por Lima Neto

Faça um teste. Se você tiver nascido próximo da minha geração (recém-chegado à casa dos quarenta), pode perguntar para qualquer contemporâneo que se interessa por HQs: “Qual o melhor desenhista de quadrinhos do Brasil?”, e, é certo que 90% das respostas que ouvirá será “Laerte!”.

A pergunta é clara. Não estamos falando aqui das habilidades de quadrinista, narrador, poeta ou cartunista. Falamos de desenho, linha no papel, interpretação gráfica do mundo, etc. Nesse quesito, até o mais resiliente antipatizante da artista paulistana dará o braço a torcer. Laerte, que é a primeira a discordar de todas as palavras elogiosas deste artigo, possui um controle impressionante da anatomia humana – que se distorce e se constrói da maneira que for preciso para a trama. Este controle anatômico fica mais evidente com o uso dos cenários e detalhes sempre claros e sintéticos. O uso das manchas de preto para criar ambientação e planos de fundo, tudo isso amarrado com uma expressividade de traço que é sua marca registrada. Para muitos artistas de quadrinhos próximos da minha geração, que cresceram lendo as publicações da Circo, o desenho de Laerte é, sem dúvida, um modelo a ser estudado.


Linha, traço: um elemento fundamental da expressão visual. A linha também é o símbolo poderoso que atribuímos à razão, ao pensamento racional. É o fio dourado e brilhante de Ariadne que ilumina a saída do labirinto mitológico. Não sou um leitor aprofundado de Nietzsche, mas me recordo que foi o filósofo alemão que sugeriu ser mais prático que a filha de Minos se enforcasse com sua linha. Que a razão humana é inútil quando se trata da subjetividade humana, ao ponto de categorizar seu uso como uma violência. O que isto tudo tem a ver com Laerte? Quem é leitor assíduo da autora, sabe que tem muito a ver.

No final de 2016 a editora Barricada, selo da Bomtempo editorial, lançou a HQ Modelo Vivo, que reúne exercícios de nus artísticos realizados pela autora nas oficinas oferecidas com seu filho, Rafael Coutinho, durante o ano de 2013. O livro é um dos últimos trabalhos de Toninho Mendes, criador da editora Circo que faleceu em meados de Janeiro. Toninho foi o responsável pela organização deste gibi que é uma obra essencial para quem aprecia o trabalho de Laerte. Entre os estudos, sempre fluidos e pautados pela efemeridade das poses das modelos, estão republicadas algumas das histórias em quadrinhos mais raras da carreira da artista. A embalagem não é ideal para vender este material. Julgando pela capa, a última coisa que se espera encontrar nas páginas é material de quadrinhos, ou o desenho preciso e elogiado da autora. Esse “engano de marketing” pode tratar-se de um simples deslize editorial, porém, neste artigo/resenha, pretendo levantar que esta capa é só uma parte de um exercício maior de reflexão sobre o trabalho da artista e seu lugar no panteão da HQ brasileira.


Toninho Mendes

A HQ Modelo vivo aparentemente sofre de uma indecisão no que compete ao público a que é direcionada. Lógico que os seguidores da autora comprarão o livro sem pensar duas vezes. Mas quando se vê as linhas azuladas, trêmulas e esmaecidas construindo a imagem de uma mulher nua agachada e apoiada em um redemoinho de linhas, seu braço deitado sobre um vermelho sanguíneo e mamilos e pêlos pubianos rabiscados com um traço digno de porta de banheiro, pensamos se tratar de uma coletânea de desenhos rápidos e despreocupados típicos da prática de desenhar poses rápidas. Mas ao abrir a revista, vemos páginas e páginas de quadrinhos impressas em contrastantes papéis coloridos. A primeira impressão é a de que o miolo e capa são de produtos totalmente distintos. Daí lemos as orelhas e vemos que de fato o gibi é uma coletânea de material raro da autora. Após uma introdução e uma breve mostra da produção que dá título à HQ (acompanhada de tiras já publicadas que também tratam dessa personagem que é a modelo vivo), temos uma sequência de contos em quadrinhos que mostram uma Laerte no primor da forma e com muito quadrinho pra mostrar.


Após as primeiras ilustrações de modelo vivo temos a HQ "A Volta dos Palhaços Mudos", terceira e última história com os personagens circenses publicada no fanzine Cachalote em 1994. Os personagens são um espetáculo de quadrinho mudo. Na trama, os três palhaços retornam para ver o circo ser burocratizado ao extremo e vemos que cada atração agora tem uma sala de escritório e um ritual trabalhista a cumprir. Sem protestos ou reclamações, os palhaços se dirigem à sua sala designada, mas agir dentro dos novos padrões vai se mostrar algo muito mais difícil de ser desempenhado. Dando sequência à crítica anárquica ao modo de vida protocolar que encontramos nos "Palhaços Mudos", temos a HQ "Documento Original", onde vemos a história do documento que dá título ao conto. Rapidamente vemos uma civilização se construir em torno deste pedaço de papel, gerando guerras e destruição e colocando em questão a ordem causal do mundo – o documento criou a civilização ou a civilização criou o documento? A história foi publicada na revista Circo #6 de 1987.

Posteriormente temos a história "Minotauro", publicada em Geraldão #15, datada de 1989. Na HQ, o traço de Laerte, ao mesmo tempo poderoso e delicado, dá vida ao clímax do mito cretense. Sem dar nome aos personagens, a HQ explora uma das ramificações que a ação de Teseu, ao eliminar o Réprobo de Creta, vai acarretar. Publicada no número 19 da revista Chiclete com Banana, a HQ "Aquele Cara" vai dar continuidade o imaginário dos seres antropomórficos que povoa a mente da autora. Um continho sobre trocadilhos visuais, identidade e acaguetes em um mundo de homens-dedo. Os seres antropomórficos de Laerte continuam na história seguinte, "Moto", publicada em belíssimas duas cores na revista Piratas do Tietê #11, de 1991. Quando um cidadão é quase atropelado por um misterioso motociclista em uma noite de lua cheia, algo incrível, repulsivo e inevitável pode acontecer.


A história "O Míssil", publicada na Geraldão #6, de 1988, reinterpreta o mito arturiano de Excalibur para a geração oitentista que tentava dormir com o terror dos mísseis nucleares pairando sobre suas cabeças. O resultado é desconcertante. Em "Penas", publicada na Chiclete com Banana #16, de 1988, a recorrente fantasia de voo da autora vira tema de um conto de conspiração e poder. Portando apenas “História” como título, chegamos à historieta inédita que estreia neste volume. Novamente voltamos ao tema das cabeças e corpos, desta vez levada a um extremismo gráfico que escapa qualquer simbolismo. A história foi produzida no ano 2000.

O livrinho conclui com a HQ "Capítulo Final", publicada na revista Geraldão #9, de 1988. Uma ode, com ares de Laertevisão, aos quadrinhos clássicos que construíram a infância da autora e de muitos outros leitores. A história é um germe do tipo de nostalgia revisionista que a autora vai praticar em trabalhos como o já citado Laertevisão e Muchacha, mas que vai aparecer pincelado em muitos outros trabalhos da autora. Entre cada uma dessas histórias, estão fac símiles dos desenhos de figura humana que dão título ao livro.


Modelo Vivo é um livro esquisito, editorialmente falando. Como o casal preso na ilha que ilustra o conto inédito que citamos, o livro parece ter partes totalmente distintas costuradas sem muita preocupação em esconder as emendas. Em nenhum momento os nus desenhados com natural despojo complementam ou sequer dialogam com as páginas de quadrinhos. As histórias publicadas fariam muito mais sentido se impressas em formato e padrão semelhantes ao álbum Histórias Repentinas, publicado pela Devir. Com toda certeza, o tamanho maior valorizaria o traço de páginas que originalmente saíram no chamado formato magazine. Então, por que publicar um livro tão estranho? Difícil encontrar uma razão, e com certeza esta razão não eliminaria o desconforto causado pelo livro que, sem dúvida, poderia ter um projeto gráfico que valorizasse seu conteúdo. Mas o ambiente gráfico é justamente a tela da artista Laerte, e as escolhas neste sentido não são sem intenção. Comecemos então por Creta.

Laerte é uma quadrinista com um repertório cultural enorme que não nasce de nenhuma busca acadêmica – ela torce o nariz sem cerimônia para todo academicismo. No meio dessa trança formada por sua vivência, interesses, hobbies e vontades, o mito do Minotauro claramente assume um lugar central. O filho bastardo do rei Minos, fruto da união amaldiçoada da rainha Pasifae com o touro de Poseidon, vai estar presente na poética de Laerte desde sua juventude, como a foto de este vitral feito pela autora em 1967 vai evidenciar. Minotauro é o homem tomado pelo instinto, e sua simbologia pode assumir aspectos díspares dependendo do período em que se interpreta. Para os pensadores de verve clássica, é o ser humano preso ao seu instinto animal e por isso condenado a vagar sem saída pela vida. Aqueles mais alinhados com os valores pós-românticos verão no homem-touro uma herança natural que deve ser abraçada para ser vivida enquanto assume apenas uma representação de um recalque racional.

Como o Minotauro, a edição de Modelo Vivo é quimérica, um corpo formado pelo resgate de um trabalho marcado pela excelência do traço amarrado a uma cabeça experimental, enevoada e semi-disforme. Muitas vezes, no passado recente, Laerte afirma descontentamento com seu trabalho prévio. A criação comprometida com um ritmo de produção específico - seja tira diária ou revista mensal – deixou um amargor estético na autora de modo tal que a solução foi retornar ao passado, empreender um retorno a um momento em que seu traço ainda não estava subordinado às necessidades do mercado. Aquela linha elegante e precisa, contadora de histórias, que durante anos garantiu o sustento expressivo e material da autora, havia se tornado uma convenção quase linguística. Basta atentar para alguns dos rabiscos livres que constroem os corpos nus para perceber que, em alguns momentos, mesmo o traço mais liberto e fluido acaba retornando a gestos codificados. Aquele nariz que marcou determinado personagem, aquela mão que é típica de determinado cartum... é esse automatismo pragmático que se torna alvo do desagrado de Laerte. Como se a autora nutrisse uma vontade legítima de orientar seu traço para o mesmo horizonte que seu lirismo poético: experimental, não-sígnico, não-linear.


Não é um acidente que a história "Minotauro" esteja republicada neste volume. O pequeno conto é uma imagem perfeita de uma desejada inversão. Do herói iluminado que se torna prisioneiro bestial na escuridão do labirinto (ou, como desejado, da mente racional que se liberta para uma existência instintiva). Muito dessa reflexão não passa de elucubração, mas é inegável o papel que o mito cretense assume no imaginário da autora. Essa inversão expressa também um outro incômodo já levantado por Laerte: a supervalorização de seu trabalho. Em muitas entrevistas Laerte abertamente discorda da “canonização” que seu nome costuma receber nos meios artísticos. Sua série de tiras “Santo Recalcitrante” trata abertamente dessa sensação de não partilhar da mesma opinião daqueles que a chamam de “gênio” ou, pior ainda, “herói”. Como se tal reconhecimento sempre possuísse um caráter póstumo indesejado.


Com tudo que foi dito, o título “Modelo Vivo” passa a assumir uma carga mais irônica, zombeteira. Como se a autora quisesse, com os estudos e rabiscos característicos de sua fase atual, dissipar o ar reverente que uma coletânia de trabalhos clássicos exalaria. O resultado final é desconcertante, pelo menos comercialmente falando, e, para muitos, não faz jus ao teor dos quadrinhos que estão sendo reimpressos na edição. Por outro lado, a revista se nega a ser somente uma ovação a uma estética passada que não mais ressoa para a autora, e se apresenta como uma “coletânea recalcitrante” que busca colocar, num mesmo patamar, trabalhos de momentos distantes da biografia de Laerte com o tipo de sensibilidade que o instiga no presente. O grande ponto positivo é que pode-se perceber, pelas HQs republicadas no livro, que ambas as Laertes, cabeça e corpo, não são tematicamente tão distantes. Que suas tiras radicalizaram incômodos e sensibilidades que já estavam presentes no discurso de seus quadrinhos mais antigos. Mas o resultado deste embate entre vontades acaba quebrando para o lado dos leitores. Vemos um material rico ser reimpresso sem a qualidade que merece ao mesmo tempo em que não há uma publicação nova, seja de material inédito ou o muito sonhado álbum de tiras da fase Manual do Minotauro. Modelo Vivo é uma publicação essencial para quem curte quadrinhos, mas acaba deixando um gostinho de frustração na boca dos leitores. 

1 comentários

A.R.L disse... @ 11 de fevereiro de 2017 21:27

Faça uma matéria sobre o retorno de Dylan Dog..vai voltar a ser publicada no Brasil em 2017...

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