por Ciro I. Marcondes

Lá pelos idos de 2002 eu era apenas um estudante de Letras e me lembro que, em uma aula de Literatura Brasileira Contemporânea, entre a prosa lacônica e enfadonha de João Gilberto Noll e os textos histéricos, wanna be contemporâneos de Marcelino Freire, caiu nas minhas mãos Dois irmãos, o hoje já clássico segundo romance de Milton Hatoum, publicado em 2000, sobre a eterna rivalidade de um par de irmãos gêmeos no seio de uma família libanesa-brasileira na Manaus do século XX. Nunca tinha ouvido falar. Li com voracidade, porque, na verdade, não se trata de um livro que simplesmente lemos, mas sim que consumimos.

Ao contrário dos autores citados, Hatoum fazia-se contemporâneo usando uma linguagem simples: não flertava com o cinema, não abusava de discursos indiretos livres e narrativas frouxas que se confundem com a errância do autor, e não fragmentava seus personagens em mil diferentes excertos para tentar redefinir o que seria um romance. Pelo contrário, buscava delinear cada aspecto de seu texto, e a polifonia da história se dava através de um vai-e-vem que engancha o passado no futuro sistematicamente. Sua modernidade residia, portanto, nos tipos de sincretismo entre as várias possibilidades de Brasil que são oferecidas ao leitor numa Manaus que hoje parece ainda mais remota e indefinível.

 
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