Comics Studies Society 2025: Um mergulho nas Jornadas da USP made in USA

Fui convidado* pelo Center for Latin American and Caribbean Studies (CLACS) da Michigan State Universty (MSU), para participar da conferência de 2025 da Comics Studies Society (CSS), que ocorreu em julho, na cidade de East Lansing. Segundo seu próprio site, a CSS “é uma sociedade interdisciplinar aberta a todos que compartilhem o objetivo de promover o estudo crítico dos quadrinhos, aprimorar o ensino da mídia e incentivar discussões abertas e contínuas acerca do mundo dos quadrinhos”. Mal comparando, pode-se afirmar que a CSS é uma versão norte-americana das Jornadas Internacionais de HQ da USP.

Estrutura de apresentações na CSS 2025”

O convite dizia respeito à apresentação, para o público norte-americano da Coleção Patrimônio Gráfico, promovida pelo Programa Brasil em Quadrinhos – parceria do Ministério das Relações Exteriores com a Bienal de Quadrinhos de Curitiba – e pela editora Veneta. A série, que contempla expressões artísticas e lugares brasileiros reconhecidos pela UNESCO, já tem três volumes publicados: Campo de Mandinga, que fala sobre capoeira; Valongo, maior porto a receber escravizados nas Américas; e Roda de samba, tradicional ritmo da identidade cultural brasileira. Em 2025, o tema da CSS foi “Resistente, resiliente e resoluto: justiça social e quadrinhos”. Desnecessário dizer que o assunto da coleção tinha tudo a ver com a conferência norte-americana.

Coleção Patrimônio Gráfico

A mesa-redonda que mostrou o projeto foi mediada pela professora Leonora Souza Paula, da Faculdade de Artes e Letras da MSU e contou ainda com Felipe Maldonado, autor de Campo de Mandinga. A receptividade do público foi bastante positiva, principalmente porque aproveitei a oportunidade para falar de outras iniciativas do Programa Brasil em Quadrinhos, como o Catálogo HQ Brasil – que busca difundir obras para editores e agentes estrangeiros – e as Gibitecas do Instituto Guimarães Rosa (IGR), que dispõem de 50 títulos essenciais do quadrinho brasileiro para empréstimo aos alunos de português e demais interessados nas 24 escolas do IGR espalhadas pelo mundo. Uma surpresa positiva do evento foi notar a massiva presença de representantes de diversas bibliotecas pertencentes a universidades norte-americanas.

Presenteando Charles Hatfield, um dos criadores da CSS, com um exemplar do Catálogo HQ Brasil

Felipe, Leonora e Marcos em ação

Segundo apurei, antigamente as bibliotecas do país tinham uma propensão mais completista, ou seja, tinham por objetivo conseguir todos os livros e quadrinhos publicados em todos os países. Pouco a pouco, entretanto, as universidades foram se especializando em quadrinhos de determinadas áreas geográficas, atitude que se revela mais sagaz, dada a virtual impossibilidade de comprar e armazenar todas as edições lançadas no mundo. A Universidade de Illinois Urbana-Champaign, por exemplo, está montando acervo dedicado a quadrinhos da Ásia Meridional, oriundos de países como Índia, Paquistão e Bangladesh. Já a MSU, nossa anfitriã, também começou seguindo a vertente completista, tornando-se a biblioteca com o maior acervo mundial de quadrinhos (350 mil títulos!) disponível para acesso público. Recentemente, no entanto, optou por focar na produção latino-americana. Em resumo, o momento atual revela-se bastante auspicioso tanto para pesquisadores quanto para o público, que poderá ter contato com coleções especializadas de diferentes regiões.

Na biblioteca da Universidade Estadual de Michigan (MSU)

Na biblioteca da Universidade Estadual de Michigan (MSU)

Na biblioteca da Universidade Estadual de Michigan (MSU)

E as demais palestras, como foram? Bem, a programação dos três dias era massiva e não consegui acompanhar todas, já que ainda não possuo o dom da ubiquidade. De maneira geral, pode-se dizer que os conferencistas se saíram bem, apresentando reflexões interessantes sobre o universo dos quadrinhos inseridos na ideia de “resistência”, como aqueles com temática queer, racial e inclusiva. Entretanto, percebi uma certa forçada de barra de alguns oradores, que simplesmente usaram seu tempo para apresentar a história de determinados grupos e personagens, sem estabelecer maiores conexões com o tema principal do evento.

Painel sobre Quadrinhos Rock´n´Roll. Um pouco deslocado no evento

Outro problema foram as amostras de material usados como fonte das análises. Como se sabe, o público norte-americano é autocentrado e somente em raras ocasiões dá atenção para produtos originados em outras regiões. Prova disso é a frequente criação de versões de séries e filmes estrangeiros, com adaptações de nomes e lugares, para que se tornem mais palatáveis para o pessoal da terra do Tio Sam. Por essas e outras, não é surpreendente que os Estados Unidos se vejam como a principal vanguarda da nona arte. Porém, o que me chocou foi o fato de os próprios palestrantes utilizarem praticamente 100% de comics como objeto de pesquisa. E aí tome estudos sobre Legião dos Super-Heróis, Superman, Capitão América e similares, como se nada mais existisse no planeta.

Uma voz solitária, nadando contra essa corrente, veio do quadrinista venezuelano Cesar Mosquera, da Savannah College of Art and Design. Seu painel mereceu menção honrosa por dois motivos, o primeiro referente à escolha da obra a ser resenhada: Alack Sinner na Nicaragua, da dupla argentina Carlos Sampayo e José Muñoz. O segundo pela sua coragem de, diante de uma plateia majoritariamente norte-americana, falar da intervenção promovida pelo governo Reagan num dos países mais pobres da América Central. Outro fato de destaque foi notar a grande participação de mulheres quadrinistas e pesquisadoras na convenção, quebrando o paradigma do quadrinho como habitat natural de homens nerds.

Falando nisso, não posso deixar de citar algumas das “fanboyzices” que pude presenciar. Numa delas, determinado professor teve de deixar a convenção um dia antes de seu término, mas não deixou de enviar pergunta para a palestra do dia seguinte de seu carro, enquanto dirigia 200km para chegar em casa. Outra: por coincidência, os dias do evento foram os mesmos da estreia do novo filme do Superman, de James Gunn. Por isso, na inauguração da CSS, o organizador conclamou todos os participantes a fazer um bonde para ir ao cinema ao final dos trabalhos do último dia. Ah, que doce ilusão. No segundo dia a maioria dos conferencistas já tinha escapado para ver a tão esperada película, afinal ninguém é (homem) de aço.

O grand finale do evento ficou por conta de Shawn Martinbrough, que narrou sua trajetória de garoto negro aficionado por comics até sua transformação em desenhista requisitado pelas majors do mercado norte-americano. De sua notável história de resistência, resiliência e superação pessoal, creio que nunca esquecerei da frase: “As pessoas só reparam que não há representação quando elas não estão representadas”. Enough said.

Com Shawn Martinbrough

Desses dias intensos e profícuos que passei em Lansing, fica a memória do pequeno vislumbre de um universo acadêmico um pouco ensimesmado, mas nem por isso desinteressante.

*Marcos Maciel de Almeida, além de integrante da Raio Laser, é funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.