por Marcos Maciel de Almeida

A primeira vez que tive conhecimento da existência do Monstro do Pântano foi quando vi uma propaganda de seu gibi mensal em alguma revista de super-heróis da Editora Abril. Era um anúncio simples, mas eficiente. Pegaram uma imagem do Monstro do Pântano e outra do (também desconhecido para mim) John Constantine e escreveram embaixo de cada um: O "Celestial" e o "Profano". Minha cabecinha adolescente acostumada a fazer associações baseadas mais na embalagem que no conteúdo começou a dar tilt tentando entender aquela mensagem: quer dizer então que o monstrengo verde era o mocinho e o outro era o malvado? Mas como assim? Desnecessário dizer que isso atiçou minha curiosidade e a vontade de colocar as minhas mãos no primeiro gibi do Monstro que minha magra mesada permitisse. O fato de as histórias também terem amealhado tudo quanto é prêmio na época de seu lançamento também contribuíram para aumentar o desejo de dar um confere no gibi quando fosse possível.

Quem não quereria conferir isso?

Embora só tenha passado envergar – nos EUA – a logotipo da Vertigo em 1993 (Moore havia começado a trabalhar no gibi em 1984), a verdade é que o gibi Swamp Thing era muito diferente do que vinha sendo publicado na DC da época. Não é à toa que, ao lado de Sandman, Hellblazer e Doom Patrol, títulos também exóticos dentro da seara do Universo DC, a revista do Monstro do Pantâno também tenha sido incluída no selo Vertigo, que se propunha a lançar histórias para o público que estivesse interessado em um material que fugisse do feijão com arroz superheroístico.

Capa de Swamp Thing #137. Primeiro gibi da série a usar a logo da Vertigo
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Silêncio me agarrou pela alma. Garimpava patologicamente um desses sebos da vida quando me deparei com aquela capa maravilhosamente simples, o personagem com seus olhos de serpente a fitar longe o horizonte, ignorando completamente minha presença.

Passei a mão no livro – uma edição portuguesa da Livraria Bertrand, 1983, 164 páginas – e me surpreendi com a uso das massas de preto, a fluidez do traço, a composição das páginas. O preço convidativo selou a sina do meu primeiro contato com a obra de Didier Comès.

A ignorância é mesmo uma benção. A esta altura do campeonato, me surpreender com um autor desconhecido é um prazer cada vez mais raro. Quanto mais um colosso das dimensões do belga Dieter Hermann Comès, nascido em 1942 em Sourbrodt, aldeia cindida em uma parte francófona e outra alemã. Tal e qual seus pais.

A mãe falava francês, o pai, alemão. No colégio, tendo em vista uma maior “integração” com os colegas, os irmãos maristas afrancesaram-lhe o próprio nome – à sua revelia, claro. Dieter vira Didier. “Um bastardo de duas culturas”, Comès se autoproclamaria anos mais tarde.

Não param por aí. Ao se revelar canhoto, obrigam-no a escrever com a mão direita. E assim segue a vida: destro na escrita e criador de infinitas constelações imagéticas por intermédio de sua mão esquerda. Tais opressões, assim como a infância rural e supersticiosa, serão a matéria-prima de seus quadrinhos – que têm em Silêncio o mais reconhecido e festejado exemplo.

Comès

Publicado em capítulos em 1979 na prestigiosa revista (À Suivre), e compilada em álbum no ano seguinte, Silêncio é a história de Silêncio, jovem mudo e com deficiência intelectual, morador de Belossonho, um vilarejo das Ardenas. A página de abertura, sem diálogos, é precisa na apresentação do personagem: a caminho de casa, Silêncio se depara com uma serpente. Incapaz de compreender o perigo representado pelo animal peçonhento, logo o toma nos braços, sem sofrer dano algum.
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por Lima Neto

Faça um teste. Se você tiver nascido próximo da minha geração (recém-chegado à casa dos quarenta), pode perguntar para qualquer contemporâneo que se interessa por HQs: “Qual o melhor desenhista de quadrinhos do Brasil?”, e, é certo que 90% das respostas que ouvirá será “Laerte!”.

A pergunta é clara. Não estamos falando aqui das habilidades de quadrinista, narrador, poeta ou cartunista. Falamos de desenho, linha no papel, interpretação gráfica do mundo, etc. Nesse quesito, até o mais resiliente antipatizante da artista paulistana dará o braço a torcer. Laerte, que é a primeira a discordar de todas as palavras elogiosas deste artigo, possui um controle impressionante da anatomia humana – que se distorce e se constrói da maneira que for preciso para a trama. Este controle anatômico fica mais evidente com o uso dos cenários e detalhes sempre claros e sintéticos. O uso das manchas de preto para criar ambientação e planos de fundo, tudo isso amarrado com uma expressividade de traço que é sua marca registrada. Para muitos artistas de quadrinhos próximos da minha geração, que cresceram lendo as publicações da Circo, o desenho de Laerte é, sem dúvida, um modelo a ser estudado.


Linha, traço: um elemento fundamental da expressão visual. A linha também é o símbolo poderoso que atribuímos à razão, ao pensamento racional. É o fio dourado e brilhante de Ariadne que ilumina a saída do labirinto mitológico. Não sou um leitor aprofundado de Nietzsche, mas me recordo que foi o filósofo alemão que sugeriu ser mais prático que a filha de Minos se enforcasse com sua linha. Que a razão humana é inútil quando se trata da subjetividade humana, ao ponto de categorizar seu uso como uma violência. O que isto tudo tem a ver com Laerte? Quem é leitor assíduo da autora, sabe que tem muito a ver.

No final de 2016 a editora Barricada, selo da Bomtempo editorial, lançou a HQ Modelo Vivo, que reúne exercícios de nus artísticos realizados pela autora nas oficinas oferecidas com seu filho, Rafael Coutinho, durante o ano de 2013. O livro é um dos últimos trabalhos de Toninho Mendes, criador da editora Circo que faleceu em meados de Janeiro. Toninho foi o responsável pela organização deste gibi que é uma obra essencial para quem aprecia o trabalho de Laerte. Entre os estudos, sempre fluidos e pautados pela efemeridade das poses das modelos, estão republicadas algumas das histórias em quadrinhos mais raras da carreira da artista. A embalagem não é ideal para vender este material. Julgando pela capa, a última coisa que se espera encontrar nas páginas é material de quadrinhos, ou o desenho preciso e elogiado da autora. Esse “engano de marketing” pode tratar-se de um simples deslize editorial, porém, neste artigo/resenha, pretendo levantar que esta capa é só uma parte de um exercício maior de reflexão sobre o trabalho da artista e seu lugar no panteão da HQ brasileira.
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por Ciro Inácio Marcondes

Falar de Héctor Germán Oesterheld (HGO), o maior roteirista de quadrinhos argentino, é, de certa forma, falar também de Jorge Luís Borges, o maior escritor argentino (se há controvérsias, vamos deixá-las de lado no momento). Vejamos: Oesterheld é um narrador das aporias do tempo e do espaço. Basta lembrar dos diversos viajantes alienígenas d’O Eternauta, da revisitação do western em Sargento Kirk, da leitura da segunda guerra em Ernie Pike, das viagens no tempo em Sherlock Time, etc. Oesterheld, assim como Borges, se servia do fantástico (e da sci-fi, no caso de HGO) para fazer leituras de possibilidades históricas, dos limites do ser humano ao ser pressionado em estranhas condições, e em última instância das prisões e libertações que o tempo pode proporcionar.

Neste caso bastam dois exemplos de Borges: o de O Aleph, em que um único ponto no espaço-tempo permite que se viva tudo que já foi vivido por todos, em seus mais ínfimos detalhes, em um instante. E o de Funes, o memorioso, em que um personagem está preso em sua absurdamente fantástica memória fotográfica, podendo se lembrar minuciosamente de cada instante em que viveu, passando apenas a viver de lembranças, ao invés de construindo uma nova narrativa para a vida. As carreiras de Oesterheld e a de Borges não apenas coincidem em aspectos temáticos, mas também na periodicidade (ambos têm um auge de produção entre os anos 40 e 50). A faceta literária da produção em quadrinhos de HGO não esconde sua admiração por Borges. “Eu quase não leio histórias em quadrinhos. Eu leio literatura. Leio constantemente. E se Borges lança uma coisa eu vou e compro. Estas são minhas fontes. E eu o digo sem culpa. Leio bons autores: Stevenson desde criancinha, ou Salgari”.

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