por Pedro Brandt

Rock e histórias em quadrinhos são expressões artísticas que têm caminhado juntas na trajetória recente da banda brasiliense Quebraqueixo. Em 2010, o quarteto lançou seu segundo disco, A banda desenhada, projeto que inclui, além de CD, HQ de acabamento luxuoso, com capa dura, e histórias adaptadas das letras da banda feitas por 14 talentosos quadrinistas de Brasília.

Realizado com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do GDF, o projeto teve como contrapartida uma série de shows e oficinas de histórias em quadrinhos em escolas da rede pública do Distrito Federal em 2011. Alunos, professores e a banda gostaram da experiência e, em 2014, o Quebraqueixo emplacou o Festival Itinerante Rock e Quadrinhos. Também viabilizado pelo FAC, o projeto rendeu 12 edições no ano passado e, pelos próximos meses, continuará passando por escolas do DF.



Duas atividades são produzidas nos centros de ensino que recebem o festival. Primeiramente, no horário do recreio, os alunos assistem a um show do Quebraqueixo. O grupo, formado por Evandro “Esfolando” Vieira nos vocais, Paulo Mattos na guitarrista, Herman Antunes no baixo e André Bermak na bateria pratica o chamado hardcore crossover (gênero com raízes no punk rock e influências de thrash metal) e reflete em suas letras questionamentos e críticas sociais e comportamentais.


“Algumas vezes, os alunos se empolgam um pouco mais, sobem no palco e pulam lá de cima”, conta Evandro. “A gente fica pedindo calma, coisa que não faríamos em nossos shows fora do projeto”, brinca o vocalista.

Depois da apresentação, é realizada em sala de aula uma oficina de quadrinhos de uma hora de duração. “Como o projeto é direcionado para iniciantes, criei um método de ensino próprio, bem dinâmico. Primeiro, conto um pouco da história das histórias em quadrinhos e sobre mercado de trabalho na área. Depois, utilizo o quadro negro para mostrar as ferramentas básicas para que os alunos possam desenvolver uma HQ de uma página ou uma tirinha na metade final da aula. Daí, faço um acompanhamento individualizado, dando dicas e sugestões”, explica Evandro.

O vocalista do Quebraqueixo é autor de um livro de memórias, Esfolando ouvidos, no qual apresenta causos e histórias vividas no cenário roqueiro de Brasília, e Grosseria refinada, coletânea de contos – um deles acabou virando o filme Um assalto de fé, de Cibele Amaral. Além de A banda desenhada, Evandro também produziu a HQ Rock vs. Comics, na qual apresenta, em formato de quadrinhos, resenhas de shows assistidos em Brasília e no Brasil (e, mais recentemente, também no exterior, como pode ser conferido no blog esfolando.wordpress.com).

As histórias em quadrinhos vivem um bom momento no Brasil, com mais gente produzindo e um reconhecimento mais entusiasmado de seu potencial lúdico e educativo. O Festival Itinerante Rock e Quadrinhos tem percebido isso no contato com os alunos e, principalmente, professores. “Eles são os primeiros a valorizarem nossa iniciativa. Alguns professores participam das oficinas porque querem utilizar os quadrinhos como ferramenta em suas aulas”, conta Evandro.

O “rolê”do Quebraqueixo pelas escolas vai render um videoclipe, dirigido pelo fotógrafo e cineasta Patrick Grosner – diretor do documentário Geração Baré-Cola, que aborda o rock em Brasília nos anos 1990.

Em entrevista, Evandro Esfolando comenta o Festival Itinerante Rock e Quadrinhos:

Os alunos das escolas por onde o projeto passou têm interesse em rock e quadrinhos? Ou recebem essas duas expressões culturais com estranhamento?
Acredito que muitos alunos têm mais acesso às músicas que estão na moda, tipo rap, funk e sertanejo. Penso que é assim em todo Brasil. Claro que eles ouvem rock, mas realmente, o gênero perdeu espaço. Para muitos alunos, esse é o primeiro show de rock que eles viram na vida. Pro Quebraqueixo isso é muito importante, pois estamos investindo na formação de plateia. Talvez essa seja a nossa maior contribuição para a cena. Quanto aos quadrinhos, a grande maioria só conhece Turma da Mônica, Disney e super-heróis da Marvel e DC e mangás – é o que realmente encontram nas bibliotecas das escolas e nas bancas de jornal. Isso é bastante limitador, muitos param de ler gibis porque não se identificam ou acham que já estão velhos para o conteúdo apresentado nesses quadrinhos.


Como funcionam as oficinas de quadrinhos do projeto? Quais modelos didáticos você utiliza para ensinar quadrinhos?
Minha oficina é para iniciantes. A maioria dos alunos tem pouca ou nenhuma experiência no assunto. A primeira coisa que ensino é que pra fazer quadrinhos não é preciso saber desenhar – e que eles poderão fazer uma página de HQ ou uma tirinha usando o bonequinho do joga da forca. Assim, nenhum deles se sente inibido ou excluído. Lógico que não dá pra ensinar muita coisa em uma hora, então minha aula é bem dinâmica. Eu ensino as ferramentas básicas e na segunda metade da aula, deixo que eles desenvolvam as próprias histórias sozinhos ou em grupo. Daí, faço um acompanhamento individualizado dando dicas e sugestões. Sempre utilizo o livro Narrativas Gráficas, do Will Eisner, como referência, também pesquiso em outras fontes que acabo incorporando nas aulas, mas esse livro é um verdadeiro manual pra quem quer fazer quadrinhos. 

O que mais te surpreendeu nas edições do projeto? Algum episódio em particular?
Nas oficinas, sempre dou a opção de tema livre. No ano passado, na época das eleições, muitos alunos se inspiraram com o tema político. O conteúdo nos surpreendeu pela criatividade na abordagem do assunto.


O projeto termina em breve. Alguma chance de continuar futuramente?

Ainda não temos as datas definidas, mas em setembro e outubro finalizaremos o projeto. Queremos continuar com o Festival Itinerante Rock e Quadrinhos, até porque deu super certo. A ideia é fazer de modo diferente. No Distrito Federal há mais de 600 escolas públicas, então existe bastante demanda pra gente trabalhar.

0 comentários

Postar um comentário

 
Back to Top