por Ciro I. Marcondes

*“Love Sick” – Bob Dylan

“Um gato tenso, tocaiando o silêncio”. Esta é a pequena definição que a poeta Orides Fontela atribuiu à natureza da poesia. De fato. O poético reside no fracasso assumido da tentativa de expressão do indizível. Nos pensamentos que não se completam. Na falta ao se tentar falar da imensidão do espaço. No arrebatamento ao encontrarmos a barreira que limita o entendimento e a imaginação. Sim, a poesia tem algo que margeia o silêncio, que passa a ser vetor inescapável de sua veiculação. As palavras poéticas, seja na economia de Fontela ou nos milhares de versos de um Camões, existem para circundar e mordiscar estas esferas de vazio e abnegação que nos cercam. Estes silêncios são vultos que, com a luneta das imagens poéticas, conseguimos ver bem de longe. Aterradores vultos.  

Porém, se a palavra escrita existe para contornar este hiato indecifrável, se funciona como eletrocardiograma em que conseguimos ler apenas linhas verdes que conduzem a uma realidade imensamente mais complexa (conjecturas do coração), por que simplesmente não ultrapassar esta hiância incompleta, estes algoritmos insolúveis, e chutar a porta investindo diretamente na imagem? Por que a poesia deve ser um mero fax do silêncio, por meio da palavra, se a imagem pode nos fazer mergulhar diretamente no corpo vivo da realidade? Que a imagem é código, todos sabem, mas ela não se esgota em signos. A verdadeira beleza da imagem está em sua polivalência. Em sua capacidade de instituir derivações, ampliações, multiplicações. Hoje, mais do que nunca, uma imagem é uma célula que se reproduz (na mente e na escrita da realidade) sem repressão ou freio, livre para não ser compreendida por ninguém.


Num mundo em que tudo significa alguma coisa, a cacofonia remete ao silêncio. Durante anos pesquisei esta hipnose renegada da imagem muda. Minha obsessão, confesso, é a de que a poesia se abraça melhor na imagem silenciosa do que na palavra dos poetas. Que a poesia abastardada dos filmes, das pinturas, das fotografias e dos quadrinhos é que efetivamente carrega a potência de nos alvejar com a flecha do paradoxo. E, todos sabem, quando alguém se vê condicionado a uma obsessão, não há outra saída senão levá-la até as últimas consequências. O silêncio, assim, é a expressão que buscamos quando nosso chamado não tem ressonância, mas se sublima na forma de arte. “O silêncio não tem objeto. Tem, porém, sujeito”, já dizia o filósofo Santiago Kovadloff. A poesia é a frequência do mundo em que a comunicação se faz quando a mensagem é emitida sem que se espere um aceno do receptor.

Este texto é uma continuação de outro, O silêncio à espreita: sobre o universo das HQs mudas, que publiquei na Revista Antílope número 2, e depois aqui mesmo na Raio Laser. A ideia é realizar três análises de quadrinhos mudos partindo de reflexões como estas acima, em três paradigmas distintos de silêncio. Afinal, como passear pelo vasto leque de possibilidades de construções sem palavras em quadrinhos sem que todas se pareçam tão somente com uma pálida mímica ilustrada? Como demonstrar que, conforme nos apontou o grande Dylan (logo, verdade), que “às vezes, o silêncio pode ser como o trovão”? Três chances e três tentativas a seguir:
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