por Ciro I. Marcondes

Sabem aquela clássica história de Alan Moore do Monstro do Pântano, “Lição de Anatomia”? Sim, aquela em que descobrimos que um sujeito chamado Alec Holland não era um homem que virou uma planta, e sim uma planta que se transformou num homem? Pois bem: eu gostaria de me utilizar desta tosca analogia com um quadrinho de super-herói para começar a falar deste absolutamente surpreendente quadrinho autoral brasileiro que fala basicamente sobre as constantes transformações e re-transformações de uma menina em uma pessoa adulta (além de ressacas, abcessos nojentos e sobre como abandonar uma carreira que supostamente todos desejam).

Na verdade nem tão surpreendente assim. Eu sempre achei histericamente hilárias as histórias curtas de Cynthia Bonacossa, com sua predileção pelo desastre calculado pela neurose e referências legais (legais mesmo: não vazias, tira-onda e gratuitas) de filmes e músicas. Até aqui, seus quadrinhos tinham uma pegada mais indie, com narrativas de traço cartum “redondinho” cheias de inferências, digressões e interrupções nos recordatórios. Além de escatologias doidas, obsessões eróticas e uma maneira de autoironizar como poucos (ou ninguém) fazem no quadrinho brasileiro contemporâneo. 

Ela ainda foi responsável (j’accuse!) pela editoração das duas edições (hoje já “clássicas”) da revista de humor, zoeira da pesada e putaria Golden Shower. Mérito o suficiente? Nada comparado ao seu primeiro romance gráfico, que está sendo lançado pela Editora Veneta, Estudante de medicina. Aqui, a porra fica séria. Opa. Não me entendam mal. Continua histericamente hilário, mas é um upgrade (naquilo que uma HQ pode dizer) de levar lágrimas aos olhos.

Cynthia faz atualmente residência (uma segunda residência para ela, diga-se) para quadrinistas na cidade francesa de Angoulême. Acho que isso explica alguma coisa. O que parecia vir de Crumb, Peter Bagge, etc., ganha certos contornos mais franceses. Os desenhos ficam mais rabiscados e caóticos, expressões no olhar mais perturbadoras e francamente cômicas, detalhes rascunhados da cidade do Rio de Janeiro têm aquele ar incompleto que cabe bem tanto a um Henfil quanto a um Cabu ou Wolinski (povo politicamente incorreto da Charlie Hebdo. RIP). Além, é claro, de um quê de seu mestre Allan Sieber

Estudante de Medicina tem esse primeiro mérito: o de encaixar o traço, de acertar 100% na identidade visual e retratar genuinamente uma cidade. Afinal, esta HQ é também sobre o Rio de Janeiro, que sobe vivo em cada paisagenzinha em quadrinhos pequeninos, em cada gíria pé inchada, em cada letra de funk que escapa (Zona Sul se autozoando, mas foda-se né?).

O romance gráfico de Cynthia foi lançado na França com o título de “Carabin et Caipirinha” (o que ressalta bastante o seu teor etílico), mas creio que, tirando esse humor bufo, essa quadrinização descompromissada (só de mentirinha), e o preto-e-branco farelento que é tendência na HQ francesa autoral contemporânea (vide Trondheim), a coisa é muito, muito brasileira e fiquei curioso pra ver como certas situações carioquíssimas se resolvem em outras línguas. Sobretudo, porque se trata da vida universitária brasileira, esse festival de baixaria e pegadinhas cuja sem-noçãozice ultrapassa um “pouquinho” os limites do aceitável e da civilidade. Cursos tradicionais como medicina produzem experts nessa arte brasileira da fuleiragem sem fronteiras. 

Na HQ, Cynthia se autorrepresenta como uma jovem ingressante em um curso desses. Sem pregar ou necessariamente julgar (mas fazendo observações interessantes nas entrelinhas), ela vai contando a história de alguém (neste meio) que vai tensionando as dificuldades de apenas se dar mal (seja afetivamente, seja academicamente, seja socialmente, seja sexualmente) e ao mesmo tempo não conseguir (diga-se: não por falta de inteligência, mas sim por falta de controle da própria vida) levar a faculdade de medicina com o altíssimo nível de seriedade que a “cátedra” exige. Ela tinha talento para desenhar, enfim.




Daí Estudante de Medicina tratar tão bem da própria vida de sua autora, com fortíssima carga de sarcasmo que se espraia por diálogos safados, referências nem tão eruditas, desenhos histriônicos e a absoluta capacidade de olhar para tudo e todos com a devida profundidade, sem criar estereótipos ou cair em arapucas reducionistas. Professores e colegas “comédia” são relembrados, assim como machos escrotos, eventos tipo calourada e churrascos bagaceira, tudo dentro de um contexto mais sério da própria atividade do médico. 

Cynthia relembra casos bizarros (como o de um cara que ficou com o p*u de um cachorro atracado no c*) e experiências tristes (em todos sentidos) examinando pacientes com sarnas, tumores, gosmas, além de cadáveres em formol, autópsia de ratos e pacientes psiquiátricos. Mais ainda: a natureza hardcore e ao mesmo tempo engraçada de aulas de medicina é lembrada em trechos de livros que elucidam algo sobre a vida, com incríveis desenhos de biologia celular. 

Porém, assim como a "Lição de Anatomia" de Moore não é sobre super-heróis e sim sobre a transmigração da consciência para diferentes tipos de configuração da matéria, a "Lição de Anatomia" de Cynthia Bonacossa não é exatamente sobre os perrengues de se fazer medicina no Rio de Janeiro nos anos 00 (até o Orkut tem sua aparição), e sim sobre os percalços de se transmutar de uma pessoa inocente, insegura e inconsequente em uma capaz de lidar com os terríveis fantasmas que vão consumindo a vida dos jovens adultos. O caso dos temas de “amor e sexo” é particularmente relevante para esta graphic. A dificuldade em se livrar de um namorado bonzinho, a culpa castradora e uma até natural compulsão pelo sexo são levados como transtornos terríveis, como se o ego da personagem/autora fossem totalmente espremido por um superego e um ID realmente insaciáveis.

Na medida exata em que traduz sua experiência em humor e drama, seria possível comparar Cynthia a Woody Allen (se ele não estivesse fazendo filmes tão ruins). Prefiro dizer que ela possui luz própria, com discurso inteligente e robusto, sem lamúrias vitimistas ou pena de si própria, inclusive com excelente capacidade de ilustrar devaneios, jogos mentais e abstrações. Lição primorosa pra qualquer macho vagabundo fazendo quadrinho ruim Brasil afora. E eu que achava que Mensur do Coutinho não teria desafiantes à altura em 2017. Um mês depois e: “não, péra”...


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