Quem colabora hoje com a RAIO LASER é o nosso leitor Pedro Ribeiro, que veio com esse ótimo texto sobre Paul Pope e sua obra máxima, a intrigante Heavy Liquid. Obrigado Pedro! (CIM)

Pedro Ribeiro é professor de língua inglesa e também designer e ilustrador. Começou a ler quadrinhos desde criança, e a primeira revista que se lembra de ter lido (e ainda guarda consigo) foi Heróis da TV 37, de 1982, que continha o início da saga de Adam Warlock por Jim Starlin. Pedro também escreveu, desenhou e editou a revista de seu personagem Jack Ratazana em 1999, que influenciou alguns artistas da cidade na época em que foi lançada em Brasília. Ele também ganhou um concurso de criação de selos para os correios da Coreia do Sul e trabalhou nas editorias de arte do Correio Braziliense e do Jornal de Brasília. Hoje mora com sua esposa, filha e cachorro em uma vizinhança que possui uma ótima banca de jornal (item indispensável para sua rotina de leitor) e participa de feiras de ilustradores de sua cidade.

por Pedro Ribeiro

Você não pode tocá-lo. É veneno, vai corroer a ponta dos seus dedos, ou dissolver sua garganta. Mas se você cozinhá-lo, o elemento de cor prateada vira algo preto, líquido e leitoso. Alguns começaram colocando-o em contato com a pele, outros sentiram seu verdadeiro poder através do canal auricular. Na Nova York de 2070, a substância denominada heavy liquid é de conhecimento de poucos, e menos ainda descobriram que ela pode ser transformada em uma droga única. Sublime. Diferente de todas as outras desse planeta. “S”, o protagonista, é uma das três pessoas que descobriram como utilizar o heavy liquid de maneira segura. A substância também funciona como matéria prima para arte, pois um rico investidor vê na substância a possibilidade de produzir novos conceitos de esculturas.


Nesta história em quadrinhos, indicada ao prêmio Eisner no ano 2000, “S” faz uma jornada por dois continentes enquanto procura por uma artista que pode transformar heavy liquid na escultura definitiva. Enquanto tenta completar sua missão, se depara com a situação de lutar contra capangas de uma gangue perigosa e um agente do governo. Fora isso, também estão presentes na trama os demônios interiores do vício de “S”. Se ele conseguir sobreviver a esses testes físicos e mentais, irá descobrir o inesperado segredo envolvendo heavy liquid e se reencontrar com um amor que ele havia pensado ter perdido para sempre.

Ideia diferente. Arte diferente. Cores diferentes. Um criador à frente de seu tempo. Nas histórias em quadrinhos, assim como no cinema, música e outras artes, eventualmente surge de um lugar inesperado um nome que sacode as estruturas de uma forma de expressão, com uma obra original e que passa a renovar o interesse de público e crítica. É o caso de Heavy Liquid, minissérie em cinco partes publicada pela Vertigo e que trazia na época o nome pouco conhecido no mainstream das histórias em quadrinhos: o jovem artista da Filadélfia Paul Pope.

Pope, naquela época, era apenas mais um garoto alternativo que em 1995 começou a fazer histórias loucas e autorais na revista que ele mesmo publicava, a THB. Nesse mesmo ano ele enviou amostras de seu trabalho para o Japão, onde foram muito bem recebidas. As pessoas gostaram de sua arte e ele se tornou o único estrangeiro a trabalhar mais de cinco anos na Kodansha, para o fechado e competitivo mercado japonês, em uma criação chamada Supertrouble. Com o passaporte carimbado no Japão, e após publicar HQs como One Trick Rip Off (Dark Horse) e Escapo (Z2 comics), a Vertigo acabou estendendo o tapete vermelho para Pope em 1999, convidando-o a fazer algo autoral para o selo e com liberdade total de criação. E o artista respondeu com sua grande (e infelizmente desconhecida no Brasil até hoje) obra prima: uma história escrita, desenhada, e colorida em apenas dois tons (magenta e roxo) por ele mesmo. O letreiramento é de John Workman, o resto todo é Pope. Na época a Vertigo, assim com a mídia especializada, começaram a chamá-lo de “o Jim Morrison dos quadrinhos”, tanto pelo seu estilo underground de desenhar quanto pelo visual mais alternativo e roqueiro do autor.


A história começa com “S”, o protagonista, e sua amiga em um apartamento aquecendo o heavy liquid para utilizá-lo depois na estação do metrô. O excedente é levado por “S” a um comprador misterioso de origem oriental atuante no mercado de arte. “S” é um personagem que demonstra vazio em relação a si mesmo e ao mundo, não se reconhece no ambiente onde está inserido nem na cidade onde mora, e possui relações amorosas e de amizade muito frágeis. Esses conceitos presentes no quadrinho se conectam com a teoria da Modernidade Líquida, do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), onde ele afirma que a humanidade vive atualmente em um mundo onde as relações humanas são líquidas, descartáveis, enfraquecidas e passageiras. Há quem diga que “S” e Paul Pope são a mesma pessoa, dada a extrema semelhança física do personagem no quadrinho com o autor na vida real.

 “S” passa a frequentar diversas vezes o escritório de seu cliente, avaliando a proposta de trabalho oferecida por ele: localizar a jovem Rodan Esperella, considerada a única escultora talentosa o suficiente para trabalhar com o heavy liquid. O que o cliente não sabe é que “S” e Rodan são ex-namorados, e após um rompimento traumático a jovem se exilou em Paris. Após relutar, “S” resolve aceitar sua missão, e, no período que se desloca de Nova York a Paris, faz uso do heavy liquid em algumas ocasiões. Porém, a cada novo uso uma aura misteriosa começa a surgir em seu corpo, produzindo em “S” sensações imprevisíveis, levando a história a um clímax insólito, onde o surpreendente mistério sobre a substância muda a sua vida para sempre.


A ambientação de Heavy Liquid é futurista, mas também familiar: Pope retrata uma Nova York orgânica, bagunçada e tecnológica ao mesmo tempo, com forte pitada surreal. O grupo de três personagens que persegue “S” a mando do governo aparece na história acompanhando um desfile na cidade, por isso passam a maior parte da trama usando máscaras bizarras de carnaval. A arte da HQ é madura, de qualidade única, que influenciou e influencia artistas mais alternativos do meio até hoje, como o canadense Troy Nixey e o brasileiro Rafael Grampá. Pope chegou na Vertigo já amadurecido como artista, como uma banda que há décadas toca junto e um dia tem a chance de lançar seu primeiro álbum por uma grande gravadora. 

Na época em que foi publicada, não havia nada igual em termos de arte como a mostrada em Heavy Liquid: dinâmica, enérgica, com pinceladas ora precisas ora soltas na arte final. Perspectivas de prédios e ruas diferentes, composições truncadas e ao mesmo tempo belíssimas. Arte americana alternativa com influência do detalhismo do mangá. E a cor dá tons chapados interessantes à história, ora em predominância magenta, ora roxa. Não me lembro de nenhuma história em quadrinhos da Vertigo que tenha usado dessa paleta de cores até hoje. 

Curiosidade interessante: Pope escrevia e produzia a sua epopeia experimental Heavy Liquid à noite, enquanto de dia trabalhava duro em uma proposta de história mais séria e, por que não dramática, para levar à Kodansha no Japão, chamada Smoke Navigator. No fim, a Kodansha não quis Smoke Navigator e Pope resolver publicar a história já finalizada na própria Vertigo, com o nome de 100% (lançada no Brasil em 2005 pela Via Lettera).

Depois de Heavy Liquid e 100%, Paul Pope, já um grande nome estabelecido no mercado, participou das antologias Solo e Wednesday Comics, ambas da editora DC, e ganhou 2 prêmios Eisner em 2007 com a elogiada minissérie Batman Ano 100 (Panini). O nome Paul Pope virou grife e passou a ser sinônimo de “cool”. O artista deu várias entrevistas e fez parcerias com grandes empresas, criando por exemplo estampas para roupas da loja americana DKNY. Atualmente voltou a uma empreitada de personagens autorais em Battling Boy (Bom de Briga), com dois volumes já produzidos por ele e colaboradores (pelos quais ganhou o prêmio Eisner de melhor publicação para adolescentes em 2014). 

Heavy Liquid, a história que colocou Paul Pope no mapa dos quadrinhos mundiais, continua sem ser lançada no Brasil, mas quem sabe o interesse por esse artista singular faça com que um dia isso aconteça. Trata-se de uma série charmosa, atraente, maligna, como várias das drogas que existem por aí. Mas essa não traz dependência física nem psicológica, é apenas uma interessante e singular viagem ao universo Paul Pope, um contato com ele como nunca se viu antes ou depois.

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