O narrador sugere que Modred vê monstros e dragões no lugar de soldados, carros e armas (Bill Mantlo, Sonny Trindad, 1975): dia desses ganhei um presente que adoro: um gibi velho, puído, um pouco mofado. Tive que deixar algumas leituras da fila para trás para me dedicar a este novo artefato. Trata-se de uma revista da Marvel original de 1975. Nada raro ou obscuro, que fique claro. Mas eu sou daqueles que gosta de primeiro cinema, dixieland jazz, maxixe, golden age comic strips, coisas velhas. Um gibi Marvel dos anos 70 é como uma pequena viagem no tempo àquela época louca: páginas de anúncios como "have your poems set to music", "free one million cash", "hipnotize!", "authentic Superman costume", etc. Além dos próprios anúncios da Marvel: adesivos para caderno, fantasias dos Vingadores para crianças, um correio super "hip" assinado pelo Stan Lee. Fresh vintage!

Mas nada disso se compara à leitura de um bom gibi da era de bronze. Veja este caso. Ele faz parte de uma série chamada "Marvel Chillers", que está entre o super-herói e o terror ainda um tanto inspirada no grafismo do horror clássico dos anos 40 e 50. Mesmo assim, o conteúdo é bem mais supers. Durou apenas sete edições, duas com Modred, the Mystic, um personagem de quinta criado por Marv Wolfman que apareceu depois em algumas histórias dos Vingadores; e as outras cinco com a sensual e mais famosinha Tigra, the Were-Woman. A minha edição é a número dois. Portanto, o fim do arco de Modred, cuja primeira aparição havia sido no número um. Não esperava nada, mas encontrei um texto consistente de Bill Mantlo, com diálogos elaborados e ótimos (e bem irônicos) recordatórios (ou recitativos), além de uma arte satisfatória por parte de Sonny Trindad, prejudicada pela coloração de impressão paupérrima (imagino que em 3 cores), mas que adiciona certo charme à coisa. 

Modred, na verdade, é um ótimo personagem. Oriundo do século VI, da terra de Camelot, ele é o aprendiz de mago do grande Velho Gervasse, o "segundo maior mago do Reino" (perdendo pra um enlouquecido Merlim, é claro). Ambíguo, impetuoso, descontrolado e submisso às suas paixões, Modred acaba cedendo a forças obscuras quando invoca um poder das trevas presente no livro Darkhold e, exaurido num duelo contra o oculto, acaba congelado no tempo, paralisado, até que acorda no presente (isto é, 1975). O enredo lembra a série Camelot 3000, e eu não me surpreenderia se Modred tivesse em algum nível sido uma inspiração.

Os já citados bons recordatórios (numa época em que não era tabu caprichar nos recordatórios, hoje considerados "literários" demais para a "arte livre" dos quadrinhos - completa besteira) e o fato de Modred acordar em uma sociedade moderna são importantes aqui. No quadro que destaquei, Modred acaba de "invadir" o presente e está cercado pela polícia de Londres. O recordatório se questiona assim: "como um ser acostumado com carroças puxadas por cavalos e arco-e-flecha irá reagir quando confrontado com tão modestas maravilhas tecnológicas da era das máquinas como... os carros e as armas de fogo?" Acontece que o que vemos na imagem do requadro não são carros e armas de fogo, e sim... monstros humanoides com lanças e dragões! 

É uma linda possibilidade filosófica, a do solipsismo. Sem nos explicar, o texto em quadrinhos (palavra + imagem) nos informa que Modred, vindo de outra época, é incapaz de "processar" a visão de seres e tecnologias que não existem em seu mundo. Logo, seu cérebro os verte em algo familiar (supondo que monstros e dragões existam em sua mágica Camelot). Ele está vivendo em solipsismo (só ele enxerga seu mundo; seu mundo só existe pra ele). Isso lembra aquela história de que os índios não viram os navios europeus chegando porque seus cérebros não estavam culturalmente e cognitivamente programados para compreender aquela visão (o que deve ser um lorota das boas). Ou a interessante recente pesquisa que afirma que não podíamos ver a cor azul até tempos modernos, já que as línguas e textos antigos não a mencionam (e ela pouco aparece na natureza). O solipsismo é uma condição meio "beco-sem-saída" filosófica que nos aprisiona num dos muitos paradoxos da ontologia. Afinal, como efetivamente provar que não somos todos solipsistas? 

Esta história de Modred é interessante em vários aspectos: comprova a grande fase de amadurecimento do texto em quadrinhos que é a era de bronze, quando as histórias já são direcionadas para um fã mais crescido e a continuidade delas se dá com amarras sólidas, poderia dizer literariamente (pulp, que seja) trabalhadas, sem perder o encanto delirante da era de prata. Mas nada justifica um insight tão fascinante e bem sacado quanto este do solipsismo de Modred. Afinal, o recordatório não nos diz "vejam! ele troca carros por dragões". Ele apenas indica a condição e mostra, num plano-ponto-de-vista, o olhar de Modred, o que dá uma ideia do estado alucinado em que vive o personagem. Uma coisa pescada assim, no meio de uma leitura sem qualquer memória ou prestígio, vinda de um gibi puído. É assim que eu gosto das coisas. (CIM

2 comentários

Marco Collares disse... @ 25 de junho de 2016 15:44

Texto fantástico em sua simplicidade e ao mesmo tempo questionamento. Não conhecia o termo solipsismo, ainda que como historiador eu considere deveras interessante essa ideia de incapacidade da mente em compreender uma inovação tecnológica e etc. Também é instigante o texto por mostrar um arco pouco conhecido e sim, concordo em tudo sobre as recordatórias. Sinto falta de boas recordatórias nos quadrinhos mais recentes, pelo menos alguns, ainda que as vezes a verborragia anos 70 e 80 comprometa certas passagens. Mesmo assim vale a pena.

Ciro disse... @ 27 de junho de 2016 10:02

Valeu pelos elogios Marco. Obviamente é um texto despretensioso e eu não quis também falar seriamente sobre o solipsismo (que é um conceito bem mais complexo - pra isso conferir Kant, Kierkegaard, Sartre, etc.), apenas ventilar alguns insights que, ao meu ver, ficaram simpáticos. Quantos aos recordatórios (ou as recordatórias - como se escreve essa bagaça, afinal?), acho que o quadrinista contemporâneo não deve se esquivar também de escrever (sei que não é fácil), de explorar suas habilidades textuais. Os quadrinhos não são apenas arte plástica, são também arte literária, e acho que isso tem sido um pouco esquecido. Talvez seja efeito do fato de a maioria dos quadrinistas (especialmente brasileiros) hoje em dia serem antes artistas do que roteiristas, e serem mesmo assim obrigados a fazerem as duas coisas. A "crise do roteirista" que (dizem) afeta o cineasta brasileiro afeta também o quadrinista brasileiro...

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