por Márcio Jr.

O "velhinho"
Muito já foi dito sobre Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, nova investida de Frank Miller ao universo que o consagrou por definitivo em 1986, quando do lançamento da antológica minissérie original. Considerando-se que a HQ permanece incompleta, isso só reforça um fato: Miller segue como o maior e mais influente quadrinista da indústria norte-americana desde Jack Kirby. E isso não é Ki-Suco de groselha. Com a chegada da primeira edição às bancas brasileiras, via Panini, passa a existir a possibilidade concreta de um encontro efetivo com essa nova obra – a menos para aqueles com R$ 9,90 no bolso. Assim, o que proponho aqui é uma série de ensaios, um a cada edição, sempre escritos no calor da batalha. Apesar da perda do status de unanimidade, o volume de polêmicas e discussões geradas por cada movimento de Miller mostra que o velhote (que cronologicamente nem é tão velhote assim, batendo na casa dos 59 anos) ainda tem tinta pra queimar.

Desnecessário falar da hecatombe provocada por Batman: O Cavaleiro das Trevas na década de 80. Ao lado de Watchmen, ressignificou o quadrinho de super-herói para o público adulto – que muitas vezes sequer era leitor do gênero. Por causa dele, os gibis ganharam moral em boa parte do ocidente. Em contrapartida, toda HQ medíocre e supostamente adulta (impressão chique, violência gratuita, alguns peitinhos e “realismo”) que lemos hoje carrega seu legado.


Tudo era novidade e subversão no Batman de Miller – ainda que, no que tange ao personagem em si, se tratasse de um retorno às origens, um resgate da essência primordial do Homem-Morcego criado em 1939 por Bob Kane (e mais uma penca de quadrinistas surrupiados, entre eles Bill Finger e Jerry Robinson). A narrativa fragmentada, a densidade dos personagens, o uso de onomatopeias como elemento gráfico de primeira ordem, a metalinguagem crítica na lida com os meios de comunicação de massa, a discussão política do conceito de super-herói, as maravilhosas e orgânicas cores de Lynn Varley, a edição luxuosa, a liberdade conquistada para virar do avesso o maior patrimônio da DC Comics... Tudo isso foi uma quebra (e estabelecimento de novos) paradigmas perpetrada com sucesso inaudito por Frank Miller. É óbvio que quadrinhos experimentais, sofisticados, adultos e transgressores já tinham um longo histórico em 1986, mesmo nos Estados Unidos. Will Eisner, Robert Crumb e a Heavy Metal Magazine dão a pista com clareza. A diferença é que Miller pariu arte no seio da indústria dos super-heróis, que até então se ocupava exclusivamente de produtos infanto-juvenis descartáveis. Daí a fama de enfant terrible. Tal qual Elvis Presley (que não foi o criador do rock, mas seu catalisador supremo), Frank Miller abriu espaço para um novo modo de se fazer quadrinhos nas terras do Tio Sam. E os gibis nunca mais foram os mesmos.


DK 2: redimido
Quinze anos depois, sob intenso frisson, Miller retorna ao pote de ouro em Cavaleiro das Trevas II (vulgo DK2). Decepção talvez seja a palavra mais adequada para evocar o sentimento provocado na esmagadora maioria do público (e crítica) com relação à volta do autor não apenas ao canônico Batman que havia criado, mas ao próprio gênero dos super-heróis. O desenho cartunizado, a “inabilidade” de Lynn Varley no uso das cores geradas por computador, a narrativa sem grandes experimentações, um humor enviesado e os “furos” no roteiro deixaram aos prantos milhares (milhões?!) de nerds ao redor do mundo – que, naquele momento, lamentavelmente, já se sentiam mais à vontade em assumir essa jocosa alcunha. Uma análise, enfim, que estanca no plano mais superficial da obra.

Para se aprofundar minimamente em DK2 é fundamental compreender a posição de Miller em 2001. Àquela altura, o irascível autor havia virado completamente as costas às duas majors dos quadrinhos ianques, Marvel e DC. Algo que tem sido constantemente esquecido é que Batman: O Cavaleiro das Trevas, assim como Watchmen, eram contumazes críticas ao gênero dos super-heróis (posição que Alan Moore, ao contrário de Miller, ainda sustenta). Em nome de liberdade criativa, amadurecimento de linguagem e propriedade sobre as próprias criações, Miller, com sua venenosa verve, não se furtava em ostentar o dedo médio para as corporações e seus produtos, alardeando o fim daquele modelo de indústria de quadrinhos. O estrondoso sucesso de Sin City – que parecia ser a antítese do quadrinho americano do período – turbinava o discurso do artista. Então, por que retornar ao Cavaleiro das Trevas (e por tabela, ao supers), uma vez que ficou pelo menos uma década dizendo que jamais o faria? Grana, é claro. Mas não só.

A arte grotesco-caricatural de DK II

Em DK2, Frank Miller não é mais Elvis Presley. Agora, havia se convertido numa espécie de Johnny Rotten, dos Sex Pistols. A nova série chuta para o alto toda a seriedade e pretensão que haviam sido introduzidas no Cavaleiro das Trevas original. De forma absolutamente iconoclasta, Miller caricaturiza os quadrinhos de super-herói, principalmente aqueles que ele mesmo ajudou a criar: a abominável Era Image. Os painéis gigantes e as cores digitais são apenas a face mais aparente disso. Tal e qual o vocalista da seminal banda inglesa, Miller parecia berrar: “Vejam, isso aqui é uma tolice, vocês são idiotas e só estou aqui pelo dinheiro!” E dá-lhe cuspe na cara dos inocentes leitores – e da própria DC. Mais punk, impossível.

Mais punk, impossível

Ainda que nem de longe seja inovadora tal como o primeiro Cavaleiro das Trevas, DK2 é uma HQ infinitamente superior à maioria do que era publicado na época. E de quebra ainda trazia a marca do gênio de Miller. Então, se Batman: O Cavaleiro das Trevas foi uma obra revolucionária e DK2 transbordava cinismo, o que esperar de Miller nesta terceira minissérie? A verdade é que é cedo para dizer. Mas me arrisco sem muito medo: O que Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior traz é o desaparecimento de Frank Miller enquanto autor e sua transformação em commodity dos quadrinhos de super-herói.

O "gibizinho" do Átomo e um Superman polêmico
O Livro Um (nome pra lá de suntuoso para o gibi que está nas bancas) de A Raça Superior começa com um emblemático recordatório: “Uma boa morte? Isso não existe...” Fica então estabelecida uma conexão direta com a primeira página da HQ de 1986, onde Bruce Wayne escapa com vida de um acidente automobilístico e reflete, entes de retomar o tal manto do Morcego: “Seria uma boa morte... Mas não o bastante.” Apesar do tema da morte parecer verdadeiramente caro a este Frank Miller baleado por um terrível câncer, o que fica explícito é que A Raça Superior faz parte do mesmo universo de Batman: O Cavaleiro das Trevas. Todavia, a ideia dos universos super-heroísticos, com suas cronologias mercadológicas (agora também alojadas no cinema), não era justamente um dos aspectos que Frank Miller havia implodido em sua primeira minissérie?Ao situar sua história num futuro próximo onde diversos aspectos da trajetória do Homem-Morcego estariam já definidos, e outros tantos não encontravam respaldo em HQs pregressas, o quadrinista criou um delicado problema para a DC. A saída para a editora foi afirmar que Batman: O Cavaleiro das Trevas não pertencia à cronologia oficial do personagem. Baita saia justa. E Frank Miller riu disso. Agora, contudo, ele retorna cordato à proposta de um universo próprio, com sua própria cronologia (e possibilidades de dar vazão a uma infinidade de HQs-produto).

A maestria do DK original
A autoralidade sempre foi um problema para o mercado dos comics. Fracionando a produção das HQs em diversas etapas, diluía-se a presença do autor, ao passo em que a propriedade da editora se via fortalecida. Frank Miller foi uma peça chave para questionar essa lógica fordista. Ao concentrar os papeis de roteirista e desenhista, além de ter autonomia na escolha do restante da equipe criativa, Miller cria uma marca ímpar e própria no Cavaleiro das Trevas original. O mesmo ocorre em DK2, onde todas as decisões parecem ter nascido de sua mente. Com A Raça Superior isso não se repete. O time é responsa: Brian Azzarello divide os créditos do roteiro com Miller, Andy Kubert desenha, Klaus Janson passa a tinta e Brad Anderson estraga tudo no computador. Se em nada Batman: O Cavaleiro das Trevas e DK2 se pareciam com os gibis de super-heróis de sua época (permanecendo únicos – e portanto autorais – até hoje), a nova empreitada tem exatamente o mesmo cheiro de qualquer outro Batman que entope as bancas mensalmente. Mais do mesmo.

Mas o drama é maior: Frank Miller já declarou que A Raça Superior pertence muito mais a Azzarello do que a ele próprio. Aqui, o velho transgressor atua como um consultor e, principalmente, uma commodity. E essa commodity parece funcionar: as vendas da série têm sido altas. Eu mesmo me pergunto qual urgência teria em ler essas histórias não fosse a chancela de Frank Miller ali na capa.

Sobre a HQ propriamente dita, as 28 páginas desta primeira edição pouco fazem além de criar um preâmbulo para a narrativa vindoura. Nenhuma grande surpresa no caminho. Nenhum grande desgosto também. Leitura ligeira. Tudo leva a crer que as mulheres terão um certo protagonismo. Vamos ver. Andy Kubert, filho do lendário e saudoso Joe Kubert, é um veterano da indústria. Profissional, mas genérico. Nada salta aos olhos ou carrega a marca de um autor. Sequer é seu melhor trabalho. Sobra pouco pro craque Klaus Janson fazer a diferença. E aí vem esse tal Brad Anderson realizar um trabalho de colorização horrivelmente burocrático e indistinto, a milhas de distância da maestria de Lynn Varley pilotando pinceis encharcados de aquarela e ecoline em O Cavaleiro das Trevas, ou manipulando inescrupulosamente as cores digitais em DK2. Não me parece que Frank Miller esteja muito preocupado.

E tem o gibizinho que vem junto. Em cada edição de A Raça Superior estará encartado um gibi em formatinho protagonizado por um dos super-heróis coadjuvantes do Universo Cavaleiro das Trevas. Neste primeiro número temos o Átomo (mas não era Eléktron?!). É uma edição de 16 páginas, frágil e difícil de conservar, que poderia muito bem ser apenas uma HQ extra da revista principal. A única justificativa plausível é a abordagem colecionista-nerd, sem função estética ou narrativa, semelhante às capas metalizadas, holográficas e demais truques mercadológicos que tiveram seu auge na década de 90, mas que ainda circulam com força. O que vale a pena nesta HQ é o fato de ser desenhada por Frank Miller. O que significa um chororô sem fim dos leitores de super-heróis.

Me recuso a discutir Frank Miller como desenhista em termos de anatomia, proporção e realismo. É uma tolice sem tamanho, circunscrita única e exclusivamente à pobreza de referências do leitor médio de super-heróis. O que o próprio Miller tem a dizer sobre o tema da cartunização do desenho de quadrinhos está no excelente livro Eisner/Miller, de Charles Brownstein, lançado no Brasil em 2014 pela Editora Criativo. Mesmo com um desenho completamente fora dos padrões usuais dos comics, Miller possui estilo marcante e, portanto, uma autoralidade infinitamente maior que a de Andy Kubert – pra ficarmos num exemplo da vizinhança. E ainda há a questão do storytelling, que ele continua dominando com maestria. Mas isso não salva o gibizinho do Átomo.

Andy Kubert: mediocridade
Do ponto de vista do roteiro, o máximo que acontece é uma sequência de ação onde o nanico enfrenta uma lagartixa. Puro arremedo meia-bomba de sua entrada apoteótica em DK2. Graficamente, tudo que Miller faz para distorcer e estilizar, Klaus Janson trata de (tentar) consertar. E as cores de Alex Sinclair são tão inócuas e genéricas quanto as de Brad Anderson. Falando em cores, recomendo o artigo de James Sinclair que aborda a premissa de que a arte de Miller continua vigorosa, mas tem recebido um tratamento cromático absolutamente lambão por parte da indústria. Enfim, num ínfimo espaço onde a autoralidade característica de Miller poderia vir à tona, ela é solapada pela postura clientelista de entregar tudo ao gosto do freguês. (Como se sua carreira não tivesse sido construída exatamente na contramão disso.)

Se Batman: O Cavaleiro das Trevas conduzia a linguagem dos mainstream comics a novos horizontes, e DK2 desafiava cinicamente seus leitores, a conexão entre estas duas obras não se materializava na proposta (obviamente mercadológica) de um universo compartilhado, mas na sólida presença de um autor. Mesmo a polêmica graphic novel Holy Terror (que merece novas leituras) traz Miller em primeiríssimo plano. Ali ele é senhor de sua obra e de seu discurso – por mais tacanho que esse discurso possa ser. Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, parece se marcar justamente pelo desaparecimento de Miller enquanto autor. O que lemos é a sua ausência. Frank Miller como commodity – o que não deixa de ser melancólico para um artista que sempre estabeleceu uma assinatura pessoal, mesmo nos trabalhos mais contingenciados pela indústria. Enquanto as duas empreitadas anteriores sob o capuz de Batman destoavam de todos os gibis de então, Cavaleiro das Trevas III parece espelho de tudo que satura nosso olhar e nosso imaginário. Porém, o mínimo que posso esperar é uma boa HQ. Frank Miller nunca me proporcionou menos que isso.

1 comentários

Fernalf disse... @ 10 de junho de 2016 12:30

Melhor analise até hoje sobre toda a obra Dk de Miller. No geral as analises beiram a ridicularizar uma grande obra como foi DK2, com certeza algo a frente do tempo em que foi lançado. Parabéns pela matéria.

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