Lasercast #90 - Cavalêro das Tréva: 40 anos
/As quatro décadas de Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986) não são apenas o marco de uma publicação, mas a celebração do momento em que Frank Miller implodiu a imagem do "Cruzado Encapuzado" para reconstruí-la sob uma ótica brutalista e cética. Ao completar quatro décadas de influência, a obra permanece como o divisor de águas definitivo – junto com Watchmen – de uma espécie de perda da inocência no gênero dos super-heróis norte-americanos.
Frank Miller, acompanhado pelas cores de Lynn Varley e o nanquim de Klaus Janson, rompeu com a linearidade limpa das décadas anteriores, com uma estética densa e claustrofóbica. Miller utilizou diagramações apertadas para transmitir a tensão de uma Gotham à beira do colapso, intercaladas com splash pages monumentais que devolviam ao Batman sua aura de mito. A onipresença da televisão oitentista foi retratada por meio da estética da "tela dentro do quadrinho”. Os monitores de televisão com os noticiários serviram para fragmentar a narrativa e mostrar como a mídia moldou a percepção pública do herói e do crime.
A representação da linguagem televisiva nas páginas de cavaleiro das trevas. esse recurso teve um enorme influência nas mídias em geral influenciando diretores como paul verhoeven
Politicamente, a obra é um reflexo cru do conservadorismo da era Reagan e do medo da Guerra Fria. Miller apresenta um Batman que não é apenas um combatente do crime, mas um símbolo de resistência (ou autoritarismo, dependendo da lente) contra um Estado inoperante. O conflito final com o Superman não é apenas uma luta física, mas um embate ideológico entre o "escoteiro" que serve ao governo e o anarquista que impõe sua própria ordem.
Antes dessa cena, B atman e Super-homem eram representados apenas como melhores amigos
Ademais, a obra aborda a psicologia das massas, a reabilitação ineficaz de criminosos e o niilismo de uma juventude (os Mutantes) que não encontra propósito na sociedade moderna.
O dia a dia da gotham da era reagan é construído com uma poética cruel e amarga em pequenas narrativas durante os capítulos da HQ
Para mergulhar nessas camadas — e talvez se perder nelas — a Raio Laser gravou um Lasercast especial sobre o tema. Como é de praxe em nossas produções, a análise profunda se mistura com comentários humorísticos e sarcásticos de gosto duvidoso, que os integrantes cultivam com tanto empenho. Participam do papo: Ciro Inácio Marcondes, Bruno Porto, Márcio Júnior, Pedro Brandt, Lima Neto e Marcão Maciel.
A sequência de imagens a seguir vai focar nas diferenças de arte final que tanto criaram problemas na produção de CAvaleiro das trevas. O stresse entre Miller e Janson foi um dos pontos conturbados nos bastidores de CAvaleiro das trevas.
Página que contou com a participação de todd mcfarlane na arte final
Nem eu nem os amigos que assinam os textos abaixo estaremos na CCXP 2018, super evento de cultura pop em São Paulo que, entre 6 e 9 de dezembro, recebe como convidados uma série de artistas, brasileiros e estrangeiros, para sessões de autógrafo, lançamentos, palestras, etc. e tal. Estivéssemos lá, o entusiasmo maior, com certeza, seria sobre a presença do desenhista americano John Romita Jr. Falo por mim, mas sei que falo também pelos comparsas de Raio Laser, que Romitinha está em nossa lista de ilustradores de quadrinhos favoritos. Sendo assim, seria sensacional poder encontrá-lo e pegar um autógrafo (um sketch, quem sabe), fazer uma foto e trocar meia dúzia de palavras para agradecê-lo pelas milhares de páginas produzidas ao longo dessas décadas todas.
Mas, qual revista autografar? Uma edição de X-Men, em formatinho, de quando Romita Jr. fazia as histórias dos mutantes tendo Magneto como líder? Ou uma Super Aventuras Marvel, com alguma história do Demolidor escrita por Ann Nocenti? Ou a edição especial Grandes Heróis Marvel - n° 50 (também em formatinho), que compila “Justiceiro - O Homem da Máfia”, com a versão parrudíssima do personagem? Quem sabe então a minissérie Homem Sem Medo, em parceria com Frank Miller (e arte final do monstro Al Williamson)? Ou talvez a one-shot Corações Negros, estrelando Motoqueiro Fantasma, Wolverine & Justiceiro?