Personagem noiado caminha por cenário noir com grana e uma arma (Thomas Ott, 2008): conheci o trabalho do suíço Thomas Ott, surpreendentemente, lendo trabalhos teóricos. Em especial o de Marion Lejeune, que trata especificamente de histórias em quadrinhos sem falas, onde o curioso caso das repetições em deslizamentos gráficos ocorre com frequência na obra de Ott. Talvez não tenha sido tão surpreendente assim, já que o trabalho do suíço tem uma riquíssima elaboração gráfica, intrigante abordagem temática e parece mais desafiador a cada página que viramos. O quadro que vemos aqui pertence ao seu último trabalho, de 2008, chamado simplesmente 73304-23-4153-6-96-8 (precedido por El número na edição argentina que me chegou em mãos, da editora Loco Rabia). Ele mostra um homem enlouquecido por poder, sexo e dinheiro após entrar em uma espiral de sincronicidades jungianas provocadas por um número (sim, o do título) anotado em um papel que ele guardou de um homem condenado à morte. Ott, um perfeccionista que trabalha com a técnica do scratchboard (que consiste em riscar sobre cera pintada de preto), exprime verdadeiro terror alucinatório ao misturar o impressionismo de um Van Gogh (de onde ele tira o delineamento e o preenchimento) com o expressionismo em noir de Billy Wilder ou Robert Siodmak, revelando uma cidade engastada e old-fashioned, com personagens solitários, perdidos e diminuídos em labirintos urbanos que parecem extraídos diretamente dos anos 40. 


Este clima paranoico e labiríntico toma conta não apenas do apelo visual da HQ, inteiramente sem falas - cuja narrativa é francamente impulsionada pelas tais repetições gráficas, que acabam se transformando em um completo vocabulário silencioso -, mas também no tema circular, que vai ganhando doses e doses de surrealismo, fazendo-nos partir da ansiedade de um Kafka para chegar ao insólito de um David Lynch. Afinal, o número 73304-23-4153-6-96-8, a partir do momento em que é adquirido pelo homem soturno, passa a se repetir a cada instante de sua vida, sempre na mesma ordem, como se em coincidências absurdas e inacreditáveis (o que fundamenta uma realidade latente, segundo a teoria da sincronicidade jungiana), levando-o, obviamente, às raias da loucura. Este quadro, já no fim do processo, em contundente splash-page, materializa o aspecto sombrio e repetitivo da HQ, conduzida em silêncio com habilidade de quem tem profunda afinidade com o universo puro das imagens e suas co-ocorrências. Verdadeira obra de arte. (CIM)

1 comentários

A.R.L disse... @ 11 de fevereiro de 2017 21:30

Faça uma matéria sobre o retorno de Dylan Dog..vai voltar a ser publicada no Brasil em 2017...

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