MELHORES LEITURAS DE 2025 POR MARCÃO MACIEL
/2025 foi um ano agitado. O cenário político interno brasileiro foi bastante conturbado, culminando na inédita condenação da cúpula militar e de um ex-presidente pela trama golpista orquestrada em 2022. Na seara internacional a coisa não foi diferente, com a escalada dos conflitos na guerra Rússia x Ucrânia e os ataques israelenses ao Irã e países adjacentes. A posse do novo governo Trump também foi outra fonte de preocupação, já que o líder ianque é uma figura imprevisível, sempre no mau sentido do termo. Diante de tantas incertezas e temores, a melhor coisa pra fazer – sem dúvidas – é ler um bom e velho gibizinho. Esses abaixo são os que mais aliviaram meu coração no ano passado.
Anatomía de un corazón – Antonia Bañados (Lumen, 2024)
Se o Chile atual é uma sociedade de forte viés conservador, o que dizer do país na década de 1950? Quem nos responde é Antonia Bañados, que conta a história de sua avó, Aurora, uma das poucas mulheres inscritas faculdade de medicina de Santiago. Não obstante os desafios comuns de um curso tão exigente, Aurora ainda tem que se provar diante dos colegas, que acreditam que ela está ali somente para arranjar um bom partido. A decisão de dividir a HQ em capítulos que fazem referência às várias partes do corpo é bastante sagaz, assim como a escolha da paleta de cores pálidas, que transportam os leitores para um passado não muito distante e emprestam melancolia a um conto de grande sensibilidade. Pontos para a jovem quadrinista chilena, que ousou mostrar a trajetória da avó, sem medo de expor a paixão secreta de Aurora e outros segredos íntimos que qualquer um preferiria levar para o túmulo.
Página de Anatomía de un corazón
Apocalipse das capivaras – Wesley Mercês (Independente, 2024)
Nascido como tira na internet, Apocalipse das Capivaras cresceu e apareceu. Criado para ser uma declaração de amor para a grande paixão do autor, o gibizinho foi ganhando forma e se tornou uma intrincada saga que envolve viagem no tempo, um conselho de personificações da morte e capivaras. Sim, capivaras. Esses aparentemente simpáticos animaizinhos serão responsáveis pelo fim da humanidade num futuro não muito distante, a não ser que o garoto Wesley e sua versão futura possam impedir. Com um rol de personagens impagáveis como Estagiário, Psicopato, Capicleber (sério!) e um sapo chamado Webert, o Wesley (autor) apresenta uma trama absurda, que lembra os melhores filmes de comédia dos anos 80. Apocalipse é um gibi simplesmente hilário, com uma infinidade de referências pop não óbvias. Vibrante e sofisticado, Apocalipse das Capivaras é diversão garantida para toda a família.
página de Apocalipse das capivaras
Aula de Teatro – Nick Drnaso (Veneta, 2025)
Aula de teatro é uma oportuna HQ que mostra os métodos de manipulação utilizados para cooptar pessoas em prol de causas aparentemente inofensivas, mas que podem esconder finalidades perversas. Na trama, um sujeito com grandes habilidades de liderança consegue reunir alguns dos freaks da cidade para fornecer aulas gratuitas de teatro que, gradualmente, se transformam numa catarse coletiva da qual se exige bastante força de vontade para escapar. Drnaso também contribui para o clima de entorpecimento, inclusive dos próprios leitores, já que em certos momentos não é mais possível separar o que é aula e o que é realidade. A HQ funciona quase como uma denúncia da estratégia de líderes fortes que sabem anular a capacidade crítica das pessoas e utilizá-las como veículo para seus objetivos. Quem já leu os trabalhos anteriores de Drnaso sabe que é normal a sensação de que uma merda muito grande vai acontecer a qualquer momento e este gibi aqui não é exceção. O autor tem as manhas de criar um clima de tensão bastante sedutor que segura a leitura até o fim. Outro ponto positivo da obra é permitir um vislumbre privilegiado à mente de pessoas bizarras, que marcará indelevelmente os incautos que ousarem olhar para esse abismo.
página de Aula de Teatro
Dormindo entre Cadáveres – Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci (Comix Zone, 2025)
Por algum motivo que não é simples de explicar, há um abismo de produções sobre o período pandêmico. Há um silêncio ensurdecedor sobre o assunto quando se fala em cinema, televisão, quadrinhos ou quaisquer outras mídias. Dormindo entre cadáveres vai contra essa corrente e põe o dedo numa ferida incômoda que nos traz reminiscências de uma época que preferimos deixar esquecida no fundo da memória, trancada a sete chaves. Luís Moreira Gonçalves é um médico português que atuou na linha de frente no combate ao coronavírus. Se juntou a outros profissionais de saúde mais altruístas que corajosos e se bandeou para o coração da Amazônia, lutando para reduzir o morticínio no norte do Brasil. Escolhido a dedo para desenhar a traumática experiência do médico, o quadrinista Felipe Parucci disse a ele que sua participação não se limitaria a seguir o roteiro entregue. Ele também queria dar seus pitacos no argumento, que seria, então, feito a quatro mãos. O resultado final é um relato tocante e sincero acerca de uma batalha cruel, que teimava em não ter fim e cobrou um preço imensurável. Já acompanho há um bom tempo o trabalho de Parucci e achava uma pena que ele ainda não tivesse recebido o reconhecimento que merecia. Dado o burburinho em torno de “Dormindo entre Cadáveres”, que está sendo apontado como um dos melhores quadrinhos do ano, acredito que essa espera finalmente terminou.
Página de Dormindo entre cadáveres
História de Jerusalém: 4000 mil anos da Cidade Sagrada em Quadrinhos – Vincent Lemire e Christophe Gaultier (Nemo,2025)
Por meio do ponto de vista de uma oliveira situada no famoso monte que ombreia Jerusalém, conheceremos a incrível trajetória da Cidade Sagrada, que protagonizou tantos conflitos e mortes desde sua fundação, há cerca de 4000 anos atrás. O gibi tem uma pegada de documentário e também é indicado para não iniciados no tema, porque seu didatismo não é chato, muito pelo contrário. Gradualmente vamos sendo apresentados à importância da cidade, que se torna palco de disputa para três das principais religiões do planeta: cristianismo, judaísmo e islamismo. As várias fases da cidade, os expurgos, as carnificinas e a destruição de lugares considerados sagrados pelas religiões rivais são esmiuçadas num livro que não economiza nas citações bibliográficas. Os fãs de história vão se deleitar com curiosidades que parecem inimagináveis nos tempos atuais, como no momento em que judeus e persas (atuais iranianos) se aliam para enfrentar a dominação romana da cidade. Jerusalém é um exemplo poderoso do poder informativo dos quadrinhos, que são uma leitura muito mais convidativa do que seria encarar um calhamaço de mil páginas sobre o mesmo tema. Parabéns para os autores e para a editora Nemo, que não se cansa de inserir em seu catálogo obras que furam a bolha do mercado de quadrinhos brasileiro.
página de História de Jerusalém: 4000 mil anos da Cidade Sagrada em Quadrinhos
Metralha, a vida de Nelson Gonçalves em Quadrinhos – Márcio Paixão Jr, Cristiano Bastos e Fábio Cobiaco (Mmarte, 2025)
No Brasil, país que costuma esquecer seus maiores ídolos, talvez o nome de Nelson Gonçalves não cause muitos suspiros. Mas se depender da Mmarte, a história de um dos maiores cantores do Brasil (o sujeito só perde em vendas para um tal de Roberto Carlos) não será abandonada tão facilmente. Pugilista, boêmio e gago são apenas algumas das facetas que tentam descrever um personagem mais rico que qualquer descrição. Por meio de vários contos acerca de sua trajetória, os autores tentam destrinchar momentos chave da carreira do Rei do Rádio. E arte do gibi é um capítulo à parte. Os pretos densos e chapados de Fábio Cobiaco são um uppercut na mesmice pasteurizada de certos artistas da nona arte atual. Odeio usar essa palavra, mas Metralha é um importante resgate de uma estrela maior do cenário musical brasileiro, que jamais se apagará mesmo no meio do enorme esgoto musical moderno.
página de Metralha, a vida de Nelson Gonçalves em Quadrinhos
Rorschach vols 1-2 – Tom King e Jorge Fornés (Panini, 2021/2)
Rorschach não é uma leitura fácil e entendo quem desiste ao longo do caminho. O protagonista da história não tem nome e os diálogos lembram os roteiros de Howard Chaykin, autor que pouco se importa se o leitor entende o que está sendo conversado. Para ele, a verossimilhança da conversa é mais importante que a compreensão de terceiros. No entanto, aqueles que sobreviverem aos capítulos iniciais desta HQ serão galardoados com uma história interessantíssima, que mistura paranóia, teoria da conspiração e distopia em doses cavalares. Seguindo os passos do mestre Chaykin, King se sente à vontade para quebrar a narrativa convencional, fazendo jogos como aquele do capítulo 2, em que passado e presente se entrelaçam numa experiência narrativa única. Como se não bastasse, King aproveita a carta branca que lhe foi dada nesta HQ para levar a metalinguagem às últimas consequências, inserindo na trama ninguém menos que Frank Miller e Steve Ditko, este último criador do Questão e do “Senhor A”, que inspiraram Alan Moore na concepção do bom e velho Rorschach. Espécie de continuação dos eventos vistos ao final de Watchmen, a notícia do lançamento de Rorschach deve ter dado calafrios no barbudo de Northampton. Mas bem, pelo menos desta vez, o exploitation da clássica minissérie original valeu a pena.
Página de Rorscharch
Rua Perigo vols 1-2 – Tom King e Jorge Fornés (Panini, 2023/4)
First Issue Special foi uma série da DC de 1975 que durou treze números e foi estrelada, em cada edição por um herói/grupo de heróis diferente. Gente tão diversa quanto Rastejante, Dona Tira e Verdinheirados. Pois bem, não sei o que deu nas ideias de Tom King de montar um fio narrativo com personagens tão sem conexão. Talvez tenha perdido uma aposta, estivesse cumprindo promessa ou simplesmente encarando tudo como um desafio pessoal para se tornar um escritor melhor. Não sei dizer. Mas o fato é que ele foi lá e fez. E se saiu bem na empreitada. Apreciadores de elenco linha “Z” dos universos Marvel e DC vão se esbaldar nesse gibi aqui. A escumalha da “Divina Concorrência” dá o ar de sua graça numa trama maluca que surpreendentemente faz sentido. Tudo começa com o plano de Guerreiro e Starman azul invocarem Darkseid para tentar derrotá-lo e assim conseguir entrar na Liga da Justiça. O negócio é que tudo dá errado e quem vem no lugar do manda-chuva de Apokolips é o Atlas, um sujeito casca grossa pra cacete. Essa confusão resulta na morte do Bonitão (sim, você leu certo) e num jogo de gato e rato que envolve facções diferentes, que envolve moleques vadios e deuses do Quarto Mundo. Bem, acho que não preciso dizer mais nada, mas se você ainda está aqui saiba que tem um capítulo impagável em que o Caçador Cósmico e o Assassino passam uma edição inteira trocando sopapos e debatendo filosofia. Agora, se você quer realmente ser convencido a ler esse troço, só posso dizer que ele tem a participação do Metamorfo, logo não pode ser ruim.
Página de Rua Perigo
Somna – Becky Cloonan e Tula Lotay (Comix Zone, 2025)
Admito que comprei esse por puro hype. Vencedor do Eisner de 2024 de melhor série nova, Somna faz jus ao prêmio. Numa época em que mulheres não conformistas eram tachadas de bruxas e qualquer contestação à ordem vigente levava a punições extremas, Ingrid, a protagonista, ousa sonhar com uma nova sociedade mais igualitária no que tange ao prazer sexual feminino. E sonho é a palavra-chave no formato deste gibi, que não é nada usual. Duas quadrinistas talentosas se alternam para contar uma história de tentação e desejo reprimido em plena Idade Média. Cabe a Cloonan a arte das sequências “reais” da HQ, enquanto Lotay ilustra as partes “oníricas”. Deixei os termos entre aspas porque nem tudo é o que parece e uma das graças do gibi é entrar no jogo proposto pelas autoras: deixar-se seduzir pela trama, sem muitos racionalismos. O que é certo dizer é que Somna é um libelo pela libertação sexual feminina, um grito que ainda ecoa em pleno século XXI.
Página de Somna
Thunderbolts – Warren Ellis e Mike Deodato (Panini, 2025)
Sem dúvida, um dos gibis de hominho mais subestimados de todos os tempos. Quando do lançamento do primeiro encadernado, “Fé em Monstros”, em 2014 pela Salvat, eu já tinha achado um pecado que a saga permanecesse inacabada no Brasil. Afinal de contas, o elenco é incrível, misturando na mesma equipe os personagens mais doentios do Universo Marvel, como Norman Osborn, Rocha Lunar e Mercenário. Isso sem falar num Speedball sequelado, somente capaz de ativar seus poderes a partir da autoflagelação. Thunderbolts é um prato cheio para quem aprecia o lado B da Marvel, e isso que nem mencionei os coadjuvantes da série: gente do calibre de Aranha de Aço, Águia Americana e Sepulcro. O roteiro vertiginoso fornece ação e violência em doses cavalares e agradará ao fanboy sedento por sangue. Tudo embalado pela arte imbatível de um Mike Deodato em plena forma, num dos melhores trabalhos de sua carreira. Bendita foi a estreia do filme do grupo nos cinemas do Brasil, que obrigou a Panini a lançar tudo quanto era título deles na esperança de faturar alguns caraminguás. Demorou 11 anos, mas aconteceu. Finalmente esse raio voltou a cair no mesmo lugar.
Página de Thunderbolts