por Ciro Inácio Marcondes

A coisa mais misericordiosa do mundo, ao meu ver, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a obscuros mares de infinidade, e não nos é possível viajar muito longe. As ciências, cada uma se esticando em sua própria direção, pouco nos afetaram até agora; mas algum dia o agrupamento deste conhecimento dissociado irá abrir visões tão aterrorizantes da realidade, e de nossa assustadora posição nela mesma, que iremos ou padecer da loucura oriunda da revelação, ou fugir da luz em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas.

Assim, desta maneira intrigante e oracular, começa o conto/novela O Chamado de Cthulhu, escrito por Howard Phillips Lovecraft em 1926 e publicado na revista pulp Weird Tales em 1928. Famoso, esse parágrafo dá conta de muito do que se associa à literatura lovecraftiana, que se tornou base para o culto cada vez mais crescente ao gênero do terror, seja no cinema, nos quadrinhos, em games ou nos próprios contos e romances. O que há ali que já nos prenuncia uma ambientação psicológica típica da originalidade deste autor tão singular?
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por Marcos Maciel de Almeida

Tomei conhecimento do trabalho do norte-americano Nick Drnaso há alguns dias, por causa de uma matéria na revista New Yorker. A princípio achava que ele era mais um Chris Ware wannabe, mas fiquei bastante curioso para ler seu último álbum, a graphic novel Sabrina (Drawn and Quarterly, 2018). Impulsivo – eufemismo para consumista – como sou, encomendei o gibi, que devorei rapidamente. A compra valeu a pena. A leitura foi inquietante, para dizer o mínimo.

Sabrina conta a história de uma garota que desapareceu. Seu namorado, desconsolado, vai morar com um amigo em Chicago, enquanto tenta superar o acontecimento. Outra personagem é a irmã de Sabrina, que teve de segurar – praticamente sozinha – a barra com o sumiço. À medida que os fatos se desenrolam, Nick aumenta o alcance da lupa que coloca sobre cada um dos protagonistas. Existe uma sensação de desconforto latente que só aumenta durante a – lenta – narrativa. 

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por Márcio Jr.

Se em 1992 a recepção da crítica para Drácula de Bram Stoker foi ambígua, passado mais de um quarto de século a película de Francis Ford Coppola adquiriu status de filme de culto. Não é para menos. Abrindo mão de quaisquer efeitos especiais computadorizados, a obra é uma homenagem aos primórdios do cinema, com seus jogos de espelhos, trucagens analógicas e direção de arte embasbacante. Hoje, a iconografia do longa divide o imaginário do público com as versões do Príncipe dos Vampiros encarnadas por Bela Lugosi e Christopher Lee. Atestado inconteste da potência visionária de Coppola.

Aproveitando o lançamento do longa, a Topps Comics rapidamente colocou em produção uma adaptação em quadrinhos, reunindo uma equipe de primeira linha. No roteiro, ninguém menos que o veterano Roy Thomas. E na arte, um astro em franca ascensão: Mike Mignola. Completando o time, John Nyberg (arte-final) e Mark Chiarello (cores). Publicada como uma minissérie em 4 edições, a HQ logo saiu de catálogo, tornando-se, ela também, um objeto de culto. Somente em 2018 a série foi reunida em luxuosa edição pela IDW Publishing, ganhando versão nacional pela Mino.
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Quem estreia em colaborações na Raio Laser é o não menos que excepcional Bruno Porto, que vem dialogando com a gente já de longa data, e que agora nos presenteia com essa caprichada resenha dessa incrível exposição sobre Charles Schulz em Londres. (CIM)

Bruno Porto é designer, professor e consultor. Atuou como curador da 12ª e 10ª Bienais Brasileiras de Design Gráfico (2017 e 2013) e de uma dúzia de exposições de artes gráficas montadas em países da  América do Sul, Ásia e Europa. Tem livros e textos publicados sobre design gráfico e recentemente vem pesquisando o assunto no âmbito das Histórias em Quadrinhos. Atualmente integra o GIBI - Grupo de Estudos de História em Quadrinhos do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília – UnB e os Conselhos Consultivos da ADG Brasil e do Comitê Tipos Latinos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, já morou em Nova York, Xangai e Brasília, e atualmente vive na Haia.

por Bruno Porto

A primeira exposição na Inglaterra da obra do cartunista estadunidense Charles Schulz (1922-2000) — realizada de 25 de outubro a 3 de março de 2019 na Somerset House em Londres — tem utilizado como principal mote promocional a apresentação em paralelo de originais das tiras Peanuts com obras de vinte artistas plásticos contemporâneos inspirados pelo trabalho do criador de Snoopy e cia. Apesar das reflexões interessantes geradas por estes dois chamarizes - que procuram conectar a tira iniciada em 1950 com a produção artística do século XXI - o que se destaca na montagem é a compreensão do pioneirismo de Schulz em abordar nas suas tiras diárias tópicos de extrema relevância nos dias de hoje, como racismo, feminismo e religiosidade.


A primeira parte da exposição, organizada em parceria com o Charles M. Schulz Museum and Research Center, apresenta uma revisão biográfica e introdutória de criador e criação ilustrada por fotos da infância e juventude de Charles Monroe Schulz, itens como sua luva de baseball e outros brinquedos dos anos 1920 e 1930, seus primeiros trabalhos publicados, vários rascunhos e materiais de desenho, culminando no indefectível vídeo do quadrinista desenhando e descrevendo seus principais personagens. Artes originais das tiras permeiam a exposição em toda sua extensão, mas as apresentadas nesta ala - que ocupa uma generosa sala subterrânea da Somerset House - buscam enfatizar as semelhanças entre os dois Charles, Schulz e Brown, como o pai barbeiro, o interesse pela patinação no gelo e o cãozinho ganho na infância - o pointer Spike que se tornaria o beagle Snoopy.
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por Marcos Maciel de Almeida

Pouco mais de quatro meses atrás fui transferido para Roma, por motivos profissionais. Na hora em que comecei a tomar todas as providências práticas para a mudança ainda não tinha me dado conta, mas pouco antes de embarcar caiu a ficha de que estava prestes a morar numa das mecas do quadrinho na Europa. Sim, para quem não sabe, a cultura de quadrinhos na Itália é uma tradição estabelecida já há várias décadas. Fumetti – que é como os quadrinhos são conhecidos por aqui – são uma forma de arte largamente disseminada e é possível encontrar pessoas de todos os tipos consumindo e lendo em tudo quanto é lugar, especialmente nos meios de transporte. Aos poucos fui percebendo que tinha tirado a sorte a grande. O país é realmente um paraíso para os apreciadores da nona arte.

Quem conhece alguma coisa da cultura italiana já percebeu que os caras são aficionados pelos Estados Unidos. O exemplo mais prático e inescapável disso é a tara deles pelo faroeste. Obsessão tão grande que o gênero foi recriado por estas bandas. O chamado Faroeste Espaguete adquiriu vida própria ao recriar a escola de bangue-bangue norte-americana, chegando até mesmo a superá-la, como afirmam alguns críticos especializados. E essa predileção pela cultura oriunda do país ianque não é refletida apenas na tela grande. Os gibis também sofreram forte influência e o faroeste também dá as cartas nas HQs, como demonstram a onipresença nas lojas e bancas de séries como Tex, Zagor, Mágico Vento, Ken Parker e outras. Mas o prestígio estadunidense não se restringe ao gênero western. Existem inúmeras outras séries com inspiração norte-americana, com temática, localização e épocas pertinentes, como Julia e Martin Mystère, entre outras. Mas a que se deveria tanto entusiasmo por quase tudo que vem da terra do Tio Sam?

Clássico maior do faroeste espaguete

Certamente, um dos fatores que mais contribuíram para essa admiração foi a influência estadunidense na Europa no cenário de pós II Guerra Mundial. Além de possuir todo o glamour de figurarem como os principais vencedores do conflito, os norte-americanos tornaram-se fiadores da reconstrução do velho continente, transformando-se em credores dos países pertencentes ao bloco ocidental. Além disso, Washington também tinha a seu lado a potente indústria cinematográfica hollywoodiana, capaz de vender – e bem – a imagem da autopropalada terra da liberdade e da democracia. Era quase impossível resistir a essa atração que, por alguma razão, reverberou de forma especialmente intensa junto ao povo italiano.
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por Lima Neto


A imagem que abre este texto é uma reprodução de uma pintura de Ernest Thompson Seton. A pintura é intitulada A Vitória do Lobo. Essa pintura, e sua figuração mórbida e chocante, foi reprovada pela curadoria do Grande Salão de Paris, em 1892. De nada adiantou mudar o título para Aguardando em Vão, na expectativa de que uma dose de ambiguidade pudesse convencer os júris de que aquela agourenta imagem de um lobo roendo um crânio humano acompanhado de uma despojada alcateia pudesse representar algo diferente da derrota fatal de todo um plano humanista que se encontrava a pleno vapor na Europa do Século XIX (a pintura foi inspirada na notícia de um roceiro caçador de lobos predadores de gado que desapareceu certo dia para reaparecer como um cadáver parcialmente comido pelos mesmos lobos que pretendia eliminar). Sentindo-se um incompreendido em seu discurso artístico, Seton retornou então para a América do Norte para seguir sua vida em meio aos ambientes selvagens como um estudioso dos animais que tanto respeitava. 
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Direto ao ponto, porque esse post é uma "long and winding road". Quem segue a Raio Laser sabe que nosso "best of" de fim de ano corresponde às melhores leituras em quadrinhos, de qualquer época ou nacionalidade, realizadas no decorrer dos últimos 12 meses. Como a Raio é um bicho solto, cada escriba faz a sua lista do jeito que quiser, isso se quiser fazer. Para a lista de 2018 três colaboradores se habilitaram. Eu, Márcio Jr. e Marcos Maciel de Almeida. Márcio e Marcos fizeram listas com dez títulos. Marcos colocou em ordem. Eu fui fominha e fiz 11 títulos. Eu e Márcio não colocamos em ordem. Tem de tudo aí nesse balaio: lançamentos, quadrinho nacional, BD, mangá, erótico, comics, romance gráfico, fumetti, era de ouro, etc. Para se ir lendo em partes, mas para se ler inteiro! Até 2020! (se tivermos mundo em 2020). (CIM)

Edições anteriores do nosso Best Of:


por Ciro Inácio Marcondes, Márcio Jr. e Marcos Maciel de Almeida.
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