Planos-detalhe descrevem a incrível capacidade de Matt Murdock em aguçar seus sentidos (Stan Lee, Bill Everett, 1964): "Do ponto de vista estritamente físico, o olho sente a cor. Experimenta suas propriedades, é fascinado por sua beleza. A alegria penetra na alma do espectador, que a saboreia como um gourmet, uma iguaria. O olho recebe uma excitação semelhante à ação que tem sobre o paladar uma comida picante. Mas também pode ser acalmado ou refrescado como um dedo quando toca uma pedra de gelo. Portanto, uma impressão inteiramente física, como toda sensação, de curta duração e superficial. Ela se apaga sem deixar vestígios, mal a alma se fecha."

Quem escreveu estas palavras foi o lendário Wassily Kandinsky, pintor fundador do Der Blaue Reiter expressionista e pioneiro (além de mestre absoluto) da arte abstrata. Kandinsky era sinestésico, e tinha uma visão profundamente espiritual, além de técnica, da arte. Para ele, um quadrado, um círculo, uma cor, um ponto, etc., possuíam uma vibração originária, um tipo de comungação natural com aspectos não-visíveis da realidade, e a combinação entre estes elementos produz poderosas novas vibrações, e cabe à arte o controle destes efeitos. A sinestesia é uma condição neurológica em que diferentes estímulos são misturados nas vias neurais até chegar aos seus respectivos córtex (visual, auditivo, etc.), misturando os sentidos. As pessoas sentem gostos e cheiros ao verem cores. Sensações de frio ou calor ao se depararem com determinados nomes ou palavras. Números possuem cores específicas. As possibilidades combinatórios dos sinestésicos são muitas, e os casos são muito diferentes entre si.

Daí o estalo na minha cabeça ao ler a primeiríssima história do Demolidor, "A origem do Demolidor", escrita por Stan Lee e ilustrada por Bill Everett, que contém uma sequência com quatro quadros detalhando minuciosamente a natureza dos super poderes de Matt Murdock: "Meu paladar tornou-se tão altamente desenvolvido, que posso dizer exatamente quantos grãos de sal existem num pedaço de pretzel...". Os super sentidos não são colocados exatamente como sinestésicos (não há entrecruzamento entre eles), mas há de se admirar o ímpeto imaginativo de Stan Lee: o texto que descreve os sentidos beira a elocubração científica, e dá a medida exata, com exemplos muito lúcidos, daquilo que o Demolidor pode fazer: "Até meus dedos tornaram-se incrivelmente sensíveis! Posso dizer quantas balas há numa arma apenas pelo peso do cano...". 

A ideia de que o Demolidor seja um personagem sinestésico, ou hiper-sinestésico, é em si revolucionária não apenas para um super-herói (já que esta condição era praticamente não-documentada pela ciência na época), mas muito interessante para o desenvolvimento das habilidades narrativas em quadrinhos. A partir destes quatro quadros plantados em sua primeira história, toda história do Demolidor passaria pelo mesmo desafio: como representar esta hiper-sensibilidade sinestésica em um meio feito apenas de imagens planas e palavras como os quadrinhos? Quadrinhos não trabalham com cheiros, com sons, com movimento, com o tato que não seja a própria textura rude da página em si. E pior: aquilo que os quadrinhos possuem de mais elaborado, que é a sua concepção visual, está ausente da sensibilidade do Demolidor. Cego, ele pode ser tudo que os quadrinhos não são, mas não pode ser a única coisa que eles são. 


Lee e Everett optaram por uma solução simples: apesar da qualidade quase literária na precisão descritiva do texto, as imagens são elementares. Uma orelha para audição, um nariz para o olfato, dedos para o tato, e a boca para o paladar. Metonímias autoevidentes, mas que bastaram para estabelecer um paradigma: O Demolidor seria um personagem eternamente diferente, enclausurado, amaldiçoado pela incongruência de seus poderes (um cego tão ágil quanto o Batman) e pela ineficácia de seu meio (os quadrinhos) em transfigurar sua sinestesia. E isso não se restringe aos quadrinhos. Tanto no filme com Ben Affleck quanto na nova série, a única forma de trazer a sinestesia à tona para um contexto audiovisual é fazer o Demolidor "ver" (literalmente, pois imagens emergem) através dos outros sentidos. Paradoxo que é, claramente o Demolidor não se limita isso. 

Miller: virtuoso
Frank Miller, na edição 169 de Daredevil (1980), enfrentando as mesmas dificuldades, mas transformando-as num trunfo de seus quadrinhos virtuosos, com soluções narrativas incrivelmente imaginativas, procurou sofisticar a representação dos efeitos sinestésicos dos poderes do Demolidor. Neste caso, Murdock está atrás de um refém capturado pelo Mercenário. Este refém está doente, tosse muito e ainda perdeu suas pastilhas para garganta. Nos balões de pensamento, lemos o Demolidor: "O Mercenário fuma e está escondendo alguém com dor de garganta... uma situação que só tende a piorar sem as pastilhas. É uma pista fugaz, mas é tudo que tenho." Na página seguinte, vemos três meta-requadros com uma imagem do Demolidor sentado, na penumbra, no topo de um prédio, escutando. No primeiro plano de cada um destes requadros, três pequenos outros quadros mostram o que ele ouve: um pneu freando, uma buzina de carro, uma chaleira, um despertador, uma goteira. "O demônio se concentra, Sons mais delicados murmuram de milhares de emissões diferentes. Ele os abafa." Miller usa estes delicados quadros com detalhes do que Murdock pode ouvir em transições de aspecto (a famosa "transição número 5" de McCloud), sugerindo que o Demolidor seja capaz de captar a "vibração" (da qual fala Kandinsky) presente em cada som, modulando a audição à mais ínfima sensibilidade, chegando ao paroxismo de ouvir uma tosse em meio a uma metrópole. E o melhor: isso é transferido ao leitor combinando três elementos simples dos quadrinhos: os letreiros recitativos, que dão a dimensão da sensibilidade do herói; os quadros grandes ao fundo com o Demolidor sentado, dotando a cena de temporalidade; e os quadros pequenos em sua aleatoriedade, representando não uma condição temporal, mas uma inteiramente sensitiva, com seus barulhos e imagens representadas. 

Talvez seja por essas e outras que o Demolidor tenha sobrevivido, apesar de sua aparente simplicidade, como um personagem extremamente querido pelo público da Marvel, que sempre recruta seus roteiristas-estrela para repaginá-lo. Afinal, o desafio de reinventar o Demolidor é o desafio eterno de superar seus paradoxos, que, enquanto tais, são naturalmente insuperáveis. Este palíndromo, este vai-e-vem na representação da sensitividade do personagem, é sua caraterística mais "desafiadora", e assim ainda será enquanto os quadrinhos não deixarem de ser uma mídia de limitado potencial sinestésico, mas de enorme recursividade imaginativa. (CIM)        

6 comentários

Jorge Alam Pereira dos Santos disse... @ 30 de novembro de 2015 13:45
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Alam Pereira dos Santos disse... @ 30 de novembro de 2015 13:46

elo texto, vale ressaltar o livro de Ian Hague, que trabalha sobre os quadrinhos na perspectiva da sinestesia, Comics and the Senses.
Além de sugerir experimentos para romper a limitação visual dos quadrinhos (quadrinhos com cheiro, etc) ele sugere distinções dentro da categoria sinestésica na arte, que pode ser fisiológica, psicológica ou retorica. Acho que o quadrinho do demolidor representa uma sinestesia fisiológica do demolidor para induzir nos leitores uma psicológica, que em alguns momentos (quando não funciona) é apenas retórica. abraço.

Ciro disse... @ 21 de dezembro de 2015 10:00

Fala grande Alam! Beleza? Cara, excelente referência. Não conheço esse livro e vou procurar com certeza. Eu quis apenas fazer um pequeno exercício ao tentar associar o Demolidor à sinestesia, não apenas transformando-o num herói sinestésico mas abrindo essa possibilidade de pensar os quadrinhos como algo que desperte este tipo de percepção. Bom saber que alguém já estudou isso com profundidade!

Marco Collares disse... @ 6 de janeiro de 2016 01:02

Belo texto mesmo. Isso acontece em várias mídias em que o Demolidor aparece. Muitas vezes a sinestesia fisiológica traz a tona essa tentativa de sinestesia psicológica, com o Demolidor conseguindo ou não controlar os ruídos, sons e sensações a sua volta. Concordo com o Alam quando ele diz que muitas vezes acaba sendo uma artimanha retórica ricamente adornada (principalmente por Miller) que tenta imbuir no leitor o que Matt está sentindo em sua psique diante das sensações a flor da pele.

Raio Laser - CIM disse... @ 6 de janeiro de 2016 14:42

Fala Marco! Tudo bem? Realmente, pode ser que esse esforço que se dá nos quadrinhos do Demolidor seja uma artimanha, mas não seria válida para empurrar a comunicação sensitiva da HQ ao limite?

Marco Collares disse... @ 7 de janeiro de 2016 01:11

Ah sim, sem dúvida. Sempre gostei dessa artimanha. Quando estudei história antiga e teoria da história, acabei tratando de retórica e seu funcionamento, tanto na escrita da história como em meio aos discursos políticos e passei a ter uma visão diferente daquela visão tradicional platônica que toma a retórica como a simples arte do convencimento destituída de conteúdo. Existem mecanimos de convencimento, claro, mas também critérios ricamente adornados e munidos de conteúdos válidos dentro da perspectiva da verossimilhança retórica. Enfim, quando falo artimanha retórica, não considero algo inválido, pelo contrário. Nós, historiadores (e acho que artistas assim o fazem, inclusive nos quadrinhos), nos utilizamos de retórica para demonstrar nossos posicionamentos com base na verossimilhança por meio de inferências. Não podemos tratar totalmente de lógica, visto que o passado está perdido na sua concretude, mas podemos mpreencher lacunas com possibilidades a partir de argumentos retóricos imuídos de fontes. Ou seja, não vemos a retórica como algo necessariamente negativo e nem reduzida a arte do tribunal e da política para vencer ou convencer sem possuir amparo no real.

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