por Ciro I. Marcondes

Em 1971, quando o revolucionário rockstar Marc Bolan lançou seu segundo disco sob a alcunha T.Rex – o imprescindível boogie pulsante de Electric Warrior –, um par de versos na primeira faixa “Mambo Sun” chamou a atenção dos fãs de quadrinhos: “Girl, you're good / And I've got wild knees - for you / On a mountain range / I'm Dr. Strange - for you”. A menção ao Doutor Estranho é completamente prosaica, é claro. Um subterfúgio para uma rima simpática. Mas não deixa de ser legal que um “cosmic dancer” como Bolan tenha se aproximado do “mestre das artes místicas” (ou, em outros casos, “mestre da magia negra”) para agitar um flerte descolado e chacoalhar nossos sentidos nesta histórica faixa de abertura. E ele chegou a entrevistar Stan Lee em 1975! Somente alguém muito alheio ao cânone visual e cultural do final dos 60’s e começo dos 70’s para não pensar que o glam rock – em todo o seu desbunde que une um psiquismo espacial/alienígena/psicodélico com diversos tipos de ambiguidade (no sexo, na filosofia, na moda) – tem realmente tudo a ver com o imaginário esotérico-kitsch (que parece baseado num clichê de teosofia) que Steve Ditko imprimiu nas histórias do Doutor Estranho.




Quando “Mambo Sun” saiu, Ditko já não estava mais na Marvel (saíra em 1966 por desavenças – ainda um tanto misteriosas – com Stan Lee e Martin Goodman). Mas o Doutor Estranho acabou se tornando um dos personagens mais populares nestes primeiros anos da reformulação da editora. Isso surpreende um pouco, porque ele foi relegado a mero coadjuvante em todas as eras posteriores. Porém, no conceito original de Stephen Strange, há uma curiosidade salutar que permite o encontro de ideias, tanto científicas quanto esotéricas, que eclodiam na época. As primeiras teorias sérias sobre dimensões paralelas datam da primeira metade do século 20 (a mecânica quântica começou a ser formulada por Planck e Einstein ainda na virada do século), e o acesso a este novo alvorecer científico poderia, perfeitamente, se dar por meio de subterfúgios considerados “místicos”, mas que poderiam também ser uma forma alternativa de ciência.

"O Mago" no Tarô de Marselha
A volúpia do conhecimento permitia que tudo que fosse “estranho” pudesse ser considerado um tipo desconhecido de ciência. Daí a popularidade de Aleister Crowley, do Tarô de Marselha, da Cabala. Todo olho místico era um dispositivo quântico, um portal que trabalhava com a probabilística do mundo. A fertilidade das drogas psicotrópicas, é claro, também ajudou a sedimentar esta visão. Estamos falando de um maravilhoso mundo em que a magia e a ciência são duas faces interdimensionais da mesma moeda. Os mesmos fenômenos vistos, digamos, sob mídias distintas.

O Doutor Estranho, como sabemos, é originalmente um homem de ciência, um cirurgião. Sabemos que Ditko era um homem extremamente racionalista, seguidor fiel da polêmica doutrina filosófica objetivista da russa Ayn Rand, e muito desta ambiguidade magia/ciência foi passado para a sua criação. Stephen Strange também é partidário da ideia de que o mundo sobrenatural é apenas a ciência ainda não revelada. Por mais tresloucado que o gibi pareça, há um primado quase doutrinário da razão, e o conhecimento é valorizado acima dos poderes místicos. Vale lembrar também que o “estranho”, segundo ninguém menos que Tzvetan Todorov, é o gênero literário em que coisas inexplicáveis acontecem, mas que encontram, no final da história, seu lugar na ordem natural das coisas: “No fim da história, o leitor, quando não a personagem, toma contudo uma decisão, opta por uma ou outra solução, saindo desse modo do fantástico. Se ele decide que as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fenômenos descritos, dizemos que a obra se liga ao um outro gênero: o estranho”.

O (Doutor) “estranho”, portanto, é o mago supremo, mas guarda essa intersecção com a realidade, nesta não tão absurda ciência do oculto. Puxando esse fio podemos ligar, de ponta a ponta, a citação de Bolan, músicos como Bowie/Ziggy e Sun Ra, o romance The Gods Themselves, de Asimov (sobre dimensões paralelas), Rod Serling, etc. Estamos situados, é claro, no excitante mundo onde a fantasia e a ficção científica confluem. Onde tudo que é pensável é possível por meio de alguma explicação que ajambre estes dois campos. A fantasia dá um “jeitinho” na ficção científica, e vice-versa. É o mundo de Buck Rogers e Flash Gordon. Estes, por sua vez, exerceram influência direta sobre Ditko, que também foi, como se sabe, um notável autor de ficção científica, na Charlton, na Atlas e na Marvel.

Buck Rogers: clara influência de Ditko

Pensando nisso tudo e querendo, logicamente, prestar homenagem a Ditko (que morreu no dia 29 de junho de 2018, aos 90 anos), resolvi dar uma olhada nos arcos iniciais do Doutor Estranho republicados recentemente pela Panini na “Coleção História Marvel – Os Defensores: Vol. 2”. São histórias publicadas na Strange Tales entre 1963 e 1966, e que fornecem os elementos fundamentais para uma mitologia do personagem. Trata-se da série que ficou conhecida como “Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim”, conjunto eletrizante de histórias, jogo de gato e rato entre Strange e o Barão Mordo (neste caso, fantoche do "temível" Dormammu) passando por dimensões diversas, viagens ao Sol e ao centro da Terra, duelos espectrais, armadilhas mentais.




É claro, muito do carisma destas imaginativas histórias se deve ao texto de Stan Lee, que, apesar de estar inevitavelmente datado, ainda preserva seu vigor juvenil e indefectível senso de aventura. Mas o negócio aqui hoje é falar de Ditko e do aspecto visionário de suas criações. Sem querer exaurir ou interpretar estas histórias com mais substrato do que elas exigem, separei três aspectos de sua arte que merecem meu comentário, curioso e pontual. Para a trilha sonora, tasca-lhe um T.Rex bem sonoro e energizado, que é para todos sairmos dançando à luz das luas de Munnipor.

1 – Dos memes à pintura metafísica

Se você assistiu ao filme Doutor Estranho (Scott Derrickson, 2016), deve se lembrar daquela cena que eu considero a melhor de todas, e que acabou se transformando no famoso meme “shooting stars”. Sim, é aquela parte em que a Anciã (sic) quer dar um “choque de realidade” em Stephen Strange e lhe mete uma bela bordoada interdimensional. Ele vai passeando, atirado como um míssil, por várias dimensões diferentes, o que muita gente comparou a uma viagem de ácido ou mescalina bem da venenosa. O contato com o inexorável do universo era a prova que Strange precisava para implorar para ser treinado nas artes místicas.



O meme pode ser um gorduroso coquetel de CGI de primeira, mas quem conhece Ditko sabe que aquilo tudo é uma homenagem ao mestre e suas portas interdimensionais. Vários momentos nos quadrinhos mostram Strange (indo atrás de Mordo, Eternidade ou Dormammu) realizando estes saltos como se fosse um bólido incontrolável. Vemos, sempre em vívido neon, túneis de luz que ele atravessa em voos rasantes, dimensões cintilantes em fractal, formas geométricas gigantes e exóticas, estruturas titânicas com protuberâncias que emulam seres orgânicos, raios luminosos e erupções cósmicas. Como se sabe, em Doutor Estranho Ditko explorava recorrentemente este tipo de tropo visual. A passagem rápida e volátil entre dimensões – que depois seria tantas vezes explorada em séries sci-fi como Rick e Morty – ele fazia entre os quadros, com a ajuda dos recordatórios de Lee.

Os saltos interdimensionais: Ditko por excelência

Rick and Morty é um dos que bebe na fonte dos saltos interdimensionais
O imaginário surrealista e abstrato, no entanto, era uma marca registrada que ele aplicava em todo tipo de salto para fora do mundo material. Para Ditko, a matéria dos sonhos e das outras dimensões era feita de tentáculos, pontes de energia, tubérculos gigantes, ondas, feixes, áreas coloridas. Suas distâncias e medidas espaciais funcionam como na pintura metafísica de Giorgio De Chirico: cores saturadas ao fundo, espaços vazios, organização metódica entre os elementos da tela. Os objetos que ele desenhava, no entanto, lembram os volumes derretendo de Salvador Dalí, com seu pancromatismo e vetores em direção ao abstrato.

Basta espiar esta página, ainda nas primeiras histórias, que se passam no “mundo do pesadelo”: torres gigantes que vão do nada a lugar algum; pontes esguias e infinitas, que parecem estar se desintegrando; máscaras e animais imensos flutuando no meio do espaço cru e colorido. Como pode-se ver, nada de perseguições intermináveis, você andando pelado na rua ou alguém fazendo sexo com a sua mãe. O pesadelo de Ditko remete mesmo à arte moderna.

"Mundo do pesadelo" para Ditko...

...remete aos espaços da arte moderna (De Chirico)


2 – Estranhos recursos visuais

Os quadrinhos originais do Doutor Estranho não são nenhuma obra-prima Marvel. Um tanto quanto repetitivos, estão dentro daquele grupo de histórias clássicas cujos diálogos Stan Lee parece ter escrito com o deadline subindo no pescoço (exemplo: Thor), cheios de bravatas e lero-lero de um misticismo de quinta. A imaginação de Ditko e sua fortuna de recursos visuais, no entanto, traduz este texto abstruso numa ousada introdução ao mundo da psicodelia, como se fosse um test drive para as crianças se servirem do “louco sonho delirante” sem tomarem entorpecentes ou ouvirem Sgt. Peppers.

Ditko tem esse traço em que seus personagens esguios parecem sempre desconfiados, agonizantes, à mercê exclusivamente de perturbações de ordem psíquica. Além disso, tem essa obsessão por feixes e raios, que se manifestam nas páginas como tentáculos, como raízes, e estas duas propriedades se misturam bem nas cenas de contato telepático, de leituras de mentes, de entravamento psíquico. Basta olhar este par de requadros em que Strange hipnotiza um animal de outra dimensão com a intenção de ler sua mente e capturar imagens de sua memória: o feixe amarelo ondulante, o olhar enternecido da criatura, as projeções mentais que se sobrepõem entre os dois. Linguagem de cinema mudo.



Outro exemplo está na comovente história “Quando se Encontram as Mentes Místicas”, em que o Ancião está em uma espécie de coma e Strange precisa perscrutar sua mente para descobrir o segredo sobre Eternidade. Primeiro, o Doutor Estranho aciona o olho de Agamotto para restaurar a pálida energia vital do Ancião, e depois ativa seu próprio olho da mente para fazer a investida psíquica no mestre adormecido. Ditko liberta um espetáculo de luzes trêmulas, projeções e retroprojeções para significar visualmente a abstração do duelo, o que será intensificado nas páginas seguintes, quando mini-cabeças transparentes de Strange são enviadas para dentro das fuças do Ancião.



Depois, um quadro que o desenhista também usou no Homem-Aranha para simbolizar sua neurose: o mestre de Strange ouve vozes, que são representadas em balões agressivos e soltos, bocas gigantes, projeções mentais multiplicadas. Recursos do expressionismo de Murnau ou do construtivismo de Eisenstein (de fato, a era muda é o território principal da sobreimpressão fílmica). A sequência de quadros é muito poderosa, e vamos realmente sentindo, pouco a pouco, a força de Strange romper a barreira psíquica de seu mestre. O mesmo recurso é usado quando Dormammu “fala” na mente de Mordo: uma mini-cabeça flamejante é ilustrada no testão do Barão, que ouve a voz do “temível” saindo por meio de um balão de fala rasgado.

Sobreimpressões visuais...

...também usadas no Homem-Aranha.
Dormammu na cabeça de Mordo
A habilidade com raios e feixes místicos também é típica de Ditko, que dá vazão ao aspecto multicolorido destas armas supostamente invisíveis. Na sequência abaixo fica claro o equilíbrio com que ele desenhava essas batalhas, projetando raios verdes, feixes rosas e escudos amarelos (estes, que foram também muito bem replicados no visual do filme). Um dos aspectos mais interessantes dessa física psicodélica que ele arremata nas aventuras é como as energias místicas assumem aspectos sólidos, de vidro ou plasma, para depois se aquebrantarem ou esvanecerem. O filme, que muito deve de seu sucesso visual a Ditko, ainda trouxe à tona o famoso poder que o Doutor Estranho tem de criar réplicas ilusórias de si mesmo, além de outras soluções em efeitos especiais.

Batalha de feixes
As réplicas ilusórias
Nada disso, porém, se compara a esta magnífica página em que Strange e Mordo se perseguem, em suas formas ectoplasmáticas, até o centro do Sol, quando Ditko verte o fundo dos quadros para vermelho puro e os objetos ao redor se transformam em signos atômicos, tudo lembrando uma febril alucinação. Como se pode ver, o homem ia longe nos temas e em suas contrapartidas ilustradas.



3 – O Facetime de Dormammu

Sempre achei que os canais de comunicação ditos místicos (possessões, mediunidade, viagens astrais, etc.) tinham algo a ver com sintonizar nossas próprias mentes em diferentes frequências que nos fazem acessar realidades distintas. Mude o seu meio de comunicação e você perceberá um mundo moldado de acordo com os aportes e possibilidades engendradas no seio desta mídia. Não existe uma realidade unívoca, existem apenas as lentes que a decodificam cada uma a seu modo. É aquela história que mencionei no começo, ao sugerir que ciência e magia são a mesmo coisa, mas sintonizados em frequências da percepção diferentes (se quiser ler isso explicado de maneira muito mais complexa, pode consultar minha tese de doutorado, aqui).

Um recurso usado por Ditko em Doutor Estranho curiosamente me lembrou estas ideias. Basicamente, Mordo e Dormammu se comunicam, a partir de dimensões diferentes, por meio de uma espécie de “Facetime” místico. A coisa é simples: Dormammu aciona um tipo de “tela” mística flutuante a partir de seus domínios (a “dimensão das trevas”). Esta mesma tela aparece também no nosso mundo, quando Mordo passa a olhar o rosto flamejante do “temível” como se acessasse seu próprio Iphone (não custa lembrar que estamos em 1965).



Esta sugestão de analogia entre as “esteiras” mística e midiática para a comunicação me lembra o quanto aquilo que intuímos como magia pode eventualmente se comprovar como tecnologia a partir do momento em que estas duas frequências de percepção se tocam com o passar do tempo. Ela intensifica a ideia de que existe um interessante e fértil diálogo entre razão, intuição e imaginação na soluções visuais e narrativas deste quadrinho. Poderíamos conceber até a ideia de que a comunicação ocorre, nos meios não-físicos, a partir dos mesmos mecanismos que fazem os meios físicos funcionarem. Estas mídias poderiam ser ondulações invisíveis (canaletas espectrais), não necessariamente tangíveis, que transmitem informações da mesma maneira que o rádio e a internet. Mcluhan achava que a luz era a mídia primordial, ao ser o canal para a visualidade. E a visualidade de Strange e Ditko ratifica este mundo onde ciência e fantasia coexistem num patamar comum.

1 comentários

Pedro Ribeiro disse... @ 18 de julho de 2018 16:12

Muito boa a matéria! É impressionante ver essas páginas (confesso que ainda não li essas histórias do Dr. Estranho do Ditko na íntegra), feitas em 1965, e comparar com o mesmo filme de 2016. Está tudo lá em Dr. Estranho da Marvel Studios, o que vemos na tela tem muito, mas muito do imaginário visual criado tão brilhantemente por Steve Ditko. Tanto Ditko quanto Jack Kirby foram atistas que passei a valorizar mais à medida que eu crescia, antes eu era mais ligado em artistas de traço mais "moderno" na época, como John e Sal Buscema, John Byrne, Jim Starlin e outros. Fui conhecer a fase clássica do Homem Aranha por Stan Lee e Steve Ditko em em 1986 com a revista Marvel Especial no.1 da Editora Abril, que publicava histórias que detalhavam os encontros do personagemn com o Duende Verde. Fiquei maravilhado com todos os conceitos visuais do Aranha, e principalmente o adolescente Peter Parker de Ditko. O Peter Parker daquelas páginas era eu, assim como eram vários garotos que tiveram o privilégio de ler esses quadrinhos. Felizmente muito daquela fase, assim como a de John Romita, foi publicada na série Coleção Histórica Marvel pela Panini.

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