por Pedro Ribeiro

Entramos nos anos 2000 aproveitando as benesses e também os ocasos da tecnologia: muitos de nós usando telefones celulares, acessando a internet e trocando mensagens e conteúdo via e-mail. Mas também experimentando o início do controle cibernético, uma maior falta de tempo, relacionamentos anteriormente presenciais e hoje em dia mais líquidos, distantes fisicamente e em algumas vezes, afetivamente. Muitos conceitos estavam sendo modificados na sociedade nesse período, e por que não rever o conceito de mutantes também? Afinal, titio Stan Lee e vários outros roteiristas e artistas tanto na Marvel como na DC nos ensinaram que os super-heróis eram um reflexo do que estava acontecendo no mundo exterior. E foi aí que surgiram, rejeitando a cronologia e o politicamente correto, os X-Táticos de Peter Milligan e Michael Allred. E quem irá dizer que não é ousadia assumir um título X introduzindo um grupo de personagens 100% desconhecidos e esquisitos?


Os primeiros mutantes criados na Marvel existiam em uma só revista de história em quadrinhos criada em 1962, os X-Men. Eles consistiam de cinco indivíduos, Ciclope, Garota Marvel, Fera, Anjo e Homem de Gelo, tendo como líder o Professor X. Esse foi o começo de tudo. Porém, dos anos 80 em diante houve uma grande expansão de títulos X, como os Novos Mutantes, X Factor, Excalibur, Geração X, e outros. Diversas publicações mutantes, coerentes com nosso consumismo voraz. Se antes tínhamos dois ou três pares de calçados nos anos 80 e hoje temos quase uma dúzia em nossos guarda roupas, haveria de ser assim com os quadrinhos também. Quem aqui não tem uma pilha enfileirada de gibis para ler que atire a primeira pedra.

A saga dos X-Táticos começou quando chegou às lojas de quadrinhos a edição 116 de X-Force, em julho de 2001, com um novo grupo de heróis, os mais diferentes que as mentes férteis de Peter Milligan e Michael Allred puderam imaginar. Ouso dizer que X-Force em 2001 teve tanta importância para renovar o gênero mutante quanto os New X-Men de Grant Morrison, lançado no mesmo ano. É notório que o quadrinho de super-heróis é uma arte criada pelos norte-americanos, e refletindo sobre isso é possível estabelecer uma forte conexão do X-Force de Milligan e Allred com a pop art, o mais famoso período das artes plásticas dos Estados Unidos.


Surgido na década de 60, demonstrava com suas obras a massificação da cultura popular capitalista, dissecando-a e expondo seu melhor e pior lado. O movimento se alimentava de propagandas de produtos, de imagens de celebridades e também de histórias em quadrinhos das eras dourada e prateada. As cores primárias e secundárias eram muito utilizadas: azul, vermelho, amarelo e demais combinações. E o maior nome da pop art, Andy Warhol, profetizou na década de 60 que no futuro todos seriam celebridades instantâneas e teriam seus 15 minutos de fama.

No X-Force de Milligan e Allred, seus personagens vivem de maneira rápida seu protagonismo, participando de um casting frenético, onde não se sabe quem será afastado do grupo ou morto. Em uma sociedade com excesso de cobertura midiática, narcotização da informação e celebridades instantâneas, esse grupo de super-heróis é montado inicialmente pelo personagem Treinador para realizar missões, que ninguém sabe se são realmente de cunho heroico ou “trabalho sujo”. Tem seus passos monitorados pela mídia, que mensura inclusive quem é mais popular entre a audiência.


No primeiro número dessa fase o leitor é introduzido a uma equipe de sete personagens novos em folha, e após 22 páginas a história termina com cinco deles mortos de maneira violenta. Ou seja, os 15 minutos de fama desses personagens tinha acabado, mandando a mensagem de que nesse específico quadrinho não haverá zona de conforto, o leitor não está no comando e  tudo poderia acontecer. Detalhe interessante: o Comics Code Authority (CCA), órgão regulador dos quadrinhos criado em 1954 ficou furioso com o conteúdo apresentado na referida edição, levando a Marvel, por consequência, a não utilizar mais o selo de aprovação do CCA em suas publicações. E dois anos depois, mais um sinal dos tempos: o referido órgão deixou de existir.


Esse X-Force era o espírito da louca e intensa vida real, e não por acaso seu primeiro líder tinha o nome de Zeitgeist. Em X-Force os mutantes, anteriormente excluídos, eram reconhecidos como celebridades. Seus integrantes davam entrevistas, apareciam em revistas de fofoca e tinham produtos com seus nomes licenciados. Enquanto era o Treinador quem mandava no grupo (o big brother da história), também havia o estranho Dup, um ser parecido com o Geléia de Os Caça Fantasmas, que falava uma língua alienígena e que atuava na equipe como cinegrafista.


Com a morte de quase toda a equipe inicial no primeiro número, o Treinador mais uma vez forma um grupo contando com Vivisector, Adiposo, Anarquista, Órfão, Vai Nessa, entre outros. Nomes diferentes e esquisitos para personagens novamente diferentes e esquisitos: em sua maioria excluídos do mundo onde viviam, dessa vez não havia só o indivíduo negro, latino ou white trash (o pobre loiro de olhos claros dos EUA), mas o humano de pele magenta, azul ou cinza.

Após algumas páginas, o novo líder desse grupo é definido, mais uma vez passando para o leitor o sentimento de surpresa em relação à escolha. No roteiro esperto do autor britânico existem reviravoltas, momentos imprevisíveis e às vezes constrangedores. Peter Milligan é criativo, divertido e ácido, mantendo o estilo esperado de um escritor vindo do Reino Unido, como Moore, Morrison, Ennis, Millar e tantos outros. E quem é escolhido como líder dessa nova e definitiva formação é o personagem Senhor Sensível (o Órfão), de pele extremamente delicada (por isso tem que usar um traje específico produzido pelo Professor X) e que possui um caso de depressão, o que o leva ao hábito de fazer roleta russa com um revolver em seus momentos longe do grupo.

Na coletiva de imprensa ele, desconfortável com seu codinome de herói, resolve mudá-lo para o Órfão na hora da entrevista, e reflete: “Eu penso na arma esperando por mim. Eu penso no nome que me deram. Talvez na verdade seja o nome que eu queira matar... eu sou um órfão. É isso que me define”. O Órfão, personagem de princípios e coração puros, é contraponto aos outros integrantes do grupo, que só pensam em fama e em puxar o tapete uns dos outros. O Órfão nessa HQ me lembrou Rorschach, de Watchmen, em termos de pureza e fidelidade ao conceito de herói, ou o Capitão América, de Guerra Civil (vide matéria da Raio Laser).

A arte de Michael Allred é um capítulo à parte, com traço simples, dinâmico e de arte final de pinceladas bonitas e precisas. Vê-se que é um artista com anos de experiência, e que possui um estilo retrô bem familiar aos conceitos de pop art, assim como a colorização vibrante que todos os seus desenhos recebem, graças à parceria de décadas com sua esposa, a colorista Laura Allred. Uma parceria tão eficaz quanto Frank Miller e Lynn Varley, mas nesse caso sem divórcio.

Creio que um título tão alternativo como essa versão da X-Force só conseguiu ser publicado em um lugar do porte da Marvel graças à visão de Joe Quesada, que trabalhou como editor-chefe na editora entre 2000 e 2011. Exímio descobridor de talentos, Quesada se envolveu em vários projetos que pavimentaram o sucesso da Marvel naquele período, entre eles Marvel Knights (onde alguns personagens famosos tinham histórias não necessariamente ligadas à cronologia da editora), Max (linha de histórias de conteúdo mais adulto) e a Ultimate (para leitores jovens começarem sua incursão no universo Marvel). Michael Allred era famoso por escrever e desenhar seu personagem Madman em editoras menores, mas é certo que Quesada deve ter prestado muita atenção no título de super-heróis que Allred estava publicando autoralmente sob o selo AAA Pop Comics em 2000: The Atomics.

The Atomics era uma nova empreitada para Allred, pois era a primeira vez em que ele estava fazendo uma história de grupo ao invés de seu popular personagem solo. Na cidade de Madman, Snap City, alguns beatniks (jovens alternativos que rejeitam o conformismo burguês, seus valores e vestimentas) entram em contato com material alienígena e têm sua cor de pele alterada e deformada, decidindo assim viver nos esgotos da cidade. Com o passar do tempo, passam a controlar melhor seu corpo e desenvolvem poderes, passando a adotar vestimentas e formar um grupo de heróis. O conceito estético e visual de The Atomics possui diversas semelhanças com o que viria a ser feito por Allred em sua parceria mutante com Milligan, a começar pelo personagem Metalman (The Atomics) e o Órfão (X-Force): eles parecem ser a mesma pessoa!

E o X-Force foi transmutando tanto que após o número 129 zerou sua numeração e se tornou X-Táticos, com mudanças de uniforme e mais personagens novos surgindo, em destaque para uma bem especial: Milligan queria reviver a Princesa Diana, morta em 1997, para o mundo dos quadrinhos. Em 2003, Milligan, Allred e os executivos da Marvel anunciaram que uma Lady Di ressuscitada dos mortos iria fazer parte da equipe de mutantes no número 13 da nova revista. O Palácio de Buckingham ficou sabendo da empreitada e ordenou que a Marvel abandonasse a ideia. O arco de histórias foi reescrito e no lugar de Lady Di foi criada a cantora Henrietta Hunter, no arco de histórias “Back from the dead”. Isso é só um dos exemplos das maluquices e polêmicas dos X-Táticos. 


Existem vários outros, como na edição 117, onde membros do antigo X-Force (o grupo original da década de 90 que contava com Míssil, Dinamite e Dominó e outros) aparecem para questionar a marca do grupo de maneira metalinguística. Axel Alonso, o editor original de X-Force e X-Táticos, definiu com empolgação a série como “Criadores incomuns trabalhando em um título muito, muito comercial. Uma aquisição hostil no paradigma mutante.”

Porém, como em uma montanha russa, existiram também os fatídicos momentos de declínio: a HQ começou a ter baixos índices de vendas e houve algumas tentativas em vão de fortalecer o título. A aparição dos Vingadores em cinco edições de X-Táticos (21 a 25) foi um exemplo disso. E por fim, quando foi dado o ultimato aos criadores para cancelar a revista, eles o fizeram de forma coerente com toda a narrativa da série, já no número seguinte. Colocaram um grande ponto final em tudo, com um desfecho exatamente da maneira que você, leitor, deve estar pensando.

Esse era o ano de 2004, fim de um período criativo, efervescente, jovial como nenhum título mutante jamais experimentou. Houve depois spin offs desse universo X-Táticos, como a minissérie da personagem Falecida (2006), uma série do Dup para a All New Marvel Now (2014), e só.

Após X-Force e X-Táticos, Milligan prosseguiu sua carreira escrevendo esporadicamente para Marvel, DC e mídias fora dos quadrinhos, enquanto Allred começou a desenvolver uma interessante parceria com a Marvel. Em 2013 Desenhou a série FF, escrita por Matt Fraction e que mostrava uma versão alternativa do Quarteto Fantástico liderada pelo Homem Formiga. E entre 2014 e 2017 teve uma primorosa e elogiada atuação na revista do Surfista Prateado, escrita por Dan Slott. Nada mal para um sujeito que em 1989 abandou a carreira de repórter internacional de TV para seguir o extremo amor pelos quadrinhos de heróis.


Hoje em dia é possível ler online com facilidade essas HQs, ou adquirir o X-Statix omnibus pela internet em sites gringos, uma edição em capa dura que compila toda a saga de Órfão e seus companheiros. Estão lá todos os números de X-Force, X-Statix, além de histórias extras como as mini séries Falecida (Dead Girl) e Wolverine e Dup (pelo renomado artista da DC Darwyn Cooke). É uma saga de 1.200 páginas que conseguirá manter fãs de bons quadrinhos ocupados por um bom tempo. O site Newsarama inclusive fez uma matéria há alguns anos atrás analisando o trabalho feito por Milligan e Allred em X-Táticos.


Acompanhar por tanto tempo esses personagens me fez ter vínculos com eles, e como nunca mais os vi por aí em publicações diria que estão sumidos. Tenho saudade deles. Permanecem adormecidos no cruel limbo de heróis não utilizados das editoras. Quem sabe um dia eles não voltam à ativa, para mais aventuras interessantes que possam repercutir tanto no mundo dos quadrinhos quanto no mundo real.

2 comentários

Diogro Lemes disse... @ 5 de janeiro de 2019 13:22

Que matéria ótima, sempre gostei muito do trabalho do Milligan e dos Allred, mas já havia me esquecido dos "X-Státicos". Agora, preciso muito reler tudo isso.

Pedro Ribeiro disse... @ 7 de janeiro de 2019 17:00

Obrigado por sua mensagem, Diogro!

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