por Marcos Maciel de Almeida

No momento em que começo a escrever esse texto, são 13h em Roma. Daqui a duas horas, mais exatamente às 10 da manhã no horário de Brasília, está marcado para acontecer o começo do fim. Se você não sabe do que estou falando, explico. Hoje, 22/09/18, é o último dia de funcionamento da Kingdom Comics, loja especializada em HQs e camisetas, que ajudei a fundar 22 anos atrás. Sim, o sonho acabou. Considerando a baixa longevidade das microempresas no Brasil, pode-se dizer até que a Kingdom durou bastante. Mesmo assim, a tristeza é grande.

A loja começou em 1996. Não vou entrar muito em detalhes sobre isso, porque já existe um mini documentário muito bacana sobre isso, feito pela Rafa Rodrigues em 2006. Agora, talvez seja melhor falar um pouco sobre o que aconteceu desse momento da época das filmagens até hoje.



Naquele período, eu estava começando a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como Oficial de Chancelaria.  Bem, você deve estar se perguntando porque um dos sócios de uma das lojas mais reconhecidas da cidade resolveu se tornar funcionário público. Bem, não é segredo para ninguém, mas é sempre bom relembrar: quadrinho no Brasil não dá dinheiro. Quer dizer, até dá para alguns mais afortunados e competentes, mas para a grande média das pessoas envolvidas nessa área não é bem assim. É mais uma questão de paixão que qualquer outra coisa. Mas, infelizmente, amor não enche a barriga e eu tive de “passar para o lado negro da força” para conseguir me manter.

Confesso que a boa administração da empresa nunca foi nosso forte. Volta e meia eu e o outro sócio-fundador – Raimundo Nonato, aka Natinho – nos perguntávamos : “Cara, que tipo de empresários somos nós?”, tamanho nosso amadorismo. Nunca fomos muito fãs de cursos de aprofundamento, tabelas e consultorias especializadas. Sempre tocamos o negócio mais na base da força bruta. Por quê? Não sei dizer. Pode parecer preguiça – e de certa forma era –, mas tentávamos fazer a coisa mais de forma instintiva que racional. E a emoção estava fluindo, ou ao menos parecia que era assim. Mas a verdade verdadeira era que estávamos no zero a zero financeiro, sempre vendendo a janta para poder comprar o almoço. E foi aí que eu comecei a pensar em fazer outras coisas da vida.

No começo de 2007, apareceu a oportunidade de realizar uma missão de três meses na África. Foi uma experiência da qual voltei transformado. Tinha me encontrado profissionalmente. Esse esquema de poder passar temporadas curtas ou longas trabalhando no exterior, proporcionado pelo serviço no Ministério, fez com que eu me desse conta de que – em sã consciência – jamais deixaria de fazer parte do Itamaraty. Foi ali que eu decidi que iria fazer o concurso para a carreira diplomática, mesmo não tendo jamais passado. Mas essa é outra longa história, que não vem ao caso.

Já de volta ao Brasil, não estava conseguindo dar conta dos meus afazeres. Ser sócio da loja, trabalhar no MRE e estudar para o certame não estava fácil. Eis que surgiu uma proposta que eu não poderia deixar de chamar “fome encontra vontade de comer”: dois ex-funcionários da loja (Lima Neto e Gabriel Sousa) e um cliente se ofereceram para comprar minha parte na sociedade. Foi o chamado encontro de vontades coincidentes. Passam-se alguns meses e a transação estava concluída. Agora eu não era mais dono da loja, tendo me juntado ao time de incontáveis clientes e – por que não – fãs. Meus onze anos de paternidade haviam chegado ao fim. Minha filhinha querida havia obtido sua emancipação e foi morar com outros rapazes. E tudo estava ok, porque os novos donos eram caras do bem.


Apesar de não ser mais proprietário, sempre estava presente. Ir lá de vez em quando era um prazer quase terapêutico, era voltar no tempo que a gente dava muita risada naquelas bandas, mas sem a onipresença da tensão nervosa dos tempos da minha gestão. Sim, era estressante. Pode me chamar de medroso ou do que você quiser, mas eu tinha receio de tudo que você possa imaginar. Tinha medo da Receita Federal – embora pagasse todos os impostos. Tinha medo de que algum funcionário quisesse me colocar na Justiça – embora pagasse todos os direitos em dia. Tinha medo de ir para casa e que a loja pegasse fogo à noite. Tinha medo de que fôssemos assaltados por algum maluco no final do expediente. E por aí vai... Sabendo disso, acho que você consegue entender um pouco do alívio que eu sentia quando podia visitar a loja na condição de apenas cliente. Era só bônus.

Eu acompanhava e divulgava tudo que estava acontecendo, porque ainda me sentia como se fizesse parte da equipe. Tinha vezes que eu até atendia os clientes que não me conheciam, for old times sake. Eu era um dos membros honorários da Kingdom e isso me enchia de orgulho. Cada nova ideia que os novos sócios lançavam eu fazia questão de apoiar. E rolaram umas coisas muito legais, como os shows do Galinha Preta na porta da loja e as feiras para revenda de gibis usados. Fizeram até uma série de vídeos no YouTube chamada Kingdom Cast. Tudo estava muito bem, tudo estava muito bom. Só que não era bem assim.

Já estava sabendo, nos últimos anos, que a saúde financeira da loja não ia bem. De novo: tocar uma empresa no Brasil não é fácil e se essa empresa trabalhar com produtos culturais é quase um milagre conseguir sobreviver. Mas os bravos rapazes donos da loja não se rendiam. Continuavam a lutar contra tudo e todos para manter o sonho vivo. E os desafios eram gigantescos: crise financeira, advento das grandes lojas de varejo on-line, decadência gradual do Conic e por aí vai. Mas sinto que a pá de cal veio nos últimos seis meses. A compra feita por um megaempresário de boa parte do Conic, aliada ao fechamento de boa parte desse espaço para reforma, deixou o Setor de Diversões Sul às moscas. Segundo se diz, a ideia do tal investidor é transformar a área num grande empreendimento do tipo Shopping Center. Verdade ou não, essa ideia ainda demorará alguns anos para se realizar. E esse, infelizmente, era um tempo que a Kingdom não tinha.

Ao longo de sua existência, a loja passou por várias fases. No começo, havia muitas camisetas de Rap. Depois, as estampas foram gradualmente migrando para motivos de quadrinhos e foi um sucesso. Posso dizer, sem falsa modéstia, que a Kingdom vestiu boa parte da juventude de Brasília no início dos anos 2000. Era o tal estilo Kingdom de ser. Outro momento marcante foi quando fortalecemos o sistema de assinatura de títulos de quadrinhos importados. Muitos clientes batiam ponto às terças-feiras para retirar suas encomendas. Era uma coisa quase religiosa. Depois veio a febre dos mangás. Na Kingdom nos orgulhávamos de ter todos os números de qualquer mangá que o cliente precisasse. Havia clientes que gastavam verdadeiras fortunas para completar as coleções. Era uma loucura. Isso sem contar a imprevisibilidade do dia-a-dia. Pessoas bêbadas, tretas mil e encontros casuais que se tornaram amizades profundas transformaram cada jornada de trabalho numa experiência única.

Uma pena pensar que isso não vai acontecer mais. Ainda assim, todos esses momentos foram e vão – espero – continuar se repetindo no espaço-tempo de nossas mentes. Talvez o grande legado da Kingdom tenha sido o sentimento de cumplicidade com a clientela e com Brasília. Foram diversas as vezes, por exemplo, em que a loja apareceu em veículos da mídia – especialmente no Correio Braziliense – simplesmente porque o jornalista e o editor da época queriam dar uma moral para a loja. Uma pena que não tenhamos conseguido capitalizar toda essa exposição midiática e conseguir revertê-la em retornos mais sólidos para a loja. Mesmo assim, fica a sensação de que conseguimos cativar um lugar especial no coração dos brasilienses e não há dinheiro que pague esse sentimento de termos conseguido fazer algo que foi especial para nossa cidade.

A última vez em que estive na Kingdom foi em meados de agosto. Alguns dias depois eu estaria sendo enviado para Roma, para trabalhar durante 3 anos. Não sabia que a loja fecharia. Então, não pude dizer meu último adeus. Talvez tenha sido melhor assim. Como vocês já devem ter percebido, sou um cara muito sentimental e poderia ter feito o maior papelão.

Só posso encerrar deixando meu muito obrigado aos inúmeros clientes, funcionários e apoiadores da loja, muitos dos quais se tornaram amigos-irmãos. Por causa de todos vocês, tudo valeu muito a pena.

22h55 por aqui. Hora de dormir. No Brasil a Kingdom ainda estará aberta. E. pelo menos nos meus sonhos, ela ainda continuará a existir por mais um dia.

Eu atuando como modelo para as estampas da loja. Eis o motivo real para o fechamento da Kingdom.

5 comentários

Fabiano Ballast disse... @ 25 de setembro de 2018 17:48

Realmente, fim de uma era. Eu era fã, cliente e admirador do formato da Kingdon Comics, participei até de um concurso de quadrinistas locais, no início dos anos 2000, ficando em décimo, porém não tive minha história publicado na revista... A última vez em que estive na loja, foi a algumas semanas atrás, no evento de aniversário, no quintal do espaço Dulcina. Na minha opinião, a loja ficou parada no tempo, poderia ter colocado games de Xbox ou PlayStation à venda, assim como, séries e materiais geek no seu acervo... Mais ou menos, adotando o formato de lojas como a Fenac (que também fechou), com o diferencial no atendimento, que era o ponto forte da Kingdom. Enfim, o que eu vi, nesta última visita eram pessoas da cena cultural de Brasília, apaixonadas, tentando salvar e manter vivo um dos locais mais bacanas e tradicionais da cidade, vivo. Infelizmente só a paixão não foi o suficiente.

Anderson B. disse... @ 25 de setembro de 2018 22:37

Belo texto/ode/obituário... Chato demais isso. Espero que, como muitos quadrinhos, esse período seja rápido e a loja renasça.

drera disse... @ 26 de setembro de 2018 08:37

Marcos, inicialmente fiquei chateado com o fim da Kingdom e relutei em ler seu texto. Mas depois o fiz, e também assisti o documentário de 22 minutos até o fim que você colocou o link (não tinha assistido tudo) e fiquei pensando nos vários fatores que mexeram não só a Kingdom, mas todo esse mercado. Foi difícil ver o documentário, a Kingdom fervilhava: você, Natinho, Lima e tantos outros pilhados, curtindo. Toda vez que eu e meu irmão André íamos tinha uma novidade, uma camisa nova, um gibi novo, uma coisa interessante. Toda a Universidade de Brasília passava pela Kingdom, todo mundo. E depois, pelo que eu percebi, as pessoas pararam de ir. Passaram a correr atrás de outras coisas, pagar conta, sei lá. Foi o fim daquela onda, que nem a cena de música eletrônica que teve seu apogeu e sua queda em Brasília. Infelizmente, vejo que a quantidade de fãs de quadrinhos não se renova, tanto aqui quanto no mundo inteiro. Os leitores envelhecem, não aparecem outros, e as editoras investem cada vez menos na produção de títulos interessantes. Pelo menos na minha opinião. Como disse o Ciro Inácio Marcondes, isso é um alerta para as outras lojas, não só aqui no Brasil como no mundo. Será que veremos no futuro o fechamento (ou redução de tamanho) da Forbidden Planet ou da Midtown Comics?

Peixecoruja disse... @ 26 de setembro de 2018 09:21

Parte fundamental da minha juventude, com certeza absoluta. Obrigado por tudo Kingdom!

leandro brito disse... @ 26 de setembro de 2018 18:13

Belo texto Marcos.

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