13 PERGUNTAS PARA SAMA

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por Márcio Jr.

Os caminhos do hype são tortuosos. Melhor ignorá-los. (Os dois: o hype e seus caminhos.) Eduardo Filipe, o Sama, é um quadrinista manjado. Mas isso é pouco. Merece ser mais conhecido. MONDO SAMA, antologia de HQs do brasileiro radicado em Portugal, é a porta de entrada ideal para o imaginário do sujeito. Lançado em 2018 pela Noir – editora do insubstituível Gonçalo Jr. –, o livrão é coisa fina: papel especial em alta gramatura, impressão em duas cores, acabamento caprichado. Mas o que vale é mesmo o recheio: contos curtos, violentos e virulentos, transbordantes de sexo, suor e sangue. Vou parar por aqui. Ao contrário da brevidade cirúrgica de seus quadrinhos, SAMA fala pra cacete. Ainda bem que o papo é bom, como vocês verão na entrevista a seguir. (MJR)

1. Eduardo Filipe, who the fuck is Sama?

Hahaha! Sama é uma alcunha que me foi dada no início dos anos 2000 por uns colegas da publicidade… Eu tinha umas manias exóticas (ainda tenho várias), tipo usar pincéis japoneses, bandanas na cabeça como um piloto kamikaze, um passado adolescente permeado pelas artes marciais e, quando adulto, andava com uma chopper bike japonesa desdenhando dos camaradas que tinham Harleys, porque eles passavam mais tempo nas oficinas, a consertá-las, do que andando com estas motos caríssimas… Soma-se a isso a minha notória paixão pelos mangás antigos, tipo: Kamui, do Sanpei Shirato, Lobo Solitário, do Koike & Kojima, Akira, do Otomo... Et voilà! Fui apelidado primeiramente como “Samurai”, daí “Samura”, “Samaro” e em menos de três dias já tinha sido sintetizado para “Sama”. Confesso que no início achava uma babaquice, mas depois relaxei e assumi. Poucos anos após este batismo “nipônico” aconteceu uma coincidência imprevisível: fui laureado com o 1º lugar no XV Salão Carioca de Humor com o trabalho Bradesco Bin Laden, na categoria charge. Muita gente que me conheceu depois deste prêmio acha que Sama tem a ver com Osama Bin Laden. Como expliquei, eu já era o Sama bem antes, embora ainda assinasse Eduardo Filipe. De uns 10 anos pra cá passei a assinar apenas Sama, bem satisfeito. Considero um nome conquistado.

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2. A última – e homônima – HQ de MONDO SAMA é autobiográfica. Através de pílulas temporais dispostas em quatro quadros por página, você repassa sua história, memórias e afetos. Me identifiquei com diversos aspectos ali, muito provavelmente por pertencermos mais ou menos à mesma geração. Você acha que seus quadrinhos de alguma forma estão vinculados a um certo modo de ser desta geração?

Sim, acredito que, como artistas, somos agentes e testemunhas do nosso tempo. Embora possamos interagir poeticamente com outras épocas e períodos – através de nosso vasto arcabouço cultural –, sempre faremos estas interações através de um filtro contemporâneo, com os olhos e os valores do “agora”. Com certeza, todos os meus quadrinhos estão impregnados com este Zeitgeist. Especificamente, esta história traz muito disso, porque ela trata de um resgate de memória pessoal. Ela nasceu de um desafio que me foi dado pelo saudoso camarada Geraldes Lino, um dos grandes incentivadores da BD independente em Portugal. Foi por causa do convite para participar da Tertúlia BD de Lisboa, ministrada por ele, que realizei este trabalho. Todos os autores convidados têm que fazer uma minibiografia, numa HQ curta ou num texto ilustrado, para ser apresentada aos demais colegas da tertúlia. Entretanto, sempre me considerei um autor de ficção. Até então não tinha o hábito de fazer HQs biográficas. Achava uma onda muito egotrip e que, dependendo do autor, eram muito chatas ou superestimadas… Mas beleza, aceitei o convite e fiz. Bem, foi um processo muito catártico… E a narrativa me apareceu num jorro imagético, como uma miração de ayahuasca… Olha, foi uma porrada, porque mesmo sendo muito sintético, me dei conta que a minha vida foi – e ainda é – muito intensa dramaticamente… Ou seja, apesar das minhas desventuras e tragédias, tive a sorte e o privilégio de ter várias vidas diferentes, integrando ambientes inusitados, participar de várias cenas culturais distintas, conhecer vários países, me dar com gente de várias tribos diferentes e por isso ter a possibilidade de me reinventar constantemente como ser humano... E podemos considerar (para um futuro próximo) que cada quadro desta HQ tem um potencial de capítulo na minha biografia, que ainda está a crescer… Daí, mais cedo ou mais tarde, sinto que terei a necessidade de desenvolver estes capítulos. Sei que será doloroso, mas mesmo assim ainda quero fazê-lo.

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3. O quadrinho popular de terror brasileiro, que existiu entre os anos 50 e 90, possuía como características o erotismo, a arte em preto e branco e a predileção por narrativas curtas. Estes três elementos estão presentes na totalidade das HQs de MONDO SAMA – observando-se a eventual presença de uma classuda segunda cor em determinados momentos, que de forma alguma dilui a força do nanquim na página. Você se vê como um representante dessa tradição do quadrinho brasileiro?

Nunca reclamei o cargo, mas já que é você quem está dizendo… Com certeza carrego comigo esta contaminação, ou melhor dizendo, esta MALDIÇÃO!!! Sempre curti gibis, e as melhores histórias que li estavam impressas em preto sobre aquilo que chamam hoje de papel jornal (apesar de sabermos que não era o mesmo papel usado em jornais). Iniciei-me nos quadrinhos com Asterix, Tintim e Disney. E por um golpe do destino, antes dos heróis tive contato com Heavy Metal, Métal Hurlant e os álbuns da Martins Fontes e da L&PM, onde conheci autores do quilate de Crepax, Moebius, Pratt, Magnus, Schultheiss, Manara, Ray Moore, Eisner, Shelton, Luiz Gê, Crumb, Feiffer, Veríssimo, Muñoz & Sampayo, entre outros monstros, quase todos mestres do preto e branco. Nunca tive toda a coleção. A maioria destes álbuns que passaram nas minhas mãos pertenciam a um dos meus irmãos ou a um primo nosso, ambos jovens adultos. Vale lembrar que estas edições não eram baratas e nem sempre eram vendidas para a molecada. Mas pirei com este material, principalmente pelo conteúdo erótico-subversivo. E o mais próximo disso que eu conseguia adquirir nas bancas, com os meus meios, eram as antologias de terror tipo Spektro, Calafrio e outros títulos similares… Nestas publicações, bem mais baratas, também podia-se encontrar caras como Ditko, Breccia, Toth, Colin e o grande Shimamoto. Além das histórias da publicadas pela Circo. Acho que isso marcou-me profundamente no meu jeito de pensar quadrinhos. Tanto que mais tarde, já no final dos anos 80, quando fui ter contato com os super-heróis, com raras exceções achava tudo demasiado conservador e puritano. Tenho um carinho especial com a linha Vertigo, mas o que realmente explodiu minha cabeça foi a antologia ANIMAL, que reuniu alguns autores gringos e brasileiros que até hoje me fascinam. Nesta altura eu já havia sido capturado pela vibe alternativa. E o modo como grande parte destas histórias se apresentavam, curtas e grossas, dialogando com minhas outras paixões (o teatro e o punk rock), tudo isso foi incorporado ao meu estilo narrativo. Neste sentido, me vejo inserido dentro desta tradição brasileira de histórias curtas que flertam com o erótico e o suspense - apesar do meu primeiro livro, A Balada de Johnny Furacão, ser uma narrativa longa.

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4. O erotismo pulsa nas HQs do livro. Obviamente, este é um tema que lhe é caro. Qual o tesão de produzir narrativas sobre tesão?

Sob a minha percepção de mundo, poucos assuntos superam uma boa foda. A tensão sexual é o que equilibra o mundo. “Sem tesão, não há solução!” Somos seres com mais de 70% dos corpos compostos por líquidos e fluidos, e nossa razão de ser é misturá-los, misturando-nos...  Acredito realmente que o mundo seria um lugar bem melhor se as pessoas fodessem mais, de preferência com respeito e algum amor... Mesmo quando este amor contenha fúria! Penso também que quando as pessoas partilham de uma experiência de intimidade, geralmente estão despidas – e não só de roupas… Nuas de preconceito, acabam por potencializar quem realmente são, ou quem aspiram ser. O que vou dizer parece meio brega, e até é, mas é sincero: “Ao fazermos amor, ou quando transamos, se preferir... tentamos ser melhores do que somos. A este esforço, chamo de evolução”. Há, nas relações humanas, vários níveis de pudor. Mas no ato sexual, quanto mais escasso o pudor é, mais intensa torna-se a comunhão e a cumplicidade entre os envolvidos... Você pode fazer uma história de sci-fi, de super-herói, de terror ou do que quiser… O leitor só vai acreditar nos personagens dessa história se seus personagens forem capazes de sentir empatia, afeição ou tesão pelo seus pares. Esta possibilidade, este estado de suspensão, nos torna tacitamente cúmplices da intenção do autor e de seus personagens. Pode ser até uma história de ódio e vingança, ou sobre pacíficos monges, mas pode apostar que, para ela ter potência narrativa, houve amor erótico em algum momento.

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5. Os limites entre erotismo e pornografia existem para você?

Penso que a pornografia está contida no erotismo, mas o erotismo não cabe bem na pornografia. Entretanto, estes limites variam de cultura para cultura… Além disso, há o componente político presente em qualquer relação humana, que se dá através de lugares de poder. No Brasil, por exemplo, só recentemente as mulheres estão conseguindo se libertar do antiquado papel de submissão, e por isso começam a estabelecer novas direções e relações de poder no imaginário erótico, ou até mesmo pornográfico. Para o homem brasileiro médio, geralmente machista e carregado de preconceitos, isso poderá ser doloroso. Mas ou eles se adaptam ou vão merecer a extinção. O meu trabalho contém erotismo, mas não duvido que existam aqueles que o achem pornográfico.

Não gosto de cagar regra, mas eu particularmente não curto nada que envolva a submissão de uma pessoa sem o consentimento da mesma. E também acho uma tremenda maldade envolver crianças e animais em situações eróticas e/ou pornográficas. Posso abrir algumas exceções para as representações artísticas, tipo desenhos ou pinturas com animais ou crianças em situações eróticas, que remontam tempos bem antigos, mas apesar de não curtir, acho bem menos grave do que situações que envolvam pessoas reais. Inevitável não lembrar do Mike Diana ou do Suehiro Maruo. Estes caras navegam por mares bem diferentes dos que eu navego, mas não posso negar que são grandes artistas. Fora isso, entre adultos que se respeitam e estão de acordo, por mim, vale tudo. Abaixo o falso moralismo!

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6. Outra referência marcante em MONDO SAMA é o imaginário policial, noir, repleto de damas fatais, crimes, violência e personagens à margem da sociedade. De onde vem isso?

Influências do cinema, da TV, da literatura e do teatro. John Cassavetes, Doc Comparato, Leopoldo Serran, Rogério Sganzerla, Rubem Fonseca, Juan Pedro Gutierrez e Nelson Rodrigues… Tudo junto e misturado com um pouco da minha história pessoal... Fiquei órfão de pai e mãe muito cedo, fui criado numa matilha de irmãos e irmãs, flertei com o crime na juventude, mas fui salvo por mulheres maravilhosas. Se a minha vida fosse em preto e branco, já daria um bom noir, não é? Temas duros… A mise-en-scène nas minhas histórias é para tornar a coisa toda mais palatável, principalmente para mim mesmo. E para preservar os cúmplices. Por isso imaginei essa estética noir tropical, num Rio de Janeiro reconstruído pela minha memória turva e propositalmente imprecisa.

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7. Em algumas HQs é possível perceber você se projetando em certos personagens, criando uma espécie de ficção autobiográfica. Isso tem algo a ver com o fato de você também ser ator?

Sim, sou oriundo do teatro, com passagens pela TV e o cinema. Esta projeção sai-me naturalmente. Há também precedentes nas HQs. O figuraça Simon Bisley, que não faz autoficção, se desenha nas histórias do Lobo, Batman e Slaine. E o Howard Chaykin usa sempre o mesmo “ator”,nas suas ficções... Aliás, me identifico muito com o trampo dele, outro apaixonado pelo noir. Tem vários exemplos de autores que fazem essa projeção, principalmente na autoficção: Chester Brown, Spain, Angeli, Debbie Drechsler, Crumb, Allan Sieber, Pazienza, Ulli Lust, etc...

8. Percebo o atual momento da HQ brasileira como um dos mais ricos pelos quais o país já atravessou. Por outro lado, mesmo não sendo uma regra absoluta, vejo que autores mais jovens lidam com questões como narrativas autobiográficas ou mesmo sexualidade de um modo muito distinto da abordagem visceral que você adota. Sinto neles uma espécie de busca por uma sensibilidade mais poética, além da constante preocupação em não ultrapassar os limites da correção política. De novo penso na questão geracional, de quadrinistas e leitores educados com Animal, Chiclete com Banana, ou mesmo gibis de terror e sacanagem. Como você acha que seu trabalho ressoa junto a estes leitores – e artistas – mais jovens? Ou ainda: a possibilidade de cancelamento te incomoda?

Sem dúvida, a nova geração é mais fofinha… Mas apesar de vivermos este momento altamente prolífico das HQs no Brasil, não estou seguro da opinião que seja o momento mais rico. Ainda mais porque este policiamento ético que paira sobre as redes – e não só – empobrece a cena, ao meu ver. Explico: com certeza é o momento mais diverso, o que é ótimo! Porém, apesar de haver uma enorme produção, de modo geral seu alcance é muito limitado. E apesar de contar com o imenso poder de difusão da internet, infelizmente acaba restrita a bolhas e nichos cada vez mais segmentados... Ou seja, toda esta diversidade que é muito positiva – principalmente nos aspectos que compreendem as novas vozes, consoantes às questões de gênero e etnia como negros, feministas e a galera LGBT+ fazendo HQ, etc – somada à cena jornalística e acadêmica em volta dos quadrinhos, que também tem crescido muito por causa das redes… Todo este esforço, infelizmente, ainda não consegue trazer novos leitores para que esta cena possa se sustentar de forma autônoma. O que temos é uma galera produzindo HQ para outros autores de HQ lerem e depois devolverem sua produção para o mesmo nicho, e assim sucessivamente. E no meio disso, de vez em quando, tentar ganhar umas migalhas da Amazon… Sem falar que, na maior parte das vezes, tudo isso é de graça. Lembremo-nos que tínhamos no Brasil autores vivendo de HQ nos anos 50, 60, 70 e início dos 80… Sobre a visceralidade e o politicamente correto, bem… Estamos testemunhando uma geração orgulhosa de ser mais respeitosa e mais inclusiva. Isso, a princípio, seria algo para se celebrar, se esta geração não fosse tão regulada pelos parâmetros liberais do que é ser ético. Tenho sentido que, até nos critérios formais, a transgressão é evitada. Basta ir numa feira de zines e ver como é difícil diferenciar uma publicação independente de uma comercial. Tudo tem que ter cara de produto. E mais do que artistas, os autores têm que ser empreendedores! E sim, são todos politicamente corretos com suas máximas: anti-racistas, anti-machistas, gayzistas, pacifistas, feministas, pela legalização e descriminalização das drogas, do aborto, etc… Tantas bandeiras legais, né? Apoio todas estas causas, sem exceção! Porém, bastava usar só uma que contém todas estas juntas e misturadas: ser anticapitalista!

Acho que é aí que reside todo o problema geracional. O medo de não ser politicamente correto não é tanto pelo compromisso social, ético-humanista-igualitário, mas sim pelo medo de ser cancelado, de ser excluído de uma cena de grupo ou até de mercado. O antigo pavor de “sair do armário”, hoje, não é por ser descoberto como homossexual, mas sim de ser identificado como comunista! Este policiamento ideológico dá a esta “Nova Geração Liberal” contornos extremamente conservadores. Debaixo deste neomoralismo com as cores do arco-íris, esconde-se a pior das segregações desta era, a da cultura do cancelamento baseada na superioridade moral sob os parâmetros liberais. A parte boa desta treta é que no cenário da autoria não importa mais tanto se você é preto, trans, viado, indígena, puta, mulher, lésbica, não-binário… E isso é muito bom! O que tá pegando é que o capitalismo é viciado em absorver novos nichos para criar novos rótulos e produtos, para estes próprios nichos, até dominar tudo! Somos todes Surfistas Prateados, ou Prateadas, escolhendo novos mundos para aplacar a fome do nosso Mestre Capitalactus. Temos que romper com este papel! Há de se resistir sempre (pero sin perder la ternura jamás)!

Sobre o impacto do meu trabalho no público desta nova geração? Acho que os mais letrados, os que não consomem só quadrinhos e têm alguma experiência com literatura, vão alcançá-lo. Nada contra quem consome só quadrinhos, mas de que quadrinhos estaríamos a falar? E se eu tenho algum medo de cancelamento?... Olha, dependendo de quem me cancelar, eu até agradeço! Hahaha! Mas seria curioso, porque a minha galeria de personagens compreende mulheres, negros, travestis, gays, marginais,… Todos empoderados e dando o troco na mesma moeda para os seus respectivos agressores. Mais fácil eu ser cancelado pela turma do “tiozão do churrasco”! Ah… Mas tem o tal de “lugar de fala”, né? Bem, aí corro o risco de cancelamento, porque respeito “lugar de fala” só até a página 12, 13, no máximo… Como artista e homem do meu tempo, autorizo-me o direito poético de ser preto, mulher, trans, indígena, alienígena, deus, etc… Ou seja, de ser e de criar do ponto de vista que eu quiser. Obviamente, sempre assumindo estes papéis com toda propriedade e respeito, como tenho feito até hoje.

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9. Ainda que seu desenho possua uma identidade reconhecível, ao longo do livro você lança mão de diversos estilos e técnicas. Por quê? Que ondas são essas que o nanquim te proporciona?

Essa onda é a liberdade! MONDO SAMA é uma experiência pós-moderna em quadrinhos. Apesar deste trabalho ser apresentado como um livro que pode ser comprado, nunca o pensei para ser um “produto editorial nos moldes clássicos”. Azar ou sorte para a Editora Noir, que teve coragem de editá-lo! E, convenhamos, o fizeram com tratamento de luxo! Sou todo gratidão. Entretanto, MONDO SAMA está mais para um objeto de arte, um livro de artista ou um antiproduto. E depois, estamos a falar de uma antologia de autor, que reúne trabalhos que foram desenvolvidos durante quase uma década... O Sama que está aqui respondendo estas perguntas, não será o mesmo amanhã – embora todas estas variações “samânicas” se conheçam e troquem segredos inconfessáveis… Além disso, apesar de eu construir muitas vezes narrativas clássicas, com três atos, etc., o viés do meu trabalho é bem experimental. E experimentar pressupõe-se fazê-lo nos aspectos formais e estéticos, não apenas no conteúdo. Várias histórias do livro são originárias de outras publicações, algumas com um teor mais político, outras com temática mais erótica ou policial, algumas biográficas. Algumas pediam confecção mais veloz e improvisada, sem uso de lápis. Outras foram feitas a partir de monotipias, técnica que uso bastante nos meus procedimentos em artes plásticas.  Outras a bico de pena, e ainda algumas com pincel seco e aguada. O amálgama entre as narrativas é a noção de que o autor perambula com seus personagens pelo mesmo universo, embora este autor-personagem seja flagrado em momentos diferentes da sua própria história e em relação ao mundo que o cerca.

10. Chegou o momento de uma pergunta realmente original: quais são suas maiores influências nos quadrinhos?

Adoro! Como diria Julio Cortázar, “quando citamos nossas referências, reafirmamos a nós mesmos a nossa identidade” (a frase é mais ou menos assim). Já citei várias delas, mas vamos lá…  Em algum momento, numa suruba surreal, o João Cavalo, do Zéfiro, comeu a Valentina, do Crepax, enquanto ela chupava elegantemente a deliciosa Diana Palmer, do Ray Moore. O safado do Zanardi, do Pazienza, que assistia a tudo batendo uma punheta, ainda conseguia ler um gibi do Pato Donald com a outra mão. Alack Sinner, da agência de detectives Muñoz & Sampayo, estava do lado de fora e queria entrar para investigar o que estava acontecendo, mas foi barrado por um dos motoqueiros da gangue Bisley, que fazia a segurança deste prostíbulo, que era de propriedade do artista Ray Pettibon. Meses depois, Valentina me deu à luz, mas logo fugiu com o Jules Feiffer. Fui criado na casa de um gekigá nos anos 70.

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11. Além de ser quadrinista, ator e artista visual, você também tem incursões no mundo do cinema, ao lado de sua companheira, Luísa Sequeira. Fale um pouco sobre estes projetos – mas fale, principalmente, sobre MOTEL SAMA, série animada do Canal Brasil que, de certa forma, sumariza seu trabalho.

Eu e a Luísa, além de sermos um casal, somos parceiros em vários trabalhos. Ela tem os projetos dela, eu tenho os meus, e juntos temos os nossos. Fazemos muitos filmes, a maioria curtas experimentais, documentários, mas já fizemos longa-metragem também. Dentre estes projetos, o MOTEL SAMA é um capítulo à parte… A história do MOTEL SAMA foi um acidente de percurso, daqueles que você agradece por ter ocorrido. Antes de eu continuar, é importante saber que, por causa de nossas atividades artísticas e profissionais (como participar de exposições, fazer filmagens e dar workshops), nós viajamos muito! Independente dos motivos destas viagens, sempre produzimos algum material para nós mesmo, audiovisuais e também gráficos, a partir dos meus cadernos repletos de desenhos de viagem, para a posteriori realizar novos trabalhos com base nestes arquivos. Por volta de 2014, fui apresentar um projeto para um programa de TV no Canal Brasil, que envolvia viagens desenhadas, tipo urban sketch. Fui muito bem recebido pelo pessoal, levei uns zines meus que ajudam a quebrar o gelo e começamos a conversar. Apesar da proposta conter alguma originalidade – um programa de viagens, com um artista a desenhar pelo mundo, magistralmente fotografado pela Lu –, não se interessaram. Disseram que a grade de programação estava repleta com programas de viagem, culinária, entrevistas e decoração. Fiquei meio frustrado, mas beleza, fazer o quê? Peguei o meu chapéu e parti. Já estava entrando no elevador quando a recepcionista me chamou. No mesmo instante, um dos diretores que estava na reunião abriu apressado a porta do hall da recepção, e com um dos meus zines na mão, quase sem fôlego, por ter ido correndo me alcançar, disse:

“Isto é seu, é você que fez?”

Quase me desculpando, respondi:

“Sim, mas posso explicar…”

E ele:

“Temos muito interesse neste tipo de material… Você consegue transformar isso em vídeo?”

Eu sorri e falei:

“Podemos conversar…”

Resumo da ópera, não vendemos o programa de viagem, mas conseguimos grade para um programa erótico! Quando disse para a Lu o que havia ocorrido, ela quase não acreditou. E apesar dela nunca ter feito nada parecido, acabou curtindo o projeto. O zine em questão era um exemplar dos “Cadernos do Sama”, que continha umas HQs de sacanagem, nada grave. Mas daí saiu a gênese do que veio a ser o Motel Sama, que nasceu como série animada experimental de conteúdo erótico, exibida a partir de meia-noite, na programação do Canal Brasil – e que depois foi reeditada e ampliada com cenas inéditas para uma versão curta-metragem com o mesmo nome. Por questões contratuais, tinha que ter Sama no título, do contrário, poderíamos ter problemas de direitos no uso dos personagens, que já existiam anteriormente no meu universo samânico transmídia, que compreende contos, HQs e, a partir de então, curtas-metragens também.

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12. Há quanto tempo você está em Portugal? É possível perceber diferenças mais ou menos claras entre os momentos atuais dos quadrinhos no Brasil e em Portugal?

Estou por aqui há mais ou menos 10 anos. E a cena portuguesa, apesar de menor, tem muita qualidade. Mas é difícil comparar, são outras urgências... Posso dizer que os portugueses leem mais brasileiros do que o contrário.

No cenário comercial tem muitas semelhanças, há muitos títulos Bonelli publicados aqui, além de Marvel, Image, DC, etc. Franco-belgas aos montes, e na onda alternativa é mais diversificada também, com vários excelentes autores espanhóis, italianos, nórdicos… O brasileiro ainda é muito refém dos estadunidenses. Mesmo entre os autores indie, a preferência é sempre pelos ianques. Uma pena, se levarmos em consideração a qualidade dos hermanos sul-americanos... E sim, vários títulos e autores do Brasil estão sendo editados por aqui. A editora Polvo, por exemplo, tem um catálogo de brasileiros de altíssimo nível… E o exemplar que eu tenho da edição portuguesa do Música para Antropomorfos, do Zimbres + Mechanics é um pitéu!  Além disso, tem o exílio cultural que muitos de nós está passando, mesmo que não se fale muito sobre isso. O André Diniz está em Lisboa, o Alex Vieira, da Prego, e o Leandro Assis vivem aqui no Porto. E eu, depois de ter matado o Bolsonaro numa performance na minha exposição, Kill The President, provavelmente já estaria preso aí no Brasil.

13. SAMA é um iconoclasta, um narcísico ou um ególatra?

Hahaha!!! Depois desta pergunta, não posso me fazer de rogado… Sou um iconoclasta, mas demorei para descobrir… Aliás, só se pode ser um iconoclasta depois de ter um corpo de trabalho extenso, que contenha trabalhos iconoclássicos, ora!

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