por Marcos Maciel de Almeida

Pouco mais de quatro meses atrás fui transferido para Roma, por motivos profissionais. Na hora em que comecei a tomar todas as providências práticas para a mudança ainda não tinha me dado conta, mas pouco antes de embarcar caiu a ficha de que estava prestes a morar numa das mecas do quadrinho na Europa. Sim, para quem não sabe, a cultura de quadrinhos na Itália é uma tradição estabelecida já há várias décadas. Fumetti – que é como os quadrinhos são conhecidos por aqui – são uma forma de arte largamente disseminada e é possível encontrar pessoas de todos os tipos consumindo e lendo em tudo quanto é lugar, especialmente nos meios de transporte. Aos poucos fui percebendo que tinha tirado a sorte a grande. O país é realmente um paraíso para os apreciadores da nona arte.

Quem conhece alguma coisa da cultura italiana já percebeu que os caras são aficionados pelos Estados Unidos. O exemplo mais prático e inescapável disso é a tara deles pelo faroeste. Obsessão tão grande que o gênero foi recriado por estas bandas. O chamado Faroeste Espaguete adquiriu vida própria ao recriar a escola de bangue-bangue norte-americana, chegando até mesmo a superá-la, como afirmam alguns críticos especializados. E essa predileção pela cultura oriunda do país ianque não é refletida apenas na tela grande. Os gibis também sofreram forte influência e o faroeste também dá as cartas nas HQs, como demonstram a onipresença nas lojas e bancas de séries como Tex, Zagor, Mágico Vento, Ken Parker e outras. Mas o prestígio estadunidense não se restringe ao gênero western. Existem inúmeras outras séries com inspiração norte-americana, com temática, localização e épocas pertinentes, como Julia e Martin Mystère, entre outras. Mas a que se deveria tanto entusiasmo por quase tudo que vem da terra do Tio Sam?

Clássico maior do faroeste espaguete

Certamente, um dos fatores que mais contribuíram para essa admiração foi a influência estadunidense na Europa no cenário de pós II Guerra Mundial. Além de possuir todo o glamour de figurarem como os principais vencedores do conflito, os norte-americanos tornaram-se fiadores da reconstrução do velho continente, transformando-se em credores dos países pertencentes ao bloco ocidental. Além disso, Washington também tinha a seu lado a potente indústria cinematográfica hollywoodiana, capaz de vender – e bem – a imagem da autopropalada terra da liberdade e da democracia. Era quase impossível resistir a essa atração que, por alguma razão, reverberou de forma especialmente intensa junto ao povo italiano.


Outra forma bem fácil de perceber a influência norte-americana é a mera observação dos personagens principais dos fumetti, que remetem a atores e personalidades do país americano. A lista é grande: Groucho Marx (coadjuvante em Dylan Dog), Edgar Allan Poe (coadjuvante em Mágico Vento), Whoppi Goldberg (coadjuvante em Julia)... E isso sem mencionar os casos de quando o próprio protagonista tem o rosto idêntico ao do homenageado, não é mesmo, Ken Parker (Robert Redford) e Julia Kendall (Audrey Hepburn)?

Whoopi Goldberg e Audrey Hepburn? Não. Emily Jones e Julia Kendall


Os personagens supra mencionados fazem parte do rol de títulos publicados pela Editora Sergio Bonelli, a gigante de quadrinhos da Itália. É uma espécie de Maurício de Souza Produções dedicada prioritariamente a quadrinhos voltados para o público adolescente e adulto. Outro fenômeno de audiência é o Topolino/Mickey (originário de qual país mesmo, hein?), publicado pela Panini. Mas o mercado italiano não se restringe a isso. Qualquer ida a uma livraria aleatória será recompensada pela contemplação de um sem número de HQs de vários gêneros e formatos, publicados por editoras como Bao, Coconico Press, Shockdom e J-Pop. Esses produtos típicos de livraria são um pouco mais caros e qualquer gibi mais fininho não sai por menos de 15 euros. É por isso que eu, até agora, ainda não me aventurei muito por essas lojas, preferindo tentar uma garimpagem em sebos e comprando revistas em bancas.



Típica seção de gibis de uma livraria qualquer



Bancas? É isso mesmo. Diferentemente do que ocorre no Brasil, na Itália as bancas são quase uma instituição sacrossanta e não estão dando sinais de decadência. Elas também se assemelham ao similar tupiniquim no quesito de oferecimento de produtos “extras” que ajudam no faturamento, como brinquedos, roupas, itens de alimentação e etc. Mas a grande diferença é que as revistas – de topos os tipos e gêneros – ainda não estão sendo empurradas para debaixo do tapete. Sim, claro que a internet vem reduzindo o número de leitores e blá-blá-blá, mas aqui as pessoas realmente têm o hábito de ler e o poder aquisitivo para consumir os itens desejados. Resultado de tudo isso? Várias opções de fumetti, a preços pagáveis.

Uma iniciativa bem comum e que poderia ser testada no Brasil é o lançamento de coleções de HQs em banca, distribuídas em conjunto com jornais de grande circulação. A ideia é bem simples. O jornal publica o gibi e o leitor tem a opção de comprá-lo junto, desembolsando um valor a mais. Ou pode levar apenas o gibi. É um formato que agrada a milaneses e romanos, principalmente em função dos baixos valores praticados. Exemplo: está saindo agora a coleção completa capa dura de álbuns do quadrinista GIPI, em publicações semanais, ao custo de dez euros por edição. É um valor relativamente alto, quando fazemos a conversão para reais, mas por aqui é o equivalente a três cafezinhos. Uma barganha. Esse tipo de estratégia já vem sendo usada com sucesso em vários mercados como Espanha, Portugal e Argentina, e tem a vantagem de atrair o público consumidor apenas de jornal e os novos leitores dispostos a “take a chance” com publicações bem cuidadas de preço acessível.


E as comic shops? Bem, pode-se dizer que elas têm basicamente dois perfis distintos. Começo falando daquelas que são escancaradamente dedicadas ao comic norte americano e ao mangá, oferecendo ainda toda a memorabilia relacionada, como bonecos, esculturas, camisetas e etc. O que realmente impressiona nessas lojas é a quantidade de títulos que já foi republicada em italiano. Praticamente tudo que você quiser tem o seu correspondente local. Mas essa facilidade não veio de graça. Depois de folhear algumas publicações, entendi por que é tão simples encontrar as versões italianas dos gibis gringos: as editoras locais fazem apenas alterações mínimas na matriz original. Isso fica muito claro quando se analisa o caso dos balões e recordatórios. É comum que os balões permaneçam os mesmos, ainda quando o texto a ser traduzido seja muito grande ou muito pequeno. Se o espaço disponível for reduzido, eles quebram tudo em sílabas, desavergonhadamente. Outra opção é simplesmente reduzir a fonte, sem nenhum respeito pela padronização do gibi. Trocando em miúdos, a variedade tem seu preço. Nesse tipo de loja é muito difícil encontrar fumetti, que fatalmente estará escondido num canto ou numa caixa destinada aos itens com desconto.

Balões originais grandes demais, permanecem grandes demais.

Frases longas são quebradas em várias sílabas para caber nos balões originais,
 com resultados nem sempre esteticamente satisfatórios

Essa observação da ausência de obras de quadrinistas italianos em comic shops  não se aplica ao grande fumettista do momento: o onipresente Zerocalcare. Seja em livrarias ou em comic shops é impossível não encontrar um gibi dele. Seus álbuns capa dura parecem cachorros sem dono que teimam em perseguir leitores incautos. Neste exato momento está ocorrendo, inclusive, uma grande exposição sobre seu trabalho num museu. Mas afinal de contas, qual é a dele? Seus gibis têm uma pegada bastante autoral e em geral versam sobre experiências biográficas e viagens ao front de guerra na Síria. O autor se tornou uma espécie de Joe Sacco da causa curda  e dedica-se a realizar uma grande cobertura das agruras do maior povo sem pátria da atualidade. Apesar dos temas sérios, o texto tem acentuado teor irônico/humorístico frequentemente trazido à tona pelos amigos imaginários do quadrinista. Um dos mais assíduos dentre eles é um mamute, que simboliza o bairro residencial de Zerocalcare. Sempre que o autor diz que pretende ir morar com os curdos o bichinho aparece para pagar um sapo e lembrá-lo de suas raízes italianas. É legal, mas não me pegou. Embora aqui ele seja a última bolacha no pacote, no Brasil é um ilustre desconhecido. No último Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ, realizado em Belo Horizonte, sua palestra não atraiu nem vinte interessados.

Kobane Calling. O grande clássico do incontornável Zerocalcare.

E o segundo tipo de comic shop? Bem, estas são especializadas em fumetti. Via de regra são do tipo detalhista, com quase todos os números da coleção XYZ de Dylan Dog e outros da Bonelli. Embora haja itens novos, dedicam-se basicamente ao comércio de produtos raros e usados. A grande vantagem dos chamados “negozi di fumetti” em relação às livrarias e até em relação às bancas é o preço praticado. Parece haver uma política quase solidária dos donos de loja, que parecem ter escolhido como missão de vida a tarefa de vender gibis por um preço acessível. Tem uma loja em Roma, por exemplo, chamada “Discount del Fumetto”, algo como “fumetti com desconto”. Isso me pareceu tão inacreditável que fiquei lendo a placa do estabelecimento umas duzentas vezes, tentando entender o que estava acontecendo. Outro ponto de destaque dessas lojas é a variedade no acervo. Mesmo quem já é macaco velho quando o assunto é gibis fica se sentindo quase um alienígena quando se depara com a quantidade de títulos disponíveis, a grande maioria produzida por autores novos e/ou desconhecidos.



Típica loja de fumetti na Itália

Talvez a grande diferença de estar num país em que os quadrinhos são tratados como forma de arte seja o fato de que este meio de expressão é tratado como algo natural e espontâneo. Não se tem jamais a sensação de que se está lidando com um mercado de “nicho” ou com uma cultura destinada apenas a iniciados. Rótulos como nerd, geek e outros termos divisivos são raramente escutados, porque o quadrinho é considerado parte da cultura do país e não haveria razão para separar as pessoas neste ou naquele grupo. Outra prova disso é a divulgação dos eventos, simplesmente massiva. Tem até propaganda no bilhete do metrô.

Propaganda da convenção Romics, com divulgação no bilhete de metrô

Os quadrinhos – assim como os livros – estão presentes em diversos ambientes de convívio social, como salas de espera, bibliotecas de condomínio e albergues. Tem gibi até no bar. Lembra que eu falei que isso aqui era o paraíso? Então...


Unindo o agradável ao agradável

 
 Texto relacionado: "Viagem ao país dos quadrinhos"

2 comentários

Eduardo Spicacci disse... @ 8 de fevereiro de 2019 09:48

Excelente post! Me deu mais vontade ainda de viajar para a Itália...

Vieira disse... @ 15 de fevereiro de 2019 14:02

Caralho Marcão, isso aí deve ser bom demais. Tenho comprado basicamente só bonelli hj em dia. Não tem uns toys legais do Dylan e do Groucho por aí?

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