LASERCAST #51 - QUADRINISTAS ALÉM #2: ROBERT CRUMB

LASERCAST #51 - QUADRINISTAS ALÉM #2: ROBERT CRUMB

O quadrinista Robert Crumb pode ser definido por diversos adjetivos: gênio, inovador, pervertido, irreverente, chauvinista, obsessivo... Neste novo episódio especial de Quadrinistas Além, a equipe da Raio Laser (representada por Ciro Marcondes, Marcio Jr. e Lima Neto) recebe o convidado especial Alexandre Matias (do blog Trabalho Sujo e tradutor dos primeiros albuns de Crumb publicados pela editora Conrad) para discutir o legado deste que é um dos maiores artístas norte-americanos do século XX e entender o que faz do quadrinho de Crumb algo além.

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Melhores leituras de 2019 #03: Ciro I. Marcondes

Melhores leituras de 2019 #03: Ciro I. Marcondes

por Ciro I. Marcondes

As listas da Raio Laser têm o propósito de servir como um diário de leitura e uma recapitulação das experiências com quadrinhos que os escribas desenvolveram ao longo do ano. Elas têm mais a ver, portanto, com o temperamento (e até com certa temperatura dos ânimos) do resenhista do que com um objetivo técnico de elencar melhores produções anuais. Aliás, como se sabe, nossas listas são um vale tudo que beiram a irresponsabilidade: se eu li um compilado de Blondie de 1940 e bolinha num pdf safado, tá valendo. O importante é, guardada a devida modéstia de um projeto não muito elaborado como esse, registrar certa individualidade que marcaria não só as escolhas dos gibis lidos, mas também o tom dos textos.

Dito isso, que a minha lista tenha, neste ano, um bem maior número de gibis lançados no Brasil em 2019, não é coincidência. A gente recebe um montão de coisas aqui, dando um certo direcionamento na pauta. Eu ainda mantinha uma coluna semanal sobre quadrinhos (a já saudosa ZIP) que me ajudava a cuidar de cobrir ao menos parte deste montante. Isso tudo tornou a lista um tanto quanto parecida com as listas mais normaizinhas. Espero ter colocado coração nestas pequenas resenhas. A pilha cresce, 2020 já chegou e as promessas da Raio são eternas. Não esqueçam de nós, teremos mais novidades. Obrigado aos nossos seletos leitores!

Como sempre, a lista vem sem ordem de importância. A única ordem é a da experiência sentimental ao me deparar com a profundidade destas narrativas.

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HQ em um quadro: a lendária seca de 69, por Gilbert Shelton

Hippies lastimam seu apocalipse junkie (Gilbert Shelton, 1976): A cena é desoladora: no cruzamento da 2nd Avenue com a Praça St. Marks, em Nova York, seis personagens dispõem-se num movimento estatizado pelo formato de charge do quadro, cada um envolto em suas próprias preocupações, reiterando seu próprio monólogo. Na rua, uma enxurrada de lixo que, se prestarmos um mínimo de atenção, revelará um pouco dos hábitos desta louca sociedade no mês precedente: todo tipo de garrafa de bebidas alcoólicas legalizadas (gin, uísque, cerveja, todo tipo de vinho - até um "suave french wine" - , e até coisas como "toxic tickle" e "óleo de fígado"), um edição da revista East village other (publicação lendária pela qual passaram Crumb, Spain Rodriguez e o próprio Shelton), um sutiã, uma cueca e até mesmo um papel de "doce de gordura de porco". 


Diante deste cenário remetente a um grande apocalipse junkie, os seis personagens alternam-se em expressões de desolamento ou auto-resolução: um velho hippie barbudo reclama da seca: "sem erva em um mês! Acho que, afinal de contas, vou estudar economia na Notre Dame"! Dois pré-adolescentes com cara de mexicanos reclamam de ter nadado e morrido na praia: "Que hora para uma seca de maconha! Bem quando estávamos prestes a nos graduarmos para as "coisas mais pesadas"! Outro hippie considera partir para negócios com seguradoras, e uma peituda doidona pensa em se casar, ter filhos e criar sua família em Dallas (vale lembrar que o Texas é o estado mais conservador dos EUA, e que Shelton vem de lá, da fabulosa cidade de Austin). Por fim, um ex-pantera negra considera se juntar à "youth for christian america" e pensa em fazer campanha para George Wallace, um notório racista e político americano contrário aos direitos civis, candidato à presidência em 1968. 

Em quê consiste a genialidade de Gilbert Shelton? Este quadro único se chama "Scenes from the revolution: the legendary dope famine of 69", e foi publicado em 76 em sua clássica revista Freak Brothers. Eu o li em uma coletânea da Knockabout comics. Shelton sugere aqui, com dose mordaz de ironia, que durante uma looooonga seca de maconha na Nova York dos late 60's, todos os tipos contraculturais que se via nas ruas naquela época teriam de ser obrigados a se enquadrarem aos destinos medíocres do american dream: se formar em economia, criar uma família em Dallas, trabalhar no negócio das seguradoras.


A força-contra que esses hippies depositaram diante de ter que se juntar ao status quo foi tanta que estas decisões têm de ser tomadas no meio da mais absoluta desolação pós-apocalíptica, quando tudo que tinha para se fazer em termos de sexo, drogas e rock and roll estava esgotado, e todas as bebidas acabadas, e todo o sonho contracultural turbinado pelo consumo de drogas morto graças à eficiência da polícia, que aparece no fundo do quadro, com suspeição repressiva. Shelton sugere que, finda a distribuição de drogas e morto o sonho, o apocalipse vem na forma do entregar-se, do render-se ao proselitismo capitalista, última das últimas opções. 


Ao mesmo tempo, sugere que uma vida chapada é melhor que uma vida enquadrada e que, enquanto esse povo tiver maconha, ele não se preocupará em estudar economia ou se juntar à Juventude Cristã Pela América, e que, de alguma forma, isso é algo bom. Isso me lembrou aquela música (incrível) do Alice in Chains, Junkhead, em que o falecido (por overdose) Layne Staley canta, de maneira bem mais barra-pesada, um hino exaltando as vantagens de se ser um junkie num mundo em que nada faz sentido: You can't understand a user's mind / But try with your books and degrees / If you let yourself go and opened your mind / I'll bet you'd be doing like me.  


Os exageros de Shelton podem até parecer sombrios, irresponsáveis ou descabidos para uma grande quantidade de leitores menos "experienced", mas vamos admitir, sem reservas ou pudores, que o homem tem um senso de humor escarninho e verdadeiramente provocativo, além de um grande par de bolas dentro da cueca. (CIM)