Difusão do português através das Histórias em Quadrinhos brasileiras

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por Marcos Maciel de Almeida*

Introdução

As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à corte, do ítalo-brasileiro Angelo Agostini, é considerada a primeira História em Quadrinhos (HQ) brasileira. Por meio de senso de humor apurado, a publicação fazia crítica de costumes, expondo as mazelas do povo e a ambição das autoridades, além de satirizar o Imperador Dom Pedro II. Pouco mais de cento e cinquenta anos desde seu lançamento, em 1869, na revista Vida fluminense, pode-se afirmar que a produção nacional baseada na nona arte – título normalmente atribuído aos quadrinhos entre as artes tradicionais (PANZNER, 2008) – caminha a passos largos para atingir a maturidade. Embora prevaleçam diversos obstáculos que atrapalhem o pleno potencial de desenvolvimento desta mídia, é notável que o quadrinho brasileiro vem se destacando cada vez mais no cenário mundial, especialmente nas duas últimas décadas. Dentre os principais atributos que caracterizam a cena brasileira podem ser mencionados sua diversidade, riqueza de narrativas, sofisticação estética e originalidade.

Nhô Quim, de Angelo Agostini, pioneiro dos quadrinhos brasileiros, já era uma sátira afiada à vida do Império.

Nhô Quim, de Angelo Agostini, pioneiro dos quadrinhos brasileiros, já era uma sátira afiada à vida do Império.

Assim, é natural que a produção brasileira venha recebendo maior atenção por parte de importantes editoras estrangeiras e dos responsáveis pelas principais premiações internacionais da área. Embora esse reconhecimento não seja algo recente, o fato é que nos últimos anos o quadrinho brasileiro tem obtido cada vez mais prestígio advindo da crítica especializada, a ponto de figurar, sem sentimento de inferioridade, ao lado de celebrados polos desse tipo de expressão artística, como a escola norte-americana, a franco-belga e a japonesa.

O crescimento da notoriedade das HQs brasileiras não é fenômeno que ocorre exclusivamente além das fronteiras do país. No Brasil também é possível perceber crescente interesse em conhecer e premiar os principais autores que atuam no setor. Prova disso foi a recente inclusão (2017) da categoria Histórias em Quadrinhos no influente prêmio Jabuti. Outro sintoma emblemático é a mudança de status dos quadrinhos no mercado editorial. Antes relegados a formatos quase descartáveis, os quadrinhos brasileiros hoje recebem roupagem mais luxuosa, com direito a papel de boa qualidade, capa dura e espaço de destaque nas principais livrarias das grandes cidades.

De forma espontânea, ou estimulada por iniciativas governamentais, a maior disseminação e conhecimento acerca do quadrinho nacional ensejou a difusão da língua portuguesa. Ainda que, em muitos casos, essa divulgação não tenha ocorrido de forma direta, já que as obras publicadas em outros países devem ser traduzidas para os idiomas locais, a exposição destes trabalhos retratou visões de mundo únicas, marcada por uma brasilidade multifacetada. Como poderá ser verificado adiante, estes diferentes recortes surgem a partir das diversas vivências dos artistas, que abrangem experiências tão distintas como a análise histórica e o olhar do quadrinista brasileiro expatriado.  Assim, a difusão do idioma ocorre por variadas camadas de transmissão de conhecimento que perpassam a dimensão linguística. Além disso, nos quadrinhos, a dimensão da importância da palavra deve ser relativizada em razão das características próprias deste meio, que privilegia a solidariedade icônica entre todos os elementos integrantes do quadro narrativo.

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A rica produção quadrinística nacional tem, cada vez mais, sido objeto do escrutínio internacional. Para comprovar essa afirmação serão apresentados exemplos de diversas épocas, com especial foco para o momento atual. Por motivos de espaço, não se pretende oferecer lista exaustiva, mas tão somente indicar autores e obras que sinalizam a crescente relevância do quadrinho brasileiro e sua capacidade de promover um dos maiores patrimônios da cultura brasileira: a língua portuguesa.

Parâmetros de análise

Um dos grandes desafios de definir o que é o quadrinho brasileiro surge da dificuldade de determinar parâmetros para esse tipo de produção. Parece não haver dúvidas nesse sentido quando se fala do quadrinho produzido por autores brasileiros, no Brasil ou fora dele, que versem sobre personagens e temática eminentemente nacionais. Mas e quando a obra de um autor, como no caso de Luiz Eduardo Oliveira (mais conhecido pelo acrônimo LEO), sai no exterior em formato característico de outros países, como a Bande Dessinée franco-belga, tendo parcela mínima publicada no Brasil? Ela também pode ser considerada quadrinho brasileiro? Parece lícito acreditar que sim, dadas as marcas de autoralidade nessa produção específica.  Diverso é o caso dos desenhistas brasileiros que trabalham para grandes editoras norte-americanas como Marvel e DC, contratados para trabalhar em histórias de personagens criados por outros autores. Por mais que exista liberdade autoral, estarão sempre adstritos a construir sobre base pré-formatada. O critério para definir, portanto, o que é quadrinho nacional será a capacidade que o autor possui de criar produto original, livre de quaisquer tipos de limitações.  Não serão analisadas, portanto, as exitosas trajetórias de desenhistas brasileiros que atuaram nas histórias de super-heróis das supracitadas editoras. O foco será em quadrinistas que conseguiram registrar um olhar marcadamente pessoal em sua obra. Tais trabalhos evidenciaram – em maior ou menor medida – marcas indeléveis de brasilidade.

Conforme mencionado, o fato de o trabalho ter sido traduzido para outros idiomas não retira sua validade enquanto agente difusor da língua nacional. Afinal, a linguagem dos quadrinhos se caracteriza pela solidariedade icônica entre todos os componentes do quadro (Groensteen, 1999, p.21). Texto, imagem, balões, recordatórios e onomatopeias, por exemplo, são partes integrantes que desempenham funções específicas e individualizadas.  Ao atuarem de forma conjunta geram interdependência, simbiose que permite a singularidade dos quadrinhos. A retroalimentação compartilhada por todos estes elementos é a mistura que torna essa forma de comunicação tão especial. A maneira pela qual os autores decidiram representar todos esses elementos é bastante importante, ainda que – muitas vezes – tais escolhas tenham sido feitas de maneira inconsciente. O tipo de fonte, o formato do balão e a paleta de cores, por exemplo, são elementos gráfico-narrativos cujo valor não pode ser menosprezado. Dada a relevância dos diversos elementos integrantes da linguagem quadrinística, pode-se inferir certa mitigação do protagonismo aparente destinado à palavra. As opções de um autor por determinada representação gráfica-narrativa são decisões eminentemente pessoais e trazem o somatório de suas experiências, leituras e visão de mundo. As escolhas feitas pelos quadrinistas brasileiros não fogem desta regra. Dessa forma, mesmo quando traduzidos, os quadrinhos brasileiros carregam consigo incontornável DNA identitário.

Outro conceito importante nesta análise é o de artrologia, palavra advinda do grego arthron: articulação (GROENSTEEN, 1999, p.152):

A artrologia permite entender que o significado de uma imagem é dado pela sua sequência, bem como pelo encadeamento dos balões de diálogo, que devem ser considerados em função de sua importância para a interpretação dos enunciados verbais. De modo que a artrologia gera três níveis de articulações: as duas primeiras, homogêneas, referem-se à cadeia de imagens, de um lado, e à cadeia de balões, de outro; a terceira, heterogênea, refere-se à articulação dessas duas sequências, uma icônica e a outra linguística.

Assim, pode-se inferir que o aspecto linguístico – embora importante – não é capaz de abarcar, por si só, todas as dimensões da comunicação quadrinística.

Trajetória recente do quadrinho brasileiro

A admiração pelo quadrinho brasileiro não é fenômeno moderno. Grandes mestres nacionais já tiveram seu talento reconhecido internacionalmente. Dentre esses pioneiros em águas internacionais, merecem destaque Jayme Cortez e Flavio Colin. O primeiro, de origem luso-brasileira, foi importante quadrinista, ilustrador, publicitário e cartazista de cinema. Sua relevância no mundo dos quadrinhos foi lembrada no maior festival dedicado ao gênero em Lucca, na Itália. Em 1986, recebeu o prêmio Caran D'Ache, por “uma vida dedicada à ilustração” (COSULICH, 2020). Já Flavio Colin, dono de um traço marcado pelo expressionismo, teve sua obra traduzida para diversos idiomas. Seu trabalho mais famoso Histórias gerais, feito em parceria com Wellington Srbek, possui o grande mérito de transbordar brasilidade tanto na arte quanto no roteiro, que conta as desventuras de bandoleiros no sertão das Minas Gerais. É um exemplo bem-sucedido de disseminação de histórias e lendas de personagens tipicamente nacionais. É como afirma Rogério de Campos, da editora brasileira Veneta (ASSIS, 2020):

Jayme Cortez e seu estilo rococó

Jayme Cortez e seu estilo rococó

Flavio Colin e seu estilo que lembra a serigrafia

Flavio Colin e seu estilo que lembra a serigrafia

Nos anos 80, alguém falou que os jovens músicos brasileiros precisavam compreender que o mercado mundial não estava interessado em bandas de rock do Brasil.  Isso já tinha muito nos Estados Unidos e Inglaterra. O mercado queria saber de música brasileira. Mais ou menos isso é o que acontece agora. O interesse é no quadrinho mais brasileiro, que fale de Brasil, que ofereça uma visão brasileira.

Outro título brasileiro que conseguiu conquistar importante espaço fora das fronteiras nacionais foi a Turma da Mônica. Seu criador, Mauricio de Sousa, logrou transformar seus quadrinhos num negócio consolidado, verdadeiro império com produtos licenciados para aproximadamente cento e cinquenta empresas nacionais e internacionais. Em 2019, houve a abertura da subsidiária internacional do grupo, chamada Mauricio de Sousa Productions Japan. (Naliato, 2020). Esta empresa publicará material próprio em vários países asiáticos (MSP – MAURÍCIO DE SOUSA PRODUÇÕES, 2021). A entrada no mercado internacional teve início na década de 1970, quando seus quadrinhos foram publicados em outros países. Atualmente, a Turma da Mônica é usada como instrumento para difusão do português como língua de herança, especialmente no Japão. Ademais, tem papel relevante no estímulo à leitura infantil nos países africanos de língua oficial portuguesa. As criações de Mauricio de Sousa já foram traduzidas para cerca de cem idiomas (LUISA, 2020). O rol de tipos criados pelo autor é longo e diverso. O carisma dos personagens, aliado ao traço simples, continua conquistando crianças, jovens e adultos em várias partes do planeta, em ritmo inexorável.

Turma da Mônica, de Mauricio: simplicidade no traço, imenso alcance nacional e internacional

Turma da Mônica, de Mauricio: simplicidade no traço, imenso alcance nacional e internacional

O poder de penetração dos quadrinhos brasileiros tem na variedade de gêneros um dos seus pontos mais fortes. Para além do regionalismo quase xilográfico de Flavio Colin e do poder de atração dos personagens de Mauricio de Sousa, o humor foi um campo no qual o quadrinho brasileiro também obteve bastante popularidade. Revistas como Chiclete com banana, de Angeli; Circo, de Laerte e Luiz Gê; e Geraldão, de Glauco, projetaram o nome de seus criadores inclusive no exterior, graças à sua mordacidade, inventividade e niilismo iconoclasta. Angeli, por exemplo, teve seus trabalhos publicados pelas revistas Linus, de Milão; El vibora, de Barcelona; Humor, de Buenos Aires, além do jornal Diário de notícias, de Lisboa (ANGELI, 2020).

A galeria de personagens que figurava nestas publicações é considerada antológica. Tipos como Bob Cuspe, Rê Bordosa e o próprio Geraldão inspiraram apelidos, gírias e os corações e mentes de toda uma geração de pessoas no Brasil e no além mar. Criadas na esteira do movimento de abertura política dos anos 1980, estas revistas conseguiram retratar de forma única o momento de transição que o país atravessava. O público estrangeiro que adquiria estas publicações pôde observar em primeira mão a transformação social de um povo que tateava entre moderação desconfiada e desejo de maior liberdade – de expressão, sexual ou política.

Bob Cuspe, de Angeli: sátira e niilismo nos anos 80

Capítulo inusitado da trajetória do quadrinho nacional em busca de um lugar ao sol foi a publicação da Sexy comics magazine, da editora curitibana Grafipar em 1982. Seu proprietário, Faruk El Khatib, obteve licenciamento para lançar publicações eróticas internacionais, como a revista Penthouse, e investia fortemente nos quadrinhos – também com forte apelo sexual – como forma de diversificar a renda da empresa. A Grafipar tornou-se um fenômeno de vendas, mas sua duração foi efêmera (1978-1983). Faruk tornou-se figura lendária no mercado especializado por tentar aposta no mínimo ousada. Procurou os editores da famosa revista norte-americana de quadrinhos Heavy metal, célebre por publicar histórias curtas de autores consagrados e jovens talentos promissores. Sua proposta era: a Grafipar publicaria material da Heavy metal no Brasil e, em contrapartida, teria material brasileiro lançado nos EUA.  Já que Maomé não vinha até a montanha, Faruk a levaria para a terra do Tio Sam.

A Heavy metal solicitou amostra do material brasileiro, colecionado num álbum de cem páginas que contou com os grandes artistas da editora brasileira. Entre os escolhidos estavam quadrinistas renomados, como Julio Shimamoto, Flavio Colin e Mozart Couto. Os norte-americanos desistiram do projeto por avaliar que a linha editorial da revista brasileira era incompatível com a de sua homóloga, mais direcionada para a ficção científica. Propuseram, entretanto, que a publicação fosse lançada em inglês para testar a aprovação junto ao público estadunidense. A Grafipar aceitou o desafio e imprimiu vinte e cinco mil exemplares da Sexy comix no Brasil para, em seguida, enviá-los aos EUA. Toda a tiragem foi vendida. Entretanto, o aparente sucesso da operação não convenceu Faruk. A complexidade logística envolvida – todo o transporte do material foi feito por meio de navio – revelou-se contraproducente e a aventura da Sexy comix encerrou-se ali (Júnior, 2010, p. 439-441).

Um dos pontos de virada para o quadrinho brasileiro foi o ano de 2008, quando os quadrinistas e irmãos gêmeos paulistanos – Gabriel Bá e Fábio Moon – começaram a vencer os prêmios mais famosos do quadrinho norte-americano, como Eisner e Harvey, por publicações como Sugarshock, Umbrella academy, (ASSIS, 2020), Daytripper e Dois irmãos (G1, 2021). A dupla logo seria acompanhada pelo conterrâneo Marcelo D'Salete, ganhador do Prêmio Eisner em 2018 pela obra Cumbe, traduzida para sete idiomas (ASSIS, 2020). Também no Velho Continente o quadrinho brasileiro passou a ser celebrado. Em 2016, o niteroiense Marcello Quintanilha sagrou-se vencedor no Festival de Angoulême, principal evento de quadrinhos do poderoso mercado franco-belga, com a obra Tungstênio. Em 2019 foi a vez de Sirlene Barbosa e João Pinheiro serem premiados no mesmo evento, com Carolina (JORNAL INFOCRUZEIRO, 2021).

Além de terem recebido prestígio e reconhecimento oriundos de concorridas premiações internacionais, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, junto com Marcello Quintanilha, foram responsáveis por realizarem boas adaptações de clássicos da literatura nacional. Obras como Dois irmãos (Milton Hatoum), O alienista (Machado de Assis) e O ateneu (de Raul Pompeia) foram transmigradas para os quadrinhos e publicadas no exterior, projetando duplamente o talento nacional, ao lançar os holofotes para o trabalho de grandes escritores reimaginados por quadrinistas em ascensão.

Ademais dos prêmios em festivais importantes, outros vetores relevantes para a difusão do quadrinho nacional foram iniciativas governamentais como o apoio à divulgação de obras brasileiras no exterior, promovido pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Quem corrobora essa afirmação é Alessandra Sternfeld, agente italiana responsável por lançar diversos títulos brasileiros no exterior (ASSIS, 2020): “Tem mercados que são ótimos porque oferecem bolsas de tradução de quadrinhos, o que ajuda na hora de convencer editoras estrangeiras a comprar”.

Já são pelo menos quatorze editoras de nove países da América do Sul e Europa que receberam recursos públicos para publicar HQs brasileiras, como a portuguesa Polvo. Tradicional reduto da produção made in Brazil, a editora já conta com nada menos que trinta obras de quadrinistas brasileiros que, somadas, respondem por cerca de 20% de seu catálogo. Sinal emblemático da importância desses produtos é o fato de terem sido colecionados num selo específico, denominado “Romance Gráfico Brasileiro” (AGÊNCIA BRASIL, 2020).

Outro exemplo importante oriundo do Velho Continente é a editora polonesa Mandioca, dedicada exclusivamente à publicação de HQs sul-americanas. Embora tenha começado com foco no quadrinho argentino, o profícuo momento de qualidade e sofisticação que o quadrinho brasileiro atravessa fez com que a editora dedicasse especial atenção para a produção do gigante sul-americano, que hoje perfaz quase metade de seu catálogo.  Segundo o editor e proprietário Bartek Rabij, ademais dos aspectos gráficos, o quadrinho brasileiro tem como diferencial a qualidade dos roteiros (NAVEGA, 2020). Ainda conforme Bartek, a visibilidade do quadrinho brasileiro na Polônia e em outros países esbarra em desafios logísticos, como os altos custos para financiar a ida dos artistas para a Europa nas campanhas de divulgação (PAPO ZINE, 2020). Tendo por base as declarações do editor, não é de se estranhar que quadrinistas nacionais que despontam no mercado editorial internacional, como Marcello Quintanilha e André Diniz, estejam radicados em países como Espanha e Portugal, respectivamente.

Mais uma iniciativa governamental de relevo para a divulgação da HQ brasileira é o programa “Brasil em Quadrinhos”, do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que estimula a propagação dessa vertente da economia criativa nacional. Dentre as ações de destaque, pode-se mencionar o lançamento do Catálogo HQ Brasil, que compilou – com o objetivo de apresentar ao público internacional – cem títulos de Histórias em Quadrinhos de destaque publicadas entre 2009 e 2019 (REVISTA O GRITO!, 2021). A publicação – disponível em português, francês e inglês – organizada pelo crítico e tradutor de quadrinhos Érico Assis, teve por mérito incluir, sem abrir mão da qualidade, quadrinhos bastante diversos e representativos das várias regiões do Brasil.  Além de outras ações de fomento à produção brasileira, o programa “Brasil em Quadrinhos”, em parceria com a Bienal de Quadrinhos de Curitiba, planeja lançar o “Catálogo de quadrinhos Brasil-mundo árabe”, que trará obras de seis artistas brasileiros e seis artistas árabes. O programa também busca atuar em países não tradicionalmente associados à produção quadrinística. Em Cabo Verde, por exemplo, o MRE patrocinou oficina ministrada por Marcello Quintanilha (INFORPRESS, 2021) e o lançamento de revista em quadrinhos sobre herói local, intitulada Simão, o intrépido marinheiro.

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Um dos grandes trunfos que contribuem para o gradual e consistente reconhecimento do quadrinho brasileiro no exterior é a maturidade no tratamento de uma multiplicidade de temas. Marcelo Quintanilha, por exemplo, embora residente no exterior há quase vinte anos, é elogiado por sua capacidade de mostrar os dramas quotidianos de personagens ficcionais brasileiros. A brasilidade evocada durante a leitura das obras de Quintanilha é realçada por diálogos marcados pela oralidade, com especial atenção para detalhes como gírias e sotaques regionais. O olhar altamente pessoal de Quintanilha sobre o mundo apresenta sua percepção – por vezes melancólica – sobre classe média, subúrbio e relações étnico-raciais de vários Brasis, alguns situados no presente e outros provenientes das décadas de 1940 e 1950. Outro autor que tem conquistado espaço em razão de sua refinada capacidade de análise é Marcelo D'Salete. As histórias do quadrinista, frequentemente focadas em discutir o regime escravocrata brasileiro por meio da perspectiva dos povos oprimidos, agradam por fornecer retrato histórico detalhado, fruto de ampla pesquisa. Seu mais recente trabalho, Angola janga, já traduzido para seis idiomas, que conta a trajetória do Quilombo dos Palmares, levou onze anos para ser produzido.

Marcello “Quintão” Quintanilha, com sua visão autoral sobre o Brasil, é um dos mais destacados quadrinistas do mundo na atualidade.

Marcello “Quintão” Quintanilha, com sua visão autoral sobre o Brasil, é um dos mais destacados quadrinistas do mundo na atualidade.

Angola Janga, de Marcelo D’Salete, é um dos mais significativos romances gráficos brasileiros

Angola Janga, de Marcelo D’Salete, é um dos mais significativos romances gráficos brasileiros

A projeção das HQs brasileiras no exterior é instrumento poderoso para aumentar o alcance da língua portuguesa no mundo. Ao evidenciarem traços significativos de brasilidade, iniciativas neste sentido estimulam a dinamização de um círculo virtuoso que aumenta a visibilidade desta expressão artística e difunde positivamente a imagem do Brasil. Ademais, fomenta-se o interesse de editores e leitores estrangeiros em melhor conhecer a realidade nacional, atraindo o olhar do público para setores criativos que fogem dos estereótipos normalmente associados ao Brasil. Finalmente, movimenta-se o mercado de profissionais de tradução especializados na língua portuguesa, o que amplia a busca pelo estudo e aprimoramento do idioma.

Novos rumos para o quadrinho nacional

A produção de quadrinhos é relativamente mais simples e menos dispendiosa quando comparada a outras formas de arte, como o cinema e a música. O número de pessoas envolvidas é bastante reduzido e – não raro – concentrado num único artista, que pode desempenhar o papel de escritor, desenhista, colorista, letrista, entre outros. A natureza desta atividade muitas vezes obriga o quadrinista a se multiplicar em outras funções, como a de divulgador, distribuidor e empresário de si mesmo. Esta postura do it yourself, vital para o sucesso de artistas iniciantes, foi facilitada com o advento da internet, que hoje disponibiliza diversos tipos de canais para conexão com o público consumidor. A revolução dos meios de comunicação permitiu, assim, o encontro de pessoas com interesses semelhantes, o que enseja a divisão do mercado para a criação de produtos muito específicos, que visam satisfazer as expectativas de públicos variados, por mais exóticas que sejam.

Esse fenômeno contribui para a disseminação pulverizada de diversos tipos de quadrinhos brasileiros pelo mundo. O quadrinista paraense Fábio Vermelho, por exemplo, publica suas revistas em quadrinhos – recheados de música, terror e violência – de forma independente e os envia pelo correio para leitores nos Estados Unidos e Reino Unido. Caso semelhante neste sentido é o quadrinista brasiliense Pedro D'Apremont, residente no Canadá. Seu mais recente trabalho, Notas do underground (2019), colecionou suas histórias curtas – sempre envolvendo um olhar sarcástico sobre o universo da música Heavy Metal – publicadas entre 2017 e 2018 na revista canadense/estadunidense Vice. Tais exemplos mostram que o mercado de quadrinhos autorais brasileiros tem bastante potencial para se desenvolver, em razão das possibilidades abertas pela internet, capaz de favorecer o contato entre pessoas com vontades coincidentes, ainda que particulares.

Fábio Vermelho: quadrinhos autorais e perturbadores

Fábio Vermelho: quadrinhos autorais e perturbadores

Bear, de Bianca Pinheiro, faz parte da expressiva produção feminina brasileira

Bear, de Bianca Pinheiro, faz parte da expressiva produção feminina brasileira

Finalmente, não se pode deixar de destacar o crescente papel de destaque das mulheres quadrinistas brasileiras. Se antes a cena era formada majoritariamente por homens, hoje elas estão cada vez mais presentes no meio, que se torna, gradualmente, mais emblemático dos vários grupos sociais nacionais (HOJE EM DIA, 2016). A contribuição de artistas como Érika Awano, Bianca Pinheiro e Jéssica Groke confere maior representatividade e pluralidade para as diversas maneiras pelas quais o Brasil é apresentado ao mundo. Paulatinamente, o talento feminino brasileiro já começa a ser notado no exterior, como evidenciado pela indicação da gaúcha Cris Peter ao prêmio Eisner, pela colorização de Casanova (ROSA, 2012).

Conclusão

A trajetória do quadrinho nacional vive momento único. A originalidade, sofisticação narrativa e multiplicidade de temas abordados têm gradualmente atraído os olhares de crítica e público mundo afora. Diferentemente de momentos anteriores, em que bebia na fonte norte-americana ou europeia como forma de se legitimar, o quadrinho nacional adquiriu voz e identidades próprias. Tal maturidade faz com que várias editoras internacionais se interessem em lançar quadrinhos brasileiros. A maior visibilidade desta produção revela-se ferramenta indispensável na promoção e difusão do português no exterior. Conforme observado, ainda que as obras sejam em sua maioria traduzidas, a singularidade da nona arte vai além do primado da palavra, transmitindo visões de mundo a partir do Brasil de uma forma que somente a linguagem dos quadrinhos é capaz de oferecer. 

Este potencial de disseminação da realidade brasileira, em muito facilitada pela profusão de gêneros e estilos que os quadrinhos representam, é um trunfo de soft power nacional cujo valor não pode ser negligenciado. O apoio governamental tem sido fundamental para a difusão desta mídia. Iniciativas como o estímulo ao lançamento e apresentação de obras no exterior – promovido pela FBN e pelo MRE – são essenciais para aumentar a visibilidade desse material e dinamizar o mercado dos profissionais envolvidos nessa indústria criativa.

O custo relativamente baixo de produção somado aos diversos recursos de divulgação e localização de potenciais interessados – ensejados pela internet – permitem que, embora pulverizada, a produção brasileira ganhe terreno também para público específico. Num mercado já fortemente segmentado, os quadrinhos brasileiros conseguem atingir o nicho do nicho. Além disso, estrelas ascendentes como Marcello Quintanilha e Marcelo D'Salete têm levado os quadrinhos brasileiros para outro patamar, graças a um apuro estético sofisticado, baseado ora num contundente realismo quotidiano ou em pesquisa histórica aprofundada. Tal evolução não tem passado despercebida pela crítica especializada.

Embora a trajetória tenha sido longa e o reconhecimento tenha vindo ainda que tardiamente, desde sua estreia em As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à corte, pode-se dizer que o quadrinho brasileiro tem conseguido honrar a tradição criativa de sua obra inaugural. Com características únicas e contando com ampla diversidade de narrativas, o quadrinho brasileiro não pode ser facilmente definido, pois desafia generalizações. Esta originalidade latente tem atraído leitores em várias partes do mundo. Mais de cinco séculos depois da chegada de Pedro Álvares Cabral, agora é a vez do quadrinho brasileiro levar a língua portuguesa a mares nunca antes navegados.

Referências bibliográficas:

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Links utilizados:

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*Artigo originalmente publicado em "Panorama da contribuição do Brasil para a difusão do português (FUNAG, 2021). Disponível para download em http://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/1-1143-1