das garras de Todd McFarlane, após uma batalha judicial que se arrastou por séculos. Além disso, a aventura narrada nesta prequel já era pedra cantada há muito tempo, desde o lançamento de Sandman #1, em que Morpheus havia sido capturado após uma longa e debilitante jornada, aventura finalmente contada neste Overture. Enfim, Gaiman não precisaria voltar para o personagem se não quisesse, já que largou o dito cujo nos píncaros da glória. Um retorno extemporâneo, portanto, poderia deixar uma marca indesejada na carreira do escritor, que não tinha razão para retornar, a não ser que tivesse algo a contar. Dito e feito. E Gaiman não voltou de qualquer jeito. Trouxe consigo um ilustrador de mão cheia, o venerado J.H. Williams III, que já tinha botado pra quebrar em séries como Promethea e Seven Soldiers of Victory. Bem, o que dizer do gibi em si? Magia, pura magia. Sabe aquela sensação de voltar aos momentos mais preciosos da infância? É mais ou menos por aí. Ler Sandman Overture é como se pudéssemos, com a cabeça de hoje, voltar pro segundo grau e rever velhos amigos e conhecidos. É como comer o manjar dos deuses e suspirar fundo por saber que, a cada colherada, estamos chegando mais próximos de seu final. 

Amarrando algumas pontas soltas da série original e fazendo revelações surpreendentes, Gaiman conseguiu manter o padrão esperado para um título de prestígio mundial. E J.H. Williams III, que não é bobo nem nada, aproveitou para caprichar ainda mais na arte. Afinal, ao ser escalado para participar de projeto de tal envergadura, não podia fazer diferente. Habilidoso e inventivo como poucos, Williams torna-se, definitivamente, uma lenda viva das HQs. E aqui fica a resposta para a pergunta de como teria sido a série original se tivéssemos tido maior regularidade na qualidade dos artistas. Ainda mais genial. (MMA)

9 - FACE OCULTA.  VOLUME 1 – Gianfranco Manfredi e vários (Sergio Bonelli/Panini, 2016): Mais um quadrinho italiano no meu Top Ten. Puts, tenho que conhecer mais títulos da Sergio Bonelli. Ainda falta descobrir muita coisa e fico só salivando em pensar quando poderei realmente entrar de cabeça na grande variedade de opções publicadas pela editora. Para facilitar minha vida, alguns dos gibis vêm sendo publicados no Brasil com certa regularidade pela Mythos Editora. E as opções não param de crescer com a decisão da Panini de também lançar material italiano no Brasil. E o escolhido desta vez foi Face Oculta, de Gianfranco Manfredi, argumentista de Mágico Vento. Na verdade, Face Oculta já havia tido 2 edições lançadas no Brasil no final de 2012, mas a minissérie, de 14 números, havia sido interrompida. Em 2016 foi publicado um volume de 380 páginas, contendo as quatro primeiras histórias. Oremos para que, desta vez, o gibi seja publicado na íntegra. Como de costume, os fumettis da Bonelli primam pela profundidade da pesquisa histórica e aqui não é diferente. O enredo tem como contexto a colonização italiana na Etiópia e mistura fatos reais e fictícios para narrar acontecimentos envolvendo Ugo Pastore, filho de um representante comercial com interesses no continente africano. Questionador e inconformista, o jovem acaba indo parar na parte mais barra pesada da capital etíope, ocasião em que esbarra com uma espécie de libertador/messias do povo etíope, o tal Face Oculta do título.

As reais motivações e identidade deste último, entretanto, permanecerão um mistério. As repercussões deste encontro farão com que Pastore busque respostas em diferentes partes da Etiópia e da Itália do século XIX. (MMA)

10 - DREADSTAR: ODISSEIA DA METAMORFOSE – Jim Starlin (Devir, 2016): Dreadstar sempre foi um de meus personagens favoritos. Fui fisgado já na época da finada Epic Marvel, lançada no Brasil em 1985. Já sabia que Jim Starlin era o pica das galáxias quando o assunto eram sagas cósmicas, como ficou claro durante sua passagem por títulos como Capitão Marvel e Warlock. A diferença em Dreadstar, entretanto, era que o universo em que se passavam as aventuras foi todo criado por Starlin. Assim, ele podia fazer o que quisesse com todos seus brinquedinhos. Podia pirar geral sem ter de se submeter aos ditames de editores malas e do famigerado Comics Code. Lembrando aqui que a linha Epic Comics da Marvel – selo do qual o gibi do Dreadstar fazia parte - estava fora do alcance dos censores. Além disso, os direitos do personagem lhe pertenciam e se ele quisesse levar tudo para outra editora, como fez alguns anos mais tarde, não teria que dar satisfações para ninguém. Por todas estas razões, talvez tenhamos encontrado Starlin em seu auge. Livre das limitações da maioria dos criadores da época e com bagagem suficiente para criar seu universo independente, ele se sentiu livre para botar pra quebrar. E foi o que ele fez. Ciente de sua habilidade para construir belas epopeias espaciais, ele parece ter reservado o filé para a saga de Vanth Dreadstar. Até encerrar sua participação no gibi, após 40 números da série mensal e de algumas edições especiais, Starlin deixou um rico legado para os fãs do gênero que, na minha modesta opinião, não foi superado por nenhum outro escritor de quadrinhos. Mas bem, toda saga tem um começo e a gênese de Dreadstar está aqui, neste maravilhoso Odisséia da Metamorfose, que coleciona as primeiras aventuras do guerreiro das estrelas, publicadas originalmente em Epic Illustrated, revista de antologias da Marvel. Ouso dizer que neste gibi a arte de Starlin atingiu seu zênite. Buscando ultrapassar seus limites como desenhista, ele passou a fazer trabalhos coloridos sobre a arte em traço. E o resultado ficou lindo de doer. Em Odisseia da Metamorfose, Dreadstar é recrutado para lutar em um conflito espacial diante do qual não é possível permanecer indiferente. Starlin, veterano da guerra do Vietnã, utilizou o gibi para exorcizar seus demônios pessoais e retratar os horrores com os quais se deparou, sem medo de criticar as táticas militares norte-americanas. Numa guerra em que foi comum destruir vilas inteiras – como ocorreu no país asiático – sob a justificativa de que era a melhor forma de protegê-las do inimigo, Starlin pergunta o que poderia acontecer se a vila em questão fosse a própria galáxia. (MMA)

Elas nos quadrinhos: 11 mulheres notáveis

O envolvimento de mulheres no universo das histórias em quadrinhos cresceu consideravelmente nos últimos anos. Com isso, aumentou também o interesse delas por maior representatividade nesse meio, seja no conteúdo apresentado nas HQs ou na identificação com mais artistas do sexo feminino. De Marjorie Henderson Buell, a Marge, criadora da personagem Luluzinha, até Marjane Satrapi, roteirista e ilustradora de Persépolis, não é difícil elencar talentosas mulheres envolvidas com quadrinhos.

Quem curte Marvel e DC Comics deve estar familiarizado com os nomes das roteiristas Barbara Kesel, Gail Simone, Jo Duffy e Louise Simonson; das desenhistas Jan Duursema, Amanda Conner, Colleen Doran e Jill Thompson, da arte-finalista Rachel Dodson ou da colorista Laura Allred. Editora, Karen Berger está diretamente ligada à criação do selo Vertigo, da DC, e foi responsável por títulos como Sandman e o Monstro do Pântano de Alan Moore.

Os colecionadores de cards de super-heróis, uma mania nos anos 1990, devem se lembrar de Julie Bell, pintora que ilustrou dezenas desses cartões, sempre em ambientes fantásticos e um tanto kitsch (selvas ou espaço), com personagens musculosos (ela foi fisiculturista!) bem ao estilo da revista Heavy Metal. E por falar na publicação, como não mencionar Olivia De Berardinis e suas maravilhosas pinups? Ou a arte erótica de Giovanna Casotto? O leitor brasileiro de mangá talvez não saiba, mas muitos dos quadrinhos japoneses publicados por aqui foram criados por mulheres, caso de Peach Girl, de Miwa Ueda, Fullmetal Alchemist, de Hiromu Arakawa, e o popularíssimo Ranma ½, de Rumiko Takahashi. Mulheres deixaram suas marcas nos gibis da Turma da Mônica, desde a pioneira Emy Acosta, até hoje na empresa e uma das responsáveis pela chamada “fase fofinha” do final dos anos 1970, até, em tempos mais recentes, a roteirista Petra Leão, escrevendo para a Turma da Mônica Jovem, e a desenhista Lu Cafagi, nas graphics Laços e Lições. A finlandesa Tove Jansson é criadora da séria Mumin, capaz de encantar crianças e adultos. A obra saiu no Brasil primeiramente pela Conrad e depois pela A Bolha, ousada editora tocada por Rachel Gontijo.  E se você leu Fun home ou Você é minha mãe?, ambos de Alison Bechdel, sabe que essas graphic novels estão entre as melhores da atualidade.

Essas mulheres são apenas algumas entre muitas produzindo histórias em quadrinhos no Brasil e no mundo. Entre as brasileiras, poderiam ser citadas tantas outras que atualmente publicam suas HQs de maneira independente ou trabalham para as grandes editoras de comics. 

Aproveitando o Dia Internacional da Mulher, a Raio Laser fez uma lista com onze mulheres cujos trabalhos merecem a sua atenção. São profissionais que se destacam pela criatividade, inovação e personalidade. Curiosamente, não vemos com frequência os nomes delas em outras listas de grandes mulheres dos quadrinhos. Fica aqui a nossa reverência e respeito. (PB)

por Lima Neto, Pedro Brandt e Ciro I. Marcondes

Marie Severin - Muitos são os nomes laureados pela história quando falamos sobre histórias em quadrinhos norte-americanas, mas um dos nomes femininos que vem certamente à cabeça é o da colorista, desenhista, letrista e designer Marie Severin. Nascida em 1929, Marie entrou para os quadrinhos colorindo a edição A Moon, A Girl... Romance # 9, de Outubro de 1949, com a arte de seu irmão, John Severin. A partir daí, Marie se tornou a primeira dama da EC Comics, colorindo a maioria de suas revistas, um trabalho marcado pelo contraste entre sensibilidade e impacto que deixou sua marca nos quadrinhos de guerra escritos e desenhados por Harvey Kurtzman. Quando a editora deu início à sua famosa e controversa linha de quadrinhos de terror, Severin - católica praticante - tinha o cuidado de dar um tratamento cromático às cenas mais visualmente ofensivas com azuis fechados que tornava mais difícil, para os pais, perceber o teor dos quadrinhos que compravam para os filhos. Convidado pelo próprio editor chefe, Stan Lee, Marie Severin brilhou na era de prata da Marvel Comics, sendo a principal colorista da editora. A partir dos anos 70, Severin começou a revezar o trabalho de colorista com o de desenhista, colocando seu traço a favor de personagens como Doutor Estranho (substituindo Bill Everett, que havia entrado no lugar de Steve Ditko), HulkHomem de FerroConan e Kull, o Conquistador. Marie foi ainda o nome forte da Star Comics, selo de quadrinhos licenciados da editora, onde trabalhou em títulos como Muppet Babies e Alf. Marie Severin era uma trabalhadora braçal dos quadrinhos de super-heróis e se aposentou com a chegada do século XXI realizando alguns trabalhos como a recolorização de clássicos da EC Comics para coletâneas especiais. Marie Severin carregou a indústria nas costas, foi a grande mulher da EC comics e deve estar presente em toda lista de grandes artistas da HQ norte-americana. (LN)

Wendy Pini- Formada, de certa forma, no caldeirão contracultural dos quadrinhos alternativos dos anos 60 em San Francisco, Wendy Fletcher (depois Pini) acabou se tornando vetor de várias transformações nos quadrinhos americanos a partir do fim dos anos 70, quando lança, junto com seu marido Richard, a lendária, soberba e cultuadíssima série Elf Quest de forma inteiramente independente, seguindo o modelo dos comix underground. Os Pini fundaram a própria editora (WaRP) para lançar toda a saga original desta série fundamental para se compreender a aproximação dos quadrinhos indie com o mainstream. Espirituosa (ela fazia cosplay da Red Sonja em convenções de quadrinhos), engajada e multitalentosa, Pini concebeu junto a Richard um universo fechado, complexo e repleto de inacreditáveis detalhamentos que já previa um final definitivo no início da saga (algo inédito na época). Além de conceber o imaginário de Elf Quest, ela trabalhava os roteiros junto ao marido e, é claro, ilustrou toda a série clássica com um apaixonante estilo límpido, todo afeito ao quadrinho mainstream, mas com profunda matriz autoral e domínio narrativo. Seus elfos são esguios, de beleza quase sobrenatural, e seu traço é vivaz como poucos quadrinhos de aventura conseguiram ser.

Em qualquer circunstância do ofício da ilustração para HQs, Pini é uma mestra absoluta: cenas de ação, expressões faciais, ricos cenários e criaturas, empaginação, etc. Além de, é claro, ter levado adiante o que, para mim, é um dos grandes projetos de longo fôlego na história dos quadrinhos: Elf Quest narra, em uma longa saga cheia de desdobramentos fascinantes, a trajetória de tribos de elfos invasores em um mundo neolítico similar à Terra, mas povoado por diversas criaturas fantásticas, poderes místicos e conflitos atávicos. Este quadrinho não apenas é uma entusiasmante obra de aventura, mas também de sofisticados conflitos familiares, romances tórridos e histórias lendárias de uma cultura pensada no seio da era hippie, na esteira de Shakespeare e Tolkien, com a diferença que, aqui, a personagem feminina tem papel preponderante. Seu protagonismo não é subjugado, sua influência no destino dos elfos não é marginal. Nada menos que revolucionário. (CIM)

Ann Nocenti - Imagine ser contratado para dar continuidade a uma série de peso como Demolidor. Imagine agora que você não apenas vai dar continuidade, mas vai começar a escrever logo após o clássico Queda de Murdock. Se essa responsabilidade já parece massacrante, imagine para uma editora cujos trabalhos até o momento se resumiam a duas minisséries no universo dos X-Men. A escritora Ann Nocenti entra nesta lista justamente porque soube lidar com esse desafio como ninguém e marcou seu nome nas revistas de herói da Marvel. Seus roteiros davam continuidade a uma tendência inaugurada com a série Lanterna Verde e Arqueiro Verde (de Danny O´Neil e Neil Adams): a de levar questionamentos sobre os problemas sociais de nossa época para as páginas dos gibis de SH. Sob a pena de Nocenti, entretanto, estes questionamentos sempre apresentavam uma área cinzenta onde as respostas estavam longe de serem fáceis e as intenções dos personagens sempre guardavam um viés secreto e pessoal. Feminismo, maltrato de animais, conflitos éticos e muito mais se tornam obstáculos a serem vencidos por seus heróis que, em sua maioria, eram telas brancas sem julgamento prévio destas discussões, colocando-os lado a lado com os leitores do período. Nocenti criou personagens memoráveis como Mary Tiphoid, Longshot, Black Heart (filho do vilão demoníaco Mefisto, que em sua fase vai apresentar um visual mais bestial que o tradicional criado por John Buscema), Mojo e Espiral. Nocenti trabalhou com a maioria dos personagens da Marvel e recentemente escreve para a concorrente em títulos como Mulher-Gato e a fase recente da Katana novos 52, série bem recebida pela crítica. (LN)

Sophie Campbell - Criada como uma cópia da Mulher Maravilha pelo famigerado Rob Liefeld, a personagem Glory foi relida brevemente pelo roteirista Alan Moore e, em 2011, por Joe Keatinge, que a reinventou mais uma vez. Esta versão mais recente da heroína foi ilustrada por Sophie Campbell, que imaginou a personagem como uma mulher grandalhona com rosto de bebê e cicatrizes de batalha pelo corpo. Por falar em rostos e corpos, Campbell é conhecida por ilustrar a figura feminina em diversas silhuetas e feições de diferentes etnias, dando à série uma diversidade de tipos rara nos quadrinhos americanos. Essa abordagem caiu como uma luva na série que ela assumiu em 2015, Jem and the Holograms (inspirada no desenho animado de mesmo nome, original de 1985 e exibido no Brasil pelo SBT entre 1988-1993). Em clima de série teen, a HQ, que tem roteiros de Kelly Thompson, mostra a rotina de uma banda de rock formada por quatro garotas em busca do sucesso, em meio a intrigas, romances mal resolvidos, inseguranças e descobertas. Sob uma paleta de cores berrantes, Sophie Campbell veste as garotas com penteados e figurinos extravagantes, tudo muito exagerado, o que dá toda a graça e impõe o tom divertido e leve da série. A desenhista também é autora de uma série própria, Wet Moon, na qual apresenta as desventuras emocionais de um grupo de universitários prestes a encarar o mundo adulto, ao mesmo tempo em que aborda com naturalidade questões de sexualidade e dramas existenciais. Ah, até 2015, Sophie era Ross, quando assumiu publicamente ser trangênero. (PB)

Angela e Luciana Giussani - Todas as estrelas desta lista brilham com luz própria. São artistas que trabalharam duro para ter seus nomes marcados na história das HQ's. Mas dentre todos estes nomes, apenas as irmãs Angela e Luciana Giussani detêm no currículo a proeza de terem criado um gênero dentro das HQ's: o fumetti neri, ou “gibi negro” em uma tradução livre. Ex -modelo, casada com um editor de revistas da época, Angela Giussani era um espírito livre e empreendedor. Em 1962 ela lança a revista Diabolik, um fumetti diferente onde se misturavam erotismo e vilania. O personagem homônimo é um ladrão de joias requintado e misterioso conhecido por sua habilidade de disfarce e seu código de honra. Um anti-herói em meio a uma sociedade mais corrompida do que ele. O fumetti tinha ainda como personagens a loira e moralmente ambígua Eva Kant, companheira de Diabolik, e o inspetor Ginko, sagaz e habilidoso. O policial só não é páreo para o ladrão por ser claramente limitado por sua moral. Diabolik fez um sucesso tremendo, não apenas por seu conteúdo polêmico, mas também por ter um formato curto, de bolso e com roteiros impactantes. Na edição de número 13, a irmã de Angela, Luciana, passa a auxiliar nos roteiros e, a partir daí, elas vão se revezando e trocando com outros roteiristas nesta que é a revista mais duradoura da Itália, já ultrapassando a edição 800. A partir de seu sucesso (que chegou aos cinemas, rádio, romances, TV e foi até homenageado na revista dos X-Men na fase do escritor Grant Morrisson), toda a Itália se rendeu a uma nova linha de narrativas sádico-eróticas com personagens mascarados. Todos com uma bem posicionada letra K, como Kriminal, de Luciano Secchi assinando como Max Bunker, e arte do fabuloso Magnus (Robert Raviola); os dois autores ainda criaram o gibi Satanik, que teve posterior sucesso com a série de fotonovelas. O sucesso deste fumetti neri também criou paródias e versões, como o famoso Paperinik, o “Super Pato”, identidade heroica do Pato Donald. Tudo graças ao pioneirismo destas irmãs milanesas que mostraram ao mundo como o quadrinho pode ser palco dos desejos represados de toda uma nação, como era o caso da Itália católica do período. (LN)

Lilian Mitsunaga - Responda rápido: O que Batman – Cavaleiro das Trevas, Asterios Polyp, Gibis da Disney e a revista Animal têm em comum? Todos estão no portfólio da letrista e lenda do quadrinho brasileiro Lilian Mitsunaga. Não tem como falar de histórias em quadrinhos no Brasil e não lembrar desta profissional que ensinou mais de uma geração de fãs a ler. Esta paulista, natural de Mauá, começou a trabalhar com o letreiramento de quadrinhos em 1980 com uma historinha de quatro páginas do ursinho Puff (Pooh para os marqueteiros). De lá para cá, Lilian se tornou pedra fundamental na adaptação de quadrinhos de fora para o mercado brasileiro. Seu profissionalismo e perfeccionismo foram elementos essenciais para que o artista David Mazzuchelli liberasse a publicação de sua graphic novel, a já citada Asterios Polyp, no Brasil. O trabalho de Lilian era tão respeitado que, nos anos 80/90, a letrista teve que trabalhar com pseudônimos em diferentes editoras para não transgredir o contrato com sua casa editorial – a Editora Abril. Com a chegada dos editores de texto, Lilian se tornou pioneira no domínio desta nova tecnologia, desafiando as vozes que diziam que o trabalho de letrista iria acabar. Muito pelo contrário, ao ler qualquer gibi letreirado por esta mestra, pode-se ver como a tecnologia precisa de pessoas capazes no comando para tornar a leitura um momento de prazer. Além de Asterios, podemos encontrar as letras de Lilian em Jimmy Corrigan (um dos trabalhos mais desafiadores para a letrista), Retalhos, Habibi e Sailor Moon. (LN)

Lynn Varley - Batman: O Cavaleiro das Trevas, 300 de Esparta, Elektra Vive, Big Guy e Rusty, Ronin... não, não estamos falando aqui do laureado Frank Miller, mas sim de sua ex-esposa e parceira de trabalho Lynn Varley. Junto com o ex-companheiro, Varley revolucionou o quadrinho de super-herói e elevou o nível de qualidade das cores dos gibis americanos. Juntando a influência de veteranas como a já citada Marie Severin, somado a influências europeias e orientais de abordagem cromática, Varley fazia das cores um espetáculo expressivo, e mesmo em seu pior momento – a trágica continuação de Cavaleiro das Trevas – a colorista criou um manifesto contra a pretensa naturalidade digital das cores “photoshopadas” que infestavam o mercado de HQ's e fizeram o sucesso da editora Image. Mas enganam-se aqueles que acham que esses foram seus únicos trabalhos. Varley é um dos nomes que colaboraram com o sucesso de American Flagg, de Howard Chaykin, e coloriu o traço das histórias em preto e branco de Moebius publicadas nos Estados Unidos pelo selo Epic Comics, da Marvel. Extremamente reservada, Varley continua trabalhando em edições especias e relançamentos de seu trabalho. Mas sua paleta de cor adicionou uma vibração única em um período revolucionário dos quadrinhos, estampando seu nome para sempre na história deste meio. (LN)

Érica Awano - Descendente de japoneses, Érica Awano aprendeu a desenhar no estilo mangá com as revistas em quadrinhos vindas diretamente do Japão que circulavam entre seus familiares. Ou seja, bebeu da fonte. Isso ajuda a entender como, em 1996, quando publicou pela primeira vez, ela já dominava os recursos gráficos típicos de uma HQ nipônica numa época que elas ainda não tinham invadido as bandas brasileiras. Sua narrativa visual é econômica, mostrando apenas o necessário para a continuidade da ação, e seu estilo de ilustração é elegante e delicado, clean, expressivo sempre que necessário – como tem que ser no mangá –, mas sem os exageros típicos dos quadrinhos japoneses. Em Holy Avenger, série de grande sucesso que desenvolveu com Marcelo Cassaro, é exemplar a maneira como Awano dosa os elementos apresentados ao longo da trama em suas páginas. O roteiro de Cassaro se equilibra entre o humor e a aventura, com um pouco de drama, muita ação e, às vezes, alguma violência, aliados à ambiguidade dos personagens, caso do ladrão Sandro Galtran e da insinuante elfa Niele (praticamente nua em toda a HQ). Ainda que o público-alvo da série (que durou 42 edições e teve vários especiais) fosse o infanto-juvenil, o material era produzido sem soar condescendente ou afrontar a inteligência do jovem leitor – a expectativa de muitos deles era que a série soasse como um autêntico mangá e não uma simulação disso. Entre trabalhos para o mercado brasileiro e o internacional, a mangaká ilustrou uma adaptação de Alice no País das Maravilhas roteirizada por John Reppion e Leah Moore (filha de Alan Moore), e a HQ do game Warcraft. (PB)

Posy Simmonds - Cartunista, ilustradora de livros infantis e autora de histórias em quadrinhos, a britânica Rosemary Elizabeth “Posy” Simmonds é uma veterana conhecida por cartuns e tiras publicados em jornais ingleses. Suas criações são sagazes sátiras à sociedade contemporânea. Esses são os ingredientes da única de suas obras publicadas no Brasil, Gemma Bovery, lançada por aqui em 2006, pela Conrad. Reinvenção em quadrinhos do clássico Madame Bovary, romance de Gustave Flaubert que causou escândalo quando publicado em 1857 por apresentar como protagonista uma mulher adúltera. Na trama da HQ, Gemma é uma inglesa aborrecida que se muda com o marido para uma pequena e aconchegante cidade francesa. Lá, descobre uma sensualidade adormecida e acaba se envolvendo numa relação fora do casamento. À distância, o vizinho de Gemma, secretamente apaixonado por ela, observa tudo. Publicado em formato retangular e vertical, a obra mistura narrativa em prosa, rica em detalhes, e em quadrinhos. A autora constrói um ritmo de leitura intimista, que joga o leitor para dentro das páginas e o transforma no voyeur a acompanhar de perto a protagonista. A HQ foi transformada em filme, uma simpática comédia dramática lançada 2014. Depois de Gemma Bovery, Posy Simmonds publicou Tamara Drewe, que também virou filme (em 2010). (PB)

Cynthia Carvalho: no Brasil, Frank Miller é uma mulher, e tenho dito. Os quadrinhos do Leão Negro, concebidos pela roteirista Cynthia Carvalho, primeiro surgiram como suplemento de quadrinhos de O Globo em 1987 (com ilustrações de Ofeliano). Depois ganharam a Europa, foram interrompidos e, mais recentemente, em 2010, os arcos das histórias originais foram retomados com os desenhos sensuais de Danusko Campos. Fosse este um mundo justo, Cynthia já teria levado um HQMix de “grande mestre” (ou algo que o valha). Ou, sei lá, o próprio prêmio teria o nome dela. Nada na história dos quadrinhos brasileiros se parece com Leão Negro. Em princípio, a aparência banal de quadrinho de aventura medieval engana o leitor que não se aventurar a ler as histórias. Porém, a leitura certamente os transforma. Leão Negro é o único quadrinho brasileiro aparentado com era de bronze dos quadrinhos americanos. É como se o cinismo realista do Demolidor de Miller, o ambiente robusto do Conan de Roy Thomas e a pegada pesada do Arqueiro Verde de Dennis O’Neil se encontrassem em algo que, ainda assim, ultrapassa o alcance destas referências.

Cynthia estabelece sua saga em uma ilha de cultura e tecnologia medievais onde acompanhamos a trajetória de uma família decadente de leões antropomórficos. Este mundo brutal, capaz de deixar até um fã de Game of Thrones com os pelos eriçados, não oferece qualquer signo de misericórdia. Crianças são exterminadas, fêmeas violentadas, famílias despedaçadas em conflitos fratricidas. Como eu disse em meu texto original sobre esta HQ: como gostar destes protagonistas felinos que são nada menos que polígamos, incestuosos, escravistas, lascivos e infanticidas? Cynthia, porém, dota estes personagens com profunda inflexão para a ambiguidade. Nada aqui é panfletário, ingênuo ou binário. Todos os seus anti-heróis são (ao contrário de uma babaquice pueril como o Justiceiro) enraizados em contextos verossímeis psicológicos, familiares e diria até socioculturais. Suas mulheres, mesmo atadas a uma sociedade de total submissão, são incrivelmente astutas, de intensa sagacidade e inteligência, e põe à prova dilemas contemporâneos através de um imaginário medieval fascista. Além de roteirizar estes injustiçados quadrinhos, Cynthia lançou em 2012 um ótimo livro de contos com histórias no mesmo universo. Logicamente, faz parte das melhores coisas já lançadas no gênero por aqui. Orgulho absoluto para a “cultura pop” brasileira. (CIM)