por Marcos Maciel de Almeida

Ano passado critiquei duramente – porque realmente não me agradou tanto – o Moby Dick do Christoph Chabouté. Recentemente a obra foi agraciada com os prêmios HQ Mix de Melhor Adaptação para os Quadrinhos e Melhor Edição Especial Estrangeira. Isso quer dizer que me arrependo do que falei antes? Nem de longe. Aqui na Raio Laser temos autonomia para falar bem e mal de todo mundo. Não queremos agradar ninguém. Só temos compromisso com a palavra sincera e com o leitor do nosso blog. Bem, talvez para me provocar, o pessoal da Raio me pediu para resenhar esse lançamento do Chabouté. Será que vou malhar o cara de novo?

Minha escolha da ocasião para ler o gibi não poderia ter sido mais apropriada. Sabe aquela quarta-feira em que você é obrigado a passar uma manhã interminável no Detran? É mais ou menos por aí. Passei umas quatro horas sentado num pedaço de madeira e aço, digo de metal e borracha, aguardando a minha vez. Mas felizmente eu tinha um gibi na mão, como sempre. 

Vários pedaços de metal e borracha vulcanizada

Admito que, dessa vez, o autor francês se redimiu comigo. Cara, que gibi. Bem, todos já devem estar carecas de saber que se trata de uma HQ muda que narra a “vida” de um banco de madeira e aço numa cidade qualquer, mostrando vários personagens e tramas que se desenrolam naquele ambiente. Impossível aqui não traçar um paralelo com a graphic novel Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo, do Chris Ware. Tanto este último quanto Chabouté souberam retratar de forma bastante precisa o desenrolar – bastante lento, por vezes – da rotina do dia a dia. Enquanto Ware optou pela melancolia claustrofóbica, Chabouté resolveu navegar solto pelo ritmo da vida e da natureza. Ler Um Pedaço de Madeira e Aço é deixar-se levar pela brisa dum fim de tarde ameno e respirar o ar puro de bosques verdejantes. 

Há páginas de pura poesia. Os personagens entram e saem de cena a todo momento para dançar a valsa coreografada por Chabouté, que deita e rola no domínio da técnica quadrinística, ora apressando a narrativa ou nos convidando para esticar uma toalha ao lado do banquinho e ficar mirando o céu sem hora para terminar. 


De forma sutil, Chabouté tece uma complexa teia entre os personagens, que desvela a dependência quase animalesca de alguns tipos de relacionamentos interpessoais. Dentre eles, o melhor sem dúvida é o do guarda municipal que tem como grande prazer o ato de enxotar do banco um cidadão sem teto.


Fico pensando que Chabouté é realmente um maluco obsessivo. Primeiro que ele teve colhões para adaptar o Moby Dick de Herman Melville – ainda que com resultados ambíguos, na minha modesta opinião. Mas felizmente ele agora direcionou sua compulsão de forma mais interessante. Exemplo: quantas vezes ele teve de desenhar o mesmo banco? Tendo a acreditar que ele não repetiu os frames, já que cada desenho difere do outro. Ganhou meu respeito. Minha crítica – será que pode? – refere-se à baixa diversidade no desenho dos rostos dos personagens, que ficaram, portanto, bastante semelhantes. Outro senão é que o gibi é um pouco repetitivo. Mas ok. A vida também é assim. 


A edição do P&N está – para variar – um primor. Esse formato menorzinho e volumoso, com a capa preta e um fitilho lembra a Bíblia, mas é um pouco mais divertido. É, meu amigo, os caras dessa editora não estão para brincadeira não. Melhor para nós, leitores, que estamos tendo acesso a um material que – eu achava – nunca veríamos aportar por aqui. 

Valeu, Chabouté. Vai na fé, irmão. Não dê moral para os críticos. 


1 comentários

Anônimo disse... @ 3 de setembro de 2018 22:04

Muito legal o texto, Marcos! Fiquei com vontade de ler essa hq!!! :)
drera

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